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* 1 . *
* ¥ * f v *
THE UNIVERSITY
OF ILLINOIS
LIBRARY
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UNIVERSITY OF ILLINOIS LIBRARY AT URBAN A-CHAMPAIGN
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I
REVISTA LUSITANA
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Arohivo de estudos pMlologieos e etimológicos
relativos a Portugal
PUBLICADO
com a collaboraçâo dos especialistas portugueses
e a de alguns estrangeiros
J. Leite de Vàsconcellos
Medico pela Btcbola do Porto, Profèaaor na Bibliotheca Nacional de Lisboa
o Comer Tador da metma Bibliotheca
VOL. III
PORTO
LIVRARIA PORTUENSI
DE
LOPES & C*
Saecestores de Ciarei * C*
1895
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Porto : Typ. A. F. Vuconoelloa, Sá Noronha, 51
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CONTOS POPULARES PORTUGUESES
(CoUigidos da tradição oral)
I
O PRINC1PE-POMBO
Estava um dia uma princeza á janella a pentear-se com um pente
«Toiro; vae, vem de lá um pombinho branco e leva-lhe o pente. No
outro dia estava ella outra vez á mesma janella a pôr no cabello um
laço de fita azul, quando vem o mesmo pombinho e lhe foge com a
fita também. No outro dia, áquella hora, pôs-se a princeza á janella á
espera do pombinho: não appareceu. No outro dia a mesma coisa: não
appareceu! Ficou a princeza muito triste e apaixonada por não tor-
nar a ver o pombinho, e deitou-se na cama com a cabeça tapada, sem
querer ver ninguém nem dar uma falia a pessoa nenhuma. Vae o rei,
como visse a filha tão doente, mandou logo chamar os cirurgiões (sur-
giões) todos do seu reino, mas nenhum lhe soube dar com a cura; e
depois então o rei pôs um decreto que toda a pessoa que fosse capaz
de lhe dar saúde, se fosse homem casaria com ella, e se fosse mulher
que a faria muito feliz. Vieram príncipes, fidalgos, marqueses, que to-
dos elles queriam ver se davam com o mal da princeza para depois
casarem com ella, mas ella cada vez estava peor.
Bem, estavam as coisas nisto, quando um dia se encontraram na
rua duas velhas (e uma d ? ellas levava um pão debaixo do braço) e
vae diz assim uma para a outra: «O' fulana, aonde vaes tu?» — «Eu
vou ao palácio do rei, porque has de ter ouvido dizer que está a prin-
ceza muito doente e não quer ver ninguém, e depois eu, como sei
muitas historias muito bonitas, vou ver se lh'as conto para ella se
distrahir, que talvez assim ella se ponha boa e posso eu vir a ser
muito feliz».
Deixemos agora a velha que foi para o palácio e vamos a ver o
que succedeu á outra que levava o pão. Foi ella andando por alli fóra,
e depois tinha de descer por uma ladeira muito Íngreme, e vae cahiu-
Ibe o pão e foi a rolar pela ladeira abaixo. Ella pega a correr atrás
do pão, e quando chegou ao fundo da descida havia lá uma quinta
muito bonita, e a velha disse assim: «Ora esta! já agora vou ver o
fim disto». Quando chegou lá mais adeante, estava uma fonte d'agua
e vem um burrico com umas cangalhas de prata, e vae os barris sal-
H£V. lusit , vol. ih, fase. 1. 1
284856
2
STA LUSITANA
taram das cangalhas abaixo e foram-se encher v ,em ninguém
lhe tocar.
Depois de cheios tornaram a saltar para cima u cangalhas e o
burrico foi-se andando. A velha estava toda embasbacada de ver um
caso d'aquelles, mas como estava com muita sede quiz beber uma pin-
guinha d'agua; mal ella se chegou á fonte, a agua estremeceu e ouvi-
ram-se umas vozes que diziam assim: «Ai que me mexem! — Quem é?
— E' a velha? — Pancada nella!» E era pancada para cima da velha
que eu sei cá, tudo sem ella ver ninguém. Vae ella não teve remédio
senão tirar-se, e pegou em si e disse assim: «Ora esta! nunca tal me
succedeu um caso (Testes, mas já agora vamos a ver no que isto vae
dar». E despois foi andando atrás do burro.
Lá mais adeante estava um palácio muito bonito e o burrico en-
trou pelo palácio acima e a velha atrás d'elle, e despois o burro en-
trou numa cozinha muito grande e a agua que elle trazia foi-se vasar
na talha sem ninguém lhe pegar. E a velha cada vez mais pasmada!
Depois principiou a olhar á roda e viu muitos lumes accesos e muitas
carnes a assar e muitos petiscos de toda a qualidade a fazerem-se ao
lume, e vae ella diz assim: «Estão aqui tantos assados; vou comer
um bocadinho». Mal ella tocou na carne, a carne estremeceu e houve
uma voz que disse assim: «Ai que me mexem! Quem é? E' a velha?
Pancada nella!» E de todas as bandas cahiam pancadas para cima da
velha, que ella não teve remédio senão se tirar. Foi mais adeante e
viu uma casa onde estava uma mesa posta com muito bons petiscos,
mas a velha nem lhe tocou. Para quê? Para levar mais pancada? De-
pois, mais adeante viu um quarto onde estava uma cama e uma com-
moda, tudo muito bem arranjado, e vae a velha diz assim: «Já agora
hei-de vêr quem dorme aqui esta noite». — Metteu-se debaixo da cama
e assim que deu meia-noite num relógio que havia no quarto, ella
vae, vê vir pelo ar uma bacia d'agua e poisar-se no chão sem nin-
guém lhe tocar, e no mesmo repente vê vir um pombinho branco.
Depois o pombinho foi, banhou-se, banhou-se e fez-se num rapaz
muito lindo. Fez-se num rapaz muito lindo, e ao depois abriu uma
gaveta da commoda e vestiu-se, e depois tirou uma chave d'um co-
frezinho que tinha em cima da commoda e abriu outra gaveta e tirou
de lá um pente d'oiro e uma fita azul e pôs-se a dizér assim:
«Ai pente, pente,
Fita da mesma sorte,
Quem me déra agora vêr
Quem d'amores está morta!»
Disse isto tres vezes, depois esteve alli muito tempo, muito tem-
po, e depois foi-se deitar. A velha estava morta por se tirar d'alli,
mas não teve remédio senão deixar-se ficar.
De manhã, antes do sol nascer, vem outra vez a bacia pelo ar e
pôs-se no chão sem ninguém lhe tocar.
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CONTOS POPULARES PORTUGUESES
3
O príncipe levantou-sc e foi outra vez tirar da gaveta o pente e
a fita e esteve muito tempo a olhar para cila, e disse tres vezes:
«Ai pente, pente,
Fita da mesma sorte,
Qaem me déra agora vêr
Quem demores está morta!»
Depois banhou-se na bacia d'agua, fez-se num pombinho e fugiu.
A velha sahiu debaixo da cama c disse assim: «Ora esta! isto é que
estava um caso bonito para contar áprinceza; nunca tal me succe-
deu uma partida d'estas! Vae a velha pegou em si, voltou pelo cami-
nho por onde tinha vindo; depois foi ter ao palack) do rei, e diz as-
sim a sentinella: «O que quer você aqui, sua velha?» — Diz ella: «eu
venho ver se dou saúde á princeza». — «Você está doida, mulher?
Você não sabe que quem lá for e não der saúde á princeza que leva
a cabeça fóra e é posta acolá espetada á porta da casa da guarda?
Olhe que quantidade delias que já lá estão! Veja se quer ir para lá
também — (e era a verdade, que a casa da guarda já tudo eram ca-
beças). Tantos fidalgos, e pessoas maiores que você, que já lá tem
ido e não tem feito nada, e quer você agora saber mais do que ellas!
Ande lá, mulher, não seja doida, vá para casa e deixe-se de tolices».
— Diz a velha, assim: «Não me importa de morrer; também já estou
d'esta edade, não faz falta que eu morra; deixe-me ir, deixe-me ir!»
Depois a sentinella foi ter com o rei e disse-lhe assim: «Saiba V. M.
que está lá em baixo uma velha que diz que quer dar saúde á prin-
ceza». — Disse o rei assim: «Já agora faça-se a vontade á velha; as-
sim como assim a princeza tem de morrer. . . deixa-a lá».
Quando a sentinella trouxe esta resposta á velha, ella ficou con-
tentíssima, e depois levaram-na ao quarto da princeza. Ella entrou,
fechou a porta por dentro e depois foi direita á cama da princeza e
fez-lhe uma grande cortesia, mas a princeza nem sequer voltou a ca-
beça. A velha, o sentido com que ia era quando ella chegasse ao si-
tio onde lhe tinham dado as pancadas, de fazer então rir muito a
princeza, aonde fosse que lhe désse saúde. Chega-se a velha ao pé da
cama, senta-se e principia assim:
«Ora minha menina, venho contar-lhe um caso muito engraçado
que me succedeu hontem. ía eu por uma ladeira abaixo, cahiu-me o
meu pãozinho e foi a rolar por alli fóra. Eu pego em mim, vou atrás
d'elle, e ao fundo da ladeira fui dar a uma quinta e vi lá um burri-
nho com umas cangalhas de prata e o burrinho estava-se a encher
~numa fonte ; eu vou para beber uma pinguinha d'agua. . . vae a agua
estremeceu e disse assim: «Ai que me mexem! Quem é? E' a velha?
Pancada nella!» e principiam a malhar em mim e eu sem ver nin-
guém— não ouve, menina? menina, não ouve?» Mas a princeza não
fez caso nenhum nem nunca respondeu coisissima nenhuma. A velha,
coitada, que tinha feito conta com aquillo para fazer rir a princeza,
4
por ser o ponto que mais graça tinha, ao ver cTella, em toda a histo-
ria, cahiu-lhe o coração aos pés, pensando já que ia a morrer, e quasi
que nem teve coragc para continuar, mas por fim, como já tinha prin-
cipiado, sempre achou que era melhor acabar e disse assim: « Depois,
menina, vae eu vou atrás do burrico e entrou num palácio e subiu
por uma cozinha dentro e os barris principiaram a despejar-se por si
na talha sem ningi^em lhe tocar, e estavam lá muitas carnes ao lume e
eu vou a tirar um bocadinho e vae a carne estremeceu e disse assim:
«Ai que me mexem!» Quem é? E ? a velha? Pancada nella!» Não
ouve, menina? Menina, não ouve?» — A princeza nem sequer voltava
a cabeça. A velha já estava certa de que a matariam, e o resto con-
tou-o só por contar: — «Depois, menina, entrei num quarto aonde es-
tava uma cama e «ma commoda e escondi-me debaixo da cama, e as-
sim que deu a meia-noite entrou um pombinho branco.» — Assim que
a velha fallou no pombinho, logo a princeza destapou um bocadinho
da testa. — «E depois, menina, veio uma bacia pelo ar e poisou-se no
chão sem ninguém lhe pegar, e o pombo banhou-se nella e logo alli se
fez num homem; depois tirou uma chave d'um cofre e abriu uma ga-
veta e tirou d'ella um pente e uma fita azul e pôs-se a dizer assim:
Assim que a princeza ouviu fallar no pente e na fita descobriu
a cara toda, e disse assim para a velha:
«Conta velha, conta, que estou gostando de te ouvir!»
E ella já muito contente da sua vida: «Depois menina — elle
disse aquillo tres vezes — depois esteve um bocado a scismar e d'ahi
foi deitar-se na cama. Ao amanhecer levantou-se e tornou a tirar o
pente e a fita e disse as mesmas palavras, depois banhou-se, fez-se
num pombo e fugiu, e depois eu, menina, como vi que era um caso
muito bonito para lhe contar, pedi licença ao seu papá e é por isso
que eu vim aqui».
Ainda a velha não tinha acabado, que a princeza já tinha jj<ado
da cama abaixo e principiado a vestir~se, e quando ella acabou, dis-
sc-lhe assim: «O' velha, eu muito gostei de ouvir o que tu contaste;
quero que me leves ao sitio onde te aconteceu isso». A velha não ca-
bia em si de contente. E vae a princeza disse assim: «Agora, escuta
cá, velha. Vês ahi essa campainha? E' para dar signal ao meu pai de
que melhorei. Tu agora toca a campainha. Depois ha-de vir o meu
pai e ha-de ficar muito contente de me ver boa, e ha-de-te offerecer
grandes recompensas, mas tu dize assim: «Só o que queria, era que
V. M. dê licença para que a sua menina vá dar um passeio commigo
só». O rei ha-de dizer que isso é que não, e depois tu tanto hás de
«Ai pente, pente,
«Fita da mesma sorte,
«Quem me dera agora ver
«Quem d'amores está morta!»
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pedir até que elle diga que sim, e depois hás de me então levar ao
tal sitio que tu dizes».
A velha assim fez; tocou a campainha, acudiu o rei e quando
viu a filha a pé e vestida não coube em si de contente e mandou to-
car grandes musicas no palácio e grandes festejos por aqui e por
acolá, e depois disse assim para a velha: a O' velha, o que queres tu
que te eu dê? Dize, que tudo quanto pedires te darei». — Respondeu
a velha: «Saiba V. M. que eu não quero nada d'esta vida senão que
V. M. deixe a menina ir dar um passeio coramigo». — «Ai, isso é que
não! Tudo quanto queiras menos isso; a minha filha d'aqui não sae».
— «Era só por um migalhinho, disse a velha, a gente voltava logo;
não ha-de acontecer mal nenhum á menina». — «Nada, nada, não pôde
ser!» — ((Ora essa! Nem eu sei o que me parece issq em V. M.! Então
depois de eu fazer o que fiz e de não querer acceitar coisa nenhuma,
V. M. dá-me uma resposta d ? essas?» — A velha tanto fez e tanto
disse, que ao final o rei se resolveu a deixá-la sahir com a princeza.
Bem, a velha e mais a princeza pegaram em si e lá vão ellas
por ahi fóra. Quando chegaram á quinta, estava lá o mesmo burrico a
encher-se na fonte, e diz assim a velha para a princeza: — «Vê, me-
nina? Lá está o burrico que lhe eu dizia; agora quer ver a segunda
coisa?» — Chegou-se á fonte e ia para beber, mas a agua estremeceu
e disse: tAi que me mexem! Quem é? E' a velha? Pancada nella!»
A princeza, vendo as pancadas que a velha estava levando, riu-se
muito, e depois disse assim para ella: «Tira-te lá, velha; deixa-me
agora ver eu». E chegou-se também á fonte. Quando a princeza se
chegou á agua, a agua estremeceu e disse: «Ai que me mexera! Quem
é? A princeza, a noiva do príncipe? Deixa-a mexer que tudo é d'ejla».
A princeza p a velha ficaram pasmadas ambas de ouvir aquillo. Fo-
ram andando e a princeza não cabia em si de contente por amor
d'aquella palavra «da noiva do príncipe», e pelo caminho já não fazia
senão rir. Entraram no palácio pela cozinha dentro e lá estava já o
burrico a vasar a agua e o lume a arder e os guisados a fazerem-se,
e iam-se aquellas carnes virando d'um lado para outro sem ninguém
lhe bulir. Disse a velha para a princeza: «Olhe, quer vêr, menina?»
Mas, mal a velha tocou no assado, logo a carne estremeceu: «Ai que
me mexem! Quem é? E' a velha? Pancada nella!» A princeza tam-
bém quis experimentar, e a carne para ella disse ò mesmo que tinha
dito a agua: «Ai que me mexem! Quem é? A princeza, a noiva do
príncipe? Deixa-a mexer, que tudo é d'ella!»
Depois foram á casa onde estava a mesa posta e comeram e nin-
guém lhes fez mal, e depois a princeza disse assim: «Agora quero que
me leves ao tal quarto». E depois ella péga e diz: «Varao-nos escon-
der debaixo da cama». A' meia-noite vem o pombinho branco e d ? alli
a nada a bacia d'agua muito direitinha por alli fóra e o pombinho
banhou-se e fez-se num príncipe. Depois foi ao cofre, pegou na chave,
abriu a gaveta, tirou o pente e a fita e pôs-se a olhar muito para as
duas coisas e disse tres vezes:
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RRV18TA LtfSITANA
«Ai pente, pente,
Fita da mesma sorte,
Quem me déra agora ver
Quem demores está morta!»
Ao depois foi-se deitar.
Ficaram as duas alli toda a noite muito bem caladinhas.
Muito bem caladinhas, e ao outro dia antes do sol nascer, vem a
bacia, como na véspera, e o príncipe levantou-se e foi outra vez olhar
para a fita e para o pente e disse outras tres vezes :
Mas no comenos, quando elle ia a saltar para dentro da bacia
para se fazer em pombo, vae appareceu-lhe a princeza mais a velha
e quebrou-lhe o encante (sic). Elie então ficou muito contente e con-
tou-lhe que estava alli . encantado até que uma princeza lhe appare-
cesse no momento quando elle fosse para saltar na agua, e que aquel-
las vozes que se ouviam e aquillo que fazia mover as coisas sem se
ver ninguém eram os seus creados que estavam encantados com elle
e que agora ficavam também desencantados.
Bem, estavam todos então muito contentes. Mas depois é que foi
o bom. A velha, já muito afflicta por se ter demorado tanto, queria-se
ir embora, mas a princeza já estava tão namorada do príncipe que
não queria ir por coisa nenhuma. Ao final fez um bilhete e mandou a
velha levá-lo ao rei e que lhe contasse tudo.
Ficou o rei muito sastefeito e ao depois foi com a velha aonde
estava a filha e o genro, e ao depois casaram-se e ficaram vivendo os
dois alli mesmo e a velha também, porque a princeza nunca a desam-
parou.
Era um rei que tinha tres filhos, e os conselheiros um dia disse-
ram para elle: «Seria bom que V. M. se resolvesse a dizer qual dos
seus filhos quer que reine por sua morte, que V. M. já está com essa
edade e ninguém tem a vida na sua mão». O rei, como tinha a mes-
ma amizade aos tres príncipes, não sabia qual deveria escolher, e en-
tão os conselheiros deram-lhe este conselho: «Mande V. M. aos seus
tres filhos que lhe tragam cada qual o copo mais lindo que poder en-
contrar, e aquelle que trouxer o melhor será o herdeiro». — Agradou
«Ai pente, pente,
Fita da mesma sorte,
Quem me déra agora ver
Quem d'amores está morta!»
II
A GAITA
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CONTOS POPUUftKS PORTTTGUKSfiâ
este conselho ao rei, que logo mandou chamar os príncipes e lhes disse
tudo quanto os conselheiros recominendavani.
Ora os dois príncipes mais velhos tinham cada qual a sua namo-
rada, e como ambas ellas tinham grandes guarda-loiças cheios de ri-
cos copos, logo se lembraram de lh'os ir pedir, mas o mais novo, que
nâo tinha namorada, não sabia onde havia de ir buscar o d'elle. Pe-
gou em si e foi por alli fóra muito triste, aonde foi dar a uma casa.
Bateu á porta e quem lh'a veio abrir foi uma macaca. «O que quer
vm.?» disse-lhe a macaca. O príncipe, todo admirado d'ouvir fallar a
macaca, disse assim para ella: «O' minha senhora, eu sou um prín-
cipe e somos tres irmãos, filhos do mesmo pai, e o rei nosso pai man-
dou-nos á procura de um copo assim e assim e eu não sei onde hei-de
ir buscar o meu». — Vai a macaca que era a dona da casa, disse as-
sim para outra (porque naquella casa não havia senão macacas): «O'
macaca fulana, dá cá d'alli o caqueiro dos pintos!» — «O caqueiro dos
pintos! disse o príncipe para comsigo, estou bem arranjado se vou'
apresentar ao meu pai em vez do copo o caqueiro dos pintos». — Vai
a macaca deu-lhe uma coisa embrulhada, sem que elle visse o que
era, e disse-lhe assim: t Agora leve vm. isto ao seu pai, mas não des-
embrulhe pelo caminho, senão pôde ser a sua desgraça; pelo resto
respondo eu».
O príncipe agradeceu e pôs-se a caminho com o presente das
macacas na mão. Pelo caminho ia dizendo: «Ora esta! Se isto que
eu aqui levo será o caqueiro dos pintos? Estava capaz de o desem-
brulhar. . .», mas como a macaca lhe tinha recommendado tanto que
não, elle não abriu o embrulho.
Quando chegou ao palácio já lá estavam os dois irmãos com lin-
díssimos copos que lhe tinham dado as namoradas d'elles. Chega o mais
novo e entrega o embrulho ao rei, e quando se foi a abrir, appareceu o
copo mais rico que se podia encontrar, muito mais rico que os outros
dois. Era elle quem tinha vencido. Mas os dois príncipes mais velhos
ficaram tão cheios de raiva e de inveja que o rei, para os sossegar
d'aquelle desespêro em que os via, disse que já agora aquella vez não
ficaria valendo, e que agora é que havia de valer; que daria o reino
ao que trouxesse a toalha mais rica.
Os dois maig velhos foram logo ter com as namoradas, que tinham
tudo quanto é bom, e logo alli lhe deram umas toalhas que eram uma
belleza, e o mais novo também se lembrou logo das macacas. Foi lá,
bateu á porta e a macaca perguntou-lhe o que tinha. «Ai, minha se-
nhora, venho muito ralado por causa d'isto assim e assim a. Eoontou-
lhe tudo. «Não tem duvida, disse a macaca; ó macaca fulana, traze cá
a rodilha da chaminé». A macaca trouxe um embrulho muito bem
embrulhadinho, e a que era a dona da casa deu-o ao príncipe e disse-lhe
isto: «Agora veja lá, tenha sentido, não abra pelo caminho nem deixe
abrir, e se encontrar os seus irmãos, e que elles queiram ver o que
vm. leva, não consinta, senão é para sua desgraça».
Foi-se o príncipe muito satisfeito. Lá pelo caminho encontrou os
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8
fcfcViSTÀ LÍJSITAÍU
dois irmãos que lhe tinham vindo fazer uma espera para o matar se
elle tivesse arranjado toalha melhor que as d'elles. O príncipe não lhes
queria deixar ver o que trazia, mas elles então deitaram-se ao irmão
e tiraram-lhe á força o presente das macacas. Depois abriram e ap-
pareceu a toalha mais rica d'este mundo. Vendo isto, o mais velho
encheu-se de raiva e atirou-se ao irmão e matou-o.
Depois pegaram nclle, abriram uma cova alli ao pé, enterraram-
no e foram-se embora. Foram-se embora e quando chegaram ao palácio
apresentaram as suas toalhas, mas o mais novo é que não appareceu.
O rei esperou, esperou dias, semanas, meses, mas não veio ninguém, já
se sabe, e todos diziam que com certeza o príncipe tinha perdido a
vida lá por fóra.
Bem. Passou-se nisto muito tempo. Entre este tempo, lá no sitio
onde estava enterrado o príncipe foi crescendo um cannal de cannas,
que sahiam dos dentes d'elle, e quando ellas já estavam grandezitas,
passa um dia por alli um pastorinho com as suas ovelhas. Disse o pasto-
rinho assim: «Olha que bellas cannas para gaitas; vou çortar uma».
Cortou uma das cannas e pelo caminho adeante principiou a fazer-lhe
os buraquinhos. Depois da gaita prompta, pôs-se a tocar nella; vai prin-
cipia a sahir da gaita uma vozinha muito fina e muito triste que can-
tava assim:
O pastor ficou muito admirado e disse assim: «O' que caso tão
raro ! Se eu fôr á cidade com as minhas ovelhas e esta gaita, todos me
hão de querer ouvir e ganharei muito dinheiro». Pega em si e entra
pela cidade dentro a tocar na gaita.
Quando o pastorinho passou pelo palácio do rei, estava um cama-
rista á janella, e como ouvisse aquella musica tão bonita foi chamar
o rei, e o rei mandou chamar o pastorinho e disse-lhe que tocasse na
sua presença. Pega o pastorinho a tocar e a gaita a cantar:
Disse o rei: «Deixa-me experimentar a mim agora;» pegou na
gaita e pôs-se a tocar; vai a voz principia a dizer assim:
«Tocae, meu pastorinho,
Tocae com valor :
O meu irmão mais velho
Foi o meu matador».
cToeae, meu pastorinho,
Tocae com valor:
O meu irmão mais velho
Foi o meu matador».
«Tocae 6 meu pàizinho,
Tocae com valor:
O meu irmão mais velho
Foi o meu matador».
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ÔONtOS ÊOÊULÀRES ÍORTtJGtfRSRS
O rei, ouvindo que a voz lbe chamava pàizinho, logo se lembrou
que o filho mais velho tivesse morto o mais novo, que não apparecia
havia tanto tempo. Mandou-o logo acordar (porque era de manhã
muito cedo) e trazer á sua presença; depois disse-lhe que pegasse
naquella gaita e que tocasse. O príncipe obedeceu, mas a voz que
sahia da gaita d'esta vez disse assim:
«Tocae, 6 meu irmão,
Tocae, com valor:
Tocae, 6 meu irmão,
Fostes o meu matador».
O rei, ouvindo aquillo, mandou ao filho que confessasse, mas elle
não quis. Então o rei perguntou ao pastor onde é que elle tinha
achado aquella canna; o pastorinho contou-lhe tudo e depois o rei foi
com elle 90 logar onde estava enterrado o príncipe. Cavaram no cannal
das cannas e acharam lá o corpo do príncipe todo inteirinho e são, e
dos dentes é que nasciam as raizes cPaquellas cannas. Vendo isto, o
irmão mais velho não ponde mais negar, e o rei mandou-o matar. E
acabou-se.
III
O PALACIO ENCANTADO
Era uma vez uma mãe e uma filha que eram muito pobrezinhas.
A mãe ia á esmola e a filha ficava em casa, e d'alguma coisa que a
mãe arranjava assim lá por fóra é que ellas viviam. Diz um dia a fi-
lha á mãe: cNós aqui não ganhamos nada: o melhor é irmos para ou-
tra terra». — A mãe não queria e respondeu-lhe : «Ora, eu já estou
d'esta edade, já não aguento uma viagem ; vamos nós antes vivendo
como temos vivido até aqui». — Mas a filha tanto fez que a mãe no
fim sempre consentiu.
Consentiu e pegaram em si e foram andando, andando, até que
chegaram a uma terra aonde viram um palácio todo fechado e com
escriptos. Diz a filha assim para a mãe, diz: «Como aquelle palácio
não tem gente, talvez nos deixem lá ficar de noite. Vamos perguntar
quem é que tem as chaves». Quem tinha as chaves era um çapateiro
que morava defronte, e diz o çapateiro assim para a rapariga:
«Aquelle palácio deixou-o um fidalgo para os pobres lá irem dor-
mir, Mas anda lá coisa má, e quem lá entra de noite com vida, ao ou-
tro dia vem a tumba buscá-lo morto». — Diz a rapariga:
«Não tem dúvida; se morrermos, morremos. Assim como assim,
mais vale morrer do que viver nesta penúria». — Ora esquecia-me de
dizer que a mãe da rapariga era surda, de maneira que não ouviu o
que o çapateiro disse á filha. A filha então, para a mãe não ter medo,
não lhe disse nada da coisa má que andava no palácio, e só lhe disse
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Revista lusit aKa
que o palácio o tinha deixado um fidalgo para os pobres lá dormirem
de noite.
Foram as duas e abriram a porta do palácio. Logo no primeiro
quarto onde entraram viram um oratório com muitos santinhos e diz
a filha assim para a mãe: «O' minha mãe, vá-se vm. deitar, que eu
fico aqui a rezar as minhas orações». Diz a mãe: «Pois sim». E foi-se
deitar. Ficou a rapariga a rezar, a rezar e á meia noite ouviu de re-
pente muito barulho ás portas e ás janellas. A rapariga vae, abre
uma janella para ver o que era aquillo, e vê um preto com duas espa-
das na mão, que lhe disse: «Abre-me a porta e deixa-me entrar, que
vamos jogar a espadeirada». A rapariga deixou entrar o preto e de-
pois fechou a porta do quarto aonde a mãe estava a dormir para ella
não ouvir; o preto deu-lhe uma espada e ficou com a outra para si e
d'ahi começaram a jogar a espadeirada ambos dois, a rapariga e o
preto. D'alli a um bocado a rapariga corta a cabeça ao preto. Depois
pegou nelle e escondeu-o para a mãe não ver, e foi-se deitar muito 1
sossegada.
Assim que a mãe acordou pela manhã, disse para a filha: «O* fi-
lha, eu agora vou á esmola, mas tu não me envergonhes; deixa-ta es-
tar em casa e não sáias para banda nenhuma, emquanto eu não ve-
nho». A filha disse que sim. Mal a mãe sahiu, veiu a tumba para le-
var a mãe e a filha, mas o que levou foi o preto. O çapateiro e toda
a gente da rua ficaram muito admirados d'aquillo, porque era a pri-
meira vez que tal succedia.
A' noite voltou a mãe e comeram ambas do que ella trouxe. De-
pois disse a filha assim: «Olhe minha mãe; vá-se vm. deitar, que
ha-de vir cansada; eu fico a rezar as minhas orações». — «Pois sim.
filha». Quando deu a meia noite vieram dois pretos, e cada um trazia
a sua espada na mão.
Vae a rapariga principiou a brigar com elles e cortou a cabeça
a um ; d'alli a bocado cortou a cabeça ao outro. Ficaram ambos mor-
tos; a rapariga escondeu-os e foi-se deitar. De manhã, depois da mãe
sahir, veiu a tumba e levou os dois pretos.
Na outra noite vieram tres pretos e foi a mèsma coisa. A rapa-
riga matou-os todos tres.
A' quarta noite foram quatro os pretos que vieram, cada um com
a sua espada. A rapariga brigou com elles e foi-os matando todos até
não ficar senão um. Esse que ficou disse então assim para a rapariga:
«Agora façamos pazes. D'aqui por deante não virá mais ninguém ter
comtigo e já que tens tanta coragem ficarás sendo a dona d'este pa-
lácio e de tudo quanto eu agora te vou mostrar. (Porque ellas ainda
não tinham passado da primeira casa e o mais do palácio estava fe-
chado á chave). Vae o preto pegou num grande molho de chaves que
trazia, abriu uma porta e mostrou-lhe um quarto cheio de louças
muito ricas e disse-lhe assim: «Isto tudo fica sendo para a menina e
para sua mãe».
Abriu outra e era um quarto cheio de moveis muito ricos: «Isto
CONTOS POPULARES PORTUGUESES
tudo etc.» Depois viram um quarto cheio de dinheiro em cobre e elle
disse-lhe a mesma coisa.
Depois outro cheio de prata e no fim de todos um quarto cheio
de oiro. Chegado alli disse-lhe o preto: « Agora não ha mais riquezas.
Tudo quanto a menina viu é para si e sua mãe, mas não lhe diga
nada a ella senão passado um anno e um dia. Ágora passe muito
bem, que nunca mais cá virá ninguém incommodá-la».
Ora bem. Foi-se embora o preto e as duas ficaram vivendo no
palácio. No outro dia depois disto a mãe tornou a ir á esmola. En-
tretanto a filha foi á casa do cobre e tirou um pataco. A' noite ella
deu o pataco á mãe e disse-lhe que fosse comprar de comer. A velha
ficou muito pasmada e disse assim: a Oh filha, d'onde é que tu foste
buscar este dinheiro? Então eu não te tinha dito que não sahisses de
casa? Ai filha, vê lá o que fazes, não me envergonhes!» — «Deixe
estar minha mãe, não se afflija que o dinheiro é meu e não o roubei
a ninguemi. No outro dia a mesma coisa. A mãe outra vez muito af-
flicta, mas a filha lá a contentou. Assim foram vivendo muito tempo.
A mãe todos os dias ia pedir esmola e a filha todos os dias tirava
aquelle pataco do thesouro que era d'ella, já se sabe.
Bem. Quando estava fazendo um anno, a rapariga um dia, como a
mãe a importunasse muito, não se poude suster que não lhe contasse
tudo. Vae a mãe teve um tal susto que cahiu para a banda como
morta e esteve uns poucos de dias muito doente. Depois d'ella boa, a
filha foi com ella correr o palácio todo e mostrar-lhe aquellas rique-
zas que eram tódas d'ellas, aonde chegaram também a um quarto com
uma janella que estava fechada. A mie foi abrir a janella, e quando
ella foi a abrí-la, cahiram uns poucos de limões para dentro de casa.
Era um limoeiro que estava da parte de fora muito chegado á casa, e
quando a velha abriu a janella um dos ramos que estava mais encos-
tado entrou e cahiram os limões. Diz a velha: «O* filha vamos a ver
o que se vê d'esta janella». O que havia de ser? Era o jardim do rei!
E o que haviam de ellas ver no jardim do rei? A rainha numa es-
tufa a brincar com um preto! Diz a mãe: «Oh filha, que raiva que
me está a metter vêr a rainha brincar assim com um preto! Sabes o
que eu estava capaz de fazer? Era de arrumar com um d'estes limões
á cabeça do preto!» Vae, pega num limão e atira; mas, por desgraça,
se havia de acertar no preto, acertou na cara da rainha e tirou-lhe
um olho. Vae a rainha, quando sentiu aquillo, julgou que era o preto,
pega nelle por um braço, e foi fechal-o numa casinha que havia na
estufa, para que ninguém soubesse que elle alli tinha estado com ella,
e depois pôs-se a gritar. Pôs-se a gritar e acudiu logo o rei e toda a
gente do palácio. O rei perguntou quem é que tinha feito aquillo, mas
a rainha só disse que viera um limão pelo ar e que lhe tinha cegado
o olho, mas nunca disse nada do preto, já se sabe. Procuraram por
toda a parte, mas no jardim não estava mais ninguém e disseram os
conselheiros: «Só se foi d'aquella janella acolá, mas aquillo é um pa-
lácio onde não mora ninguém e ha annos que alli se não vê uma ja-
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hr vista lítsitana
uella aberta». Fizeram- se muitas indagações e soube-se das duas mu-
lheres que estavam no palácio havia quasi um anno. Ora logo que se
soube d'isto resolveu o rei ir elle mesmo saber se tinham sido ellas.
Para isso esperou por uma noite bem invernosa, vestiu-se de pobre-
zinho e foi bater á porta do palácio. «Quem é?» perguntaram-lhe el-
las de dentro. — «Sou um irmãozinho, respondeu o rei, e pedia ás se-
nhoras que me dessem agasalho por esta noite». Ellas disseram-lhe :
«Entre, irmãozinho, entre. Ha-de cear comnosco. Nós vivemos aqui
muito sós, ainda bem que vm. nos vem fazer companhia». Depois
arranjaram um borrego e fizeram uma ceia muito boa. Sentaram-se
á mesa e depois puseram-sc a conversar : «Então, irmãozinho, que no-
vidades ha?» — «A novidade que ha é que a rainha cegou d'um olho
por causa d'um limão que lhe atiraram e o rei anda em diligencias
para saber quem é que cegou a rainha». Diz d'alli a mãe: «Olhe, eu
lhe conto como isso foi. Fui eu que vi da minha janella a rainha a
brincar com um preto e fez-me aquillo tanta raiva que quis atirar
com um limão á cabeça do preto, mas acertei na da rainha e sem
querer lhe vasei um olho». — «O' senhora não diga similhante coisa;
que o rei, se. o sabe, manda-a matar!» — «Não me importa, que eu não
digo senão a verdade, tanto que o preto ainda está fechado na es-
tufa».
Bem. Ao outro dia foi-se o pobrezinho, e assim que elle se foi
bate um creado do rei á porta com ordem para ellas o acompanha-
rem á presença de S. M. «Para quê? disseram ellas?» «E* porque as
senhoras são accusadas de terem cegado a rainha». «Ai filha, diz a
mãe, se seria o pobrezinho que nos atraiçoou?» — Não tiveram remé-
dio senão ir á presença do rei e ahi tornaram a contar tudo.
Diz o rei assim, diz: «Bem, se o preto lá estiver, disseram as se-
nhoras a verdade, se não, vão a morrer». A rainha não queria dar
as chaves nem que a matassem, mas afinal não teve outro remédio.
Foram á estufa e lá acharam o preto meio morto de fome, e pegaram
nelle e enforcaram-no. Depois o rei perguntou á rapariga o que que-
ria fazer á rainha. «Quero que da pelle d'ella se faça um tambor e
dos ossos uma cadeira para eu me assentar». Mataram a rainha e o
rei casou com a filha da pobre.
Era uma vez um cozinheiro, que estava sem commodo havia uns
poucos de dias. Pôs-se a caminho, a ver se achava amo e foi bater á
porta d'um gigante. Veiu o gigante ver quem era. «0 ? sr., eu vinha
ver se v. s.* não precisava de um cozinheiro. . .» — «O* homem, pa-
HISTORIA DE UM COZINHEIRO
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CONTOS POPULARES PORTtJGUESkS
13
rece que adivinhaste! Hoje mesmo se foi embora o meu cozinheiro.
Então o que sabes tu fazer ?• — «Saberá v. s.* que sei fazer muito bons
petiscos. . . » — «Isso mesmo é que eu quero, que da panella da carne
já eu estou farto. Está dito, fico comtigo; mas olha que o costume da
minha casa é este: Comer, vestir, calçar; mas dinheiro não t'o posso
dar, e passado um anno tens de te ir embora». — «Não tem dúvida,
fico por esse ajuste».
Bem. Ficou o rapaz em casa do gigante, e o gigante muito sas-
tifeito com elle. Passado um anno, diz o gigante assim para elle:
a Olha que amanhã tens de te ir embora, que faz um anno que estás
em minha casa». — «O* senhor, não me despeça; o que ha-de ser de
mim, se eu não tenho para onde ir!» — «O' homem, ainda que eu qui-
sesse não posso ficar comtigo, senão veem por ahi e matam-me!» —
«Ai sr., não me ponha fóra, e demais a mais sem ordenado!» — «Já
te disse que não posso deixar-te ficar, nem dar dinheiro, mas toma lá
este livro que é o mais que te eu posso dar, e olha que já não vaes
mal servido. Em querendo comer bate no livro, que tudo quanto lhe
pedires elle t'o apresentará». Vae o rapaz no outro dia pôs-se a ca-
minho com o livro. Foi andando por alli fóra, e, quando já ia farto
de andar, lembrou-se de bater no livro. Logo alli appareceu uma mesa
posta. Comeu e foi-se embora, aonde elle vinha entrando por uma ci-
dade e reparou que na cidade estava tudo de luto. Vae, encontrou
uma velha á porta da casa, e perguntou-lhe o que era aquillo. Diz a
velha: «Pois vm. não sabe? E' que o Imperador da Rússia (sic)
costuma todos os annos ir a uma nação e levar comsigo uma prince-
za, e este anno tocou a vez á Princeza d'este reino. Amanhã é que é
que elle deve vir e por isso é que o reino está de luto».— Bem. Disse
isto a velha ao rapaz e elle emquanto ia andando por alli fóra ia
scismando se haveria meio de salvar a Princeza. Foi ao palácio real e
pediu para fállar ao Rei. Diz a sentinella: «Hoje não falia aqui nin-
guém a S. M. nem amanhã tãoponco». O rapaz sempre teimou. Ao fi-
nal a sentinella foi ter com o Bei, mas elle mandou dizer que estava
muito triste e não podia dar attenção a ninguém; que voltasse outro
dia. Diz o rapaz para a sentinella: «Vá dizer a S. M. que o negocio
que aqui me traz não consente demora, que é um negocio da maior
importância mesmo para S. M., e que o tratado que eu lho venho pro-
por ou ha-de ser agora mesmo ou não temos nada feito». O Rei, á
vista disto, sempre admittiu o rapaz. Vae elle diz assim para o Rei:
«Saiba V. M. que eu venho aqui a ver se V. M. quer que eu faça com
que a Princeza não seja levada pelo Imperador da Rússia». — «O* ho-
mem, disse logo o Rei, se tu fôres capaz d'isso, dou-te a minha filha
em casamento! Mas como ha-de ser isso se o Imperador da Rússia
vem já amanhã?» — «Não tem dúvida. Isso fica por minha conta».
Bem. Ficaram nisto. O Rei chamou os conselheiros e contou-lhes
o caso, e depois mandou que guardassem muito bem o rapaz, não
fosse elle algum embusteiro, e que tomassem sentido elle não fugisse.
Bem. Foi o dia passando e o rapaz deixando-se estar. A' noite o
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REVíèTA L081TANA
Rei estava muito zangado e disse para os conselheiros: «Esta bom;
elle enganou-me; mas não lhe ha-de servir de muito: amanhã vai a
morrer».
Quando era meia noite o rapaz pediu licença para sahir. Pediu
licença para sahir, e mal se viu fora do palácio bate no livro e diz
assim: «Quero que se fórme á roda d'oste palácio uma muralha tão
'alta, que ninguém de lá possa ver o que se passa aqui fóra». No
mesmo instante appareceu o palácio rodeado de uma enorme muralha.
Vae torna a bater no livro e a dizer: «Quero que aqui á beira-mar
se fórme uma torre com soldados, artilheria e todos os pertences de
um castello». Logo appareceu tudo conforme elle tinha mandado.
Bem. De manhã quando o Rei acordou e que chegou á janella a
ver ém que paravam as coisas não viu nada nem o mar nem coisa
nenhuma por causa da muralha que lhe tapava a vista, já se sabe.
Pôs-se a esfregar os olhos, chamou os conselheiros e perguntou-
lhes o que viam? Mas elles responderam que não viam nada senão
uma grande muralha que cercava o palácio por todos os lados. Fica-
ram todos muito pasmados, já se sabe, e á espera do que iria succeder.
Nisto vera o Imperador da Rússia num navio pelo mar fóra, mas
como era de manhã cedo vinha a dormir. O capitão que vinha a guiar
o navio, mal viu aquella fortaleza á beira-mar foi acordar o Impera-
dor, mas elle não quiz acreditar e disse: tlsso não é possível; se eu
ainda ha quinze dias por aqui passei e não vi similhante coisa, como
pode lá ser que agora esteja lá um castello como o que dizes». Como
o capitão teimasse o Imperador sempre se foi levantando e quando
viu que era verdade ficou muito zangado e mandou deitar um escaler
ao mar com quatro soldados dentro e que fossem ver o que era
aquillo. Quando chegaram perto da torre principia a artilheria de lá
a jogar, os soldados que lá estavam apontaram a artilheria sobre el-
les c foi o escaler ao fundo mais os quatro soldados que iam nelle.
Quando o Imperador da Rússia viu isto disse para o capitão: «Está
bom; já vejo que não é possivel rompermos para deante. Voltemos
para trás». E foram-se embora todos muito cheios de medo.
Foram-se embora e voltaram para a Rússia. Ora o Imperador ia
furioso por lhe ter escapado a Princeza e não havia coisa que o con-
solasse. Um dia que elle andava a passear todo triste no seu jardim
chega-se a elle uma velha e diz-lhe: «Porque é que V. M. anda tão
triste? Conte-me V. M. os seus pezares, que talvez eu lhe possa dar
remédio». — «Tira-te d'ahi, mulher; ao meu pezar ninguém pode dar
remédio». — «Quem sabe, real senhor? conte sempre; pôde ser que eu
possa dar-lhe conselho. . . » «Oh mulher; sóme-te da minha vista e não
me tentes mais; não sei onde estou que te não mato já!. . . » A velha
não teve medo e tanto teimou com elle que elle lhe disse tudo. Disse
tudo e vae péga a velha assim para elle :
«Olhe, não sabe V. M. o que é isso? Isso é um cozinheiro que
tem um livro e em elle batendo no livro, apparece logo tudo quanto
elle pedç, Foi elle que na noite passada formou essa torre. Agora está
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C0NT03 POPULARES PoRTOtíUESKS
elle casado com a Princeza, mas se V. M. quizer eu sou capaz de lhe
tirar o livro e assim se acabará o poder que elle agora tem, e poderá
V. M. então apossar-se da Princeza». Disse o Imperador: «Ai mulher,
se tu fosses capaz d'isso, eu dava-te tudo quanto me pedisses!»
«Pois mande V. M. apromptar uma embarcação e dê-me fatos de
fidalga e creados e creadas, que pelo resto fico eu».
(Ora esta velha erp bruxa e era a mesma que o cozinheiro tinha
encontrado á porta da cidade).
Fez-se tudo quanto ella tinha pedido ao Imperador e passados
alguns dias a velha embarcou num rico navio com muita creadagem
como se fosse alguma grande fidalga. Ora ella calculou as coisas de
maneira que chegou á terra aonde estava o cozinheiro (que agora era
Príncipe, já se sabe) justamente numa occasião quando elle tinha par-
tido para uma grande caçada que devia durar uns poucos de dias.
Desembarcou e foi apresentar-se á porta do castello dizendo á senti-
nella que era uma tia do Príncipe e que vinha a dar-lhe os parabéns
pelo seu casamento.
A Princeza — que estava sózinha em casa com os seus creados, já
se sabe — logo que soube isto desceu ao encontro d'ella e reeebeu-a
com muitos mimos. «Oh minha tia; seja muito bemvinda! Que pena o
meu marido não estar em casa!. . . Eu não sabia que elle tinha uma
tia: não sei como elle nunca me fallou em si ... »
«E* que elle não me vê ha muito tempo e talvez me tivesse es-
quecido, que eu ha muitos annos que estou vivendo na Inglaterra».
Bem, ficou a Princeza toda crente no que a velhaca da velha lhe
disse e fez-lhe muita festa. A' tarde disse a Princeza para a velha:
«Agora em que quer a minha tia entreter-se esta tarde?»
«Ai minha sobrinha, o que eu mais gosto é de ler. A Princeza
foi logo buscar quantos livros havia na casa mas ella a todos dizia
que não era d'esses que ella gostava. «Ai, lá na Inglaterra é que ha
uns muito bons que eu muito gosto de ler. São uns livrinhos peque-
nos, assim e assim, e principiou a descrever o livro do encanto;
d'esses é que gosto. Se a menina tivesse d'esses, é que era bom».
«Ai minha tia, já sei o que é; o meu marido tem um livro des-
ses, mas não sei se elle o levaria comsigo; que elle sempre o traz
comsigo e até de noite o deixa ficar debaixo do travesseiro. Vou ver
se elle o deixaria lá. . . »
Por desgraça o cozinheiro tinha deixado naquelle dia o livro do
encanto, e a Princeza foi acha-lo debaixo do travesseiro e foi toda
contente entrega-lo á velha.
«Ora ainda bem, minha tia; muito estimo poder dar-lhe um dos
taes livros; que fortuna elle deixa-lo em casa!»
«E* destes mesmo; muito obrigada minha sobrinha».
Ao outro dia a Princeza queria que a tia ficasse até á vinda do
marido, mas a velha disse que não podia de maneira nenhuma demo-
raf-se tanto e que tinha de partir naquelle mesmo dia. Despediram-se
com muita amizade, verdadeira da parte da Princeza o fingida da
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R8VJ8TA LUSITANA
parte da velha, e esta partiu com o livro de quo a Princeza não tor-
nou mais a lembrar-se.
Passados dias, volta o cozinheiro, quero dizer o Príncipe, e a
primeira coisa que fez foi perguntar pelo livro.
cAi, não sabes, diz-lhe a Princeza, esteve cá a tua tia, a mar-
queza de tal parte, e levou-o por esquecimento». — tQual tia, qual
marqueza? Eu tenho lá tia nenhuma! Conta-me já o que isso foi!»
Quando a Princeza lhe acabou de contar o succedido, o rapaz
logo comprehendeu que o tinham logrado e como elle sem o livro não
era nada temeu-se do que ia succeder e achou que o melhor era aba-
lar. Pegou em si, desalvorou.
D'alli a nada chega o Imperador da Rússia a quem a velha já
tinha ido levar o livro. Quando a Princeza o vê vir de repente pelo
mar fóra, pegou a chorar, mas que remédio teve ella senão ir com
elle para a Rússia.
Bem. Agora deixemos a Princeza lá na Rússia e vamos a ver o
que foi feito do cozinheiro.
Foi andando por alli fóra e como não tinha aonde ir, voltou para
casa do gigante. Bateu á porta ; veiu o gigante, e ficou muito conten-
te de o ver. €01á, homem; então tu por aqui! Então que fizeste ao
livro?»
«Oh senhor, deixe-me; se soubesse a desgraça que me aconte-
ceu ...»
«Já sei, já sei, homem; então agora que queres?»
«Queria que o patrão me tomasse outra vez por cozinheiro».
«Olha, está a calhar; hontem mesmo se foi o meu cozinheiro em-
bora. Tu já sabes o costume da minha casa : comer, vestir, calçar, or-
denado é que não, e ao fim d'um anno tens de te ir embora».
Bem. Ficou o rapaz em casa do gigante. Passado um anno, diz o
gigante para elle:
«Agora tens de te ir embora».
«Nada, d'esta vez é que me não vou».
«Não ha remédio, homem; se veem por ahi e que ainda por cá te
vejam, matam-me».
«Mas o que hei-de eu comer quando me fôr embora, se o patrão
me não dá ordenado?»
«Deixa estar, homem; eu alguma coisa te hei-de dar».
Bem, assim que chegou o outro dia, diz-lhe o gigante assim :
«Agora, olha; péga num sacco, e vae ao jardim, e a coisa mais
ruim que lá achares, mette-a no sacco e leva-a; e contenta-te, que já
não vaes mal servido».
Vae o rapaz foi ao jardim e estavam lá ricos vasos de oiro e de
prata, e lá mettido a um canto estava um gato muito magro e muito
lazarento.
«Bem, disse o rapaz, a coisa mais ruim que eu aqui vejo é este
gato; parece que o que devo levar é isto».
Metteu o gato no sacco, deitou-o ás costas e pos se a caminho.
CONTOS POPULARES PORTUGUESES
17
Pôs-se a andar, a andar, e passado certo tempo deu-lhe a fumo.
«Bom, agora o que ha-de ser de mim; da outra vez ainda eu tinha do
comer, agora nem para mim nem para este pobre alimal; sempre gos-
tava de saber para que meu amo quis que eu levasse isto».
Mal elle pôs o sacco no chão, o gato fugiu e metteu-se pelo sil-
vado dentro. «Bom, agora nem gato, nem nada!». D'alli a um instan-
te appareceu outra vez o gato e trazia uma lebre na boca. O rapaz,
quando viti isto, ficou muito contente, açcendeu lume, assou a lebre e
comeu elle mais o gato. Depois tornou a caminhar e foi assim an-
dando muitos dias, até que chegou lá a uma terra. Ora onde havia de
elle estar sem o saber? Na Rússia! Estava na Rússia e aconteceu
passar mesmo junto do iardim do Imperador, e lá o viu a passear a
elle mais á Princeza. A Princeza mal deu com os olhos nelle também
logo o conheceu, e o Imperador, percebendo que aquelle é que era o
marido da Princeza, que lhe tinha feito tanto mal, mandou-o logo
prender e que o mettessem num calabouço.
Disse o rapaz assim para o Imperador: «Ao menos deixe-me le-
var commigo o meu gatinho». — «Pois sim, homem, leva-o lá, e, se qui-
seres mais, d'esses gatos tenho eu alli ás dúzias». — «Nada, não se-
nhor, eu não queria senão este, que é um alimalzinho a quem tenho
muita amizade». Pegou pois o rapaz no gato ás costas dentro do seu
sacco e d'ahi levaram-no preso por ordem do Imperador e foram-no
metter numa masmorra no mesmo castello que elle tinha mandado
fazer lá na terra da Princeza.
Bem. Estava elle então na masmorra, e havia lá muitos ratos.
Mas o gato pegou a matar nelles que era um gôsto, e d'alli a uns
dias não havia já quasi (caje) nenhuns.
Uma vez estava o rapaz alli sentado todo triste, chega-se ao pé
d'elle um grande rato e principia a fallar assim para elle: «Eu venho
aqui pedir a V. A. que faça favor de mandar prender o seu capitão».
— «Quem é o meu capitão?» diz o rapaz. — «E' o seu gato que tem
dado cabo da minha tropa caje toda e se V. A. não o manda pren-
der, estou aqui estou sem soldados nenhuns».
«Bem, disse o rapaz, eu prendo o meu capitão comtanto que tu
me faças uma coisa que te eu vou dizer». — «Diga V. A.» — «E' que
me ponhas para aqui o livro que o Imperador da Rússia me roubou».
— «Está dito. Serão cumpridas as ordens de V. A.!» Vae o rato prin-
cipiou a gritar: «O' 16 da l. a !» «Proinpto, meu capitão!» Era um ra-
tinho que logo alli appareceu. «O' 17 da 2. a !» «Prompto, meu capitão!»
Era outro ratinho. «O' 18 da 4. a !» Bis. O 18 da 4. a não apparecia.
Finalmente lá veio a coxear, cora o nariz todo esfolado, e pediu des-
culpa de não ter respondido logo: «E' que eu estava atrás do pé da
mesa a roer um osso e com a pressa dei esta pancada no nariz!» Ora
este rato era um soldado velho, muito atilado, e por isso chamavam-
lhc: «O Petrano». Vae o capitão dos ratos disse assim para elle:
«Pois sim, perdôo-te comtanto que me ponhas aqui o livro que o Im-
perador da Rússia tem debaixo da cabeceira. Vão vòcés todos tres,
rev. lusit., vol. ih, fase. 1. 2
18
REVISTA LUSITANA
cseondam-se no quarto do Imperador e de noite quando elle estiver a
dormir, ponha-se um aos pés. outro á cabeceira e outro agarre-se ás
torcidas da lamparina. Depois, o que estiver aos pés principia a fa-
zer-lhe còzigas, e, quando elle se fôr a voltar, tu, Petrano, tiras-lhe o
livro debaixo do travesseiro emquanto o que tiver ficado ao pé da
lamparina puxa pelas torcidas e foge com ellas». Vac os ratos assim
fizeram. O 18 da 4 a pôs-se aos pés, o 17 da 2. a agarrou-se ás torci-
das e o Petrano quando o Imperador se voltou com as cozigas tirou o
livro e depois abalaram todos apagando-se a luz, já se sabe. O Impe-
rador, percebendo que lhe tinham tirado o livro, quis accender a luz
para vêr o que era, mas como o rato lhe tinha levado as torcidas não
poude, e até virem os creados já os ratos iam longe.
Bem. Deixemos lá agora o Imperador da Rússia todo desespe-
rado por lhe terem levado o livro e vamos a vêr o que foi feito do
rapaz que estava na masmorra. Mal os ratos voltaram e que lhe en-
tregaram o livro elle deu ordem ao gato para não lhes tornar a fazer
mal; o capitão dos ratos agradeceu muito e retirou-se. Depois o ra-
paz, mal se viu só, bateu no livro e disse: t Quero sahir já (Testa pri-
são». Depois, quando se viu livre bateu outra vez no livro e disse:
«Quero já aqui um escaler com quatro pretos todos armados com suas
espadas». Appareceu logo alli o escaler. Depois disse assim para os
pretos: «Vocês, vão já á Rússia, ter com o Imperador, vocês amea-
cem-no e obriguem-no a entregar a Princeza e depois tragam-m'o
aqui preso».
Os pretos assim fizeram. D'alli a nada voltaram com a Princeza
e com o Imperador da Rússia amarrado no escaler. Depois o Príncipe
mandou que lhe amarrassem aos pés uma bala de 18 (?) e que o ati-
rassem ao mar. Os pretos assim fizeram. Depois, o Príncipe e a Prin-
ceza foram dar parte ao pae e á mãe d'ella do que tinha succedido,
houve muita festa p'rá festa, e ficaram todos vivendo juntos e muito
felizes.
Cecília Schmidt Beanco.
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C0B80 DR LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
19
CURSO
DE
LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 1
LIÇÃO INAUGURAL
Summário
I. O que é lingua archaica. — Importância do estudo da língua portuguesa
ar ch ai ca, e razão d 'este curso.
II. Necessidade de fazer algumas considerações preliminares. — A Lusitâ-
nia. — Esboço histórico: a) Lusitânia prehistorica, — e tradições até hoje; b) Lu-
sitânia protohistorica, — elementos ethnicos, tribus, costumes, religiões (conce-
pções, culto, sacerdócio) ; c) Lusitânia romana, — epochas históricas roais impor-
tantes; romanização.
III. Latim vulgar em geral, e da Lusitânia em particular. Fontes para o
seu estudo.
IV. História externa da lingua portuguesa: origem; português prehistorico,
protohistorico, archaico e moderno ; português litterario, e popular com os diale-
ctos.— Epilogo.
Meus senhores:
I
Quando se observa uma lingua num longo decurso da sua evolu-
ção, nota-se que ella, de certo ponto para além, offerece um aspecto
geral que difere do d'esse ponto para cá: é a tal aspecto que se
chama — lingua archaica.
Assim nos mais antigos tempos do latim dizia-se loumen ejous
por lúmen ejm; optumus e tnaxumus (ainda nas inscripções posterio-
res, etc.) por optimus e máximas ; humo por homo (vestígio ainda em
humanus); 8 por r em certas circumstancias, de que ainda restão na
lingua clássica honos (Cicero), arbos (Vergilio), etc; dacrima e din-
gua por lacrima e lingua; havia um caso locativo, de que na lingua
clássica ficou representação em ruri, domi } postri-die, etc.; em vez de
Mi dizia-se olli (ainda como resto em Vergilio) ; na l.« declinação ha-
* Na Academia de Estudos Livres, de Lisboa, em 1891. — A l. a parte does-
ta lAção foi já publicada na Revista de Coimbra (n • 11) e na Revista de Portugal
(vol. iv, pag. 313 sqq), mas, como estas Revistas acabarão, não forâo publicadas
as restantes três partes. — Contrariamente ao meu costume, não dou neste traba-
lho indicações bibliographicas, pelo simples motivo de qne eUe representa, com le-
ves alterações de redacção, o discurso tal qual, regulando me pelos apontamentos
que de ante-mâo tinha tomado, o pronunciei.
20
REVISTA LUSITANA
via ura genetivo em -as, conservado posteriormente ^mpaterfamilias;
a 3." declinação tinha uma desinência do accusativo plural em -eis
(=\s, ainda em Nepos, etc: classis = classes); a 4.* um genetivo em
-uis em vez do clássico -ws; emprega vão-se fórmas verbaes particula-
res, e fazião-se certas construcções que depois desapparecêrão do uso
normal, e só esporadicamente se encontrão, como parturibat (Phedro)
c fjus rei ergo (Livio, — preposição com genetivo). A este propósito
ba linguas que divergem mais do que outras nos seus vários períodos.
O francês antigo offerece ainda casos, como li murs (nominativo sing.l
10 mur (caso obliquo do sing., — a forma do substantivo prevaleceu),
11 mur (nom. plur.) e les murs (caso obliquo do plur., — fórma que
igualmente prevaleceu): o que, com muitas outras particularidades,
leva os pbUologos a considerá-lo como lingua em separado. Pelo
contrário o italiano (toscano) não tem essas grandes divergências;
quem souber sufficienteraente a lingua de hoje, entende Dante sem
difflculdade. Já o hespanhol antigo (castelhano) differe mais do mo-
derno do que respectivamente o italiano. Semelhantes differenças exis-
tem no português.
Eu denomino português archaico a lingua que começa a transpa-
recer debaixo das fórmas do latim bárbaro do scc. rx, e chega até o
sec. xvi. Então principia o período moderno.
As sciencias attingirão na actualidade tamanho desenvolvimen-
to, que não se considera hoje como regularmente instruido quem pelo
menos não possuir os rudimentos das Sciencias Naturaes, da Mathe-
matica, da Historia, etc. Ora. com relação á Glottologia, a cada passo,
tanto escrevendo, como fallando, os homens mais eminentes, que não
são especialistas do assumpto, commettem inexactidões, e não se pe-
jão de a tratar ex cathedra. Como a linguagem é um phenomeno
nosso, todos se julgão com direito de a discutir e interpretar. O facto
observa-se ainda com mais evidencia no povo, porque raras terras ha
cujo nome se não explique por uma lenda ou por outro meio phantas-
tico: Penajoia chama-se assim, porque uma rainha, que passou alli a
cavallo, deixou cahir uma joia ao chão, e o animal pôs o pé na joia.
Nos próprios selvagens ha tendência para fazer d'estas etymologias.
Archivar isto tem importância para a Ethnographia, porque se reúnem
assim elementos de apreciação do espirito do povo ; mas é triste quan-
do os homens de lettras aproveitão taes explicações, e as dão nos
seus livros como verdades philologicas. Todos os livros que em Por-
tugal se tem escrito sobre chorographia, e em que se pretende expor
a origem dos nomes dc logarcs, estão cheios de erros semelhantes.
Noutros paises existem igualmente muitos trabalhos no mesmo géne-
ro; e já o abuso remonta á antiguidade. Com a Glottologia succede o
mesmo que com a Medicina: não ha ninguém que não ensine receitas
aos outros, por isso que a doença é um estado pelo qual se passa fre-
quentemente, e porque a vida, de que a doença constitue uma phase
anormal, também nos pertence. D'aqui vem o dizerem os hespanhoes
que
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CtfRSO DÈ LÍNflfÍA PORTÍÍGUfíSA AftCHAÍCA
De medico, poeta y loco
Todos tenemos un poeo . . .
lista, a que podemos juntar gramático. Mas, já que as sciencias pros-
perão, e estabelecem em bases cada vez mais solidas os seus metho-
dos, necessitamos de as acompanhar, e não devemos só guiar-nos pela
nossa opinião subjectiva.
Tendo eu sido convidado pela Academia de Estudos Livres para
aqui dar algumas lições publicas, em fórma de curso seguido, escolhi
para assumpto o estudo da nossa lingua archaica, tanto porque elle
me é predilecto, como porque tem as seguintes utilidades:
1) Utilidade para o conhecimento geral dos documentos antigos.
Nestes documentos está contida quasi toda a nossa existência
íntima medieval: a organização politica, e as relações dos diversos
poderes sociaes entre si; a vida dos castellos e dos mosteiros; a fa-
mília com os seus usos; a casa e o campo com as suas particularida-
des, Possuímos numerosos documentos d'esta espécie, alguns já dados
á estampa, outros conservados inéditos nos archivos públicos. No sé-
culo passado houve dois eruditos prestimosos, o frade Viterbo e João
Pedro Ribeiro, que d'elles tiraram grande auxilio para a Historia e
para a Philologia, estabelecendo o ultimo ao mesmo tempo as bases
críticas da Diplomática. No actual século Herculano coordenou com
taes documentos boa parte da sua monumental Historia de Portugal)
e ainda recentemente Telles se está servindo com muito proveito o
sr. Gama Barros para a sua Historia da administração publica em Por-
tugal nos sec. XII a X V, que é sem duvida neste sentido a obra mais
importante que entre nós se tem publicado depois da de Alexandre
Herculano.
2) Utilidade para a apreciação da litteratura.
Tomada em sentido muito lato, e pelo seu lado exterior, a pala-
vra litteratura abrange tudo quanto se escreve ou tem fórma fixa
.oral: um testamento, uma procuração, um aviso, um annúncio, um
rol, — e ao mesmo tempo os contos, os provérbios, as canções e xaca-
ras que andão na boca do povo são litteratura; é assim que dizemos
litteratura latino-barbara, querendo significar os nossos mais antigos
documentos, em que se achão muitos espécimes da natureza dos que
primeiro enumerei, — c dizemos litteratura popular, querendo designar
os segundos, ainda mesmo antes de passados á escrita. Tomada em
sentido menos lato, litteratura comprehende apenas as obras em que
ha propriamente lucubração do espirito, e são as sciencias, as artes,
as bellas-lettras. No sentido estricto porém, que é o seu sentido usual,
por litteratura entende-se a litteratura amena (poesia, romance, folhe-
tim), a história e a polygraphia (oratória, cartas, etc.),— - isto é, as
bellas-lettras, em que ha principalmente preoceupação de fórma e de
fcÉVlSfA LÚ3ITÁNÁ
imaginação. A História, tal como hoje se concebe, está a passar da
terceira classe para a das sciencias.
Em qualquer dos sentidos que se tome a palavra litteratura, já dos
primeiros cinco séculos da nossa existência politica, como nação, her-
dámos abundantes exemplares, quer em prosa, quer em verso. Não é
possivel, nem necessário, fazer aqui agora o inventario d'isso tudo:
basta que me refira aos monumentos poéticos contidos nos Cancionei-
ros chamados da Vaticana, de Colocci-Brancuti e da Ajuda, onde, ao
lado da influencia da França (sobretudo provençal), se manifesta uma
corrente popular portuguesa, ainda hoje conservada na tradição oral
de Tras-os-Montes, como direi a seu tempo; basta que lembre os iVo-
biliarios, o Amadis de Gaula, as traducções e outras obras da livraria
dos monges de Alcobaça, archivadas hoje na Bibliotheca Nacional e
na Torre do Tombo, e os primeiros ensaios propriamente históricos
publicados nos Portugália; monumenta, etc. Esta é a litteratura pelo
menos dos séculos xm e xiv, na parte prosaica da qual predomina,
como era natural, o elemento ecclesiastico. Do sec. xv temos o rico
Cancioneiro de Garcia de Resende, a encyclopedia de D. Duarte, as
novellas da Tavola Redonda e as notáveis Chronicas de Fernão Lo-
pes e seus successores,— alem de muitos outros trabalhos meudos.
No sec. xvi já a lingua oferece em geral os seus caracteres actuaes:
ainda assim ha auctores, como Gil Vicente, que em parte pertencem ao
período archaico. Nas obras de Gil Vicente a lingua portuguesa apre-
senta dois aspectos: o aspecto popular na bôca de certas personagens
villãs, como pastores, serranos, lavradores; o aspecto litterario na
bôca das personagens cultas. E' uma distineção capital que importa
tomar em consideração ao citar ou ler o nosso malicioso cómico.
Sem alguns conhecimentos philologicos, não poderá ser rigorosa-
mente comprehendida toda essa vasta litteratura, em que ha muitos
vocábulos, sons, fórmas e expressões que destoão por completo da lin-
guagem actual. A falta d'esses conhecimentos tem sido causa de que
várias edições de antigos livros, modernamente feitas, contenhão ver-
dadeiros contra-sensos. O estudo e meditação da litteratura archaica
não compete só aos historiadores e críticos de profissão, compete a
toda a gente que quiser ter consciência da sua nacionalidade: o poeta
e o romancista, que ignorão o seu passado litterario e as tradições
pátrias, para só buscarem alimento espiritual e inspiração nas littera-
turas estrangeiras, falseião a arte; e os indivíduos que de propósito
e caso pensado sorriem dos venerandos velhos que escrevêrão na
idade-media e lançárão os fundamentos e as bases de todo o traba-
lho futuro, e por tanto preparárão o campo litterario que hoje culti-
vamos, são perfeitos abortos da natureza, indignos da consideração,
porque esta não ha-de tributar-se a quem calca aos pés a sociedade,
e atira com o desprêso ás gerações de que descende.
3) Utilidade para o ensino grammatical.
Com quanto a grammatica que se ensina na instrucção primaria
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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA AftOHAlCA
e secundaria seja prática, isto é, seja a da lingua considerada apenas
no sen estado actual, todavia o conhecimento da lingua archaica tor-
na-se necessário, porque certos factos da actualidade só se podem ex-
plicar bem pela lingua antiga, que é a origem da de hoje. Se se no-
tar ás crianças que havia outr'ora um artigo e pronome lo e la, cor-
respondentes aos modernos o, a, ellas comprehenderão como hoje se
diga ainda pelo, pela, amá-los, vê-las, etc., em que não ha, como absur-
damente ás vezes se escreve, e ainda em parte se ensina nas aulas,
simples mudanças euphonicas de r em l. Sabendo-se que muitos no-
mes, que hoje acabam em -ão, acabavam noutro tempo em -om, como
lição liçom, coração coraçom, firmidão fermidom, e que as segundas
pessoas pluraes dos verbos que hoje terminam em -aes, etc., termina-
vão até o sec. xv-xvi em -ades, etc, — não parecerá estranho que ao
sing. d'esses nomes em -ão correspondão hoje geralmente plur. cm
-ões, e que essas fórmas verbaes acabem no plur. em -aes (com e).
Também ás vezes se escreve que fugace (fugaz), atroce (atroz), felice
(feliz) são fórmas poéticas com paragoge (!) não sei de quê ; que imigo
é outra fórraa poética com pura syncope de ni; e que implo, por ím-
pio, tem deslocamento de accento. Tudo isso são inexactidões: fugace,
atroce e felice tanto se usavão na prosa como no verso, e não passão
de latinismos introduzidos na lingua litteraria, e que alem d'isso tem
os superlativos fugacíssimo, etc; imigo é outra fórma da prosa antiga,
palavra formada pelo povo (inimigo: inemigo: irCmigo: Imigo, como se
lê nos doe. ant.) e não pelos poetas; implo é formado de pio e im
(in), dentro já do português, sendo pelo contrário ímpio o latim im-
píus. Muitos mais exemplos se poderião dar de como a grammatica
antiga explica a moderna, e tudo isto muito elementarmente, sem la-
tim nem apparato philologico, ao alcance das crianças de 10 annos,
cuja instrucção assim se fortifica, e cuja intelligencia assim se desen-
volve, porque mais vale uma razão clara e convincente do que muitas
regras sêccas.
4) Utilidade para a orthographia.
Ha linguas com orthographias muito complicadas, como o inglês
e o francês ; mas quem as escreve tem em geral normas por onde se
regula. Nós porém somos um povo quasi sem orthographia: cada um
escreve de seu modo, e ainda um mesmo individuo representa ás ve-
zes a mesma palavra por maneiras differentes. Todavia dentro das
regras que são claras e reconhecidas não se devia errar. Para que
escrever luzitano com z, se a fórma primitiva tem s ? Para que escre-
ver Cardozo, se ésta palavra é apenas na origem um nome commum,
cardoso, que vem de cardo com o suffixo -oso e não -ozo (lat. -osusjf
Para que escrever Affonseca, em vez de Afonseca, se esta palavra é
formada de Fonseca e não de Affonso? Um s e um c (ç) em português
tem diferente origem, e por isso não se pódem usar á vontade. Os
nossos antigos escrevião Sintra e Buçaco, e é assim que hoje se deve
escrever, porque o s na primeira palavra eo^na segunda aceusão
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ÊÉVTSf A LÚSlf ANÁ
diversa origem, isto é, que o S de Sintra não provém de c, e que o
ç de Buçaco não provém de s. O uso de lettras dobradas ou singelas
também não é indifferente, depende do etymo. Isto pôde parecer
ocioso, e muita gente chama a isto frioleiras, mas ou bem que nós
nos havemos de entender ou não: quando ha normas para as coisas,
devemos segui-las; proceder á toa é que é disparate.
O estudo da lingua antiga auxilia a orthographia moderna : deve
escrever-se pêssego, ansioso, etc., porque era assim que dantes se es-
crevia, e porque essas palavras vem respectivamente do lat. per si -
cus, e anxiosus (i. é, x = cs, — suppondo-se para ansioso um pri-
mitivo ânsia), em ambas as quaes ha s, ao qual a consoante anterior
foi assimilada. Para as escrever com c é que não ha fundamento de
espécie alguma.
A' Academia das Sciencias pertence regularizar a orthographia
portuguesa.
5) Utilidade pari firmar o sentimento da nacionalidade.
O primeiro dever do cidadão é amar a sua pátria, e defender a
integridade do território. Isto é uma verdade evidente. Todos os ho-
mens sãu irmãos, por isso todos se devem amar: a humanidade é uma
familia, c a terra uma pátria commum.
Mas, sem que se destruam os laços universaes que resultão da
comraunidade do berço, — por isso que todos os seres semelhantes
tendem por natureza uns para os outros — , e sem que se atfrouxem
os da communicabilidade social, ha nesta família ramos secundários
em que os laços da afttnidade são successivamente mais estreitos, e o
amor se manifesta por isso com mais força. Assim os brancos ligão-se
melhor entre si do que com povos de outra côr: aqui temos um des-
ses grupos secundários. Os brancos da mesma ou semelhante civili-
zação estão no mesmo caso em grau maior: por exemplo os povos
neo-latinos, e entre estetf ainda os do ramo occidental, como mais
próximos. Por fim chegamos á noção da pátria propriamente dita.
Naturalmente os portugueses se amarão mais entre si do que por
exemplo amarão os franceses, os hespanhoes, os italianos, de todos os
quaes difierem na lingua, nos caracteres, nos costumes, etc.
Para este amor concorre de um lado, como disse, a affinidade
natural, pois nos sentimos inclinados para quem possue feições seme-
lhantes ás nossas, ou comnosco habita dentro das mesmas fronteiras,
alimentando na alma o mesmo ideal; do outro concorre o interesse
prático da vida, pois do bem dos outros depende também o nosso.
Ora este amor pátrio, este sentimento da autonomia nacional, será
tanto mais íntimo e duradoiro, quanto maior for a consciência que
d'elle haja.
D'entre os diversos elementos que concorrem para constituir uma
nacionalidade, a lingua é um dos de maior valor, porque faz que
aquelles que a fallão traduzão por fórma semelhante a communidade
do sentimento, o que avigora este. E já na antiguidade assim se jul-
r
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ÓÍJftSO DK LltfGUA POftTttátíRSA AftCHAlCA 2f>
gava. A palavra bárbaro o mostra. O estudo theorico de uma língua
assegura-nos melhor na posse d'ella. E como uma língua não teve
sempre a fórraa que nos apresenta em dado momento, mas teve ou-
tras que explicão esta, fica entendido que o conhecimento das pha-
ses antigas da língua portuguesa, habilitando-nos, como disse ha pou-
co, para nos inteirarmos melhor da lingua moderna, fortalece ipso
facto o sentimento nacional.
O amor da pátria e da lingua sempre caracterizou os antigos
portugueses. O bello idioma luso foi exaltado em prosa e verso. No
sec. xvi escreveu João de Barros o Dialogo em louvor da nossa lin-
guagem. Ferreira de Vera os Breves louvores da lingua portuguesa,
Magalhães de Gandavo o Dialogo em defensam da mesma lingoa; no
sec. xvii Severim de Faria, e Sousa de Macedo produzirão trabalhos
no mesmo sentido; no sec. xvm Filynto Elysio cantou-a num poema!
Todos os nossos mais notáveis escriptores se esforçárão por a escre-
ver bem.
Hoje, porém, os escriptores novos sorriem da poeira dos séculos,
e dizem que os clássicos cheirão a mofo, como se áquelles que se de-
dicão a um mester não fosse obrigação sua aperfeiçoarem-se nelle!
O desprêso que actualmente se nota pela lingua é um triste
symptoma da decadência geral do espirito patriótico, e é mais por
isso do que por outro motivo que eu o lamento.
Alem doesta causa ha ainda outras que concorrem para que a lin-
gua se não estime. Uma d*ellas é a ignorância. Ao passo que cm alguns
países adeantados, como a Allemanha, o ensino da lingua materna se
ministra durante uns poucos de annos nas aulas, em Portugal a nossa
legislação apenas lhe concede nos lycens um anno lectivo e parte de
outro, isto é, uma escassa meia-duzia de meses! Se se accrescentar a
isto, de um lado a pouca preparação que os alumnos levão da instru-
cção primaria, e do outro a má vontade d'elles, vê-se como effecti vã-
mente a lingua portuguesa não deve ser bem sabida d'aquelles que
escrevem. Digo má vontade, porque entre nós não ha hábitos de es-
tudo. Para os estudantes as aulas são uma maçada; os lentes uns ma-
çadores. Estuda-se só para se passar no exame; e quer-se o exame
para se obter um curso que habilite a ter um emprego em que se ga-
nhe muito, e se não trabalhe nada. Este é o ideal da maioria. Mas ai
do povo que não aspira senão á satisfação dos prazeres grosseiros da
vida!
Outra causa que contribue para a decadência da nossa lingua
litteraria é a lingua francesa, que, pelo seu uso cá, ora insensivel-
mente, ora de propósito, se vae infiltrando na nossa : insensivelmente,
porque ella está sempre presente ao nosso espirito, e, em virtude do
pouco conhecimento clássico da nossa, sobrepõe-se a esta; de propó-
sito, pelo pedantismo dos que julgão que só o que vem de fóra agra-
da. Uma occasião vi num jornal (Teste cidade a seguinte notícia:
«Hontem já era difficil alugar uma carroagem mais limpa, porque
quasi todas estavam tomadas para hoje fazerem o bosqde e a Avkni-
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26
RB VISTA LUSITANA
DA.i Fica a gente a scismar na habilidade d'estas carroagens qne fa-
zem Avenidas e bosques! E sabem o que no caso presente significava
fazer o bosque ? Significava — ir para o Campo-Grande! A's vezes dá-se
o caso de um jornal estar em contradicçâo comsigo mesmo. Li ha
tempos no artigo principal de um: c altas questões de interesse pú-
blico, de subida importância para todos os qne prezam acima dk tudo
a autonomia da patria» ; ao mesmo tempo que isto se dizia na pri-
meira columna, logo adeante, no noticiário, ao fazer-se a lista das pes-
soas qne tinhào andado a passear na Avenida, repetia-se umas pou-
cas de vezes a expressão madame e mademoiselle com referencia a se-
nhoras portuguesas! O jornalista não comprehendia que desvirtuar a
lingua, mascarando-a de estrangeirismos, era attentar contra essa
apregoada autonomia da patria, que elle com tanta eraphase defendia
poucas linhas antes!
O uso de madame e mademoiselle já dura ha uns annos, e parece
que se vae generalizando, para o que também contribue a vaidade fe-
minina, que assim adquire mais uns ares de exótica, em harmonia
com a sentença vergiliana: varíum et mutabile semper femina. Censu-
rando eu uma vez um jornalista meu amigo que também assim escre-
via, elle respondeu-me — que isto era gentil. Eu deixei-o, porque não
podia discutir com quem imaginava que havia gentileza em encher
de remendos uma lingua rica. Nós já tínhamos no nosso vocabulário
a palavra madama f que é igualmente de importação francesa; mas,
pois que se applica com frequência em sentido um tanto depreciativo,
não agrada commummente aos ouvidos. Como porém com o tempo, em
virtude das leis da lingua, madame virá, se se mantiver, a transfor-
masse outra vez em madatna, ahi estamos nós cabidos em contradi-
cçâo, ou então ha-de a alta aristocracia ficar igualada á classe burguesa.
Não obstante ésta invasão constante da lingua francesa na por-
tuguesa, parece comtndo intuitivo que, se somos portugueses, e se
Portugal tem uma lingua litteraria sua, devemos fallar e escrever
português ! E nós, que mostramos tanta propensão para copiar tudo o
que vem de fóra, só não imitamos os estrangeiros no respeito que el-
le8 tributão ás respectivas línguas nacionaes. Neste desleixo, Lisboa
sobresae, como capital que é. Vae a gente por essas ruas, e não só
nos artefactos, como nos títulos, imagina ás vezes que está num bairro
de Paris: são as bijouterias, as conferçõea, os restaurants, os ateliers,
os salões (!) de Imrbear. De modo que ao cahos da orthographia jun-
ta-se também o do vocabulário e do phraseado.
Se todavia quisermos ser povo autónomo, temos de pugnar pela
integridade dos diversos elementos da nacionalidade, que se não reduz
só ao território: temos de dar impulso e caracter ás artes e ás indus-
trias; e de contribuir para que nos nossos hábitos, litteratura e lin-
gua não ofereçamos um quadro hybrido, mas sim ofereçamos um ge-
nuinamente português. Sem isto nem a integridade do território, nem
a paz, nem a riqueza pública servem de nada. Precisamos de harmo-
nizar tudo.
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CURSO DE LINOUA PORTUGUESA ARCHAICA
E se na nossa vida histórica ha algum momento de provação em
que se torne necessário reatar e segurar fortemente todos os vinca-
los da nação, é sem duvida este. Em vez de federações phantasticas
com povos estranhos, contenhamo-nos nós aggregados moralmente,
cônscios de um mesmo grande ideal! — Mas não vem agora ao meu
intento dizer mais no assumpto.
6) Utilidade para desarraigar a opinião db que a língua ar-
cha1ca é rude e irregular.
E'sta opinião anda não só na mente de qnasi todos, mas tem-se
escrito innúmeras vezes, e até em compêndios 'escholares.
Por exemplo, num que conta pelo menos 12 edições, lê-se que a
antiga lingua portuguesa «é barbara, irregular, inintelligivel ás ve-
zes e com rudez de pensamentos», e que a versificação da epocha é
«dura e sem nenhum conhecimento da arte». Com relação & segunda
affirmação, bastava o autor do livro dar-se ao trabalho de contar os
versos e as syllabaa de qualquer poesia antiga, para ver a falsidade
da sua proposição; é alem d'isso hoje conhecido um Tratado de poé-
tica hiso-provençal, certamente anterior ao sec. xv, o qual foi desco-
berto com o Cancioneiro Colocci-Brancuti de que ha pouco fallei.
Aquellas tão temerárias affirmativas não pertencem ainda assim ao
autor do compendio: são já referidas em segunda mão!
Noutro compendio escholar, que pelo menos conta 8 edições, lê-se
também: que a lingua primitiva de Portugal é o resultado de uma
mistura das linguas céltica, phenicia, grega, romana, gótica, árabe,
etc.. chamando-se romance c porque nella sobresahia o romano corrom-
pido!» E acerescenta-se que continuou trude e incerta nas fórmas»
até que no sec. xv tomou «um caracter particular que se distingue
das outras linguas». Parece que o autor admitte que até o sec. xv a
lingua portuguesa não tinha existência própria! E obras, assim anti-
scientificas, percorrem umas poucas de gerações escholares, sem go-
vernos nem professores as varrerem por uma vez da testada das au-
las! A extraordinária opinião de que a lingua portuguesa archaica
é rude e barbara refuta-se a piiori e a posteriori. A refutação a pos-
teriori da-la-hei no decurso das rainhas lições. A refutação a iwiori
da-la-hei agora aqui.
O estudo scientifico que se tem feito de muitas e variadas lin-
guas mostra que todas ellas são regulares na sua evolução; e a sim-
ples reflexão nos diz que uma lingua, já que serve para traduzir o
pensamento do povo que a falia, é perfeita e boa. Tanto mérito tem
a este propósito o grego de Homero como o quimbundo da Africa. Na
própria lingua do povo, que ás pessoas superfíciaes se affigura como
caprichosa e irregular, descobre a anályse mais ligeira regras con-
stantes e certas. A linguagem é um producto do homem e que obe-
dece ás mesmas leis a que obedece a natureza e as sociedades: como
ha-de pois ser errada? Logo, a lingua portuguesa archaica, por isso
que é lingua, está nas mesmas condições que as mais,
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RRVISTA LtTSlf AKÁ
O chamar-se-lhe rude e barbara resulta de que, como offerece fór-
mas anteriores ás de hoje, e outras que differem das que nós usamos,
embora semelhantes ás vezes a ellas, nos parece ser a nossa língua
em lábios de quem a não faltyt bem. Se um português antigo pudesse
resuscitar, e ouvimos fallar, a lingua de hoje produzir-lhe-hia um ef-
feito análogo a esse, e diria que ella era o mesmo que nós dizemos
que é a lingua portuguesa na bôca dos pretos.
Assim, em resumo, o estudo da nossa lingua archaica offerece as
seguintes vantagens: para a leitura dos documentos antigos; para a
apreciação da litteratura pre-classica; para o ensino consciencioso da
grammatica prática; para o conhecimento da orthographia; para ar-
raigar o sentimento da nacionalidade e o amor pátrio; para destruir
o preconceito de que a lingua portuguesa nos seus períodos primeiros
é irregular e barbara. O que tudo constitue ao mesmo tempo um ele-
mento de educação liberal.
Tantas vantagens justificão pois o vir eu occupar-me d'este as-
sumpto.
Como no decurso das minhas lições tenho de empregar uma te-
chnica especial, fallando constantemente de latim vulgar, latim bár-
baro, lingua litteraria, lingua popular, dialectos, etc, vou agora dar
aqui, como preliminar, umas noções summarias de historia da lingua
portuguesa, em que determine a accepção d'essas expressões todas.
A lingua portuguesa é na sua essência uma evolução da lingua
latina. As provas d'este facto são de ordem philologica; mas elle tem
uma base histórica. Aquellas provas i-las-hei indicando nas minhas,
lições successivas, á medida que isso se torne necessário; na pre-
sente occasião quero só insistir na base histórica, e no aspecto ex-
terno do facto.
A base histórica fundamental está na conquista e dominação ro-
mana da península ibérica, e em especial da Lusitânia. Achamo-nos
por tanto em pleno cyclo lusitanico, e merece a pena entrar em algu-
mas considerações particulares.
Quando se emprega a palavra Lusitânia, é necessário explicar o
seu sentido, porque ella designou vários territórios segundo os tem-
pos. Anteriormente a Estrabão (que escreveu no sec. i da E. C), os
Lusitanos ficavão ao N. do rio Durius (h. Doiro), e occupavão a re-
gião que no tempo d'aquelle geographo pertencia aos Oallaicos. Para
elle, porém, a Lusitânia tinha por limites meridionaes o Tagus (h.
Tejo), occidentaes e septentrionaes o Oceano, orientaes a terra dos
Carpetanos, Vettones, Vacceus, Callaicos e outros povos menos im-
portantes, posto que muitos AA. contemporâneos de Estrabão denomi-
nem também Lusitanos todos esses povos. Depois da segunda divisão
II
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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
ofticial da Ibéria cm provindas romanas (em tempos de Augusto ou
Tibério) chainou-se Lusitânia á província entre a fronteira da Betica
(rio Ana, h. Guadiana) e o curso do Durius até á foz, comprehendendo
pois o Algarve, quasi todo o Alemtejo, a Estremadura e a Beira, e
estendendo-se ainda pela Hespanhá, onde estava Emerita Augusta (h.
Merida).
Attendendo pois a que, com excepção de um pequeno território
betico no Alemtejo, alcm-Guadiana, o conjuncto dos dois paises Gal-
liza e Portugal, que ethnologica e linguisticamente se não podem se-
parar, teve em diversas epochas o nome de Lusitânia, eu aqui, como
em diversos estudos meus, eraprégo por commodidade essa palavra
para designar de modo geral, á falta de outra melhor, e a flm de
evitar periphrases, a epocha antiga de Portugal e Galliza.
Não ha, bem sei, rigor chronologico-geographico, mas também o
Portugal de hoje não é o mesmo do do tempo de D. Affonso Henri-
quez, e raro será o país em cuja história se encontre esse rigor em
todas as epochas: c comtudo não deixão de se empregar os nomes
geraes dos paises. N
O que em parte motivou aquellas mudanças de limites da Lusi-
tânia seríão, de um lado, migrações e por ventura conquistas, e do •
outro affinidades ethnicas e geographicas que permittião agrupar sob
uma mesma designação muitos povos. A importância d'estas affinida-
des manifesta-se eloquentemente na lingna, que, como veremos, se
constitue uniforme, apenas com as variedades dialectaes, embora den-
tro de um typo commum, desde o mar da Galliza até o do Algarve.
A historia da Lusitânia, divide-se em tres grandes epochas: pre-
historka, protohistorica, e histórica propriamente dita.
As fontes para o estudo d'ellas são as seguintes, umas directas,
outras indirectas: os monumentos contemporâneos; os auctores anti-
gos (e seus commentadores), que não só tratão da Lusitânia, mas da
Ibéria toda; a tradição que se manteve até hoje, quer em fórma de
costumes, superstições, etc, quer em fórma de linguagem. Hão-de
ainda acerescentar-se os estudos anthropologicos.
Com relação aos monumentos, estes podem estndar-se: in loco
(como as antas, os castros, os templos, os cemitérios, etc); nos tra-
balhos archeologicos, raappas e estampas (bibliographia) ; nos museus.
Para certos períodos são os monumentos o nosso único meio de infor-
mação. Apesar do vandalismo que diariamente destroe verdadeiras
preciosidades archeologicas, e de ainda não termos um museu nacio-
nal digno doeste nome, ha todavia nas differentes províncias do nosso
país muitos e muitos materiacs aproveitáveis.
Com relação aos auctores, são principalmente os gregos e roma-
nos os que me importa considerar, embora também os haja para o
período bárbaro e para o período arábigo, que já porém em parte
pertence á historia de Portugal. Entre os AA. que escrevèrão em
grego mencionarei por ex. Estrabão (que se aproveitou, como elle con-
fessa, de muitos trabalhos anteriores), Ptolemeu, Marciano de Hera-
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30
REVISTA LUbITANA
cleia, Polybio, Diodoro Siculo, Appiano, Dion Cássio; entre os que
escrevêrâo em latim, Avieno (que parece ter aproveitado as noticias
contidas em um antiquíssimo périplo), Justino (que resumiu Trogo
Pompeu), Pomponio Mela (natural da Betica), Plinio, Marcial (tam-
bém natural da Hispânia), Tito Livio, Silio Itálico, Suetonio, — alem
do livro De béllo Hispaniensi composto por um official de Julio Ce-
sar, e dos Itinerários, etc. De todos estes AA., ha uns que dão par-
ticularmente informações geographicas, como Ptolemeu, Marciano,
Mela, e os AA. dos Itinerários; ha outros cujos testemunhos utilizão
sobre tudo á historia politica e ás instituições sociaes, como Livio e
os historiadores que o seguirão (Valério Máximo, Floro, Eutrópio,
etc.), Appiano, o A. De béllo hispaniensi; outros, finalmente, em que,
ao lado de indicações de toda a ordem, se encontrão preciosas indica-
ções ethnographicas, por exemplo, Estrabão, Silio Itálico, etc.
Com relação á tradição, muitos factos modernos, de caracter so-
cial, ha no nosso pais, que remontão á antiguidade romana e pre-
romana. A' lingua já me referi: o português é, como disse, a lingua
dos Romanos, apenas modificada, em virtude da acção de diversas
circumstancias; alem disso ha no nosso onomástico ainda vestígios
das línguas faltadas pelos povos preromanos, como Cale (na palavra
Portu-gal), Olisipo, Ebora, Conimbriga, Limia, Vácua, etc. O exame
scientifico do onomástico lusitano foi já iniciado entre nós pelo Sr. F.
Adolpho Coelho. — Se agora nos voltarmos para o campo das crenças
populares, usos, etc, encontramos igualmente muitos restos do passa-
do. Ao pé de Bencatel, no Alemtejo, appareceu ha alguns annos uma
ara votiva dedicada a duas divindades fontanárias; não muito longe
d'esse local ha duas Fontes Santas, e a uma d T ellas, consagrada á
Virgem, concorre o povo da província, e mesmo de fóra, cora grande
devoção: estamos pois, pela comparação com outros muitos factos da
mesma natureza, auctorizados a ligar umas ideias com outras, e a
ver nas Fontes Santas a continuação de um culto pagão christiani-
zado, tanto mais que pelos antigos códigos da Igreja se prohibia a
veneração das fontes; mas aqui o poder da tradição foi superior ao
da lei. Usa-se em Lisboa um amuleto de marfim ou de osso, com-
posto de uma figa e um comicho, com uma abertura ao centro, para
andar suspenso; como posso provar pela comparação com vários amu-
letos romanos, uns descobertos cá, outros fóra, este relaciona se com
elles. A trilha, instrumento agrícola de Tras-os-Montes, corresponde
ao tribidum romano, tal como o descreve Varrão, e esta correspon-
dência dá-se tanto no nome, como na fórma. O carro alemtejano tem
também todas as parecenças com o carpentum. — Os costumes mo-
dernos explicão-se pois muitas vezes pelos antigos; comprehende-se,
por tanto, como do exame e comparação d'aquelles possamos ás ve-
zes chegar a elucidar o passado.
Com relação á parte anthropologica, os dados por ora não são
muitos. Ha apenas alguns estudos realizados ácerca de vários esque-
letos prehistoricos.
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CURSO DE LINdUA PORTUGUESA ARCHAICA i
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Passemos uma vista d'olhos por todas aquellas tres epochas em
que dividi a história da Lusitânia,
I. — Época prehistorica.
Impossível me fora, não só tratar agora dos principaes pontos
d'este assumpto, mas sequer esboçar a história dos diversos períodos,
— paleolithico, neolithico e dos metaes.
Os primeiros homens que habitarão estas paragens vivião vida
rude e selvagem: os seus instrumentos erão de pedra e de osso;
para morada aproveitavão muitas vezes as grutas naturaes; como
louças tinhão grosseiros vasos de barro. Foi só depois de longos
séculos que as commodidades da vida vierão a pouco e pouco, que
os animaes fprao domesticados, que se cultivárão as terras, e o uso
do metal se generalizou. Os antigos geographos que tratarão da
Ibéria attribuem ainda a muitas tribus peninsulares uma civilização
verdadeiramente rudimentar, como era por exemplo a dos monta-
nheses da Lusitânia, no dizer de Estrabão.
O nosso país está cheio de antiguidades prehistorícas, umas já
estudadas, outras ainda virgens. A cada passo se encontrão mambas,
antas, antéllas e grutas, que são monumentos d'essas idades. Aqui no
Sul, pelo menos desde o Mondego até o Algarve, o povo recolhe com
muita estimação as pedras de raio, nome com que elle denomina cer-
tos instrumentos neolithicos que acha no solo, nas lavouras; no Norte
do pais chamão-se em geral pedras de raio os crystaes de rocha, e é
talvez por esse motivo que não se conhecem d'aquella região tantos
instrumentos neolithicos como do Sul. A superstição das pedras de
raio tem origem mythica; mas o povo apropriou-a, por um processo
natural, e que aliás é universal, a esses pequenos monumentos pre-
históricos.
As províncias portuguesas menos exploradas são a Beira e Tras-
os-Montes; as melhor exploradas são a Estremadura, o Entre-Douro-
e-Minho, o Alemtejo e o Algarve, ácerca da ultima das quaes já ha
um mappa archeologico organizado pelo sr. Estácio da Veiga.
Assim como o povo applicou aos instrumentos neolithicos ideias
que se ligão com os mythos da trovoada, assim também revestiu de
poéticas lendas de Moiras encantadas as grutas prehistorícas e as
antas.
Uma adaptação semelhante se deu com ésta palavra, que, tendo
evidentemente origem no latim antae, foi imposta a monumentos
muito mais antigos. E como do singelo tumulo dos nossos avós o nome
ás ve^es se estendeu ao campo em que elle estava, tornado mais tarde
povoação, offerece-nos hoje o nosso onomástico denominações como
Anta, Antas, Anta Cova, Antas do Meio, Antetta, Antinha, Antéllas,
etc. Talvez pertença á mesma classe Antão e Antões, pois, assim como
se fez o deminutivo antella e antinha, também se podia ter feito
o augmentativo antão.
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RKVISTÀ LUSITANA
O povo assenhoreou-se das antas, não só para nellas evocar
na noite do S. João a formosa Moira de cabellos d'oiro, resplande-
centes ao luar, mas ainda, como numa ao pé de Pinhel, poder, por
meio de uma prova pelo fogo, conhecer de ante mão o futuro da co-
lheita próxima.
D'este modo. já pelas crenças populares, já pelos vocábulos avul-
sos, a tradição vincula-nos ao passado, c nós devemos dizer com or-
gulho, porque nisso se affirma o progresso do homem, que somos em
linha recta, polo menos moralmente, os descendentes dos selvagens
que ha milhares de annos vagueavão pelas margens do Tejo e do
Mondego, perseguindo as feras com armas de pederneira.
II. — Epocha protohistorica.
Denomino assim a epocha comprehendida entre a prehistoria e
a vinda dos Romanos para a Lusitânia. Das tres grandes epochas
da historia lusitanica é esta a menos conhecida.
Em toda a faxa occidental da Ibéria havia nos tempos pre-roma-
nos muitas populações que constituião gentes, populi e civitates, e vi-
vião em oppida, vúH, etc., para me servir das expressões consagradas
pelos auctores romanos, posto que ellas nem sempre sejão rigorosas.
Erão os Lusitanos, os Turdetanos, os Callaicos, os Bracaros, os (4ro-
vios, os Turdulos, etc. Combinando diversos elementos, parece que as
denominações da primeira serie denotavão agrupamentos, por ven-
tura federações, de caracter successivamente menos geral. Plinio, por
exemplo, diz que os Lusitanos constituião uma das gentes peninsula-
res; o mesmo A. distingue entre populi cantabricos e civitates canta-
bricas. Mas ás vezes também confunde. Iguaes informações se podem
colhêr em Tito Livio. Assim gentes serão de modo geral as federações
maiores; populi e civitates federações gradualmente menores, embora
autónomas entre si. Também temos algumas escassas notícias á cerca
de gentilitates na península.
Não é meu intento mencionar aqui todas as tribus da Lusitânia.
Algumas d'ellas devião, pelo menos em parte, proceder das popula-
ções prehistoricas ; outras devião ter diversa origem, pois a peninsula
foi invadida por Phenicios, Celtas, Gregos, Carthagineses, etc, — ha-
vendo-se alguns doestes povos, como os Celtas, ligado intimamente
com as populações indígenas, limitando-sc outros a colonizações e fe-
derações no littoral, ou próximo.
A respeito dos Celtas temos provas positivas de que elles ha-
bitavão mais ou menos por toda a Lusitânia: havia Célticos na me-
sopotâmia formada pelos rios Tagus e Ana; havia-os desde o cabo
Nerio até o rio Limia, os quaes, segundo o próprio Estrabão, serião
próximos parentes dos das margens do Ana, — correndo in loco, para
explicar este parentesco, uma tradição oral que Estrabão refere, re-
vestida de circurastancias lendárias e maravilhosas, e por tanto sem
inteira fé histórica.
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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
Os Phenicios predominavão no Sul: O geographo grego Es-
trabão diz mesmo que elles constituiâo a base da população turde-
tanica.
Com relação aos Gregos, podemos aeceitar que elles, pelo me-
nos, dominárão também no Sul, mas o que os AA. antigos dizem da
estada d'elles na Galliza e no Minho não merece credito, pois se funda
em etymologias populares; a comparação que Estrabão faz, de um lado
entre as hecatombes e cerimonias matrimoniaes dos Lusitanos, e do
outro entre costumes da Grécia, creio ser meramente accidental, e
não de parentesco directo, pois também o mesmo A. compara costu-
mes de cá com costumes assyricos.
Algumas das povoações em que vivião as tribus lusitanicas ainda
hoje nos são conhecidas, em ruinas que d'ellas restão. Refiro-rae aos
crastos ou castros, crastéllos, crestins, castêllos, castêllos, cividades, cer-
cas, citanias, etc, nomes synonimos com que o povo as denomina. Os
sete primeiros nomes tem evidentemente origem latina; o ultimo
julgo que também é latino, ainda que revela feição semi-erudita,
mesmo na sua fórma mais vulgar, — citâina, que é como se diz no
districto de Braga. Pertence ao Sr. F. Martins Sarmento a glória de
haver tornado bem claro o que são os nossos castros, em virtude das
explorações archeologicas a que á sua custa procedeu, sobretudo em
Sabroso e na Citania de Briteiros, dois castros typos, o primeiro como
pre-romano, o segundo como luso-romano. Os castros são em geral
montes fortificados, passando-lhes muitas vezes um rio ou ribeiro ao
sopé: de modo que d'elles podemos dizer como, a propósito da Itália,
dizia Vergilio:
Tot congesta manu praeruptis oppiÂa saxis
Fluminaque antiquos subterlabentia muros.
A palavra castro, com as suas synonimas, tornou-se nome gené-
rico, em substituição dos nomes indígenas. A razão disto está cm que
— castrum, d'onde provciu castro ou (rasto, tinha entre os Romanos
a significação de «logar fortificado». Muitos dos castros continuarão a
viver na epocha romana e post-romana, outros forão abandonados,
passando-se para outras localidades as povoações que os habitavão.
A's multíplices designações modernas de castro, cividade, etc, é na-
tural que na origem correspondessem accepçoes diversas: assim castro,
já vimos que provém de castrum; quanto a castêllo e castêllo pro-
vém de castellum, palavra que significa «posto militar fortificado», já
de caracter permanente, já passageiro, ás vezes dependente de uma
cidade vizinha; cividade provém de civitas (i. é, civitate-), que,
com quanto tivesse a princípio a accepção moral de «communidade de
cidadãos», etc., adquiriu também, principalmente depois da epocha de
Augusto, o sentido de urbs, isto é, «cidade materialmente considera-
da» ; os deminutivos cresteúo, ercstim, etc, significão quer novas po-
bkv. r.usiT., vol. ih, fase. 1. 3
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REVISTA LUSITANA
voações derivadas dos castros, quer povoações realmente menores que
estes; citania parece-nie estar por *civitatania ou *civitata-
n e a , palavra correspondente a civitatanus (de civitas, como oppidanus,
de oppidum, e vicanus, de vicus); a palavra cerca provém de circa.
Assim pois estes diversos nomes, após haverem-se tornado syno-
nimos na lingua moderna, correspondem a castrum, castellum, etc, e
provavelmente também em parte a oppidum, vicus, urbs. E' curioso
que estes tres nomes se não tenhão conservado em Portugal, o que
aliás se explica pela generalização de castrum e castellum, e porque
no latim vulgar civitas substituiu urbs, etc; apenas na Galliza ha
Vigo, na epocha romana Vicus Spacorum, denominação em que clara-
mente entra o latim vicus, como em Vicus Veracyrorum, etc. Os
Lusitanos não vivião só em castros; temos conhecimento de outros
centros de habitação, e alguns até célebres pela sua opulência. Em
vários castros, como na Citania de Briteiros, as casas tinhão ás ve-
zes fórma arredondada, uso conhecido noutras nações.
Os povos da Lusitânia constituião, como disse, tribus indepen-
dentes umas das outras, e que não raro vivião entre si em guerra,
mas que, na occasiâo do perigo commum, ás vezes mais ou menos
se união e combatião juntas, como vemos no tempo de Viriato.
A' cerca do seu governo e organização social é difficil entrar em rai-
nudencias, nem isso me pertence aqui; direi no emtanto que na His-
pânia, como consta de varias passagens, havia reis, posto que nem
sempre seja cousa apurada quando é que os AA. se referem a reis
propriamente ditos, ou a simples magnates, generaes, etc.
Em virtude da pluralidade dos povos que habitavão esta faxa
occidental, e das circumstancias topographicas e physicas, resulta que
na epocha de que me estou oceupando temos de considerar aqui vá-
rias civilizações. Uns povos erão extremamente bárbaros, como os que
vivião insulados nas montanhas; outros, como os do Sul, erão regu-
larmente civilizados. Certas particularidades que Estrabão refere dos
montanheses não differem essencialmente do que se sabe de outros
povos em condições sociaes semelhantes, como por exemplo os Gallos.
A archeologia, que deve ser sempre invocada quando se trata de
ethnographia antiga, completa frequentemente as notícias ministra-
das pelos geographos e historiadores.
Estrabão, ao passo que mais de uma vez commemora a grande
rudeza de costumes de certas tribus lusitanicas, e em geral ibéricas,
pinta-nos em compensação á cerca da Turdetania um quadro de cores
muito lisongeiras e suaves. Parte do nosso país estava comprehendido
na Turdetania, e é por isso que aqui fallo d'ella. Os Turdetanos erão
considerados como os povos mais illustrados da península. Estrabão,
segundo resulta do confronto que fiz de passagens suas, distingue
nclles duas civilizações: uma, a dos que possuião uma litteratura poé-
tica numa lingua nacional ; outra, a dos que se havião romanizado, a
ponto de trocarem o seu idioma próprio pelo latira. Estes últimos erão
principalmente os ribeirinhos do Betis (h. Guadalquivir). O geogra-
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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
pho, ao que parece, falia dos primeiros como seus contemporâneos:
por tanto as duas civilizações coexistião ainda no sec. i da E. C.
Quero chamar particularmente a attençâo para o seguinte, que julgo
importante, e vem a ser: que o facto da civilização- turdetana se deve
explicar, sobretudo, pela acção dos Gregos e Phenicios, que estancia-
rão pelo Sul, — sendo essa mesma civilização um auxiliar que facilita-
ria a precoce implantação dos romanos ahi; e que a coincidência de
apparecerem no Sul do nosso país inscripções pre-romanas e moedas
com caracteres especiaes, chamados ibéricos, de provável origem phe-
nicia, com a notícia ministrada por Estrabão, á cerca de uma littera-
tura nacional da Turdetania, onde, segundo elle, havia elementos
ethnicos da Phenicia, leva a inferir que a lingua d'esta litteratura
poderia ser a mesma que está escrita com os ditos caracteres. O que
se não pôde concluir é que esta lingua fosse do systema phenicio.
*
Direi algumas palavras á cerca das religiões da Lusitânia, pois,
no esboço da história social de um povo, este elemento não deve ser
de modo nenhum omittido, principalmente com referencia á antigui-
dade, em que quasi todos os actos da vida, ainda os mais vulgares,
estavão impregnados de espirito religioso. Digo religiões, e não reli-
gião, porque, assim como o povo não era unitário, também não havia
uma só crença. Em rigor, devia tratar da de cada grupo social em
particular; mas, por commodidade, abrange-las-hei primeiro num todo,
que irei a pouco e pouco delimitando, — e occupar-me-hei successiva-
mente: d) das concepções fundamentaes ; b) das formas do culto; c)
do sacerdócio. Está claro que tratarei de tudo succintamente.
d) Concepções.
Um dos elementos mais importantes das religiões antigas era o
culto da Natureza, — divinizada nas suas forças: as águas, a atraos-
phera, os astros, os seres vivos (vegetaes e animaes), os relevos do
solo, etc.
Segundo uma tradição muito antiga, haveria no Promontório
Sagrado (Algarve) um santuário de Héracles, que porém já tinha
desapparecido no sec. i da E. C. Héracles talvez aqui signifique o
mesmo que Melcarth, deus phenicio. O geographo Estrabão trans-
mittiu-nos á cerca d'este Promontório outras noticias curiosas, como as
que se referem á santidade do logar, onde á noite os deuses se reunião
em sabbat ou assembleia, e onde se realizavão certas cerimonias. Infe-
lizmente o texto estraboniano é muito lacónico, e alem d'isso offerece
difficuldades de leitura; mas talvez as tradições do Promontório Sa-
grado se possão relacionar com um culto de divindades marítimas ou
correlativas. A veneração do logar inanteve-se até hoje na designação
de Cabo de S. Vicente.
Além d'este cabo outros havia também sagrados. Os AA. antigos
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&EV1STA LUSITANA
fallão-nos do Promontório da Lua, que era, segundo creio, o Cabo da
Roca. Esta relação da lua com um cabo nada tem de estranho, pois
as divindades sideraes andão muitas vezes associadas ás marítimas.
Em verdade a lua presta grandes serviços aos navegantes; por isso
era natural venerarem-na nos pontos que mais entrão pelo mar den-
tro. Na Itália também havia um Lunae Promunturium. E' curioso
que tenhão apparecido junto de Collares, segundo André de Résende,
inscripções romanas consagradas ao Sol e á Lua; com quanto tenhão
um cunho muito romano, talvez possão representar a romanização de
um culto indígena. Outros povos da península veneravão os astros,
como os Celtibericos e os seus vizinhos do Norte, que celebravão dan-
ças em honra da lua-cheia, costumes que tem análogos nos selvagens
da Africa e da America. Os cultos astrolatricos mantiverão-se até
hoje na tradição popular; as antigas legislações da nossa Egreja re-
ferem-se também a elles, condemnando-os.
E' provável que em outros muitos cabos e pontas, onde moderna-
mente se venerão imagens christãs, houvesse outr'ora santuários pa-
gãos.
Do culto dos promontórios e do do ceu, passarei agora para o dos
rios e das fontes. Na antiguidade corria nos povos da beira do Lima
uma superstição de que as aguas d'este rio produzião o esquecimento
do passado, havendo mesmo uma lenda popular para explicar a super-
stição. O nome antigo do rio era Limia; parece que para o povo
esta palavra continha ainda clara a ideia de t esquecimento», pois os
AA. gregos e latinos a traduzem respectivamente por Lethe e Obli-
vio, que nunca forão porém nomes do rio, como erradamente se tem
supposto. Como é que o rio produzia o esquecimento? A julgar do
texto, era atravessando-o. Como no emtanto os povos limitrophes ti-
nham de o atravessar a cada passo, que meios empregavão elles para
evitar o esquecimento? Podemos raciocinar aqui por analogia cora o
que sabemos á cerca das cerimonias de outros povos na occasiâo da
travessia das águas tidas por santas. Como se considera offensivo
invadir os domínios da divindade, fazem-se-lhe sacrifícios, levão-se-
Ihe oferendas, etc. No Limia succederia pois o mesmo: quem se su-
jeitasse aos ritos expiatórios e propiciatórios, passava incólume. Sem
se admittir isto não se pôde explicar a manutenção da superstição,
pois ou o rio nunca seria passado, o que se torna incrível, ou as pri-
meiras travessias, independentes de cerimonial, a destruirião logo, o
que está em desaccôrdo com os factos. O Limia era por tanto um rio
santo, como ainda hoje no nosso país ha muitos, segundo a crença
popular.
A julgar por uma inscripção romana achada nos subúrbios do
Porto, parece que o rio Durius (h. Doiro) foi também diviniza-
do; e igual conclusão se tem tirado a respeito do rio Tâmega, por
causa de uma inscripção consagrada ao deus Tameobrio ou Tameo-
brigo.
Se em relação aos rios, os factos que apresentei são em parte hy-
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CURSO DK LÍNGUÁ PORTUUUtíjáÀ AHCHAICA
potheticos, temos, em relação ás aguas thermaes de Vizella, um facto
positivo, pois cTessa região possuímos inscripções da epocha romana
consagradas ao deus Bormanico, que era um deus tutelar d'ellas. Este
culto foi posteriormente, como creio, romanizado, pois ha outra inscri-
pção de Vizella em que figurão vários deuses de procedência romana,
entre os quaes Esculápio, deus também da saúde; tal inscripção é
verdadeiramente paníhea.
Quem rebuscar nas lendas da Igreja, e nas tradições populares,
encontrará muitos e muitos vestigios do culto pagão das fontes. A
inscripção de Bencatel, a que me referi ha pouco, dedicada a Fonta-
nus e Fontana, com quanto de procedência romana, revela, quanto a
mim, um culto pre-romano alli localizado ; esta inscripção èpro salute,
e por tanto aquelles deuses entrão na categoria dos deuses tópicos
curandeiros, que erão muito numerosos na Lusitânia.
Depois do culto das águas fallarei do da terra. Segundo uma no-
ticia dada por Justino, que, como se sabe, resumiu Pompeu Trogo, ha-
via nos confins da Gallaecia um monte santo, a propósito do qual o
povo tinha várias superstições, em parte ligadas com as trovoadas.
Ao mesmo tempo que os AA. nos fallão do Promontório da Lua, a
que acima me referi, fallão também do Monte da Lua, que era, como
se julga, a Serra de Sintra ou Cintra, onde a lua devia ter um^culto.
Denominações análogas se encontrão na geographia de outros povos,
por exemplo Mons Sacer na Itália, Mons Veneris na Hespanha. O
nosso onomástico offerece também exemplos de antigos cultos, como
Monsanto, serra aqui mesmo ao pé de Lisboa, e por tanto não longe
do Monte da Lua, a ser exacta a identificação indicada acima; tam-
bém se hão dado os nomes Monção e Buçaco como equivalentes de
Monte santo e Monte sacro, mas taes equivalências não se podem ad-
mittir, por estarem em desaccôrdo com a phonetica. Tenho algumas
razões para poder relacionar com os cultos chtonicos o deus Endovel-
lico, que tinha um fanum venerabilissimo no alto de um monte, ao pé
de Terena, no Alemtejo.
As inscripções latinas da epocha romana ministrão muitos nomes
de deuses pertencentes á região de que mò estou occupando; infeliz-
mente grande parte dos nomes são de leitura duvidosa. Outros, de lei-
tura certa, como Bandua, Nabia, Edovius, Aernus, Coronus, Cusune-
neoecus, Durbediais, são porém de caracter desconhecido, ou pelo me-
nos muito incerto. Tanto em alguns de taes nomes, como nos outros
de leitura duvidosa, observa-se um facto philologico curioso, que logo
tornarei a lembrar, e vera a ser a frequência do suffixo -aecus, com as
suas variantes -ecus e -aegus.
Fallando dos povos montanheses ao N. do Tagus, na Lusitânia,
diz Estrabão que elles veneravão o deus Ares. Este nome grego en-
cobre-nos aqui um deus indígena da guerra, o que realmente convém
a povos guerreiros como erão os Lusitanos. Talvez deus da guerra
seja também aquelle a quem é consagrada uma ara que está no Mu-
seu do Carmo, em Lisboa, e cujo nome, segundo a minha leitura, é
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ÉttVlSTÁ LUSlf AKA
Ârus. A' mesma classe pertencerá ainda a figura representada no fra-
gmento de uma patera de prata achada ha annos no concelho da
Maia, e onde o nomo do deus parece começar por SAVR. . . . Quando
os Romanos introduzirão a sua religião nas Hispanias, derão-se os
seguintes factos: ou os deuses indígenas fleárão com os nomes que ti-
nhão, como se vê em todos os nomes bárbaros que citei ; ou os nomes
romanos se substituirão aos indígenas, como creio succedeu com
Fontanus-Fontana e com os da inseri pção panthea de Vizella; ou os
nomes romanos forão collocados ao lado dos das divindades indígenas.
l)'este ultimo caso ha uma inscripção curiosa em que se lê Cososo deo
Marti suo, onde, se a leitura está boa, Cososo parece representar ou-
tro deus da guerra.
Não menos notável também é a dea Adaegina Turibrigensvi
Prosérpina-, que tinha o seu culto na zona geographica do rio Ana.
Era uma divindade tópica identificada com Prosérpina; numa inscri-
pção d'ella parece haver o vestígio de uma devotio ou maldicção.
Devo mencionar neste logar várias classes de divindades, que,
por causa talvez do seu caracter vago e indefinido, forão pelos Ro-
manos assimiladas aos Lares, aos Génios, etc., isto é, ás divindades
inferiores do seu Pantheon. Temos por exemplo, entre as primeiras,
os Lfcres Cerenaeci, L. Ceceaeci, L. * Cusicelenses, L. Turolici, L.
*Pindanetid, etc. Como os diversos suffixos dos nomes bárbaros o
dão a entender, todos estes Lares erão provavelmente deuses tópicos,
— deuses protectores de localidades ou povos. Ha também uma in-
scripçâo consagrada aos deuses Lares da gentilidade dos Gapeticos.
As inseri pções oiFerecem-nos ainda os Lares vkorum. — Uma classe
vizinha dos Lares tópicos são os Génios: uma inscripção menciona
por exemplo um Genius munmpu; outra um Génio dos (L)oncobri-
censes. A's vezes porém será difrteil distinguir, em certas inscripçoes
de significação vaga, quaes as divindades meramente indigenas c
quaes as romanas. — Uma inscripção da Tarraconensc, onde se lê La-
ribus et (Tu)telae génio l(ociJ), é mais um argumento a favor da
identificação que acima fiz dos Lares com as divindades tópicas.
São bastante frequentes nos paises célticos umas divindades se-
cundarias chamadas nas inscripçoes Matrcs, Matrae, etc. Pelos seus
attributos, ellas devem eonsiderar-se como deusas campestres, mas o
seu poder cstendia-sc ás vezes a uma cidade, a uma região, etc. Nesta
faxa do occidente da península hispano-lusitanica apparecem-nos ellas
como protectoras de um vasto território, pois existe uma inscripção
consagrada ás Mães Gallcga*, — Malribus Gallaeás.
Tão vagos erão para os próprios Romanos os scuf Génios, que
em certas fórmulas se dizia Sive deus sive dea, sive mas sive femina;
também numa inscripção de Portugal se lê simplesmente Dls Dea-
busq( lie) Coniumbric(ensibus).
Estas classes de divindades locaes, que receberão tanta vida da
parte dos Romanos, mantiverão-se até hoje na tradição popular. To-
das as terras tem um santo padroeiro, que é o representante do ge-
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dUÍtòO 1>E LÍNGUA l^OttTCtfUtíSÁ ÁttCHAlCÁ
39
nitis hei; ás vezes dá-se o caso de, ao lado do santo, existir também
nma tradição pagã, annexa a uma figura de pedra, que, segundo o
povo, symboliza a povoação.
b) Formas do culto.
Em relação a templos, já acima me referi ao fanum de Endo-
vellico, que ficava distante da povoação a que pertencia; como os
d'este não conheço outros vestígios na nossa archeologia. Logar sa-
grado parece que era também Panoias, perto de Villa-Real de Tras-
os-Montes, onde existem ainda muitas inscripções, etc.
Uma aedkula muito interessante conserva-se em Braga no t Quin-
tal do Idro» (i. é, ídolo), dentro de um tanque; mas, graças á incúria
indígena, está prestes a perder-se! Nas inscripções de Endovellico
falla-se também dé ura aededum, palavra que é, sem duvida, synonima
de aediculum ou aedicida.
Os povos pre-romanos da Lusitânia tinhão pouca tendência para
representar os seus deuses por imagens : d'ahi vem o dizer Estrabão
que os Gallaecos não tinhão deuses, quando elle queria dizer sòmente,
segundo o meu entender, que não tinhão idolos; de outro modo as pa-
lavras do geographo estavão em desaccôrdo com os facto^, pois existe
nas inscripções da Gallaecia menção de muitos deuses.
Sob a influencia principalmente dos Romanos, consagravão-se aos
nossos deuses oferendas ou donaria, que consistião em aras, estatue-
tas, figuras de animaes, etc. ; as aras sobretudo são muito numerosas.
Ainda hoje nas aldeias, e mesmo nas cidades, certos santuários de de-
t^ção estão cheios de ex-votos, — painéis, figuras de cêra, de madeira
ou de prata, tranças de cabello, etc.
Segundo as noticias transmittidas pelos AA. antigos, os Lusita-
nos em alguns pontos fazião sacrifícios humanos; de sacrifícios de
animaes também temos noticia, e esses devião ser mais vulgares; Es-
trabão falia mesmo de hecatombes.
Nos túmulos era costume gravar symbolos, como o suástica, e
collocar estatuas de guerreiros ou de animaes; estes tinhão certa-
mente caracter sagrado, sendo talvez como que uma espécie de totens
das tribus.
c) Sacerdócio.
O homem nem sempre se dirige á divindade directamente; ás
vezes recorre a terceira pessoa, que é o sacerdote. De sacerdotes lu-
sitanos temos escassas notícias. Estrabão falia de haruspices que
observavão as víctimas com o fim de tirarem presagios. Ha ainda ou-
tras passagens referentes á adivinhação por meio das chammas e das
aves. Junto do fanum de Endovellico é provável que houvesse somnio-
rum interpretes, pois das inscripções consta que os doentes que invo-
cavão o deus se regulavão por sonhos que este lhes enviava. Também
Suetonio conta que na Cantábria, alem de um sacerdote de Juppiter,
que interpretava os oráculos do deus, havia uma fatídica puella,
4o
kKVlbTA LUSITANA
que eui certa circumstancia annunciou um prodígio; prophetizas se-
melhantes teríamos nós também na Lusitânia, a julgar por analogia.
São por ventura outra cousa as modernas t mulheres de virtude»?
Não devemos considerar os sacerdotes da Lusitânia, pelo menos os
das tribus mais barbaras, senão como tim mixto de nevropathas, cu-
rôes e impostores: os adivinhos e bentos modernos podem dar uma
ideia d'ellcs.
Vê-se, em resumo, que a religião depende das variedades do meio
e do grau de civilização: sanguinária nas tribus mais guerreiras;
chtonica nas montanhas; aquática junto das fontes e dos rios; sideral,
etc. á beira-mar. Como desenvolvimento de concepções naturalísticas
primitivas, as divindades são em grande parte tópicas, e attribue-se-
lhes era especial o poder de curar doenças.
Apesar de eu desejar ser breve, dei a este ponto mais desenvol-
vimento do que d que bastava para o meu fim; é que eu tinha predi-
lecção por elle.
Para cômpletar o assumpto devia ainda fallar de muitos outros
factos da vida dos Lusitanos, taes como as suas armaduras, os seus
festins, os seus meios de commercio, o seu modo de trajar, a sua me-
dicina, as suas leis, etc, mas tudo isso me levaria muito longe, e eu
teria de fatigar por muitas horas a attenção d'aquelles que me dão a
honra de me ouvir.
IJI. — Epocha histórica (luso-romana).
Passarei agora a occupar-me da romanização da Lusitânia, do
que direi pouco, já por falta de tempo, já por isso serem factos mais
conhecidos do todos.
Como vimos, os últimos povos, cm data, que tinhão vindo para a
península antes dos Romanos forão os Carthagineses. No anno de 228
A. C. fizprão os Romanos com os Carthagineses um tratado em que
estes se obrigavão a não passar o Ebro. Sagunto, cidade Romanis
arnica, foi porém no anno de 219 accomettida por Annibal, general
carthaginês; apesar de os Romanos o intimarem para que se absti-
vesse da guerra, e de mandarem embaixadores a Carthago, a cidade
foi tomada, e os Saguntinos recebêrão de Annibal os maiores tormen-
tos. Em virtude d'isto marchou para a Hispânia no anno de 218 Cn.
Cornélio Scipião, a quem posteriormente veiu juntar-se seu irmão
Publio. A principio os Romanos derrotárão os seus inimigos, mas a
final os dois Scipiões forão mortos, vindo para cá depois P. Cornélio
Scipiâo-junior, que tomou Carthagena com ouro e muitos reféns, pren-
deu o carthaginês Mágon, irmão de Hásdrubal, restituiu ás famílias
hispânicas os prisioneiros que cstavão cm poder dos Carthagineses,
e venceu e afugentou Hásdrubal. E' com estes feitos de Scipião que
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OURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARO HA IC A
propriamente começa na península o domínio romano: «quare oinnes
fere Uispaniae uno animo ad eum transierunt».
Depois os Romanos continuarão na sua obra de conquista, que
não se realizou de uma vez, mas lentamente, e ás vezes com muita
resistência dos povos de cá, apesar do texto que acabei de citar. Até
197 a Hispânia continuou em estado de guerra; nesse anno foi divi-
dida em Ulterior e Citerior, cada uma governada por seu pretor. O
território que hoje constituo Portugal e Galliza pertencia á Ulterior.
Em 150, em virtude de uma perfídia do procônsul Sergio Sulpi-
cio Galba, forão mortos muitos mil Lusitanos: isto exaltou os ânimos
dos povos, que, commandados por Viriato, começárão a guerrear gran-
demente os Romanos (150-140). Em 140 Viriato fez as pazes com o
procônsul Fabio Serviliano para salvar o exército doeste; mas no
mesmo anno o procônsul Servilio Caepio, successor de Serviliano, re-
começou a guerra na Hispânia Ulterior, e fez que Viriato fosse as-
sassinado á traição. Viriato, que, no dizer de Floro, passou de caça-
dor a salteador e de salteador a general, tornou-se assim um symbolo
da independência nacional, e da sua tradição heróica proveiu, por in-
fluencia da erudição da Renascença, uma fonte de lendas, que tem,
nos tempos posteriores, passado como verdades históricas.
Em 138-137 Décio Junio Bruto venceu os Callaicos; á memoria
d'este general andão ligadas várias tradições curiosas.
Em 134 Scipiâo o Africano-junior foi nomeado para a Hispânia;
tomou Numancia, conquistando definitivamente o centro da península.
Roma não deixou de continuar a mandar generaes e funeciona-
rios. Por causa das contínuas oppressões, os Lusitanos pedirão o au-
xilio de Sertório, que já tinha estado na península. De Sertório dei-
xou-nos Plutarcho uma interessante biographia, que contribuiu para
que depois do sec. xvi, sob o influxo dos nossos eruditos, se originas-
sem algumas lendas, d'esta vez localizadas em Évora. Metello Pio
combateu Sertório com pouca felicidade. Em 77 veiu Perpenna com
certo número de cohortes combater ás ordens de Sertório; a inveja,
que é inseparável das acções humanas, e que ás vezes corroe mesmo
a alma dos mais fortes, foi a causa de que Perpenna assassinasse
Sertório, por occasião de um festim; em breve porém Pompeu o ven-
ceu e matou.
Em 60 Julio Cesar submetteu os Lusitanos, ao N. do Tagus, fa-
zendo-os tributários. Em 55 Cn. Pompeu Magno obteve as duas His-
panias, e a península tornou-se o theatro da lucta entre Cesar e Pom-
peu, lucta formidável e longa, que só terminou com a batalha de
Munda, em que Cesar levou a palma aos filhos de Pompeu.
Com a vinda de Augusto, que subjugou os Cantabros, victória a
que Horácio allude nas suas odes, ficou assegurada a paz na penín-
sula durante muito tempo. Este facto marca uma era notável na his-
toria das Hispanias.
Depois a península foi dividida em tres províncias: Tarraconen-
se, Betica e Lusitânia; a primeira e a ultima a cargo do imperador,
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fcKVlSTA LUSITANA
a segunda a cargo do senado. Os governadores das províncias sena-
toriaes erão pro cônsules; os das imperiaes legati Augusti As provín-
cias dividião-se em certas circumscripções denominadas conventus.
A Lusitânia romana comprchendia os conventus emeritense (Eme-
rita), pacense (Pax Julia), escallabitano (Scallabis, h. Santarém). O
território da nossa Bracara Augusta constituia também o conventus
hracaraugustanus, mas este pertencia á Tarraconense. Havia alem
disso colónias, municípios, etc. As fórmas da organização politica va-
riárão bastante, segundo as epocbas.
Os Romanos iinpuscrão a sua magnifica civilização á península;
d'ella innumeros restos materiaes existem ainda em toda a parte,
tanto em Portugal como na Hespanha. Esta imposição foi lenta; um
dos meios pelos quaes ella se operou foi pela fusão com os indigenas.
Tal fusão observa-se por exemplo: nos castros, onde a civilização ro-
mana coexiste a par da indígena; nas denominações das divindades e
das terras, pois a um nome peninsular junta-sc ás vezes um latino,
como em Adaegina Proseririna, Bracara Augusta; nas fórmas do culto
religioso; nas inseri pçoes bilingues dos cippos e das moedas, etc.
O Sul e o Oriente forâo os pontos romanizados primeiro: assim
a Lusitânia meridional offerece-nos já desde o sec. i, como vimos, um
aspecto inteiramente romano, ao passo que ainda nos séculos n e m
o interior e o Norte da península tem cunho indígena, revelado em
muitas particularidades. A romanização completa pôde datar-se do
sec. in.
Ainda hoje o Norte e o Sul de Portugal divergem bastante: o
Sul tem mais uniformidade entre si do que o Norte (Entre-Douro-e-
Minho e Tras-os-Montes) ; a Beira constitue um meio-termo. Isto obe-
decç principalmente ás condições geographicas: o Norte, com as suas
montanhas e os seus valles fundos, delimitados por numerosos rios,
tem tendência pafa o status in quo; o Sul, com o seu clima suave, a
sua boa posição á beira-mar. mais perto dos grandes centros civiliza-
dos da antiguidade, attrahiu desde muito cedo viajantes e povos na-
vegadores.
Foi sobre o paganismo luso-romano que se implantou o christia-
nismo; dos municipios romanos provém os nossos concelhos. A acção
de Roma foi grandiosa, profunda; mas nem tudo quanto havia antes
d'ella se extinguiu: os costumes, o onomástico, as tradições, o léxico,
etc, ahi estão constantemente a attestar persistências antigas.
O facto mais importante da acção romana que me importa agora
notar é o da propagação do latim.
Como os povos pre-romanos erão muitos, várias devião ser tam-
bém as línguas indigenas cá falladas. D'estas línguas temos notícias
dadas pelos AA., e d'ellas nos rcstão também alguns vestígios no
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CUESO DÊ LINGtfA POETUG0ESA ARCHAÍCA
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onomástico. Sem fallar do phenicio e de outras línguas das colónias
históricas, pode admittir-se que havia na península pelo menos duas
classes de línguas nacionaes: a céltica, que tinha muita extensão; e
o proto-basco, ou aquella de quê o basco moderno é representante.
Com a implantação da civilização romana, desapparecêrão todas
as línguas da península, exceptuando o proto-basco. Seja qual for a
explicação do phenomeno, elle é innegavel. O texto de Estrabão, a
que ha pouco me referi, em relação á substituição da língua turde-
tana pela latina, não soffre dúvidas; alem disso, de certa epocha em
deante, os AA. latinos deixão de se referir ás línguas indígenas : se
algumas havia, como o proto-basco, estavão circumscriptas. As legen-
das das moedas, a princípio em caracteres locaes, vão também a pouco
e pouco sendo escritas com caracteres romanos. As inscripções em
língua latina enxameião todo o território peninsular. Ora, se o latim
toma tamanho predomínio, o que coincide com o predomínio da civi-
lização geral romana, e se depois dos Romanos não veiu mais povo
nenhum cuja lingua pudesse ter produzido o português e o hespanhol,
bastavão as simples considerações históricas, para fazer suspeitar que
estas línguas modernas tem origem no latim. Mas a glottologia prova
esse. facto coma 2 -(-2 = 4. No decurso d'estas lições veremos isso
em relação ao português.
O latim fallado pelo povo romano tem na sciencia, entre outros,
o nome de latim vulgar. Este latim é-nos conhecido pelas cacogra-
phias das inscripções, pelas informações dos grammaticos e outros
AA., pela anályse das línguas românicas. Ha trabalhos scientificos
sobre elle, como os de Schuchardt, Corssen, Grõber, etc. Com o tem-
po, o latim vulgar differença-se cada vez mais da lingua escrita. Nas
diversas províncias do império constituem-se assim variedades diale-
ctas, que, comquanto sejão ainda a princípio latim propriamente dito,
são porém a base das línguas românicas. E' muito difficil dizer quando
acaba uma lingua e começa outra que provém d'aquella. As causas
d'estas variedades do latim vulgar são, por exemplo : a tendência na-
tural que tem todos os povos para alterar a linguagem; o novo meio;
as linguas pre-latinas; a deminnição da cultura romana. Pelo que se
observa na acquisição individual de uma lingua pôde comprehender-se
como é que um povo poderá também aprender uma nova: assim os
portugueses, ao principiarem a estudar o francês, o hespanhol e o
italiano, substituem os sons tt, j e ci respectivamente por iú, g e oci:
isto é, representão sons exóticos pelos que mais se lhes aproximão
na lingua materna. As alterações que sem dúvida se davão ao pri-
meiro contacto dos indígenas com os Romanos, em breve, ao fim de
algumas gerações, por influencia das crianças, que estão aptas para
aprender qualquer lingua, deixavão de se dar, e os povos indigenas
achavão-se por assim dizer insensivelmente a fallar latim.
Os plebeísmos ministrados pelas inscripções romanas da Lusitâ-
nia não são em geral próprios nossos, apparecem noutras partes; to-
davia alguma particularidade podem ter. Eis alguns exemplos epigra-
44
REVISTA LUSITANA
phicos para amostra: na phonetica, — olmpone&is, ara (por aram),
vota (por votum), Cladius, quot, Vernada, Primitios (por Primitivus),
bivit, conlabsos, Ninpae (por Nt/mpJme); na inorphologia, — hic moni-
mentté8 (onde se vê o género nentro substituído pelo masculino, facto
que se tornou geral) ; no léxico, — lama, aedeolum. Quem fazia as in-
scripções tinha de ordinário alguma cultura, por isso não está sempre
nellas a lingua genuína do povo; assim como, na escrita, a um erro
de orthographia chamamos lapsus calami, podíamos dar um nome se-
melhante aos jJescuidos e incorrecções dos canteiros. Quando a evo-
lução do latim vulgar da Lusitânia, se adcantou em extremo, tor-
nou-se latim lusitanico propriamente dito.
O latim lusitanico é a base do português prehktorico, que nós
poderemos apreciar quasi só por inducção. As Inscripções christãs-
latinas, do sec. v em deante, poucos elementos dão para a glottologia.
A evolução do latim lusitanico e do português pre-historico não
se fez entregue só a si mesma, e sob as causas que indiquei acima.
Primeiro sentiu-se nella a influencia das línguas dos Bárbaros e a in-
fluencia litteraria da Igreja e das escholas; depois, em seguida ao
sec. vm, a influencia do vocabulário árabe. Outras influencias se ma-
nifestárão posteriormente. E' por isso que, na anályse etymologica
dos vocábulos, achamos uns obedecendo a umas leis, outros obede-
cendo a outras: isto resulta de que cada um dos grupos provém de
sua epocha ou de sua região, e não de que haja derogação das leis
phoneticas. Assim o latim macula deu de um lado rnaVia e mancha,
e do outro lado mágoa e macula.
Do sec. ix em deante restão-nos muitos documentos em latim
bárbaro, por meio dos quacs podemos apreciar o estado da nossa lin-
gua. E' á lingua, que vae d'essa epocha até o sec. xii, ou um pouco
adeante, que chamo português protohistorico. O latim bárbaro era
a lingua em que se escrevia na idade média: mistura de formas lati-
nas com fórmas romances, formas romances alatinadas, formas latinas
romançadas. A sua barbárie ou a sua relativa correcção dependia do
grau de instrucção do clérigo, do notário ou do curioso que o escre-
via. Nos documentos monásticos da Terra da Maia é que parece que
se encontrão barbarismos em maior numero. O latim bárbaro, apesar
da sua barbárie, não se deve ainda assim suppôr sempre uma lingua
completamente artificial e irregular. Elie não era um producto isola-
do : era obra de umas poucas gerações ; por tanto obedece em parte a
algumas leis. Certas fórmas tornárão-se tradicionaes, e, com quanto á
primeira vista pareção representar a influencia da phonetica local,
ellas encontrão-se não só no latim bárbaro de Portugal, mas no de
outras nações.
Não se deve confundir o latim bárbaro com o baixo-latim e o la-
tim vulgar. O latim bárbaro (empregado nos documentos, etc.) é uma
IV
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CtJBSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
45
lingua puramente escrita, não fallada, mas onde a influencia românica
é, como disse, muito pronunciada, o que faz d'elle uma lingua sui ge-
nerisj o baixo-latim é a ultima degeneração da lingua litteraria, e
serve ainda de instrumento á litteratura da decadência; o latim vul-
gar é uma lingua viva, orgânica.
Do sec. xn temos já documentos escritos em português. Estão
publicados alguns, mas com incorrecções. Eu descobri um, ainda iné-
dito, que publicarei a seu tempo. Desde que a lingua portuguesa co-
meçou a escrever-se, estabeleceu-se uma tradição litteraria, e distin-
guírão-se na lingua duas correntes: a corrente popular, que existia já
antes, e a corrente litteraria ou erudita,- que appareceu então clara-
mente pela primeira vez. Elevada á altura de lingua nacional, e ao
mesmo tempo de lingua litteraria, o português recebeu da parte dos
escritores a nobre qualificação de dinguu ladinlia*, como quem dis-
sesse «lingua derivada do latim*, — expressão que encontrei, por
exemplo, num manuscrito do sec. xv. Tenho, pois, de me occupar se-
paradamente dos dois aspectos ou phases da lingua: lingua litteraria
(escrita), e lingua popular (oral).
O gallego e o português constituião a principio uma só lingua,
mais ou menos uniforme; depois do reconhecimento official da auto-
nomia de Portugal, a lingua de cá e a de lá forão scparando-se gra-
dualmente, mas não tanto, que o parentesco intimo não seja ainda
hoje reconhecido sem custo. Em virtude de considerações que fiz nou-
tra parte, o gallego deve entrar na carta dialectologica portuguesa
como um co-dialecto.
1. Lingua litteraria.
A nossa lingua litteraria admitte duas grandes divisões geraes:
lingua archaica e lingua moderna. A lingua litteraria archaica começa
no sec. xu e dura até o sec. xvi, podendo Gil Vicente e Sá de Miran-
da, por exemplo, estabelecer a transição d'ella para a lingua littera-
ria moderna, que dura por tanto desde aquella data até hoje. A lingua
archaica admitte sub-divisões, conforme os períodos, mas não me é
possivel agora neste logar indicá-las.
Muitos caracteres distinguem a lingua archaica da moderna, uns
puramente grammaticaes, outros de léxico, porque muitas palavras
usadas outr'ora desapparecêrão da circulação. Como caracteres pho-
neticos temos por exemplo: a distineção entre s e ç, e entre s inter-
vocalico e z; a diferença entre ch e x; o uso de -om pelo moderno
-ão em formas da 3.* declinação, como sermom, açom, e nas termina-
ções verbaes como prometerom, começarom, quiseram, onde em latim
havia -unt; temos o hiato entre vogaes que depois se contrahírão,
como caente, maestre, creer, poboo, geeral, phenomeno de que ainda
hoje se mantém vestígios na pronúncia vulgar; temos a manutenção
de nasaes em casos em que posteriormente desapparecêrão ou dérão
origem a novos sons, como pfor, pessõa, vto, testpmõya, Edõya (h. Ida*
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46 REVISTA LUSITANA
í
nka); temos grupos de eo e ea, onde o e, por ser tónico e pre-voca-
lico, se ditongou posteriormente, como creo, meo, cea, hoje creio, meio,
ceia; temos a terminação -vil ou -bil por -vel, como razoavU e em Ca-
mões ainda terribã, onde talvez influísse o latim terribilis. Como ca-
racteres morphologicos notarei: nos verbos as terminações -ades,
edes, -ides, -ade, -ede, -ide, como atnades, devedes, fugides, etc., termi-
nações ainda conservadas hoje em formas em que o d é precedido de
nasal, ou que, com a suppressão do d, se confundiriáo com outras,
como vindes, vedes, sede, poude, ide (não obstante ler-se irvos nos
quinhentistas); notarei um participio em -udo da 2/ conjugação,
como recebudo, tendo, ainda hoje representado no substantho com-
mum conteúdo e no nome próprio Temudo, quo é erro escrever com
h; notarei fórmas verbaes avulsas como sia (h. era), estê (h. esteja),
fezeste, pugi, querría (quereria), os participios do presente em -nie,
como amante (por amando), de que a expressão moderna «tirante isto»
etc., conserva vestígio; notarei o género masculino dos nomes ter-
minados em -agem, como linhagem, linguagem, ainda mantido agora
em personagem, palavra que também pode ser feminina; notarei os
adjectivos uniformes em -es, como português, ainda mantido no
adverbio portuguesmente, em vez de portttgiiesamente, segundo a regra
geral; notarei os nomes em -or, como senhor, também uniformes,
como em mia senhor, no Cancioneiro da Vaticana; notarei o plural ra-
zoains de razoavd, etc. etc. Como caracteres syntacticos temos, por
exemplo, a variabilidade do participio na conjugação periphrastica,
como em aver jurada, e o pleonasmo da negação em «ninguém não
levar». A menção do léxico archaíco não teria fim.
Em virtude das influencias sociaes, a lingua é constantemente
enriquecida de vocábulos, o que ás vezes porém lhe altera a feição.
Tem-se attribuido grande importância á acção dos Franceses na
occasião da constituição da monarchia portuguesa; esta importância
é exaggerada, todavia na nossa lingua ha palavras de origem fran-
cesa muito antigas, como chapéu, charrua, framboesa, etc., e na litte-
ratura dos Cancioneiros também se nótão palavras povençaes.
Com as traducções do latim, que começárão muito cedo, e que
ti verão muito fervor nos sec. xiv e xv, introduzirão-se muitos latinis-
mos no português: o que foi devido á necessidade de representar as
novas ideias (por exemplo certas ideias abstractas) por palavras no-
vas, mas para o que também concorreu o luxo da erudição e a com-
modidade de quem escrevia. Palavras taes como politica, tíieologal, não
podião de modo algum ter origem popular. Aqui está uma razão de
a lingua apresentar fórmas que obedecem a leis diversas, e fórmas di-
vergentes: assim em nedeo e nítido, ambas do latim nitidus, temos
duas epochas da historia da lingua muito distantes uma da outra.
No sec. xvi a influencia dos eruditos, que como que alatinarão a
lingua, foi extraordinária. Esta influencia manifestou-se de varias ma-
neiras: introduzindo-se vocábulos e construcçõcs novas; fazendo-se
retomar uma fórma mais latina a palavras que já a tinhão perdido
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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
47
com a evolução natural da lingua, do que resultou que, por exemplo,
em vez dos vocábulos archaicos zeo, iffante, meor, etc. tenhamos hoje
zelo, infante, menor, etc ; alterando-se a orthographia, e não raro con-
comitantemente a pronúncia, havendo, em virtude do primeiro facto,
AA. que em logar de esse, escrever, paciência, constância, reino, escre-
vião epse, escrepver, pacientia, constantia, regno ! Assim a Igreja e a
litteratura influião muito. Quanto mais auctoridade tinhâo os AA.,
mais profunda era a acção d'eíles. Do vocabulário camoniano, etc. se fi-
zerão já listas. Ao mesmo tempo que a influencia se dava na gram-
matica e no léxico, dava-se também no estylo.
Uma lingua que desde muito cedo tem influído na nossa é a hes-
panhola. Muitos vocábulos vem por intermédio dos dialectos da raia.
Também se não ha-de esquecer a influencia da litteratura, do sec. xv
ao xvn, tendo, como tivemos nos sec. xvi eocvn tantos AA. que escre-
verão em hespanhol.
Por causa das conquistas dos portugueses nos paises extra-euro-
pêus, a nossa lingua enriqueceu-se igualmente. Com as novas raças,
cujo sangue veiu misturar-se ao nosso, e com os novos productos ar-
tísticos e naturaes, vierão também novos vocábulos.
No sec. xvi a lingua apparece-nos já quasi como hoje: isto re-
sulta, em parte da evolução natural ; em parte da influencia dos erudi-
tos, influencia que não tem cessado até hoje, pois que, num país pe-
queno como o nosso, a acção da lingua litteraria na popular é muito sen-
sível. Os graramaticos não exercerão acção evidente : basta notar que
a primeira grammatica, que ó a de Fernão de Oliveira, nunca teve
2.* edição, senão neste século, c como curiosidade bibliographica; da
segunda grammatica, que é a de João de Barros, só se fez 2. a edição
no sec. passado. No sec. xvi ha ainda formas como liía, algiía, bua,
mi, moura, que toda a gente conhece de Camões.
No sec. xvn a litteratura esteve em grande decadência; mas não
devemos suppor por isso que a lingua soffreu muito, pois são coisas
differentes o estylo e a grammatica. Neste século introduzem-se po-
rém bastantes gallicismos, por causa das guerras de D. João iv, em
que os franceses lhe prestárão auxilio. Nos séculos seguintes, em que
as nossas relações intellectuaes com a França forão tão assignaladas,
maior tem sido a acção do francês, o que tanto no sec. xvm como
no xix tem motivado reparos e censuras da parte dos escritores ver-
náculos e dos patriotas. EfFectivamente é uma falta de dignidade mas-
cavar de propósito a lingua com estrangeirismos desnecessários.
No sec. xvm os escritores tentão, no estylo, imitar o classicismo
quinhentista; a lingua propriamente dita é com leve differença como
a de hoje; a própria orthographia aproxima-se bastante da actual.
Por influencia do theatro introduzírão-se no nosso vocabulário alguns
italianísmos. O desenvolvimento das sciencias physico-naturaes e ma-
thematicas contribue para o augmento do léxico (grecismos, etc);
ésta influencia vinha porém já de longe, pois desde o sec. xyi que pos-
suímos litteratura scientifica.
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fcKVISTA LUSITANA
No léxico da lingua moderna é cada vez mais pronunciada a in-
fluencia do francês; do inglês também recebemos certa quota; as ou-
tras línguas modernas influem menos. Não se pôde negar alguma
acção do estylo francês no nosso; sem fallar dos exaggeros dos ro-
mancistas da eschola realista, por toda a parte se vê que a nossa
lingua vae perdendo aquella amplidão de phrase, aquella complexi-
dade syntactica, que caraterizavão um Barros ou um Àrráiz. Sem
embargo, já no sec. xvn Antonio VieSra usava e abusava do es-
tylo cortado e symetrico. No verso tornárão-se hoje intoleráveis cer-
tos vocábulos que ainda nos árcades tinhão voga, como natura, Ím-
pio, e os adjectivos em -ace, -oce (fugace, atrocej, etc. ; formas mesmas
como 8oidão e perla, ainda usadas por Garrett, raro as empregará um
poeta actual, O estylo poético adquire cada vez mais a naturalidade
da prosa. O jornalismo, com a sua litteratura ligeira, e o theatro,
com a sua pronúncia afectada, contribuem bastante para a alteração
da lingua. Aqui em Lisboa é frequente ouvir dizer êrôi (heroe) e
mi-nis-tro, porque assim se diz no theatro de D. Maria, quando a pro-
núncia normal d^quellas palavras é irói e menistro. A orthographia
é que levou os cómicos àquellcs erros. E' também por influencia da
orthographia que se diz Catharina em vez de Caílierina (Cath'riva),
orthographia e pronúncia antigas, como bem o mostra o anagramma
Nathercia.
2. Lingua popiãar.
Ha razões para crer que a lingua não foi formada no Norte, e
depois propagada para o Sul com a reconquista do território aos Ára-
bes. De facto o latim estava por toda a parte, e os Árabes erão to-
lerantes para permittirem o uso do romanço. Que no Sul, antes das
conquistas de D. Alfonso Henriquez, se fallava já português e não
hespanhol infere-se do onomástico, como Tejo e Lisbõa^qnQ obedecem
á phonetica portuguesa e não á hespanhola; vocábulos, como indés e
caivêra, usados nos dialetos do Sul, não pódem ter provindo de vocá-
bulos análogos do Norte, o que parece levar a concluir que elles se
formárão directamente do latim local. Uma excepção notável é a pa-
lavra Mértola, que, devendo vir de uma fórma *Mirtula, mantém o l
contrariamente ás leis da lingua portuguesa; mas essa palavra, como
Mértola fica na raia, pôde explicar-se por intermédio de um antigo
dialecto raiano de transição.
A lingua antiga constituía dialectos segundo as regiões. O nosso
conhecimento dos dialectos antigos é restricto. Gil Vicente é o auctor
que melhor representa a lingua popular do sec. xvi; Sá de Miranda
e outros AA. ministrão-nos também alguns dados. Anteriormente ao
sec. xvi podemos colhêr elementos nos documentos latino-barbaros o
noutros. Do sec. xvn em deante podemos utilitar os orthographos,
que, ao passo que condemnão as formas populares, as vão enumeran-
do, e podemos utilizar a litteratura de cordel e os diálogos popula-
res introduzidos pelos AA. dramáticos etc. nas suas obras. Já alguns
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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA
49
AA. antigos estabelecem diferenciações dialectaes, como Fernão de
Oliveira no sec. xvi, Viterbo e Argote no sec. xvm. Argote foi o pri-
meiro que esboçou, embora imperfeitamente, um quadro geral da dia-
lectologia portuguesa. Ao rebuscar nos documentos, encontra-se por
exemplo tombro e adernas como formas trasmontana e estreraenha do
sec. xv; chavádego e molete como fórmas interamnenses do sec. xvi.
Do sec. xv em deante a lingua portuguesa experimentou uma
notável expansão, indo constituir alem-mar os dialectos insulanos o
os ultramarinos (creoulos, etc). No Brazil a própria lingua litteraria
tomou uma feição especial.
As relações dos dialectos continentaes modernos com os antigos
são muito difflceis de apreciar. Aqui referir-me-hei pois sómente aos
dialectos modernos.
A linguagem que se falia no país não é uniforme por todo elle.
Já nos meus opúsculos sobre a Dialectólogia Portuguesa, e na Retnsta
Lusitana me tenho occupado dos fallares nacionaes, que constituem
co-dialeetos, dialectos, sub-dialectos e variedades. Os co-dialectos são,
alem do gallego (fallando na Galliza), o mirandês, o riodonorês e o
guadramilês. Os dialectos são no Norte o interamnense e trasraontano,
no Centro o beirão, no Sul o constituido pelos fallares da Estrema-
dura, Alemtejo (com Olivença, na Hespanha) e Algarve. Os sub-dia-
lectos e variedades são divisões dos dialectos. Não posso aqui entrar
em explanações, porque já tenho cansado demasiadamente os meus
amáveis ouvintes.
Como noutros paises succede, as variações dialectaes da nossa lin-
gua correspondem ás variações ethnicas, geographicas, sociaes, etc,
sem que por ora se possa sempre precisar o grau de dependência em
que as primeiras estão para com as segundas: assim entre o Tâmega
e o Corgo falla-se uma linguagem; para lá do Tua falla-se outra; o
Doiro separa em certos pontos o dialecto beirão do interamnense; no
Alemtejo, como houve talvez menos grupos ethnicos primitivamente, c
como ha menos ondulações de terreno, e uma unidade de costumes
mais pronunciada do que, por exemplo, em Tras-os-Montes, não te-
nho encontrado tantas variações dialectaes como nesta ultima provín-
cia, exceptuando a zona comprehendida entre Fundão e Portalegre,
zona que aliás geographicamente também offerece factos especiaes;
o vocabulário da gente baixa da capital é muito mais culto do que o
de qualquer outra terra do país.
Nunca se estabelece passagem brusca de um dialecto para outro ;
entre elles fleão linhas de transição, como se observa por exemplo na
linguagem de Rèsende, que tem phenomenos da Beira e phenomenos
do Entre-Douro-e-Minho.
Algumas pessoas podem admirar-se de eu empregar a palavra
dialectos applicada ás variações da nossa lingua, que são pequenas em
relação, por exemplo, aos paióis franceses ou suissos e aos dialetti
italianos; mas, em primeiro logar, a palavra já foi usada por gram-
maticos do século passado; em segundo logar, a questão não é de
KKY. lusit., vol. in, fase. 1. 4
50
REVISTA LUSITANA
grau, é de essência. Ora ha differenças essenciaes das falias de umas
regiões para outras, differenças que, embora ás vezes possão passar
despercebidas a certos observadores, são no entanto perfeitamente
claras para o philologo. Também o vulgo confunde com frequência
duas rochas, dois metaes ou duas doenças que para um geólogo, um
mineralogista ou um medico differem por completo entre si. Alem
d'estas considerações geraes, temos ainda os dialectos gregos, aos
quaes ninguém, desde a antiguidade, recusou ainda esse nome, e que,
comtudo, segundo creio, não se afastarão mais uns dos outros do que
os meus queridos dialectos portugueses l .
Assim, depois de ter demonstrado aos Srs. a importância do es-
tudo do português archaico, de os ter levado numa pequena digres-
são pela antiga Lusitânia, com o fim de lhes expor mais conve-
nientemente a implantação do latim no nosso território, o de os ter
feito assistir um momento á origem e expansão histórica do idioma
que falíamos, resta-me, ao concluir, manifestar os meus ardentíssimos
desejos de que todos se interessem por estes assumptos, tão novos,
tão importantes e tão curiosos, embora difficeis, — com o que contri-
buiremos também, para que, como disse com vehemencia o nosso
grande poeta e patriota Almeida Garrett:
i A distribuição dos dialectos do continente português foi mostrada num
mappa geograpbico manuscrito que fiz de propósito, e que foi o primeiro que se
fez a respeito dos dialectos de Portuçal. Este mappa esta publico na Chorographia
de Portugal illustrada, do meu amigo Ferreira Deusdado, Paris 1893, mappa
correspondente á pag. 16 (texto).— Sobre a classificação dos nossos dialectos vide
RtvUta Lusitana, i, 191 sqq., e mais recentemente o meu opúsculo Sur le diale-
cie. portugais de Macao, Lisbonnc 1K92, pag. 5-0.
Não se acabe
A lingua, o nome português na terra!
Disse.
J. Leite de Vasooncbllos.
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CIGANOS PORTUGUESES DOS FINS DO SEC. XVI
CIGANOS PORTUGUESES
DOS FINS DO SEC. XVI
Os documentos qae adiante se publicão, relativos uns directa ou-
tros indirectamente aos ciganos, são copia dos registos dos 24 livros
das legitimações e perdões da chancellaria de D. Filippo i, conser-
vados no Real Archivo da Torre do Tombo.
A orthographia não é alterada, as abreviaturas são desenvolvi-
das entre parentheses ; tornou-se também necessário empregar a pon-
tuação quasi abolida pelos escrivães.
L— Dom Phillippe Etc. faço saber q(ue) João Chachiro, E Mar-
cos órfão, e An(onio) Fer(nande)z preto, m(orado)res no lugar de ga-
fete, me enviarão dizer p(er) sua petição, Que jndo hú Mardou 1
G(onça)l(ve)z, Sebastião Diaz, Cortes e Fr(ancis)co Mendez, siganos,
é companhia Doutros ao dito* lugar, estando elles pacíficos, E p(or)
liurare sua faz(end)a do q(ue) lhe vião fazer, p(or) seré Mujtos,
a Rançarão todos hus contra os outros e da briga sajra ferido na ca-
beça o Mardou G(onça)l(ve)z, ho sebastião diaz cõ hua pedrada na
cabeça, eoutra no Rosto, eo mesmo a Cortes. E p(or) seré sãos se
aleijão ne desformidade, lhe p(er)doarão como constauão dos p(er)dões
q(ue) apresentauão, pedindome q(ue) ouuese a tudo resp(ei)to, E lhe
p(er)doase aculpa do caso; e R(eceberi)am M(erce). E visto seu Re-
q(ue)rim(en)to e hú pareçe cõ hú meu pase, ey p(or) bê e me p(ra)z
se asy he e mais não ha, De p(er)doar aos sop(lican)tes a culpa do
ferim(en)to f(ei)to aos çiganos de q(ue) faz menção, v(is)to o q(ue)
alegão, e p(er)dão Das partes e pagarão cada hú v c reis p(ar)a a pie-
dade, e p(or) os pagare ao esmoler vos mando Etc. na forma. EIRej
noso s(enh)or o mandou p(e)los doutores M(elchi)or do Amaral e An-
t(oni)o da Gama Etc. G(asp)ar Velho a fez e lix(bo)a a xiiij de Março
De m v° lxxx9.
(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, 11. 121).
H— Dom Fellipe etc. Faço saber que Fr(ancis)co Fer(ei)ra,
m(orad)or no lugar dallmoster termo da villa de sãtatem, me eraviou
dizer que elle serujra de allcajde no dito lugar ho ano de ojtenta e
tres, ou t(em)po que na verdade se achar, e ora p(eso)as suas jmjgas
o forão acusar as devasas Janejrjnhas, que na dita viÚa se tirão pelo
Juis dizendo que elle sup(lican)te prédera hús ciganos, e os tornara
i A* margem : asy o dizia.
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52
REVISTA LUSITANA
a soltar c lho tomara pejtas, pesas de pano, mãtoes 1 ; e prendera ou-
tras mais p(eso)as e as soltara sem mãdado do Juis por lhe darem
dadiuas e gejras de serujço e que no ano de ojtenta e hú hú (sic)
R(odrig)o Rombo que no dito lugar seujra (sic) de Juis, se quejxara
delle sup(lican)te de palavras que lhe disera em hna ausência, que se
o topara elle Juis cortado a sua parojra, lhe quebrara hú corno na
cabeça, e outras pallavras Injuriozas e elle Juis fisera hú auto delle,
e ho mãdara ao dito Juis de sãtarem que pronuciasse (con)tra elle
como fose Just(iç)a, e ora lhe era mãdado, que se liurase das ditas
cullpas, pedindome lhe perdoasse as ditas culípas; e v(is)to seu Reque-
rimento e hú pareçe com hú meu pasc, ey por bem, se asy he
como ho sup(licante) dis he his mais não ha de lhe perdoar a cullpa,
que cometeo sendo allcajde de soltar o cigano pelo modo que decla-
ra, e asi as pallavras que dise em ausência do Juis por lhe cortar
sua parejra, v(is)to o perdão da parte Imformação que se ouue p(e)lo
C(orreged)or da coraarqua, e pagara dous mill r(ei)s p(cr)a as des-
p(e)sas da mesa do despacho e por quãto os já pagou a Sallvador
Mendes vos mãdo etc. na forma. ElÍRej nosso s(enh)or ho mãdou
p(e)los doutores Damjão d'A guiar e Jeronjmo P(erei)ra de Sa etc.
Cristouão Calld(ei)ra o fes em Lix(bo)a aos trjnta de out(ub)ro de m
b° lxxxbij (1587) lucas v(iei)ra o fes esqreuer.
(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, fl. 374 v.).
III. — Dom Felype Etc faço saber que Afonso F(e)r(nandc)z,
m(orador) na uyla De segura, me enuyou dizer per sua petyção q(ue)
na devasa q(ue) os yuizes da dita uyla tirarão, o culparão dizendo
q(ue) yndo os syganos pelo campo, ele sup(lican)te lhes tomara duas
buras e hú pouquo de fato, de que fora preso pelo dito caso, E es-
tando preso, fogira pela porta sem quebrar feros nem romper parede,
e per q(ue) ele sup(lican)te hera home pobre, e tinha molher e filhos,
me pedia, lhe perdoase a culpa da dita fogida; e reçeberya mercê. E
visto seu requerim(en)to e hum pareçe com hú meu pase, ey por bem
e me praz se asy he como diz e mais não ha, de lhe perdoar a culpa
da fogida da cadea, de q(ue) faz mésão pela man(ei)ra q(ue) declara
visto o que alega e paguara quoatro çentos r(ei)s p(ar)a as despesas
da mesa do despacho dos desembargadores do paço, e por quanto os
tem paguos ao recebedor das ditas despesas como se uyo per hú sen
C(onhecimen)to e por outro do escrjuão de sua reçeyta de como nela
la ficão carcgados, vos mãodo etc na forma. Elrey noso s(e)nor ho
mãodou pelos doutores Yeronymo Pereyra de Sa c Belchyor do Ama-
ral (Christ)ovão Cald(ei)ra a fez em Lyx(bo)a ha quinze de mayo de
mil c quynhentos e oytenta e nove. Luquas Vyeira a fez escrever.=
Leva a clausula q(ue) tomara carta de seguro dentro em trynta dias.
(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, fl. 441.)
i Mantoes, pl. de manto ou montol, «vestido de mulher» segundo o Diccio-
nario de Moraes.
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CIGANOS PORtUGtiESES DOS Í*INS DO SÊC. XVI
53
IV. — Dom Felype etc. Faço saber que Antonyo Diaz, morador,
em Vyla Nova da Era me emvyou dizer por sua petição, que auera
seis meses pouquo mais ou menos, que elle seruja de alcayde e car-
sereyro na dite vyla, e tendo presas tres molheres syguanas, por se
dizer, que erão culpadas no ftírto de tres buros, forão sente nçeadas
em pena de asoutes com baraço e pergão e tres anos de degredo pera
angola, e depões de feita axecuçâo dos asoutes, baraço, e pregão em
todas tres, lhe fogira hua delas da corente onde estauão todas, es-
coando hua o pe do trebelho, e isto de noite andando elle sup(lican)te
vygiando a tera, e as outras duas estauão ora na uyla de Santarém
na cadea, pera yr comprir o degredo, e ele sup(lican)te a fora buscar
loguo por muitas partes dalcnteyo; e pagara a outro orne, que tam-
bém a fora buscar loguo por m(ui)tas partes sem a achar, e por que no
caso não ouuera, nem auya parte, por que os donos dos ditos buros
os acharão, e dyserão que não queryão das ditas presas cousa algua,
e na dita vila não avya cadea senão a dita casa do alcaide e carce-
reyre, e ya se fizera ha dita emxecusão do baraso, pregão e açoutes,
e ele sup(lican)te era orne m(ui)to pobre e casado careguado de filhos,
me pedia, auendo a tudo respeito, lhe perdoase a culpa da fogida da
dita presa, e mandase que contra ele se não procedese; e reseberja
merse, e visto seu requerjm(en)to e hú parese com ho meu pase, ey
por bem, e me praz se asi he como diz, e hy mais não ha, de lhe per-
doar a culpa de lhe fogir a syguana sendo carsereiro, pelo modo que
declara, visto o que alegua e a ynformação do C(orregod)or da co-
marca, e paguara mil r(ei)s pera a piedade, e por os ya ter paguos
ao recebedor de minha esmolarja, a que ficão careguados em receita
pelo eserjuão de seu carguo se ujo tem per seus asinados, vos mãodo
etc. na forma. Eli Rey noso S(e)nor o mãodou pelos doutores Melchjor
dAmarall e Lourenço Corea. Fr(ancis)co de Pauja a fez em lyx(bo)a,
aosonze de yulho de mil e quinhentos oytenta e noue e eu fr(ancis)co
nunez de pauya a fiz escrever.
(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, fl. 449 v.).
V. — Dom felyppe etc. Faço saber que João G(onça)l(ve)z Sain-
cho, m(orad)or na ujla de segura, me emvyou dizer por sua pitição,
que estamdo elle preso na cadea da dita vyla por se dizer, que elle
com outros saltarão no termo delia em campo com hu sigano, e lhe
tomarão duas bestas, e o Roubarão de m(ui)to fato, e estando emtre-
gue ao cac(erei)ro e trazendoo solto sem feros lhe fogira pela porta
sem Romper parede, e yuntam(en)te fogira também hu A(fon)so F(er-
nand)iz que estaua preso pclla mesma culpa, e ya ouuera perdão da
dita fogida, e por q(ue) ele sup(lican)te se querya lyurar, me pedia
ouuese por bem de lhe perdoar a culpa da dita fogida. E R(eceberia)
M(ercê), e visto seu requerym(en)to e hú parese com hú meu pase,
ey por bem, e me praz, se asy he como diz e mais não ha, de lhe
perdoar a culpa de fogir da cadea pelo modo que declara, vysto o que
alegua, e paguara quatrocentos r(ei)s pera as despesas do despacho
54
REVISTA LUSITANA
dos desembarguadores do paço, e por quanto os ya pagou ao resebedor
do dito d(inliei)ro como se uyo por hú seu c(onhecimen)to, e por outro
do escryuão de sua receyta de como nella ficão caregados, vos raãodo
etc. na forma. Eli Rey noso s(e)nor ho mãodou pellos doutores Da-
myão dAgujar, e Jeronymo P(erei)ra de Sa etc. (Christ)ovão Cald(ei)-
ra a fez em Lyx(bo)a a quatro de set(emb)ro de mil e quinhentos
oytenta e noue. João da Costa a fez escreuer. = Leua a clausula q(ue)
tome carta de seguro em trimta dias.
(D. Felipe i, Liv. i dc Legitimações e perdões, fL 467.)
VI. — Dom ftlipe etc. Faço saber q(ue) João Diaz natural da Villa
de Beringel, e preso na cadea da vylla d' Alcácer do Sal me emuiou
dizer per sua petição, q(ue) estando preso como estaua, hus ciganos e
outros minarão e Romperão neste anno de nouenta e sinco a dita ca-
dea e delia fogirão algus presos, q(ue) logo na noyte em q(ue) fogi-
rão, tornarão a ser presos e metydos na dita cadea, tirando hu dos
ditos syganos, que depois fora preso nesta cidade de lix(bo)a, do qual
Rompim(en)to da cadea se tirara devassa sem embargo delle sop(li-
can) te não fogír nem sayr da dita cadea, antes ficar quieto nella, o
culparão com os maes, e o mandauão liurar e per q(ue) era pobre, e
o sostentaua a my(sericordi)a, e auia m(ui) 10 t(em)po q(ue) estaua
preso, e se não podia liurar, me pedya lhe perdoasse a culpa q(ue)
desião ter no RompimCen)* 0 da cadea, avendo Resp(ei)to a não fogir
delia, e ser pobre, da qual culpa era mãodado liurar, E R(eceberia)
mercê. E v(is)to seu Requerim(en)to e hfi parece cõ hu posse, ey per
bem se assy he como o sop(lican) 10 dis e mais não ha, de lhe perdoar
a culpa de não descobrir a fogída dos presos pollo modo q(ue) decla-
ra, v(is)to o q(ue) alega e a ymformação do ouuidor da coraarqua, e
pagara mil reis para as dcsp(es)as da casa do desp(ach)o, e per os
ter pagos ao Resebedor dos ditos dcsp(es)as como se uio per hu seu
c(onhecimcn)to e per outro do escriuão de seu cargo vos mãodo etc.
na forma. EIRey nosso s(e)íior o mãodou pellos doutores damyão
daguiar, etc. e Jerónimo P(e)r(eir)a de Saa etc. Francis) 00 de Pauia
a fez en Lix(bo)* a tres de nouembro de mil e quinhentos noueta e
sinquo, e eu Francis)™ Nunes de Pauia a fiz escreuer.
(D. Felipe i, Liv. v de Legitimações e perdões, fl. 143).
VII. — Dom Felipe, etc. Faço saber q(uc) Belchior Bugalho,
m(orad) or na Villa de Sousel, me emviou dizer per sua petição q(ue)
seruindo de alcayde e cac(e)r(eir)° na dita uilla tinha preso em seu
poder quatro presos, e hua noute do mes de set(emb)r° de nouenta e
sinco, as duas oras depois de mca noyte lhe minarão a cadea, e ouvindo
o Rebolisso dos presos acodira a dita cadea, e a achara minada, e ao
tal t(em)po era fogido hu sigano, q(ue) estaua preso por sfc dizer fur-
tar hu cauallo, e bradara a minha Vos, e acodindo gemte estrouara a
fogida aos outros, q(ue) na dita cadea estauão, e logo como fora ma-
nham se fora em busca do sigano que lhe auia fogido, e o achara, e
CIGANOS PORTUGUESES DOS FINS DO SEC. XVI
55
o prendeo, e ora o tinha preso na dita cadea como se podia ver da
çertidão q(ue) apresentou; e me pedia auemdo Respeito ao assyma
dito, e ser casado cõ sete f(ilh)°* lhe perdoasse a culpa q(ue) nisso ti-
uera, e R(eceberi)a mersse; e v(is)to seu Requerira(en) to e hu parece
cõ hu passe, ey por bem, e me pras de perdoar ao sop(lican) te a culpa
da fogida do preso sigano de q(ue) faz meção pollo modo q(ue) o de-
clara, v(is) to o que alega, e isto liurem(cn)te auendo Resp(ei) to a o
premder per sua emdustria vos mâodo etc. na forma. EIRey nosso
s(enh)or o mãodou pollos doutores Damião daguiar, e Dyogo Uaraeira
etc. Amt(oni) 0 Francis) 60 de Pauia a fez em Lix(bo)* a dezaseis de
dez(emb) ro de mil quinhentos nouenta e sinco, Fr(ancis)co Nunez de
Pauia a ffez escrever.
Leua clauzulla q(ue) este perdão lhe não vallera chamãodosse o
dito presso a ordens ou a ymmonidade de ygr(ej) a .
(D. Felipe i, Liv. v de Legitimações e perdões, fl. 211).
Vm. — Dom Felipe, etc. Faço saber q(ue) Sebastião de Mid(ei)-
r 0 *, m(orad) or na Villa de Ferre(eir)* do Cãopo de Ourique me emviou
dizer por sua petição, q(ue) sendo elle alcaide e carcereiro na dita
Villa o anno passado de 592 sendo-lhe emtregue preso hu Grabyel de
Sousa, cigano per culpa de ser achado com hu pouquo de fato furtado
q(ue) poderia valer mil r(ei)s, lhe fogira da cadea, da qual culpa da
fogida tinha perdão, de que eu lhe fizera mercê, c fogindo lhe da ca-
dea fora tras elle, e se acolhera a ygreja da dita Villa, e sobira ao
telhado delia, e elle sop(lican) te lhe Requerera q(ue) se desese do te-
lhado, e se desse a prisão, e elle o não quisera fazer, e per não que-
rer decer ne tornarse a prisão, elle sop(lican) to lhe tirara cõ híla pe-
dra de q(ue) o ferira, e lhe fizera nódoas de q(uc) loguo fora são, e
desaparecera da ygreya, e elle sop(H)(can)te se poscra em livramten) 10 ,
e fora citado per éditos, e ávido por sitado, e lamcado de parte, e o
feito se persegia, per parte da yust(iç) a ; E por q(ue) era pobre, e ti-
nha molher e f(ilh)os q(uc) manter, e andava amorado me pedia ou-
uesse por bem de lhe perdoar algfia culpa, se a no caso tiuera, per
q(uan) 10 o dito cigano fora o era são sem aleiyão, e sem desformidade
e apresentava certidão dos termos é q(ue) estaua o feito, e R(eceberia)
m(ercê); e v^s) 10 seu Requerim(en)to, c hu parece cõ ho meu passe,
ey per bem, e me praz, se asi he como o sop(li)can) te diz, e mais não
ha de lhe perdoar a culpa do ferimento da pedrada e nódoas, de q(ue)
faz menção polo modo q(ue) o declara, v(is) to o q(ue) alegua, e pa-
gara 500 r(ei)s para a piaded em Lix(bo) a a dous dabril de 593. E
per q(ue) elle tem pagos os ditos. 500. r(ei)s ao Resebedor do d(i-
nhei)r° aplicado a piedade a q(ue) ficão caregados em Reseita pollo
escrivão de seu cargo como se vyo per seus asinados per tãoto vos
raãodo, etc. na forma. EIRey o mãodou pollos doutores Belchior dama-
ral e Damião daguiar, etc. Francis) 00 Nunes de Pauia o fez em Lix-
(bo)* aos oyto de mayo de mil 594.
(D. Felipe i, Liv. vi de Legitimações e perdões, fl. 248).
56
REVISTA LÚSITAÍÍA
IX. — Dom Felipe etc. Faço saber q(ue) Vasquo Diaz, m(orad) or
na Villa dArraolos me emuiou dizer per sua petição, q(ue) sendo elle
cac(erei)r° na dita Villa o anno de nouemta, e tendo nella presos na
cadea de baixo e a bom rrequado tres siganos q(ue) andavão vadios
pollo Eeyno, e hu escravo per nome Andre pollo furto de hua eguoa
e de certo d(inhei)r° de seu s(enh)or, o p(adr) e Manoel Diaz q(ue) lhe
fora tomado na continente q(ue) o furtara e fiquara emtregue o d(i-
nhei)r° a seu dono e a eguoa, os ditos presos lhe fogirâo hua noite
de tempestade minando a cadea sem culpa do sopílican)* hua das noi-
tes do fim de dezembro do dito anno ; e per q(ue) elle sopClican)* 6 ti-
nha feito deligencias polias terras vezinhas sem os poder prender,
nem achar como constaua das certidõis e estromten)* 0 q(ue) offerecia,
me pedia lhe perdoasse a culpa de lhe fogirem os ditos presos, o Rc-
seberia mercê; e v(is) to seu Requerimten) 10 e hu parece co hu passe,
ey per bem, e me praz se assy he como diz, e mais não ha, de lhe
perdoar a culpa de lhe fogirem os prezos sendo cac(erei)r°; v(is) to o
q(ue) alegua e ymformação q(ue) se oue pollo c(orreged) or da co-
marqua, e pagara mil r(ei)s p(ar) a as despes)** da mesa do despa(ch) 0
do desembargo do paço, e por q(uan) to os ya pagou ao resebedor do
d(inhei)r° das ditas desp(es)as como se vio per hu seu co(nhecimen)to
vos mãodo etc na forma. EIRey nosso s(enh) or o mãodou pollos doutores
Belchior d Amaral e Damjão d Aguiar etc. Christouão cald(ci)r* a fez
cm Lix(bo)a vinte seis dout(ubr) 0 de mil 594 Lucas Vieyra a fez
escrever.
(D. Felipe i, Liv. vi de Legitimações e perdões, fl. 345).
X. — Dom Felipe etc. Faço saber que M(anu) el da Costa,' m(ora-
d) or na cidade de Portalegre me êviou diser que o ouuidor do priorado
do Crato o premdera na dita villa do Crato por ser culpado é hu fe-
rimento que fora feyto a llujzote cigano no termo da dita villa, Imdo
o Juis de fora da dita cidade com gente de pee e de cauallo a pena-
da e que elle sup(lican) te entraua em segiraento do dito cigano e dou-
tros de sua companhya, e elle sup(lican) t0 se liurara do dito caso, e
per sentença da Rolação sairá solto e lyure, e estaua nella preso per
m(anda) d0 do dito ouujdor que lhe dera hOa herdade sua no termo da
dita villa por prisão, da quall se sahira e fora a dita cidade de Porta-
legre e outras partes, e sendo achado menos o dito ouvidor fizera au-
tos e aos xiiii d(ias) do íues de março pello encontrar no campo dentro
das terras da dita herdade o premdera e o emtreguara ha hu t(abeli) am
Sebastyão Moutel e de sua mão fogyra não estando ajmda peguado
nelle nem fazemdo outra allegua Registencia, e o d(i)to t(abeíli)* m lhe
tjnha p(er) doado, me pedya lhe p(er) doase a cullpa que tynha nas
ditas duas fogydas, vtis)* 0 ser livre do caso primcipall, E R(ecaberia)
Mercê; E v(is)to seu Requerimento e hu parece com ho meu pase ey
por bem e me praz de p(er)doar ao supílican)* ha cullpa de se sajr
da prisão, e de fogir dos maãos do t(abelli) am . pollo modo que declara,
v^is)* 0 ho que halegua, e o p(er)dão do t(abeli) ftm , e paguara nyll r(ei)s
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y DIÁLB0T0S TRASlfONTÁNOS
57
para as despesas da casa do despacho que paguão R/* delias he forão
sebrelle per seu scripvam correguados e Recepta vos mando etc na
forma. El Rey ho mandou pellos doutores Amt(oni) 0 da Guarna lie
Damjam dAguiar. Belchior pinto a fez é lix(bo)* aos xxx d(i)as do
mes dabrill de m. b c . lxxxvij João da costa a fez escrepver,
Leua clausola que tome carta de seguro em xxx d(ias).
(D. Felipe i, Liv. vh de Legitimações e perdões, fl. 52 v.).
(Continua).
P. d' Azevedo.
DIALECTOS TRASMONTANOS
(Contribuições para o estudo da Dialectologia Portuguesa)
V
LINGUAGEM POPULAR DA JUNQUEIRA
A Junqueira é uma povoação próxima da Matella (vid. Dial
trasm., i). Na occasião em que fui á Matella, uma mulher da Jun-
queira ditou-me a seguinte xácara:
1. Indo eu por hi l a baixo
A saber dos meus amores,
Incontrei * um laranjal
Carregadinho de flores.
5. Deitei-me á sombra d'elle,
P'ra que me num 9 queimasse o sol.
Lá pio meio da noute
Oubi cantar o reiooinól 4 .
— Reixinol que tão bem cantas,
i Na Beira também se diz p'r' hi a baixo. Propriamente deye eecrever-se i,
pois que é o lat. i b i , com prothese de a.
* Vid. Dial. trasm,, i, 8.
s Jb. f i, 17. A fórma num é também muito commum na Beira. Vem da arch.
nom, em próclise.
* = roixinol. Parece haver influencia de rei, do mesmo modo que no hesp.
mod. ruUehor (ant. rp»ehol f rosehorj houve influencia do nome próprio Bui, pedido
pela terminação -sehor. — A fórma reixinol apparece também noutros pontos :
vid. Trad. pop. de Portugal, § 295.
ÍOCViSf A LUSITANA
10. Adonde fostes 1 aprender?
— Ós palácios da rainha,
D'onde o rei stubàiscreber 8 .
O rei 'staba na baranda 8 ,
E a rainha no quintal:
15. Atiraba-se um ó ótro 4
Com pedrinhas 5 de cristal.
Stabão colhendo laranjas,
Do seu rico laranjal :
As agras a Untem 6
20. E as doces a rial,
Aquellas mais bonitinhas
22. Diz 7 qu' erão para el-rei jêntar s .
Tanto pelo que se vê do texto e das notas, como pelo que eu
pude observar directamente, a linguagem da Junqueira não differe,
ou, se differe, é em pouco, da da Matella.
E' Chayes, como se sabe, uma villa sobre o Tâmega, no Norte
de Tras-os-Montes, a poucas legoas da raia gallega. Corresponde á
antiga Aquae Flaviae. — Nunca fui a Chaves, mas, tendo fallado por
vezes em 1885 com um homem natural de lá, e qup a esse tempo es-
tava doente no Hospital da Misericórdia do Porto, que eu então fre-
quentava como estudante, observei nelle a maior parte dos factos que
constituem este artigo; os outros obtive-os de diversas proveniências.
1. O e tónico tem o valor do e mirandês (e hespanhol), que eu
designo aqui por è, — ex.: sèmos, esta, bès, comèu, morreu, sempre,
tlmpo, òrèlha, bUho, etc. Este som do è fica entre é e ê normaes
portugueses, e é muito vulgar na raia trasmontana.
i
1 = fotte, muito coramum no país todo, assim com -* analógico.
8 Lêde sta-bài êcrc-ber (= estava a escrever).
8 b = v. Vid. Dial. traem., i, 12; cfr. supra, oubi, no verso 8.
* Vid. Dial. traem., i, 1.
5 Com o e surdo. Na Beira- Alta, por ex. : diz-se phdrinha.
6 Vid. not. 7.
7 O povo costuma empregar muito a fórma impessoal diz no sentido de diz-
se (lat. dicitur, etc).
8 —jantar. Também se usa na Bei ra -Al ta. — Lat. jentare.
VI
LINGUAGEM POPULAR DK CHAVES
A) Phonologia
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DIALECTOS TUÁ81I0NTAN0S
59
2. a) O ditongo litterario ú soa aqui âi, como na Beira- Alta, por
ex.: râi (=ra).
b) Igualmente a -em litterario (tónicò) corresponde aqui -ãi, como
na Beira-Alta, por ex.: bãi (=bem), tãi (—tem), ãi (=em). Esse di-
tongo ãi é âi nasal. Cfr. Dtal. trasm., iv, 15.
3. O o tónico creio ter também o valor do o mirandês e caste-
lhano, por ex. : òrUha, òsso, òbo, pòbo. Como fiz com o l, represento-o
aqui por ò. O som ô supponho não existir popularmente em Chaves,
como decerto também não existe ê.
4. a) As nasaes não tem a gutturalidade das do Minho; são-no
como na Beira-Alta, — por ex.: campo, irmã., irmãs, irmão, irmãos.
b) As vogaes antes de consoante nasal são nasaladas, como em
grande parte do país, — por ex.: nino.
c) Em hòme perdeu-se a nasalidade final, o que succede frequen-
temente no Norte do reino (nas syllabas com e átono).
d) Os seguintes factos, porém, que recolhi, mostrão que en (em)
átono tende a tornar-se in (im), por ex.: dizim, bindèr, timporada,
fázim.
5. O ditongo litterario ou é constantemente substituído por õu,
— ex.: mouco, papoula, cansou, acfiõu-a, sou, õu, matou. Este phe-
noraeno, que eu notei também nos arredores de Bragança, é muito
característico do Norte trasmontano. — Cfr. adeante. — Sobre o valor
do ou cfr. Gonçalves Vianna in Bev. Lusit., i, 162 e 224. Este som
estende-se á Beira-Baixa: vid. A. Alves in Bev. Lusit., n, 241.
6.. Existe o som ch, por ex.: em chúiba, — o que é característico
dos dialectos do Norte do Mondego.
7. Não posso assegurar se existe ç ao lado de s, com quanto te-
nha notadas nos meus apontamentos as seguintes palavras : sòco e ça-
patos. O que só posso assegurar é que pelo menos existe o som do s
(i. é, s reverso da Beira-Alta). E' todavia muito provável que os dois
sons existão.
8. O som v é substituído por J, facto corrente na raia trasmon-
tana.
9. Nos dissyllabos la e òa não se evita o hiato pela intercalação
de uma vogal, como succede em muitos pontos do país: assim temos
em Chaves cèa (=ceia), mias (= meias), aldèa (= aldeia), dhçt (=dê);
até mesmo ouvi achha (=achei-a). Igualmente boa, abòa, e não, como
por exemplo, em Mondim da Beira, bôua. De facto, se em Chaves o o
se ditongasse neste caso em ou, teríamos, em virtude do § 5, õu; por
tanto não pôde ter havido illusão acústica na observação de bòa e
abòa.
10. Temos s impuro no principio das palavras: strila, sprito, stá.
Este facto é corrente no Minho.
11. Diz-se anindastes e ane fostes tu a par de ancCindastes e ande
fostes tu, por onde andaste, etc. Temos de considerar aqui dois factos.
O primeiro é que ande está rigorosamente por aonde (pronunciado
*aõde) e não por onde, reduzindo-se aon (* ão) a an (S) na próclise, como
60
REVISTA lusitana
succedeu com mão em mancheia, tãobem em também, etc. O segando fa-
cto é a assimilação do d á nasal precedente, do que resultou n, por ser
n o som nasal que ha mais semelhante a d; este facto tem parallelos
noutros pontos do país, por exemplo no Sul, onde ouvi inàgóra (=inda
agora), etc.
12. Adjectivos. — O adjectivo sò é biforme, contrariamente ao que
succede na lingua litteraria: temos pois em Chaves, como em grande
parte da raia trasmontana, sò e sua, correspondentes ao lat. solus,
sola. Cfr. abo e abòa.
13. Números. — O plural de anel, funil, guarda-sol, é respectiva-
mente anães, funiles, guarda-soles, talvez porque aquellas palavras
recebão um -e de encosto, analogamente ao que succede em muitos
pontos do país, — anele, funíle, guarda-sõle, vindo então os pluraes a
ser regulares. Quintal faz no plural quintaíles, representando eu por
1 um l gutturalizado, devido á influencia do a. — Em vez de maçã
ouvi fiação, com o plural analógico maçõis; mas será isto um facto
geral, ou devido a alguma influencia individual (do Minho) £
14. Pronomes. — Diz-se mõu, tõu, sõu (por meu, teu, seu), quer em
próclise, quer absolutamente, como : tõu pai, sou pai, é môu. Isto é,
temos em mõu, tõu, sou o mesmo som que em mouco, notado no § 5.
Para não ter dúvida na pronúncia, mandei pronunciar ao mesmo tem-
po, de um lado mõu e mouco, e do outro lado mõu e comlu (§ 1), ha-
vendo igualdade no primeiro caso, e perfeita distineção entre ou e èu
no segundo. — Estes pronomes devem explicar-se por *moii, *tou t
*sou, pois em mirandês temos tou e sou, sobre os quaes vid. o meu
Dial. mirandês, pag. 20.
15. Verbos. — Eis várias flexões avulsas :
a) Ser faz sèmos, sèdes, são (por somos, sois, são). Slmos segue a
analogia da 2.* conjugação (temos, vemos, etc); sèdes segue a analogia
de sèmos. E' todavia interessante verificar-se aqui a existência do d
archaico na 2. a pessoa do plural. A fórma semos é vulgar no país.
b) O verbo querer, proclitico, tem a fórma quês, na 2. a pessoa do
singular do presente do indicativo, como em: quês ir (= queres ir);
cfr. Dial. beirões, vi, pag. 15. Ésta fórma quês existe também na lin-
gua archaica, e o Sr. Adolpho Coelho, nas Questões da ling. port., i,
419, explica-a por syneope intervocalica do r de queres, estabelecendo
comparação com mãe — madre, coew£r0 = coriandrum, e proa =
prora; mas nem a explicação, me parece boa, nem os factos compa-
rados são análogos. Sobre a fórma mãe vid. a minha Evolução da lin-
guage, pag. 74, onde tentei uma explicação. Em coriandrum e
prora, o r cahiu respectivamente por dissimilação. — A fórma quês
vem de qxier^s por assimilação do r ao s (absorpção) ; a fórma queres,
por queres (syneope), ainda hoje se diz.
c) Sobre dízim e fâzim, vid. § 4-cif.
d) Sobre comlu, morrèu, etc, vid. § 1.
B) Morphologia
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DIALECTOS TRASMONTANOS
61
e) O presente do conjunctivo de dar é dia (§ 9). Também a um
meu condiscípulo de Alijó ouvi «p'ra que se dm» (—dê), e creio ter
ouvido ésta fórma noutras localidades. O a final talvez seja devido a
alguma analogia. /
f) Diz-se mixo (= mexo). Deve expliear-se por influencia de mi-
xer (= mexer), pois um e átono ao pé de x palatiza-se. E* assim tam-
bém que se diz em alguns pontos acoméde-se, por influencia de acome-
dar-se (dissimilaçáo de accornmodar-se), considro por influencia de con-
siderar (== considerar), etc. Quero dizer: segundo as leis da lingua,
mexo, accommôde-se e consiãé>'o não podiâo de modo algum tçr dado
directamente mixo, acoméde-se e considro, por serem tónicas as vogaes
é e ó, e por isso resistentes; mas em mexer, accommodar-se e conside-
rar o caso muda completamente de figura, porque essas vogaes são
átonas, e por tanto sujeitas a quédas e a mudanças, conforme os ca-
sos. — Isto são factos elementares de glottologia, mas não faz mal in-
sistir nelles.
16. Partículas. — Cito aqui advérbios e interjeições:
a) Diz-se ande c ane por aonde (através do *ãoãe) em próclise:
vid. § 11. Eis outro exemplo ffic' and 1 ó Porto», por tfica ao pé do
Porto» ; aqui and! tem o mesmo valor que no Minho em phrases aná-
logas.
b) cFni pY àlá* (=para lá). A fórma alá é corrente na raia, e
também existe em gallego.
c) Desantão (com e surdo) = desde então.
d) Como advérbios de quantidade: tantinho e manto.
e) ido (adv. interrogai), tonde?». Do arch. tdlo = ubi illum
(* ub'lu-) % Fórma mui usada em Tras-os- Montes.
f) Éch ou éche (com ch, não x) é uma interjeição que corres-
ponde a é verdade, etc. Exemplos: «Eu tenho e tu não, écfc/»; «A*/
tu não foste».
O) Vocabulário
Abòa, avó: cfr. § 12. — As fórmas archaicas erão avoo e avoa,
como no hesp. abado e abada, respectivamente do lat. *aviólus e
* a vi o la. Em gallego também ha avoa: vid. Valladares, Dic. gaU., s. v.
Abundar, trazer. — Ex.: tabonda cá esse pau!». Do lat. abun-
dara tendo porém havido grande desvio de sentido.
Alà, lá.— De a + ta = lat. (il)lac.
Aláijado, aleijado. — O português aleijar formou-se sobre alei-
jão, i. é, alejão a-lejão, do lat. laesion^m, onde si intervocalico deu
normalmente j, como em arch. cajom = (oc)casionem. O i desen-
volvesse entre e e j, por influencia da palatal, facto corrente na
lingua.
And', aonde. — Vid. § 11.
Anibôstre, amigo. — Ex.: tF. é munto anibestre de F.» [?|.
Anta, certo peixe do Tâmega.
Antão, então. — Vid. desantão.
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62
REVISTA LUSITANA
Binder, vender.— Vid. §§ 4rd e 8.
Boura, pancada. — Esta palavra não a ouvi; foi um amigo quem
m'a comraunicou. Deve porém ser btiura, em virtude do § 5.
Oadòlo, pedra de açúcar K
Oadúlo, terra encoscorada com a geada.
Capucha (com ch, não x), chalé. — Os povos serranos da Beira-
Alta, usão uma espécie de manto, que cobre a cabeça e parte do cor-
po, substituindo assim o chapéu, — e também se lhe chama capucha.
De cap(a) -ucha. Sobre o sufflxo -itdw, -a, vid. Revista Litsti.j n,
271; sobre a etymologia de capa, vid.: Diez, Etym. Wõrterb., i, s. v.
cappa; e Kõrting, Lat- Wórt., s. v. cappa.
Oaraohat, caramba! — A fórma caratnba veiu-nos do hespanhol;
párece ter dado caracha por simples troca da terminação -amba por
-acha, em virtude de euphemismo: cfr. Diacho por Diabo. Efectiva-
mente o suffixo -acho, -a, aqui tem valor depreciativo: cfr. Rev. Lusit.,
ii, 272.
Oarambélo, gêlo. — Cfr. Dial. trasmont., i, Vocab., s. v.
Oaròlo *, pedaço de pão. — Na Beira- Alta também se diz tum
carolo de pão», significando um pedaço de pão de milho sem côdea.
Oarpins, meias curtas (de homem). — Ad. Coelho, Dic. etym., deri-
va esta palavra de crepins (de crepe).
Ohúiba, chuva. — Do lat pluvia. A fórma chuiba representa
a arch. chuiva, fórma anterior de chuva.
Oibo, bocadinho. Ex.: tum cibo de pão». — Na Beira- Alta tam-
bém se diz assim, e tum cibinho».
Oortínlia, terra de semeadura, cercada de parede. Cfr. Viterbo,
Elucidário, s. v. — De córte (cfr. Viterbo, ib., s. v. cortinhal), do lat.
cohortem (cortem). A palavra coriínha é também usada no Baixo-
Minho.
Des, desde. — Vid. desantão.
* Desantão, desde então. — A fórma des (com e surdo) é vulgar
hoje em certos compostos, como desonte (desde ontem), etc., e é ar-
chaica: lat. de ex. Antão também é muito vulgar (Beira, etc.) = arch.
entam = arch. entom <lat. in tum.
Eido, logar.— Creio que se diz, mas não affianço (porque neste
ponto os meus apontamentos estão incompletos): cFoi ao vento — Per-
deu o eido*, — rima infantil correspondente a
muito usada noutras partes (cfr. Rev. de glottolog. e de ethnolog., pag.
48). O etymo de eido é o lat. adi tum: vid. D. Carolina Michaélis,
1 Segundo as minhas notas, nesta palavra ouvem- se dois 11, sendo o primeiro
gutturalizado.
2 Faço a respeito doesta palavra a mesma observação que na nota a cadolo.
tFoi ao vento — Perdeu o assento»
e «Foi ao ar — Perdeu o logar 9
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DIALECTOS TRASMONTANOã
Studien zu Hisp. Wortdeut., § 16. — Esta palavra usa-se no Minho,
e ein gallego, onde significa : cterreno cerrado y cercano á la casa de
su duerio», e tsitio qualquiera que no se quiere expresar» (VaDada-
res, Dic. gallego, s. v.). A ultima significação parece ser correspondente
á que o vocábulo tem em Chaves; a primeira significação existe no
Minho. Na Beira- Alta conheço a palavra apenas no onomástico.
Endo, logar. Ex.: «fui ao endo*, «fui áquelle endo* (creio que não
ha confusão com eido). — Terá alguma relação com a fórma ant. ende,
que significa d'ahi, etc?
Qalafura, buliçoso. — Cfr. gallego gaUarufa e gallaroufa: «agi-
tação, barulho, algazarra» (Valladares, í>ic. gall.-casb., s. v.).
Indar, andar. — Será fórma commum?
Ingaliar, pegar ao soco.— Cfr. gallego galear, que significa
«gallear, alzar la voz com amenazas» (Valladares, ib., s. v.). O radi-
cal é evidentemente gallo-,
Inxações, injecções. — Por etymologia popular.
Jarmim, jardim.— Por influencia de jasmim?
Jolho, joelho. — Ésta fórma assenta immediatamcnte na archaica
geolho. Em gallego também ha jollo (e gioullo) : vid. Valladares, Dk.
gall.-cast, s. v. jdlos e giouUos. O etymo é o lat. genuculum *, que
deu successi vãmente : * geolho > geolho > giolho >jolfio.
Lameiro. — Perdeu-se-me a nota em que tinha a significação d'esta
palavra, mas creio que lameiro significa o mesmo que na Beira- Al ta,
i. é, «um campo á beira do rio, onde se cria successivamente herva
para o gado e milho» (um prado natural). De lama -}- -eiró.
Mação, maçã. — Assim se diz no Minho. Será geral em Chaves?
Majar ioo, mangerico. — A fórma primitiva é majarico; do
\J major ana -f- -ico ? Sobre majorana cfr. Kõrting, Latetnisch-romaniches
Wõrterb., § 493.
Mandil, avental.— O etymo d'esta palavra é árabe. Ainda hoje
temos o ditado:
Em Abril
Agoas mil,
Coadas por um mandil.
Miola, tutano. — Na Beira- Alta também se diz miólas, mas no
sentido de pão de milho. Do lat. medulla, através de *meola.
Manto, muito. — Vulgar no país.
Nino, ninho. — Parece ser troca do suffixo: -ino por -inho. (Nos
meus apontamentos tenho nota de que o i de nino é nasalado).
Nísoarro, cogumello. — Na Beira- Alta, etc. diz-se míscaro (e
também já ouvi miscarro). De al-miscar. O o final explica-se como
1 Por gmiculum. O deminuiti vo genuculum, ou antes genuclum, encon -
tra-se no verbo congenuclare, citado por Nonius : cfr. Diez, Gr. 4. I» rom. i,
14 ; Bréal & Bailly, Dict. eft/m. lat, s. v. geriu.
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64
EB VISTA LUSITANA
em BUaro = Victor: Dial. interamn., in, 22. A mudança de m em n é
mais difflcil de explicar: cfr. porém nespra (nespera) do lat. *mesp'la
(de mespilum); também em fr. nefle, it nespola, hesp. nespera: o
que leva a crer que neste caso n por m remonta ao latim vulgar.
Palhito, palito. — Influencia de palha; concorreria também o
facto de os dentes se poderem espevitar com uma palha, como muitas
vezes se faz. <
Pantalònaa, calças. — Também se usa noutros pontos da raia.
Do hesp. pantalon (pL pahtalones). Cfr. Kõrting, Lat-Wõrt, § 5861 e
8913: a palavra provirá de Pantaleorij nome próprio tornado com-
mum, facto de que ha muitos exemplos nas línguas.
Pinasoo, pino para jogar. — De pino -{--asco. — Cfr. Kõrting,
Lat.-Wôrt, § 6147.
Pitar, traçar.
Pòta, cântaro de barro. — Fiminino de pote.
Poula. (Encontrei esta palavra num jornal da localidade, o qual
porém se me extraviou. Supponho significar «terreno para pasto de
gado». Lat pabulum).
Repòlga, cogumelo que se cria nos castanheiros. Do [/repullulare,
isto é, de *repullicare (cfr.repullescere)> «repolgar. A' mesma
família pertence repolho. O p intervocalico não abrandou em 6, se-
gundo a regra, por causa de re-, cuja funcção como prefixo se fazia
ainda sentir: cfr. receber de recipere (que, se não fosse isso, de-
via dar rezcber), a par de concipere 1 percipere 9 etc.
Sòa, fem. de só. — Do lat. sola. Cfr. § 12.
Stauladas, (stau-la-das), pàuladas.
Tamaninho, um bocadinho. — De tamanhinho; o nh parece que
deu n por dissimilação (nh-nh).
Tantinho, um tanto, um pouco. Ex.: *Tantinho de pão». — Te-
nho ouvido ésta palavra em muitos pontos de Tras-os-Montes.
Timporada, temporada. — Cfr. § 4— d.
Ulo, «onde?». — A' lettra: «onde o?». Cfr. § 16 — e.
Os factos precedentes não são bastantes para se poder caracte-
rizar com elles perfeitamente a linguagem de Chaves; todavia alguns
encontramos que a fazem entrar no sub-dialecto raiano. Da anályse
de maior número de factos havião de certamente resultar mais analo-
gias com o gallego do que aquellas que citei. Alem da vizinhança da
Galliza, existião outr'ora relações sociaes muito íntimas entre esse
país e o território português fronteiro : ainda no sec. xvi o Castello de
Picona (na (xalliza) pertencia ao senhorio de Montalegre, e pagava
fóros ao senhor de Chaves *.
* Vid. Viterbo, Elucidário, s. v. caêttUaiico ; e cfr. também b. v. cesteiro e
jugada inteira.
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DIALECTOS TRASMONT A NOS
65
vn
UNGUAGRM POPULAR DK V1LLARANDELL0
Esta povoação fica no concelho de Val-Paços. Sobre a linguagem de
Val-Paços vid. Bev. Lusit, n, 255 sqq. (artigo do Sr. Joaquim de Cas-
tro Lopo). O que adeante vou dizer é extremamente pouco, pois, como
a respeito de muitas outras terras me succede, baseio-me em aponta-
mentos tomados avulsamente e ao acaso, segundo as occasiões.
1. O o tónico aberto é exactamente como em Fornos (Freixo-de-
Espada-á-Cinta) : vid. Dial. trasmont, m, § 1.
2. Distingue-se 8 de ç, também como em Fornos, etc.: vid. Dial.
trasmont, m, § 2; e cfr. Lopo, in Bev. Lusit., u, 255.
3. Ouvi dizer rão em vez de rã (cfr. Dial. trastnont, vi, vocabul.,
s. v. mação), mas irmã (e João).
4. Verbos. Diz-se fái (por faz) e hái (por ha, impessoalmente),
formas correntes na raia.
5. Pronome possessivo. Diz-se (segundo as informações que
tenho) tmow pai», «íow pait. t»ow pai» (com o feminino miiúia, tua,
sua): cfr. Dial. trasmont., vi, 14.
6. Usa-se, como em Chaves (Dial. trasmont, vi, § 16-e) a fórma
ulo, mas, segundo as informações que me derão, ulo parece correspon-
der a elle, por ex.: «q'é ftuloU, tq'é ftulaH, em interrogações. —
Em Gil Vicente também apparece ulo (ullo) ; essa fórma é vulgar na
raia trasmont ana e minhota: vid. Dial. interamnenses, vin, pag. 21.
7. Vooabulos avulsos : f tirão (como em Amarante) significa
«mercado pequeno», dando -se o nome de feira a um grande; matriar
diz-se de uma ferida que suppura (matriar ==materiar, pois que na
linguagem vulgar matéria é synonimo de pus).
vm
LINGUAGEM POPULAR DE VIMIOSO
Fallando em Agosto de 1888 com um soldado natural da villa de
Vimioso, observei o seguinte.
A) Phonologia
1. O e aberto e fechado do português ordinário pronuncia-se em
Vimioso com um só som, intermédio entre o nosso é e ê, isto é, com
o som do e hespanhol. O mesmo succede com o o, que é também igual
ao o hespanhol. Não ha differença pois nas vogaes tónicas de pêra,
phna, pldra, pè, èle, èla, èsse, issa, etc., e nas de ;>ò, pòdre, pòbre, pòço.
RBV. LUSTT., VOl. III, faSC. 1. 5
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HJ5VISTA LUSITANA
(Este facto foi também verificado por outras pessoas que assistirão á
conversa). — Cfr. Dial trasmont., iu, § 1, etc.
2. O en (em) atono pronuncia-se como no Porto e em Miranda,
isto é, com e surdo, ex. : pZnsamhito, sVntimànto.
3. Ás nasaes não tem a gutturalizaçâo do Minho, são pronuncia-
das como em Lisboa, ex.: cpto, irmy (cfr. adeante, x, 5-a). Ao mesmo
tempo que ouvi a pronúncia do soldado de Vimioso, ouvi a de gente
de Lisboa que estava ao pé, e confrontei uma pronúncia com a outra.
4. O ditongo ou pronuiicia-se bn, ex.: <nwuro, pessõua, deixõu (i.
é, daixõu, vid. § 6), soa, etc., — com um u muito distincto. Cfr. Dial
trasmont., vi, 5.
5. No fim das palavras -em soa êim (i. é, ci nasal) nos verbos:
còrrêim (= correm), fúgéim, etc. O soldado syllabou clarissimamente
fú-gêim. — Nos substantivos o -em desnasaliza-sc : home, Urgi (=vir-
gem, vid. § 8); onte.
6. O -em tónico dá -âl (i. é, âi nasal), como em Lisboa e na Beira-
Alta: bintâl, tdí (=tem). Da mesma maneira ci dá âi, como em râi,
sai (=rei, sei).
7. O -ao conserva-se: andarão.
8. O -e atono depois da palatal dá -í: fwji, bírgí.
9. Não existe o som ú do Fundão. O u tem o valor normal por-
tuguês.
10. O v é geralmente substituído por b, como em bhúio ( = vi-
nho), ttba ( = uva), etc. Diz-se varba ( = barba), por dissimilação.
11. Differençarse ch de x, como em todo o Norte.
12. Differença-se / de ç (tendo ç o valor que tem no Porto, e/o
valor que tem na Beira) : çapato, fapo. A mesma distincção ha entre
z e/intervocalico: zelo, dezde, coifa. No fim de palavra e antes de con-
soante surda osé attenuado, como em caspa. — Esta distincção entre
/ e ç , de um lado, e / intervocalico e z, do outro, tenho-a observado
cm toda a raia, desde o Minho até Almeida (na Beira-Baixa).
13. Não existe l gutturalizado. O soldado dizia cuVpa, sil e ba, cai*do,
com o mesmo l que em lata. (Este facto foi observado por várias pes-
soas. Com l ú quero apenas indicar que o l soa como em lata, etc.). No
fim diz-sc mie, qnintale, com um <* de encosto, como no geral do país.
1 4. Diz-se tibo (por teve), fórma que tenho ouvido noutros pontos.
15. Em pausa, diz-se mia, tki, siu; mas em próclise ha tendên-
cia para dizer moa, toa, sou, ex.: tmõu pai», *tm prinio*. Cfr. Dial
trasniorit., vi, § 14. — Esta variação phonetica dos pronomes possessi-
vos conforme a sua posição na phrase dá-se noutros pontos do país.
Purfalha, migalha de pão. — Alteração phonetica de farfalha ;
B) Morphologia
O) Vocabulário
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DIALECTOS TRÁ8M0NTAN0S
o a deu e, por dissimilação (*f&rfdOia; cfr. selada, etc.), e depois w,
por influencia da labial vizinha.
Lourigão, ratazana.
Orelhada, bofetada. — De orelha.
IX
LINGUAGEM POPULAfi DE BRAGANÇA
O moderno termo Bragança está em vez de *Brigantia, atra-
vés de Bregança, que Viterbo cita no Eltwidario. Quando em 1884
estive era Tras-os-Montes ouvi muitas vezes dizer ao povo dos arre-
dores da cidade Brègança (com e aberto). Todavia Bragança já appa-
rece em • documentos do tempo de D. Sancho 1.° l ; eu tenho encon-
trado em vários documentos antigos ora Bergança, ora Bargança.
0 pouco que se segue colhi-o numa noute que passei em Bra-
gança, em 1884.
A) Notas grammatioaes
1. Existe o ditongo ia em fria (=frio), tia ( = tio), pia (=pio),
palavras que são por éonsequencia monosyllabicas. Este ditongo é
análogo ao dos verbos fugia, carpiu, etc.
2. Diz-se vinder, pintiar, etc.; isto é, en (era) atono dá in (im):
cfr. Dial trasmont., v, § 4-d. Será phenomeno commum?
3. O o é aberto em porco, ôbo ( = ovo) e ôsso, como acontece em
toda a raia trasmontana. Este o tem provavelmente o valor do o hes-
panhol, já notado acima: Dial. trasmont, vm, 1.
4. Distingue-se ch de x.
5. Num epitaphio, no cemitério da cidade, encontrei dest? (=des-
tricto) e administrativo, onde se observa a dissimilaçâo de i-i, a qual
é geral no reino.
6. Verbos. Dar faz dárão (por dérão); o pret. da 1* conj. re-
gular é cm -érão, como casérão-sc (=casárão-se). Parece que também
se diz dou por deu.
7. Usa-se a phrase «ir and' 6 Sr. F.», que significa «ir a casa do
Sr. F.». Cfr. Dial. minhotos, i, § 14.
B) Vocabulário
Alustres, relâmpagos. — Já o P. e Carmelo, no seu Compendio
de Orthographia, Lisboa 1767, pag. 516, traz o termo alastro como
popular, sem porém dizer de que região. Em mirandês diz-se rdisto e
rdistrar; em gallego (Dicc. de Pinol, s. v.) lôstrego. — A fórma bra-
gançana assenta no lat. *lustrum (cfr. lustrare); para o gallego
1 Viterbo, Elucidário, s. v. Bemquerença.
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68
RR VISTA LUSITANA
tem de se admittir *lustricus; nas mirandesas parece ter havido
influencia de lista e listra.
Bragançano, de Bragança. — Esta fórma representa a anterior
de braganção, usada na litteratura antiga: vid. o meu art Notas de
onomatólogia portug., in Bev. de estudos livres, i, 42-43.
Oasula, gancho de ferro no mangual ou malho.
Oerdeiro (masc), cerejeira. — Na Beira- Alta diz-se cerdeira
(fcin.). Este nome cerdeira existe também no onomástico e em gallego.
Gogo, pedra. — Conheço este termo noutras localidades.
Mangueira, cabo do mangual.
Meã, uma das correias do mangual.
Mirandelo, de Mirandella. — E' assim que os de Bragança cha-
nião aos habitantes de Mirandella («os mirandelos»). Não é este o
único caso de o nome da terra, tornado masculino, fazer de nome pá-
trio ou gentílico; os nossos antigos também diziáo os Japòes\ etc.
Pinchar. — Este verbo é transitivo, ex.: «o burro pirwliou o
dono», i. é: atirou com o dono ao chão. Sobre jjinch ar, cfr. Cornu, Die
Portuff. Sjrrache, § 136 (ainda que o etyino *pessulare, que elle
dá, é difficil de justificar).
Pírtigo, a parte batente do mangual (i. é, a extremidade).
Raparigo, menino de collo. — Também em Miranda.
Ribeiro, variedade de trigo. Synonimo de serôdio e tremês.
Rôr, grande quantidade. Ex.: tc'um ror de coisas». —Formado
de (horjror, em próclise. Muito vulgar no reino.
Serôdio. — Vid. ribeiro. — De serotinus (* serbdvo).
Sidouro, correia do mangual.
Terra, região. Ex. « Terra de Bragança», * Terra quente» ^Mi-
randella), € Terra de Vinhaes».— Era uma designação geographica
muito usada antigamente. Já num doe. do sec. xni (Elucidário de Vi-
terbo, s. v. Aziníioso) se lê: «terra de Bragança e Miranda». Esta
designação encontra-se ainda hoje noutros pontos do Norte, ex. : « Teri a
da Feira», « Terra da Maia».
Tremês. Vid. ribeiro. — De *trimensis.
Ulo. Na expressão «q'é d'ulo?» ( = que é d'elle), usada na Lom-
bada, c. de Bragança. Cfr. Dial. trasm., vn, 6, e vi, 16-/".
E a isto se reduz o que por ora tenho a respeito da linguagem
moderna de Bragança. — Dizem-me que em Outeiro, c. de Bragança,
ha algumas particularidades de linguagem dignas de nota. — O conce-
lho de Bragança é um dos mais importantes do reino quanto á glot-
tologia, pois nelle se fallão, alem do português popular, ou diale-
cto geral trasmontano, dois idiomas que não são propriamente o por-
tuguês, mas seus co-dialectos : refiro-me ás falias de Riodonor e Gua-
dramil. — Era viagens de reconhecimento dialectologico, que em 1883
e 1884 fiz pela província de Tras-os-Montes, colhi bastantes elemen-
tos, que successi vãmente irei publicando. — Um doe. do sec. xv, citado
no Elucidário de Viterbo, s. v. estremo, diz: «...os de Bragança,
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DIALECTOS TítASMOÍíTÁNOS
69
como gente simples e de estremo». Isto significa que Bragança, pela
sua posição geographica, e pelas condições sociaes dos povos do con-
celho, está em circurastancias especiaes: taes circumstancias refle-
ctera-se admiravelmente na linguagem.
X
LINGUAGEM POPULAR DE CASTRO D J AVELLÃS
Castro d^vellãs, ou co Crasto», como lá dizem, fica ao pé de
Bragança. Estive lá em princípios de Setembro de 1884. Quem sae
de Bragança segue primeiro por uma estrada macadam, depois atra-
vessa uns montados de mato; a poucos passos avista a povoação ro-
deada de campos frescos e verdejantes, com um riacho pelo meio,
atravessado por um pontão; á entrada do log&r encontra uma fonte,
do systema trasmontano. O logar é pequeno e de casas humildes. O
arvoredo vicejante que as cobria, quando cu lá fui, fez-me comparar
aqnelle sítio, assim bruscamente risonho entre as agruras selváticas
da província, com uma paisagem minhota. Tanto eu me julgava por
um momento, não nas margens de Fervença, mas nas do Ave ou do
Limai Castro d'Avellãs possue uma igreja antiga, a porta de cujo
adro está ladeada por dois leões de pedra, a respeito dos quaes ura
padre velho, que parochiava a freguesia, me contou uma lenda *. No
adro havia uma inscripção romana funerária, que hoje está, segundo
creio, no Museu de Guimarães. — Em Castro d'Aveílãs ou nos seus
arredores existem outros restos de antiguidades, que já tem sido as-
sumpto de estudos especiaes, que não vem aqui a propósito especi-
ficar.
Na minha curta visita pude observar alguns phenomenos de lin-
guagem. Ei-los.
A) Phonologia
1. Existe um o tónico muito mais aberto que em mirandês: fôme,
hóme, óbo, bós (=vós). A forma óbo, com o mais ou menos aberto, é
característica da raia trasmontana e de certas localidades da Beira.
Ouvi porém um o menos aberto no ditongo ai e ou; boi, anãmi. Fica
1 E' a seguinte: Outr'ora, num castello vizinho, que hoje já não existe, um
fidalgo entregou a mãe á fúria de dois leões. Depois, arrependido do matricidio,
confessou -se aos frades do Crasto, e foi condemnado por elles a encerrar- se vivo
num tumulo, levando coinsigo um fio do cabello da mãe, o qual immediatamente
se transformou numa grande cobra que o matou lá dentro. O tumulo mostra-se
ainda a um canto da igreja, e a memoria dos leões perpetua- se nos inoffensivos
monos de pedra que hoje guardão o adro. — E' esta talvez uma das muitas lendas
nascidas para a explicação de monumentos cuja significação se perdeu. A' cerca
do cabello mudado em cobra, cfr. IVad. pojt. de Portugal, % 282-,;, e Yevons, Plu-
tarcWs Horn. Quest, p. lxxxix. Já Medusa, etc. tinhão cobras na cabeça.
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REVISTA LUSITANA
pois estabelecida diferença: de um lado, entre simples o, do outro
entre oi e ou. No ditongo ou a subjunctiva u é pouco distincta.
2. O e é aberto em tésto (= testo).
3. Existe o ditongo âu com á claro, ex.: máu. — O ditongo eiem
rei soa éi (e não di): réu — Existe o ditongo íu em riu (=rio), tiu
(=tio); é o mesmo ditongo que lá se ouve em fugiu.
4. As vogaes o e e, quando tónicas e nasaes, são fechadas, ex.:
bénto, fônte, mônte, pôtUe. Cfr. porém no § 1 : hóme, fáme.
5. a) As nasaes não são gutturalizadas, como no Minho; são pelo
contrário sumidas; se as indicássemos, invertendo as vogaes, teríamos,
por ex. : Cypo, syto, cyo, myo, brio, mgte, etc. Cfr. Dial. estremenhos, i,
pag. 6. Em cyo, myo, etc, o o é pouco distincto.
b) A terminação tónica -em soa -ãi, como em Lisboa e na Beira-
Alta: bâi (com â) =bem; tãi = tem. Palavras que rímão com mãi.
c) Nas ligações de nasaes com vogal, como em bãi alto, iia, etc., o
hiato não se annulla com a intercalação de um n guttural, facto que
se dá noutros pontos de Tras-os-Montes e em certos locaes do Mi-
nho: cfr. Dial. interamn., vi, pag. 14.
d) Em gêrãro, têrdro, hônlra, em vez de genro, tenro, honra, está
intercalado um l gutturalizado, que ás vezes, porém, é pouco perce-
ptível. Este phenomeno que é vulgarissimo nos fallares estremenhos
(cfr. Dial estrem., i, pag. 10, § v), pôde parecer extraordinário aqui
nos arredores de Bragança; mas eu sem dúvida alguma o observei, e
comigo o observárão as pessoas que me acompanhavão, e cuja atten-
ção chamei para elle. — Na ligação de outras vogaes com r não o ob-
servei : irmã Rosa, um rato, um rio.
e) O en (em) atono ouvi-o pronunciar como êm, ex. lêmbrar. Mas
parece que a pronúncia offercce variantes, pois nas minhas notas te-
nho indicado o valor de ã ou um valor vizinho: pfear (= pensar).
f) Parece que as vogaes antes de consoantes nasaes são nasa-
lizadas, pois nas minhas notas tenho fmnos (= fomos), e a termina-
ção -ynJio, e -ynJia (cfr. adeante, § 13). "
6. Existe o som ch, como em todo o Norte, ex. : chabe, cacho.
7. O v é substituído por b, se não sempre, pelo menos ás vezes:
ábo (—ovo) etc.
8. Existe ç e / reverso; mas quanto a ser ç o de Lisboa ou
o do Porto faço a mesma observação, que fiz in Dial. trasmont., vi; 10.
Provavelmente é o ç do Porto. Assim temos : çapato e fapo. No fim de
palavra junta-se um e de encosto: luze, cruze, rapace, beze (=vez);
portuguefe, me/e (=mês). Temos pois as seguintes correspondências:
Por commodidade typographica, represento nas outras partes d'es-
te trabalho o som / por s, sendo porém s intervocalico a sonora do /.
Ç
f
z
f intervocalico.
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DIALECTOS TftASMONTANOS
9. O lat -ic(u)lu- deu -êUio: berméttio, etc. — A terminação lit-
teraria -enho (-enha) soa -atilio (=-anha), ex.: lanha (= lenha), tanho
(= tenho).
B) Morphologia
10. Artigo b pronome:
a) O artigo indefinido é um com o fem. tia.
b) O pronome pessoal é el com o plural éis. Cfr. Dial trasnwnt.,
i, 14. — Como o pronome elle perdeu o e final, o plural formou-se por
analogia com os nomes acabados em -el. E' pelo mesmo motivo que
na Estremadura dizem vais (pl. de valle, cuja pronúncia vulgar é vai)
e em Lisboa dizem Rilhafáis (= Eilhafolles, por influencia de folie,
cuja pronúncia vulgar é foi).
c) O pronome possessivo é mêu, etc.
11. Partículas.
a) Diz-se acá, como em gallego e como noutras partes da nossa
raia. Ex.: «trái aquillo pYòcá». Nesta phrase temos àcá, por causa
da crase do a fechado de p'ra com o a também fechado de acá.
b) Diz-se num (em próclise) por não. Ex.: *nnm dou fé».
c) Diz-se así (i. é, aft), que é fórma archaica.
12. Fórmas vrrbaes:
a) Existe a fórma impessoal hai. Cfr. Dial. trasm., i, 16. No plu-
ral, em próclise: hã-cTir.
b) O verbo trazer tem a fórma trai (por traz e traze, i. é, no
pres. indic. e no imper.).
c) De ser: eu foi *, tu fustes, el foi, nós fumos, bós fustis, eis
fórum. Nós sámos (por somos).
d) De ir: bós idi% éis í/õo (quasi bã o).
p) De sfor: no conj. stéijamos, fórma vulgar em todo o país.
f) Verbos regulares:
andei 2 labrêi 2 (= lavrei)
andéste 8 labrêste 3
andou 4 lábrôu 4
andemos labrêmos
andéstis labréstis
andêrum labrêrum.
g) As 2. 81 pessoas do plural acabão pois em -i.<?, como: fustis,
idis, andéstis. — As 3.** pessoas pl. do preter. acabão cm -eram (com
um e muito claro, e a nasal um pouco, — vid. § 5-a), como: andêrum,
i Aqui ouvi o o mirandês: fui (diverso de fui): vid. Flores mirandezas,
pag. 32.
* -éi, nào -aí: vid. § 3.
5 Assim tenho nas minhas notas, e não -stes (cfr. porém § 12 c, fustes),
* -ou com a subjunctiva u pouco distincta: cfr. § 1.
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REVISTA LUSITANA
jantêrum, limpérum, dérum, ou antes andéru, etc. — No imperfeito é
-álamos e não (como noutros pontos de Tras-os-Montes) -abámos: as-
sim acabábamos.
13. Derivação:
Formão-se deminutivos por meio do suffixo -anho (cfr. § 5-/). Ex. :
carranho (carro), çapatanho (çapato), pedrariha (pedra). Qualquer
d'aquellas palavras rima respectivamente com bánho, castanha, lavúia
(lenha), tanho (tenho). — Este suffixo -ardio deve explicar-se talvez
por -etúio (cfr. § 9), do lat -íneus.
15. Phrasks :
Num m'adbinha (por *não me lembra». Adbinha = adivinha).
Num dou fé (por «não dou relação, noticia»).
16. Vocábulos:
Diantéiro, adeantado. Ex.: to relógio anda dianteiro*.
Ih lgança, Bragança. — Cfr. Dial. trasm., ix, introd.
Do pouco que fica exposto, vê-sc que a linguagem de Castro
d'Avellãs, como a de Bragança, offerece caracteres do que chamo
isub-dialecto raiano»: cfr. §§ 1, 2, 8, 11-c, 12, etc.
Carragosa fica perto de Bragança. Numa rápida passagem por
lã, na occasião cm que fui a Bragança e Castro de Âvcllãs, pude co-
lher os seguintes factos, graças á bondade do Reverendo Parocho da
freguesia.
1. Phonbtica:
a) Na ligação a ágxva não ouvi o i que na Beira, etc. se costuma
intercalar para evitar o hiato.
b) O v 6 substituído por b: bi ( = vi), Birgem, etc. Igualmente
se diz braba, entraba, onde elle porém é etymologico.
c) Diz-se bãi (=bem): cfr. Dial trasm., x, 5-fc.
i Por cueirinhos.
* Por Belém. O e mudou se em a, por influencia do l.
O) Faotos diversos
14. Cantiga popular:
Cala, cala, meu menino,
Q'a mãizinha logo bãi:
Foi lebar os colèirinhos 1
A' fôntinha de Balãi *.
XI
LINGUAGEM POPULAR DE CARRAGOSA
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DIALECTOS TRASMONTANOS
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d) A mesma differônça que em Castro d'Avellãs notei, de um
lado entre ç— f } e do outro entre z—f intervocalico, notei-a na Car-
ragosa: cfr. Dial trasm., x, 8.
2. Flexões:
a) Verbos: fostes, fumos (cfr. Dial trasm., x, 12-c);/át, trâi,
hái (cfr., id., i, 16; e x, 12-a-b). — Não se diz binhera nem andibera,
como noutros pontos.
b) O plural do pronome d é éis: Dial trasm., x, 10-6.— Ha um
pronome indefinido ritum e niua: Cfr. em Viterbo, Éluc., 8. v. nemíi
(sec. xrv) e niú (sec. xiv), que hão-de ler-se nm e rifà (ou niii). A ori-
gem é ne(c) unus> *neuno> *neum. Por influencia do n inicial
desenvolveu-se uma nasal no e. Cfr. também itaL are. neuno, mod.
niuno, hesp. are. nenguno, mod. ninguno; gallego nengun e ningun
(Valladares, Dicc. gall., s. v.); asturiano ningun e dengnn 1 (Rato y
Hévia, Vocabul bable, s. v.).
c) O artigo indefinido fem. sing. é na.
d) O deminutivo de marúiâ é manhaninha, e o de fonte é fonte-
zinha (mas éstas duas formas encontrei-as nuns versos populares).
3. Phbases:
a) «Fostes a Vinkaes*?* j simiflcâo . €est * ehrio ^
«Molhastes-te ontem?») 81 ^ nmcao - €eòtaò e0 ™>?>-
b) «Não 3 nVaeórdot (náo me recordo).
c) Para indicar onde mora qualquer pessoa diz-se assim, por ex.:
t João dó Souto», «João dá Fonte», o que se deve explicar por «d'ao
Souto», «d'ó Fonte», onde a preposição a indica o sitio: cfr. em
Lisboa «aos Anjos», «a Campolide», etc Nos outros casos diz-se em
Carragosa, v. g. «campo do rio» (e não dó).
d) «Fostes guardar as éguas» é ir a uma festa, e não jantar lá.
e) Nomes de campos: Tràlatúda (onde parece entrar a preposi-
ção trás = t r a n s ) , Fonte relheiro.
4. Vocábulos:
Apôr, attribuir. Num verso: «fázem-no mal, e ap&f-m'o a mim».
De a-jxJr ; ou apponere.
Oàntigo, cantiga. — A palavra cântigo (masc.) é esdrúxula, = lat.
canticum. Em gallego também se diz cántiga (esdrúxula), mas a
palavra é feminina 4 . O português cantiga mal pôde explicar-se por
cántiga, por causa do deslocamento do accento; eu creio que cantiga
é um substantivo verbal de *cantigar (*canticare, sobre canti-
i Dengun pôde ser dissimilaçào de * nengun.
* Villa em Tras-os- Montes. Esta phrase é uma espécie de apodo. Ha ou-
tras semelhantes : assim Celorico da Beira tinha outr'ora o nome de Celorico dos
Bêbado» ou C. Bêbado (que se encontra em doe. ant.) ; ainda ás vezes hoje se diz
assim por sátvra aos naturaes da villa, mas estes respondem que é Celorico dos
bêbados gue vão de fora para lá.
9 Nas minhas notas tenho não, mas a pronúncia vulgar é certamente num.
* O asturiano offerece igualmente cántica e cántiga* : vid. Rato y Hévia,
Vocabulário bable, 1891, s. v.
74
REVISTA LUSITANA
cum); cfr. descante, de descantar. Não se pôde pensar num deminu-
tivo *cantícula, porque o í é breve, e daria e.
Oortinha, campo junto da povoação. Cfr. Dial trasm., vi, Vocab.
Devesa, matta.
Impalvurída, impalvur&da. Estas fórmas entrão nuns versos
populares, na expressão : agua impalvurida e impàlvurada (i. é, tuJrva
de pó). O etymo está em pulverem, i. é, pulverata, com o pre-
fixo -in. O suffixo -ida é pedido unicamente pela rima. A evolução
foi: *impulvurada (infl. do v) > * impelvtirada (diss.) > impàlvurada
(infl. do l).
Isoadal, campo que produz herva na primavera.
Lameiro, campo só com herva para o gado e não destinado a
sementeira de pão. Produz na Primavera e no Outono. D'aqui a ex-
pressão lameiro dJontono.
Palheiro, casa para guardar palha. — Esta palavra tem outras
significações em português; por isso a ponho aqui.
Regada. Parece que significa certa espécie de campo. Esta pa-
lavra colhi-a nuns versos pop.: tfazem-na cama naquella regada*.
Sequeiro, sítio par* recolher a lenha perto da casa. Em alguns
pontos de Tras-os-Montes tem o nome de várdia.
Terra, campo não murado.
Uva, cacho de uvas. Ex.: cdá cá uma uva*. O mesmo noutros
pontos da província.
Lisboa, Julho de 1893.
Recolhidas em Aldeia de Santa Margarida, concelho de Idanha-a-Nova
Em certos dias da quaresma, especialmente na semana santa,
percorrem as ruas, a altas horas da noite, alguns indivíduos, encom-
mendando as almas. Chegando a qualquer largo param, tocam uma
campainha, e em seguida cantam em estylo plangente:
J. Leite de Vasconcellos.
ALGUMAS TRADIÇÕES POPULARES
i
RNCOMMENDAB AS ALMAS
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ALGUMAS TRADIÇÕES POPULARES
75
O' almas que estaes dormindo
Nesse somno tão profundo,
Lembrae-vos que podeis estar
Amanhã no outro mundo.
Um dos encommendadores pede vários padre-nossos, pelos que an-
dam sobre as agoas do mar, pelos parentes de cada tim, etc.
n
O BRLOCISSIMO
Também durante as sextas-feiras da quaresma percorrem as ruas
grupos de rapazes e raparigas cantando o bellocissimo, cuja letra é a
seguinte:
O' Belocissimo O' Belocissimo
Senhor Jesus Christo, Senhor Jesus Christo,
Pela vossa morte e paixão. Pelos divinos cravos.
O' Belocissimo O' Belocissimo
Senhor Jesus Christo, Senhor Jesus Christo,
Pela vossa c'roa ^espinhos, etc.
e por esta fórma vão enumerando os martyrios de Christo.
m
ALVIÇARAS
Na madrugada de sabbado de alleluia vão-se dar as alviçaras
(boas-festas) á Senhora da Granja e á Senhora das Dores, e por fim
ao vigário da freguesia, cantando-sc cantigas allusivas á Resurreição,
com acompanhamento de violas, guitarras e adufes.
ftecordo-me que, á porta do vigário, se costuma cantar:
Acorde, senhor vigário,
Que já dá o sol na cruz:
Venha dar as boas festas
Ao Coração de Jesus.
O parocho costuma oferecer nesta occasião vinho e fructas seccas.
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76
REVISTA LUSITANA
IV
SERRAÇÃO DA VELHA
No dia conhecido geralmente por esta designação, percorrera as
ruas grupos de rapazes já um pouco embriagados, carregando com
um enorme cortiço. Chegando á porta das mulheres mais idosas põem
o cortiço no chão, e, fingindo que estão serrando a velha que se sup-
põe estar dentro do cortiço, gritam com toda a força : ai a nossa avó,
ai a nossa avô F....
E' costume ir chorar o entrudo á porta de indivíduos que se sabe
não gostarem que se lhes falle nalguns pontos ridículos da sua vida.
E' claro que esté costume provoca muitas vezes scenas de pugilato.
Os choradores d'entrudo são dois ou tres ; para reforçarem a voz
servem-se d'uma espécie de trombetas feitas de cabaças.
Trava-se entre elles o seguinte dialogo, ou análogo:
— O' amigo F. (nome de pessoas com que se quer gracejar),
estás tu lá ou não?
— Onde ha de elle estar, senão sentado ao seu lume, a conver-
sar com a mulher e com os filhos.
Todos. — E' verdade, é verdade!
— O 7 amigo, lembras-te ainda de quando mataste o porco?
— Pois não ha de estar lembrado, se até, sem elle saber, lhe
roubaram o rabo do porco no dia da matação.
Todos (rindo): — E' verdade, é verdade!
Deita-se fóra o entrudo, á meia noite de 3.» feira, disparando ti-
ros, queimando bombas e atirando á rua com vasos de barro.
ldanha-a- Velha, insignificante povoação distante poucos kilo-
metros de Santa Margarida, foi, segundo a tradição, a pátria do rei
V
CHORAR O ENTRUDO
VI
DEITAR FÓRA O ENTRUDO
vn
LENDA DE 1DANHA-A-VELHA
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ALGUMAS TRADIÇÕES POPFLARES
77
Wamba, e sabe-se que foi uma grande cidade; porém foi tal a quan-
tidade de formigas que alli appareceram num certo anno, que as crean-
ças, apenas nascidas eram logo accomettidas por enormes chusmas
(Testes insectos, comendo-lhes os olhos e matando-as instantanea-
mente. Resolverão então os habitantes abandonar a cidade e irem
s estabelecer-se no sitio onde hoje é a villa de Idanha-a-Nova *.
Os poucos que ficaram apresentam hoje um aspecto doentio, de-
vido ás febres endémicas que alli grassam; por terem o ventre proe-
' minente e o estomàgo muito desenvolvido são conhecidos pelo nome
de íeibedos de Idanha-a-Velha».
VIII
LENDA DO REI WAMBA
Wamba foi escolhido para rei quando andava lavrando os seus
campos. Quem lhe deu a noticia foi sua mulher na occasião em que
lhe apresentava para o jantar um gallo guisado com arroz. Elie não
deu credito a tal noticia e disse: «quando este gallo cantar, serei eu
rei de Portugal». O gallo saltou de entre o arroz e começou a cantar
como se estivesse de excellente saúde.
Outro prodígio não menos notável precedeu a acclamação de
Wamba: a vara da aguilhada com que conduzia os bois cobriu-se de
flores viçosas 2 .
i [Já na antiguidade se encontrão nos povos ibéricos tradições populares
análogas a esta. Avieno, no seu poema Orae maritimae, v. 156, falia dos Oes-
trymnicos, que tiverao de sahir do seu país pela abundância das serpentes :
Post multa serpens effugauit Íncolas.
Estrabão, Geographia, m, v, 2, conta que, em virtude de grande número de
coelhos que se criárâo nas ilhas Baleares, os habitantes se virão na dura necessi-
dade de buscar o auxilio dos Romanos. — J. L. dk V.].
* [Sobre o florescimento da aguilhada e factos análogos, cfr. as minhas
Trad. pop. de Port., pag. 105. Esta tradição já remonta a antiguidade : Silio Itá-
lico, Punicorum, xvi, 587-589; Ovidio, Metam, xv, 560 sqq.
A resurreiçâo do gallo em circumstancias parecidas, é também referida em
coutos populares nossos, que tenho ouvido. Uma vez o milagre realizou-se estando
uns padres a jantar em dia de confissões; um d'elles disse que seria mais fácil re-
suscitar e cantar o gallo que estava na mêza, já cozinhado, do que salvar- se certo
penitente, — e immediatamente o gallo se ergueu na travessa e cantou. — Sobre
este milagre vid. :
a) F. J. Child, The English and Scottish popular Battads, Boston, Parte l. - ,
pag. 233, n.<> 22 (Stephen and Herod), e Parte 6.-, pag. 502;
ò) H. Gaidoz, in Mélusine, vi, 24 e 25 (o qual cita também o auctor supra-
mencionado).
Nestes dois AA. se achâo reunidos muitos elementos comparativos para o
estudo do milagre, o qual tem sido muitas vezes tratado na litteratura oral e es-
crita de varias nações, e é já referido numa interpolação de dois manuscritos gre-
78
REVISTA LU8ITANA
Parece que, também segundo a lenda, a mulher d'este rei lhe
não foi de grande fidelidade, porque consta que elle proferira um dia
estas terríveis palavras:
Saiba Deus e todo o mundo
Que o rei Wamba que é cornudo.
IX
LENDA DA MATA E DA TORRE
À pequena distancia de Santa Margarida ha as insignificantes
povoações da Mata da Rainha e da Torre. A tradição explica a ori-
gem d'estes nomes pela seguinte fórma:
c Havia um rei mouro que tinha uma filha muito formosa. Dois
príncipes a pretendiam, mas, tendo o rei mouro os dois pretendentes
em grande estima, e, não sabendo por qual d'elles se havia de resol-
ver, encarregou um de fazer uma mina (escavação subterrânea para
se encontrar um veio de agua) e ao outro mandou-o fazer uma torre,
promettendo a filha como premio ao que primeiro concluísse o tra-
balho.
Succedeu porém que ambos concluíram o trabalho ao mesmo
tempo, e, correndo a dar a noticia ao rei, chegaram também ao mesmo
tempo ao palácio.
— Torre feita, diz um.
— Agoa á porta, diz o outro.
— Filha do rei morta, acerescenta o rei.
Metteram a pobre menina num cortiço e serraram-na pela cin-
tura.
Quando ouviu a sentença do pai, diz a tradição que ella excla-
mára:
Na Torre fui creada
Na Mata me matarão;
Pois a minha formosura
Foi a minha perdição.
gos do chamado Evangelho de Nicodemos (a The ultímated source of the miracle
of the reanimated cock is an ioterpolation in two late Greek manuscripts of the
so-called Gospel of Nicodemus». — Child, op. cit., Parte i, p. 239).
Sem embargo, a existência histórica de Wamba, rei wisigodo da Hispânia, é
indiscutível ; a fixação da sua lenda em Idanha tem também tal ou qual base his-
tórica, pois diversos reis wisigodos cunhárâo moeda em Egitania (ldanha). A
fórma mais antiga do nome Idanha foi *Igaeditania, correspondente ao da
<'civitas» dos Igaeditani, mencionados in Õ. I. L., 11, p. 49.; mas o nome que
apparece nas moedas wisigodas é EGITANIA a par de ECITANIA, com C por
G, como ó vulgar nas legendas e inscripçòes. — J. L. or V.].
■ JBJU JBLWB.J m*
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ALGUMAS TRADIÇÕES POPULARBS
79
X
XACARA DA CAPTIVA
Captivaram-mò dos mouros 1
Entre la paz e la guerra,
Levaram-me a vender a Sales
O' que mala terra!
Não houve mouro nem moura
Que por mim una blanca dera,
Houve só um perro mouro
Que por mim cem doblas dera.
Dava-me uma má vida
Una má vida mui perra,
De dia moía o cravo
E de noite la canela.
Punha-me um freio na bocca,
Para que não comesse d'ella.
Quis Deus a minha fortuna
Dar com una ama mui bella,
Quando o mouro ia á caça,
Punha-me ella á sua mesa,
Também me dava bom vinho
Por uma garrafa francesa;
Deitava-me no seu colo
E me catava a cabeça.
Muitas vezes me dizia :
— Vae christã á tua terra.
— Como hei de ir, senhora,
Se me falta la moeda?
Metteu a mão á fraldiqueira
E cem moedas me dera.
— Quando te vires em braços
D'essa doce companhia,
Diz-lhe que eu te resgatei
E por ti fico captiva;
E se lá a achares morta
Volve logo á Turquia,
E vem a pagar affectos
De quem tanto te queria.
XI
XACARA DAS DUAS IRMÃS CAPTIVAS
O' mouro, se fores á caça,
Traze de lá uma captiva,
Que seja de bom sangue
Senhora de mais valia.
Chegou o mouro da caça
Mui contente á maravilha,
Ajoelhou a christã
Para onde o sol nascia.
— Bemdito sejaes, Senhor,
Bemdita a Virgem Maria,
Inda hontem era condessa,
Hoje escrava de cozinha.
Se a moura estava pejada
A captiva também ia;
Logo foi por Deus servido
Parirem ambas num dia.
Lisboa.
— Se tu quiseres, christã,
Trocar-me a tua cria. . .
— Isso é que eu não faço,
Isso é que eu não fazia.
— Dize, captiva, como queres,
Que se chame a tua filha.
— Seja Maria das Flores
Como uma mana que eu tinha,
Que m'a roubaram os mouros
Dia de Paschoa florida,
Quando ella colhia flores
Num jardim que meu pai tinha.
— Vinde abraçar-me, captiva,
Que sois uma mana minha.
— Essa Maria das Flores
Sou eu que tanto vos queria
A. Alfredo Alves.
* [Creio que deverá ser: «capti varam- me-loê Mouros». — J. L. i>k V.].
80
REVISTA LUSITANA
MISCELLANEA
I
NOTAS AÇORIANAS
1. Formas dialectaes
Aoegado, soccgado* Explica-se, creio ca, por dissimilação de
syllabas das fórmas asessegado, assossegado, cujos primitivos asessego
e assossego se encontram, por exemplo, em Sá de Miranda 105 22,
107 289 (ed. da Snr. a D. Carolina Michaêlis). Cf. necidade vulgar por
necessidade (nos Açores.)
aoooméda-te, accomóda-te. Em logar de accomodar diz-se aque-
modar ou accotnedar por dissimilaçáo; o e da última fórma tornou-se
aberto sob a influencia do accento tónico, como se fosse radical *. Cfr.
alemtej. vévem (por vivem), que assenta em vevia, fórma esta que ap-
parece por ex. no Cane. da Vatic. n.°* 515 12; vevi 545 18, 537 5,
aloáoia, acácia. Haverá aqui influencia de palavras árabes,
alparda, á noute.
antanoe, então. Cf. antão e o archaico entonces.
Badanella, Magdalena. Cf. Moudanella, = Moudalena, Cornu, in
Grundriss, p. 728. Temos aqui mais um exemplo da troca entre b e m
que se encontra em casos como Belchior, busaranho. rebocar e outros.
Cf. Cornu, ib., p. 751. Vede, também, o seguinte.
bilhafre, milhafre.
ooivas, couves. Também commum em Portugal.
dançarmos = dançámos. Por analogia, como me fez observar
o snr. J. Leite de Vasconcellos, de dançáramos, por serem idênticas as
fórmas da 3.» p. plur. do pret. perf. e do pret. mais-que-perf. Vulga-
rissimo nos Açores.
diente, diante. Vulgar no continente.
esoorçoado, descorçoado. Facto análogo a espedir por despedir,
fórma archaica muito commum. Cf., por ex., Cane. da Vat 854, 9, t se
mh auv' a espedir*. Nos Açores ha também espedida por despedida.
Veja-se ainda J. Leite de Vasconcellos, Dial. Interamn., vu, p. 31; viu,
p. 15; e istruir por destruir, Dial. Extrem., i, p. 33.
espadaria, hospedaria. Ha aqui influencia do s na vogal átona
precedente e assimilação de vogaes (e — a).
J Explicação do anr. J. Leite de Vasconcellos.
648 6.
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MISCELLANEA
estirada, estrada.
flnlquito, faniquito. Por assimilação de a átono a i, como por
ex., em piniguado por paniguado. Cf. Cornu, in Orund., i, p. 738.
fosques, fósforos. Conhece-se também em Portugal.
inzuneiro, onzeneiro. Troca de vogaes átonasjcomo, por ex.,
em imbiffo por umbigo, etc. Cf. R. Gonçalves Vianna, Études de grawr
rnaise portugaise, Louvain, 1884.]. Usadissimo nas ilhas dos Açores.
ofeoiente, sufflciente.
ouvisto, ouvido, por analogia com insto. Cf. Cornu, Grundrm,
i, 803.
puze, pois. Cf. J. Leite de Vasconccllos, Dial beir. v-vj, p. 6, 7.
ralo,-a, raro; cf. Cornu, Gr., i, p. 761, e ràlidade; J. Leite de
Vasconcellos, Dial. Extrem,, r, p. 36.
repá, rapaz.
sebandlja, sabandija. Cf. sevandijado, Dial Extrem., i, p. 36.
tâussa, taxa (Fayal). Cf. Bev. Lus., i, p. 51, e Cornu, Gr., i,
p. 728 toassar, taxar.
o urrei, o rei, pela repetição do artigo.
Publicarei aqui uma seguidilha que dizem as crianças na ilha do
Fayal, quando brincam juntas, e a que se chama aravenga l .
1 Devo-a á obsequiosidade do iilustre litterato açoriano, o Ex. mo Snr. Ernes-
to de Lacerda de Lavallière Rebello, da Horta, Ilha do Fayal.
2 Esta mudança de pessoa é bastante commum na poesia popular de todos
os povos. Cf. um bello artigo de Jacob Grimm, in Ktcinere Schriften ; e J. Leite
de Vasconcellos, Dial. algarvios, i, p. 18.
REY. LUSIT., VOl IIT, faSC 1. 6
2. Poesia popular
Já não quero, já não quero
amores com frade máu;
já morreu o Catimbau,
sua mãe o vae carpindo.
Juro que lhe vae referindo
a mana com seu rigor.
Alfinetes são amores;
d'isso lhe darás boa prova,
Maria da Venda Nova,
que imprimis formosura.
Só os patifões tem ventura,
ventura os patifões tem,
que te tratam com desdém.
Também trago o meu arado,
debaixo do meu capote;*
também os homens honrados
tocam na zangariana.
São bons homens de Vianna,
morando ao pé do rio,
que de inverno faz frio,
e de verão calma vae.
O' homem, se tens de andar, andar,
serão, tirai-vos 8 do caminho,
cabeça abaixa e focinho.
O' homem, o rosto alevanta,
que o vinho é coisa santa,
e com elle me governo
na maior parte do inverno.
Navega o barco sem vela,
menina, que estás a janella,
pareces um anjo do ceu.
O' freira, tira o teu veu,
se acaso não és torta.
Passei pela tua porta,
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82
REVISTA LUSITANA
belisquei-te no ferrolho.
O pastel é para o molho,
e o alho para a açorda,
cinco reis de carne gorda,
outro tanto de dobrada,
não ha soldado sem espada,
se acaso a não empenhou.
Quem disse — mulher, errou;
antes disséra — mudança ;
O amarello vae na dança,
que a minha dama o leya,
mais o não ha-de levar
para não olharem p'ra ella.
A melhor sôpa que se faz,
é do olho da panella.
Henry R Lang.
II
CERÂMICA POPULAR PORTUGUESA: ASSOBIOS DE AGUA
O snr. François Daleau, que se tem occupado de estudos prehis-
toricos e ethnographicos, pediu-me, por occasião de me enviar o fo-
lheto Cltandeliers et Mortiers en terre atite (Bordeaux 1892), infor-
mações á cerca de assobios de barro que sirvam de brinquedo ás crian-
ças, mas dos que se enchem de agua para modular o som.
Diz o auctor: tje possède un certain nombre de ces pièces mode-
lées avec une três grande naiveté, provenants des pays suivants : Fran-
ce, Allemagne, Bohème, Hollande, Suède, Suisse, etc. Je n'ai rien
encore du Portugal et j'ai seulement d'Espagne un petit Taureau-sifflet,
Je me rapèle avoir vu à Cartagena de petites madones et d'autres
statuettes de formes três archaíques que Ton vendait à cinq et dix
centimes».
Dando ao snr. François Daleau as informações pedidas, enviei-lhe
uma carta, cuja traducção publico abaixo, por me parecer que talvez
este assumpto tenha interesse para os que se occupam da ethnogra-
phia portuguesa.
Lisboa, Julho de 1893.
Ex. roo snr. François Daleau:
Prezado snr.
Recebi com agrado a carta que me mandou com data do 25 de
Maio passado. Junto com ella recebi um opúsculo Chandeliers et
Mortiers en terre cuite, que muito agradeço, porque muito me interes-
sa. Depois que recebi a carta de v. ex. a , nem mais um momento des-
cansei até dar cumprimento ao pedido que me fez dos assobios de bar-
ro. Se ha mais tempo não dei resposta, foi porque estive a recolher os
objectos para lh'os remetter com esta. Os assobios de barro, que va-
riam e modulam o som por meio da agua agitada pela insufflação do
tocador, existem em Portugal ; mas o seu apparecimento e fabrico cir-
cumscrevem-se a um local e a um tempo determinado do anno. Estes
assobios de barro, a que dão o nome de ronocinôes, só se fabricam, se-
MISCELLANEA
83
gundo penso, na cidade de Lisboa, e suas circumvizinhanças, e só appa-
recem profusamente á venda, ao preço de 20, 30, 40 e 50 réis, nos
dias 12, 23 e 28 de Junho á noite, e depois desapparecem completa-
mente da circulação, para não voltarem senão d'ahi a um anno.
Os assobios, pois, relacionam-se com um facto tradicional, em razão
de só serem usados na véspera de Santo Antonio de Lisboa, de 8. João
e de 8. Pedro, occorrendo ainda a circumstancia de só serem usados
na cidade de Lisboa, segundo informações que tirei a esse respeito.
Se em outro logar apparecem, serão levados d' esta cidade para lá x .
Os assobios não são fabricados por oleiros profissionaes : são in-
divíduos curiosos ou habilidosos do baixo povo que, no intuito de ga-
nharem alguns vinténs, se dedicam naquellas epochas á feitura de taes
peças, de origem puramente archeologica. Nos dias indicados acima,
fazem uma espécie de feira nocturna onde os veem vender em barra-
cas enfeitadas adrede, que levantam no mercado central de Lisboa
(Praça da Figueira). A este local, logo que começa a anoitecer, nos
dias supra-indicados, concorre o povo profusamente, com especialidade
o povo baixo, a comprar vasos de mangericão, ramos de flores artifi-
ciaes e naturaes, fructos temporãos, etc; e os rapazes compram e to-
cam nos taes assobios tão calorosa e phreneticamente que ensurdecem
os transeuntes! Porém, repito: o uso d'estes assobios é só nas noi-
tes acima indicadas, ou quando muito até o outro dia; depois, guar-
dam-nos, lançam-nos fóra, ou quebram-nos. A observação mais impor-
tante á cêrca dos assobios de barro está neste facto.
Os assobios de barro, como todas as cousas usadas pela humani-
dade, vão experimentando modificações evolutivas, sem comtudo per-
derem o seu caracter archeologico. Assim, a pasta grosseira do barro,
o pipo insufflador, os orifícios para a modulação dos sons, a cavidade
para a agua, etc, são conservados intactos ; mas a parte esthetica do
assobio mira quasi sempre a um fim que se correlaciona invariavel-
mente com um assumpto critico ou satyrico, tendo por alvo a politica,
a religião, a criminalidade, e vários acontecimentos que absorvam a
attenção publica nesse momento ou em epochas próximas.
Como prova do que digo, ahi estão os 12 exemplares que nesta
occasião lhe remetto. Poder-lhe-hia remetter uma centena talvez d'el-
les com variadas fórmas e variados intuitos críticos; mas pareceu-me
este numero sufficiente para elucidação do objecto.
Se dividirmos os 12 exemplares em séries, teremos:
Na 1.' série os n.°" 1 e 2 (republica e gallo-phenomeno) referin-
do-se á politica — o n.° 1 exalçando a republica, e o n.° 2 criticando
um padre politico, metarmorphoseando-o em gallo.
Na 2. a série teremos os n. os 3, 4, 5 e 6 (bispo, cónego, padre, e
jesuíta) referindo-se á religião, como elemento popular critico.
Na 3.* série teremos os n. 09 7 e 8 (João Brandão e irmã Collecta)
i [Depois de já composta esta página, disserào-me que os rouxinoes de barro
bc uzáo também em Évora, para onde vão de Estremôs. — J. L. pk V.].
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84
REVISTA LUSITANA
referindo-se á criminalidade — o n.° 7 como o typo da turbulência ; e
o n.° 8 como typo da crueldade, porque a tal irmã foi accusada pelos
tribunaes de levar á deshonra e depois envenenar uma linda menina.
Na 4. a sério teremos os n.°* 9 e 10 (Serpa Pinto, e toureiro) re-
ferindo-se a factos nacionaes contemporâneos : — porque o personagem
do n.° 9 fez a travessia da Africa ; e porque o n.° 10 representa o typo
das diversões tauromachicas, uma das mais attrahentos da Península
Ibérica.
Na 5.* série teremos os n. 0- 11 e 12 (tomate, e um vaso) referin-
do-se a puras futilidades.
Bastante me empenhei na pesquisa de um facto positivo que me
conduzisse com segurança a aventurar uma proposição que ligasse este
uso archeologico, continuado agora em espaço e tempo circumseriptos,
com outro ou outros remotos e originaes ; foram, porém, baldados os
meus esforços. Julguei prudente, portanto, não aventurar proposições
incertas a respeito da origem dos assobios de barro em Portugal. Se
uma solução positiva apparecer para os outros países que tenham o
uso dos mesmos assobios, talvez possa ser applicada a este reino.
Sem mais assumpío, subscrevo me com o máximo respeito e con-
sideração,
DUAS PALAVRAS SOBRE A C0LL0CAÇÃ0 DO ADJECTIVO EM PORTUGUÊS
As grammaticas da língua portuguesa, quer nacionaes, quer es-
criptas por estrangeiros, e tanto as elementares como as historico-coni-
parativas e philosophicas costumam dar uma única regra (bipartida)
muito resumida e vaga, com poucos exemplos illustrativos, sobre a
collocação dos adjectivos qualificativos.
O que ensinam é o seguinte:
Adjectivos de significação restrictiva, que designara qualidades
accidentaes que os objectos podem têr ou deixar de têr, collocam-sc
depois do substantivo.
Adjectivos de significação explicativa que exprimem qualidades
essenciaes que convêm necessariamente a um objecto, podem empre-
gar-se ad libitum ou antes ou depois.
Os exemplos stereotypos do primeiro grupo são homem sábio, ho-
mem virtuoso, mel amarello (?) ; os do segundo neve branca, branca neve;
doce mel, mel doce; homem mortal, mortal homem.
Ensina-sc portanto que é cousa completamente indiíferente e ar-
bitraria a collocação da maioria dos adjectivos; ao passo que uma
respeitável minoria fica sujeita a leis rigorosíssimas!
Escuso de dizer que tão falsa é a primeira regra como a segunda.
Das multíplices razões euphonicas, de harmonia e de rhytmo,
e também de significação, que decidem da escolha, feita individual-
Dr. F. Ferraz de Macedo.
III
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klSCÈLLANKÁ
mente pelo orador em cada uma das phrases que profere, nem pala-
vra nos dizem as grammaticas, apesar de darem margem a muitíssi-
mas observações subtis, e interessantes, não sómente para os futuros
poetas e rhetores, mas também para os poucos portugueses que não
entram n'estas categorias.
O que estranho ainda mais é que nem sequer se mencione o facto
importante que muitos adjectivos mudam de significação, consoante
são antepostos ou pospostos ao substantivo, facto aliás conhecido como
peculiaridade da lingua francesa.
Darei alguns exemplos (colligidos por mim da lingua viva) que
recommendo á attenção do distincto grammatico, o Snr. Epiphanio Dias,
e ao autor dos Exercidos preparatórios de Composição, porque opino
que a analyse, interpretação, colloccionação e composição de taes phra-
ses contribuirá para desenvolver agradavelmente as faculdades dos es-
tudantes, ensinando-os a ampliarem e modificarem pelas suas próprias
investigações as regras lacónicas e doutrinarias das Grammaticas.
Aprenderão assim que certas qualidades que são apenas acci-
dentaes, quando referidas á espécie, pódem tornar-se essenciaes em
certo e determinado individuo da mesma espécie; e que é costume
enunciar nestes casos primeiramente o adjectivo, para chamar a àt-
tenção para o característico, que é distinctivo do objecto ou da pes-
soa a que nos referimos. Reconhecerão mais que tal regra não é, com-
tudo, infallivel, nem tal costume invariável, e que existem por ex. ad-
jectivos de significação restrictiva, mas de fórma curta e ás vezes mo-
nosyllabica (como bom, boa; mau, má), que por via de regra, e contra
a lei exarada pelos grammaticos, costumam occupar o primeiro lugar,
mas que, elevados a explicativos, mudam para o segundo. Verão ainda
que* muitos se antepõem ao substantivo, quando tomados no sentido
figurado, e que nesta posição, em contacto intimo com o nome, ficam
ás vezes a formar com ellc uma phrase feita ou uma palavra composta
(como vangloria, grã-cruz, bom-ditque, etc).
Passemos agora ás minhas poucas amostras, que poderão facil-
mente ser augmentadas.
1. ) Santo. — O Vaticano é um cenáculo de padres santos e San-
tos Padres.
Existem muitas casas santas. Porém só sei da Santa Casa da Mi-
sericórdia, e de uma em Jerusalém, e outra nas Astúrias:
hizo-la el Rey de los Cielos
á la sagrada Maria.
Ninguém nega que innumeras Catharinas e Annas e Madalenas
pódem ser santas; venera-se comtudo só uma Santa Catharina, uma
Santa Anna, etc.
Num dia santo ninguém devia gastar todo o santo dia a trabalhar.
2. ) Bom. — Quando o anno bom principia, não se pôde dizer ainda
se será realmente um bom anno.
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86
ftÈVlST A LUSITANA
3. ) Mau. — O actor encarregado do mau homem das comedias,
nem por isso é um homem mau.
4. ) Nobre. — 0 pae nobre das tragedias pôde ser ás vezes um
nobre \me.
5. ) Verdadeiro. — Os homens verdadeiros são tão raros como os
verdadeiros homens.
6. ) Formoso. — A Pedra Formosa da Citania é em verdade uma
formosa pedra.
7. ) Branco. — Ha muitas flores brancas, mas poucas que têm o
lindo nome de Branca-flor.
8. ) Rico. — Nem cada rico homem era um homem muito rico.
9. ) Gentil. — Tampouco é um homem gentil todo e qualquer gen-
tilhomem.
10. ) Pobre i E' desnecessário explicar a differença que ha en-
11. ) Velho ( tre um pobre homem e um homem pobre; uma única
12. ) Único í pessoa e uma pessoa única; um pae-velho e um velho
13. ) Certo ; pae; certos signaes e signaes certos (p. ex. de chuva).
14. ) Falso. — Esta fé falsa foi-lhe insinuada á falsa fé.
Accrescento mais alguns exemplos litterarios, castelhanos, que
me occorrem neste instante.
Tirso de Molina, na comedia Privar contra su Gusto, u, 3, diz :
Porque el privar d'este modo
todo un hombre ha menester
y el amor un hombre todo.
Cervantes Don Quixote:
Todo cl mundo confiesa que no hay en d mundo todo etc.
Prim: — La Espana ha tenido reinas perdidas, mas nunca habrã
perdidas reinas.
Trueba: — Quiero satirizar a los curanderos titulados que son
aun mas numerosos que los titulares curanderos.
Id. — Habia salvado al popidar alcaide que no es lo mismo que
alcaide popular.
Guzman de Alfarache, n, 3, x:
La espaiiola Isabel al mundo espanta
fundando á Sarda Fé por la/é santa.
Caminha, Ode vn, estr. 9, separa a quietação santa da santa
quietação, e Antonio Prestes differenceia, não sei onde, os enfiados
naturaes dos naturaes enfiados.
Vou concluir com a simples pergunta : se um bom Diccionario não
deveria definir claramente taes mudanças de sentido, provocadas pela
collocação dos adjectivos (p. ex. sub vocibus: certo, todo, vario, ver-
dadeiro) ?
Carolina Michaèlis de Vasconcellos.
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klSCELLANEA
IV
TRADIÇÕES POPULARES
A. Rimas infantis
1
Era uma vez um menino
Que tinha seu pae morto,
E a sua mãe por nascer,
Deitou as pernas ás costas,
E foi a correr por uma serra acima,
Perdeu a capinha que não tinha,
Encontrou um pessegueiro
Carregado d'avelãs,
Encheu a barriga de maçãs,
Veiu de lá o dono dos marmelos:
4 Olá meu menino a comer
Pepino no faval alheio.
(Torres Novas).
2
Aqui está a chave de Roma;
Em Soma está uma rua,
Dentro da rua está uma casa,
Dentro da casa está uma mesa
Em cima da mesa está uma gaiola,
Dentro da gaiola está um ninho
Dentro do ninho está um passarinho.
(Torres Novas).
3
Mote
Amores se tu quiseres
Glosa 3.*
Filis, se queres, verás
Hum, e dous, e argolinha,
Finca pé de pampolinha,
O Eapaz que jogo faz :
Passarás, sim, passarás,
Bello pao para colheres,
Bem me queres, malmequeres,
Tu que vás, e tu que véus,
Dá-me cá os meus manteus,
Amores, se tu quizeres.
(Esta glosa está no Cod. ms. 260,
dos princípios do sec. XVIII, guar-
dado tia Torre do Tombo. — Neila
ha uma allusão a uma conhecida
rima infantil).
4
Entrar por uma porta
Sair por outra,
Vai ao rei que te conte outra.
(Iiesponde-se assim a quem pede
a narração ffum conto. — Coimbra).
5
Quando uma criança é pisada
diz-se:
88
UfiVlSf A LttSITÁNÁ
O debaixo é meu,
O de cima do judeu.
(Santarém).
Está entendido:
quem está morto
fica encolhido.
(Responde-se com isto a alguém
que diz: cestá entendido t. — Lis-
boa).
7
Padre Nosso
Carrapatel,
Comi toucinho,
Não me fez mal;
Sc mais comia
Mais bebia,
Adeus, senhor Pedro,
Até ao outro dia.
(Torres Vedras).
8
Engeitado,
Mal amanhado,
Come tripas
De copado,
Bem amanhado,
Mal amanhado,
Mettido num forno
E tirado com um corno.
(Santarém).
No parreiral d'el-rei
Está um pardal pardo pairando.
— Porque pairas, pardal pardo?
— Pairo porque sou o pardal pardo
Palrador d^l-rei.
(Santarém).
10
Pelo valle d' Ancião
Vinte cinco cegos vão,
Cada cego com seu moço,
Cada moço com seu cão.
Anda moço deligente
Faz-me bailar esse cão.
O senhor é preguiçoso
Ha de me dar meftostão.
(Torres Novas)
11
Pela serra d' Ancião
Trinta cegos vão,
Cada cego com seu cão,
Cada cão com seu gato,
Cada gato com seu rato,
Cada rato com seu grão.
(Thomar).
12
Pela serra d 1 Ancião
Vae um gato dando gritos,
Porque lhe cortárão o rabo
7 Para fazer carrapitos.
(Thomar).
13
Senhor São Vicente,
Deitae-me um pinguinho
D'agua quente.
Santa Maria,
Deitae-me um pinguinho
D'agua fria.
(Coimbra)
14
As freiras de Santa Clara
Ó pim pé
Àndão numa roda viva,
Tri lo lé
Elias no coro de baixo
Ó pim pé
Elias no coro de cima
Tri lo lé.
(Torres Novas).
15
As freiras de Santa Clara
Tem todas o seu cãozinho,
Só a madre abbadessa
Tem um gato sem focinho.
(Coimbra
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MISCELLANKÀ
89
Senhor São Francisco,
Tirae-mc este cisco;
Senhora SantfAnna,
Tirae-me esta pragana.
16
Aqui cheira a louro,
Aqui anda algum besouro;
Aqui cheira a unto,
Aqui anda algum defunto.
(Ervedal da Beira).
(Coimbra).
2
B. Festas populares
E elle por cada Entrudo
Elie dará com fiador
Quatro sacos de farinha
Para filhos, para filhós, para filhos.
1
Bolinhos, bolinhós
Para mim e pára vós,
Para dar a quem está
Debaixo da cruz
(No iEntremês do divorcio*, Sec.
XV1IT, Cod. 211, da Torre do
Tombo. — Ha aqui uma attusão a
costumes populares). '
Truz, truz.
Aqui cheira a alho,
Aqui anda algum dialho;
3
Ja no Entrudo não falemos nós
Que ferue neste tempo a filhós
E he tal o estrondo de frejir
Que em bandos os vi vir,
Homens, raolheres, tudo quanto passa
A ver o que sucede nesta casa.
BORRACHA
Qual é a cousa,
Qual é ella :
Teve chavelhos e não tem chavelhos,
Teve ossos e não tem ossos,
Teve carne e não tem carne,
Teve pés e não tem pés,
Teve focinho e não tem focinho,
Teve orelhas e não tem orelhas,
Teve nariz e não tem nariz,
E tem um olho só por onde chora,
E adivinha esta agora.
(A, ib.).
C. Adivinhas
1
(Coimbra).
*
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90
REVISTA LUSITANA
2
LEQUE
Qual é a cousa,
Qual é ella:
Está arrecadada
E está encolhida,
Está na mão das senhoras
E está estendida.
(Coimbra).
3
PAPOILA
Vermelhinha, vermelhinha
No meio pelludinha.
(Bragança).
D. Apodos de terras
1
«Prior de hú lugar aonde
Prendem gentes, soltão cães,
Despache e despache bem
Para que elle também
Solte os cães e Prenda a gente».
(No Cod. 840, fl. 49 v.° guarda-
do na Torre do Tombo, se acha
uma decima de D. Tlwmás de No-
rordia a D. Bernardo cTAthayde,
Dom Prior de Guimarães, de que
se transcreve ama parte que parece
referir-se á corúieeida rima:
Guimarães [ou Magalhães]
Esfola gatos
Mata cães).
Mas quem he asno e vay a Santarém
Assim como asno foy, asno vem.
(Entremes do Outauado, Cod.
211, Sec. XVIII, Torre do Tom-
bo).
Fiães não vale nada,
Villa Franca um vintém,
Arvedal 1 cem moedas
Só pelas moças que tem.
(Ervedal da Beira).
Fialhaes, Fialhaes
Comem tripas de pardaes;
Villeiros, villeiros
Comem tripas de carneiros.
(Fiães de Ervedal).
E. «Arelá com a molher que sabe latim
E com a Mula que dis Mm,
E de tudo, o que o Letrado he
Libere nós e Domine».
(Entremes do Soldado, Cod, 211. Sec. XVII 1, Torre do Tombo).
Lisboa.
Pedro d' Azevedo.
1 Pronúncia popular de Ervedal.
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B1BLI0GRAPHIA
91
BIBLIOGRAPHIA
i
LIVROS
Lautlehre | zweier \ altportugiesischen Heiligenleben \ (Euphrosina und Maria aegy-
ptiaca | etc. | von Clemens Radermacher | Bonn 1889.
Este opúsculo foi a disertação inaugural para o seu autor obter o grau de
doutor na faculdade de filosofia. Serviram-ihe de textos para a análise fonolójica
os dois do 14.° século, «Vida de Eufrosina» e «Vida de Maria Egípcia», perten-
centes à antiga livraria do mosteiro de Alcobaça, copiados pelo dr. J. Cornu, da
Universidade de Praga, na Tôrre do Tombo em 1881, por este publicados no vo-
lume xi da «Romania», em 1882, e também impressos por essa ocasião em sepa-
rado com o título de «Anciens Textes Portugais, Vie de Sainte Euphrosyne, Vie
de Sainte Marie 1'Egyptienne, Fragments Pieux».
Percorrerei rapidamente o opúsculo, que é um trabalho de consciência e
bem executado. Como autoridades para o exame dos factos fonéticos revelados nos
referidos textos, seguiu o sr. Radermacher especialmente duas publicações recen-
tes: Antonio José de Carvalho e João do Deus, «Diccionario Prosódico de Portu-
gal e Brazil», e A. R. Gonçalves Vianna, «Essai de phonétique et de phonologie
de la langue portugaise d'apròs le dialecte actuei de Lisbonne», publicado no vo-
lume x« (1883) da «Roinauia». O excelente trabalho do dr. Cornu, incluído no
«Grundriss der Romanischen Philologie», de G. Grõber, (Die Portugiesische Spra-
che) em 1888, só mais tarde pôde pelo sr. Radermacher ser aproveitado, conforme
no-lo diz no prefacio.
Aquelas duas autoridades, o «Dicc. Prosódico» e o «Essai», contradizem- se a
cada momento uma á outra com relação ao valor das vogais e ditongos, mormente
do e tónico, porque cada uma delas representou seu falar diverso, o que o sr. R. ou
esqueceu ou ignora ; nem isto é de admirar, visto que a primeira dessas autori-
dades não declara cual pronuncia se propôs a figurar, antes insiste em protestar que
a que figura é a mais jeral, concuanto decidida e exaj era dam ente algarvia, e em
oposição constante com a indicada pela maioria dos lexicógrafos. Digo que não
admira, mas não direi que tenha absoluta desculpa, pois o sr. R. poderia, para seu
desengano acerca dos valores atribuídos aos ee tónicos pe'lo «Essai», consultar ou-
tras obras facílimas de adquirir, como o «Nouveau Dictionnaire Portugais- Fran-
çais» de Roquette, ou o «Diccionario Contemporâneo da lingua portugueza», dos
cuais o primeiro esta acentuado em todos os vocábulos, e o segundo tem de to-
dos eles a pronuncia figurada. Se os houvesse examinado, reconheceria que a pro-
nuncia exposta no «Essai», a da capital, é a prevalecente e como que normal, de
que todos os individuos cultos buscam aproximar-se, e que com maior ou menor
exactidão adquirem tarde ou cedo, isto é, a do centro do reino; e que a do «Dicc.
Prosódico» representa um falar extremamente provincial, dogmática e insistente-
mente imposto, como o exclusivamente correcto, por quem ou nâo pode ou não
quere ajeitar-se a outro, e que supõe jeral o que e dialectal, atribuindo aos mais
os defeitos de ouvido que somente são seus. Na realidade, a discordância cuási
constante entre Vianna e o «Dicc. Prosódico» procede principalmente da existên-
cia de tres ee tónicos no dialecto algarvio, respectivamente denominados no Dic.
agudo, fechado e aberto, ao passo que no centro do reino apenas dois normais são
conhecidos, fechado, que corresponde em jeral ao fechado e ao agudo algarvios, e
aberto, que na maioria dos casos com aquele coincide. Isto poderia o sr. Rader-
macher reconhecer logo no prefacio do Dic, para não dar como incerto e vago o
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92
REVISTA LUSITANA
valor de cada t, cuando, ao contrario, em cada dialecto eles obedecem a regras
fixas; poderia igualmente ler com atenção o que sobre os dois et expõe o dr.
Cornu, na obra já citada, posto que a pronuncia ali indicada nào seja também a
de Lisboa, porém manifestamente ultra- meridional, isto é, pe'lo menos alentejana,
com relação ao valor do e teoricamente fechado, antes de palatal, et, ex, ech, ej,
elh, enh, a que dá o valor de ê, cuando, como é sabido, e o diz o «Essai», em tal
situação ele se profere cm Lisboa como â, o que nessa publicação é indicado por
e. Nào censuro, ainda assim, o ilustre romanista por ter feito eleição daquela pro-
nuncia, que é a jeralmente indicada pelos lexicógrafos, como líoquette, por exem-
plo, mormente porque o valor dessa vogal varia de norte para sul, desde è até â,
e desde â até <; passando por e o talvez por e, complicados, ou nào, com a subjun-
tiva i reduzido : portanto, o dr. Cornu hesitou em adoptar a pronuncia de Lisboa,
que, nào obstante, com certeza conhece. H. Sweet insiste na pronuncia êi, que
atribui ao seu mestre, e o Príncipe Bonaparte vacila. O sr. Leite de VasconccUos
reconhece a exactidão da descrição do «Essai», com relação a Lisboa.
O «Diccionario Etymologico da lingua portugueza», do dr. Adolpbo Coelho,
e o «Diccionario Contemporâneo» marcam c = é.
Jeralmente, podemos dizer que ê ou è sâo a pronuncia do norte e sul além
do Mondego e além do Tejo, e que entre Tejo e Mondego domina a pronuncia â,
sobretudo no litoral, sendo a exclusiva na capital.
0 (juc, porém, nenhum outro autor prescreve sâo três ee tónicos, isto é um t
intermédio de è e ê. Por esta razào vai -se tornando evidente a necessidade de se
fazer um estudo da pronuncia preceituada no «Dic. Prosodico», visto que êste li-
vro tem tido, à falta de outro melhor conhecido, uma certa aceitação entre os glo-
tólogos estranjeiros, que em jeral por ele se regulam, nào obstante estar, como
disse, em desacordo neste ponto com outros trabalhos de maior autoridade. Esse
estudo tentá-lo-hei eu em breve nesta Revista, comeuanto os preceitos ali estabe-
lecidos em nada hajam influído como padrão da pronuncia dos vocábulos na je-
neralidade do reino.
Dito isto, que me pareceu indispensável, passo a fazer algumas considera-
ções sobre o interessante opúsculo a que me vou referindo.
Num brevis8Ímo prefacio o autor descreve sumariamente os dois textos e a
sua orijem, mencionando que, tanto estes portugueses como outros, provêem de
uma primitiva redacção latina, pois que um grande número de vocábulos neles
empregados não é de orijem evolutiva, sendo mera reprodução dos latinos, decli-
nados em vulgar.
Divide-se a exposição, como ó costume, em duas secções, A) vocalismo, B)
conbonantismo \ e numa serie de subdivisões analisa-se a sorte destes elementos do
latim popular, comparados com os do clássico, com respeito não só aos vocábulos
e formas portuguesas dos dois textos, mas excepcionalmente a outros vulgares.
Passando por alto a doutrina que se refere ao a tónico, na cual apenas há a
mencionar a vocalização apontada do c de * a c q u a m em u, augoa, vemos que
se consigna como facto que o e de venho, tenho é aberto, o que nào é exacto ; essas
formas tem ambas o e teoricamente fechado tenho, venho, isto é, tênho, venho, ou
conforme a pronnnciaçào de Lisboa tânho, vânho. Semelhantemente, o e de êrmo é
fechado em Lisboa, médio no Algarve êrmo, e assim também besta, bestia, terça,
deus, meu, teu, emfiin em regra todos os ee agudos do «Dicc. Pros.»
P. 6. E' indiferente em Lisboa a escrita mester ou mister: em cualquer dos
casos a vogal átona que precede o * palatal é i, atenuado e ciciado; é portanto
pouco exacto o considerar a primeira destas formas como antiquada a par da se-
gunda moderna, pois esta provém de mero capricho ortográfico.
Tem razão Cornu: contrairo é ainda popular, assim como rosairo, Ântoino
etc, o que o autor nào consigna.
P. 16. rastro em oposição a rosto, autorizada a distinção de significado só
com as definições de J. de Deus, é insuficiente: ròstro é vocábulo artificial, eru-
dito, e já o «Essai» disse (p. í)7-98) que os ee e oo de tais vocábulos são abertos,
porque assim se lêem no latim escolar.
1 V. Btiista Ltuitana, t. I, p. 179.
BIBLIOGRAPHIA
93
P. 23. O e átono de ssegre, saeculum, monge, monachum, milagre,
iniraculum é devido talvez a influencia proençal ou francesa; cf. o castelhano
siglo, milagro.
Sangue, a par do castelhano sangre, e dos derivados sangrento, sangrar,
sangria, provém de sanguinem e não de «sangue m, o que é confirmado
pela forma popular sãigue. Honra, deshonra sào substantivos verbais de honrar,
deshonrar.
P. 25. Com respeito à influencia regressiva do r e dos rr sobre e átono para
o transformar em â, cumpre observar que ela persiste no português actual, não
obstante a reacção douta que o mantém em vocábulos artificiais, como americano,
popular amaricano, e mesmo em outros, como sará, jataí, por será, jeral, d'antes
e ainda provi ncialmente jeral (geeral).
O i de irmão, é atribuído ao # de germanum; efectivamente o castelhano
tem hermano.
O * de virtude, que também aparece no castelhano virtud, italiano virtk, ex-
plica-o o autor, pelo alongamento do i de virtutem. Eu creio que ( o vocábulo é de
orijem artificial, semi-erudito; por outro lado a pronuncia popular é, suponho que
em todo reino, vertude, com c surdo.
E 1 de muito interesse a parte que, a p. 29 e 30, se refere às vogais á tonas
entre a tónica predominante seguinte e a tónica subordinada (nebentonig) prece-
dente, por exemplo cavaleyros, encarnado, maravilhosa, sacerdote, etc.
Sobre o gu de minguar convém coroparar-se-lhe o vocábulo mangual de
m anu ale; nestes vocábulos o valor decididamente consonantal do u latino era
corroborado provávelmente pela pronunciação gutural do n, e tal permutação é
análoga á do italiano belva, lat. bel lua: ao u consoantal deu- se como represen-
tante outra consoante, ou grupo em que entrasse elemento labial. A este facto são
comparáveis também as escritas hu castelhana, e gu castelhana e portuguesa em
substituição da semi- vogal labial de outras linguas de que se tomaram vocábulos,
como as americanas, o árabe, etc.
P. 33. «/ bleibt, oft wird doppeltes / geschrieben ffílha». Sobre a grafia ff
em vez de /inicial direi o seguinte: s inicial de sílaba escrevia- se/; este sím-
bolo, porém, cuando medial expressava na maioria dos casos, como ainda hoje o s,
a fricativa ^apical sonora correspondente à surda que o mesmo símbolo expressa
cuando inicial; para diferençar os dois sons mediais, sonoro e surdo, escreveu-se
Jf para o último, c assim este grupo ou compendio adquiriu o valor permanente de
s surdo, e foi portanto empregado mesmo cuando era inicial: o hábito de escrever
sempre ff no começo das palavras trouxe comsigo a duplicação ào ff na mesma
posição, em virtude da cuási identidade dos dois caracteres, o último dos cuais só
se distingue do primeiro pe'la linha horizontal que o corta na haste.
O z e o ç é de presumir que primitivamente representassem, como no francês
antigo, as dúplices dz, ts, que o z ainda representa em italiano, e de que é remi-
niscência o maior aperto dos órgãos factores com que são proferidos em dialectos,
etc, onde a diferença entre s surdo e ç, s sonoro e z ainda se mantém.
P. 39. »b (medial) bleibt in : trabalho. . . » A forma popular em todas as re-
jiòes em que ha v é travalho f e assim também taverna; as formas com b são eru-
ditas. O vocábulo, pois nâo faz excepção a regra da conversão de 6 medial em v.
P. 40. Creio que tem razão em repudiar para o verbo arrevatar, moderno
arrebatar o étimon de Diez *arreptare> rapta re, porque o p está ampa-
rado pelo t; pode ser que este vocábulo seja afim de rebate, derivado de bater. O
«Diccionario Etymologico» de F. Adolpho Coelho considera-o derivado de #ra-
pitare, que deveria, a ter existido, produzir xrabedar; rap tare deu talvez
ratar, como c a p t a r e deu catar e mactare deu matar.
P. 43. O z final dos vocábulos indicados pe'lo autor, voz, paz, cruz, aaz, vez,
calez (calicem), dez, diz, faz, praz esíá por ç, cuando final de sílaba, porque
este último não se escrevia em tal situação O seu valor de ç está comprovado
l V. Rev. Luêitana. vol. i, p. 20Í), nota 2. V. também, sobre êste e outro» pontos «Exposi-
ção da Pronuncia Normal Portuguesa», LisbOa 1892.
94
REVISTA LUSITANA
pela pronunciaçâo dêstes vocábulos nos dialectos transmontanos; luç, lutes; faç,
fazes, etc.
P. 44. A fornia portuguesa moderna socego ò erro puramente ortográfico,
cualquer que seja a orijera do vocábulo, o que a pronuncia transmontana e a cas-
telhana confirmam : nào havia portanto que opor-lhe a forma sossego, única ver-
dadeira, como obsoleta ; anticuada é a forma sessego.
P. 45. «b steht in Auslant bei dem gelebrten-Worte Jacab». E' natural que
este nome se proferisse, como ainda hoje, Jacó, e assim também, Jó, Davi (Job,
David), e que o b e d sejam meras reminiscências da ortografia latina, como o era
o ph de Joseph, forma esta que durou até o século presente, por ser aspiração
hebraica (!), como doutrinava autoritariamente Madureira Feijó, sem nos dizer
que espécie de arcano continha esta aspiração inviolável.
P. 60. A forma castelhana antiga alem, que dá como correspondente à por-
tuguesa aalem, deveria ter acrescentado a moderna allende, que confirma o éti-
mon illic inde.
Uma última observação a respeito do opúsculo. Diz-nos o sr. Radermacher
a p. 58, com referencia à conservação do x latino em formas como Aleixandria :
«x zu ix: das k des x lõste sich in i auf, welches mit dem voranfgehendeu Vokal
sich verband ; nach der Tradition wurde der dem k folgende Laut s weiter x gc-
schrieben».
O itálico é meu. Isto não é exacto, e na «Rotnania», vol. cit. p. 71 já expliquei
essa conservação do x: seixo corresponde a saxum, isto é saksum; o k vocali-
sou-se em i, e este, além de palatalizar o a antecedente em e, transformou tam-
bém o s apical em dorsal (palatino), escrito na peninsula com x. Assim Aleixan-
dria nào representa a pronunciaçâo Aleissandria, mas sim Aleixandria, moderno
Alixandria, isto é Alidandria, Cf. a pronuncia de Lisboa em peixeiro, isto é, pi-
xeiro, por ser átono o ei.
O folheto está bem impresso e cuidadosamente revisto. E' de sentir, porém,
que nào fosse empregado o itálico, abstenção que torna confuso o texto, como se
pode ver das citações que fiz, especialmente da última.
Revista de acienciaw naturaes c tfociaet*. Vol. 1.° e 2.° — Por-
to, 1889-1&93. — Esta Revista é órgão dos trabalhos da Sociedade Carlos Ribeiro,
do Porto, a qual tem também publicado memorias avulsas : cfr. Revista Lusitana,
ii, 188. Ha da Revista de sciencias naturaes e sociaes já dois volumes, e consta-me
que vae brevemente começar a sahir o terceiro. Eis a indicação dos artigos cujos
assumptos se ligâo com os da Revista Lusitana, abstendo- me eu de, por falta de
espaço, fazer as reflexões críticas a que alguns d'esses artigos davão margem : A
questão da anthropophagia nas estações neolithicas da Serra do Cabo Mondego, por
A. dos Santos Rocha ; Uma obra de arte primitiva, pelo mesmo ; Primeiros vestí-
gios do período neolithico na provinda de Angola, por Ricardo Severo ; Sobre os
conhecimentos ethnicos dos Gregos e dos Romanos, por F. Adolpho Coelho ; Os Atlan-
tes de Diodoro Siculo, por F. Martins Sarmento ; O mytho de Estar, por Th. Bra-
ga; Notas sobre a malacologia popular, por Rocha Peixoto; Pequenas hachas de
pedra das estações neolithicas do concelho da Figueira, por Santos Rocha ; O mytho
chaldeo-babylonico dos amores de Estar, por Th. Braga ; A tatuagem em Portugal,
por Rocha Peixoto * ; Notas sobre a linguagem vulgar do Porto, por J. Leite de Vas-
* D'este artigo e do Intitulado Kolas iobrt a malacologia popular fiserao-se edlçSea separadas.
No segundo trata-te um assumpto quasl novo, ou novo na nossa ethnographia; d'clle darei mais larga
noticia noutra occaslio.
A. R. GoífÇALVES VlANNA.
II
PERIÓDICOS
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BIBUOGRAPHIA
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concellofl ; várias noticias bibliographicus, biographicas e archeologica. Alguns dos
artigos vem acompanhados de estampas.
Sâo dignos do maior elogio os esforços empregados pela Sociedade Carlos
Ribeiro para os progressos das seieucias cm Portugal, tanto mais que esses esfor-
ços já bons fructos tem produzido.
J * J. L. db V.
III
VARIA QUAEDAM
Publicações que podem interessar aos leitores da Revista Lusitana, e de al-
gumas das quaes se fali ar á aqui mais demoradamente :
— Astronomia, meteorologia e chronologla populares, por
J. M. Soeiro de Brito, Espozende 1890 (da Collecção de Silva Vieira, n.° 5). — NeBte
opúsculo o A. limita-se a colligir factos populares portugueses ; apenas duas ou
tres vezes faz comparações com factos estranhos. Alguns dos factos portugueses
são já conhecidos, outros são novos ou offerecem variantes. — No Alemtejo cnama-
8ft astro ao ceu. As varias estrellas e constellações tem nomes tirados geralmente
da vida pastoral, como cabrêro (Syrius), cabras (Plêiadas), cachcro (Orion), etc., o
que é muito natural numa região, como o Alemtejo, onde os gados gosâo de tama-
nha importância. A propósito das doenças causadas pela lua, referidas a pag. 7 e
35, podia ter-se mencionado o amuleto denominado lua, usado contra ellas, e que
no Alemtejo.se fabrica de madeira, metal, etc ; cfr. A. Thomás Pires, iu Elementos
para um Dicc. Geogr. etc , de V. d' Almada, vol. i, s. v. amuleto. Na quadra de pag. 8
Já o sèdestrello * vae em pino, £ as cabras de seiscentos diabos
E a barca vae tombada, Não querem tomar malhada,
parece que as cabras do 3.° verso sào as Plêiadas (que tem aquelle nome); e então
a outra quadra, que o A. menciona,
O setfestrêllo vae em pino, As ovelhas de meu amo
E a lua já vae tombada, Não querem tomar malhada
fica sendo, quanto a mim, mera degeneração d'aquella fundamental : perdida a
noção de que a palavra cabras representa uma constellação, substituiu-sc facil-
mente tal palavra por ovelhas; e, como o pastor não guarda em geral gado seu,
accrescentou-se-lhe «de meu amo». A'cerca dos astros e superstições annexas, cfr. as
minhas Trad. pop. de Portugal, cap. i. — Do dictado
Ramos molhados,
Ramos melhorados,
conheço um do Norte do país, assim :
Ramos molhados,
Carros carregados,
que significa que, se chover pelos Ramos, a colheita será abundante. — Sobre o
vento e a trovoada, cfr. Trad. pop. de Portugal, cap. m. — Também no Norte e
Centro do país se usào as expressões Santo Entrudo (Beira- Al tn) o dia da S. Nun-
ca á tarde (Minho), — O que o A. diz do vento e seus noiney, a pag. sqq., é cu-
rioso e interessante. — Muitas vezes o A. transcreve as superstições no próprio dia-
lecto do Alemtejo, o que augmenta o merecimento do opusculozinho. Por ex., a pag.
i Ksta fónna 6 authontica, otj 6 crro*typograpMco por icteitrtllo T
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REVISTA LUSITANA
37 apparece-nos o verbo uaar (do lat. * ae qual are), que creio qne também se usa
no Campo de Coimbra, e e além d'isso archaico (sob a forma uguarj. — A pag. 16
diz o A. que invernm é contracção de' invernada, mas tal não pode ser: inverna é
um substantivo verbal de invernar, como rega o é de regar, esfrega de esfregar, etc.
— Cancioneiro popular politico, por A. Thomás Pires. Elvas 1891,
vui-72 pag. in-16.° Preço 200 réis. (Faz parte da Collecçâodo Correio Elvense).
— Calendário rural, por A. Thomás Pires. Elvas 1883,90 pag.in-16.°
(Faz parte da mesma CoUecçào).
— J¥oçôe« elementares de grammatlca portuguesa, por F.
Adolpho Coelho. Porto 1891, 130 psg. in-8.°
— Camões e o sentimento nacional, por Theophilo Braga. Porto
1891, vii — 324, in-8.°
— As lendas enristas, por Theophilo Braga. Porto 1892, xn — 400
pag. in-8 0
— As modernas ideias da litteratura portuguesa, por Theo-
philo Braga. Porto 1892, 2 vol., vn — 446 e 514, in-8. c
J. L. de V.
Portugal no estrangeiro :
— Na Berllner Phllologf sche Wochenschrlft, de 21 de Junho de
1890, vem um artigo do sr. prof. Epiphanio Dias intitulado Kritische Bemerkun-
gentu Eutrop («Notas criticas a Eutrópio»), que vérsào sobre os seguintes pontos
do Breviarium Historiae Romanae: n, 13, 2 ; ih, 22; v, 51. Entre outras edições
escholares de AA. latinos, o Sr. Epiphanio Dias fez uma também de Eutrópio, a
qual é a melhor que d'este historiador temos em Portugal.
— Na revista The Aeademy, n. # 1101, de 10 de Junho de 1893. vem,
com o titulo de English neglect of Portuguese literature, e assignado por Edgar
Prestage, de Bowdon, um íisongeiro, embora pequeno, artigo sobre a nossa litte-
ratura antiga e moderna.
— Na Aurora do Cavado, de 24 de Novembro de 1891, le se a seguinte
noticia: «O Sr. Sant'Anna Nery, distincto homem de lettras brazileiro, ha muito
residente em Paris, conseguiu ahi que a língua portuguesa fosse equiparada á ita-
liana, hespanhola, etc , como preparatório para o bacharelado em lettras».
— O sr. W. Storck, a quem a litteratura portuguesa deve tantos trabalhos
importantes, publicou em 1892 um livro intitulado Aus Portugal und Brasilieti
(1250-1890) Ausgewãhlte Gedichte («Poesiaz selectaz de Portugal e Brasil», — tra-
duzidas em allemâo). D este e de outros livros do sábio e prestimoso lusitanophilo
fallará a seu tempo a Revista Lusitana.
— Publicou-se o supplemento do Corpus Inscript,io?ium latinarum, vol. n, do
sr. Emilio Httbner, outro dedicado amigo de Portugal, e, como poucos, conhecedor
da nossa archeologia. O vol. n do Corpus contém, como é sabido, as inseripçòes
romanas de Portugal e Hespanha. — Noutro n.° d'esta Revista se dará notícia mais
circumstanciada.
J. L. dk V.
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VISÃO DE TUNDALO
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VISÃO DE TUNDALO
INTRODUCÇÂO i
1. — A visão de Tundalo 2 é, entre as descripçõcs medievaes dos
tres reinos eternos, uma das mais interessantes; e muitas vezes se
tem dito, e com razão, que ella contem grande numero de passagens,
as quaes de certo modo são comparáveis a outras da Divina Comedia.
E é bem notável que esta lenda se tenha conservado quasi inteira-
mente intacta, apesar de que, não só pelo seu argumento, que exci-
tava vivamente a phantasia, mas também pela sua fórma, que con-
siste em uma serie de descripções, se tornavam fáceis as interpola-
ções, omissões, e mudanças.
2. — A Visão de Tundalo succedeu no anno de 1149, a dar
credito ao que se diz no prologo do antigo texto latino: Visa est ipsa
visio 1149.° ab incarnatione Domini anno .... ipso eodem anno Mala-
chias, Dumensis episcopm .... defunctus est 3 . Em época muito pró-
xima d'aquella em que succedeu, um certo Marcos, capellão de uma
abbadessa G. 4 , a trasladou em prosa latina. No referido prologo diz-
se ainda: Placuit vestrae prudentiae, quatenus misterhm, quod osten-
sum fuerit Tnugdalo cuidam Hibernigeno, noster stUus licet inerudi-
tus de barbarico in latinam transfei m et eloquium. O sr. Mussafia diz
que bestas palavras poder-se-hia á primeira vista concluir que Mar-
cos apenas se tivesse limitado a trasladar em latim um escripto irlan-
dez; mas como pouco depois accrescenta: Scripsimus vobis fideliter,
prout nobis ipse qui haec viderat, eandem visionem; e no decurso da
narração muitas vezes se faz referencia áquelle que lhe tinha contado
as cousas vistas; resulta que o auctor da legenda é Marcos, o qual
escreveu a narração irlandeza ou immediatamente em latim, ou pri-
i Acerca d 'esta lenda veja -se a excellcnte memoria: Sul-la visione di Tun-
daJ-o, appunti di Adolfo Mussafia, nas Sitzunberichte der Kniserlichen Âkademie der
Wissenschafirn ; Philosophish-IIistorisch classe, Wien 1871. lxvu Band, Heft i.
pag. 157-206. Devemos declarar que foi d'esta memoria que principalmente nos
servimos para escrever esta introducçâo, a qual deve ser considerada apenas como
um resumo d'aquella, no que dizemos em os n." 1, 2, 3, 4 e 5. Cf. Reme ceUique,
dirigée par H. Gaidoz, tom. n, 1873-1875, pag. 124 a 12G.
* Os textos mais antigos tem Tnttgdalum; comtudo o sábio celtista Ebel diz
que a forma Tnugd nâo parece ser a primitiva, por isso preferimos a fórma vulga-
risada de Tundalo.
3 S. Malachias, bispo Dumense, falleceu a 2 de novembro de 1148; a diffe-
rença de um anno pode explicar -se admittindo que o auctor da Visão fez começar
o anno de 1149 em 1 de setembro. Alguns códices porém tem : Visa est ipsa visio
anno 1148, etc.
* Em um códice le se que o nome da abbadessa era Gertrudes.
itav. LDSiT., vol. iii, fase. 2. 1
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R8TI8TA LUSITANA
meiramente para seu uso cm linguagem barbara, barbarico eloqitio, e
depois a trasladou em latim para uso da mesma abbadessa. No fim do
seu escripto, o auctor se encoramenda ás orações da mencionada reli-
giosa: Vestram. o praeclara O., humílima et devotíssima prece preca-
mur clementiam. itt nostri licet indigni memoriam in vestris habeatis
orationibus. Comtudo pôde ainda suppor-se, que as palavras: Scripsi-
mus vobis fidéliter, prout nobis ipse qui haec vulerat visionem, se devam
referir ao auctor, que por ventura escreveu em irlandez a Visão; e
que aquellas: Placuit vestrae prudentiae, qtiatenus misterium quod
ostensum fuerit Tnugdalo cuidam Hibernigeno nostei* stilus licet ineru-
ditus de barbarico in latinum tranrferet eloquium, tenham sido accres-
centadas por Marcos, o qual, differente do auctor, se limitou a tradu-
zir em latim um escripto irlandez.
Disse-se atraz que Marcos fez a traducção latina não muito de-
pois do anno de 1149 ; com efieito no prologo já citado, faz-se menção
de que no mesmo anno, em que Tundalo teve a visão, em Claraval
morreu S. Malachias, e accrescenta: Cujas vitam miraculis plenam
Bernardm Claraevallensis abbas satis loculento sermone transcribit.
Este verbo no presente, transcribit, parece indicar que S. Bernardo
era ainda vivo, porque, se assim não fosse, o auctor usaria do preté-
rito, transcripsit E como S. Bernardo falleceu no anno de 1153, se-
gue-se que a lenda foi escripta entre os annos de 1149 e de 1153.
Muitos são os códices em que foi conservado o texto primitivo
de Marcos, comprehendendo o prologo e a subscripção. Durante muito
tempo ficou inédito, excepto o prologo, que foi publicado por Mar-
tene até que em 1869 toda a lenda foi publicada por Oscar Schade *.
3. — Menos de um século depois que Marcos fez a traducção la-
tina da Visão de Tundalo, Vicente de Beauvais (Vicentius Bellovacen-
8is), querendo incluir a mesma visão no Speculum Historitde, lhe fez
uma revisão, tornando-a mais própria para fazer parte da mesma com-
pilação. Supprimiu o prologo, conservando sóraente dos seus últimos
períodos a indicação da data ; omittiu no decurso da narração todas
as allusões pessoaes do auctor; e no fim supprimiu a breve subscri-
pção, na qual o escrevente se encommendava nas orações da abba-
dessa. Reduziu pois a lenda a proporções um pouco mais modestas;
comtudo limitou-se a omittir phrazes ou períodos, mas não resumiu o
sentido geral; em tudo o que restou conservou quasi intacto o texto
de Marcos. A Visão de Tundalo foi incluída no livro xxvui, capítulos
88 a 104, do Spewdum Historiale.
0 grande favor, que desde o sen apparecimento obteve o Specu-
lum Historiale, fez que muito frequentemente se destacassem certos
fragmentos que formavam um todo por si só, e fossem reproduzidos
á parte. E* por isso que a partir do século xii se encontra uma nova
1 Thesaurus no mis anedoctomm, edd. Edm. Martene et Ura. Durand. Lute-
tiae Parisiorum, 1717, vol. i, pag. 490.
2 Visto Twugdali, edidit Oscar Schade. Halis Saxonum, 1869.
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VISÃO DE TUNDALO 99
serie de manuscriptos da lenda, os quaes contêem a redacção do 8pe-
culum HistoriaJe.
A Bibliotheca Nacional de Lisboa possue ura magnifico exemplar
manuscripto, em tres volumes, do Speculum Historiale de Vicentius
Bellovacensis; é o códice illuminado Z-6-3, que parece remontar ao
.século xv. A lenda sob o titulo de Visio Tundali, que se encontra
no alto das folhas correspondentes, é dada no livro xxvni capitulos
lxxxviii a civ. Estes capitulos occupam 38 columnas (duas por pagi-
na) de 43 linhas, em media de 24 lettras. O capitulo lxxxviii, que fórma
o prologo, tem o seguinte titulo, e começa assim:
Ixxxviij. De raptu anime tundali et eius uisione Marchus G. áb-
batisse. capitidus.
Anno Domini m.c.x.lix. qui fuit annus secundus expeditionis
ierosolymornm conraãi regis romanorum, et annus quartas eugenii
papae. in qxio anno ipse papa de partibu* qalliarum rornam reversus
est. in quo etiam anno sanctus malachias in claraiialU defundtis est.
Visa est hec visio.
4. — Além do texto de Vicente de Beauvais, encontram-se outros
resumos da mesma lenda, os quaes pela maior parte derivam do texto
antigo. Alguns d'estes resumos têem o titulo de Visio Tundali, outros
de Apparitio Tundali; todos supprimem o prologo, e começam imme-
diatamente pelas palavras. Cum anima meu corpus eocuerat.
Emfim da narração de Vicente de Beauvais encontram-se tran-
sumptos em diversas obras escriptas nos séculos xiv e xv, e entre ou-
tras na Chroniea de Santo Antonino.
5. — Bem cedo o texto da Vi$ão de Tundalo se espalhou por toda
a Europa, e deu logar a versões nas línguas vulgares, que remontam
aos séculos xm a xvi; geralmente reproduzem o 'texto antigo de Mar-
cos; comtudo algumas derivam evidentemente da recensão vulgari-
sada no Speaãum Historiale.
Em primeiro logar deve mencionaf-se a versão irlandeza, ainda
inédita, que se encontra no Ms. H-3-18 do Collegio da Trindade em
Dublin. Esta versão parece ter uma importância particular para re-
solver a questão de saber se o texto original da lenda foi irlandez
ou latino. Conhecem-sc além d'isso traducções em portuguez, hes-
panhol, provençal, francez, italiano, allemão, hollandez, sueco e ser-
bocroata.
6. — Da Visão de Tundalo ha duas versões portuguezas nos ma-
nuscriptos provenientes do mosteiro de Alcobaça ; uma no códice 244, *
actualmente depositado na Bibliotheca Nacional de Lisboa, e outra
no códice 266, existente no Archivo Nacional da Torre do Tombo.
O códice 244 é um volume encadernado, manuscripto em perga-
minho, composto de 104 folhas. Cada folha mede 270 por 210 milli-
metros; a parte escripta em cada pagina compõe-se de uma só co-
lumna medindo 200 por 170 raillimetros.
A lettra é gothica, e parece remontar ao século xv; mas a escri-
pta das folhas 1 a 90 é diferente da das folhas 91 a 104. As paginas
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REVISTA LUSITANA
das folhas 1 a 90 contem 28 liuhas, e as das folhas 91a 104 contem
26 linhas, era media de 50 lettras cada uma.
No principio do códice ha uma folha de papel, não numerada,
que em letra do século passado tem escripto o seguinte :
Cathecismo do P/ Fr. Zacharias de Payopfflle antigo Monge Cis-
terciense do Real Mosteiro de Alcobaça; com outras obras ascéticas do
mesmo Author, a saber:
1. O Livro intitulado — Vergeu (aliás) Vergel de prazer, e consola-
ção, — dividido em 5 partes, e subdividido em 78 Capitulo*.
2. Meditações de 8. Bernardo traduzidas no idioma Portuguez.
3. Hystoria de hum Cavaleiro chamado Túngala (aliás) Tundalo,
ao qual foram mostradas as penas do Inferno, e do Purgatório, e os
gozos do Paraizo.
Com effeito estas tres obras encontram-se no códice, occupando
a primeira as folhas l,r a 73,r; a segunda as folhas 73,r a 90,v; e
a terceira as folhas 91,r a 104,v.
Como já observou Fr. Fortunato de S. Boaventura *, o antigo
monge do Alcobaça Fr. Zacharias de Payopélle não é o auctor, mas
sómente o traductor para portuguez das obras contidas neste códice.
0 códice 266 é um volume encadernado, manuscripto era perga-
minho, composto de 171 folhas. Cada folha mede 266 por 178 milli-
metros; a parte escripta de cada pagina compõc-se de uma só colu-
mna medindo 198 por 124 millimetros.
A lettra é gothica, de differentes mãos, e parece remontar ao sé-
culo xv.
No principio do códice ha uma folha de papel, não numerada,
com o indice das obras contidas no códice, as quaes são attribuidas a
Fr. Hilário da Lourinhã, monge Cistcrciense do Real Mosteiro de Al-
cobaça.
A Historia do Cavaleiro Tungullo occupa as folhas 124,r a 137,r.
Nesta parte cada pagina tem 30 linhas em media de 40 lettras
cada uma. Como também observou Fr. Fortunato de S. Boaventura *,
o antigo monge de Alcobaça Fr. Hilário da Lourinhã não é o auctor,
mas sómente o traductor para portuguez das obras contidas neste
códice.
As versões portuguezas da Visão de Tundalo, contidas nestes
dois códices, são differentes uma da outra. Não se conhece a época em
que viveram os traductores, e por tanto aquella em que foram feitas
1 Fr. Fortunati a D. Boaventura, Commenlariorum de Alcobacensi mss. Bi-
bliothecas libri tres. Conimbrica), 1827, pag. 569 e 570.
2 Fr. Fortunati a D. Boaventura, Commentariornm de Ahobacensi mss. Bi-
Uiothem Ubn tres. ConimbricíB, 1827, pag. 570.
Cod. 344.
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l í
Visão de tdndalo
ioi
as versões; mas a linguagem (Testas não é anterior ao século xm nem
posterior ao século xv, inclinando-nos antes a que as versõès foram
feitas pelos fins do século xiv, ou princípios do século xv.
Publicamos agora a versão contida no códice 244, e em outra
occasião o será a do códice 266 ; reservando-nos para fazer depois um
estudo acerca da relação d'estas versões com o texto latino de que
derivam.
Conservou-se a orthographia do códice, apenas substituindo o ~
por n, e desfazendo as abreviaturas em conformidade cora a orthogra-
phia usada no códice.
Lisboa, 24 de Novembro de 1893.
Começase a Estoria dhuun Caualeyro a que chamauan
Tungulu. ao qual foron mostradas uisibilmente e non per ou-
tra reuelaçon. todas as penas do inferno e do purgatório. E
outrosi todos os beens e glorias, que ha no sancto parayso.
Andando sempre huun angeo con el. Esto lhe foi demostrado
por tal que se ouuesse de correger. e enmendar dos seos pec-
cados e de suas maldades.
En huma prouincia a que chaman ybernia. foy huun Caualeyro
a que chamauan tungulo. E era mancebo e de boo linhagem, o qual
áuia muy pequeno cuidado de sua alma. Ca a ssua mancebia e a sua
fremosura. e o seu linhagen. todo tornauan en uaydade do mundo, por
a qual razon non auia sabor de auer saúde de sua alma. Eralhe muy
graue de hir aa egreia nen fazer oraçon. Daua muy poucas esmolas
por deus. pero era muy largo en despender osso que auia en maaos
husos. Este tal e tan pecador quis deus por exemplo de nos todos,
que uisse muytas cousas e as sofresse, e que as contasse a nos. per
que tomássemos exemplo pera nos castigarmos de mal fazer.
Este caualeyro iouue morto per spaço de tres dias e a sua alma
foy leuada a muytos logares. como ben ouuiredes. E uiu as penas e
os tormentos que os maaos padeciam. E depois logo uiu os beens que
os boons reçebiam. Esto durou des quarta feyra hora decima, ataa o
ssabado hora prima en tal maneyra que todos cuidauan que era mor-
to. E fora ia soterrado non seendo huma pouca de queontura que tii-
nha no costado seestro.
Assi foy que no terceyro dia que era sábado como dicto he. co-
meçou a ssuspirar. E muitos que hy ueeron assi clérigos como leygos
pera lhe fazeren honra e seu offleio assi como a passado começaron de
sse marauilhar e espantar e ele abriu os olhos, e começoulhes a fazer
sinal que lhe trouuessen o corpus christi. e recebeo logo e começou
de dar graças a nosso senhor deus. Dizendo ay deus meu senhor
F. M. Esteves Pkrriba.
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Í02
REVISTA LtJSlí A# A
rauyto he mayor a tua merçee que a minha maldade. Ca pero que
muito grande era a minha maldade. Senhor en my fezeste gran pie-
dade. Ày senhor quantas maas tribulaçooens me mostraste e pero de
todas me liuraste. e dos auissos me tiraste. Depois desto partio todas
as cousas que auia e deuas a pobres e ordenou sua fazenda en tal ma-
neyra e a sua uida outrosy que ben deu aa entender que uynha muy
escarmentado das penas e dos tormentos en que se uiu. E muy gram
talente auia de guaanhar os beens que uira.
Ora comecemos as cousas a recontar como lhe aconteçerom. En
aquela hora que a alma deste caualeyro foy fora do corpo, começou
de auer gram medo. ca se sentia muy peccador. e non sabia que fe-
zesse. e auia a alma sabor de tornar ao corpo, e non podia entrar
en el. E non sabia aqual fosse assy soo desem parado de todo ben.
saluo da mâao de deus. e el stando assi gemendo e chorando, e re-
guardandosse dos maaes muytos que auia feytos. Viu uyr muy gran
conpanha de demoes. e non tan solamentc a casa hu iazia o seu cor-
po, mais todas as ruas e plaças eran cheas deles. E ela çercada deles
de cada cabo. começaron de a espantar muy fortemente e dizian.
Cantemos a esta alma mesquinha cantares de morte, ca filha he de
morte, e amiga de teebras. e enmyga de luz. e con muy grande espanto
a chamauan e dizian assy.
Ay mesquinha este he o poboo que tu escolhiste. con os quaaes
andaras no fogo do inferno. Ca ia bas mortas as tuas nouas e os teus
uiços. por que non es soberuoso como soyas. por que non fazes forni-
zio. por que non fazes adultério, por que non enuolues escândalos.
Hu son as tuas uirtudes. hu he a tua uaan gloria, e a tua uaan ale-
gria hu he. o teu vãao ryr hu he. O teu comer, e o teu beuer do qifte
tu soyas de husar. e de que dauas pouco aos pobres, hu son. As tuas
loucuras que tu fazias, hu son. todo ia he passado. E por en todo
penaras. A mesquinha da alma ouuindo taaes cousas, e veendo tan
maa uison. era muito espantada, e non sabia que fezesse. E en quanto
ella assy sia. uio uynr huun angeo assi como estrella muy clara que
a saudou, e a confortou. E quando o ela assy uiu. começou de chorar
con grande plazer que ouue. e dizendo. Ay meu senhor e meu padre,
doores do inferno me cercaron. e fuy en gran temor. Respondeo en-
tom o angeo e disse.
Agora me chamas tu senhor e padre, quando te uees en coita, o
que ante non fazias, quando eras en teu poder. Enton lhe disse a
alma. Ay senhor nunca te eu uy se non ora quando ouuy a tua uoz.
muy saborosa. Respondeo o angeo e disse, sempre eu fuy contigo, des
o dia en que nacisti. e hya contego hu quer tu hyas. Mais tu nunca
quiseste creer meus conselhos, nen fazer a minha uoontade. Entom es-
tendeo o angeo a sua mâao. e apertou huun daqueles demoes. que lhe
mais escarnho fazia, e disse o angeo á alma. Ves este he o que tu
cryas. e cuia uoontade fazias, e despreçauas my. Mais sey segura ca
deus ha de ti piedade, e non padeceras tantas penas quantas mereciste.
mais passaras por muytos tormentos, e depois desto tornaras ao corpo.
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tfisio DE ÍUNtiÁLO
íoâ
por corregeres tua uida. £ por en para ben montes en todas as cou-
sas que uircs e non te esqueçam.
Os diaboos quando esto ouuiron. coraeçaron a dizer mal de deus.
por que tynham que aquela alma era sua de dereyto. e diziam que non
.fazia dereyto. Mais poren deus sempre foy. e he. e hade seer dereyta
justiça, ca aynda aaquela alma flcaua tempo de fazer penitencia, pois
que ao corpo auia de tornar.
Depois desto disse o angeo a alma. sigueme. Respondeo a alma
e disse. Ay senhor, se eu depois uos for. estes demoes tomarmeam
por detrás, e leuarmcam pera me darem tormentos. Disse o angeo.
non aias medo. nen pauor ca mais son connosco, que com eles. Sabe
que deus he connosco, e outro nenhuun non pode seer contra nos.
que nos possa enpeencer. Enton foy a alma despos o angeo. e non
auia outra luz nen claridade, se non tan solamente a luz e a clari-
dade do angeo.
E chegaron a huun ualle de teebras. muyto spantoso e era rauy
fundo e muy caruoento. e tynha huma cubertura de ferro en que po-
dia auer sete couedos en grosso, e tanto ardia que se uoluia em car-
uõoes accesos per ella. o fedia muy mal. E iaziam sobre ella muytas
almas mesquinhas que se queymauan. e feruian en ella como o azeite
ferue na sartáae. e depois que feruiam. deitauanse per ella a fundo,
assi como a cera derretuda polo panno. e cayam sobre os caruõoes acce-
sos. E quando a alma uiu estas cousas, con grande medo disso ao an-
geo. Kogote senhor que me digas que fezeron estas almas, por que
receben tal pena. Respondeo o angeo e disse, tal pena mereceu os
matadores e os que con elles consenten. E tu tal pena merecias. Mais
tu non a sofreras. Mais guardate quando tornares ao corpo que non
faças per que estas penas e outras mayores padeças.
Depois desto disse o angeo a alma. Comecemos andar, ca longo
caminho nos fica pera andar. É assy hyndo. chegaron a huun monte
muy grande e de gram tormento e temor, en que auia muy streyta
carreyra e muy maa. E da huma parte da carreyra era muy gran
uento e muy frio. E todo o monte assi dhuma parte como da outra
staua todo cheo de muitos demoes que stauan prestes e aparelhados
pera atormentar almas. E estes diaboos tynham en suas mãaos ga-
danhos de ferro muyto agudos e outros aparelhamentos. con que en-
pesauan as almas, e dauan con ellas dentro no fogo. E desi er tira-
uannas do fogo. e deytauannas na agua e na neve. E assi as almas
mesquinhas andauan de pena en pena. Eaton a alma disse ao angeo.
Senhor como poderey eu passar por huun logar tan maao e tan es-
quiuo.
Disse enton o angeo. non temas de me seguir. E desi deceron a
huun ualle muy fundo e muy escuro, e en fundo daqnel ualle a alma
non uya nada. Mais ouuia o aroydo dhuun ryo. que corria per clle do
qual ryo saya gram fumo e gram fedor, e a alma ouuia grandes
braados. e grandes gimidos das almas que iaziam en aquel ryo. en
que padeciam grandes tormentos. E en cima daquel ryo era posta
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io4
KKVISTA LÍJSlf AÈi
huma tauoa en maneyra de ponte, que chegaua dhuma parte do monte
aa outra. En aquela tauoa auia ben mil passos en longo, e non mais
que huun pee en ancho, e per ella non podia passar nenhuma cousa
que non ouuesse de cayr en fundo, saluo se fosse muyto escolheyto
de deus e muito bõo. E a alma uiu cayr muitas almas en fundo, e uio
vynr pola ponte huun peregrin que hya per ella muy seguro, e tragia
huma escrauina uestida.;e huma palma en sua mãao. E a alma quando
uiu que este tan aginha passou, disse ao angeo. Dizeme senhor,
como poderey eu passar per esta ponte tan estreyta que non caya a
fundo. Respondeo o angeo e disse, non aias medo. ca desta pena liure
serás, e passaras aa outra parte sen perigoo de ti. Enton disse a al-
ma ao angeo. Rogote senhor que me digas, estas penas de quaaes ri-
mas son. Respondeo o angeo e disse, este ualle tan fundo e tan es-
curo, he morada dos soberuosos. E en este outro de que saae tan
grande fedor e que ten a carreyra tan streyta. c ha cn ella tantas
paias, he logar dos que teen os caminhos pera mal fazer, e pera rou-
baren. e tomaren o alheo.
Enton disse o angeo a alma. siguerae ca aynda teens de ueer muy-
tas cousas, e começaron a hyr per huma carreyra torta e muy maa.
E assi como hyam per aquela carreyra. e era tan escura, que a alma
non uya nenhuma cousa, se non a claridade do angeo. E a alma hia
muy quebrantada dos trabalhos que auia passados. E uio huma besta
tan grande que sobrepoiaua todos os montes que ia ante uira. e aquela
besta era tan forte e tan espantosa, que non ha homen uiuo en carne,
que o osmar. nen consyrar podesse. Ca os seus olhos pareciam outey-
ros accesos. E a sua boca que ella tynha aberta, ben poderiam per
ella caber noue mil homeens armados, assunadamente. e tynha dous
seruentes. e huun deles tynha a cabeça susu. e os pees juso. e o outro
tynha a cabeça juso e os pees suso. e syam ambos en meu de duas
traues muy grandes que stauam atrauessadas en aquela boca. E
sayam per aquela boca muy grandes chamas de fogo. que se partyam
per tres partes, pelas quaaes chamas conuynha aas almas mesquinhas
que passassen. e entrassen no ventre daquella besta. E sayam per
aquela boca muy grandes braados de chantos. e de choros muy doori-
dos. de muytas almas que dentro jaziam, que padeciam muytos tor-
mentos sen piedade nenhnma. Estavan ante aquela boca daquela besta
muytas companhas de demoes. que atormentauam as almas. E cilas
atormentadas, faziannas entrar no uentre daquela besta. Enton ueendo
a alma a tan maa uison. disse ao angeo. Senhor, por que nos chega-
mos tanto a esta besta. Respondeo o angeo. e disse, non podemos aca-
bar nossa uiagen. menos de chegarmos a ella. Enton começou o angeo
de hir adeante. e a pouco tempo desapareceolhe e a alma ficou soo. e
os diaboos cercaronna logo assi coroo cãaes rayuosos. e atormenta-
ronna dentro no uentre daquela besta, e os tormentos e penas que hy
padeceo. non ha homen uiuo e nado que as podesse contar. Mais en-
pero na vida que el depois fez. ben poderiam entender os homeens
que o conheçeron. segundo as obras que el fazia, que muytas penas
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VJSÁO DK TtJNDAtO
105
recebera ali iazendo. E segundo a uida que niueo. depois que tornou
ao corpo.
Ca el iazendo no uentre daquela besta, sofreo e padeceo muito
fedor, e muita caentura. e muito frio. e muitos outros tormentos, que
os homeens non poderian contar. E el iazendo dentro chorando suas
maldades, e recontando o que auia feyto por que padecia aquelaà pe-
nas, parou mentes e uiose fora. e non sabia como sayra. e ela iazendo
assy atormentada, abrio os olhos e viu o angeo que a auia leixada.
Enton disse a alma ao angeo.
Ay minha sperança e minha uida, e meu ben. quaees graças po-
deria eu dar ao meu senhor ihu x.° por tanto ben que me fez. quando
te me deu por guardador, e por meu guiador. Enton respondeo o an-
geo. e disselhe. Assy ia te eu disse que mayor he a misericórdia de
deus que a tua maldade. Empero que no dia do juizo dara a cada
huun seu dereyto. segundo como o mereçer. E poren quando fores en
teu poder, non faças per que tornes a sofrer taaes e tentas penas. En-
ton o angeo disse vaamos mais adèante. Ca ante nos veeremos outras
penas.
E a alma começou a andar, mais non podia ir seguir o angeo tanto
era lazerada. E quando foron ia hindo longe, uiron huun mar muy
forte e muy brauo. que as ondas dele se alçauan tanto, que non po-
dian veer o çeeo. En aquel mar jaziam bestas muitas e muy feas. e
de muitas maneyras. e non stauan al sperando se non almas que pas-
sassem. E tam fortes eram aquelas bestas, que pareciam torres. E das
suas gargantas sayam tan grandes fogos, que toda a agoa faziam fer-
ver. E sobre aquel logar staua huma ponte muy longa, e muy streyta
e auia en longo dez mil couedos. e non era mais ancha que huun
palmo, e era muito mais streita que a outra.
Esta ponte era fecta dhuma tauoa que toda era chea de clauos
agudos, e os que per ela passauan padeciam grandes penas e era muy
maa de passar, ca era muy estreyta e muy longa e toda enclauada do
muy gran temor. Ca en ftindo iaziam muytos maaos bestigoos. E uio
huma alma que staua en aquela ponte chorando carregada dhuun
feixe de trygo. e fazianna passar pola ponte. E pero que auia os pees
muy agrauados. e lastimados dos clauos. mais queria hir per ela. que
cayr nas bocas daquelas maas bestas. E a alma quando uiu que auia
de passar pola ponte disse ao angeo. Senhor se te prouuesse que-
ria saber de quaaès he esta pena. Respondeu o angeo. esta ponte
e estas penas son daqueles que furtaron. quer pouco quer muito. Mais
non padecen todos yguaaes penas. Ca os que furtaron muito merecen
mayores penas e mais. e os que furtaron pouco non padecen tanto. E
tu merecias de entrar en elas. mais pola mercee de deus livre es
delas. Mais conuen que ora passes per ella sen my e passaras con-
tego huma uaca braua. que tu furtaste a huun teu conpadre. Respon-
deo a alma e disse, se a eu tomey depois a dey aaquel cuia era. e
outras cousas. E o angeo disse. Ben sey que a deste, mais tu a deste
por que a non podeste esconder. Mais empero non padeceras tau
106
ÊBVISf A LUSlf AtfA
grandes penas, como padeceras se lha non deras. Enton pareceo a
naca muy brava e rauy forte, e per nenhuma guisa non queria hir
pola ponte, enpero aacima ouue de passar como quer que lhe era muy
grane, ca a ponte era muy estreyta e non podian hir per ella se non
posessen os pees en aqueles clauos. E indo assi pola ponte, chegaron
aa meatade delia, e encontrarem con aquel que tragia o feixe do
trigo aas costas, e a alma rogou aquel do feixe, que a deixasse pas-
sar. E o outro disse, mais leixa tu my passar, ca con muy gram pena
trouxe aqui este feyxe a este logar que tu uees. E en quanto assi
stauan en esta contenda, con muy gram temor de cayr en fundo, acu-
sandose si meesmos dos peccados e dos maaes que auiam feytos. por
que eran dignos e merecedores de padecer aquela pena e aquela door.
ca lhes saya o sangue dos pees per fecto dos clauos que se lhe me-
tiam per elles. per tal guisa que non podian ir ia mais adeante. nen
podiam tornar atras. Enton falou o angeo aaquela alma e disse, ben
seias ueuda. non aias medo iamais da uaca. ca ia es liure dela e ia
enmendada has a culpa. Enton lhe mostrou os pees como os tragia cha-
gados e muy agrauados dos clauos dizendo que non podia andar. Dis-
selhe o angeo. Deuiaste de acordar, en como os auias muy ligeyros.
e muy ardidos, andando con elles en muitas uaidades. E non seendo
a misericórdia de deus lazerarias malamente e o passarias aqui muy
mal por os teus merecimentos. Mais esforçate en deus e pensa de an-
dar. Ca huun tormento muy crueuil e muy maao. e muy negro nos sta
sperando. cuia pousada e oficio per nenhuma maneyra scapar non
podemos.
E hyndo assi e andando per logares muy secos e muy escuros,
apareçeoíhes huma casa aberta que era redonda assi como forno aceso.
A chama daquela casa saya assy per spaço de mil passos duraua. e
queymaua quantas almas achaua a redor de sy. E a alma quando uiu
esta casa tan maa. disse ao angeo. Ay mesquinha ia nos chegamos
aas portas da morte. Bespondeo o angeo e disse, liure serás desta
pena desta casa. Mais conuen de entrares dentro e ueeras muyto
mayores penas. E parou mentes e uio estar ante a porta muytos
demoes en semelhança de carniceyros que tynham segures e cuytelos
nas mãaos pera esfolar e desfazer en quartos e en postas, e depois
que as desfaziam deitauannas en aquelas chamas, e dauam con ellas
dentro na casa a arder, e padeciam aly muy grandes penas e tormen-
tos. E a alma quando esto uiu. preguntou o angeo dizendo. Senhor
rogote que me digas, de quaaes son estes tormentos. Respondeo o an-
geo e disse, estas penas son dos gargantooens e dos fornigadores.
quando a alma uiu que aquela pena era mayor que as outras, disse
enton ao angeo. Rogote senhor que me liures deste lugar e miteme
en outras penas quaaes quiseres. E o angeo respondeo non podes es-
capar que ala non entres, ca câaes rayuosos te stam sperando. enton
a desemparou o angeo. e quando os demoes uiron que o angeo a
desemparaua. cercaronna de cada parte, con aqueles aparelhos con
<}ue atormentauan as outras almas e talharonna. e espedaçaronna
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Visão de túndálo
107
toda. e ella toda espedaçada. leuaronna dentro aaqucla casa. e as
penas que ela ali padeçeo quantas foron e quaaes. non ha coraçon
que o possa cuidar. Ca ella padeceo ali muyto fumo. muyto frio. muita
caentura. e muitos açoutes e muito fedor, e outros muitos tormentos,
que aqui non son scriptos. En aqueles logares en que atormfcntauan
outros que padecian mayores penas e mayores tormentos, non ha ho-
men que o possa pensar, nen contar, os marteyros que hy son con-
teúdos en cada buun daqueles logares. por que non ha homen que o
soubesse, que se non guardasse muyto de fazer peccado.
A alma depois que foy metuda en aquela casa. e passadas ia to-
das as penas, que en a sobredicta casa eram conteudas. por muyto mal
que auia fecto e merecido, do qual nunca fezera penitencia se non
ali. non catou se non quando se vio liure e fora das dietas penas e
tormentos. Em pero esteue en teebras. ataa que chegou o angeo a
ella. que lhe deu claridade.
Entom a alma con gram temor disse ao angeo. Ay senhor, hu
he aquela misericórdia que nos dizen que ha en deus e que deus he
misericordioso. Pois hu he aquela misericórdia, ia que tantas penas e
tantos tormentos hey passados. Respondeo o angeo e disse. Oo filha
minha, quantos son enganados per esta feuza que ham. que o senhor
assi faz misericórdia. Ca en como quer que en deus aia muyta mise-
ricórdia e seia muy misericordioso como he. non leixa por en de
fazer justiça, segundo a justiça de cada huun en como a merece. Assi
segundo a sua grande misericórdia, perdoa muytas cousas a muytos
que mereciam muy mais grandes penas por ellas.
E aqueles que receberon penitencia pola confisson que fezeron
e a non conprirom en esse mundo assi como lhes foy mandado, con-
uen que a conpram en estes logares con estes que uiste. Enton disse
a alma ao angeo. Ay senhor os que forem iustos. por que os tragem
a estes tormentos. Respondeo o angeo. e disse. Por esso lhes mostram
esto. que quando uiren os maaes dos outros de que se eles cauidaron
de os fazer, que aiam por em mayor plazer.
Outro sy aos maaos mostram que ueiam a gloria que os boons
e os sanctos ham. e receben. por tal que aiam mayor noio e mayor
pesar, polo ben que perderon.
Onde aquel peregrim que tu uiste que tragia a escrauina uestida
e a palma en sua mãao e passaua seguramente per aquela ponte, era
homen de boa alma. e de boa uida. E por en uiu todas aquelas pe-
nas, pera receber por em mayor plazer. por que as escapou e non
temeo delas nada.
E tu anda quanto poderes. Ca ainda non uiste todas as maas pe-
nas, per que has de passar. Onde quando as todas uires aueras delo
muy gram proueito. Ca aueras mayor talente de seruir a deus. Enton
disse a alma ao angeo. pois assy he uaamosnos e receberey aquele
marteyro que ouuer de receber, per que depois receba gloria.
E elles começaron de andar e uiron huma besta, que era desas-
semelhada das outras bestas que ante uiron. E aquela besta auia dous
5
1Ó8
REVISTA LtíSlf AtfA
pees. e duas aas muy grandes, e per sua boca sayam muy grandes
chamas de fogo. e ela staua sobre huun lago muy grande, que pare-
cia que era qualhado con geada grande, e comya quantas almas podia
auer. e as almas padeciam muytas e granes penas no uentre daquela
besta. E depois que as auia comestas. deitanaas con decabo de seu
corpo, e cayam en aquel logar hu estava aquela geada coalhada, e
sayam de gran oaentura, e entrauan en gram friúra. E todas aquelas
almas que iaziam en aquel lago que he muyto spantoso de ouuir. todas
tornauan prenhes, e quando elas auian de parir tan grande era o cla-
mor e o aroydo que faziam con os dentes, que non ha homen que o
possa conpridamente contar nen dizer. E assi pariam ali os homeens.
como as molheres. todos emprehauan e pariam, e non pariam tan so-
lamente per aqueles logares. per que as molheres parem. Mais ainda
parian poios braços e poios peitos, e per todos os logares do corpo,
e parian serpentes, o outras bestas maas que teen os dentes de ferro
muy agudos, e mordian con elles muy mal as almas, e royonnas muy
fortemente en tal guisa que os braados hyam muy longe. Ca tam
grandes eram os braados. e as nozes das almas, e os gimidos e os braa-
dos das serpentes, e o roydo que faziam, que non ha homen que assy
o possa dizer nen contar per aquela guisa que he. por que se em os
demoes ouuesse alguun conhocimento de piedade, alguun espaço aue-
riam aquelas mesquinhas daquelas almas.
Estas almas, assi nos dedos e nas mãaos como en todos os outros
menbros. con que peccaron. todas eran cheas de cabeças de serpentes.
E de tal guisa as mordiam que lhes chegauan ataa dentro todos os
nenbros. e ben ataa os ossos. Enton disse a alma ao angeo. Rogote
senhor que me digas quaaes son estas almas, e por que padecen tan
grandes penas. Respondeo o angeo e disse, taaes penas merecem aque-
les que deuiam a seer melhores que os outros, e ham sabedoria e
sciencia de o seer e non o son. Mais ham as lingoas muito agudas
pera dizer muyto mal. E por em padecem estas penas que tu vecs.
e som assi comestos destas serpentes. Outrosi assi lhes conuen de
padecer en todos os menbros. per aquela maneyra que peccaron. E
tu por que grauemente peccaste en este peccado. padeceras estas
penas.
E logo aaquela lhe desapareceo o angeo. E tomaronna os demoes.
e deytaronna aaquela besta a comer, e logo foy comesta. E os tormen-
tos que ella aly padeceo foron mny estranhos per tal guisa que he
grane cousa de os contar. Mais segundo elle depois uiueo e a enmenda
que el fez. ben deu aa entender, que eram muytos e muy maaos.
Depois desto. a besta deytoua de seu uentre. e cayu en aquel lo-
gar do lago que era todo cheo de geada coalhada. E ella stando en
aquela pena. e en aquela door. Veo o angeo a ella e disse. Ven amiga
pera ray. Ca ia es liure desta pena. e mais non a padeceras, e tiroua
dantre as outras almas que hy iaziam. e disselhe. sigueme. e foron
adeante per logares muyto escuros, e muy peores dos outros, que ia
auiam andados, e o caminho era muy streyto e deçiani per elle assi
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VISÃO DE TUNDALO
109
como se decessen dhuun ínuy alto muro. e parecialhe que deçiam noa
abyssos. E per ha deciam era tão forte logar e taa perfundo. E assy
hyam per ele a fando como se os lançassen dbaun alto muro a fundo,
e quanto mais deciam. quanto menos a alma nya o logar per hu auiam
de tornar. E outra luz non auia. se non a claridade do angeo.
Entom disse a alma ao angeo. Rogote senhor que me digas que
caminho he este que assy vay. Respondeo o angeo e disse, este ca-
minho vay aa morte. E assi como ia deciam hyndo muy longe, uiron
huun ualle no qual estauam muytas forias de ferro, e ouuirom dentro
muytos braados e muitos choros. Entom disse a alma ao angeo. Ou-
ues tu estas nozes que eu ouço. Respondeo o angeo. e disse, a esta
tormonta chaman que he uista per arte. do qual engano caaen muytos.
e son dei atormentados. E a alma disse, e eu hey de ser atormentada
delle. Respondeo o angeo e disse sy. E a alma quando esto ouuiu co-
meçou de chorar, e foy dopos ele. e quando foy açerca dele. desapa-
rcceolhe o angeo.
Enton ueeron os deraoes e tomaron a alma con muy grandes
torqueses accesas. e assi a receberon e non falaron ao angeo. cousa
que fosse, e tomaron a alma. e derom con ella dentro no fogo. o co-
meçarom logo a soprar o fogo con foles accesos de fogo. E assy a
atormentauain. con outras muytas almas que dentro jaziam. E assy
se deretiam como o chumbo, e des que eram deretudas. encorpora-
uanso assi como erau primeyramente. e tornauanse per aquela guisa
que eran ante.
Entom tomauannas os diaboos con gadanhos, e con torqueses. e
poynhannas na foria. e malhauan en ellas con martellos de ferro. En
tal maneyra que aas uezes de con almas se fazia huma massa. E en-
pero que muytos marteyros auiam. non inorrian por em. o que era
cousa que ellas muito deseiauan. E os atormentadores diziam huuns
aos outros, ainda esto non auonda. E os outros que estauan nas ou-
tras forias dizian. deytadeas aca. e ueeremos se auondan.
Enton deitauannas. e ante que ueessen a terra, recebiannas con
torqueses de ferro, e deitauannas no fogo. e ardiam assi como da pri-
meyra ataa que se tornauan candeas accesas.
Esta alma iazendo en aquela pena. chegou o angeo. e tyroua
dali. e preguntoulhe como te uay. Parecete que te foron saborosos os
uiços do mundo que por eles padeces tantos tormentos. A alma non
podia falar nen responder, tanto saya britada e fraca. O angeo con-
fortoua enton e disselhe. anda e ueeras outras mayores penas, que as
que uisti. Mais tu serás liure delias pola misericórdia de deus. Ca to-
das estas almas que tu aqui uisti. todas speram saluaçon. e outras
que non uisti. pois anda e ueeras as que ia son julgadas pero nunca
seeren saluas.
E começaron a andar, e como hyam falando de consuun. a alma
ouuo grande espanto. E uiron huma muy grande foria. e muy grande
fedor, e teebras muy mayores que as que dante uiron. E ouuiron tan
grande aroydo. que semelhaua que todos os fundamentos da terra se
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REVISTA LUSITANA
mouian. Enton desemparou o angeo a alma. e ella ficando asai des-
emparada. e soo. ouuio clamores e apelidos das almas, tan grandes
como toruoons. E parou mentes por todas as partes por ueer aquele
logar. e uio huun poço muy grande, do qual se leuantaua chama de
fogo. muy grande raesturado con fumo. que chegaua ataa o coeo. a
qual chama era chea de demoes. e alçauanse assi como folhas quey-
madas. e assi padeçiam estes tormentos. Enton a alma con gran des-
peito disse, mesquinha.
E começou de se carpir, e confranger dizendo. Ay mesquinha eu
son. por que non quige creer as scripturas sanctas e os conselhos dos
honieens boos. e amey mais os uiços do mundo. E logo os diaboos a
cercarom de cada parte assi como abelhas e diziam. Ay mesquinha, a
que ueeste aqui. e quem te trouxe a nossos tormentos. Agora serás
metuda en logar de que nunca sayras. nen aueras luz. nem alegria,
mais sempre aueras mal. Er disseron. por que tardamos mais. Demos-
la a lucifer. que a coyma.
E aqueles demoes eram negros como caruoens. e os olhos auiam
como candeas accesas. e os dentes auiam brancos assi como a neue e
tragian rabos, como escorpiooens. e as hunhas dos pees e das maaons
cran de ferro agudas e muy maas e assi ameaçauan a alma. e mouen-
do contra ella con seus aparelhos que tynhan con que atormentauan
as outras almas que hyam ao inferno. Pero que al non podian fazer
aaquela alma. senon espantaria.
E ella stando assi soo antre aquel temor, em aquela hora ueo o
angeo a ella. e tiroua dantre aqueles diaboos e confortoua e disselhe.
Alegrate. ca liure es de todo mal. mais por em muitas penas ueras.
que te non enpeecerara.
Ora te uen comigo, e raostrareyte o enmygo do humanai linha-
gen. Enton começou o angeo de hir adeante. e decer ao inferno, e uio
a alma o princepe das teebras. E uio tantas das penas e das tribula-
çooens que padeçian as almas que ali iaziam. que raaldicto foy aquel
que en aquel logar foy leuado.
E o angeo e a alma vyam todos os que hy iazian. mais elles non
vyam o angeo nen a alma. tan fortes eram os tormentos que pade-
ciam. Ca aquel lucifer era tan grande bestia. e tam fera. que sobre-
poiaua sobre todos os outros que ante uiron.
A ssua figura era esta. s. El era negro assi como caruon. e auia
figura dhomen des os pees ataa cabeça, e auia boca en que auia mui-
tos males, e tynha huun rabo assy grande, que era cousa muito span-
tauil. No qual rabo auia mil maaons. e en cada maaon auia en ancho
cem palmos e as suas maaons. e as hunhas delas e as hunhas dos
pees eram tam anchas como lanças, e todo aquel rabo era cheo de
agulhas muy agudas, pera atormentar as almas.
E aquel lucifer iazia escondudo en huun leito de ferro, feyto a
maneyra de greelhas. e so aquel leyto iazian caruooens accesos. e so-
prauannos. e accendiannos muytos demoes. e cercauanno de muytas
almas, quantas non ha homen uiuo en carne que as podesse contar.
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VI8Â0 DE TUKDÀLO
111
nen cuidar, nen creer. nen que taaes gentes nen tantas podessen
seer criadas no mundo depois que foy formado.
Âs almas iazian en aquela maa tormenta. E quando se uolnian
dhuma parte pera a outra, enton lucifer estendia aquelas maaons con
gram sanha que auia de sy meesmo. por que padeçia. E atormentando
todas aquelas almas assy como homen aperta o bagoo das huuas. E
atormentauaas todas, per guisa que nenhuma delas non flcaua sen
dampno. Er depois respiraua e colhia fôlego e espalhauaas per diuer-
sas partes do inferno. E logo saya do poço que ante dissemos que
queymaua. huun fedor muy forte e muy maao. E depois colhiaas todas
no seu uentre. hu padeciam muytas penas infernaaes. E se alguma
alma podia fugir das suas maaons. feriaa muy sen piedade, con aquel
rabo. E aquela besta mesquinha a que dizen lucifer de si mesmo pa-
decia grandes penas.
Á alma disse entom ao angeo. Rogote senhor que me digas esta
uison tan maa que cousa he. ou que homen he este tal. E o angeo disse.
Este homen que dizes, he o angeo lucifer. que foy começo das tee-
bras. o qual uiuia nos deleytos do parayso. e abriose con el o ceeo e
a terra e todo mundo foy tornado ataa os abyssos en aquel passo que
el cuidou no seu coraçon aquela soberua dizendo, quero eu poer a
minha seeda apar do altíssimo, e serey semelhauil a ele.
E todos estes demoes que tu aqui uees que aqui iazen. son do
linhagen de adam. que peccaron mortalmente e nunca fezeron digna
penitencia. Estes todos passarom poios logares e polas penas que
uiste. E depois ueeron a este logar de que nunca sayran. e sempre
uiueron en esta tormenta, con este enmygo mortal, e con sua conpa-
nha en doores e en penas. Enton disse a alma ao angeo. Rogote se-
nhor por deus que cedo me tires daqui ca tan solamente. esta uison
non a queria mais ueer. Este fedor mais me atormentou que todas as
outras penas que ante padeci. E ueio aqui muytos meus parentes e
meus conhocentes. e meus parceyros. e doutros muytos meus conho-
centes e conpanheyros. E eu ouuera de iazer en esta pena. no seendo
pola misericórdia de deus. Enton o angeo ficou muy alegre, e disse,
ven alma ben auentuyrada. que ata agora uiste as penas que os maaos
padecem. E daqui en deante ueeras os beens que os boonB receben. en
aquela hora sayron daquel logar. e a alma con grande alegria disse.
Ay senhor en que guisa fuy agora tan aginha alomeada. Era ante
cega. e ora ueio. Ante era triste, e ora son alegre. Ante temia, e ora
non hey medo. Respondeo o angeo. e disse, non te marauilhes ca este
he o mudamente da maaon de deus.
Ata aqui falou da uison que nio no purgatório e das penas
e tribulaçooens que padecen os maaos en el e no inferno. Daqui
en deante fala dos beens e galardooens. que uio receber aos
boons na gloria do parayso.
Âssi como começaron de andar uiron huun muro muy alto. E
aaquem daquel muro uiron gram conpanha de homeens e de molheres
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112
RBTI8TA LUSITANA
que sofriam gram tormenta e muy gram coyta de muy grara uento. e
de muy grande agua. E estauan muy tristes e muy coitados em so-
frendo fame e sede. Empero auian lume e claridade, e non sentian
nenhuun maao fedor. E a alma quando este uiu. preguntou ao angeo
e disse. Senhor quén son estes que en tal folgura moran. E o angeo.
lhe disse, estes son os maaos enpero non muyto. Ca trabalharom de
uiuer honestamente. Mais os beens que auian temporaaes. non os par-
tiam con os pobres assi como deueram e poderam. E por en sofreran
alguun tenpo este uento e esta agua. e depois hiram aa folgura de
deus perdurauil.
Depois desto elles hindo huun pouco mais adeante chegaron a
huma porta, e acharonna aberta, e assy como entraron. uiron huun
campo muy uerde e muy fermoso e plantado do muitas e muy fernio-
sas rosas, e de outras heruas que dauan muy boon odor. en que es-
taua tan gram cousa dalmas que as non poderia contar homen do
mundo, e stauan tam alegres que era gran marauilha. en aquel logar
non era noite, e e sol nunca hy falece e ali he a fonte de agua uiua.
Mais a alma que tanta coita e tanta pressa e amargura ouuera sofruda
e passada, foy tan alegre quando uio aquel campo tam uerde e tam
fermoso que con o gran plazer que en el ouue começou de dizer con
gran deuoçon. beento seia o nome de nosso senhor deus. agora e por
sempre iamais. que me liurou das portas da morte per aa sua gram
mercee. e me meteo na terra que el deu en parte e en sorte a seus
amigos. Agora entendo eu. que son uerdadeyras as palauras da sancta
scriptura. que diz. que olho non uiu. nen orelha ouuio. ncn coraçon
de homen non pensou, o ben que deus ten aparelhado, aaqueles que
cl ama. E des en disse ao angeo. Rogote senhor que me digas de quaes
almas hc esta folgança e como ha nome esta fonte. Respondeu o an-
geo e disse. Ali moram os non muy boons. que son liurados e tirados
das penas do inferno, e non mcrecen ainda seer chegados aa compa-
nha dos sanctos. Esta fonte que aqui uees. he chamada uida. e todo
aquel que dela beuer. uiuera pera senpre. e nunca iamais auera
sede.
Assi como esto disse foron huun pouco mais adeante. e uio a alma
homeens segraaes que conhoceo. antre os quaaos uio. Cantubrio. e
Donato que foron Reys. e como os uio. ficou muy spantada. e disse ao
angeo. Que he esto senhor que ueio. Ca estes homeens foron grandes
enmygos en sua uida e se quiserom muy gram mal. E pois por qual
merecimento ueerom aqui. ou como son assi amigos en seus mereci-
mentos.
Enton lhe disse o angeo estes que tu dizes sey certo, que ante
da sua morte se repreenderon. e fezeron penitencia, do gran desamor
e discórdia que auia antre eles. E por em non lhes foy nenhuma pena
por aquela razon. Ca aquel Rey que auia nome Cantubrio foy gran
tenpo enfermo, e fez penitencia, e uoto que se guarecesse daquela
doença que tomaria a orden. e se faria monge. E o outro iouve per
espaço de annos preso en grandes prisooens e deu quanto auia a po-
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VISÃO D8 TUNDALO
113
bres. E por esto deus lhes receboo en grande esmolla. E os seus beens
e os seus dereitos durarlheam per todo sempre. E tu depois que tor-
nares ala contaras todo esto aos homeens per que enmenden suas
uidas.
E assi como andaron outro pouco uiron huma casa muy nobre e
de muy grain lauor. que auia as paredes e toda a outra feytura de
ouro. e de prata, e de todas maneyras de pedras preciosas que no
mundo son. Mais non auia porta nen feestra. Empero todos os que
queriam entrar entrauan.
Esta casa era dentro tan clara e tam luzente, que non digo como
huun sol. tan solamente. mais en verdade assi como se fossen muitos
soles, que alumeassen en ela. Era outrosi redonda e ancha, e era tan
chaan. que tan solamente hy non auia coua nen outeyro. toda era la-
drilhada de ouro. e de pedras preciosas. E a alma auendo gran sabor
de ueer todas estas cousas tan fermosas. parou mentes a redor de sy.
e uio huma cadeyra de ouro. toda obrada de pedras preciosas, e era
coberta de panos de muy gran prez. E uio seer en ela o ben auen-
tuyrado Rey. que auia nome Cormaço. uestido de taaes uestiduras.
quaaes el nen Rey que fosse nunca poderia uestir en este mundo. E
ela assi stando. e maraiiilhandose muito de todas estas cousas que
uiia. Vio uiir gram conpanha de homeens a El Rey con suas oferen-
das, a muy gran plazer de sy cada huun per pessoa. E sabede que
el fora seu senhor deles todos no mundo. E eles stando assi ante o
Rey. veeron muytos clérigos de missa, e dauangelho. todos reuestidos
de muy nobres uestimentas. assi como pera missa, e outros con suas
capas de sirgo uestidas e louuauan e honrauan muyto a marauilha
El Rey e a casa.
E poynban uasos e copas e taças de ouro. e pichees de marfi.
que tynhan sobre os poyaaes. e sobre as*tauolas que stauan na casa.
E assi seruian e honrauan aquela casa. que ben nos digo que ainda
que mayor honrra nen mayor folgança non ouuesse no reyno de deus
que esta. assaz seria de grande. Mais todos aqueles que seruian. quan-
do viinhan ante el Rey ficauan os geolhos. e dizian ben auenturado
es. E ben sera sempre a ti. Ca dos lauores e trabalhos das tuas maaons
comes. E todos estes que tu uees son os pobres, e os romeus de ihu
xpto. a quen daua El Rey de comer e lhes fazia muito ben e mercee.
en quanto foy uiuo. E por en lhe sera dada e galardoada pera sem-
pre iamais esta soldada polas maaons deles meesmos. a quen este ben
fez en quanto foy uiuo.
E a alma disse. Queria muy de grado saber, se este Rey padeceo
alguma pena depois que lhe sayu a alma do corpo ou se ueo logo pera
esta folgança. E o angeo lhe disse, si padeceo. e padece, e padecera
ainda en cada huun dia. E disselhe atendamos aqui huun pouco, e
ueras a pena que sofre. E eles stando assy uiron a casa dei Rey toda
escurecer, e todos os que con el estauan muy tristes, e el Rey muy
contornado, e leuantouse chorando e sayu fora.
E a alma quando esto uiu parou mentes a qual parte hyria ou
bbv. lusit., vol. ni, fase. 2. 2
114
REVISTA LUSITANA
que faria. E stando assi. uio toda aquela conpanha que ante uira na
casa do Rey. e tynhan as maaons alçadas, suso contra o ceco. rogando
muy deuotaraente a nosso senhor e dizendo. Senhor, senhor deos muy
poderoso assi como tu sabes, e entendes aue mercee ao teu seruo. E
parou mentes a alma depois desto. E uio o Rey star metudo en huun
fogo ataa o embygo. e des o embygo pera cima. uestido dhuun cilicio
muy áspero. E a alma perguntou o angeo. quantas uezes no dia pa-
dece este Rey esta pena. E o angeo lhe disse, quanto he per espaço
de tres horas do dia. e quanto he per espaço de xx huma hora folga.
E a alma lhe disse. Senhor rogote que me digas por qual razom he
esta alma assi julgada que estas penas padece per dereito juizo mais
que outras. E o angeo lhe disse. Eu to direy.
Este fogo que tu uees en que sta metudo ataa o embygo he por que
non guardou, mais quebrantou o juramento e sacramento do casa-
mento lydimo de dereito. E o cilicio que ueste des o embygo pera
cima. padece por que mandou matar huun conde ante o altar de san
patrício, e por que quebrantou e traspassou o dereito e a reuerencia
que deuera de guardar aa sancta egreia. E sabe de certo, que todos
outros peccados lhe son perdoados senon estes dous tan solamente. E
deshy disse andemos. E foron huun pouco adeante e uiron huun muro
muy alto e muy fermoso.
Aquel muro era todo de prata, muy fermoso e muy luzente. E a
alma non achaua en el porta nenhuma per hu entrasse. E tomoua o
poder de nosso senhor, e posea dentro, non o ssabendo ela. nen o en-
tendendo. E assi como se ela uio dentro, parou mentes a redor de sy.
e uiu huma gran conpanha de sanctos. que se alegrauam muyto con
deus. e dizian. louuor seia a ti deus padre, loiuior a ti filho, louuor a
ti spiritu sancto. Todos aqueles homeens e molheres que esto diziam
eran uestidos de uesti duras brancas, muy fermosas. E eles outrosi eran
muy fermosos. e tan claros que so huma mazela non aauia en elles.
Eran senpre legres e ledos e aguçosos, e uiçosos e saborosos, porse-
uerando sempre no louuor da sancta trindade, dia e noyte. e as ues-
tiduras que ia dixe. eram tan claras e tan fermosas. e assi aluas como
a neue. quando o sol da en ela. E as uozes deles soauan de muytas e
desuayradas raaneyras. que non parecian outra cousa, se non cantares
de orgoons. E a todos era ygual claridade e alegria, e deleytamento.
e ledice. fermosura e honestidade, saúde e germaydade durauil. de
boon sabor, e de boon odor. que sobrepoiaua mais e ualia mais. que
todos os boons odores que son nen que fossen speciaaes de aromata
que son onguentos muy preçados. Nunca en aqueles logares era noyte
nen tristeza, e todos se amauan dhuun coraçon. e dhuma uoontade. E
a alma disso ao angeo enton. Senhor, rogote que te plaza que fique-
mos en esta folgança.
E o angeo lhe disse. Ay ben auentuyrada alma. pero que esta
folgança te parece grande. Mayor folgança e mayor galardom ha hy
outro de sanctos. E a alma lhe disse. Senhor rogote que me digas a
quaaes almas he dada esta folgura. E o angeo lhe disse, esta folgança
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VISÃO DE TUNDALO
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he dada aos casados e a todos aqueles que non britaron nen traspas-
saron a orden do casamento dereito. per peccado de adultério e
aaquelles que todas suas companhas ben eastigaron. e os seus beens
temporaaes partiron con os pobres, e a romeus e aas egreias de deus.
aos quaaes dira nosso senhor que he dereito juiz no dia do juizo. Vyn-
de beentos do meu padre, e recebede o reyno que uos sta aparelhado
do começo do mundo. Ca ouue fame. e destesme de comer, ouue sede.
c destesme de bcuer. Era nuu e uestistesme. fuy enfermo e uisitastes-
me. fuy encarcerado e reraystesme. fuy ospede e recebestesme.
As quaaes almas han boa sperança en deus muy gram senhor,
folgaran e consolarsean con el en tal folgança como uees. pois gran
cousa he o sacramento do casamento legitimo. Ca todo aquel que o
ben guardar en seu corpo, folgara senpre en esta folgança. E desi conuen
que uaamos adeante. e ueiamos o que ante nos sta. E a alma disse ao
angeo. Senhor, rogote se te plaz que me leixes ia folgar en este lo-
gar. e non me tires daqui. Ca se tua uoontade for non queria eu ia-
mais alto sobir. nen mais saber, mais seriame gran consolaçon de fol-
gar con estes e non queria nen hey ia cuidado de auer ia melhor pla-
zer que este. E o angeo lhe disse. Enpero que tu non entendes ainda
mayores beens ueeras que estes.
Assi como esto disse, foron adeante. pero que non andaron muito,
ca a elles non parecia trabalho nenhuun en andar. E todas aquelas
conpanhas per hu andauan. e per hu passauan. vynhan con as cabeças
iaclinadas e amergidas. e con boons contenentes. a receber a alma
con grande alegria e con gran plazer. E desi chamauanna per seu
nome meesmo. e saluauanna e louuauan muyto o nosso senhor deus.
que a liurara das penas, e diziam louuor seja a ti senhor, durauil Rey
da gloria, que non queres a morte do peccador. mais que se conuerta
e uiua. Que pola tua misericórdia quiseste liurar esta alma das penas
do inferno, e a poseste con a conpanha dos teus sanctos e dos teus
angeos.
Elles passando assi per muytos logares de sanctos. apareceolhes
outro muro tan alto como o primeyro. laurado todo de ouro puro. e
tan grande era a sua fermosura. que muito era mais contenta a alma
e mais se alegraua en ueer aquela nobreza, que outra nenhuma que
ia ouuesse uista. Mais depois que entraron dentro, pola guisa que en-
traron no outro, que de suso dissemos, virom muitas seedas assi como
no que de suso foy dicto. que uiron. e eran todas lauradas de ouro e
de prata, e de quantas maneyras poden seer de pedras preciosas, en
tal guisa que tan nobre eousa como esta nunca a poderá veer a alma.
nen cuidar. E os rostros deles eran tan claros e tan fermosos assi
como o sol claro aa hora do meo dia. e os cabelos deles eran tan cla-
ros e fermosos. que non parecian. al se non ouro.
E tynhan nas cabeças coroas de ouro todas cheas de pedras pre-
ciosas. E tynhan en sy scriptas letras muy fermosas todas de ouro. so-
bre que tynhan seus liuros postos, e scriptos todos con letras de ouro. E
cantauan a nosso senhor seu cantar nouo con alleluya. E tan doce
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REVISTA LUSITANA
era. e tan saboroso aquel cantar, que depois que a alma ouuio hunia
uez. oluidou e esqueeceo todas as cousas que ante ouue passadas. E
eUa estando en aquel logar. uio humas seedas tan formosas, que ficou
muy folgada por o que vya.
E o angeo lhe disse, amiga sabes quen son estes. Estes son os
mártires de deus que por a sua firme e uerdadeyra creença trabalha-
ron e affanaron os seus corpos, e lauaron as suas uestiduras no san-
gue do cordeyro. Esto he. deus que he dicto cordeyro. estes son os que
se sofreron e se absteueron. e guardaron dos sabores e plazeres do
mundo, e a diuida da carne non conpriron per huun pouco de tempo,
que en este mundo uiueron. E desliy fezeron toda sua uida muy san-
cta. e muy limpa, e muy honesta, uiuendo e perseuerando en seruiço
de deus. passando polo seu amor marteyros e coitas e tribulaçooens.
Trabalhandose eles meesmos. e tolhendo aos seus corpos, plazeres e
uiços e sabores. E por en mereceron coroas durauys por sempre. Disse
enton o angeo. Estes son os sanctos e seruos de deus que son feytos
seus amigos.
Depois a alma con grande femença. pensando e consyrando todas
estas cousas, que uya. catou a redor de sy. e uio huma muy grani
praça toda chea de muitas tendas armadas, e de muitos tendilhooens.
que eran laurados e fectos de colores de muitas guisas, s. de purpura,
e de cicatron. e de sirgo, e de ouro e de prata.
E ouuyo en eles soons de cantores tan fremosos o 4;an saborosos
que era gram marauilha. assi destormentos de corda, como de orgoons.
como de todas raancyras de estormentos que ha per todas as partes
do mundo. Ca ali cantauan orgoons o uiolas e alaúdes e sinphonias. e
rotas, e salteyros. e citholas. todos de consuun. Quando esto ouuio a
alma. disse ao angeo. Senhor de quaaes almas son estas tendas, e es-
tes tendilhooens. e esta folgança. E o angeo lhe disse. Esta folgança
e este plazer he dos monges, e dos outros homeens e molheres que
uiuen en orden so regia, que pronieten obediência a seus mayores. e
comprem e fazen alegremente todo aquelo que lhes per elles he man-
dado muy de boon coraçon e de boa uoontade. Ca mais se alegram e
queren seer sumetidos e subiectos. que sceren adeantados e mayores.
e que leixan as suas próprias voontades e seguen as alheas. por que
uerdadeyramente possam dizer. Senhor, poseste homeens sobre nossas
cabeças, e passamos per fogo e agua. Esto he. per ta me e frio e sede.
e lazeyra. e metistenos en refrigério. Esto he. en folgura. os quaaes
en seendo uiuos e en seus corpos non queren outro sabor, nen outro
prazer, senon o de deus. e quitam suas linguas non tansolamente do
mal dizer, mais ainda por amor de teer e guardar o sseenço. calanse
dos beens que os non queren dizer nen falar, por que possan dizer a
nosso senhor, enmudecemos e somos humildosos. e calamosnos dos beens.
e do ouuimento das orelhas te obedeecemos. Destes taaes son estas
tendas e estes tendilhooens. assi como tu uees. que cantan. e dan lou-
vores a nosso senhor que he dador de todos os beens sen nenhuun
quedar. E a alma lhe disse, se te prouguesse senhor, queriame chegar
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flSAO DE TÍJNDÁLO
Í17
mais a perto, por tal que podesse ueer aqueles que dentro stan. E o
angeo lhe disse, muito me plaz. que os ueias e ouças, mais non entra-
ras a elles. Ca estes sempre husam e ueen a presença da sancta tryn-
dade. s. que cada dia usan a veer nostro senhor, na sua sancta maies-
tade. E todo aquel que huma uez entra a elles. nunca se mais acorda
de todas as cousas, que ouuesse uistas ou passadas, e nunca se chega
aa conpanha deles, se non se he home uirgen que merece de seer junto
aa conpanha dos angeos. E desi chegaron se mais a perto. E entraron
e uiron dentro muitos monges, e muitos homeens de orden. e muitas
molheres outro sy. que non parecian outra cousa se non angeos. tan
fermosos eran. e cantauan tan docemente, e tan soborosamente. que
todas as maneyras e artes da musica sobrepoiauan e uencian. pero
que todas as outras almas que ia uiron nos outros logares per hu
uynhan. resplandecian e luzian muito a demais. A claridade e o res-
plendor e o muy boon odor que destes saya. sobrepoiauan. e passa-
uan todos os que no mundo son. Todos aquelles estormentos que ali
eran. non nos tangian ncnguun. Mais eles de seu se tangian. e canta-
uan. E empero que esto era gran sabor assaz. Era teudo por nada.
respeito das uozes e dos cantares das almas que cantauan. Ca
todo ellas sobrepoiauan e uencian. Ca elas non auian afam nen tra-
balho en alçar e abaixar quanto ellas querian. nen boliam beiço, nen
o mouian ten solamente. nen auian cuidado de poer suas maaons nos es-
tormentos do orgon e da musica, mais a soon das suas uozes soaua.
e eles acordauan. mais os ceeos das tendas, e dos tendilhooens. re-
lumeauan muito a demais. Os quaaes stauan dependurados en cadeas
muy sotys. todas de ouro puro e uergas de ouro antre uoltas de prata,
e doutras muitas colores e resplendentes. Nos quaaes stauan dependu-
rados uasos. e taças, e pichecs. e bacios, e aceteres. e soalhas, e flores
e maçaans todas de ouro puro. E antre estas cadeas. e estas outras
cousas, andana muy gran conpanha de angeos uoando per meo. e auian
as haas muy luzentes e mais formosas e mais resplendecentes que o
ouro. nen outra cousa por muy fermosa que possa seer. E cantauan
tan soborosamente e tan docemente que aqueles que os ouuian eran
tan alegres, que mais non o podian ser polo gran sabor que delo
auiam.
A alma seendo muy folgada e muy consolada por todas estas cou-
sas que uira. e auendo sabor de estar ainda mais ali. Disso ao angeo.
para mentes aca. o assi como ella acatou, uiu huma aruor muy espessa,
carregada de todas aquelas fructas -que no mundo poden seer. E nos
ramos delia morauan e stauan sempre muitas aues. e de colores de
muitas guisas, que cantauan seus cantares en uozes de muitas maney-
ras. muy soborosas. e muy doces. De so os ramos dela. stauan muitos
lilios. muy tas poças de agoa a demais, e de todas outras maneyras
de heruas. que dam boon odor. e boon cheyro. e boon sabor. E mora-
uan so esta aruor muitos homeens e muytas molheres. en casas de
muy gram lauor. Ca eran todas feitas de ouro e de marfl. que louua-
uan. e beenzian deus poderosos en nenhuun quedar, por quen el he.
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REVISTA LtJSlÍÀtíÁ
e por muitos beens e raerecees que sempre dei receberon. E cada
huun tynha sua coroa de ouro. en sua cabeça, muy marauilhosas e muy
nobres. E tynhau baagos douro en suas maaons. E estauan uestidos de
taaes uestiduras. assi como os monges, que ia de suso dissemos.
Quando este uio a alma. disse ao angeo. que cousa quer seer esta
amor. ou que almas son estas que uiuen so ella. ou que obras fezeron
quando eran uiuos. E o angeo lhe disse. Esta aruor. que tu uees he
maneyra. e obra da sancta egreia. Estes homeens e estas raolheres
que moran so ella. foron defensores e fazedores delia, e trabalharon
muito de a fazer, e de a defender. E poios beens que elles hi fezeron.
guaanharon. e mereceron de seer aqui chegados, e aconpanhados. E
per esta maneyra tal. desempararon a uida. e o sabor do mundo, e
guardaronse de conprir os deseios da carne que lida cada dia contra
a alma. linpamente. e dereitamente. e piedosamente uiuendo no mun-
do. Atendendo esperança de ben. ueeron a este logar. Mais non em-
bargan. nen enpeencen nen fazen nenhuma cousa de mal. E desi disse,
vaamos mais adeante.
E eles assi hindo uiron huun muro muy alto. que de fermosura
e de claridade uencia e passaua per todos os outros que ia dissemos.
Era muy fermoso e fecto todo de pedras preciosas, e de metaaes mes-
turados de colores de muitas guisas. Assi que o fundamento dele era
todo fecto de ouro puro. E as pedras do que era fecto son estas.
Cristal. Crisolitus. Berilus. Jaspe. Jagonça. Smaragda. Çaflra. Oni-
china. Topázio. Sardia. Crisoprasa. Amestica. Careata. E granata. Des-
tas pedras, e de outras muytas semelhantes era fecto este muro.
Estas alumeauan tan stranhamente no muro por tal guisa que aqueles
que o vyam. non cuidauan en outra cousa, nen auian sabor de nenhu-
ma outra cousa, se non de o veer tan solamente. Ca esto lhes parecia
a elles gram folgança. E depois que sobiron en cima ao muro. uiron
sen outra duuida cousas, quaaes olho non uio. nen orelha ouuio. nen
coraçon de homen cuidou, nen pensou. Ca uiron hy noue ordeens de
angeos. os quaaes son. s. Angeos. Archangeos. Virtudes. Principados.
Potestades. Dominaçonnes. Thronos. Cherubin. E seraphin. E esta
alma ouuio palauras muy marauilhosas. e muy sanctas. per tal guisa
que non conuen a nenhuun homen de as dizer.
Enton disse o angeo a alma. filha minha, ouues tu esto. e uees
todo como he. Inclina a tua orelha, e oluida o teu poboo e a casa do
teu padre. E cobyçara deus a tua fermosura. Esto he a alma. que
uos direy. ca ben deue homen a entender quan grande pode ali
seer a alegria, e a dulcidoen. e o sabor e o uiço. Oo que muy
muy grande he ali a honrra. e a alteza, hu homen pode senpre ueer.
e ouuir sen fin. o muy gram louuor dos corpos e das conpanbas dos
sanctos. e dos angeos. e dos archangeos. e dos patriarchas. e dos
prophetas. e da muy gran conpanha e freraosa dos mártires, e o nouo
cantar das uirgeens. e gloriosa conpanha dos apóstolos, e merecer de
seer aconpanhado ao choro dos confessores, presentes. E demais o
que passa todos os plazeres. e alegrias, que poden seer. conuen a sa*
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VlSÍO DE TÚNDÁLO
1Í9
ber. ihu xpõ que he pan e comer dos angeos. e uida de todas as cou-
sas que son. Auer de o sentir, e o acatar, e o ueer a perto de si.
mui piedoso e mny misericordioso.
Mais daquel logar hu estonce stauan e como quer que uissen to-
dos os plazeres que uos de suso dissemos, e folgança e glorias que
ante uiron. mais ainda uyam todas as penas, que ia de suso dissemos.
E ainda uiron outra cousa que he muito de marauilhar. s. dali uiron
e ueen todos aqueles a qucn deus faz aquela graça, todo o mundo assi
só huun rayo de sol. E aquel a que era outorgado de ueer nosso se-
nhor huma vez. iamais nunca dei pode tolher os olhos. Ca iamais
nunca se pode fartar de o ueer.
Esto era gram marauilha. Ca stando en aquel logar meesmo. en
que estauan ante. assi como os que stauan depôs elles. e non tan so-
lamente por ueer con os olhos, mais en uerdade. sciencia e entendi-
mento non custumado. lhe era dado a alma. de guisa que lhe non fa-
zia mais mester de perguntar per nenhuma cousa. Ca abertamente, e
dereitamente. e conplidamente sabia aquelo que queria.
E elles stando assy parou mentes a alma. e uio star san patrício,
arcebispo que foy de ybernia. con gram conpanha de bispos antre os
quaaes uio quatro que conhocia. s. O arcebispo artinatheno. E mala-
chias que foy arcebispo despos elle. que de Innocencio papa. veo de
Roma per mandado dei por delegado, e por arcebispo de toda a yber-
nia. O qual todas as cousas que auia e podia auer. departia. e dauao
a pobres, e a moesteyros. E fez quatro moesteyros de monges e de
molheres de orden aos quaaes dana todas as cousas que lhes fazian
mester. E pera si non guardaua nen retynha nenhuma cousa senon a
ssua necessidade. Outro sy era muy boon christãao o que foy arcebispo
de longino. e homen de muy sancta uida. e irmãao de padre e de
madre deste malachias. que ia dissemos que fazia muito ben e muita
mercee a pobres. E o outro meenias bispo de dunhom. homen sancto.
o muy boon. simples e manso e casto. E sabia tanto, que de bondade
passaua todos os homeens que en aquel tenpo eram. Estes quatro bis-
pos conhoceo ela e estaua a perto deles, e uio huma seeda muy hon-
rrada. e muy nobre a marauilha. en que non sya nenguun. Quando
esto uiu a alma disse. Cuia he esta seeda. ou por que sta assi uaga.
Eespondeolhe Malachias [e disse. Elsta seeda he de nosso irmãao que
ainda non he passado. Mais depois [que uier] seera en ella. E a alma
auendo muy gram sabor en todas estas cousas, [entom] chegou o an-
geo que andaua con ella. e disselhe muy saborosamente. [Tens] uistas
todas estas cousas, e a alma lhe disse. sy. mais rogote [senhor que] me
leixes aqui folgar. E o angeo lhe disse, a teu corpo te has de tornar,
e todas as cousas que uiste. demostrarias as. e contarias as a todos
os homeens a que o demostrar, e contar poderes, por que façan prol
de suas almas.
E a alma quando ouuio dizer ao angeo que ao corpo auia de tor-
nar, ouue tan grani noio e tan gran pesar, e tan gran coyta. que may.vr
non podia seer. E começou de chorar muito a marauilha. E en cho-
Í20
REVISTA LUSITANA
rando assy. disse ao angeo. Senhor que mal foy este que eu fiz. por
que aia de tornar ao corpo, e leixar tanto ben e tanta folgança. E o
angeo lhe disse. En esta folgança non merece de entrar nenhuum saluo
os uirgeens. e as uirgeens que seus corpos guardaron de luxuria, e
queren mais sofrer de non conprir suas uoontades. por tal que possan
auer esta folgança tan grande. Mais que se ençuiar nen luxar nos sa-
bores e nos seus talentes e dcseios maaos. e torpes. E tu non podes
aqui ficar agora, por que non quiseste creer a» palauras da sancta
scriptura. Mais tomate a teu corpo, donde saiste. E trabalhate muito
de te guardar de todo aquelo que ante fazias. Ca sempre sera contigo
a nossa ajuda, e o nosso conselho. E assi como esto disse, tornouse a
alma. E assy como começou de se mouer. tan aginha se sentio carre-
gada e agrauada do peso da carne. Ca non sentio. nen lhe semelhou
nenhuun estoruoyro. nen espaço dhnma hora do dia.
Mais en aquella meesma hora. que suso fallara con o angeo. se
sentio en terra, e se meteo en seu corpo. E o corpo abrio logo os olhos
muy fortemente, e começou de suspirar non dizendo nada. E parou
mentes aos clérigos que stauan en de redor dei. E fez sinal de conmun-
gar e conmçngou. e desy deu graças a nosso senhor deus. E [partio
tudo olque auia e deuo a pobres. E mandou poer o signal da cruz nos
[vestidos com que se vejstio. e desi começou de nos contar quanto uira.
E conselhou[nos que fizéssemos] ben e uiuessemos boa uida. e sancta. E
pregou as palauras [da sancta scriptura] muy afficadamente a cousa que
nunca leera nen soubera muy sag[esmente con] gran deuoçon. Mais nos
que a uida deste non podemos seguir trabalhamos por escre]uer esto.
Sequer por proueito daqueles que o leeren. e ouuirem.
Aqui se acaba a uison que uiu este caualeyro de suso scripto.
que se chama Tungulo.
Eu frey marcos, que esto screuy. son testemunha desto todo. Ca
eu ui con meus olhos o homen a que esto aconteceo e que me contou
todo assi como ia ouuistes. e assi como o el contou a my. assi traba-
lhey eu de o screuer e de o contar o melhor que eu pudy. Esta uison
aconteceo no anno da encarnaçon de nosso senhor, da Era de mil e
o. xl. annos. No anno que o Einperador coroado dos Romanos auia
dous annos que reynaua. E que Eugénio segundo papa auia iiij an-
nos que era apostólico. Poren roguemos aa quel que he auctor de
nos todos e da nossa saúde, que he ihu xpõ que el nos enderence en
aquelas cousas que seiam a sseu seruiço e a sseu plazer. Ao qual seia
louuor e gloria per infinita secula seculorum. Amen.
Finito libro sit laus et gloria xpõ. Qui scripsit scribat. et semper
cum domino uiuat. Amen.
Nota. A ultima folha do códice está traçada no angulo superior esquerdo.
Completaram -se as palavras, seguindo o texto latino, mas metteram-se entre [ ] as
letras que já nào podem ler-se.
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CÍGANOS PORTUGUESES DOS tflNS DO SÊO. XVI l2l
CIGANOS PORTUGUESES
DOS FINS DO SEC. XVI
(Continuação)
XI. — Dom Felipe etc. Faço saber que G(onçall)o F(e)r(nande)z,
m(orado)r no termo da villa d'Allcacere e preso na cadea delia, me
évyou dizer que estamdo ele preso por hu ferjm(en)to, hús sy guanos
e outros presos na d(i)ta cadea ha mjnarão, e romperão a parede delia
q(ue) hya p(er)a a casa do paço homde se vemdya o tr(ig)o, e lhe fi-
zerão hú gramde buraco, p(e)lo quall fogyrã de noyte aos xxb d(ias)
do mes de Janeyro p(assa)do de 95 q(ue)brãdo he Romperão as por-
tas do d(i)to paço por homde sahyrão, do que se tjrara devasa, é que
cullparão a elle sup(plicam)te dizemdo que dera ajuda he favor enão
descobrjr como mjnauão a d(i)ta cadea, e que tãobem sahyra p(e)lo
d(i)to buraco a casa do paço domde cõ outros presos se tornara ha
meter na d(i)ta cadea, e demtro nella fora hachado ao t(em)po que a
Justyça hacodyra, que premdera todos os que fogyrã salivo hu soo dos
syguanos que desaparecera loguo, e estaua jaa preso nesta cidade, e
hera pobre e casado q(ue) ha m(isericor)dja estaua sostétado, me pe-
dya lhe p(er)doase ha cullpa que tynha na d(i)ta fogyda da maneyra
que dizya e R(eceberia) M(ercê). E v(is)to seu Requerym(en)to e hú
parece cõ ho meu pase ey p(or) bem e p(ra)z de p(er)doar ao sup(li-
can)te a culpa de comsétyr que os outros presos mjnase a cadea, e
fizese ho buraco p(er) que fogyrão se os descobryr, e asy da fogyda
que fez p(e)lo mesmo buraco de que faz memção p(e)lo modo que de-
clara v(is)to ho que halegua e a Imforraação do Juiz de fora, e pa-
guara ij reis p(er)a as desp(e)sas da mesa que paguou ao R(ecebed)or
delias, he forão sobre elle p(er) seu sc(ri)pvão careguados e Re(cep)ta
vos mãdo etc. na forma. elRey ho mamdou p(e)los doutores Amt(oni)o
^Allmeyda, he Di(og)o d'Af(on)sequa etc. xpouão calld(ei)ra a fez e
lix(bo)a a xxij de julho de m b c lRb. João da costa a fez sc(re)pv(er).
(D. Felippe i, Liv. vm de Legitimações e perdões, fl. 111 v.).
XII. — Dom Felipe etc. Faço saber que D(oming)os F(e)r(nand)ez
oleyro, e Dyoguo F(e)r(nand)ez seu f(ilh)o famylyas, m(orado)res na
villa de Loulé, me éujarão dizer p(er) sua petyção que no termo da
cjdade de syllues emcomtrarão com huns syguanos, e tjuerão com elles
defcremças, de que sahjra ferjdo hú dos syguanos p(er) nome Fr(an-
cis)co F(e)r(nand)ez de húa ferjda p(e)las costas, de que hera são, a
q(ua)l lhe dera hú Gaspar F(e)r(nand)ez que hacodjra em fauor delles
sup(plican)tes, e a parte lhes 1jnha p(er)doado me pedjão lhes p(er)-
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REVISTA LUSÍTáNA
doase a cullpa que tjnhâo no djto caso, e R(eceberia M(ercê), e v(is)to
seu requerjm(en)to ey p(or) bem e me praz de p(er)doar a cullpa de
que em sua petjção faz memção p(e)lo modo que declarão, v(is)to as
cousas que haleguão, e o p(er)dão da parte que oferecem e paguarão
ambos mill reis p(er)a a p(ieda)de, os quaees pagou ha di(og)o E(e)r-
(nand)ez he forão sobre elle p(er)p(er)o Roiz careguados em Re(ce)pta
vos mamdo etc na forma el Rey noôo senhor ho mamdou p(e)los dou-
tores p(er)o barbosa, J(eroni)mo P(erei)ra de Saa, Migel momt(ei)ro
a fez é Lix(bo)a a xix di(as) de feuerejro de mill b e lxxxij. Lucas
V(ieir)a a fez sc(re)pv(er).
(D. Felippe r, Liv. 9 de Legitim. e perdões, fl. 56 v.).
XIII. -— Dom Felipe etc. Faço saber que amt(oni)o cauanaque,
m(orad)or na villa do Vjrajoso, me éujou dizer que serujndo de cace-
reyro este ano de ra b c lxxxij lhe fora emtregue hú P(er)o F(ernand)ez,
ciguano, que ho premdera Belchjor de Maçedo, m(ei)r(inh)o da cor-
rejção, por andar e companhja de hú bamdo de ciguanos fazemdo se
c(on)de delles, e p(or) trazer hú gjbã° de damazquo amarello e hús
callcoees de damazquo pardo o q(ua)l sayra c(on)denado per s(enten)ça
do C(orreged)or da comarq(u)a em iiij reis amctade p(er)a o m(ei)r(inh)o
e ametade p(er)a a m(isericord)ja, e vyera apellação a esta corte, say-
ra condenado p(er) s(enten)ça da Rolação ê cimquo anos de gualles,
e açoutado p(u)p(li)cam(em)te, e asoluto do d(inhei)ro e amtes q(ue)
ha s(enten)ça fose o d(i)to P(er)o F(ernand)ez furara ha cadea, e lhe
fezera hú buraco p(er) homde se sayra e abryra a argolla da corremte
cõ que estaua preso, e se soltara dos ferros, e fogjra delia, me pedja,
ouuese p(or) bem de lhe p(cr)doar a d(i)ta cullpa. e R(eceberia) M(ercê);
e visto seu Requerjm(en)to ey p(or) bem de lhe p(er)doar ao sup(pli-
cam)te a cullpa, que teve na fogjda da cadea do ciguano que estaua
preso he, paguara ij, reis p(er)a a piedade os quaees pagou a D(jog)o
F(ernand)ez e p(er) outro de m(anue)l de Souza que os sobre elle ca-
regou em Recepta vos mando etc. na forma, el Rej noso s(enh)or ho
mãdou p(e)los doutores J(erony)mo p(erei)ra de Saa, he P(er)o Barbosa
etc. Felipe da Costa a fez em Lix(bo)a a bij de mayo de mb° lxxxij.
Johão da Costa a fez sc(re)pv(er).
D. Felippe i, Liv. ix de Legitimações e perdões, fl. 86).
XIV. — Don fellipe etc. Faço saber que Thomé F(e)r(nand)ez,
m(orad)or ê Evoramõte me enujou dizer p(cr) sua petição, q(ue) ser-
uindo de allcaydo e carce(rei)ro na dita villa lhe fogirao da cadea a
páscoa p(assa)da dous çiganos q(ue) estauão presos sóinete pella ley
do Reynno se aver out(r)a p(csso)a q(ue) dclle se qucyxase, os quais
estauão sétéçeados na pena da dita ley pello ou(uid)or e prouedor,
q(ue) fosen açoutados, e cõ dous ãnos de degredo p(er)a as gales, e a
pena dos açoutes estaua ja executados, lhe fogirão os ditos dous çiga-
nos cõ os grylhões nos pes pello telhado da cadea que era casa terrea
e baixa, e não era daboboda, e limara duas chaues dos trauelhos, o
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CIGANOS PORTUGUESE3 BOS FltfS í)0 SEC. XVI
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q(ue) tudo fizera se cullpa do sup(plican)te de noyte, como constaua
do auto e devassa que do caso se tirara, q(ue) estaua na dita villa
e o sup(plican)te depois da dita fogida té feito m(ui)ta deligencia
Buscando os por m(ui)tas partes, e quasy por todo alemtejo, como se
via das çertydões que ofereçia pello que me pedja lhe perdoase a cul-
pa, que no caso tiuera, avendo Resp(ei)to a dar sepre de sy muyto
boa cota no dito cargo, e R(ecebêri)a m(ercê) ; e visto seu Requeri-
m(en)to e hu pareçe cõ hú meu pase ey p(or) bé, e me praz se asy
he como o sup(plican)te diz, e hy mais não ha de lhe perdoar a cull-
pa de lhe fogire os dous presos de que) faz meçã sendo carçe(rei)ro,
visto o q(ue) alega, e pagara mil r(ei)s p(er)a as desp(es)as da casa
do despacho dos desébarg(ado)res do paço, e p(or) q(uan)to os ja pa-
gou a Andre Roiz, e lhe forã p(or) P(er)o de Seyxas carregados e
Receyta vos mando etc. na forma. EIRey noso s(enho)r o mandou pellos
doutores Melchior do amarai, c L(ouren)ço Correa etc. Miguel Mõt(ei)ro
a foz é Lix(bo)a aos iiij de b° Ixxxiiii (sic), Lucas V(ieir)a a fez
sc(re)pv(er).
(D. Felippe i, Liv. x de Legitimações e perdões, fl. 176 v.).
XV. — Dom Fellipe etc. Faco sab(e)r que amrrique de flores,
João de torres, João Ro(dr)i(gue)z, amdre m(art)i(n)z, çiganos presos
na cadea da villa de pavya, me emujarão diz(e)r p(er) sua petição,
que o L(icencia)do João leitão os premdera p(or) ãdarem no Rejno
soom(en)te, e que eu os mandaua soltar p(er) minha p(r)ouisão p(e)la
éformação que ou vera do d(i)to L(icencia)do, e estamdo assj presos
cõ outro home da tera natural, fora achado hum buraco na cadea f(ei)-
to no chão cõ híin cujtello, E os Juizes lho derão em culpa, e p(or)
que elles sup(lican)tes herão miseraueis e se sosténtauão desraolas, e
o buraco estaua Ref(ei)to cõ o trabalho dellés de pedra, e não ouucra
total Rompi tií(cn)to, e a cadea ficaua mais forte, me pedião, lhes per-
doasse a culpa do caso, e Receberyão mercê. E v(is)to seu Requeri-
m(en)to, ey por bé, e me praz, se asy heo, e mais não haa, de per-
doar aos snp(lican)tes liurem(em)te a culpa que é sua petição declarão,
e que sejão soltos, se p(or) al não estjueram presos, e p(or) tãto vos
mando etc. na forma. EIRej nosso s(enh)or o m(an)dou p(e)los douto-
res p(er)o barbosa, e J(erony)mo p(erei)ra de saa etc. g(asp)ar velho
a fez é lix(bo)a a biij° de junho de m b° lxxxj.
D. Felippe i, Liv. xi de Legitimações e perdões, fl. 56 v.).
XVI. — Dom Felipe etc. faço sab(e)r que Amt(oni)o f(e)r(nande)z,
alcajdo e cacerejro da villa de muja, me éviou dizer p(er) sua petição,
q(ue) estando presos na cadea da dita villa, e etreges a elle caçerejro
dous ciganos p(er) nome fr(ancis)co maldonado e fr(ancis)co de medon-
ça, p(or) culpa de os acharé na charneq(u)a, e se dizia, q(ue) fazião
algús furtos, o Juiz raãdara, q(ue) se ljurasé, e não tiuerão p(ar)te, e
os setécearão na dita villa soltos e liures, e trazendo os elle cõ duas
corrétes e peados cõ trebelhos e presos a húa mo q(ne) estaua metida
124
ÉBtlSTÀ LtJSlTAKA
no chã, os ditos sjganos cõ ajuda de fora de Ijmas q(ue) lhe derão,
Ijmarão os ferros com ljmas surdas, e a Rombarão a porta da cadea,
e que fizerão hú buraco, lhe fogjrão á mea noyte pouq(u)o mais ou
menos e p(or) q(ue) os ditos presos lhe fogirâo se elle ter culpa algua,
e os não podia achar, me pedia ouuese p(or) be de lhe perdoar a dita
culpa, e R(eceberi)a m(ercê). E v(is)to seu Requerim(en)to, ey por bé,
e me p(ra)z de lhe p(er)doar ao su|)(plicantè) ã(toni)o f(è)r(hande)z a
culpa da fogida dos dous presos de q(ue) faz meção p(e)lo modo q(ue)
declara, v(is)to o q(ue) alegua, e como não tem p(ar)te, e paguara dous
mil r(ei)8 p(er)a a piedade, e p(or) quãtos os te paguos, vos mãdo etc.
é forma. El Rej nosso S(enh)or o mãdou p(e)los d(ou)t(o)res g(asp)ar
de fig(eire)do, e p(er)o barbosa etc. Jo(a)m da costa a fez é lix(bo)a
a xi dagosto, Anno de mb c lxxxi.
(D. Felippe r, Liv. xi de Legitimações e perdões, fl. 100 v.)-
XVII. — Dom Felipe etc. Faço saber que a(fons)o vylela, cura-
dor m(orad)or e Villa Velha, comarqua de Castel Brãco, me évyou
dizer que servyimdo de cacer(ei)ro nella, lhe fogyrão dous syguanos,
que estauão presos p(or) furto de hus burros, de que se tyrara deva-
sa, e prenderão ao sup(lican)te, e estando preso fogyra da cadea. e da
cullpa da fogyda ouuera p(er)dão, e p(or)que tynha presos os d(i)tos
syguanos p(er) sua jmdustrya na villa de Santarém vymdo os seguym-
do, como constaua da certjdão que ofereçia, me pedya lhe p(er)doase
a cullpa que tjuera, em lhe fogyrem os d(i)tos dous presos, e Rece-
beria) M(ercê). E visto seu Requerjm(cn)to, he hú pareçe cõ ho meu
pase, ey p(or) bem, e me p(ra)z de p(er)doar ao sup(lican)te a cullpa
de lhe fogyrem os dous presos que diz, v(is)to como p(er) sua jmdus-
trja os tornara ha premder, he a jmformação do C(orreege)dor, e jsto
lyurem(en)te vos mamdo etc. na forma, el Rey ho mamdou p(e)los
doutores Am(toni)o da Guarna, e Damjao dAgujar etc mjgel momt(ei)-
ro a fez é Lix(bo)a a xxiij de set(emb)ro de mill b° lxxxb, lucas
Vi(ei)ra a fez sc(re)pv(er).
leua clausolla que este p(er)dão lhe não valera chamamdo-se os
d(i)tos presos as ordés. ou jmmunjdade da Igreja.
(D. Felippo i, Liv. xn de Legitimações e perdões, fl. 282).
XVIII. — Dom Felipe etc. Faço sab(e)r que Do(ming)os Diaz,
ferr(ei)ro, m(orad)or no luguar de Guafete termo do Crato q(ue) mes
de outubro de 85 d(ia) de Santa C(athari)na, amdamdo no d(i)to lu-
guar certos syguanos tãtos como R 1 fazyão m(ui)tos hagrauos, e Rou-
bos, e trazyão escopetas, e outras armas, e avja mais de xxx di(as)
que hahy se deyxauão andar, e em t(em)po que os homes andauão é
seu servyço de suas faz(en)das p(e)lo que sobcedemdo hua brjgua am-
tre os d(i)tos sjguanos cõ certos m(orad)ores do d(i)to luguar, acodyo
1 coReinta — Ru — R — 40.
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OIOAWOS PORTU13UK8ES D08 PW9 DO SBO. X?í
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o sup(lican)te e outros e tratado de se defemderera dos d(i)tos çigua-
nos que os querjão matar e sahjrâo ferjdos quatro dos d(i)tos çiguanos
amtre os quaees foj hú balldão g(onça)l(ve)z sjguano na cabeça e ou-
tros, que forão todos saãos sem desformjdade nem ha leyjão, e os Jui-
zes do crato prenderão a elle sup(Kcan)te p(e)lo d(i)to caso, e o etre-
guarão solto sem ferros ao Juiz do d(i)to Guafete, ho q(ua)l Juiz o
etreguou a hú quadrjlheyro que h# trazya solto, e Imdo se os çigua-
nos da terra [e Imdo se os çiganos] p(or) fazerem p(er)dens p(u)p(li)-
cos, que ho não querjão hacusar, nem ouuera devasa, soom(en)te hú
auto, p(e)lo que se não p(er)gútarão t(estemunh)as, me pedya lhe p(er)-
doase a cullpa da d(i)ta fogyda, e asy da cullpa, que tyuera no caso
das d(i)tas ferjdas, e som(en)te fogyra sem quebrar ferro nem outra
prysão, que Reallm(en)te não estaua preso, e R(eceberia) M(ercê). E
v(is)to seu Requerjm(en)to, he hu parece co ho meu pase, ey p(or)
bem, he me p(ra)z de p(er)doar ao sup(lican)te a cullpa dos ferjmen-
tos, de que faz menção, e fogyda da cadea, v(is)to ho que alegua, e
p(er)dão q(ue) me oferece, he paguara mil e quynhentos r(ei)s p(er)
as des(pe)sas da casa do despacho, que pagou ao R(ece)p(t)ar delias,
e forão sobre elle p(er) seu sc(ri)pvão careguado e Re(ce)ta vos mam-
do etc. na forma, el Rey ho mamdou p(e)los doutores m(anu)el de
Sousa pachequo, j(eroni)mo p(erei)ra de Saa, mjgel momt(ei)ro a fez
e lix(bo)a a xxj de Janeyro de m b° lxxx bj lucas V(iei)ra a fez
sc(cre)pver.
(D. Felippe i, Liv. xii de Legitimações e perdões, fl. 320 v.).
XIX. — Dom fellipe etc. faco saber, que Jorge ra(art)i(n)s palhe-
te, e gaspar lopes panasco, lavradores m(orado)res no termo da villa
daluyto, me enviarão dizer per sua pitição, que huns ciganos (a) s(a-
ber). jo(a)m dalmeida, v(as)co f(ernand)es forão ao monte aonde elles
ditos morão, e lhe furtarão húa gallga, e deitauão os jumentos no # pão,
por ire muitos ciganos de manada, e achãdo menos ha gallga, forão
em busca delia, e acharão em poder dos ciganos, os quais a não qui-
serão entregar, sobre que os ditos ciganos se armarão contra elles
sup(lican)tes, e vierão a brjgar, da qual briga sairão ferjdos das ferj-
das declaradas no perdão que se apresenta, e por quanto forão cull-
pados, e que no caso tiuerão todos a cullpa, lhes perdoarão liuremen-
te, como parecia do dito perdão, e por que elles sup(lican)tes erão la-
vradores pobres, que não tratarão de mais, que cobrar, o que lhe le-
uauão furtado, e os ditos ciganos ficarão sãos sem alejão nem desfor-
mjdade, me pedia, ouuese por bem, de lhes p(er)doar a culpa do caso,
e R(eceberi)am mercê E v(is)to seu Requerj mento, e hú parece cõ hú
meu passe, ey por bem, he me pras, se asy he, como os sup(lican)tes
dize, he hi mais não ha, de lhes p(er)doar a culpa dos ferjm(en)tos,
de que fas mensão, p(e)lo modo que ho declarão, v(is)to ho que ale-
gão, he o p(er)dão das partes, que oferecem, e pagara cada hú mil-
r(ei)s p(ar)a a piedade, e por os pagar ao R(ecebed)or, vos mãdo etc.
na forma, ell Rej o mãdou p(e)los d(ou)tores manuell de sousa pache-
126
REVI8TA LUSITANA
co, e darajão dagujar etc. fr(ancis)co nanes de paaja a fes em lix(bo)a
aos doze de outubro de ra b° lxxxix.
(D. Felippe i, Liv. xiii de Legitimações e perdões, fl. 8).,
XX. —Dom felipe etc. faco sab(e)r que d(oming)os f(e)r(nande)z,
m(orad)or na villa datalaia, me éuiou dizer que sendo elle alcajde, o
carcerejro na dita villa, ãtre outros presos, lhe fora emtregue preso
hu sigano p(er) nome solazar, por andar p(e)lo Rejno sem l(icen)ça, e
tendoo preso cõ hú macho de dous ellos e híia corrente os pees, e sen-
do elle sup(lican)te de noite cõ o juiz fazer deligencia, o dito siguano
ljmara a corrente, e fogira, lcuando cõsiguo o macho, e furando a ca-
dea p(e)lo telhado, e fogira soo, e elle sup(lican)te ouuera alu(a)ra de
busqua, se o poder achar, e o não podia ja achar por jr na gale des-
panha como constaua do estrométo junto, e era home pobre, me pedia,
lhe p(er)doase a culpa de lhe fogir o dito preso, e R(cceberi)a m(er-
cê). E v(is)to seu Requerimento, e hú parese cõ meu passe, ey p(or)
bé o me p(ra)z, se asy he, como diz, de lhe p(er)doar a culpa da fo-
gida do preso, de que era carcerejro, p(e)lo modo q(ue) declara, v(is)-
to o q(uc) alega, e certidões q(ue) ap(re)seta, e pagara mil r(ei)s p(ar)a
a piadade, e por quanto os ja tem pagos, vos mãdo etc. é forma el
Rej nosso senhor o mâdou p(e)los d(outo)res belchjor do amarai, e
l(ouren)ço corea etc. (christ)ouão cald(ei)ra a fez e lix(bo)a a oito de
outubro de qujnhetos e nouéta, lucas v(iei)ra a fez escrever.
(D. Felippe r, Liv. xm de Legitimações e perdões, fl. 163 v.).
XXI. — Dom felipe etc. faco saber que p(or parte de m(anu)el
da fonseca me foi ap(resetado hú alu(a)ra p(er) myn asjnado e pasa-
do p(e)la ch(ancella)ria, de q(ue) o treslado he o seg(uin)te: Desebar-
gadores do paço amigos, auendo Resp(ei)to a m(anu)el da fonseq(u)a
q(ue) foj preso na villa de mamão p(e)la culpa da morte de húa ci-
gana, ser menor ao t(em)po q(ue) o dito caso acõteçeo, e asobceder a
dita morte acidentalm(en)te, e a não ter p(ar)te, q(ue) o acusase, se
não a just(iç)a, e a se toruar algúas vezes do vinho, e a ser a dita
morta molher p(ubli)ca, e de mao vjver, e v(is)to outrosy a jnforma-
ção q(ue) se ouue p(or) meu raãdado p(e)lo desembargador g(asp)ar
barbosa, juiz do dito caso, e seu parcçer, e como p(e)la dita jnforma-
ção constou o acima dito, e auer desuajro nos uotos, p(er) q(ue) o dito
m(anu)el da fonsoq(u)a foi codenado á morte de forca p(e)ra sempre
p(er) final sentença, o q(ua)l vejo cõ embargos, q(ue) lhe forão Reçe-
bidos, e aser pobre casado cõ filhos, ey por be, e me p(raz) comutar
lhe a dita morte de forca p(er)a sempre e degredo perpetuo pera ga-
les, p(el)o q(ue) vos mando, lhe façais passar carta de perdão de co-
mutação é forma na man(ei)ra acima declarada, p(er)o da costa o fez
é lix(bo)a a seis de dez(emb)ro de mil e quinhétos e nouéta. pedindo
me o dito m(anu)el de afonseca, lhe mãdase passar carta de perdão de
comutação em forma cõforme ao dito alu(ar)a, E v(is)to seu Requerj-
mcnto, e ó dito alu(a)ra acima trelladado, ey p(or) bê, e vos mando,
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CIGANOS PORTTOUB8J5S D08 FiN8 DO SBC. XVf
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q(ue) não façais exequçam no dito manucl de afonseca p(e)la sétença
q(ue) foj dada cõtra elle, q(ue) morrese na forca, por q(ue) ey por bem,
de lhe p(er)doar, e comutar a dita morte p(e)la man(ei)ra declarada
no dito alu(a)ra el Rej nosso s(enho)r o mãdou p(e)los d(outo)res J(e)-
r(oni)mo p(erei)ra de Saa, e belchior do amarai, ambos do seu cõselho
e seus desébargadores do paço, belchjor pinto a fez c lix(bo)a a deza-
noue de dez(emb)ro de mil e quinhetos e nouenta Joam da costa a fez
escreuer.
(D. Filippe i, Liv. xni de Legitimações e perdões, fl. 189).
XXII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que m(anu)el da fonseq(u)a,
preso nas galles despanha, me eujou dizer, que elle fora acusado p(e)-
la just(iç)a, po(r) se dizer, q(ue) matara na villa de maruão húa mo-
lher cigana p(e)ío q(ua)l caso fora degradado cõ baraço e p(er)gão
p(er)a as gales, e po(r) que era home de jdade de vinte e cinq(u)o an-
nos, e mais home egenhoso, e nesta expedição, que se faz p(er)a o
Rejno de amgolla, pode lá ser m(ui)to provejtoso asj p(era) a gerra
como p(er)a arteficios de cousas, q(ue) na gerra soo necessárias, me
pedia ouuese p(or) bê, de lhe comutar o dito 'degredo de gales, p(er)a
o Rejno de amgoúa, e jrá a arbitrjo do g(ouerna)dor p(er)a la o acu-
par, no q(ue) pareçer, q(ue) cõve a meu serviço, e R(eceberi)a m(er-
ce), e declaraua que da prjmejra setença fora cõdenado a morte, e de-
pois viera cõ êbargos, e lhe fora cumutada a pena de morte em gales
p(er)a sempre, e v(is)to seu Requerjmento, e hú parese cõ meu passe,
ey p(or) bé, e me p(ra)z, se asj he, de lhe cumutar o degredo p(er)a
sempre, em q(uc) lhe foj cumutada a pena de morte p(e)la culpa da
morte da cigana de q(ue) faz meção, p(e)lo modo q(ue) declara, em de-
gredo p(er)a sempre p(er)a amgola, v(is)to o que alega, e ser de me-
nor jdade, quando cometeo o dito dilito, e pfor) tanto vos mando etc.
e forma, el Rej nosso senor o mãdou p(e)los d(outo)res damjão dagujar,
e j(e)r(oni)mo p(erei)ra de Saa etc. f(rancis)co nunez de pauia a fez
e lix(bo)a aos xxbiij 0 de jan(ei)ro anno de m b c lRij.
(D. Filippe r, Liv. xni de Legitimações e perdões, fl. 328 v.).
XXIII. — Dom felipe etc. faço saber que m(anu)el diaz, alcajde
e cacerejro da villa dalualade do campo douriq(u)e, me emvjou di-
zer, q(ue) tendo prezo hú cigano, que chamauão esteuão preto, e vjnha
degradado p(er)a as gales por tempo de tres annos, tendo o em fer-
ros, o dito cigano fogira hua noite por çima de hu telhado cortando
os ferros, como constaua do estromento, q(ue) ap(re)setaua, e elle
sup(lican)te ouuera meu alu(a)ra de busqua, e fizera tantas deljgen-
cias, q(ue) tornara a préder o dito cigano na villa do torram, pedin-
dome. que ouuese p(or) bê, de lhe p(er)doar a culpa da fogida do dito
preso, e R(eceberi)a m(erce); e v(is)to seu Requerjm(en)to, e hu pa-
rese cõ meu passe, ey p(or) bé, de lhe p(er)doar a culpa, de lhe fogir
o preso sendo alcajde, e caçerejro de q(ue) faz meçam, p( e )l° m °d°
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REVISTA LUSITANA
q(ue) declara v(is)to o q(ue) alega, e isto ljnrem(en)te v(is)to como o
tornou a preder p(or) sua jndustria, e p(or)tanto vos mádo etc. e forma,
el Rej nosso s(enh)or o mãdou p(e)los d(outo)res dy(og)o lamejra, e
J(e)r(oni)mo p(erei)ra de saa etc. fr(ancis)co nunez de pauia o fez em
lix(bo)a aos tres de majo anno de mil e qujnhêtos novéta e dous.
(D. Felippo i, Liv. xiv de Legitini. e perdoes, fl. 4).
XXIV. — Dom Filipe etc. faço saber que m(anu)el lopez, home
baço, preso na cadea da villa de thomar, me eujou dizer q(ue) elle
fora preso, e acuzado p(e)la just(iç)a, e cõdenado p(er) sétença da Re-
laçam e hQ anno de degredo p(er)a crasto marim cõ pregam na au-
d(ien)ci)a, po(r) se dizer, ferir hua vjlante salgada, sjgana, e se fizera
nelle execuçam do pregão, e fora solto a xxb de nou(emb)ro de oj-
tenta e dous p(er)a é trinta dias jr cõprir seu degredo, como tudo
constaua da certidam, e sétença junta, e não fora conprir seu degredo
ate gora, p(e)lo q(ue) estaua preso na cadea da dita villa, pedindome,
ouuese p(or) bé de lhe p(er)doar a culpa de não jr cõprir e t(em)po
o dito degredo, e R(eceberi)a m(er)ce; e v(is)to seu Requerjm(en)to
e hu parese cõ meu passe, ey p(or) bê, e me p(ra)z de lhe p(er)doar
a culpa de não jr cõprir o degredo e t(em)po p(er)a crasto marim, de
q(ue) faz méção, p(e)lo modo q(ue) declara, v(is)to o que alega, e es-
tará mais no dito degredo dous meses, p(e)lo q(ue) vos mando etc. e
forma. elRey nosso s(enh)or o mãdou p(e)los d(outo)res j(e)r(oni)mo
p(erei)ra de saa, e belchjor do amarai etc. (christ)ouão cald(ei)ra a
fez e lix(bo)a a xj de majo de m b c IRij jo(a)m da costa a fez escrever.
(D. Felippe i, Liv. xiv de Legitim. e perdões, fl. 7 v.).
XXV. — Dom felipe etc. faço sab(e)r, que amt(oni)o fr(ancis)co
preso na cadea de castelo branco, me éviou dizer, q(ue) a elle o pré-
derão, por dizeré, q(ue) amdaua é companhia de sjganos, no mes pas-
sado fogjra da dita prjsam por hua janella q(ue) estaua aberta, e sé
fechadura, e sajra po(r) hu alçapam q(ue) també estaua então aberto
sé quebrar ferro né cadeado, e p(or) q(ue) elle sup(lican)te po(r) o
caso p(er) q(ue) estaua preso, estaua ljure p(e)la sétença q(ue) offe-
reçeo, en q(ue) o mãdauão soltar, e elle era pobre cõ molher e f(ilh)os,
me pedia, ouuese p(or) bé de lho p(er)doar a culpa da dita fogjda, e
R(eceberi)a merçe; e v(is)to seu Requerjm(en)to, e hu parese cõ meu
passe, ey p(or) bé, e me p(ra)z, se asj he como o sup(lican)te diz de
lhe p(er)doar a culpa da fogjda da cadea, de q(ue) faz méção p(e)lo
modo q(ue) declara, v(is)to o q(ue) alega, e pagara quatrocentos r(eis)
p(er)a a piadade, e po(r) quanto os tem já pagos, vos mando etc. é
forma, e leua a clausulla q(ue) tome carta digo q(ue) elle sup(lican)te
sera obrjgado a se ljurar do caso ou casos p(er) q(ue) estaua preso
ao t(em)po da dita fogida, ou mostrar ljuram(en)to delles, e não no
faz(en)do asj este p(er)dão lhe não valera, el Rey nosso s(enho)r o
mãdou p(e)ios d(ou)tores belchjor do amarai, e dy(og)o lamejra etc.
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FRAGMENTOS RTYM0L«ÔIC0S
1S9
belchjor pinto a fez é lix(bo)a a xxb dag(os)to anno de mil e b° IRij
jo(a)m da costa a fez escreuer.
[D. Felippe i, Liv. xiv de Legitira. e perdões, fl. 69 v.].
XXVI. — Dom felipe etc. faço sab(e)r, que jlaria g(onça)l(ve)z 6
seus f(ilh)os, g(on)ç(al)o, e sjmão, e c(ateri)na jsabel, e margajda
cizjlia e anna iu(orado)res no c.° termo da villa de me êujarão
dizer que estando Recolhjdos e sua casa a noite de qujnze do mes
de jan(ei)ro do anno de noueta cõ seu marido e paj d(oming)os g(on-
ça)l(ue)z fora joão do souto, sjgano cG grande cõpanhia doutros siga-
nos ao curai e casa delles sup(lican)tes e do dito seu marjdo e paj e
delle lhe tomarão, e leuarão cinq(u)o porquos e hua vaqua furtados,
ao q(ue) acodirão trabalhando de defender sua faz(en)da po(r) lha não
leuasé, e andando asj a dita Reuolta acertarão de ferire ao dito cj-
gano joão do souto de certas ferjdas per Rezão do q(ua)l ferjm(en)to
se posera o marydo e pay delles sup(lican)tes em liuram(en)to, e sa-
hyra absoluto, e po(r) q(ue) elles sup(lican)tes se não puserão em
lyuram(en)to po(r) cudare q(ue) não erão culpados, e depois se achara
q(ue) tambe forão metidos no auto, e o dito sigano lhes tjnha p(er)-
doado, me pedião lhes p(er)doase a culpa que no dito caso tjnhão, e
R(ecebri)am m(erce) e v(is)to seu Requerim(en)to e hu parese cõ meu
passe, ey p(or) be, e me p(ra)z, se asj he de lhes p(er)doar a culpa
de se achare na brjga de q(ue) fazem mêção em q(ue) o cigano foj
p(or) elles ferjdo p(e)lo modo q(ue) declarão, v(is)to o q(ue) alegão e
p(er)dão da p(ar)te q(ue) offereçê, e pagarão dous mil reis p(er)a a
pjadade, e po(r)quanto os ja tem pagos, vos mando etc. e forma, dado
o passe a xxx de outubro de noueta e dous el Rey nosso s(enh)or o
mãdou p(e)los d(ou)tores dy(og)o lamejra, e j(eroni)mo p(erei)ra de
saa etc. (christ)ouão cald(ei)ra a fez e lix(bo)a a quatro de nouebro
de b c IRij lucas v(iei)ra a fez escreuer.
[D. Felippe i, Liv. xiv de Legitim. e perdões, fl. 108].
Quem olhar para este titulo dirá descontente: tbasla de cajões,
aleijões e abujòes!* ou *Cajão und kein Endk!» Mas que remédio se-
não repetir sempre de novo que cajão, cajom, está por ocajom, e vem
de occasione, cujo o inicial, considerado como artigo *, destacaram
i Occariâo e cajom serviram e são utilizadas ainda agora, frequentemente
êtm artigo, de sorte que a bévue grammatical, que originou a forma popular abre-
asv. Lusrr., vol. iii, fase. 2. . d
(Continúa).
P. d' Azevedo.
FRAGMENTOS ETYMOLOGICOS
I. CAJÃO. — H. ALEIJÃO. — III. ABUJÃO
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MVIftTA LUSITANA
do tronco da palavra, sujeitando-a ao mesmo tempo ao género mas-
culino, — se no reino vizinho continuam a propagar etymologtas absur-
das a seu respeito 1 ! De resto, tenho que accrescentar alguma coisa
de novo : pequenas particularidades sobre a historia de cajom e aleijão
e uma nova tentativa de explicar abujão.
1.°) Cornu (Or. Or., § 104) estranha a falta de um representante
antigo de accasionem *, o qual forçosamente deveria ter conservado o
género feminino. Mas este representante existiu; produziu um deriva-
do, e conservou-se até hoje na Galliza. — No Cane. da Vat., n* 365, 9,
lê-se:
Alfonso x emprega na Cantiga 184 o adjectivo aeaionada com
relação a uma mulher sujeita a maus accidentes ou ataques. E em
Galliza diz-se ainda agora acasion, segundo Valladares Nuiiez (fórma
que nfto ha razão para chamar meio-castelhana).
2. °) Quanto à chronologia das evoluções phoneticas de cajão, é
certo que a apherese do o foi posterior & palatizaçfto do si. E' o que
provam as fórmas ocajom e oqueijon. A primeira, na graphia antiga
ocaion, occorre no Cane. da Vat., 96, 22: tcomo prendi ocaion quando
vus fui [a] veer; nos inéditos de Boaventura, i, 279; e nas Cantigas de
Alfonso x (31 e 146). A segunda é empregada a miude pelo Rei Sa-
bio (169, 175, 200 *).
3. °) Apezar d'isso ha ao lado de cajom [caion, caijon, cajão 5 ], por
um singular atavismo linguistico, a fórma, talvez dialectal, casião em
Gil Vicente, m, 169; cagião, ib. } i, 250, e caisião na Pratica de três
pastores, 1:253.
Em aleijão deu-se o phenomeno opposto; o artigo feminino jun-
tou-se ao substantivo, que apezar d'isso passou a ser masculino. A
viada, era quasi inevitável. Cfr. liado por oleado, zufruto por tsuphucto, rôr por
noRROR, chavo por ochavo, e gronho por o grokho = logroSo? — Em Hespanha o
caso era outro. Por isso ocasion, que de resto tem as mesmas accepçòes de mau
ato, desgraça, accidenle, sinistro, como em portuguez, não se viu obrigado a mudar
de traje. (V. Poema de Alex, 49, 1:466, 2:158, e Poema dei Cid, 1:365).
i No Glossário (muito insuficiente) que acompanha a bel la edição do Can-
cioneiro de Santa Maria, o editor traduz occasion com morte, de oco a eus, citundo
o portuguez acanhar, c nâo sei que mais verbos, que não estão de modo algum
relacionados com ella!
* Accasionkm (com assimilação de vogaes), como no ital. accagione, neap.
accasone, franc. antigo achaison.
8 Braga regista no seu Glossariozinho a fórma cajam fa^como feminina,
baseando-se, decerto, n'aquella passagem, porque não ha outras parecidas.
* Na Cant. 186, 12, o verso exige que se leia: caestes en tal [o)caion ou
[a]caion.
5 Vat., 921, 17; 1:100, 2; 1:112, 6; C. Col. Br., 415, 2; Ined. Boav., i,281,
288, ih, 289; Prestes, paç. 379; Zurara, Ined , m, 205, 119- Mello, Obras Afarf.
cas r 59, 71.
quando mV asseentey, assi veja prazer,
non me guardava eu de tal acaijon s .
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FfiÁGMSKTOft RTYHOLOGICOS
131
meu vêr só ha uma explicação admissível. Como quasi sempre se
falia de uma-leijâo, uma imperfeita audiçfto produziu, na bocca do
povo, a expressfto um-aleijão. Impossível dizer quando. Na litteratura
o aleijão apresenta-se relativamente tarde. Â fórma archaica era li-
jom (Cant. Alf. x, 31, 146, 200); lijado (ib., 146). E no século xvi
o grande Albuquerque escrevia ainda (Carta 16): teste cavaleiro cria-
do do Duque de Coimbra . . . lhe deceparam em mão na peleja . . . dew e-
Ihe V. S. fazer mercê e satisfazer -lhe sua aleijão*, — Sobre ei de ae latino
ou românico, como em /ewa-GLARBA; queiro-quAERO ; esqueicer de bxca-
[d]bscerb; eidade de aetate, digo apenas que ainda ha muitos casos
por recolher. Julgo que a mudança foi direita em leijão, e não secun-
daria, provindo de i (cfr. leixar, variante de lixar; reixa, de bjxa;
leira, de liria (?) ; leirão variante de lirão).
Com abujâo o caso ainda é outro : o a não é o artigo, nem parte
do artigo indefinido, nem tampouco o prefixo a, como julgam os que
o derivam de visione.
A abujão é uma coisa- má, um phantasma, ou mêdo que a ima-
ginação julga vêr de noite, quer seja velando ou em sonhos. A avejão
é igualmente um espectro qualquer. Ambas são portanto, ideologica-
mente, visões [Erscheinungen, Traumbilder, Wahngebilde]. Ora a litte-
ratura popular prova-nos que em algumas das apparições angélicas e
diabólicas, que a gentinha peninsular teve durante a idade-média, e
depois, a abujão tinha figura jde ave grande (tartaranha, cernicalo,
lagarteiro, milhano 1 ). Apezar d'isso avejão e abujão não são deriva-
dos augmentativos de ave, como se diz no Diccionario Contemporâneo
[s. v. avejão e passarola]. O etymon visione proposto por Coelho no
Manual * e por Cornu no Grundriss [§ 95 s ], seria admissivel se,
entre as fórmas antigas vijão e visão de um lado e as modernas abu-
jão e avejão pelo outro, descobríssemos as fórmas intermédias avi-
jão, avisão ou vejão, bujão. Mas ellas faltam; e o latim offerece ou-
tro termo que pelo sentido serve igualmente bem e pela fórma ainda
melhor: abusione. A língua culta empregava abusão para designar er-
* Nos autos populares, e em especial nos do Natal, é uso comparar o côro
dos Anjos, que vieram dar a boa nova aos sonorentos pastores, a um grande pas-
sarola. Remetto o leitor para a Pratica de ires pastora; para o Auto dei nasci-
miento, de Rodrigues Lobo; para o Auto de Deus Padre; para Gil Vicente; e
para as Representações, de Juan dei Encina, Valdivielso e outros.
* k Abujão, 8. f. ; term. pbp. : phantasma, medo (vid. avejão, que é a mesma
Í>alavra). — Avejão, s. f.; term. pop.: entidade que se figura á imaginação popu-
ar ; — visão ; s. m. homem muito alto. — Outra fórma de visão».
8 «Abujão, de abejão por avejão = visionem». — Em nota ao § 303 o erudito
glottologo accrescenta que avejão, que a principio fora feminino, oscilla hoje
quanto ao género, segundo os grammaticos e diccionarios. Parece-me que não é
bem assim: pelo que ouvi, e também pelo que Coelho indica, abujão é por regra
feminino. Só quando se refere a um homem -phantasma, de proporções desmarca-
das e catadura feia, é que momentaneamente se torna masculino, como um banana,
um maricas, um medricas, e tantos outros 1
139
MtVISTA LUSITANA
ros e enganos originados pela credulidade: phantasmas, sombras,
quimeras e illu*5es. Barros e Couto, p. ex., faliam a cada passo de
abusões, com referencia às crenças dos gentios. Mas como nfto collec-
cionei as respectivas passagens da Asia, offereço algumas outras, que
julgo sufficientes para provar a minha these.
Zubara exclama na Chronica de D. Pedro: € quantas abusOes so-
nharam!* (Ined., n, 251), e Gaspar Fructuoso diz nas Saudades da
Terra: thaviam 18 dias que duravam as abusões dos falsos prophe-
ias — o sancto propheta o qual outras muitas cousas e abusões fazia o
povo fazer de noute e de dia (pag. 60); — e llie disse que abusões eram
aqueUas que fizeram no povo (pag. 59) ; — ao cabo de alguns dias que du-
rava esta abusão e desaventura* (pag. 58). — E Prestes chama a um
cmêdo» ou alma-penada: testa abusão que anda a/u» (pag. 383); e apa-
rece que esta abusão tem presumpção* (420). — Abujão, derivando di-
rectamente de abusione por um processo bem nacional, seria a fórma
popular: formando com abusão, que nasceu pela muito usada suppres-
s&o do i posvocalico (Cornu, § 113), um par de variantes a pôr em
parallelo com vijão e visão. Em ambos os casos sem que houvesse dif-
ferenciação quanto aos significados K — Resta dizer que a visião e ca-
sião, que devemos classificar de meio-eruditas, apezar de antigas ',
nao corresponde nenhuma fórma abusion.
A proveniência de * evellicare, indicada por Cornu (§§ 154 e 244)
é muito duvidosa. O sentido nao satisfaz, e o desenvolvimento pho-
netico seria muito fóra do commum 4 . Depois de pensar em derivà-lo
de caviare por cavare; decidi-me por calvus, sem comtudo estar con-
vencida do acertado da minha hypothese, que nao sei apoiar com do-
cumentos históricos, nem com casos análogos. — Ecalvare daria acal-
vare — e com anticipaçâo do 1: álcalvar; depois o 1*°" ter-se-hia
vocalizado como em açaimo , seiceiro, saimão, etc. : Ei por ai, como em
eido, de aido (aditus); meigo, de magicus.
Um antigo provérbio, diz: «M antruejo sin luna... ni piara
(= rebanho) sin artufta*. O commendador grego explica: toveja que
i Alfonso x emprega-as indistinctamente : vijon nas Cantigas 53, 58, 85 e
200 [cfr. prijon, 158; lijon, 31, 146 e 200; confojon, 91]; e vijon nas Cantigas 5
e 85 [cfr. confisson, procisson].
s Vision, que encontro só em uma variante da Cantiga 85, pode ser castelha-
nismo.
* Ha também alquevar e alqucve. (andar como sapo por alqutve).
4 Evellicare teria produzido, provavelmente : evclgar (ou avtlgar, ameigar).
Cfr. cavalgar, de cayaluoarh; amolgar, de emollicare; empolgar, de *im-i»oi<-
I4C*abk, de rotufix; esvtdgar, de *x-pyuc-ARE ; folgar, de folucahe,
IV. ALQUEIVAR
V. ARTUNA, ORTUNA
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ÍRÁGMKKTÒS ÈTVkuLOOiCOS
iáâ
pariá y se le mitrió el cordero*. Um pouco inadequadamente, porque
artufla está evidentemente por * ab our-unea (de abortus). Na Galliza
ha aiuda hoje a palavra: ortuna por ovella que aborta K
VI. BAJOJAR, BAJOUJAB
De * baioliare por baiolark (Vulgata), havendo substituição de
Ih por / por assimilação ao primeiro j; — ou por assimilação de i ao
j, depois da, áliàs rara, queda do l antes de t. Cfr. joio, Olaia, muyer,
Gião, que no Cane. da VaL, n.° 14, é sempre quadrisyllabo : Ju i â-o.
VII. BELHÓ-PILHÓ
As actas sobre estas duas palavras estão longe de estarem fe-
chadas. E' cêdo ainda para dizermos se o étymon é o mesmo para
ambas e decidirmos qual entre os que foram propostos tem mais pro-
babilidades de ser verdadeiro, se *biliola por libiolà (Cornu, §§ 130
e 214); foliola (Baist); ou filiolum; ou se, originariamente diver-
sos, foram mais tarde confundidos, por causa da grande semelhança
da sua construcçâo phonetica, e apezar da differença de significação
de ambos. Por ora registarei: 1. ) que o gallego chama a um certo
bolo (tfruta de sarten» ou «hojoelas de sarten») não só filhó, filhoa,
mas até freixó (como se fosse fresiolum, de fresus, part. pass. de
frbndere); 2.°) que belhó, pronunciado também bulhó, designa em
Tras-os-Montes exclusivamente a castanha pilada (= descascada ou
debulhada) e nunca um bolo de farinha (nem o de massa delgada e
estendida como folha, nem tampouco o que é da finura de fio *), sem
querer examinar se este belhó (m.) representa pilióla, de pila = bola
pequena, ou está em relação com tfeÒM//wr*(palavra, cuja origem fica
também incerta 8 ); 3.") que a fórma mais archaica que encontrei até
hoje é feijoo (= phasiolum) na Cantiga 157 de Alfonso x; 4.") que fi-
lhó foi antigamente masculino em portuguez (p. ex. no provérbio : não
vay por ahi a gata aos filhós).
1 Cfr. cftat. redruna, garduha e vedvfío; port. gardunho f rascunho, : gatafunho t
garafunho e pezunho (augmentativo burlesco de pé, moldado sobre o diminutivo pé'
tinhoj. C/«o = pkjbus, de unub, formado por analogia com ano, iho, ono. Os adjectivos
preferem, comtudo, em geral o euffixo onho. Aos vocábulos citados na Miscellanea
[n.° 24, s. v. medronho], acerescento agora dois termos bonitos e caseiros : dòto*
nho e palronho, inventados para caracter i sarem, o primeiro a quem é «respondâo»,
e o segundo, a quem a paira muito».
* A massa esf olhada (Bldtter»teig) é no preparo e tratamento culinário
muito differente da massa dos filhó* f beUós e beignets. — Muitos filhotes modernos
têm fórma de bolinhas fofas e assopradas, chamando-se até soprosinhos ou suspi-
ros de freira.
• Eu pelo menos receio ainda pronunciar «me entre de-pileart e spÔuahi (es*
bulhar, dts*oulhar e debulhar, com dupla troca de sufixos).
rbVísíà lusitana
YIIJ. BOETA
Se boceta (cast. bujeia) representa * buxidittà, de boxída (pyxída),
boeta, que era vulgar nos séculos xv e xvi l , deve ser o reflexo do
francez botte (=buxida). Cfr. toesa, de toise; framboesa, de framboise;
oboé = hautbois ; patoé = p atóis.
IX. buço
Buço, bucinho, o nome popular dos pêllos que nascem em cima do
lábio superior dos homens e de algumas mulheres, assim como no foci-
nho de vários animaes (bozo em castelhano) n&o será mais nada que
bdcckus. De ahi buçal, boçal (qualidade do moço imberbe, que mal vê
despontar o buço); embuçar se (cobrir a metade inferior do rosto até
ao buço com capa ou capote); rebuço, rebuçado, etc; hespanhol bozudo,
embozo, rebozo, embozado, rebozado, arrebozado, etc. — Ccj tratado
como kj em laço de laqueus. Sobre u de u latino em posição nem
vale a pena fallar. (V. Cornu, § 32). — Confira-se, de resto, rebusnar,
de REBUCCINARE.
X. BUFARINHEIRO *
*Cada bufarinheiro louva seus alfinetes* ou «as suas agulhas*.
Este provérbio, recolhido por Fernan Nuftez, e que ainda contináa a
correr mundo, contém a forma mais usada da palavra que em Portu-
gal denomina o vendedor ambulante de quinquilherias. As variantes
bofirinheiro (Mello, Guia de Casados, pag. 135), boforinheiro, bufali-
nheiro (G. V., i, 173), baforinheiro } bolfarinheiro, belfarinheiro, belfuri-
nheiro, em que apenas as vogaes atonas e as liquidas ler soffreram
alterações, sâo muito pouco communs: meras corrupções vulgares s .
Em Hespanha quem exerce o mesmo oficio chama se buhonero 4 . Du-
rante a idade-média, prevaleceu, comtudo, em ambos os paizes, outra
forma, mais curta: bufou ou bofou \ N&o é licito separá-las. Enga-
i V. Foral de Lisboa, pag. 37 ; Ordenações, § 127 ; Couto, Castanheda, An-
drade, etc.
* A graphia roais usual é bofarinheiro (com o).
* Belfur.. . por bofur, com anticipaçâo plebeia da liquida r, como em bel'
foreira por beforeira = bifkrahia. A esta ultima formação Cornu concede relati-
vamente grande espaço na sua grammatica, explicando-a nos §§ 155, 160, 248 e
255 do modo Beguinte: biferarta, bilferaria (com. Vorklang do r, em forma de l)
bilfereira, bilforeira, belforeira, balforeira, balaforeira (com epenthese euphonica
do a), de onde afinal baforeira (com queda do l inter vocálico 1) — Encontro ainda
entre as minhas notas outro belfurinheiro, como corrupção de palafkknriro, reco-
lhido, se nào estou enganada, do Summario de Lisboa, de Christovam Rodrigues
de Oliveira.
* Cada buhonero alaba svs agujas (Celestina, 41).
5 Eis alguns exemplos : De coloneiro qui comprar piscatum proa revender det
I denarium, bofom i denarium. [Mon. Logos, G21] ; bo?jk qui afíquid vendiderit in
viHa det cotidie 1 denarium [ib , 622; cfr. 674 e 6U6, MidDea, 1:267, e Coja, 1;260].
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ÍRAGkENTOS ETIMOLÓGICOS
135
na-se quem vê era bofarinheiro o vendedor de boa farinha, imaginando
que as bellas e boas farinhas que elle ia oflferecendo de casa em casa,
apregoando-as talvez com a fórmula: tbôfarinha, bôfarinha!* (como
bôfé, de boòfé), eram cosméticos e pós para o toucador. O titulo de
bofarinhas, dado nos diccionarios ás mercancias de quem gritando:
barato ! barato /, vende agulhas, alfinetes, ganchos, linhas, fitas, ligas,
atacadores e outras bugigangas do mesmo género, não é mais do que
uma abstracção (Rúckbildung) moderna, tirada de bofarinheiro, pôde ser
que pelo povo, mas mais provavelmente pelos eruditos, com a mira de
apoiarem aquelle supposto etymon K Buhonero e bufarinheiro são de-
rivados do mesmo radical. O primeiro veio directamente de bufon,
accrescentando-se-lhe a terminação -eiró ou -ero, que costuma dar o
nome ao praticante de qualquer mester ou officio (cfr. adeleiro por
adelo). O segundo passou por mais algumas vira-voltas. As bugiarias,
vendidas pelo bufo (fórma originaria latina do bufon), chamavam-se
bufarias. O dono d'ellas ficou sendo, por isso, um bufari-eiro. O nh
introduzido mais tarde é eiymologicamente injustificado. Surgiu, para
assim dizer, por um efeito, não de magica acústica, mas de euphonia,
produzido pela analogia com dinheiro por dxeiro; louvaminheiro, de lou~
vamleiro; choraminheiro, de choratmeiro s ; macinheira por macieira; es-
crevaninha por escrevania; endemoninhado por endemoniado; maninho
por manio, etc. ; isto é : na retafila da interessante serie de palavras
em que a resonancia nasal se desenvolveu como ecco do m ou n an-
tecedente, immediato a i (cfr. nin em ninguém, mim, nem, nenhum, nw-
gela, muim, muinto, etc), sendo abrandada em nh, cada vez que vinha
seguida de vogal, afim de facilitar a pronuncia 8 , do mesmo modo como
tardinheiro surgiu ao lado de tardieiro 4 , pardinheiro (gal.) ao lado de
*
E 1 costume que se o bofom andar vendendo em cesto ou em canistrel pefa vila . .
[Ined, ív, 631]. — O bufam que por as praças da villa ou lugar tra$ almaioo nu ar-
queta ao coito com tenda de marçaria pera vender. . . [Ord. Aff , m, pttg 5J]
Saben lo» boffones mw-has ma la 8 baratas t
butlven en sus mercaduras mimhas malas ratas :
non podrie deuir omne todas sus garavatas ( = Kniffe, WinkefaHg*)
morir quieren el dia que non ganan çapatas. (Poema de Alem., 1057),
De bufarinheirat femininas falia o Arcipreste s
Como lo han de uso estas tales buhonas,
andan de casa en casa vendiendo muchas donas. [Fita, 673].
* Nâo tem fóros de litteraria: eu pelo menos, nunca a tenho encontrado.
Nem vejo citações nos diccionarios que consultei.
* Chora-mingas e chora-migas, de choramingar, são, a meu vêr, etymologias
populares, procedentes do termo archaico choramiar, de chorame, formado sobre
louvame f=s laudamenj; e com vista sobre ckowdoilos (— cast. llora-duclos)
* De tardio? — *0 castelhano tardinero faz, comtudo, suppôr que o latim
vulgar da peninsula já possuísse um typo * tardinarius, moldado sobre ordinarius.
* Aos exemplos allegados nos jj§ 124 e 151 por Cornu (que foi quem elu-
cidou esta importante questão), ba bastantes que accrescentar ; p. ex. : a%inhaga f
àKVÍSTA LtisiTAtÍA
pardieiro. Quanto a bufo, bastará remetter o leitor ao Dkcionario de
Diez, i, onde se trata do italiano buffo e do francez bouffon K
XI. — CARAMANCHÃO
Chamava-se caramanchão em portugnez archaico a uma pequena
obra avançada de fortificação ; um miradouro ou mirante em fôrma de
torreão minúsculo (synonymo de cubello; — allemâo: Wartturmchen,
Turmstilbchen *). Em portuguez moderno designa uma casita feita de
ripas ou de canniçado e revestida de trepadeiras nos jardins ou quintas
ajardinadas para resguardar do sol ou para descançar (ali. Garten-
laube). Em castelhano a palavra correspondente significa: desvão da
casa, onde é costume guardar trastes velhos (ali. Rumpelkammer, Dach-
stiibchen), e em sentido figurado os cantos e recantos de um sitio qual-
quer. Em todas estas accepções o caramanchão é, portanto, um pe-
queno aposento (ou fragmento de aposento), uma camarazinha pouco
espaçosa e mais ou menos aberta/ dando-se o aliás nada raro caso,
que um termo diminutivo foi avolumando-se, por meio de suffixos cada
vez mais compostos, na proporção inversa do tamanho real e da va-
lia do objecto que denomina. Como da radical de pequeno se forma-
ram, além de pequenino e pequenote, ainda pequerrucho e pequerrucha
nho; de bidio: bichano, bichaninho e bicJiarôco, ou, em terras de Anda-
luzia, de chico: chiquito, chiquitito, diiquititillo, chiquirrititillo, e até com
prefixo, suffixos e infixo rechiquirrititillo, assim nasceu de câmara, ao
lado dos simples diminutivos camarim e camarote, outro depreciativo
camaracho, e em seguida, com maior insistência na pequenez e insi-
gnificância do respectivo recinto: Camarachão, de onde caramachão e
finalmente caramanchão == * camará -f- asc'lum -f- onb s .
de aziaga (de ilicinus); minhana por miana (— miadomini) ; minhoca por mioca
[ali. H ttWe, de minam*] ; linhagem por liagem; linho por lio (porque é assim que oa
antigos escreviam). — Minhoto por mioío pode estar por milhoto, de milvus (cfr.
milhano); como homizio por homizilho, de homicidium. — Escarninho por escarnho,
escárnio é differente.
1 Sobre a raiz buf, puf f representado em portuguez por bofe K bufo, bufar, bo-
fetada, etc., ha muito que dizer. Fique, comtudo, para outro logar. Mas de passa-
gem sempre direi que o portuguez fofo, que Cornu quer derivar de fatuus, me pa-
rece estar intimameute ligado com buf-bof.
* Hervorragender erker-oder zimmerartiger bedachter oder unbedachter Ausbau
alter Befestigungswerke der zum Ausschauen, Beobachten und Beschiessen dcs Feindes
diente. — Eis quatro passagens comprovativas: 1). E o arcediago mandou fazer
huum muro em caram ani-uoks a redor da igreja e clauslra [Port. Mon. Hist. : Script.
i, pag. 24, sec. xv]. — 2). E a vella (. . . vigilia) estava em cima do caramahcham
[ib , pag. 29] — 3). E mais mandou El JRry que tirassem alli huma villa de. madeira
que levava naqueU-a frota a qual mandou que ficasse pera repairo dos oakam ancbòes
e das torres em que a» vellas aviam de ser postas. [Zurara, D. Pedro; Ined., n,
pag. 240]. — 4). Derrubou tres ameas de hum oakamamouao [Pina, D. Duarte; Ined.,
ih, pag. 147].
8 Como se vê, eu derivo o auffixo, ora diminutivo, ora depreciativo, acho com
Leite de Vatconcellos (Rev. Lurit., u, 212), de asc'lum, modificando um pouco a opi*
tfBÁGHKNTOâ KTíMOLÔaíCOã
Provemos, em primeiro logar, que houve realmente metathese, e
que esta metathese está em harmonia com os costumes característi-
cos do portuguez. Em Gastella a forma prevalecente (se n&o fôr a
única), é camaranchon l , emquanto em Portugal, pelo contrario, temos
por via de regra caramanchão, e a fórma primitiva apenas de vez em
quando, por excepção *. Julgando que a fórma castelhana é a origi-
naria, e a portugueza secundaria e modificada, tenho em conta a for-
tíssima propensão do portuguez para translocações de consoantes e
vogaes *. Â mudança de camaranchâo para caramanchão, ou em pro-
núncia familiar, pouco erecta» e cuidada, cWamanchão deve conside-
rasse filha da tendência especial e muito pronunciada da linguagem
popular de transferir o r do fim e meio de palavras para o principio,
logo que là exista consoante a que elle se possa encostar, ou que
o attraia, como p. ex. em fragoa, fresta, preguiça, prego, estrondo,
brinco 4 e tantas outras.
Note-se em segundo logar que camaracho, sem o sufixo pejorativo
-ão, e ao mesmo tempo sem resonancia nasal nem metathese, existe
em Castella, onde significa igualmente um desvão (galetos, grenier,
soffUto b ), e que os synonymos portuguezes caramachel e caramanchel
põem fôra de duvida a existência do mesmo camaracho, caramacho em
território portuguez.
£ por fim tornemos incontestável esta etymologia, mencionando
que a variante caramachão sem a resonancia nasal antes do ch, acom-
panha nos antigos documentos a fórma caramanchão *, assim como
niào que sustentei na Miscellanea (n.* 23, s. v. macho) Paralleloa de camaracho se-
riam : borracho, bonacho, fogacho, pennacho, riacho, verdacho, lebracho, lobacho í
muacho. Ao par de camarachâo ha bonachão e borrachâo. Em formas nasaladas
lembra-me apenas os termos gordanchudo, feianchão, de feio, e vcrdanchâo, que
colhi da bocca do povo. — Cfr. -uncho em caruncho, e escarafuncho (do mesmo ra-
dical allemào, como escarrar = scfirapfen); e -incho em pedinchão por pedichão.
i Os diccionarios, pelo menos, nâo trazem outra. Cervantes falia de nojos
hundidos en los últimos cam abanchombs dei celebro»,
* Alguns lexicographos trazem-na, p. ex. Moraes e Coelho. O primeiro re-
mette aos Inéditos, ni, 147. Cpmtudo, lá está caramanchões, e nâo camaranchões.
> Os phenomenos de metathese sâo tâo frequentes e tào inesperados e curió-
sos em Portugal, que levaram J. Cornu a estabelecer sobre esta base algumas ety-
mologiaa verdadeiramente arrojadas e inverosímeis, como lerdo, de tktbb ; bojo, de
alveus, fofo, de FATuus,etc. — Aos exemplos citados no § 204 (Gr. Gr.) é fácil ac-
crescentar mais alguns plebeísmos, como carpichado, carapichado e cWapichado por
caprichado; charamysca, de chamarusca; largato = lagarto ; lerpa — lepra ; anda*
rela, de arandela; Adega = Águeda ; bidogue » bigode; der r orna — redoma; diregir
*= digerir ; sorrobalho = sobor ralho ; redamar «= derramar ; sefenicar e sufenicar
«= significar.
* Crasto = eastrum; crosto « colostrum; crestar = castrare; crabesto *» ca»
pistrum; crango = congro, cancro (cfr. c'ranguejo, caranguejo); traga tagra. (Cfr.
Bev. Lusit., i, pag. 29í>).
* V. Salvá, Diccwnario.
6 Ined., íx, pag. 420 1 mandando que todos feêessem traser de comer aoê ca-
bamacbòes do muro;—ib , in f pag. 153 j naquelle mesmo diapareceo em t/m cabama*
ciilo. — Longe de mim negar que em ambos os casos possa haver a simples ouiis •
sfto de um til; ou de n.
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lâô
&KVÍSTA LÚ3ITAKÁ
caramachel acompanha a caramanchel 1 e, conforme já se disse, cama-
racho ao castelhano camarandion. Mãe por mae; mandia por macha
= macla; mangerico, manjaricão, manjarona por magerico, magericão,
major ana; Maneias etc, são exemplos conhecidíssimos do Nachklang
de m inicial no fim da syllaba. (Cfr. Cornu, § 151).
Alguém poderia ser tentado (como eu o fui) de aventar outras
etymologias: a) camará -f ancha (= ampla) por antiphrase; b) ca-
tnara -f- rancho, com queda dissimilatoria do primeiro ra. Ambas s&o
todavia inacceitaveis, porque a mudança de género e a queda do n an-
tes de ch ficariam inexplicadas. No ultimo caso accede ainda outra
razfto : camarancho n&o está documentado, e caramanchão nunca serviu,
que eu saiba, para designar a tenda de campanha ou o beliche das
naus, que são o verdadeiro berço da camaradagem e do rancho. De
resto, a própria palavra rancho está ainda por explicar satisfactoria-
mente *. E se realmente houvesse relações de parentesco entre cara-
manclião e rancho, a idéa extravagante de considerar rancho como
proveniente de camarancho, por apherese, talvez ainda encontrasse
mais adeptos do que a tentativa de vêr em caramancho um composto
de camará + rancho.
Na Pratica de tres pastores (l. a 260) eu interpretei caHapolinho
por cartapacio. Melhor seria, cora tudo, dizer c papel escripto por es-
crivão publico, oficialmente, rescripto da côrte, etc.#. — Em portuguez
antigo o termo correspondente é portacollo. As Ordenações Affonsinas
(i, 263 e 264. m, 241) empregam-no por livro de registro das notas de
um tabellião. E nas Memorias do Bispo do Grão Pará (pag. 125) temos
a mesma fõrma com idêntica significação. Portacollo é evidentemente
protocollo, com alguns indicios de transformação por meio de etymo-
logia popular. De ahi, com metathese â maneira portugueza, corta-
polo, e, sob influencia de cada e cartapacio, a fórma cartapolo, que deu
o diminutivo cartapolinho, de onde cartapelinho. Portacol uas comedias
de Simão Machado, e cartapel (usado em Hespanha pelo vulgo g ), se-
riam abstrahidos das respectivas fórmas diminutivas, na mente de as
reduzirem aos verdadeiros radicaes *.
Chacina é : carne salgada em postas, curada ao unto, ao sol, ou ao
fuMò; e em sentido figurado: carnificina 6 . — Outro dia, em uma con-
l Na 7. a edição de Moraes caramatihel è mero erro de imprensa. JA etimolo-
gia, que indico aqui, já lá está, como vejo agora, posto que b6 hypotheticamente !).
* Rancho por ranche, de ramice?
* Valdivielso, pag 925, em bocca de um pastor sayaguez.
4 Separo-o do italiano scartabello, em que Caix quis vir um composto de
charta e tabdla (Z$ehr , i, 423, e Stvdi, pag. 197),
* O gallego diz chacinha.
XII. CARTAPOLINHO
XHI. CHACINA
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HkdKtíXf OS RTtfMOLO&ICOd
139
versa de jantar com um idoso e instruido proprietário de Tras-os-
Montes, ao disputarmos sobre a melhor maneira de eu defumar car-
nes em casa, soube que os moradores de Chacim têm antiquíssima e
bem merecida fama pela maneira excellente como sabem defumar car-
nes de porco. — E elles, os de Chacim, a pensar que a sua villa rece-
beu o nome por cansa de uma sangrenta batalha entre mouros e chris-
t&08, no tempo dos Affonsinhos, emquanto todas as chacinas, tanto
cruentas como incruentas, receberam, pelo contrario, o nome de uma
pacifica terra toucinheira!
Cornu vê n'aquelle vocábulo um hypothetico *siccina, de siccus=:
secco; e eu, tomando em devida consideração o castelhano cccina e o
catalão cecina, cesina, julgo boa aquella etymologia, apezar da rara con-
servação do n inter vocal e da transformação do thema principal l . Com-
tudo, eu diria d' ora á vante, à cautela: chacina , de siccina, sob influen-
cia de Chacim,
Chosco on Pedro- Chosco é o nome gallego do hospede bemfazejo
que todas as noites entra pelas casas dentro, a deitar uns grãozinhos
de areia, ou coisa que o valha, nos olhos das creanças. E' o João Pesta-
nas dos Portuguezes ; o Sandmann dos Âllemães, ou, mais exactamente,
o Ole-Luk-Oie, o Cerra-olhos dos Dinamarquezes. Se este senhor deitar
por engano umas gôttas do doce leite de morphina nos olhos dos ser-
ventes, cêdo demais, quando ainda deveriam velar trabalhando, sempre
lá apparece quem lhes cante ou recite a cantiga popular gallega :
Chosco, substantivo verbal de choscar, chuscar (cerrar e abrir os
olhos, pestanejar, toscanejar, piscar o olho) é *clausicare, de clausus,
part. perf. de claudere, i. é : do gallego chouso, choso, que f uncciona ao
par do participio regular, analógico, choido, de choer, choir, port. ar-
chaico chouvir (com epenthese de v para annullar o hiato). Ha ainda
* Todos os numerosos derivados portugueses de secco mantêm, naturalmente,
o som k f mesmo antes de t (secca, seccação, seacadoiro, ieccagem, secoarão, sequi»
dão, $t quilho, sequinho, resequido, sequeiro, etc).
XIV. CHOSCO
Vai te d^ahi, Pedro Chosco,
non m f enganel-la criada:
non-na calzas, nin-na vestes
nin Ute pagai la soldada!
ou, em texto portuguez:
Vai-te, sono, vai-te, sonol
vai te da minha criada:
nâo-na calças nem-na vestes 9
nem lhe pagas a soldada l
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fefcVISf A LUSITANA
deschoer, deschoir — descerrar, e desachouaar. Chosco designa também o
vesgo (=*vRRaioos, de versus, participio de vkiiterk ! ).
Apenas duas notas para apoiar a etymologia ^florumbx, proposta
por Cornu (§§ 135 e 303). Sà de Miranda emprega uma vez o pro-
vincialismo (minhoto-gallego) chorecer por florecer. (N. oí 103 e 675, a
pag. 711 da minha edição); e em Galliza chamam chorimas às fores
do tojo. No adj. churinnada=olorosa, fragrante (que conheço apenas
do inexacto Cuveiro Piíiol) a radical cheiro (de cheirar = flaorarb) foi
provavelmente modificada por causa de chor = flor e chorume =floru-
men; como o francez fleurer por flairer, por causa de fleur. — Se esta
derivação fôr exacta, churumo em Castella deve ser mercancia de im-
portação.
Cisco, = o pózinho de carvão que, depois de voar no ar, assenta em
nossa casa, ou alhures, e, em accepção mais ampla, toda a qualidade
de pó e lixo que se vae juntando dentro de casa, talvez não seja ou-
tra coisa que um diminutivo de cinis, cinisculum (como pulvisculum)
que podia dar ciiscoo e finalmente cisco. (Cfr. Miscellanea, n. 04 47 e
48; Rev., i, pag. 300, e o fragmento 65 d' esta serie).
Este nome, dado à esquadria do carpinteiro, é corrupção do latim
quartabo, e deriva portanto da mesma raiz (quarto) que deu o sêr à
esquadria. O primeiro passo dado para nacionalizar aquelle termo te-
chnico foi a mudança alliviadora de ua atono para o : cortabó, cortavó,
como coHa-feira (gal.); contia; coresma; cortapisa; leche cortada (gal.
= coarctada) ; cotrim ( = quattrinus) ; courdla ( = quadrella). O processo
de popularização continuou, nasalizando-se o ó agudo. Cortabom, corta-
vom, como tafetá, resedâ, perúm, tissum, dimittím, javalím, rábbíin. A
ultima transformação substituiu -vom por -vão, que a etymologia popu-
lar identificaria á mão. — O castelhano parou a meio-canrínho, con-
tentando-se com cartabon ; a por ua, como em caderno, cadril } carta- feira,
cartilha, catro.
* Cuveiro Pinol diz lacónica mente í cttôflCo 1) wefto, 2) vitco ô tuerto, 3) chuê-
Cô. Ê 8. v. chtistar = guihar ; chuscal-lo ollo = guiha-U el ojo. — Nâo me aventuro a
assegurar que o adjectivo castelhano chuseo =*picaro, gracioso t chulo (e chuscada)
seja a mesma palavra, e, n'este caso, de formação occidental. Creio-o comtudo ; e
de passagem mencionarei que as palavras que o hespanhol recebeu de Galliza e
Portugal nlo sâo tão poucas como é costume assentar. — O Chusco é um pisco. £
quem pisca o olho, fá lo quasi sempre gracejando, com muita familiaridade, ou
cbulice.
XV. CHORUDO, CHORUME
XVI. CISCO.
XVH. CORTAMÂO
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F&A0MRNT08 KTYMOLOUICOS
Hl
XHII. ÇULAMK, COROMEK
Ha em vários diccionaríos portugueses um artigo do teor se-
guinte: *Coromen = espécie de manto ou capa quê se usava no século
XIV 1 *. A auctorídade comprovativa allegada é nada mais, nada me-
nos que Alexandre Herculano, o qual falia, n'um dos seus estudos ro-
mantico-historico8 de ^mulheres cuja vida de perdição se revelava nos
seus ooromens de panno de arraz». Ha até quem saiba prescrever-nos
a pronúncia: korumánk 8 . — A vetusta palavra que o grande histo-
riador quiz rehabilitar, é evidentemente o zuramen dos textos medie-
vicos latinos ; isto é : o zorame 4 [çurame, cerame, solhamé] das prosas
[zurame, zorame] dos castelhanos ; o sulham ou sulham dos Árabes, ou
antes dos Berberes, que usavam em Marrocos de uma capa, a modo de
albornoz, assim denominada. V. Dozy-Engelmann, s. v. zorame; Dozy,
Dict. des noms des votements, pag. 194, 195.
Eis em primeiro logar as passagens que juntei no empenho de
descobrir em qualquer parte a errada graphia coromen. Copio-as,
porque podem ser úteis aos elaboradores do Diccionario da Academia,
e porque documentam claramente o que era e valia a peça do ves-
tuário antigo de que tratamos.
Um decreto de D. A Afonso m, d# anno de 1251, assignado por
alguns dos trovadores mais afamados, determina as multas a pagar
por prejuízos e roubos praticados em casa dos ricos-homens e filhos
d'algo, dizendo: «Quicumque acceperit alicui capam zctrambn pellem aut
aliquam vestem aut aliquod cooperimentum, pectet ipsum in duplo» [Mon.
Leges, pag. 190], o que significa em redacção portugueza: «Item
quemquer que filhar capa ou çbrame ou pele ou alguma vestidura ou co-
bertura, peyte-a em dobro» (ib., pag. 191), passagem que já se acha
reproduzida na Hist. Geneal. [Provas, vi, 3*9] e no Lexikon de Dtt
Cange s. v. zuramen. — Outro decreto, a muito interessante pauta de
1253, estabelece o preço devido ao alfaiate pelo feitio de um zorame,
e o seu valor estimativo quando fornecido pelo patrfto aos jornaleiros:
*Et homo cui dederint zorame et sagiam stet pro triginta solidis pro sol-
dada» — [Mon., pag. 195] e «et custura de manto valeat duos sólidos et
médium; et de zoramb valeat unum solidum». — Na pragmática sum-
ptuária de D. Alfonso iv (1340), explorada em manuscripto por Gama
Barros para a sua excellente Historia da Administração publica (i,
535), ordena-se que as mulheres sejam menos pródigas na ornamen-
tação dos seus vestidos, n&o usando enfeites dourados, nem cordões
* Domingos Vieira ; Moraes, 7.* edição ; Caldas Aulete.
* Arrhcu por fôro de Portugal, pag. 52 e 66.
3 V. Diccionario Contemporâneo.
* A Monarohia Lusitana escreve assim. As fórmas oerÇffK © cerrom 4o
JSluciaqriQ são, ao meu vêr, meros erros <J e leitura,
e das poesias
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MVMTA LtTSrtiWA
cem eerames ou em mantos, salvo de seda sem outra mistura». No
mesmo texto indica-se ainda qual a fatiota dos moradores de villa que
n&o eram suficientemente abastados para sustentarem um cavallo,
prescrevendo-se que nâo seja permittido renovarem o vestuário mais
do que uma vez por anno, tanto para si como para as suas mulheres.
Estas recebiam •pelote, saia e oerame ou manto* (tres peças); os ho-
mens vestiam pelote (ou capeirote), saia e tabardo, emquanto aos ser-
viçaes (Testes pequenos burguezes, chomens de pé vivendo em casa
alheia ao serviço de outrem competia annualmente pelote e çurame,
ou saia e cerame [aliás capa] de panno barato (duas peças).
Consultemos agora os poetas! O Cancioneiro da Vaticana intro-
duz n'uma gesta de maldizer um cavalleiro, de quem se moteja por
elle usar de *çeram'e cint* e calças de Ruam* (1:082, 31). Outra cantiga
de escambo dii ige-se a um pobretão, que de repente e sem o merecer
fôra nomeado commendador de Uclés, trocando o seu cerame grisalho
de panno de Chartes contra um rico manto tabardo e a espada de
cavalleiro.
Chegou Paio de maas artes \ com seu cerame de Chartes (1:132, 2)
e Semelha me busuardo \ viind' em ceramen pardo (1:132, 8).
Alfonso x refere se também ao çurame em uma das cantigas de
Santa Maria (57, 6). Um poeta do Cancioneiro de Baena, emprega- o em
sentido figurado, ao referir-se à capa da divina misericórdia, que en-
volve tudo e agasalha a todos Em sentido real como termo de ves-
tuário, porém, já n&o se usava desde que as modas da côrte de Bor-
gonha tinham substituído os antigos trajes.
Das passagens que citei, e de outras muitas que omitto resulta
que o çurame ou çerame era em geral uma capa de resguardo, sim-
ples, duradoira e relativamente barata, que servia aos humildes jor-
naleiros, e ficava muito abaixo do tabardo senhoril, assim como do
redondel e da sumptuosa garvaya, mas que também houve eerames ele-
gantes, guarnecidos, para uso feminino. Herculano tinha, portanto,
jus para fallar de luxuosos eerames de panno de arraz. O ponto em
que errou, foi apenas a fórma da palavra. Hauriu-a decerto em fonte
pouco limpa, ou transformou-a sem querer, por mero erro de escri-
pta 5 . Mas, seja como fôr, os futuros editores das suas obras, como
de diccionarios portuguezes, faraó bem em emendar o lapso.
i N.° 474, vol. ii, pag. 161 da ed. de Leipzig : que son três per$ona$ t un
iolo perfeito, el qual nos cubra con su buen çulame.
* Veja-se, p. ex., o Elucidário, e Cortes de Leon e Castella (vol. ii, pag. 28,
97, 118, etc).
* Já tive ensejo de emendar alguns erros que afeiam a ediçlo académica
do» Monumentos [como se vê por sbys = fui, de sederé].
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FRAGMENTOS ETYMOLOOIOOS
XIX. DE8TB1KÇA
Destrinça bem quem observa oa considera attentamente, distin-
guindo e examinando por partes, ou quem analysa ou expõe por
miúdo os pormenores de um assumpto, quer seja questão jurídica,
philosophica, philologica, quer outra qualquer. Destrinça ainda quem
distribuo os encargos de um fôro pelos differentes interessados. Uma
destrinça (substantivo verbal, derivado) é o acto de esmiuçar com
cuidado. Destrinçadamente, equivale a separadamente. Conheço tres
variantes da mesma palavra: a usual, destrinçar, que tem hoje fóros
de litteraria e está em todos os diccionarios ; estrinçar, que recolhi
nos autos de Antonio Prestes (pag. 121 e 144) e destinçar f que já. anno-
tei na Pratica de tres pastores (l. M 138 e 993). Qual d'ellas será a pri-
mitiva? ou qual mais se approxima da primitiva? As diferenças
sfto diminutas, mas ainda assim importantes. Trata-se de saber : 1.°)
se o es, substituído mais tarde por des, é a pronúncia nacional de um
* impuro latino; ou se des e es [que tantas vezes se empregam indis-
tinctamente] são os representantes das syllabas dis e ex; e em caso
que sim, se estas syllabas foram prefixadas a uma palavra, que prin-
cipiava cora s, ou com t; 2.°) se o r de destrinçar, estrinçar, pertenceu
à fórma primitiva, cahindo posteriormente; ou se aconteceu o inverso,
epenthese euphonica ou analógica de r.
Um typo distinctiare ou ex-tinotiark, de TiNCTus nao serve, de
modo algum, quanto ao sentido. Besta, portanto, decidir, se o étymon
é * distinctiare, de distjnctus, ou * strictjare, de sTRicTUs. Em ambos
os casos teríamos exemplos, e bons exemplos, de verbos participiaes,
derivados por meio de i: parallelos, portanto, a coçar = coctiarb;
caçar = captiare; roçar =ruptiare; traçar =^ tractiare ; destroçar =
destrdctiare ; despachar = dispactiare; chuchar = bx-suctiarr ; escar-
ç ar =excarptiare e tantos outros.
Quanto à significação, distinctiare contenta de tal modo que eu
fallei em tempos a favor d'esta (minha) etymologia. O r, porém, ex-
plica-se dificilmente. Ha com effeito,. na lingua portugueza e na cas-
telhana, certa tendência para introduzir um r depois do grupo st,
embora os doctrinarios mais illustres da nossa arte a neguem. Mas
na maioria dos casos vê-se o porquê do r adventício : ora elle é o ecco
de outro r ou l radical da palavra-modêlo [como em lastro e listra] ;
ora houve confusão de suffixos [como em Valistro e Cilistro] ; ora é o
producto da analogia [como em estreita por causa de astro; celestre
por causa de terrestre; lagostra porque rima com ostra; mastro por
causa de lastro, nastro, astro, canastro, etc. 1 ]. Mas para explicar o r
de destrinçar todos estes expedientes falham.
i Atrónito (em Galliza) por influencia de estrondo = ex-tokitbus, que eBtá
por estrondro e vem directamente do latim vulgar trokitbob ; restreva por re$te-
va. Mas oêtrwmt cttrqlidçf trancfa? latrqt tcêtrç? hartra? para não »»Wr cfo
grupo 8T*
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144
REVISTA LUSITANA
Virei-me por isso para * stridiare, cuja firma é ainda preferível,
e que nfto offerece grandes dificuldades quanto ao sentido. De aper-
tar, combater de perto, por strictios interpretam (traduzir e interpre-
tar com exactidão e rigor) nfto ha muitos passos a dar para chegar
ft idéa: discernir , distinguir, destri[n]çar. A resonancia nasal antes do
i podia ser meramente portugueza como p. ex. em cinzel e sinceiro.
E', comtudo, mais provável que fosse latina: strwctus por strictus,
como * pihotus por pictus (pintar, pintor, pincel, pinto, etc.) e finctus
por fictus l , por analogia com cinctus, extinctus, tindus, lindus. — Des-
tinçar (que é fórma pouco usada, desconhecida aos mais), por influen-
cia de distinguir, distinto e instinto, que se referem igualmente à in-
telligencia distinctiva do homem.
Eça é, sem duvida alguma, *ersa, de krokre (Corna, § 148) scil:
tumba ersa. Julgo, todavia, que a palavra (que falta no resto da pe-
nínsula, como em todos os outros países românicos) nfto é originaria
de Portugal, onde apparece sómente do século xv em diante. Viria
de Inglaterra, no tempo da rainha D. Filippa, juntamente com certas
e determinadas modificações no armamento do estrado que era e é
costume levantar no meio das egrejas para o féretro dos defunctos.
E penso assim, porque a orthographia primitiva de eça é hessa = in-
glez hearse Lembre-se o leitor de que também as cerimonias nu-
pciaes de D. João i com a nobre ingleza foram praticadas «segundo
costume de Inglaterra», e que o inglez Frey Aymar, seu confessor, o
qual mais tarde chegou a ser primeiro bispo de Ceuta, era homem
de grande influencia na côrte.
Nfto encontro absolutamente nada que falle a favor da etymolo-
gia esox *. A única fórma que o portuguez archaico empregava, era
*eiróo 4 ; o plural antigo mais usado era eiroos 5 . Eirozes é o resulta-
do, relativamente moderno, de um vulgarissimo erro de declinaçfto
i Fintar (de fikctui, parti cipio de pihoerb) significa em Penafiel (e em ou-
tras terras) trabalhar a massa do pão (= kneten) e Tevedal-a. Fintadeira é a tá-
boa sobre a qual as padeiras amassam.
* Veja-se por ex. Resende, Trasladaçam do corpo de D. João II, pag. 295.
* Cornu em Gr. Gr., § 210.
* Notei ainda troo, mas sem indicação do texto onde o colhi. Evo, nas Ord.
Af., n, 78, talvez seja mero erro de copista por eiró. Os exemplos litterarios nâo
permittem decidir se o termo era fcm. ou masc, como o uso actual e a analogia
com outros substantivos em ôos (= olos) e 6*8 (= oles) parece indicar.
6 N'um Documento eborense (de 1380 approximativamente), i, pag. 133,
leio: enguias e eiroos. Em outro muito posterior (de 1532; Ined., v, 561) temos as
formas mais recentes eiroes e eirÕes (eiroes), de um sing. eirom (cfr. feijão, feijon,
por feijol = ruASioLus) .
XX. EÇA
XXÍ. EIBÓ
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FRAGMENTOS ETIMOLÓGICOS
145
que produzia os duplos plaraes: pó-zes,só-zes, tnó-ze$, por analogia com
os plaraes correctos : nóz-es, vóz-es, e por causa dos diminutivos pózi-
nho, sózinho, mózinha; chá-zes por causa de pâz-es (fazer as pazes); e
pé-zes por causa de réz-es, féz-es; aos quaes seguiram posteriormente
polysyllabos como piózes, enchózes, ichózes, filhózes, ilhózes, belhózes,
paletóze8, queirózes; marézes, cachenézes, crochézes, lava-pézes, demitM-
zes e até irmãzes l . O falso singular biróz de ahi abstrahido, é pouco
usado ' [muito menos que pióz, enchóz e ichóz]. Quanto & etymologia,
as variantes gallegas eiroas e airoas a , indicam como fórma-modêlo
um diminutivo latino, móvel, em iolus e iola, provavelmente àrkolus,
areola, ou hariolus, hariola. Confesso que nâo as descobri, como no-
mes de peixe 4 .
A mesma palavra é, ainda, nome de logar. Conheço duas villas
Eiró: uma em Tras-os-Montes e outra na Beira, chamadas antiga-
mente Eiroo e Eirol. [V. Mon. Leges, 561 e 594; e Portugal antigo e
moderno]. Mal se póae duvidar que ambas fossem eiras pequeninas
[ariola por areola de ãrita 6 ].
XXII. rito
As etymologias propostas sfio bastante variadas. Deixando de
parte como impróprios os étymos gregos eO&ú; e àeí (Saraiva, ix, 38),
assim como itum, de ire (Constâncio), temos actus ou actu, proposto
por Coelho (no Dicc. Manual), e por Baist (Zschr., m, 564, e vn, 116 6 ),
e addidum, defendido por Cornu, § 23 7 . Quer-me parecer que todas
estas etymologias foram forjadas theoricamente, em vista da palavra
isolada, solta e passiva, mas nfto diante de phrases colhidas na língua
viva, e comparadas depois com o maior numero possível de trechos
1 Zurara dizia librézes, de libré, lebrel, fórma dissimiladá de lebrero, lepo-
rarius. Em Hespanha temos picses e traspieses. O gallego UBa leise$, reises, man-
Uses.
a £ f costume fallar d'estas formas como de «pluraes, considerados como sin-
gulares, e aos quaes accrescentaram por isso, mais tarda, nova terminação de plu-
ral» (Gonçalves Vianna). Não me parece perfeitamente exacto. Nunca ninguém
se serviu de pós, mós, como singulares, dizendo um pós ou uma mós, considerando
o plural como singular ; nem nunca se abstrahiu um falso singular vó ou nó de nws
e voz.
8 O ai pôde ser evolutivo de cí, como em rainha, taimoso, etc.
* Ha um peixe lirio e liriolo [trichiurus lepturus], esguio como a enguia, o
eiroo e o congro, mas no restante bem diverso. O nome deve ser erudito.
$ Nomes de logar em ó agudo (antigamente oo e ol, de iolus) são muito fre-
quentes. Sirvam de exemplo : Egrejó, Figueiró, Alijó, Ranhó, Rtqúeijó, Fijó, Ges-
taçó, Ginó, Ilhó, Labrvjó, Ijjjó, Lamó, Leiró, Linhó, Malhó, Minhó. Cfr. Jambo,
Lacaio, Paço e Ribóz, Filhóz.
6 Eito por aito [usado por Gil Vicente, i, 129 e 131, no sentido de auto dra-
mático] = actu, é phoneticamente inatacável. Também a phrase a eito responderia
bem a uno actu. O substantivo eito de pedra não se pôde ligar, comtudo, áquella
significação.
7 Addidum dava phoneticamente adeito; e quanto ao sentido, não me parece
que por ordem (aufBefthl; aufs Wort) seja traducçâo adequada de aeito.
rbv. lusit., vol. in, fase. 2. 4
146
RIVIffTA LUSITANA
extrahidos de textos antigos, pertencestes &s diferentes lingaaa pe-
ninsulares. E' o que me appliquei a fazer n'este caso, como em todos
os outros. Ainda assim só posso apresentar pequenos fragmentos da
historia da palavra.
Como substantivo independente, eito é hoje apenas um termo de
agricultor ou lavrador, Usado em Portugal e Gallisa. O que designa é :
a porção de terra em fórtna de fita ou tira [de ftm metro de largura
pouco mais ou menos] que cada lavrador sacha, sega, ceifa ou monda,
avançando sempre em linha recta, como que fosse seguindo a direcção
de uma pedra lançada [um eito de pedra] e cantando, quando bem lhe
parece:
eito fóra, eito fóra
eito ao cabo do chão!
só depois do eito fóra
descança meu coração K
A locução adverbial a eito, que os gallegos escrevem aeito desde
os tempos de D. Alfonso x (Cant. 175), e que não é particular a
nenhuma classe social, pertencendo, pelo contrario, ao vocabulário de
todos, significa: de vez; a fio; simultaneamente ; sem interrupção nem
escolha. Usa-se em phrases, como : fazer um trabalho ou serviço a eito ;
saltar quatro vezes a eito; levar as coisas a eito; responder a duas
cartas a eito; comer cerejas a rito. Corresponde portanto a uno ictu
mit einem Schlage, mit einem Wurfe. — Eito, de ictu; como estreito, de
striotus; empreita, de implic'ta; bieito e breito, de benedictus; maleita t
de maledicta; fieito e feito, de filictum; espreitar, de bxplic'tàrb; de-
leito, de dblictus (Alf. x, Cant. 116); vendeita, de vindicta (Cant 91);
revendeita, de rbvindicta (lned., v, 408; i\r, 547 2 ).
Em Hespanha nâo ha phrase correspondente a a eito. A lingua
archaica possuía, porém, o substantivo echo. No Poema de Alexandre,
879, lêraos: <ca um echo de dados» 3 ; na Misa, de Berceo, 71: «apar-
tóse don Christo de la su criazon quanto echo de piedra»; e na Con-
quista de Ultramar, pag. 522: aaquel casticllo non era mayor de un
echo de piedra». Este echo, hoje perdido, podia serjactus (couio o fran-
cez giet de pierre, e italiano getto). Mas visto que a jactas corresponde
o portuguez geito, nao eito, o mais prudente será considerar também
a forma castelhana como irma d'esta ultima palavra, e portanto como
* Diz- se ainda (se ha que fiar nas indicações do cardeal Saraiva): não sahir
do eito; seguir o seu eito; não declinar para o eito do vizinho; e dar um eito com o
arado.
3 Em portuguez archaico temos a mais deyto por dietns, e deytado por di-
etado [que existe também em castelhano. V. Rimado de Palacio, 71 i, 712, 846;
Baena, i, 59, 152, 158]. D. Alfonso, o Sabio, canta : «o que será feito \ eu endeito \
o d'aqui que seu seja \ sen peleja | do demo todavia», querendo dizer: «aquelle que
nascer, eu assignalo-o [ou marco-o] desde já para que seja do diabo». Será indi-
ctaret de dictus ?
3 JACTU TE88EBÀRUM.
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FRAGMENTOS ETTVOLOGI0OS
ktuê \ Ou entfto, diga-se que eito representa ambas as palavras, per-
tencendo a um grupo de vocábulos que eu chamaria miúdos, e que for*
mara um contingente importante do cyclo bastíssimo que Gonçalves
Vianna appellidou apropriadamente «fórmas convergentes».
XXIII. EIVIGAR
Derivar o antigo verbo eivigar por eivigar, de àedificárb, já não
tem novidade, depois que Cornu se pronunciou a tal respeito (Gr. Gr.,
§ 185), na occasião de indicar que um f latino (ou ph) produziu algu-
mas vezes um v ou b portuguez. A's fórmas modernizadas apaziguar,
averiguar, santiguar *, e âs antiquadas afruitivigar, testivigar e morte-
vigar 3 ; posso accrescentar apenas crucifigar [Àlf. x, Cant. 12 e 99;
Berceo Mil., 427; Alex., 1:740; Duelo, 48] e certifigar [Mil, 443], as
quaes, como se vê, ficaram estacionarias logo ao principio da sua car-
reira, conservando-se inalteradas até que os latinistas do século xv
as reconduziram ao seu ponto de partida, juntamente com os repre-
sentantes de fructificar, mortificar, pacificar, verificar, santificar, edifi-
car e outros. Meros termos bíblicos que sempre ficaram restringidos
ao domínio dos jurisconsultos e ecclesiasticos; i. é: dos lettrados.
Se ainda assim publico estas linhas, é para fornecer aos estu-
diosos as provas da existência de eivigar que possuo, e para provocar
que se risque dos diccionarios portuguezes o verbo eiveger, erronea-
mente deduzido por S. Rosa de Viterbo da fórraa eivegedes (que o
leitor encontra no 5.° exemplo), e falsissimaraente traduzido com *es-
moutar, agricultar, pôr toda a boa diligencia e cuidado no fabrico e
roteo de um casal».
Eil-as : 1) O barom sages que ei vigou sua casa sobre a pedra (lned.,
S. Boav., in, 252). — 2) juízo eyvygado (= fundamentado), lned. Hist.,v,
425 *. — 3) eyvigamentos das falas (= fundamentos razoáveis), lned.,
S. Boav., m, 262. — 4) E nom damos a vós poder de vender nem doar
nem em outro lugar estranyar; mais chantedes e eyviguedes e façades hi
quanto bem poderdes [Elucidário, i, 301, s. v. eyviguar; doe. de 1$84].
— -5) a tal preito que volo chantedes e eiveg[u]edes e que façades hi
quanto ben podedes fazer \ib., pag. 278; doe. de 1305]. — 6) chantedes
e eyviguedes [ib , pag. 302].
Chantedes e eiviguedes significa evidentemente: *que planteis e
construais edifícios*. A palavra não tem nada com virgem, como S.
Bosa imaginou. A existência de deviginare [=devirginare!] é muito
problemática. Em portuguez não existe; e no único texto em latim
medieval, allegado por Viterbo, e que já passou para a Historia de
Schafer (i, 239 5 ), deviginaverit deve ser erro de copista pelo supposto
i Cfr. dçrecho, helecho, dechado, endechas, etc.
« Santivigar nas Cant. de Maria, 89, 134, 330, e na 9. 1 das Fiestuê.
* Testivigar nos lned , v, 417, e mortevigar, ib., a pag. 425 e 430.
* No texto ba eyvyado, o que nâo significa nada.
5 A pag. 208 da traducção portugueza.
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REVISTA LUSITANA
devirginaverit (?), ou entfto por aedificaverit. E desivigar, que já foi
citado por alguém, como segunda fórma de deviginare, nfto 6 senão
leitura errada, ou antes interpretação falsa, de desjulgar = msjum-
carb, fórma esta que está em perfeita harmonia com juigrar^jum-
carr, como os antigos costumavam dizer.
Em primeiro logar (e mais uma vez com endereço aos dícciona-
ristas nacionaes), algumas passagens que mostram claramente a signi-
ficação do desusado termo em meogoo, recolhido por S. Rosa de Viter-
bo, e fielmente por elle traduzido com: *meio de alguma cousa*, mas
nfto comprovado com documentos.
Temos nas Historias do velho testamento: 1) e no segundo dia fez
deus o firmamento en o meogoo das augas (in mrdio aquarum ; Génesis,
cap. 2); 2) mas do fructo do lenho que he em meogoo do paraíso nos
defendeu deus que non comêssemos (in médio Paradiso; cap. 13); 3) e es-
conderom-se dant a sua face em meogoo dos lenhos do paraíso (cap. 14;
Ined., S. Boav., n, pag. 2, 7 e 8).
Temos mais nos Actos dos Apóstolos fib., vol. i, pag. 30): 4) e
poserom em meogoo Sam Pedro e S. Joham; 6) e poserom-nos em meo-
goo do conselho (pag. 36).
Temos nos Fóros e posturas de Beja (Ined. HisL, v, 504): 6) o
dedo do meto goo.
No segundo testamento da rainha Santa Isabel (de 1327), a res-
pectiva formula apparece umas cinco vezes, nfto entendida, e por isso
deturpada pelo moderno editor (Sousa, Provas, i) ou pelo antigo co-
pista de 1604. E dizem: 7) e mando soterrar o meu corpo em o mos-
tetro de Santa Clara e de Santa Isabel de Coimbra em o meo geo do
Coro (pag. 117); 8) a minha brocha grande do camafeo furada no mejo
goo (pag. 119); 9) item lhe leixo dous texees de pedras, safiras nomeia-
goo (pag. 231); 10) tem ha esmalte dos sinaes de Portugal no meio goou;
e 11) tem hu robi no meio goou (ib).
Em vista d'estes trechos de prosa, em parte estropiados, ainda
era possível ficarmos incertos, âcerca da pronúncia, duvidando se a
accentuaçfto era meogóo ou meógoo, e se o o era aberto ou fechado.
(Quanto ao e da primeira syllaba, as graphias meio, meyo e mejo indi-
cavam, juntamente com o étymon médio, a pronúncia e aberto). Con-
sultei por isso os versos dos trovadores antigos. Infelizmente, debalde.
Apenas nas Cantigas, a todos os respeitos tâo instructivas, do mo-
narcha Castelhano, é que encontrei a formula procurada, em graphia
e pronúncia contrabida 1 : n'este tneogo, significando n'este meio tempo,
como adverbio temporal na Cantiga 65; no meogo, como adverbio lo-
i Parece-me significativo que todos os onze exemplos prosaico* conserva-
ram o archaismo meogoo ou meiogoo, meiagoo, o qual, quasi um século antes, já
tinha sido abandonado pelo poeta régio.
XXIV. EM MEOGOO. — XXV. ÂMAGO. — XXVI. PA80IGO
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149
cal, fóra da rima na poesia 115; e uma única vez, na Cantiga 161,
em rima com lógo e rógo. E' o bastante para pronunciarmos afoita-
mente em meógo; e como proparoxytono em tneógoo.
Mas que fórma ou que derivado de meio representa meogoof Com-
parando a sua estructura com bagoo = baculum, oragoo = oraculdm,
mwsjroo = musculum, perigo = pebiculum, artigo = articdlum, podíamos
inferir um typo meiogolo, como base de meogoo. E meiogolo? Impossí-
vel considerá-lo como um diminutivo * medioculum, porque ninguém
acreditaria que formação tâo extravagante existisse. O francez milieu,
prov. mieg luoc, ital. miluogo, rum. mijloc, indica, e Cornu já achou,
a verdadeira etymologia in médio loco (§§ 130 e 244). Nâo concordo,
com tudo, com o modo d'elle encarar as evoluções, por que ra medio-
loco passou, antes de produzir meogo. Segundo elle, temos:
a) me[i]o-lógo, com queda do d[i] e abrandamento do c para g
[como em me[i]o e logo];
b) meo-ógo, com queda do l intervocalico ;
c) meógoo, com raetathese do o protonico para postonico;
d) meogo f com contracção d'estes mesmos o-s átonos.
E eu proponho :
a) meiólogo, reunindo as duas palavras em um só vocábulo, pro-
nunciado com uma só emissão de voz e accento principal no o do
ablativo latino mediõ;
b) meiógolo, com a mesma metathese que temos no archaico diá-
golo e no popular catágolo *;
c) meógoo, com queda do l intervocalico ;
d) meógo, com contracção dos dois oos átonos. Tudo isso antes
do século xiii. ♦
A evoluçfto terceira de Cornu, metathese de uma vogal proto-
nica, collocada de mais a mais immediatamente diante de outra, idên-
tica e tónica, para a penúltima syllaba, de modo que transformasse com-
pletamente o som da phrase, substituindo dois trocheos (-o-^u) por um
paeon secundus (o-*-ou) ou por um iónicos a majore ( — -ou) parece-me
inaudita, mesmo em portuguez. As mais fortes metatheses portugue-
zas dé vogaes que conheço, fragua, légua, trégua (e talvez mingua);
cudiar por cuidar (cogitare; asturiano), pieitar por peitiar (pectinare;
gallego), iugal por igual; pardieiro, de paredeiro =parietarids; amiei-
ro, de aemeiro; e dioso por idoso (= * àetatosus) são, ainda assim,
bem diversos *. Antes de acceitar *meógoo, de meoógo», eu propo-
1 De theólogo, astrólogo, prólogo formaram teólego (Uólago), estrólego (estró*
lago) e prólego.
s Todos os casos, em que apparetitemente houve metatheses muito vio-
lentas de vogaes, uâo resistem a uma indagação rigorosa. Diz- se, p. ex. : que Al*
fonso x empregou o verbo perigoar [periculahk], o que é um facto (V. Cant. 35) *, e
que esta mesma palavra se transformou em periogar (Cant 166», o que é falso No
verso *et mui matlhe periogaron», temos o verbo pcr*jogar — pregar uma peça Qem.
mitspielen; einen iíblen Streinh spielen), i. é: jogar, reforçado, como em centenas de
outros casos, pelo adverbio ou prefixo separável rua. — Em ivga, de jcqca (mirau-
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&BV1STA LÚSITÀtfA
ria: mmholoculo = meoógoo, que (sem deslocação do accento) expli-
caria tanto o 6 aberto e accentuado, como a sua substituição por á em
meyagoo, e talvez nos désse ainda por cima a razão das cacographias
tnejo goou, meio goou.
Da fórma tneiagoo, apontada no Elucidário e apresentada em um
dos meus exemplos, Cornu deriva o obscuro âmago, que, segundo elle,
passou por maágoo. Etymologia deveras tentadora, mas que ainda
assim nâo convence. A troca de accentos ficava inexplicável. Se, pelo
menos, encontrássemos a fórma intermédia amágoo ou emágoo (de meá-
goo)l ou uma oraç&o, era que meagoo fosse substituível por âmago. . .
Acceitando-se a minha premissa, que estabelece a metathese pri-
mordial de logo, que, tornado enclítico, deu golo (e goo só depois da
queda secundaria de 1), estou prompta a subscrever também à etymo-
logia pacigoo l , de * pasc[u]iloco (Cornu, § 130), que fica em pé ou càe
com tneogoo. De outro modo nâo coraprehendo esta derivação. — Jazi-
goo e tapigoo (em que é quasi impossivel procurar locus), assim como
bestigo, bodigo e outros, seriam posteriormente moldados sobre pacigoo,
que ficaria sendo como que um typo modêlo. [Cfr. Slkcellanea, 13, 34
A palavra enduenças ou endoenças (como é costume escrever, com
falsa orthographia etymologica), explicada por Coelho no Dicc. Manual
por en, prefixo, e doença (= dolkntia), emprega-se exclusivamente para
denominar a quinta-feira da semana santa (Griindonnerstag) e a sexta-
feira da Paixão (Charfreitag), ou toda a semana santa. Mas que eu
saiba, estes dias d'induenças n£o têm nada cora doenças; mas muito,
ou antes tudo, com as indulgências que a santa madre Egreja con-
cede aos peccadores que forem pontualmente â desobriga da quaresma
e visitarem sete egrejas, em memoria das sete estações da Paixão,
rezando e esmolando. Se estes dias sfto chamados até oficialmente:
dibs absolutionis, Dias iNDULGENTUE : Antlasstage l
A etymologia que proponho é, portanto, certa, apezar de as trans-
formações phoneticas não sahirem muito claras, o que nào admira em
palavras semi-eruditas, ecclesiasticas. A queda de lg, Ih e ly é fóra
do commum, e talvez única. De palavras com tUg lembra-me apenas
huloerb, que deu mugir (por muigir), e mungir por influencia do m ini-
cial (como em mui/n e muinto). Parece todavia que, no caso de inoul-
gentias, a lettra que desappareceu primeiro, foi o o. O castelhano di-
zia no século xv : endulencias, como se prova por uma poesia de Juan
Alvares Gato (Cane. ms., fl. 18 v.), apropriada ao viernes d'endulençia$ f
dez); em eêlauta, tauba, perpeuta, miga (andaluz); em perpeutado (asturiano)
eryuagur (bogotano), a metathese translocou vogaes em sentido inverso.
1 Ined , Boav., u, 19; ui, 12 e 3tf.
e 48].
XXVII. ENDOENÇAS
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151
que principia: «Pues hoy predican, doncella». Confira -se tatnbem na
Crónica de D. Alonso XI, o capitnlo 328, relativo ao anno cte 1360,
onde se conta que aquelle Rei «finó viernes de la semana sanda que
dicen d y indulenciasy>.
XXVIII. ENGAB
Na verdade, não faltam tentativas etymologicas, consagradas ao
verbo engar. Muito pelo contrario! Em nada menos de sete ou oito
artigos vieram indicados como étymos presumptivos quatro palavras
bem diversas: o adjectivo allemào eng (apertado, estreito); bngos (m.
pl.): o nome popular da caprifolacea sambucus ebulús; o verbo latino
inhiare; e enecare ou enicark! 1 Mas nenhuma satisfaz. Nenhuma
é logicamente deduzida. Nenhuma é architectada sobre bases soli-
das, atteudendo-se por igual ao corpo e á alma, ás lettras e ao sen-
tido. Todos os etymologistas' deixam de lado a real e primitiva signifi-
cação da palavra, egcolhendo a bel prazer e com a máxima semceri-
monia, por entre as variadas accepções derivadas que engar pôde ter
(se acceitarmos as indígenas e inexactas definições dos diccionarios),
aquella que melhor lhes quadra para o seu fim, e inventando até ou-
tras (como o apertar com alguém, de Moraes).
i Em 1713 o benemérito Bluteau escrevia : Engar com alg. (termo do vulgo)
= pegar com alg. Vem de engos, erva que facilmente pega (!) em qualquer parte
que se plante. — -Engou commigo (quando he para bem) = wim stddkt; e (quando
he para mal) = me insectatuh, me escogitat. — Engar (termo de caçador). Quando
as rezes continnào a pastar em huma seara, usâo os caçadores do verbo engar, v.
g.: engou os grãos; engou os chicharos; engou as favas = fabarom fabtui se dedit
(vol. iii, pag. 115). — No vol. ív, s. v. lugar, accrescenta ainda: «Os que o deri-
vâo de cngos dizem engar. Diz-ee do animal a que se deu de comer [e] vem outra
vez ; ou do homem que continua no em que tem achado conveniência».
Moraes (1789) explica : «Engar v. n. (do allemâo eng) ; apertar com alg. (I),
pegar com elle; trazei o entre dentes. — Affeiçoar-se com intimidade e apego (!) —
Entre os caçadores : costumar -se a algvm pasto a caça, v. g.: engou as favas, os
grãos, os chicharos». A ultima ed. (de 1877) repete as indicações de Bluteau ; op-
põe á etymologia eng um signal de interrogação; allega uma citação de Oil Vicen-
te, da qual logo trataremos ; e separa o verbo transitivo do intransitivo.
O Cardeal Saraiva vota pelo ótymon enq-anqustus (Obras completas, vol. ix,
pag. 130).
Constâncio — citado tanto a miúdo pelos romanistas antigos — dizia em
1836, offerecendo outra etymologia : «Engar, v. abs. ou n. (Lat. eneco -are ^= ator-
mentar, vexar): apertar, pegar com alg.; trazei- o entre dentes; ter*lhe má vontade**
Diez (11) repetiu em 1853 a inexacta definição de Moraes, traduzindo o aper-
tar d'elle com heftig drãngen, feindlich zusetzen, equiparando-o ao francês enger, e
reduzindo ambos ao enecake de Constâncio.
Cornu acceitou esta derivação (Gr. Gr., § 123).
Caldas Aulete nâo gostou, e oilereceu nova etymologia, dizendo *Engar % v.
fr. (venat.), babituar-se a caça a alg. pasto : Os coelhos engaram as vinlias, v. intr.,
a mesma accepçâo. — For ext : habituaras* alg. a ir comer a casa de outrem,— Âf»
feifoar**e com intimidade e apego a alg. ou alg. c. •» F. lat ikbiaee».
Coelho, por se nâo contentar com estes ensaios muito vagos, deixou o artigo
respectivo do seu Diocionario Manual eem étymon.
163
ÈSVI8TA LUSITANA
1. ° Engar ou ingar alguma cousa; ou ainda engar-se a alguma
cousa significa: avezar-se ao que i ruim; acostumar-se a proceder mal;
afazer-se a praticar o que é prohibido; e só mais tarde passou a refe-
rir-se indiferentemente a qualquer costume ou habito, quer mau, quer
bom ; tal qual o próprio avezar, que, apezar de derivado de vitium l ,
pôde relacionar-se hoje com as mais santas virtudes. — A prova, eil-a
n'um vetusto provérbio, que Delicado e Bento Pereira registaram :
«Engou a velha 08 bredos: souberam-lhe bem, lambeu os dedos».
«Engou-se a velha aos bredos e lambe-se os dedos», usado hoje com
mais frequência em Portugal na fórma: «Avezou-sc a velha aos bredos*,
etc., ou «Avezou a velha os bredos», ou ainda, com substituição dos
mal conhecidos bredos, que ninguém põe na mesa : «Avezou-se a velha
ao mel, comcr-se quer». Em Galliza, diz-se: «Bezou a velha os bddros,
e lambe s'os dedos»; e em Castella, desde os tempos do Marques de
Santillana: €Arregostóse la vieja a los bledos, ni dexa [var. ni dexô]
verdes ni secos», ou mGustó-se la vieja los bledos y lamió-se los dedos *».
Canis corio assuetus!, porque amaranthds blitum ou blitum capita-
tum (ali. Fuchs-schwanz) passa, desde Plinio, por ser a mais insípida
entre todas as hervas. O provérbio quer, portanto, dar expressão à
ideia: por ruim e malgostosa que seja uma coisa, basta que a gente
se lhe acostume para que seja cobiçada e não a dispensemos mais;
ou também: basta que seja uma fructa prohibida, para que haja quem
a ache deliciosa.
A caça que, sahindo dos bosques, enga o grão das searas que lhe
são defezas; o coelho que enga as vinhas, as favas ou o trigo dos
campos, que ninguém lhe faculta; o gato que enga o leite, como a
velha que enga os bredos ou o mel : todos vão d enga, ao repasto acos-
tumado, ao gosto prohibido, à costumeira, ao vicio inveterado a que
se afeiçoaram ; e não o deixam, embora lhes custe a vida.
2. * Engar alguém é irritá-lo; despertar em elle o sentúnento do odio
e da aversão. Engar com alguém significa: estar irritado contra alguém;
embirrar com elle, ter-lhe raiva e querer-lhe mal. O povo emprega es-
tes modismos ainda hoje.
Gil Vicente serviu-se de engar como verbo neutro na extrava-
^ i A palavra e a sua origem sâo conhecidas de ha muito. As formulas pro-
verbiaes em aue o povo a empregava estão, comtudo, por recolher, como, p. ex. :
Pôr vezo e tolhê-lo. — Mente Pedro porque o tem de vezo. — O lobo muda o pêllo,
mas não o avezo. — Besso pon, que besso quites (gal.) ; ser useiro e vezeiro; horas
vezeras (Berceo, MiU., 173); mau vezo (G. Vic, in, 168).
^ * Die Alie hat Fuchssehwãnze gekostet, genascht, probiert, oder schon toiederho»
lenãich gegessen; nun leckt sie sich die Finger danach, denn est gelustet sie nach
mehr; oder nun lãsst sie weder ití>erreife noch unreife, weder gritne noch dUrre un-
gegessen. Das will sagen: Wer der ersten Versuchung nicht widerstanden hat, wi-
dersteht der zweiten und dritten gewisslich nicht. Wer im Bòsen erstarkt ist, den bringt
man nimmer zu reoht. Os florilégios do século passado citam : coton gustavit e Mens
ubi damnosa devida libidine flitskt fintm percati neseit habere sui. Quem quizer, pro-
cure em Haller, n 0 29ft, as citações clássicas de Theocrito e Horácio, os Çommen*
tortos de Erasmo e os parallelos estrangeiros.
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FRAGMENTOS ETYM0L06IC0S
153
gante Comedia Bubena; mas nfto é fácil decidir qual o sentido exacto
que elle lhe ligava, se o de avezar-se, ou o de irritarse. Uma feiti-
ceira reclama os serviços de quatro diabos, está claro que com intui-
tos até certo ponto malfazejos. Um (Telles acode immediatamente,
ainda que d'arrancada e maldizendo a velha. Os outros tres são re-
tardatários. Procurando o rasto do companheiro é que param no meio
do caminho, afim de deliberarem sobre o seu procedimento conducta
para com a dona feiticeira. E um d'ellès diz:
Tomemos mui de vagar — conselho muito cuidado;
Que se esta ladra enoar — nunca nos ha de deixar
dormir somno assossegado. [vol. n, pag. 18].
Tanto pôde ser: ase a velha se acostumar a reclatnar continuamente
os nossos serviços, então, adeus somno e socego», como ase a velha se
zangar, começando a embirrar comnosco, e acostumando-se a achar-nos
em falta, ou tomando o feitio de nos ralhar», ou, para empregar o ter-
mo correspondente castelhano, ase ella nos tomar inquina, então esta-
mos bem arranjados! 1 ».
Para concluir: em ambas as accepções do verbo engar, assim como
nos substantivos enquina, inquina e inquinação (— odio e aversão), a
ideia principal, o punctum saliens, é o mal que se pratica ou sente, a
iniquidade do modo de proceder. O étymon é, por isso, se nfto me en-
gano, o latim iniquus, ou antes o verbo iniquare = irritar, fazer mal,
excitar má vontade. — Engar por eengar, iingar: como vinda, finda,
trindade, cinza, painço, mdinça, etc, de venita, finita, tbinitate, ci-
nitia, panicids, manjcia. Go, ga por QDUS-QUA, como em antigo, de anti-
qxjus. Enquina, inquina, sem abrandamento da ténue, como em pro-
vinco, de propinquus 2 ; talvez porque ambos são termos introduzidos
relativamente tarde.
*
Devemos, comtudo, tomar em consideração ainda mais uma pala-
vra antiga, inteiramente desconhecida, de feitio muito semelhante.
O Cancioneiro da Vaticana utiliza um trisyllabico verbo enguear
(de alguma coisa), ou, com mais exacçao, um poeta do Cancioneiro em-
prega uma vez a 2.» pessoa do plural do conj. pres. de um verbo da
1.* conjugação anom engueedes ê»u>, cujo infinitivo e complemento mal
pôde ser diverso do que indiquei. Trata-se de um tCantar de amigo*.
A amante está, ou estivera irritada (=engada) por o seu amigo ter
partido sem a sua ordem, ou antes, contra a vontade d'ella «sem seu
* O glossário da edição de Hamburgo traduz engar com embirrar e ateimar,
menos mal, como se vê.
* Omittindo mais ampla demonstração, porque os respectivos phenomenos
sâo muito conhecidos, direi apenas que o gallego, muito mais independente e avan-
çado do que o português, supprime o u ante«vogalico mesmo em palavras erudi-
tas, como eêigç — x*iqvvb, êuperflo f suntoso, fastoêo»
154
REVISTA LUSITANA
grad!e talan». Com tudo, está disposta a ser «perdoador», visto que o
culpado já se mostrára arrependido, vertendo lagrimas e implorando
«mercê». Porisso, diz ella, perdoar4e-hei 7 por esta vez, mas não me tor-
nes a recahir no mesmo erro, irritando-me de nova mente. Tres vezes
é que ella repete, a modo de refran, o seu sermftozinho:
e quant' é esto. . . pass f agora 'ssi!
mais . . . (ameaçando com o dedo índice, e sorrindo) outra vez
Mas não has de provar outra vez do fructo prohibido ? Não te ave-
zes a proceder tão mal? ou não me faças zangar a este respeito? Quem
se atreve a decidil-o? O que é certo, é apenas que a linha é metri-
camente correcta, e dá sentido; de sorte que nâo ha motivo nem li-
cença para a modificarmos. Temos de rejeitar, sem hesitar, a remo-
delação de Theophilo Braga: ccmays outra vez nom roguedes ên», que
falsifica o pensamento, e estraga a medida.
Mas, em que relação está enguear cora engar? Poderá ser que
enguear esteja pelo supposto eengar, xingar? Èis-nos mais uma vez
deante da questão, se metatheses tão violentas de vogaes se deram
efectivamente no portuguez archaico? Pieitar por peitiar, que já ci-
tei, é um exemplo diametralmente opposto; e miungar também, se é
que elle está por minguar. De resto, nada nos obriga a construir a
hypothese de que o e átono, em logar de soffrer contracção, como em
casos não contados, saltasse para o fim da palavra, modificando o sen
caracter prosodico. Ha outra explicação. Se engar representa iniquare,
enguear pôde representar a variante iniquiarb (cfr. n.° xxvi). Falta,
comtudo, encontrar exemplos em que o y, depois de guttural (qu) }
fosse tratado de modo idêntico.
Inquinare, que alguém podia suggerir — apontando casos em que
aquelle verbo significa figuradamente inficionar, contaminar, viciar, e
que com effeito está phoneticamente, em condições de contentar, tanto
com relação a enguear como a enquina — não explica a accepçáo ve-
natoria de engar, nem a sua fórma. Teríamos, portanto, de admittir
dois étymos diversos.
nom engueedes em!
XXIX. BNGtJEDAT
Castelhano archaico:
Loor., 118
lb., 134
Dom., 76
Saliemos de prision — engUEdat recobramos
Levó muchos cativos — por darlis enooedat
Oraba por los enfermos — que diese sanidat,
a los encajHivados — que diese knguedat.
* N. f 433, linhas 6, 12 e 18.
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155
Os presos e captivos consideram a Uberdade, que lhes é negada,
como a quinta-essencia da justiça natural; isto é: da equidade. Para
o poeta, que quer reduzir a palavras aquillo que elles sentem, equi-
dade e liberdade são portanto synoymos. Quem duvidar ainda de que
esta etymologia seja verdadeira, abra o Poema de Apolonio e leia
a linha 373:
prometióle su verdat
que le daria grau preçio e toda eguedat,
(attendendo a que ainda aqui se trata de um prisioneiro criminoso, ao
qual promettem, em premio de um assassinato a praticar, sommas de
dinheiro e a liberdade), ou, no Poema de S. Domingo, a linha 773:
Euega por los enfermos — ganalis sanidat
piensa de los cativos — ganalis yeguedat.
Eguedat, yeguedat, enguedat = aequitate ; en por e, com resonan-
cia nasal na primeira syllaba átona, por influencia do prefixo en—in,
como era ingal, ingreja, Inropa, Inlias, indeficio, inzecução, interno, in-
ducar, inverno, imbriagado, e nas fórmas plebeias invaporar, inlegante,
incelencia, inquivoco, inzecutar, inzemplo, inzato, inzame, inzercito, in-
cultar (—occultar).
XXX. ENGUIÇO
O malvado que por inveja, odio ou ciúmes deseja que uma criança
não medre mais, exclama, passando a perna levantada por cima d'ella
(isto é: pondo-lhe o pé, e escravizando-a symbolicamente) ou deitan-
do-lhe o seu mau olhado :
*Eu te ENGUIÇO
(pela porta do Caniço)
que não cresças mais do que issoh
A victima do enguiçador, o ente enguiçado, fica d'ahi por diante
um pobre enfezadinho, tornando a ser desenguiçado só quando o pró-
prio malfeitor desfizer o encanto pelo movimento inverso. Mas como
este ultimo acto da tragicomedia não se executa nunca, ou quasi nun-
ca, falta a formula correspondente de desenguiço.
Enguiçar significa portanto danificar por meio do mau olhado ou
â força de outras bruxarias perpetradas sob invocação do senhor-de-
monio Pedro-das-malas-artes. Temos ahi, segundo a minha opinião, o
latim * iniquitiabe por iniqoitarb, cuja existência Hermann Rônsch
provou em Ítala und Vulgata, pag. 165. Gfr. humilitare (^humildar) e
feliátare; o castelhano igualdar = aequalitaee ; o gallego amandarss
MANITAEE j achaudar a PLAN1TARE ; 6 Sandat sa SANITA&K.
156
REVISTA LUSITANA
XXXI. ESG APARATE
O diccionario da Academia descreve o escaparate dos hespanhoes
como: a) uma espécie de alacena 6 armário con puertas de viários 6
cristales y con ordenes para poner imágenes, barros finos, etc; b) hu-
eco que hay en la fachada de algumas tiendas, resguardado con cris-
tales en la parte exterior y que serve para colocar en él de los géneros
que alli se venden, á fin de que llamen la atencion dei publico. Madame
d'Aulnoy gaba no livro das suas viagens (n, 134) os escaparates em
que os grandes de Castella costumavam expôr os seus thesouros de
alfaias e baixellas, chamando-os mune espèce de petit cabinet formé d! une
grande glace et rempli de choses rares». Os vocabulários portuguezes
definem o escaparate pelos termos: pequeno armário, cantoneira, guar-
da4ouça, e campânula de vidro. [Schaufenster. — Ausstelloder Aushãn-
ge-kasten; Eeliquienschrein ; Glas-sturz], E' germânico: mittelhochdeutsch:
schafreite = armário de cozinha, que ainda se usa na Suissa (e Vor-
arlberg); holl. schaprade, schapraai; niederdeutsch : schapp (= Regai,
Schrank). Nos velhos glossários ha : scafreita, scafraida, scafraita, scaf-
reiti (Schmeller, Bayr. Worlerbuch, n, 383). O ital. scarabatto por sca-
barattolo é a mesma palavra. A addicionar a Diez, I a, scaffale.
O escaparate gallego = peixe escorpião (cottds escorpbus) está
por escarpWate, escorparate, de scorp-. Na phrase familiar portugueza
vasar escaparates (vir com subterfúgios), escaparate é um derivado trua-
nesco de escapar (moldado sobre dislate, disparate), mas talvez sob a
influencia do escaparate, em que nfto é raro guardar jóias falsas e
bugigangas sem valor.
XXXII. escarmentar
Nem do italiano scarnamento, como Diez assentou (u-6); nem
tfto pouco de excarpimentdm, derivado de exckrpere, como Baist quer
fazer acreditar (Zschr., v, 246); e muito menos de excrementum, como
Cornu se aventurou a dizer (Gr. Gr., § 247). Estes eruditos inves-
tigadores atêm-se todos meramente à lettra, desprezando por completo
o «espirito» da palavra. Ainda n'este caso as significações attribuidas
a escarmentar, e escarmento ou escarmiento, tanto pelos etymologistas,
para apoiarem as suas derivações, como pelos diccionarios, nfto se
cingem rigorosamente & realidade. Em primeiro logar escarmentar é
raríssimas vezes um verbo transitivo, se o é. Nem uma só vez li, ou
ouvi dizer, phrases como escarmentei o meu filho. As definições e tra-
ducções : reprehender rigorosamente ou castigar [hart zurechttveisen, vor
Gefahr warnen, Diez] sfto por isso incongruentes. O infinitivo também
é pouco usado; só as phrases antiq. intransitivas escarmentar em ca-
beça alheia ou por exemplo alheio, e o reflexivo escarmentar-se sfto em-
pregadas ás vezes. O que se ouve a cada passo, e o que lâmos nos
documentos litterarios, desde os tempos mais antigos até boje, é o
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FRAGMBNTOS RTTKOL061C08
157
partidpio perfeito escarmentado e o substantivo escarmento (cast. escar-
miento l ). Estou escarmentada; fiquei escarmentada, não caio em outra
como essa; ou deixe estar , não torno; essa serve-me de escarmento, e
outra* pbrases parecidas, eis o que o povo diz. O verdadeiro sentido de
escarmentado é advertido para não cahir ríum erro já praticado, em
razão do damno soffrido, ou mal que se viusoffrer a outrem. E escar-
mento é propriamente o desengano acompanhado de emenda d custa de
trabalho Du castigo próprio ou alheio, e só por extensão este castigo *.
Para provar isso, podia apresentar ama colheita de quasi cem exem-
plos. Prefiro, comtudo, remetter simplesmente o leitor a algumas pas-
sagens mais antigas, qne se acham no Poema de Alex., 439, 619, 646;
Milagros, 477; Cane. da Vat, 1:080, 37; e Ined. Hist., i, 113, 130, 213,
256, 268, 272, 443 e 602, restringindo-me a citar aqui textualmente
apenas uns quatro provérbios peninsulares :
1) Dos escarmentados se fazem os arteiros. Vat., 1:155, 5: ca dos
escarmentados se fazem mais arteiros. Cane. Res., i, 319: Dizem que os
escarmentados que se fazem dos arteiros (sicl). Em castelhano: De los
escartnentados se hacen los avisados [Eufrosina, 461. — De los escar-
mentados nacen los arteros, 6 El escarmentado busca [var. : conoce bien]
el vado. Catalão d'Alghero : Deis ascramantats nasan lus avistats [Mis-
cell, pag. 329].
2) Vel/ia escarmentada arregaçada [var. : regaçada] vai pela agua
[Eufrosina, 210 e 45].
3) Quem se não escarmenta de uma vez, não se escarmenta de tres.
4) Ditoso é quem escarmenta em cabeça alheia.
Todos elles dão expressão popular à sentença clássica: expkrien-
tia rerum magistra: Durch Schaden J wird man klug. E note-se bem
que, de todos estes provérbios, existem variantes litterarias, em que
escarmentado é substituído por espermentado — exprimentodo, de expe-
rimentdm (esperimento, Crispal, estr. 40). Na Vlyssipo lêmos, p. ex. : Dos
exprimentados se fazem os arteiros; e na Eufrosina (a pag. 45): Velha
exprimentada arregaçada vai pela agua. E o povo diz hoje indistin-
ctamente: fiquei espermentado 8 , esparmentado ou escarmentado 4 .
Á completa identidade da significação, e a grande semelhança
das fórmas obrigam de modo tão imperioso a estabelecer a etymolo-
gia escarmento, por esper'mento (de onde escarmentado, e mais tarde
escarmentar) que não duvido um instante de que ella se offerecesse
i N'este ponto sou da opinião de Baist: o verbo é posterior ao substantivo,
e deve considerar-se como derivado de escarmento, ou do adjectivo escarmentado.
* A traducçâo allemà de escarmentado deve ser : durch Erfahrung gewitzigt
und darum vorsichtig ; a do verbo in transi ti vo : durch Erfahrvvg king werden;
Lehrgeld zahlen; a do transitivo (se elle existe): einen Denkzettel geben ; jemand
durch St rafe witzigtn; fur die Zukunft ahschrecken; a de escarmento: warnendes
Beispiel; Erfahrung die man auf eigene oder auf Andermanns Kosten macht.
8 Esta é hoje a forma mais usual.
* Um modismo muito vulgar diz também: quem te ensinou? a bspbiehcia,
ou ; ▲ Kspaiii bmta !
168
REVISTA LUSITÁHÀ
também a Diez, Baist e Cornu, mas qae estes, austero* e circumspe-
ctos, a pozeasem da lado, por nfto encontrarem meio de provar e ex-
plicar a substituição de p por k.
Evidentemente, nfto se trata de ama evoluçfto physiologica do
som p. A troca, espontânea, das duas explosivas surdas na Catalunha,
em Castella e em Portugal, deve ter outra causa eficiente, de euphonia
ou de analogia. N&o a conheço por ora. Sei apenas que ha na penín-
sula muitas palavras polysyllabas que principiam com $car ou «era,
seguido de consoante, e nenhuma popular no mesmo caso que comece
com apre ou spri, exactamente coroo em latim temos apenas sprbtus
(que não passou para o vocabulário românico); quer-me parecer que,
mesmo no moderno esprimentar, ha uma certa surdez e grosseria de
pronúncia que nfto está em boa harmonia com o systema sonico das
línguas hispânicas, sendo talvez por isso que exprimentatum se tor-
nasse ascramántat e escramentado, approximando-se, por analogia, no
primeiro período da evolução da língua, do grupo com scra, scar, em
que figuravam escarmar, escarmenar.
Espiou-se a roca, acabou-se o linho, é, como se sabe, uma das
phrases da Xacara do Cego Andante, vulgarissima na bocca do povo
portuguez e do gallego. Espiar a roca, quer dizer: gastar o copo ou
o armeo, fiando. Apezar de roca ser de origem germânica, o espiar
nfto está em relação alguma com o inglez to spin (Coelho, Manual)
nem com o allemfto spinnen (Caldas Aulete). Nfto conheço a fórma ar-
chaica. Julgo, porém, que ella foi espear de espear, a concluir do extre-
menho spenar e depenar, recolhidos por Leite de Vasconcellos (Dial.
eztr., pag. 36) e do gallego espenar, assim como dos substantivos es-
piallo ou espenacho (vellon o copo quando es poco) e penecho, que desi-
gnam os últimos restos do copo. O étymon penna parece indicado (=pPa
nos textos archaicos). Panus e paniclus servem, todavia, melhor, por-
que já designavam em latira positivamente a mesma coisa. — Espiar
é, portanto, espear, de espvar *ex-panark; e penecho = panniclum.
Quanto a espenacho, espiallo, provêm de ex'pan[n]aclmn, influenciado
talvez por penna e pennacho.
Uma pessoa dorme estatelada de costas; ou cahe estatelada no
chão; isto é: ficando estendida e immovel. Evidentemente, por estatu-
lado, de estátua, com apparente epenthese de l, que equivale a troca
de sufixos. Compare-se as seguintes maneiras de dizer: quarta feira
de trévulas por trevas (tenebras); trégolas por tréguas; ameijolas por
amêijoas (gal.); bitterdbulas = betterabas; récola por recua (requiem);
gazúla por gazúa: o vulgar latino noctdla por noctua, o italiano
páscolo (de pascuum), o neapol. continolo e até státola.
XXXIII. espiar
XXXIV. ESTATELADO
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XXXV» EftTANTJOUA
A etymologia hueste-antiga, proposta por Munthe (Zschr., xv, pag.
828), contra Baist (Zschr., v, 243), que explicára em tempos estantu
gua por stantifioa, n&o deixa margem para nota alguma de opposi-
çfto. Pelo contrario, ha meios de conflrmal-a, por um exemplo archai-
co (Fernan Gonzalez, estr. 333 *), pela fórma gallega estantiga (com
queda do u hiatico, que é regra n'aquelle dialecto, e pelo synonymo
também gallego compafia, que designa, como estantigua, a procissfto de
mortos que costuma bater & porta de quem está a morrer.
Ha, comtudo, algumas outras palavras occidentaes, pouco conhe-
cidas, que me parecem derivadas de estar. Do participio perfeito vem
o nome de espectro: estadia e estadáinha, que serve em Galliza para
denominar o esqueleto, ou seja a figura da morte; o verbo estadear-se
significa apparecer repentinamente diante de alguém á maneira de espe-
ctro, assustando-o; o vulgarissimo portuguez estarola é um estafermo, es-
pantalho, formado do infinitivo estar, corao gabaróla, de gabar, e o ple-
beio petarola, de petar, peitar (peidar); depois temos estante = movei
de prateleiras (Stehruck, Regai); o termo náutico estanteirola, que desi-
gna uma columna de madeira; o gallego estada — andaime (Geriist);
e estadofio, estadueflo, estadorio (astur.), estadulho (port.)=pau plan-
tado verticalmente a modo de pilar, no leito do carro de bois.
XXXVI. ESTRA
Estra, nas Cantigas de Alfonso x (151 e 261), designa njanella, e
deve ser simples variante da fórma feestra, que occorre até na mesma
poesia (151). E' interessante vêr como a linguagem do Rei Sabio, que
é puro e bellissimo portuguez, tem certos galleguismos peculiares, dei-
xando transparecer aqui e alli alguns castelhanismos, e produz ás
vezes formas hybridas como este estra, em que ao lado da queda por-
tugueza do n temos o abrandamento castelhano do f. O desappareci-
mento total do f parece, todavia, anachronico. — O gallego fiedra e
alfiestra (ojo de la aguja ó la abertura por donde se enhebra) ostenta
também ao par de phenomenos portuguezes, como a queda do n, ou-
tros castelhanos como te por #.
XXXVH. FARO. — XXXVIII. FARONEJAR. — XXXIX. FARUM
0 muito engenhoso ensaio em que Cornu deriva faro, de flagrare
(Rotn., xi, 88 e 89; cfr. Gr. Gr., § 146 e 247), não se impõe, como
tantas outras etymologias do insigne professor, pelo inatacável da de-
1 Os vassalas do Conde, descontentes com o pouco descanço que o rude
guerreiro lhes dava, diziam : «Nunca folgura tonemos, $ynon quando almas saqua-
mos* Aios dela neste antygua, aquellos semeiamos».
160
BKVI8TA LUSITANA
monstraçfto phonetica, seduzindo esta vez apenas pela apparente lisura
da explicação semlatologica. Em vista do francez ftair, e do desenvol-
vimento que sentir teve n'aquella lingua, chegando a valer sentir, fare-
jar e cheirar, torna-se bastante arriscado respingar. E se o derivado
cheiro nfto existisse, ou se faro tivesse exactamente as mesmas acce-
pções, talvez eu me deixasse persuadir de que faro provinha de fla-
8BARB, apezar do extraordinário e injustificado tratamento de fr e de
gr. Mas que o povo tirasse simultaneamente, durante a primeira epo-
cha da vida da língua, do mesmo thema flagr. . . (por fragr. . .) duas
fórmas igualmente populares, mas tão divergentes na fórma e tfto
perfeitamente diferenciadas quanto às ideias que representam, é real-
mente difficil de acceitar. De resto, cheiro é um substantivo verbal,
posterior a cheirar (exactamente como o francez flair, de flairer), ex-
trahido do verbo para indicar a acção de dignem applicar o seii olfa-
cto afim de apreciar as exhalações de um objecto qualquer, a sua
cheiror, como então se dizia l . Do mesmo modo, faro devia ser sub-
stantivo verbal, se respondesse realmente a cheiro, e ao seu lado ap-
parecer-nos-hia o verbo farar. Mostrem-nTo (a elle, ou ao * faraoaris
de Leite de Vasconcellos) e submetter-me-hei *. Até lá, peço que
ouçam o que eu tinha imaginado antes de Cornu se pronunciar, e
ainda agora continúo a suppôr.
Penso que o termo faro, que designa em primeiro logar e quasi
que unicamente o olfacto dos cães e de outros animaes, depois, por ex-
tensão, a perspicácia e o tino com que algumas intelligencias humanas
investigam, e cheiros e exhalações de corpos só em casos extremamente
raros e em modismos relativamente modernos, deve ser separado de
cheiro, classificado entre os termos de montaria, e considerado como
uma metaphora audaz, um tanto galhofeira, creada pela sempre vi-
çosa e jocosa inventiva de caçadores. Creio, emfim, que o faro dos
cães é um pharo que estes intelligentes animaes trazem no nariz. Ou,
por outra, quero imaginar que um bello dia um ascendente do grande
Nemrot, o Conde D. Gonzalo Garcia, ou outro qualquer entre os afa-
mados *Cavalleros cazadores de Galliáa*, admirando a finura com que
um seu cão buscàra e levantara de madrugada no sombrio dos den-
sos bosques serranis, um veado, ou fo*se lobo, urso, ou javali, excla-
masse contente: aparece que este diabo de cão traz um faro no nariz».
Tal qual já ouvi dizer a uma minha criada, uma vez em que ella
assistia interessada aos preliminares de uma caça de gato a rato:
tque bom tmurador» } que é o nosso gato! parece mesmo que traz um
lampião no focinho /»
Provar uma etymologia d'estas, é coisa impraticável. Hei de mos-
trar, comtudo, os materiaes que ajuntei e em que fundo a minha hy-
pothese, para que não se diga que, visto ser uma lembrança instan-
tânea e obra de um mero acaso, não merece attenção nem discussão.
i Cant. 102 de D. Alf. x. — Cfr. chairor (catalão) eflairor (prov.).
* Rtv. Lus., ii, 360.
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FRAGMENTOS BTYMOLO0ICO8
161
1. °) A palavra faro, proveniente de pharus, termo náutico de
origem grega (yzpoç), commum a todos os povos mediterrâneos, exis-
tia outr'ora em toda a península, e existe hoje ainda em Castella K
Designava e designa varias espécies de lumieiras e lampeões: a) o
luzeiro posto junto da costa em logar proeminente para servir de guia
durante a noite aos navegantes; b) o luzeiro posto na pôpa do navio;
c) o facho ou a fogueira que se accendia nos montes mais elevados do
paiz para dar signal da entrada do inimigo; d) em sentido figurado a
pessoa cujo espirito dá luz e serve de guia, i. é: qualquer luzeiro ou
luminar em sciencias e artes (=jedwede Leuchte % ).
2. °) Um dos faros portuguezes (do género a), modesta imitação,
decerto, do famoso yxftcc que os gregos tinham construído na emboca-
dura do Nilo, parece ter dado nome á antiga cidade algarvia 8. Ma-
ria do Faro 8 . Outros faros (do género c) determinariam idênticas de-
nominações no interior do paiz, onde temos alguns logares e alguns
montes do Faro *.
3. °) Faro = pharus, como appellativo, desappareceu cedo de Por-
tugal, sendo substituído em parte por derivados do mesmo thema, e
em parte por outras palavras synonymas, que já anteriormente tinham
estado em uso 5 . Calculo que isto aconteceria só depois de faro ter
passado a designar metaphoricamente o olfacto do cão. — Para indicar
as differentes lumieiras, temos primeiramente o augmentativo faron 6 ,
que chegou a denominar de preferencia o <fápoç de S. Maria do Al-
garve (sec. xiii-xvi), orthographado na Legislação antiga \Mon. Leges,
pag. 715 e 737], ora Faaron, como se fosse o Pharaon = Pharao da Bí-
blia, ora Faram e Farom [Ined. Hist., v, 84 e 85]. Temos a fórma se-
cundaria farão como nome de logar, nos mesmos textos [Ined., n, 463]
e em outros documentos até meados do século xvi, e como appellativo
em textos hespanhoes, na curiosa orthographia farahon 7 . Temos de-
i Qualquer diccionarío prova-o, desde o da Academia até aos dialectaes,
eorao p. ex. o asturiano de Rato de Argtiélles (que põe ao fim do seu artigo faro
o latim far = farellorio !).
* Os modernos vocabulários portuguezes registam apenas uma palavra faro,
e dao-lhe como primeira accepçào olfacto e como ultima farol, citando o verso de
Andrade Caminha (pag. 65) : «es um lúcido e formoso faro». Sómente naB Obras do
Cardeal Saraiva (ix, pag. 48) é que se falia mais extensamente de faro = pharus.
8 Cane. da Vat., n." 894-898.
* A moderna villa Faro, do Alemtejo, recebeu o nome do seu fundador, que
era um Fulano de Faro.
5 Os lampeòes de navio, p. ex., tomaram o nome de fanal, que é costume
derivar de phanus (çavoç). Cfr. venez. fano. Em eigano, fanal é olho. Em estylo
figurado castelhano, qualquer luminária intellectual.
8 Não posso apresentar exemplos portuguezes ; só um, castelhano, do Cane.
Gen., i, pag. 639. — Augmentativos, a substituir, temporariamente, ou de vez, as
radicaes simples, nâo escasseiam em portuguez. Citarei : golfam por golfo, por se»
empregado a miude pelo grande Albuquerque nas suas Cartas.
7 O celebre infante D. Juan Manuel falia no seu Libro dei Estado de um
lampeao portátil de campanha, chamado farahon (Stoek-latsme) : «eí este estru-
mento lieva de noche lumbre encendida». Cfr. na pag. 320 b as linhas 7, 11, 13 e 19.
uav. lusit., vol. ih, fase. 2. • 5
163
REVISTA LUSITANA
pois farol \ hoje a fórma mais corrente em Portugal, e, a meu vêr f
uma simples variante de faron, formada por dissimilaçfto por causa da
euphonia, como cerol, de ceron; linhol, de linhon; aranhol, de aranhon;
e hespanhol, de hespanhon * E temos, além d'isso, o archaico forol
[Cane. Res., ni, 234, 293 e 649; Res. Chron., pag. 185; Ulys., 213,
etc], que julgo nascido de farol, por assimilação de vogaes [como em
rolon, de ralon; torron, de terron; toston, de teston],
4. °) Outros derivados de faro — yápoç, ou de farol = faron, nâo
existem em Portugal 8 . Ha-os, porém, em Hespanha: farito, farolon,
farolico, farolero e farolear (cast.); faret, farolet, farolot, faroler e fa-
rolejar (valenc), todos sem sensivel mudança de significação. Apenas
este verbo e o substantivo pessoal (faroler) têm interesse especial.
Farolear, farolejar, quer dizer: andar inquieto de um lado para outro
trabalhando (?) muito azaf amado; i. é: bruxoleando como luz que treme
(fackelig, flackerig, fackelnd l ), e, note-se isto bem, tal é também a si-
gnificação figurativa e derivada do portuguez farejar 6 , que passa
por provir directamente de faro — olfacto. — O significativo real e
principal de farejar, e do menos usado fariscar, é, comtudo, tomar o
cheiro (beschnilffeln, niistern, witlern, spilren), indagar por meio do ol-
facto 6 .
5. °) Alguns escriptores portuguezes fizeram trocadilhos de fa-
ro Golfado 7 , o que não prova de modo algum que tivessem con-
* Usual no tempo de Gil Vicente (que o emprega em texto hespanhol, p. ez.:
ii, 303), e sem duvida antes, como se infere de forol, empregado no sec. xv. O ital.
falò t e franc. falof, talvez proviessem de uma contaminação de yxpez e (poevóç.
* Ha exemplos do desenvolvimento opposto: feijão (de jeijom), por feijol,
faijol — PÍIABEOLU8.
8 Nào sei dizer se farillon (cast.), farilhâo (port.) deriva de faro = <fapoç.
Possível é. Das poucas ilhotas, ou antes dos escolhos á superfície da agua nas cos-
tas da península, em que se construíram faroes, e que a gente da beira-mar cha-
maria farilhoes, o nome passaria a designar os grupos completos de taes ilhotas,
incluindo todas as que nâo tinham lumieiras próprias. Faro -f~ ou deriva-
ção: faro, farilho, farilhâo?
* A Academia traduz farolear com fachendear, papelonear; o diccionario
valenciano de Escrig explica farolejar pela formula hacer el farol, e faroler em
sentido real com farolero (i. é : empregado que cuida do farol), mas em sentido de-
rivado com papeíon (=* Fackeler, Flatterer: eitler Prahlhans). Cfr. o adjectivo ita-
liano : falotico.
5 Coelho, pelo menos, indica no seu Manual, como accepçâo ulterior de fa-
rejar : «andar de um lado para o outro trabalhando» Como ainda nâo o lésse, nem
o ouvisse empregar, nada posso dizer a este respeito, nem offerecer exemplo al-
gum. Está claro que nâo é impossível que houvesse dois verbos convergentes : um
farejar significando bruxolear, de faro yxpoz, e outro às faro -olfacto.
* Será util lembrar aqui que a península possue ainda outras palavras por
flairer e flair\ fato efatejar (valenciano), que nâo podem representar outra coisa
senão olfato e olfatejarf O castelhano diz, como é sabido, husmo e hmmear,
7 Na Feira do$ Anexins de D. Francisco Manuel de Mello alguém exclama :
«logo me deu o faro», e o seu interlocutor responde chasqueando: «De Faro vem,
meu senhor?» (pag. 11). O mesmo gracejo repete-se, com variantes, a pag. 168 ;
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FRAGMENTOS RTYMOLOGIOOS
163
sciencia da (supposta) identidade originaria dos dois vocábulos. Para
levar a taes gigajogas a homonymia era impulso suficientemente
forte *.
6. °) O povo distingue, em geral, com rigor entre cheiro e faro.
Julgo que ainda nfto houve quem fallasse do faro de uma rosa ou do
cheiro do cão, querendo referir-se ao seu olfacto *. Em certos modos de
dizer litterarios, ha, comtudo, hoje em dia, completa synonymia entre
os dois termos, podendo qualquer d'elles ser substituido pelo outro.
Lucena p. ex. falia do faro do peccado; Mousinho de Quevedo diz
que o vento trouxe aos abutres o faro funeral da gente defuncta na
campal guerra; e Serrão de Castro refere-se ao faro de certas uvas
passas. Como se vê, a esphera de faro ampliou-se, invadindo a de
cheiro. Mas isso é de somenos importância para a etymologia.
7. ") Ura derivado antigo, hoje desusado, de faro = olfacto, é enfa-
rar—enjoar com o cheiro ou sabor d' uma coisa, de onde o substantivo
veibal enfarou fastio, tédio, aséo, entejo de comer. E repare-se bem
que, ao lado d'este enfarar, ternos ainda enfaroar, do substantivo fa-
ron, que ninguém conhece como variante de faro — olfactus, mas que
todos conhecem como variante de faro=pharus.
XL. FARONKJAR
Esta palavra, que tem as falsas apparencias de um derivado de
faron=faro grande, passou até hoje desapercebida. Conheço-a de
uma das cantigas de escarnh' e maldizer, de D. Alfonso x, o n.° 77 do
Cancioneiro da Vaticana, onde ella se repete quatro vezes. O rei tro-
vador, motejando amargamente de um barão desleal, ou antes de to-
dos quantos ricos homens e cavalleiros tardaram acinte, e afinal nem
tomaram parte effectiva n'uma expedição contra Granada, apezar de
lhe terem acceitado a soldada para as suas mesnadas 8 , diz como segue :
*Vod perdeu o faro aos anexins.— O senhor é de Faro?» Ainda outro motejador,
o jà citado auctor infeliz dos Ratos da Inquisição, diz de umas uvas seccas que
um seu companheiro de cárcere comia : nas passas que para vos são de Imagos, para
mi de Paro são, pois só o faro me dão». — Desconheço a edade do beilo enigma:
Qual é a cidade de Portugal que cheira mais ?
1 Citar exemplos da popularidade do termo faro-olfactus seria extremamente
fácil. Mencionarei apenas a Lenda do cão (narrada nos Contos de Braga, vol. n,
n.° 198), e as phrases: a/arejar e não dar com a lura». Direi ainda que faro-ol-
facto parece referir-se também ao sentido da vista. E' o que indica um ditado re-
lativo ao falcão (açor, ou outra ave de volateria): •olhos enlevados e ardidos no
faro | entre as nuvens descobrem a caça», cantado na Comedia Eufrosina (pag. 145).
* Não seria para admirar se acontecesse. Ter bom nariz, diz- se familiar-
mente por ter bonita cara, com relação a comidas appetitosas que agradam á vista
e ao olfacto ; assim como ter bom paladar se refere ás pessoas que sabem tomar
bem o gosto ás comidas, e ao mesmo tempo ás próprias comidas, quando o seu sa-
bor é agradável.
* A Cantiga 79." «irta de difficoltà», conforme diz o seu mais perspicaz in-
terprete, foi inspirada pelos mesmos acontecimentos. V. Studi di Filologia Roman-
%a, fase. 4.»
164
REVISTA LUSITANA
♦
O que foy passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant' a guerra, (?)
que faroneja!
Pois el agora tam muyto erra,
maldito seja!
O que levou os dieiros
e nom troux' os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja !
Pois que veo co'os postumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Granada
que faroneja!
Se é rícomem ou ha mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc' aver e muyta meiga (Hinterlist?),
é por nom entrar na Veiga
que faroneja!
Pois chus moP é que manteiga
maldito seja! 1
A reproducçâo diplomática de Monaci dá-nos por duas vezes /a-
roneia, uma vez fareneia, e outra faraneia. O r, pelo menos, lá está
sempre intacto, em todas as passagens. Varnhagen leu no Códice
mysterioso do Grande hespanhol, ou interpretou arbitrariamente, como
é o seu costume, favoneia. E Monaci, Coelho, Braga e De Lollis ac-
ceitaram e reproduziram esta lição, apezar da sua duvidosa origem, e
embora ella não melhorasse de modo algum o sentido. Porque? Por-
que o verbo faronejar não lhes dizia nada. Pensaram, evidentemente,
no propicio vento favomo, destrinçando em favonejar um aliás desco-
nhecido synonymo de favorecer 2 . O glossário de Th. Braga explica:
facilitar!
Eu, porém, sabendo quão pouco ha que fiar nas lições de Varnha-
i Nâo convém defender aqui as liçfles que escolho, nem as emendas que
proponho.
* O Manual de Coelho regista: favonear, remettendo para fa vonecer. Este
termo falta, comtudo. Creio qixcfavonecer é mero erro de imprensa, por favorecer»
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Fragmentos etimológicos
Í65
gen, cinjo-me á lettra transmittida pelo apographo da Vaticana *, e
acceito a palavra faroneia (fareneia, faraneiaj, como acceito acajon,
engueedes, maer, e muitas outras lições contestadas, fazendo esforços
para interpreta-la correctamente, resolvendo o enigma que encerra.
E esta vez a tarefa não é muito difficultosa.
A interpretação: «é agora no principio da guerra que elle se mos-
tra um retardatário; é para não ir na vanguarda que se demora; é
para não nos acompanhar a Granada que não apparece; é para não
entrar batalhando na Veiga que o preguiçoso e desleixado tarda!» é
obvia; e deve contentar e agradar. Favoneja= favorece, tornaria, pelo
contrario, todo o sirventes incomprehensivel.
0 que se trata de estabelecer é apenas, se faroneja representa o
castelhano farolear, o valenciano farolejar e o portuguez farejar (a
que já me referi no artigo anterior), significando portanto «papeio-
near, fachendear, hacer el farol» ; francez : lanterner (barguigner, hési-
ter); allemâo fackeln, i. é: langsam zu Werke gehen; Umstãnde machen;
Au8flUchte suchen, zaudern u. zittern wie die Fackel die sich im Winde
hin und her bewegt; sendo n'uma palavra, um derivado de faron^
farol; ou se temos aqui outra palavra differente.
Os únicos dous obstáculos que se oppòem a tal identificação, são :
ignorarmos por ora qual a antiguidade de todos estes termos meta-
phoricos ; e, em especial, a existência de outro verbo quasi idêntico na
fórma e no sentido, mas de origem muito diversa: o castelhano*/aro-
near, haronear, derivado do adjectivo árabe hárún— mandrião, ma*
draceiro, obstinado, preguiçoso, como Dozy e Engelmann já provaram,
apoiados por Diez (2.» ed.). Com este termo antigo, empregado pelo
Arcipreste dè Fita no seu Libro de Cantares \ e ainda no Cancioneiro
de Baena z , é que prefiro confrontar e explicar o modismo de D. Al-
fonso x.
XLI. FÁRUM
A' primeira vista parece que também este substantivo gallego,
registado por Valladares Nuftez, pertence ao grupo dos derivados de
faro. Mas só à primeira vista. Farum, farun (cat. farum, de onde
faromejar) está por ferume (a por e, por causa do r), vem de fera e
significa : cheiro a fera, ou a bravio ; olor y sabor que a silvesti'e tienen
algunas plantas, y a montaraz vários animales: Berg und Wildgeruch.
O suffixo é ume (de umbn) e não unus, como nos adjectivos portugue-
zes em um (f. um e Sa). Cfr. port. arch.: bafum= cheiro a bafio; far*
* £' muito para desejar que olhos tao experimentados e perspicazes como
os de Monaci, collacionem no Cancioneiro Colocci Brancuti todas as poesias do
Cane. da Vat. t publicando em seguida os seus resultados, que devem ser elucida-
tivos a mais de um respeito.
* Estrophe 615, onde se falia de um cavallo «farom que nunca pierde varo-
MU nen vale unpepton».
1 N.° 55 « ... do resoibe tal cansado que a las vexes ffaromra». O duvidoso
alhaonedes na estrophe 850 do Arcipreste nâo está em relação alguma com faron,
Í66
RE VIST* A LÚSlfA^A
tum (lned., v, pag. 554), azedum, senyum, multium (lned., Boav., m,
16); pe8ume (ib., m, 46); e o gallego: chatum, cheirume, graxum[ada].
O valenciano tem faram por fera.
Em tempos escrevi um pequeno artigo sobre o verbo composto
hespankol zaherir, derivando-o de faz-herir (fazerir) (na Romania,
u, pag. 86). O substantivo verbal fazfeiro, que então não era conhe-
cido, vem comprovar agora a justeza d'aquella minha apreciação.
D. Alfonso x emprega-o a miude nas suas cantigas, para dar expres-
são & idéa: reprehensão, castigo, vergonha, doesto [Vorwurf, Strafe,
Schande, Schmach]. Lê-se p. ex.: na Cantiga 15, 6: • et feo (=foentjm)
temerás por fazfeiro, ou te farei de fame flir» ; e na 45, 6 : porque
sempre os bõos lie davan mui gran fazfeiro do muito mal que fazia*.
Cfr. 61, 7; 85, 13; 303, 1. — Feiro equivale ao pres. latino ferio (port.
moderno firo 1 por analogia com sigo, visto, sirvo, dispo, frijo, sinto e
minto, senço, menço).
Costuma-se affirmar que esta palavra é hespanhola. Nfto vejo ra-
zão para isso. O antigo portuguez possuía e empregava a miude fria-
me, freame (* frigidamrn = cousa fria *). E' verdade que a metathese
do r, da radical para as terminações, ou antes a repetição do r pro-
tonico na syllaba final, postonica, com queda ulterior, dissimilatoria,
do primeiro r [friam, friame, fiamre] é rara em portuguez, e está em
opposição com a frequência do phenomeno contrario (mudança de r
para a frente), como é rara a introducção de b entre m e r. Mas taes
movimentos contradictorios são vulgares, em Portugal como alhures :
exemplo, o tratamento do i ante vogal, expurgado de muitas dúzias
de fórmas e introduzido em outras tantas, ás vezes nos próprios vo-
cábulos, de que a língua antiga litteraria o banira *. De mais a mais
* O substantivo firo nâo tem outro étymon.
> O primeiro exemplo que me vem á mão, é galliiiha freame nas cantigas de
D. Alfonso x (158,16).
• Penso em turvio, vidrio, cirio e e$ludio f que estão n*este caso. — Além dos
numerosos exemplos que citei na Zeitschrift, vii, 115, e na Miscellanea, n.° i, pag.
114, col leccionei mais os seguintes, directamente da bocca do povo: Ileniaf Agus-
tia, Camilia (cfr. Tartja, Tereija), amoria, andias, cif ria, ciçudia, corintia, esca*
dia, boltia, promtssia, propinia e vestia, Ramirio, asilio, dúbio, guapio, labirin-
tio e pttitio. Europia, linfia, hidria e salamandria sâo litterarías e antigas. — O
adjectivo gustosio nca por ora isolado. Os verbos (como enfartar por enfarar) sâo
infinitos, mas quasi sempre o t foi attrahido pela vogal tónica (como em pairo, es-
faimo, alqueivoj, ou palatizou a consoante antecedente (como em anojar, alijar,
ajoujar, bajoujar, intrujar, e muitíssimos outros em jar, war, çar e lharJ. — O*
exemplos da queda do % biatico sâo conhecidos [adro, cidra, vidro, ai vidro, ludro,
Lima, vindima, verruma, vira, siba, camisa, questão, cristão, salva, mancebo, so*
XLII. FAZFEIRO
XUn. FIAMBRE
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Fragmentos ètymologicos Í6?
as duas modificações que friame soffreu, não vão de encontro aos cos-
tumes do portuguez, pois que temos quebrar, de crepare; pesebre, de
prcesepe; costra, de crusta; escudrinhar, de scrutiniare; pedricar, de
predicare; e do outro lado tombo por tombro, de tumulus; combro, de cw-
mulus; e cambra, de camará. E de resto, por extraordinárias que pare-
çam, é mais provável a sua realização do que a perda total de uma
palavra antiga de uso caseiro, e a sua posterior substituição por ou-
tra quasi igual, mas estrangeira. Isto só se comprehenderia se Portu-
gal tivesse recebido os seus presuntos e outros friames de Hespanha,
o que nfto consta. A fama dos toucinhos de Lamego, Chaves e Chacim,
e dos p&ios do Alemtejo, é antiga.
XLIV. FRANGO
De onde veio ao filho da gallinha, que já nâo é pito, pi(n)tâo, ott
pintainho, e ainda n&o chegou a ser gallo, o seu popularissimo e muito
antigo nome de frango l , que é tão pura e tão exclusivamente portu-
guez *? Penso que frango não é outra coisa que franco =francez, e nas-
ceu directamente da usual interpretação dada ao nome de nação Gal-
lus 9 , que produziu e continua a produzir tantos ditos agudos e tantas
allusõe8 espirituosas 4 . Primeiramente os portuguezes usaram da for-
mula gallo-franco, para designar um individuo francez. Â sua existên-
cia, indubitável em si, é comprovada pelos modismos : franeus ut gai-
tes; largo como el gallo; large du sien comme gal 5 . Afim de convencer
de que estas phrases passaram também para Portugal, lembrarei o
celeberrimo romance peninsular do Bico-Franco ou de Bicofranco
(Wolf, 119), cujo antagonista se chama em Catalunha Baldovinos el
Franco ou Dom Galí; nos Açores Dom Franco 6 ; e na ilha da Madeira
berba, nervo, termo, coentro, etc.]. O gallego poaaue muitos maia, p. ex. : Imila,
Libaria, Hortensa, Vergina, bibla, famua, evangelo, deluvo, vison e confeson.
i Fem. franga; dim. franguinho, franguinha; augm. frangâo, de onde /ran-
gaXnho, e franganinho, franganito, franganote. A forma latinizada é sempre fbam-
oahus. Cfr. Mon. Lege$, pag. 195, onde na pauta de 1253, se determina que «tl
melior franoakds vel fuakoana valeat quatuor denarios*; e P&g. 269, onde um de*
creto de 1238 ordena que os habitantes de Santa Maria de Porco dêem de fôro um
almude de trigo, cinco ovos et «ângulos framoaos. Et qui franganum non habuerit,
eolvat pro eo unum solidum*.
> O castelhano emprega : pollo, polia, pollico, pollito, polluelo ; e os deriva-
dos poUero (port. poleiro), polleria, pollazon, pollastro, pollattron, pollazon; cfr.
franc. poule, poultt, poularde.
* Escusado repetir que aallus não é céltico, mas, pura e simplesmente, lati-
no. Como disse Cesar no Bello gallico, i, 1, uma alcunha tirada do nome homo-
phono da ave, que era o 8ymbolo nacional d esse povo.
* Lembra-me n'este instante apenas a phrase de que Vaillant se serviu em
1868 para com Bipmark : «Novs $omme$ de$ coça! noue ne ptrmettons pae que d f att-
tre$ chanlmt mievx que nou$*mimes*.
6 Cfr. Jahrbuch, x, 293 ; Knust, Doe obra»! pag. 620.
* Bom, Açor., 48.
Bravo-Franco, Gallo-Franco e até Gallo-Frango 1 / Em uma das va-
riantes vulgares, ahi colhidas por Rodrigues de Azevedo, a heroina,
que para salvaguardar a sua honra mata a punhaladas o raptador,
intitula-o com ironia transparente *meu gallinho» e *meu franguinho»,
gabando-se em seguida de ter dado cabo do gallo-frango.
Depois repetiram a formula, como o exemplo citado mostra, gra-
cejando ao fallarem da ave-gallo; e mais tarde o adjectivo substan-
tivou-se, passando a designar apenas o gallo emquanto novo, bizarro
e galante. — Frango por franco, com pronúncia commodista e vulgar,
para o differenciar de franco = generoso, liberal, sincero. Cfr. vingar,
de vin(di)care; pingar, de pen(di)care; commungar — commun(i)care ; res-
mungar = remussicare ; manga ^man 7 ca; sengo = Sen'cus por Séneca;
flamengo, podengo, domingo, etc.
Apenas uma pequena nota. Houve quem estranhasse o costu-
mar eu tratar grijó como substantivo de género masculino. Comtudo,
tenho razão, porque, a par do nome de logar, ha um appellatiro idên-
tico: um dos nomes da lâmpada eterna de igreja, que é sempre tratado
de masculino, como de resto a maioria das palavras em 6 agudo, de-
rivados de diminutivos em -iolus. Ouvi fallar de um lindo grijó da
capellinha do N. Senhor da Pedra. E para os incrédulos citarei os
versos impressos:
que se acham nos Contos de Coelho, n.° lxxií. Cfr. belhó, eiró, pió e
Foi sem razfto, e mal informada, que eu quiz teraerariamente
riscar dos diccionarios portuguezes o termo gronho. Elie vive de fa-
cto, como qualificativo de certas maçãs e peras, conforme os snrs. A.
de Sequeira Ferraz, Julio Moreira, meu amigo Rodrigues de Freitas,
e outros cavalheiros tiveram a fineza de me communicar. Vem até
mencionado em alguns catálogos de horticultura (p. ex. no Catalogo
1 O gallo, identificado ao francez, vive também na adivinha popular :
Que éf que if
A' mcia-noite se levanta o franceí! :
êabe das horas, e não sabe do mez ;
tem esporas — e não é cavalleiro ;
escava no chão — e não acha dinheiro.
Bem Bei que, em logar de /rance», se dia hoje em dia também inglei.
XLV. GRIJÓ
Santo Antonio estaes só;
Deixaes-me molhar o pão no vosso grijó?
queiró.
XLVI. GRONHO
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Fragmentos etimológicos
Loureiro de 1889-90, pag. 261; e no Catalogo Viuva Zeferino de 1890,
pag. 162). Ahi indica-se *maçã gronho, gronho doce e gronho riscado».
Besta agora averiguar se o gronho era, e é, fructa assaz deliciosa
para dar origem à phrase «cuydar no gronho», ou se posso sustentar
a minha emenda conjectural das passagens do Cancioneiro de Resen-
de, como penso e espero, lendo «cuydar negronho». E resta ainda sa-
ber de onde gronho viria. Não pôde ser adjectivo; aliás, teríamos:
maçã gronha. E mesmo se assim se dissesse, gronho n&o podia ser
equivalente de negronho: a apherese de ne é phonetica e logicamente
inverosímil, porque destruía completamente o claríssimo sentido. Será
fructa originariamente hespanhola? talvez de logrono?, cujo lo, con-
siderado como artigo, podia ter cahido durante o primeiro período da
língua portugueza? Talvez! Mas n&o será fácil encontrar a prova.
XLVII. IVIÇOM
No Elucidano lê-se: «eyviçom e ibiçom = macho, jumento, besta de
carga. Vem de iber ou imbrus = macho; ou de ibrrus cavallo de Hes-
panha». A traducçâo é falsa, e a etymologia também. O erudito e
sensato J. P. Eibeiro já o reconheceu. Dizendo : mão decidiria pela
' intelligencia do auctor, antes me lembra tel-a achado por gado miúdo»
acertou melhor, mas n&o deu etymologia alguma.
Eis as tres passagens que forneceram a ambos os auctores o es-
tofo para as opiniões citadas, e que copio do Elucidário, i, 301, com
mais algumas (quatro a seis) que tirei dos Monumentos:
1) Se algum lavrador ouver eyviçom, non faça ele foro [Thomar,
1162]. Cfr. Mon. Leges, pag. 389.
2) Si íBioiONES habuerint non prendant illas pro in ulla facienda
[Cea, 1436, err. por 1136].
3) Et de ibicione qui non torna jugada non querant inde ullum
tervicium sine precio. (Cfr. n.° 5, Livro dos Foraes velhos).
4) Si aliquis laborator habuerit ivicionbm non faciat cum ea aliquod
fiscum [Mon. Leges, pag. 366; Coimbra, 1111; o mesmo a pag. 357.
Soure, 1111; pag. 389 e 398]. Traduzido a pag. 357 muito inexacta-
mente : <aE se alguum laurador ouuer alguma cousa de seu (!) nem faça
a nenguum seruiço sem seu grado». (!)
5) De euioione onerata n denarios (ib., 362; Porto, 1132).
6) Mos oleiros qui in regalengo sedent quod faciant suos foros de
ollas, et si ibioiones habuerint non prendant illas, pro in ulla facienda
illos míseros qui ília ligna adducent non prehendat Ma nisi pro suo pre-
cio (ib., pag. 372; Cea, 1136).
Quem as lêr, mesmo soltas como aqui v&o, fica sabendo que
o possuir uma besta de carga chamada iviçom, eviçom, eiviçom 1
[ibioione] eximia de certas obrigações e diminuia a importância das
l Os casos em que *t t í e ae latino produziram em português antigo o di-
thongo et, ainda nào estão bem estudados, como já disse no fragmento i.
170
RÊVISTA LtJSIf AtfA
contribuições a pagar. Se lêsse os respectivos foraes velhos por com-
pleto, reconheceria a mais que a iviçom era diversa de cavallo, egaa 7
macho, jumento, e muito inferior em préstimo e valor, servindo só aos
miseros oleiros da Serra da Estrella (e regiões adjacentes), em cujos
pendores ainda hoje se cria tanto gado cobram. E se viu alguma vez
um exemplar da afamada cabra monte* das serras portuguezas, quer
viva, quer empalhada, e conhecer a bicerra dos Pyreneus, assim como
o ibex e a camurça dos Alpes, não duvidará de que a ibicione era um
ibex grande [Stebtbock, Oemse, Wild-Ziege oder Antílope], Aquelle ani-
mal, domesticado como o engraçadíssimo «chamois» de Tartarin, seria
antigamente a vacca dos pobres serranos [die Kuh der Artnen], aos
quaes dava o seu leite, e serviria ao mesmo tempo de besta de carga,
transportando feixes de lenha, carqueja e chamiça do monte para a
choupana, assim como do forno para a feira a primitiva louça de bar-
ro, que iam fabricando. Uma cabra, servindo de besta de carga, n&o é
mais inverosímil do que o pobre cão berolinez a servir de besta de
tiro a leiteiros e hortaliceiros.
Robezo, o nome castelhano da bicerra basca, que em asturiano se
chama rebeca; o verbo robechar == saltar como uma cabra, e ser aris*
co, assim como o adjectivo gallego rebeca (= arisco) ; o francez an-
tigo ibkhe (talvez biche?), devem ser novamente examinados e com-
parados com eyviçom. Por ora n&o me sinto, comtudo, habilitada a ir
mais avante K
Provincialismo gallego. Lazar (segundo Valladares-Nuôez) cor-
responde a gelar-se; laxo a gelo. Certamente glaciar-sk, com queda do
g, como em lirão, latir, leiva, landre, e porventura em Hoz, lastima,
látego.
0 portuguez talvez saiba, e talvez não, de onde proveio aquelle
nome ao fidalguinho do jardim, o cyano de Schiller, que ostenta so-
bre haste esbelta, revestida de modesta verdura, a sua galante cabeça
azul,— a flôr predilecta da rainha Luiza e seu filho, o nosso velho impe-
rador, a qual, juntamente com as rubras papoulas e com a larica
roxa, enfeita no verão os campos de louro trigo. No estrangeiro, com-
tudo, mal haverá quem saiba dar razão de um tal cognome. A meu
vôr, a flôr campestre chama-se loio (ou frade-loio ?), por andar ves-
tida do mesmo azul, que servia de traje distinctivo aos frades lóios,
cujo padroeiro, o ourives de Limoges, Sanctus Eligius, ou Saneio
Eloy (com nome francez, que se popularisou em Portugal), prestou
também o seu nome á rua e ao largo dos Loyos, por darem accesso á
1 Rebtzno, robrtne, que andam em alguns diccionarios de somenos valor,
como o de Booch Arkossy, e sào, portanto, formas duvidosas, poderiam represen-
tar *ac-»icivuf. (Cfr. rodam «■ aorioutus, durawno «■= dcbaouíus).
XLVIII. LAZAR
XLIX. LOYOS
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PrAgMRNTOS ETtfUOLOGIÔOâ
171
ma dos ourives do Porto (rua das Flores). Está claro que houve ahi
um convento dedicado ao sancto.
A denominação não tem nada de estranhavel. No Douro e Minho
as pascoinhas (rapa-saias, rompe-saias, saganhos) chamam-se também
viuvinhas, por irem vestidas de rôxo.
L. MA KR
Na grammatica portugueza de Cornu ha contribuições riquíssi-
mas e verdadeiramente magistraes para a historia do verbo portu-
guez; mas o quadro que temos de compôr dos bellos paragraphos 310
a 326, e das notas espalhadas por outros (41 a 46, 51^66-67, 70-72,
96, 193, 294-96), ainda assim não está absolutamente completo. A
língua archaica e os dialectos vulgares, assim como os textos galle-
gos, antigos e modernos, que não podemos nem devemos deixar de
lado, possuem ainda, e a publicação das Cantigas de Alfonso o Sabio
revelou ultimamente algumas fórmas novas, não registadas, sendo o
contingente mais valioso fornecido por verbos de fórma muito redu-
zida, correspondentes aos latinos : aud(ire), gaud(ère), claud(tre), cad-,
rod-, cal-, sal-, mol-, sol-, dol-, col-; mon-, man-, e por aquelles cuja
consonante medial era k (jazer, fazer, trazer, prazer, cozer, dizer,
nuzir).
Hoje tratarei apenas de manere, communicando todas as fórmas
que recolhi e copiando as respectivas orações por extenso, visto que
ellas apparecem quasi sempre estropiadas pelos modernos editores
que não as entendiam.
Cornu menciona (nos §§ 319 e 323) apenas o infinitivo: maer; a
1* pess. do pres.: mariho; a 2.* pess. do pret. perf.: masestes; e a 3. a
pess. do conj. perf.: masesse. Eu accrescento os infinitivos maner [re]-
manir, o presente mans, inan, o perfeito mas[i], os conjunctivos maer,
meer, manser, e o futuro marrei, marrá.
1) Maer (=mànrrb): a) Vat., 710, 6: «Jby un dia pelo veer A
sancta Mana e maer Hu m'el jurou que morria por mi*. — Monaci, nos
Canti antichi port. a , pag. 30, assevera que maer nada significa, e
emenda en o ler. A edição diplomática (Monaci-Coelho) remette em
nota simplesmente àquelle livrinho; e o texto reconstituído de Braga
oferece lettras sem sentido : em a er.
b) Vat., 1:176, 5: € Maria Perez, a nossa cruzada,
quando veo da terra d f Ultramar,
assi veo de perdom carregada
que se non podia com el emerger;
mais furta m-lhe cada u vai majcrí
e do perdom ja nom Ihi ficou nada*,
A alteração de Braga, maguer, estraga um texto perfeitamente
claro. — c) Ined. HisU, v, 416; É outro grado non entre y se non aguei
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REVISTA LUSITANA
que veer maer á viUa.—d) D. Alfonso x emprega na Cantiga 345:
maner que eu considero como um castelhanismo. — e) E um outro
hespanhol, Pero da Ponte, serve-se do infinitivo remanir (em rima com
mentir. Vat. f 1:187, 20).
2) Manhã (=hakbo): Vat. f 887, 5 e 10: «Com' eu en Vigo senlheira
manho e Com' eu senheira en Vigo manho». N'este caso a rima (assoante
com amado, trago, ambos) salvou a palavra. Os interpretes deixaram-
na intacta. Nas linhas 2. a e 7. a (com' eu senlheira estou en Vigo) temos
a prova de que maer pertencia ao grupo dos verbos que, pelo seu
caracter neutro, serviam de substituintes de esse (ser, estar, jazer,
ficar, quedar). — Vat, 777, 1: «Sem meu amigo manh' eu senlheira,
E sol nom dermem estes olhos meus». Braga põe injustificadamente:
m 9 and' eu.
3) Mans (= manes). — Cant. de Alf. x, 235. Tomei nota, sem co-
piar a passagem, que, portanto, n&o posso reproduzir.
4) Man (=manet). — a) Vat., 771, 13: «Comigo man meu lum' e
meu senhor». Braga põe: m'é. — b) C. C. Br., 442, 3: «que ja de
noyte nunca ela man Como as outras na sua posada». — c) lb., linha
6. a : «ca hu man hoje, nom marra ali Desi de noyte». E' provável que
a linha 9. a da mesma Cantiga contenha outro exemplo. Os signaes
«q nô pode hom sabe seicuta», devem lêr-se : «que nom pod home saber
se i man», porque a rima verran e o sentido assim o exigem. — d) Na
Cantiga 66 de D. Alfonso x man significa : elle mora.
5) Mas[i] (=mansi). — a) Vat., 1:049, 10: «Hu eu mas 1 aquesta
noite, houvi gram cea». — A impressão diplomática tem: «hu eu maia-
qsta noyte ouuy grã zeã». Braga escreveu: «hu eu m'oj 'aquesta noyte
ouvy gram cea». — A justificação da minha leitura está na linha 2. a
da mesma poesia: hu masestes esta noyte!
6) Masestes (= mansistis). — a) Vat., 1:049, 2 : «Maria Genta, Ma-
ria Genta da saia cintada, Hu masestes esta noite e quem puz cevada ?»
— O texto reconstruído põe: hu massastes, transformando a «solda-
deira» em «padeira».
7) Maseron (= manserunt). — a) Alf. x, Cant. 344: «et cabo d 9 essa
eigreja bees os outros maseron».
8) Masesse (= mansisset). — a) Vat, 771, 5, 11, 16 e 21: «Mais
se masesse con meu amigo, A luz agora seria migo». Braga altera:
mas se m'a desse.
9) Manser (= manserit). — Mon. Leges, pag. 681: «Coelheiro que
for aa soieira e lá manser, dê huma pelle de coelho».
10) Maer, meer (=manerbt). — a) Mon. Leges, pag. 408 e 413:
«Coelheiro que fôr a sogeira e alô maer, dê huma pelle de coelho». (Cfr.
Ined. HisL, ív, pag. 636. — b) Mon. Leges, pag. 713: «Coelheiro que
for a suageira e allá mber, dê huma pelle de coelho».
11) Marrei (= maner-hri). — a) Vat, 1:196, 13: «E marrei eu
vosqu' en vossa pousada». A inútil modificaç&o de Braga: e morarei,
faz que o verso tenha uma syllaba de mais.
12) Marrás: Alf. X, Cant. 235.
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13) Marrá: C. C. Br., 442, 6: «Ca hu man oje, non marra alli
Desi de noyte».
Em todas estas passagens, menos uma, maer significa pernoitar,
descamar, dormir. Para exprimir a simples idéa de permanescencia
em qualquer sitio, independentemente das horas e do fim, jà então
servia, de preferencia, o derivado permanescerk : permeecer, que foi
reconduzido à fórma latina no século xv.
No Foral de Avellaal lê-se, p. ex.: tseja maldito de deus padre,
escomungado e sempre maldito permeesca» (1221); e o de Mértola esta-
belece: «que as duas partes dos cavalleiros vam en fossado e a terça
parte permeescam em villa».
O termo culinário manido 1 , que é hoje usual, mas cuja idade
ignoro, talvez seja meio-erudito, embora a singular manutenção de n
e l entrp vogaes em certas palavras, apparentemente populares, que
desde o sec. xni até hoje n&o se modificaram, seja um facto inne-
gavel.
Em remo manso por remo pousado, e tornado immovel (lned. Hist.,
m, 285), é difiicil decidir, se se trata do participio mansus ou do adje-
ctivo mansuo por mansuks, ou se talvez as duas palavras se influen-
ciaram reciprocamente *. Ideologicamente mansus contenta mais, pho-
neticamente mansues. De passagem mencionarei manselinho, por causa
da mesma dúplice diminuição que temos em donzellinha, papelinhas
(Alf. x, 335; Vat. f 321 e 454) e mocelinho (Alf. x, 389).
LI. MARMAR
Nas Posturas antigas da camará d'Evora encontro no Titulo dos
Ferreiros (Doe. Ebor., pag. 147-148) umas quatro vezes a aliás des-
conhecida palavra marmar em substituição de minguar, mengoar 8 .
Deve estar por mermar (que existiu em Hespanha e Provença) e pro-
vir, por dissimilaç&o, do verbo superlativo min(%)mare.
LIT. mbijom
E' certo que o portuguez antigo possuiu meijon, de mansione 4
[como lijon, de laesione; prijon, de prisione; aqueijon, de occasione;
i Carne manida é a que, por esperar alguns dias, ficou roais tenra e «mor-
tificada».
8 Remanso, dc onde remansado, remansar, remanscar, remansoso (remançosoj
e arremansar são, como provavelmente manso (em remo manso), de origem erudita,
mas ainda assim perfeitamente nacionalizadas. — Remanchâo = preguiçoso e r«-
manchar talvez entronquem no mesmo termo.
* O ferro, depois de adubado e lavrado, mengoou, marmava ou marinou. Eis
um dos exemplos : «aom hua arrova de ferro de banda fezerom duas enchadas no-
vas boas, de nove arraies e meio cada enxada, e asy mabmou da dieta arrova 13
arrotes».
* Citado por Cornu, § ih, pag. 209.
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RR VISTA LUSITANA
abujão, de abusione; vijâo, de visione]. Os termos derivados ameijoar
e ameijoada l 9 attestam-no bem alto. Devo dizer, comtudo, que ainda
nfto encontrei o simples substantivo. Os cancioneiros palacianos co-
nhecem apenas mayson, no sentido de casa de deus (D. Alf., Cant. 31)
ou casa de ordens religiosas (Val, 1:003, 1:006, 1:080), as quaes, como
é sabido, davam hospedagem aos seus «irm&os». — De ahi deriva tneson
(cast.) e mesão (port.); e nào directamente do moderno francez. A
fórma meison, que S. Rosa cita, é a intermédia *. Que maison viesse
antigamente de França, juntamente com a ordem de S. Bernardo ou
com a dos Templários, é muito provável. Confira-se, comtudo, a res-
peito da metathese de i hiatico, sem que influenciasse o s precedente,
faisão, de phasianus; castão, caisião, de occasione; e faisol, de pha-
seolus.
Sei perfeitamente que é arriscado separar minguar do castelhano
menguar e do italiano menovare (= minuare por minuere). Mas a fórma
antiga miungar 5 quasi que obriga a isso. Miungar, de * minuticare (de
minutus), com o mesmo tratamento de n que temos em vinda } finda,
virgindade, cristandade, mortandade, trindade, irmandade (de irmain-
dade, triindade, mortaindade, cristaindade, virgiindade, fiinda, viinda),
pendença (peendença, de poenitentia), menfestar, cinza, painço, mainça,
quenço (gal. =cainço, de cannicium); benga, beenga (benbdioat)? Mi-
nutiare deu miuçar, esmiuçar (mas também o subst. miunças = minu-
tias).
Ao par de monje (cast. monge, prov. monegue), que veio de Fran-
ça para Hespanha, com tantos outros modismos ecclesiasticos, houve
antigamente uma fórma indígena: môogo (de môago, com assimilação
de vogaes), contrahida depois para mógo. Ficou até hoje desconhecida
aos estudiosos, e portanto desaproveitada. Recolhi-a nas Cantigas do
Rey Trovador, que faz rimar môogo com lógo e rôgo (149, 12; 237, 8;
75, 12; 399, 7). A accrescentar ao § 261 de Cornu.
Moita (de onde moiteira) designa uma matta de plantas arbores-
centes, rasteiras e densas. A fórma antiga é mouta (Ined. Hist., in,
488). Mouta pôde estar por mauta, malta (como oito, outo, outeiro, de
altus, alt ari d s ; soito, souto, de saltus ; fouveiro, de palbarius. Malta,
de mat'la (mattula), dim. de matta, — O peor é que a origem de mat-
ta, matto, não é clara.
V Aprisco, abrigo, titio onde o gado passa a noite (allemXo : HUrdt),
8 Missom (no Cane, da Vat. t 1:003 e 1:177) é provavelmente erro.
9 Ined, Boav., n, pag. 14, 73, 115, 268, 280.
Lin. MINGUAR
LIV. MOGO
LV. MOITA
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LVI. MOLEIRO
O meu amigo Leite de Vasconcello» perguntou-me, ha tempos, o
qae eu pensava a respeito de moleiro. Eis a minha resposta. Moleiro
é molleiro, por molneiro (Mon. Leges, 625, 626, 63 1 e 637). A compa-
rar com esmola = emolia, de esmolna; e salitre = sallitre 9 de sal-nitre.
— Estou pois de accordo com Gonçalves Vianna \
LVÍI. NAVRÉ
A medo confesso a grave culpa de ainda nfto me ter conformado
com a derivaçfto navré, de narva (cicatriz), ventilada por Gaston Pa-
ris (Bom., i, 216) e approvada por Baist (Zschr., v, 556, com peque-
nas reservas) e outros, em opposiçfto ao nabagêr, indigitado outr'ora
por Diez; e que de mais a mais estou inclinada a retroceder até &
etymologia naufragare do velho Du Cange, que a sciencia nem discu-
tir quiz.
Porque?
Porque o verdadeiro sentido originário de nafra é «ferida peri-
gosa (blessure) ganhada batalhando», e nfto marca (marque), mancha
ou cicatriz de uma leve escoriação ou esfoladella (éraflãre); e também
porque nenhuma das fórmas românicas conservou o grupo de con-
soantes rv ou rf da supposta palavra-typo, apezar de elle nfto ser de
modo algum estranho às linguas neo-latinas.
E a medo?
Porque as provas com que tentarei documentar a these : nafrar,
de naufragare, ainda nfto sâo convincentes, e talvez nunca o sejam.
Ambicionei encontrar naufragar significando ferir; ou nafrar signifi-
cando naufragar; mas o ambicionado fim ficou, e talvez fique sem-
pre, fóra do meu alcance.
0 que parece certo, é o seguinte:
1) Naufragar passou a significar na peninsular causar e soffrer
damnos e quebras ; inutilizar e ficar inutilizado, tendo de ser traduzido,
quando transitivo, com : ScJiaden zufUgen, zu Grunde richten, beschâdi-
gen; e quando intransitivo : Schaden leiden, zu ScJiaden kommen, kriegs-
oder dienstuntiichtig werden; e em sentido figurado: scheitern.
2) A transiçfto ideológica de padecer naufrágio (scheitern), por
soffrer prejuízos e damnos (zu Schaden kommen) de um lado a: ficar
ferido, physicamente (verwundet werden); e do outro lado para: ficar
magoado, psychicamente (verletzt sein), nfto tem nada de estranhavel
3) As significações derivadas que alleguei estavam ligadas posi-
tivamente, no território portuguez, á fórma meio-romanizada nafra-
gare (e anafragare).
4) Nfto é impossível que nafragare produzisse nafrar, perdendo
1 V. Rev., n, pag. 180.
178
REVISTA LUSITAXA
o g (ou toda a syllaba átona ag x ). Comtudo, parece mais provável
que um participio hypothetico naufractus, representado em francez e
catalão por naufret (?), nafret, fosse no districto lemosino o ponto de
partida para nafrar, navrer, naverare (de onde os substantivos nafra,
navra, navradure, nafredure).
5) O verbo catalão nafrar significava e significa hoje 2 , em sen-
tido positivo: 1) ferir corporalmente produzindo chagas mais ou menos
graves, feridas de golpe e tiro ás vezes mortaes (blesser en perçant), e só
posteriormente; 2) arranhadellas produzidas nas cavalgaduras pelo
roçar dos arreios; e 3) em sentido abstracto magoar.
6) Em francez antigo houve um infinitivo naufrer. (V. Du Cange,
s. v. nauratus). E exemplos de v por f nfto faltam.
Com relaç&o âs minhas razões 1.» e 3. a , allegarei um paragrapho
dos foraes portuguezes, pelo qual se estabelece: que o cavalleiro, cujo
cavallo se estragar durante a guerra, fique, por este motivo, isento
de serviços militares durante um anno. Está claro que o estrago sof-
frido pelo cavallo devia, na maioria dos casos, ser causado por feri-
mento de arma branca. Nos bárbaros textos medievicos a idéa be-
schadigen vem expressa ora por perdere, ora por damnare, mas em ge-
ral por naufragare, anaufragare, nafragare, anafragare. O capitulo res-
pectivo intitula-se: De equo bellico mortuo aut certe ad arma inutili;
ou ainda: De cavallo quebrado o danado [Mon. Leges, 786, 833, 885,
929, etc.]. A fórmula mais importante reza:
«Et miles qui perdiderit suum caballum, quamvis habeat alium, sit
excusatus per unum annutn» [pag. 533, 457, 487, 495, 507, 521, 556,
609,617].
«Et homo mi se dampnayerit suus caballus», etc. [pag. 516].
«E homem a que se danar seu cavalo, amacar aia outro , seia scu-
sado ata a cabeça do ano» [pag. 704].
«E cavaleiro que perdrr seu cavalo, ainda que nom (sic!) tenha
outro, seia escusado por hum ano» [pag. 590].
*Et homine qui se naufragavrrit suo adestrado, quamvis habeat
alium, sedeat excusado usque ad caput anni* [pag. 699],
*Et homo cui se anadfragavkrit suus cabalus, quamvis habeat al-
lium, excusatur usque ad caput anno » [pag. 637].
*Et homine qui se nafragarkt suo adestrado*, etc. [pag. 513 e
392].
*Et homo cui se anafragaverit suus caballus*, etc. [Ined. Bist, v,
pag. 372].
*Et homine qui se anafragarbt [anaffragaverit ou anafragar]
i Cfr. navio (navigium), lidar (litioarb), rumiar, aliviar, liar, estria, real,
leal, etc. Nenhum está, comtudo, nas condições de naufragar*.
* Os diccionarios explicam nafrar, com Uagar; ftrir; Uagar hl bast o itUa
a las cavalcaduras fregana en ellas; exídcerare (Esteve Bellvitges). Saura traz:
mafra = matadura ; nafrar = matar; na fr at = herido, matado; al legando além
de «p£è de nafras» a phrase : tocarli na nafra — Jemandes wunde Stelle berUhren».
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FRAGMENTOS BTYMOLOGICOS
Í77
suo adextrados, etc. [Mon., 542, 427, 419, 526, 567, 581, 606, 619,
623, 625, 626, 651, 690, 701, 720, etc.].
Ou em redacção portugueza:
t Homem que se anafragab seu adestrado, ainda que aja outro, seja
escusado ta a cabeça do anno» [pag. 595], ou: tU o homem a que se
anaufragar seu adestrados [pag. 646].
Para comprovar o valor primordial do vocábulo catalão extraio
do Tirant alguns trechos em que se trata de cavalleiros andantes,
mortal ou gravemente feridos em batalhas ou desafios, accrescentando
apenas uma, do Cancioneiro general (castelhano), em que um poeta falia
de mágoas do coração.
Tirant, n, pag. 96 : c Veureu en poca de hora tendes anar per terra
e homens morts, nafrats en gran nombre», etc. — lb., pag. 97: *feu se
posar moltes touallotes sobre la nafra que tenta». — lb.: «Lo gran Turch,
axi nafrat com staua, mes se una cota de mallas desus». — Pag. 99:
«de la vila cridaren alguns qui eren restats en lo camp nafrats». — lb.:
*si donchs no fos tan mal nafrat que no fos poscut fugir». — Pag. 131:
€per ço com ell encara no era guarit de la nafra dei cap».
Cane. Gen., u, pag. 543:
La causa que tant ofen sen defensa
mon cors tan catiu, sotsmes a treball,
es ser namorat de qui be sensa
la fama y honor y m' nafra la pensa.
O portuguez moderno parece desconhecer nafrar, a não ser que
algum dialecto pouco estudado, ou que a terminologia hippica o con-
serve. Duvidosa, indico tres vocábulos derivados que, talvez, estejam
em relaçfto com naufragus: náfego, náfaga e esnafrar. — Náfego (por
náfrego?) designa, segundo os diccionarios, o cavallo de quadris des-
iguaes. Não será o aleijado? o coxo? o derreado? ad arma inutilr? —
Náfaga (anáfaga) é ou era a multa que o pastor estava obrigado a pa-
gar ao maioral em caso de mortes e perdas no rebanho: jus quod do-
mino comprtit in naufrágio ganati. Segundo Dozy-Engelmann, equi-
vale ao árabe nafaq (o que é bem possivel). Em todo o caso, a for-
mula naufragium ganati é significativa. — O gallego nafrar, esnafrar
(de onde nafrado, esnaframento, esnafradura, que lembram com singu-
lar insistência navradure e nafredure) quer dizer «aplastar las narices,
despachurrarlas ó estropearlas», e podia portanto, sem grande dificul-
dade, ser identificado ao catalão nafrar. Mas o dialecto berceano pos-
sue nefre = beiço, nariz 1 /
i Escalavrar e fazer escalavradura s&o palavras completamente diversas.
Hoje dâo expressão* á ideia ferir levemente, golpear superficialmente, escoriar; mas
a principio tinham (tal qual nafra) significação mais enérgica. Miguel -Angelo, a
aggredir o Papa com um bloco de mármore nas possantes mãos e ameaçando-o de
que o ia escalavrar, certamente não tinha na mente feril-o muito de leve. Es-cala-
bbv. lusit., vol. m, fase. 2. 6
178
REVISTA LUSITANA
LVJII. NAVEGANTE
Os pescadores de Mattosinhos e da Povoa dão este nome ao ho-
marus vulgaris, i. é: á lagosta pardo-azulada, de reflexos ruivos, guar-
necida de fortes torquezes, a qual de resto vêraos e comemos t&o ra-
ras vezes no noite de Portugal. E' uma bonita etymologia popular.
A fórma antecedente, usada em Lisboa, é lavagante, labagante e la-
bugante \ de lobagante, como se dizia nos séculos xv e xvi [Foral de
Lisboa, pag. 21 ; Cane. de Bes., i, 206 a ], por lubagante, lubegante, como
pronunciavam no sec. xiv (Cane. da Val, 1:004 8 ). E este equivale a
lubrigante, se a etymologia que quero propor, for a verdadeira, e se o
gallego conservou (também n'este caso, como em tantos outros) fielmen-
te uma fórma archaica, originaria. Elie diz lombrigante (com a mesma
introducçâo da resonancia nazal que temos em lombrigar, por lobregar,
Intrigar). Quanto á proveniência direi apenas que reconheço em lubri-
gante, litbrigar, lubregoso, (Alf. x) e em lubrican (o loV e cão da noite),
derivados do adjectivo rubricus, que, depois de empregado para cara-
cterisar a penumbra do crepúsculo matutino, passou a designar tudo
quanto tinha côres incertas e cambiantes (furtacôres). Reservo a demons-
tração para outra occasião. Os nomes da lagosta pardo-azulada s&o,
de resto, tão variáveis como a sua cor: em Castella temos bogavantel
boccadelante! formas que sahiram de lobagante, pelo processo da ety-
mologia popular. E em Astúrias dizem até Uocdntaro e leocántaro!
Este nome archaico da capella-mór, que S. Rosa de Viterbo de*
rivava de òaioq 4 , representa ausla, de absida (=abside ctytç); ou tal-
vez *absidia (cfr. porfia, de perfídia), se a fórma latina tinha tomado
feitio realmente popular em Portugal.
Parvo = simplório é parvulus, como se conhece pela antiga e&-
cripta parvoo. Outra prova está nos derivados parvóinho, parvoíce, par-
voiçada, parvoejar, parvoalho, parvoeirão, emparvoecer e no feminino hoje
vrar f de calavera = calvaria (port. mod. caveira) = ferir na cabeça, quebrar a
cabeça, em sentido real e figurado (den Kopf zerbrechen, den Sckãdel spaltenj, cast.
des-calabrar (descalabradura, descalabro) ; cat. escalabornar (escalabro, escalabra-
mentf escalabradura).
1 Cfr. Baldaque da Silva, Pescas em Portugal, pag. 60 c 446, onde encon-
trarão o retrato d'este saboroso crustáceo. Os diccionarios dão labuganíe.
2 Alvaro de Brito moteja d'um collega, piotando-o com unhas brancas (!)
de minhoto, e pescoço (!) de Uobagantel
3 A poesia citada emprega lubaganto (em rima com quanto).
* Cfr. Brandão, Mon. Lus., v, 17, 50, n. 274 v. (oossia de bosios).
LIX. OUSlA
LX. PARVO
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FRAGMENTOS ETIMOLÓGICOS
179
isolado párvoa (cfr. o archaico diáboa, assim como nódoa, magoa, iaboa,
paravoa, regoa, névoa, semea). Muitas das fórmas antigas em oo àtono
foram banidas da lingua culta, sendo substituídas pelas fórmas erudi-
tamente alatinadas, p. ex. : musgoo por musculo (por causa de musgo
= museus) ; triboo = thuribulum ; estimoo — stimulus ; diagoo = diaconus.
Outras subsistiram, alliviadas de um dos dous oo átonos. Aos exem-
plos conhecidos, citados em parte por Cornu, § 263 (povo, bago, ca-
bido, artigo, perigo, diabo, vinco, brinco), ha que acerescentar bastan-
tes: beco (=vicculus por viculus?); jugo (=jugulum); lobo (=lupu-
lus); volvo (=volvulus); vido (betulus), no nome próprio Fonte do
Vido (ou do Vidoeiro).
LXI. PÁTIO
De cada vez que as minhas ideias convergem para este vocábulo
peninsular, com o vivo desejo de achar a sua etymologia, offerece-se-
me de novo, e com exclusão de qualquer outro modelo, o adjectivo
hypothetico * patidus, de patbre = estar aberto. Mas como explicar a
permanência do t entre vogaes? Porque é que não temos padio (pai-
do) (cfr. nédio, de nitidus, e pudio (gal.) de putidus). Só se * patidus
deu em latim vulgar pattus [cfr. *mattus, *puttus, *nettus] f sendo o i
perdido reintroduzido mais tarde, como em nervio x , lirio, cirio *, estú-
dio, vidrio, adrio e tantos outros vulgarismos a que jà me referi. Os
derivados castelhanos pat-in, pat-inejo, pat-inillo } podiam vir directa-
mente do supposto pato (—pátio).
lxii. pazída
Nos diminutivos em zilho, zinho, o z é herança latina. De ahi o
z em outros suffixos diminutivos e augmentativos (zito, zarrão, etc).
Mas o infixo em pázada, mãozada, romanzeira, maçanzeira, cacao-
zeiro, reizeiro, lanzudo, mâozudo, marezia, galézia, engranzar, espezi-
nhar, encanzinar, e outras formações parecidas ? Nfto creio que a epen-
these seja puramente phonetica, e tenha o fim de annullar o hiato,
sendo a lettra z escolhida por causa da analogia com os diminutivos.
Nâo representará antes o s dos pluraes mãos, romans, maçans, lans,
mares, etc.? Pázada p. ex. emprega-se quasi sempre no plural «às pá-
zadas» ; e em engranzar a palavra primitiva foi evidentemente grãos.
LXIII. PEÇONHA
Potione deu poçon, cujo género oscilla. No Cane. da Vat., 1:112, e
nas Cantigas de Alf. x, 188, temos o poçon; cast. poçon no Alex., 2:010,
Conq. Ultr., 444, 499, 686. De poçon vem os verbos poçòar e empo-
çòar, assim como os adjectivos peçõento, enpõçoado (Alf. x, 201). Se
i A lingua litteraria só conhece nervo.
* Alfonso o Sabio emprega Uro e ciro.
180
REVISTA LUSITANA
considerássemos unicamente a formação portugueza, diríamos que a
difficil pronúncia do õ antes de vogal foi alliviada pelo abrandamento
da resonancia nasal em ny, produzindo-se assim poçonhento, empoça-
nhentar, de onde o novo substantivo poçonya [Alf. x, 222, 315]; e só
posteriormente peçonha. O gallego visonha, vesonha por vison teria pas-
sado pelo mesmo processo. O castelhano pozona e ponzona, por influen-
cia do segundo n, oppõe-se, comtudo, a esta explicação *. — Por isso
teremos que dizer peçonha por poçonha, de poçon, com troca de sufi-
xos, servindo de raodêlo vergonha, rigonha (= iracundia), tnençonha
(=mentionea) [Vat, 1:154], besonha [Alf. x, Cant. 7]. Cfr. gall. lego-
nha, ligonha (—sacho) ao par de legon [lat. ligone] e caloHa (=oalu-
mnia).
Pimpolho (cast. pimpollo) nfto provém de pampankllus (Diez, n)
nem de pampinus (Coelho), nem de pullulus (Dicc. de la Acad.). Vejo
n'elle o composto pini-pdllus. De rebento novo do pinheiro (que foi
sempre chamado pino em portuguez archaico), i. é: da arvore princi-
pal das mattas portuguezas, pimpolho passou a denominar os renovos
de todas as arvores, não excluindo a videira, e por extensão até a
prole humana. No Foro de Alfaiate (1188 e 1230) leio: «Çwí pino
taiare inforquen-lor> e ainda: *qui pino descortezare aut pin-polo taiare,
pedet mi morabitinos médios*. (Port. Mon.: Leges, 810). E Curros Hen-
riquez, nos Aires da mina terra, a pag. 5 : «pola esgallada de xiganU
PINO*.
A' fórma moderna pióz precedeu pió [pl. piós; Cane. de Ses., n,
431] e em tempos mais antigos peyô ou peyóo [Mon. Leges, pag. 193:
peyoos de azor). A comparação com o parallelo castelhano pihuela e
com o verbo apiolar (gal.) mostra que estes termos de volateria, as-
sim como o vocábulo náutico piola (cast. cabo-fino) representam pb~
diola, e sflo, portanto, um derivado de pede. Com relação ao género
feminino, confronte-se peia [de pedica, por meio de pegida]. Ao lado
de pihuela temos ainda, em castelhano, a variante pigúela (cfr. al-
dkagúela, coRREGúELA, etc.). Esta fórma passou para Portugal, via
Tras-os-Montes, onde produziu por nazalisaç&o do i, antes do g, pin-
goela, o nome de uma armadilha, ou seja laço, em que se prende caça
miúda. O z final em pióz provém do duplo plural piôzes, de que jâ
tratei. (V. n. 0B 7 e 19).
Pragana, paragana (com levíssimo svarábakti), pagrana e sspi-
grana designam as barbas nas espigas de centeio e trigo. — Espigrana
i Pezon, no Poema de Alex., 134 ; ponçoha, no Poema de F. Gonzalez, 111.
LXIV. PIMPOLHO
LXV. PIó(z)
LXVI. PRAGANA
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PfiÀGMÊNtOS ETf MOLOÔICOâ
181
por espigab-grana ? Â segunda parte lembra com insistência o alle-
mfto Gratine, Grane = Aehrenslachel. O primeiro ga seria supprimido
para desfazer a apparente reduplicaçâo.
LXVII. PRIADO
O portuguez arcliaico oferece algumas vezes a formula tos? e
priado por: deprompto, rapidamente, apressadamente. Temos priado no
mesmo sentido em textos castelhanos: nos cantares de Fita, 927; no
Poema de F. Gonzalez, 563, e na Conq. Ultr., 273, 304, 344; privado
como adverbio em Berceo i S. Dom., 38, S. Oria, 10; em Fita, 1158;
no Rimado, 1:061; e no Poema do Cid, 1:051 e 1:061, e como adje-
ctivo no Poema de Alex., 1:520 e S. Dom., 566. — Qual das duas fór-
mas é a primordial? Baist (Gr. Gr., § 40) deriva privado, de priva-
tum. A mudança de significação não se oppõe em absoluto : o que se
faz e se diz em segredo e às occultas, faz-se e diz-se em geral muito à
pressa. E a queda do v (b) entre i e a, e i e o é vulgar [cfr. estio, rio;
os adj. em io = ivus 1 ; malvaisco e viaz; os imperfeitos em la, de iva
=ibam]. Mas o comparativo prius, accrescentado do suffixo -ado,
como em demasiado, de magis, também não convinha mal. Teríamos
n'este caso intercalação de v, como em louvar, ouvir, gouvir, chouvir,
esgrouvinhar, couve, uivar, Ovaya. O único inconveniente que vejo, é
que todos estes exemplos são exclusivamente occidentaes, e que, mes-
mo entre elles, não ha um único em que v annullasse o hiato entre i
e o. Só de u (o) é que se desenvolve a semivogal v.
LXVm. QUEIRÓZ
Ignoro ainda a etymologia d'este nome de família, que é ao mes-
mo tempo um nome de planta. Vou comtudo, ajuntar de prevenção
alguns materiaes para eu, ou outrem, os aproveitar de futuro. Os
Queiroz chamam-se em Galliza Quirós *. A planta vulgarissima em
toda a península, a que no Norte de Portugal se dâ o nome queiró,
quiró ou queiróz, cairóz, mas também teiroga, é a ericacea calluna vul-
garis *. Em Galliza temos a fórma correspondente feminina queiroa 1
(e queiroga); em Castella quirihuela. A fórma- typo que devemos sup-
pôr como base commum de queiró, queiroa e quirihuela, movei como
todas as fórmas em iolus, deve ter sido: kariola (cariolum), kairiola
* Macio, mar chio, radio, sadio, sombrio, tardio, vadio, vazio.
> Lembro o poeta cTeste nome, que contribuiu com algumas dúzias de can-
tigas para o Carwionero General.
* A's vezes prestam indevidamente o mesmo nome ao helianthemum e a ou-
tras cistineas (que nas charnecas e bouças portuguezas crescem de mistura com as
urgueira8 e callunas) como ainda á carqueja (qenista tkidkntata).
4 As fórmas gallegas atroa, filhoa, aixoa, que correspondem ás portuguezas
eiró, filhó, enxó, já foram citadas nos artigos que dediquei a idtó, ilhô, btlliô, eiró,
yrijó, pió e outras palavras do mesmo grupo*
i8â
REVISTA LUSITANA
ou kirriola. E' de presumir que fosse grega, como tantos outros nomes
botânicos d'estas regiões. Mas onde existe? e que significava este
desconhecido ?
Este prato popular do Natal, cuja singelíssima receita manda
banhar fatias de pilo mollete-trigo em leite e mel, ou era vinho com ca-
nella e assucar, revesti-las (querendo) depois de pfto ralado, e frita-las
em seguida [igual, portanto, ao Arme-Ritter da Àllemanha] não pôde
estar em relações de parentesco com rábanos ou rabanetes. A base da
palavra, assim como a matéria prima do prato, deve ser panis. A
forma gallega rebanda (cfr. gando = port. gado por gaado, ganado 1 , e
manda por manada) fazer-me-hia crêr que o modêlo fosse re-pan-ata;
se a fórma empada por empaada, de im-pan-ata, não se oppozesse, até
certo ponto, pela maneira como o p e o n, ambos inter vocálicos, fo-
ram tratados. Digo até certo ponto, porque, ao par de empada (pa-
deiro, etc), o portugnez possue panar (agua panada), empanada, em-
panadilha, e o antiquado panaria (celleiro de pão). Talvez houvesse
influencia de empanado = impannatus (envolvido), em ambos ou todos
aquelles termos culinários que s&o semi-eruditos.
Este adjectivo archaico hespanhol, empregado por Berceo e Fita *,
com applicaçâo a uma pessoa que errou o caminho e anda tresmalha-
da, ou também a uma coisa que se perdeu ou transviou, jâ desappa-
receu do uso. Em Portugal existem, comtudo, dois adjectivos diver-
sos, correspondentes: o termo popular e pastoril arredio, que se re-
fere á rez apartada do rebanho; e a fórma litteraria erradio, que se
diz de quem vagueia ou anda vagabundo. O primeiro provém de eb-
trum, que perdeu o segundo r (por dissimilaçâo) em todos os deriva-
dos (arredar, arredor, redomoinho), apparece quasi sempre acompa-
nhado do prefixo a(d), e mudou algumas vezes o e, quando àtono, em
a, pelo contacto com rr, (como em demADeiro). Representa, portanto,
um hypothetico: ad-hrtr-ivus. O segundo é evidentemente errativos.
— Quanto a radio, pôde ser uma e outra coisa. E se a fórma arradio
existisse, como intermédia entre arredio e radio, nfto haveria incon-
veniente algum em considerarmos todas as tres como reproducções do
mesmo modêlo errativus, visto que errar apparece muitas vezes na
variante arrar *. .
* O castelhano chama-as albardadas ; e esta denominação tem curso também
em Portugal.
* Berceo, Mil. 884 : tandaban en radÍo los que por mal nacicron» ; ib. :
*230 jndgneMi lo por bestia e. pnr cosa haví \» — Pita, 902 : mia carrera haa errado
et ando* como rad/»» ; ib , 963 : irad/o ando, serram, en esta grand espessura*.
* O grande Albuquerque escrevia sempre arraf»
LXJX. RABANADA
LXX. RADlO
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fragmentos htymologicos
183
LXXI. REMATE
Ha nas terras de Hespanha um processo singelo e muito popu-
lar de reforçar o sentido de qualquer palavra de funcções relativa-
mente independentes (substantivos, verbos, adjectivos e advérbios) sem
lhes modificar coisa alguma da sua significação: é ajuntar-lhe o pre-
fixo re. Não e renão (=nein und abernein)! sim e resim! soy tuyo e
retuyo! está bem e rebem! bueno e rebuenoí meu senhor e resenhor! '
picaro e repícaro (=Schelm und ErzschelmJ! maldigo-te e remaldigo4e,
sflo expressões que, em linguagem familiar, se empregaram antiga-
mente innumeras vezes, quasi sempre em estylo jocoserio ou comica-
mente emphatico. E o verdadeiro povo ainda hoje nâo deixou de as uti-
lizar e de crear modismos semelhantes. Posso fornecer as provas escri-
ptas de varias dúzias de formulas (Peste género, recolhidas nos autos
de Gil Vicente, Prestes, Simfto Machado e mesmo em Camões (que diz
vosso e revosso), assim como nas eglogas de Juan dei Encina, Lucas
Fernandez e o próprio Calderon 1 . Eis uma amostra de adjectivos:
re-bueno, re-malo, re-prieto, re-farto (re-harto), re-tanto, re-melhor (re-
tneyor), re-crú, re-cheio (re-lleno), re-llano, re-louco, re-bonito, re-limpio,
re agudo, re picado, re-quebrado, re-contente, re-vosso, re-seco, re-peor; al-
guns tempos verbaes como dado e redado, viva e reviva ! (Calderon :
Hoch und abermals hoch/J, re-pregunto, re-coze, re-merito, re-maldigo,
re-mantenga, quero y re-quiero, re-miro, re-mando, re-passo; uns poucos
de substantivos : resenhor, re-lume, re-folho, re-brilho, re-traque, re-pa-
nella, peras y re-peras! cuerno y re-cuerno! celos y re-celos! ilules y re*
fíulesl; e os advérbios: re-mucho, re-bien a . Dos numerosíssimos casos
em que o prefixo re se ligou indissoluvelmente ao corpo das palavras,
communicando lhes uma significação divergente, nâo ha necessidade
de failar aqui 8 . Mais vale mostrar quão vivaz era este processo de
formação, mencionando que ainda havia um terceiro grau, um super-
lativo de reforço, expresso pela duplicação de re; i. é: por ar re ou pelo
prefixo ires, ire (=trr?, tres?, trans? 4 ). Podia-se dizer: nego, rene-
go, arrenego; gosto, regosto, arregosto; atar, reatar, arreatar ; jurar,
rejurar, tresjurar; suar, resuar, tressuar; louco, relouco, treslouco; ler,
relér, treslêr; panno, repanno, trespanno. E como o povo meridional
1 Ha exemplos nas Obras de Gil Vicente, i, 40, 52, 82, 84 e 226 ; n, 76, 169,
257 e 366 ; m, 8 e 224 5 em Prestes, pag. 185, 201, 310, 323 e 457 ; em Encina, 9,
70, 76, 128, 129, 130 e 161 ; na Picara Justina, 46, 72, 115 e 206; na Sotileza de
Pereda (para citar um moderno) e em muitos outros escriptores.
4 O andaluz, que é amigo de multiplicar os effeitos, diz : bien l rebien t ra*
ttbien ! requetebien t
* íTeste caso estão requebrado, repassar, repicado, recozido, receio, requerer
e recheio, que são diversos do meu re*cheio, re-quero, etc.
A No primeiro periodo da linguã portugueza o adverbio per era preposicional
e separável como re, e fazia o mesmo serviço, fortalecendo e aiiguientaiido o sen-
tido das palavras. Ha profusão de exemplos no Cancioneiro da Vatkana.
164
REVISTA LUSITANA
gosta em geral das fórmas emphaticas, as compostas substituíam em
muitos casos as fórmas simples que se perderam, como em recadar,
arrecadar l ; remessar, arremessar (de missus, part. perf. de mittere);
remansarj arremansar; rebitar, arrebitar; tresvairado, etc.
Pois bem: eu penso que remate (=fim, final) pertence aos ter-
mos reforçados com re. Mas n&o o considero como substantivo verbal,
tirado de um verbo rematar = acabar, terminar, pôr termo e fim; e
muito menos vejo n'este verbo o re + matar (=mactare); i. é: matar
pela segunda vez, ou matar completamente * Na minha opinião re-
mate é re 4- mate, o adjectivo árabe mate, que significa também morto
ou matado, mas que o povo portuguez nâo empregava n'este seu pri-
meiro sentido porque o conhecia somente do jogo de xadrez. Da for-
mula matei rematei (=mati! schachmattj chegou-se primeiro a phra-
ses como dar remate 8 ; e só posteriormente derivou-se d'aquelle ter-
mo, considerado como substantivo, um verbo rematar e arrematar.
A fórma antiquada remusgar (Cane. Col. Br., n.° 1:536), que o
re-vulgo emprega ainda, auctoriza-nos a considerar resmungar como
metathese de re-muss-icare (ital. rimucchiare) por re-muss-itark (cast.
musitar), com mudança de suffixo, acceitando a explicação de Coelho
(Manual) e de Cornu (Gr. Gr., §§ 151 e 232). — Do mesmo modo te-
remos que explicar resmonear (de onde resmoninhar, com a vulgaris-
sima introducção ecchoativa de nh depois de ni) por re-mus$i-nare. E
rosmar (gal. rosmear) (Gil Vic, ih, 73), de onde rusminhar? Por nus-
mar, de musnar = mussinare? Duvido, e muito.
Esta expressfto castelhana não provém de republicus, como é cos-
tume asseverar, nem tampouco de dominus vulgus (!), como se lê em
Ticknor e alhures. Revulgo é re-vulgo, o archi-vulgo, der Erz-Põbel,
tfto vigorosamente caracterizado na pessoa do pastor Domingo ou
Mingo pelo auctor da velha egloga satyrica, o qual talvez fosse o
primeiro inventor do termo.
l Cadar existia ainda em princípios do sec. xn. Veja-se Cane. de Res., nt,
pag. 473 : •nam tem cabo a gram fama que cadays».
3 O povo pode ter dito alguma vez : «matei t rematei /», como diz *está morto
e remortoU. Mas um enfraquecimento da palavra matar a tirar a vida, causar a
morte, de modo a significar apenas terminar, acabar, parece-me inaudito.
3 Remate ó, portanto, o representante popular do termo culto : xeqnemate.
LXXII. RESMUNGAR
LXXin. REVULGO
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fttÁÓtfENTOS ETYMOLOGÍCJOS
LXXIV. SARDA
As manchas pequeninas, mas nada bonitas, de cor amarellada,
que se desenvolvem tantas vezes no verão na testa e nas faces das
pessoas louras, de tez muito branca, e que desapparecem mais ou me-
nos durante o inverno, s&o consideradas pela maioria (quer com ra-
zão, quer sem ella) como filhas dos bagos de suor que serviram de
foco aos raios do sol (Sommer-sprossen). Serão suardas ? i. é : formadas
da raiz su(d-, que temos em suar, suor, etc, e do pouco usado suffixo
ardo, arda ? Cfr. javardo, felizardo, gabinardo. — A por ud, como em
consante, de consuante=consonante; calha-leite por cualha (coagula) = e
leite; cairo, de quatro; canto, de quanto, em canté; calheira, de coalheira
(1.° estômago dos ruminantes), cartilho, catorze; gal. sarego por sna-
rego — solar ego (pedra do lumiar; allemáo Sdhwelle l ).
Sinceiro é o nome de uma espécie de salgueiro, arvore profusa-
mente espalhada por todas aquellas regiões de Portugal em que a
agua abunda, mas muito vulgar principalmente nas ribeiras do Mon-
dego, cujos decantados sinceiraes fornecem a matéria prima para os
palitos lisos de Coimbra e Lorv&o, e os floreados de Penacova. Mi-
guel de Leitão de Andrada, o muito phantasioso auctor da Miscella-
nea, deriva o nome da arvore, do rio Zêzere (Ozezar=Ozecarus *).
Escusado dizer que esta etymologia é absurda. O sinceiro (cinceiro e
zenzeiro) era antigamente um seiseiro, ou mais correctamente um sei-
cerro 8 , cujo thema seice, o latim saVce por salice, é idêntico ao thema
de salgueiro. Salgueiro representa sai/carius (gal. salguera, astur. sal-
gar). Os provincialismos salga e sarga entroncam em saVca, como
pulga em puVca. Sal'ce deu em castelhano salce (de onde salcedo, sal-
i Não cito macho (= muar), de muacho, porque esta etymologia não teve o
assentimento dos entendidos ; ignoro porquê ; talvez porque lhes repugne imaginar
que tres palavras masculus, marculus e mulacho, convergissem.
* A pparen temente a etymologia de Leitão é boa, visto que elle chama ao rio
Zensere, e á arvore Zenzereiro. Mas esta ultima forma, que ainda nâo encontrei em
outra parte, e que talvez fosse forjada ad koc, seria, no caso melhor, apenas uma
transformação tosai de seiceiro, inventada inconscientemente para approximá-lo
de Zêzere. V. Misc. Dial., i, pag. 8 e 9 da edição de 1867 : «« por entre ella (a ma-
dresilvaj o tenzcreiro louro, e a murta» e: >eo notável %enxereiro, arvore a quem o
rio deu o nome por se criar somente nelle grande e copado».
3 Encontro seiseiro n'um documento de 1361 (Gabriel Pereira, Doe. Ebor.,
pag. 58), onde diz : i talham o* freixeiros e seiseibos das ribeiras e as outrat arvo-
res»; cejceibo nos versos de Ferreira, Egl., ui, 7 : «ao pé de hum grã cetoeieo ro-
deava o gado de Castaleo e de Serrano»; e no Palmeirim de Moraes, u, cap. 64 :
«as aguas delle estavam á sombra de uns ceickiros verdes de que o tanque se cerca»
va»; cincfiro na Insulana de Manuel Thomas, iv, 22 : iteciâo mil enredoê os cikcki-
ro§ abraçando os vinhntegos compridos»; e * sinceiro na Eufrosina d« J. F. de Vas-
concello» (Prol, pag. 12; : «á sombra dos verdes sincerais do Mondego».
LXXV. SINCEIRO
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i8é
HEYISTA LUSITANA
ceda), e por vocalização do / consoante: sauze (de onde saucera, sau-
zal, saucedal), e secundariamente saz (cfr. calce, cauce, caz, de cal'cb).
Em portuguez salce, que vive nos nomes de lugar Salzedas (de onde
Sarzedas e Sarzedo), produziu saice, e em ultimo logar seice. Ai de al
consoante como em Saimão, de SaVmão, em sino-saimão (que expliquei
mal na Miscellanea). Ei de ai, como em meigo (magious), eido (aditus),
treidor (thaditor). De seice \ que nfto subsiste, derivaram seiceiro, por
meio da terminação eiró (arius), que encontramos em qúasi todos os
nomes de arvores portuguezas : freixeiro ao par de freixo * ; sobreiro,
de sovaro = sdbkr; sabugueiro, de sambucus; loureiro, de laurus; azi-
nheiro, de azinho = ilicinus ; bidoeiro, de bidoo, bido = betulus ; vi-
meiro, de vime (vimine). A troca de s e c não tem nada de estranha vel,
visto que a velha distincçfto entre os dois sons se obliterou em quasi
todas as províncias portuguezas 8 .
W. Meyer Ltibke duvida da minha etymologia (* sessicare), por
causa da conservação do i átono 4 . — O verbo e o substantivo verbal
sessego, sossego, estão, comtudo, nas mesmas condições como emprego,
carrego, repollego, trasfego, apolego, entrego, escorrego, espernego, estor-
tego, fumego, navego, verdego, lostrego (gal.), castego (port. arch. nos
lned. de Boav., in, pag. 100); semeio, tempero, arremedo, hospedo e
outros. — Confira-se também mossegar (variante de mor segar) =mor-
éucábe.
Os diccionarios classificam tepêz como adjectivo, traduzindo-o por:
«contumaz, teimoso». A meu ver tepêz é o resto de uma formula bas-
tante vulgar, repetida durante sete séculos tanto a miude, até que se
tornou proverbial. Um homem tepêz é o cabeçudo que nunca se digna
acceder aos desejos dos outros, mas responde cada vez que lhe pedem
de não fazer isso ou aquilloutro: *fazél-lo-hei, mal que te pêz ou ém
que tk pêz».
1 Se nâo fosse regra preferirmos sempre uma fórma românica commum, ott
pelo menos hispânica, a outra meramente luso-romana, seice podia ser explicado
pela queda do / inter vocálico. Cfr. saiva, de saliva (Vai, 1:071) ; matça, de ma-
litia; *eir, de *air f de salihe (Vat, 561).
* Freixieiro vem directamente de * fraxui arius, como vimieiro, de * vim ima -
mos.
• Esta etymologia já está no bello estudo de Cornu (8§ 161 a 270) e no Sup-
plemento ao Manval de Coelho. Mas como ambos não podiam al legar as provai
históricas, as minhas explicações ainda nâo sâo intempestivas.
4 Z$chr, li, pag. 270.
LXXVI. SOSSEGAB
LXXVU. TEPEZ
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FRAGMENTOS RTTMOLOÓICOS
LXXVÍII. TOIRÃO
O portuguez chama ao farfto bravo toirão ou tourão, como que
aquelle animalzinho inquieto e feroz fosse nm touro de grande bra-
vura (tadrus, conforme Coelho assenta no Manual). Já em 1253 este
nome existia. A pauta impressa nos Monumentos Históricos (Leges, pag.
193) falia do tourom. Tenho, comtudo, razões para pensar que a fórraa
originaria, ainda nâo influenciada pela etymologia popular, fosse tuiro,
turo, e que o alargamento por meio do augmentativo om teve apenas
o fim de o fazer rimar com furom \ o nome usual do tourfto domes-
ticado f . Turo, tuiro, parece-me ser um reflexo do adjectivo putorius,
que era inseparável do nome latino do Fretttciesel ou Stinktierchen.
Em furom [p]tuiro ou toiro, temos, portanto, se a minha ideia fôr
acertada, a nada rarà queda de uma syllaba protonica (que, com
pouco acerto, costumamos chamar apherese). U por ui, como em abu-
tre, de abuitre, vdltur; ventura, de ventuira; chuva, de chuiva; munha,
de muinha; pude, de puide (potui); punha, de puinha (puia); cume/ de
cuime; gal. runa, de ruina, etc.
LXXIX. TOSCANEJAR
Toscanejar é um termo metaphorico, por meio do qual o povo
graceja, rindo do dorminhoco que quando devia conservar-se acordado,
está a cabecear e cahir com somno, abrindo (muito pouco) e fechando
a miude os olhos, como se fossem um par de tesouras de tosquiar. Um
poeta do Cane. C. Br., n.° 1:539, jà dizia no século xiu ou xiv: tos-
guiavam estes olhos meus». — Penso que toscanejar é uma contaminação
dos verbos tosquiar e de pestanejar, que ambos tinham a mesma si-
gnificação.
LXXX. TRANS
0 povo portuguez aborrece todas as syllabas «pesadonhas» e «en-
fadonhas», em que a vogal é circumdada de quatro consoantes. Aos
analphabetos custa immenso pronunciar p. ex. o prefixo trans. A regra
é alliviarem-no, supprimindo o n e pronunciando tras ou tres (irasferir,
1 Em castelhano temos também turones e furones (Prosas, pag. 248). Farão
(fem. furoa), antigamente furou , foron, cast. moderno huron, do lat. fubomjb, que Isi-
doro de Sevilha menciona. Em portuguez toirão designa em sentido metaphorico
depreciativamente uma criança turbulenta e traquina, assim como furão se em-
prega de uma pessoa entremettida e curiosa.
> O furão serve ainda hoje na caça dos coelhos bravos, em cujas luras entn,
sahindo do pequenino cacifre de cortiça (em que o caçador o costuma levar), para
com os teus formidáveis dentinhos de roedor obrigar os laparos a sahir. Alfonso x
refere- se na Cantiga 354 a este antiquíssimo uso, designando, de resto, o furão
com o seu nome gal lego [donazikha. = pequena mulher; allemAo JPraucheti]. E diz í
thú* bestivla a que ohaman donenynna os galegos . . . et tirava con eia aves das
wvasn»
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fatEVÍSf A ttfSlf ÀNÀ
traspôr). Mas mesmo este tras e tres nâo é do agrado de todas as boc-
cas. Ha outro meio engenhoso de se desembaraçarem do importuno:
a transferencia do s para a frente [stra, stre], que geralmente accres-
centado de um e surdo dà: estra. — Eis os meus exemplos. Os que veem
de Tras-os-Montes dizem, por via de regra, que s&o estramontanos ;
lembram-se com saudade do lar paterno com o seu estrafogueiro ou
estrafegueiro (=tras-fogu-eiro), e sentem-se como estramalhados (tres-
malhados), extraviados (transviados), ou estremudados (transmudados).
As lavadeiras de Paranhos usam de estrepasso por trespasso (= rebu-
ço), e de estraparente (por transparente). Na mesma categoria entram :
estravasar (= transvasar); estrabordar (= transbordar); estrelèr (—tres-
ler); estranoitar por estrenoitar, usado por Camillo, estrugeitante por
estregeitante, de trasgeito l ; estruquiar por trusquiar, que recolhi em
Vizella; escrimar por crismar (que é de Penafiel); espamado por pas-
mado; e o gallego esbabacar por embasbacar. Até certo ponto também
esmol(n)a por elmosna — talvez a primeira entre estas fórmas que al-
cançou fóros de litteraria
O sensível contraste entre as fórmas pronunciadas pelo vulgo e
as que a gente «fina» emprega, produz, todavia, uma singular confu-
são, impulsionando alguns semi-doctos a introduzirem tras e tres erro-
neamente em palavras a que tal syllaba nfto pertence. Assim é que
nasceram trastagema por estratagema; trastega por estratega; trasva-
gante por extravagante, e até tresnado por estrenado (estreado) (de
btben[n]a) em GaUiza.
Nas suas interessantes observações a respeito da morphologia
complexa de trahebb, Leite de Vasconcellos nfto se refere ás fórmas
archaicas que servem de epigraphe a este artigo 9 . O imperativo trey
(com accento no é) por tray (cast. trae) representa evidentemente
tbahi como trêyde\s\ trahite, trahitis. Diez (Hofpoesie, pag. 134) e
Monaci (Cant. Ant. Port., pag. 29) inferiram d'aquellas duas fórmas
um falso infinitivo treyr, que nunca existiu. O que é notável, é o sen-
tido que se ligava àquelles imperativos, porque equivalem a vem e
vinde \ Julgo que é preciso partir da fórma reflexiva: treyde-vos —
trazei-vos a vós mesmos, que occorre duas vezes no Cane. da VaU-
cana.
l Trasgeito* (nuHs-j- jactas) por esgares t caretas, occorre nas Cantigas 77 e
78 de D. Alfonso z ; tregettos nos Documentos Eborenses, pag. 150 e 189. Kesende
emprega na MisctUanea e na Chronica (pag. 347) a fórma tresectadores tregei*
tadores), para designar, nfto como de costume, uns «pultriqueiros» (**= pelotiquei*
ros) mas «esgrimidores». Estrugeitante é dos Contos populares de Coelho (d.* 15).
* Nfto sei explicar satiefactoriamente estremunhar e estrebwcar.
* Rev. Lus., ii, 269 e 349.
* Bring dich selberl komml tile dichl
LXXXI. TREY, TREYDE[s]
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FRAGMENTOS KTYMOLOOICOS
1) Cane. Vat, n. a 173, 13-15:
Selad' o bayoninho — valha deus!
treyde-vos, ay amigo
e guisade d' andar l
2) Jb., n.° 751, 7, 15 6 23:
E depoys treydes-vos migo
meu amigo demandar.
Th. Braga escreve : terey de lo veer comigo (!).
3) lb., 266, 5, 11 e 17 : Theyde-lo veer comigo,
Irmâa, o meu amigo.
4) Ib. f 343, 1 : Treydbs todas, ay amigas, comigo
Veer hum home muyto namorado I
5) lb., 878, 1 : Treydbs, ay mha madr', em romaria
Ora hu chamam Sanda-Cecilia.
6) lb., 878, 6 : E treydes migo, madre, de grado.
7) lb., 886, 1 e 6: Mha irtnana fermosa,
treydes migo
a la igreja de Vigo.
Mha imana fremosa,
treydes de grado
a la igreja de Vigo.
8) lb., 888,l,5 r 7e 10: Quantas sabedes amar amigo
treydes comigu* a lo mar de Vigo.
9) lb., 891, 1: Que/ ir a Sanda Maria de Leça
e irmanas, treydes comigo l
10) lb., 1:062, 8: Et por deus amigo trey-nos, (em rima com fi-
gos çofeinos).
Nas cantigas de Santa Maria só encontrei uma vez treydbs (n. a
216), e uma vez trey (n.° 325).— No castelhano archaico posso apon-
tar apenas o trrd do Poema dei Cid. (Amos tred al Campeador con-
tado). — Cornu registrou trey, treydes,- no § 323 da sua Orammatica,
s. v. trazer.
LXXXII. tadío
Eu separo vadio (vadiar, vadiagem, vadiação, vadiice) de bala-
ii(o), valadi(o), derivando o primeiro (com Coelho e Schuchardt x ) de
vagativus, e só o segundo do árabe: baladi. Vadio jà existia na fórma
vaadio, e com a significação hodierna de vagabundo, erradio, no pri-
meiro período da língua a , emquanto valadio, que hoje parece morto,
i ZeUschrift, xiit, 525. — Cornu (JJ 131 e 255) adoptou a derivação de Gon-
çalves Yianna, que se pronunciara a favor do étymon árabe.
s Tenho a certeza de o ter lido nos Monumentos; mas não encontram os
respectivos trechos.
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190
REVISTA LUSITANA
ainda vivia no século xvin inalterado, sem perda do sen l, O poeta
Garção exclama, p. ex. : «Mas de poeta, amigo, só me resta De vala-
dio o texto, a vinha calva, Desastres e misérias, filhos rotos* K
Noto um lapso singular na minha interpretação de marmar. Quem
de uma arroba de ferro fabrica duas enxadas, de 9 arráteis e meio
cada uma, fica ainda com 13 arráteis, que crescem ou sobejam. Mar-
mar é portanto o opposto de mingar. Teria graça se, estando por
masmar, a palavra representasse maxjmare fallando n'este caso a fa-
vor de mínima re como etymon de mingar. Cfr. cirne, cisne; churma,
chusma; gorm-, gosm-; garg-, gasg-; e marm(anjo), masm(arro).
Porto, Janeiro de 1894.
Cancioneiro de musicas populares para canto e piano, por Cesar das Ne-
ves & Gualdino de Campos. Porto, 1893 1894. (Em publicação. Sae em fasciculos).
Já em 1872 Neves e Mello publicou como ensaio um livro de Musicas e can-
ções populares. Depois d essa data nâo me consta que Be tenha publicado mais ne-
nhuma obras do mesmo assumpto; apenas sei que o Sr. Pedro Fernandes Thomás
está preparando um trabalho análogo á cerca da Beira. A ideia dos Srs. Cesar das
Neves e Gualdino de Campos é muito boa, pois na nossa litteratura, onde ha tan-
tos trabalhos sobre poesia popular, sente-se ainda a falta de abundante collecçito
das musicas genuinamente populares, que por toda a parte, nas aldeias, como nas
cidades, nas lidas agrícolas, como nas occupaçoes caseiras, aconjpanhào sempre a
cantiga, a zacara, a rima.
Nâo possuo conhecimentos technicos para poder apreciar a parte musica)
d'esta obra ; limito-me, pois, no que vou dizer, á parte puramente litteraria.
O trabalho abre com uma introducção do Sr. Theophilo Braga, onde este A.
reúne várias noticias interessantes da antiga musica portuguesa. Algumas obser-
vações meudas lhe podia eu porém fazei.
Com relação aos textos poéticos coordenados pelo Sr. Gualdino de Campos,
devo manifestar muitas reservas. Este auctor nâo conhece suficientemente a poe*
1 Ignoro o que seja telha valadia.
LI. MARMAR
Postscriptum de 5. vn. 94.
Carolina Miciublis de Vasconcrllos.
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BIBLIOORAPHIÁ
191
tia popular, nem tem educação ethnologica ; por taes motivos, em meio de canti-
gas genuínas, introduz quadras que não sâo do povo, por exemplo a pg. 23 :
Como esta fogueira abrasa Assim ao meu bem abrase
A minha alcachofra benta, A chamma do amor violenta.
A pg. 27 também a seguinte nao ó popular :
Ao ver na areia as pegadas Tive ciúmes da onda
Que tu deixaste ao passar, Que á praia as veio beijar.
£ a pg. 29 esta está no mesmo caso :
Vamos seguindo Que a manhã vae rindo
Por esses campos fóra, Nos lábios da aurora.
A pg. 19 ha também quadras, que, com quanto baseadas em superstições do
8. João, me nao parecem populares. O mesmo podia dizer de outras mais.
Alem d'estes apocryphos que apparecem subrepticiamente por entre o texto
do povo, o Sr. Campos publica muitas poesias que elle próprio confessa que não
sSo tradicionaes antigas, e de que até ás vezes indica os verdadeiros auctores,
como a pg. 31, Miguel Antonio de Barros; a pg. 35, Camillo Castello Branco;
a pg. 80, Castilho; a pg. 183, elle mesmo, Gualdino de Campos, e outro! Ne-
nhuma das poesias que vem a pg. 87, 123, 129, 136, 139, 143, 148, 151, 152, 160,
162, 168, 173, 178, 184, etc , é popular. Algumas são até muito conhecidas, como
O Noivado do sepulcro, A Judia, O exilio de Gonçalves DiaB ! Só por absoluta
falta de critério se poder ião ter incluido estas poesias numa collecçâo como a de
que se trata.
O fasciculo 2.°, pg. 17, abre mesmo com uma poesia, com um titulo hespa-
nhol : oh que tolero (\). Numa nota a essa poesia transcrevem os collectores as se-
fuintes palavras do Sr. Consiglieri Pedroso para justificarem o haverem deixado
car certos estrangeirismos : «Quando se trata de composições anonymas e colle-
ctivas de um povo, a genuinidade é o primeiro requisito a attender-se». Assim é,
e assim faço também nas minhas colheitas, maB é quando se trata de elementos
antigos e que já se generalizárão e tornárâo populares, e não de factos modernos,
esporádicos, e sem cunho nenhum popular : efectivamente ha elementos populares
e popularizados. Que importa que uns versos de Soares de Passos ou de Thomás
Ribeiro se vulgarizassem no povo ? Ficáo, por ventura, por isso populares ? Uma
poesia só se torna popular quando o povo a considera como sua, isto é, vâ nella im-
pressos os seus próprios pensamentos e sentimentos, numa linguagem também sua,
que elle entende perfeitamente, e até ás vezes vae modificando conforme o gôsto
individual, a tendência local, a variabilidade da ideia, e a adaptação aos diversos
usos e costumes : de maneira que, ao lermos e analysarmos essa poesia, achemos
nella um documento fiel da alma popular.
A pg. 152 ha mesmo uma poesia com versos hespanhoes ! Sem dúvida nas
nossas zacaras encôntrão-se ás vezes palavras hespanholan, sobre tudo nas xaca-
ras raianas, mas isso tem uma significação histórica, de que já fallei no meu ifo-
manceiro, e que aqui esta não tem.
No fim das páginas os collectores põem ás vezes notas, umas a respeito das
danças, outras com considerações litterarias ou históricas. Aquellas são curiosas ;
estas não se recommendão muito. Ha lá observações como a seguinte : a pg. 19
diz- se que do facto de a poesia O lavrador da arada ter o estribilho Ai Jesus vem
provavelmente «o idiotismo portuguez* (sic) é o seu ai Jesus (!).
A pg. 69 dá- se o nome de bailada a uma serie de quadras ; mas aquella de-
nominação não existe na nossa poesia popular, e alem d isso taes quadras, se não
são todas apocryphas, são -no em parte.
A pg. 70 diz-se que a musica de S. Martinho é de José Doria, e a letrra de
Palmeirim : se nem uma nem outra são populares, para que as colligirão aqui ? A
mesma pergunta se pôde fazer a respeito de outras mais peças.
A obra dos Srs. Cesar das Neves e Gualdino de Campos tem por conseguinte
193
REVISTA LUSITANA
muitos defeitos ; ainda <jue obedece a ama ideia boa, todavia esta foi mal posta
em pratica. 0 Cancioneiro fica sendo um trabalho de pura curiosidade, embora
com alguns factos que se podem aproveitar, como, me parece, A Noite de Natal,
As Janeiras, etc., no emtanto sem valor scientifíco e sem o alcance que devia ter,
e que, nelas razões que dei no principio d'este artigo, se esperava que tivesse.
No nosso pais na musicas verdadeiramente populares e características, como
s&o os Reis da Beira e do Minho, as xacaras trasmontanas, o S. João do AÍemte-
jo, as moda» das festas, dos seroes e dos diversos trabalhos agrícolas, as cantigas
do berço, os terços da Beira- Alta, etc. Colha-se isto com todo o critério e exactidão,
acompanhado da lettra correspondente, e ter-se ha produzido uma obra esthetíca
e etimológica.
E 1 facillimo colligir cantigas; mas para o trabalho de coordenação e apre-
ciação, de modo que eílas adquirâo importância scientifíca, litteraria ou artística,
nâo basta fazer o que fez o Sr. Gualdi no de Campos : é preciso mais alguma cousa
do que saber escrever a lápis numa carteira o que qualquer matrona diz ou
cauta x,
J. L. ns V.
Pobtooál mo sstraxobibo:
Em um relatório apresentado pelo Professor da escola superior de letras em
Argel, o snr. Kenato Baseei, ao Congresso dos Orientalistas realizado em Lon-
dres no anno de 1891, e que, comquanto publicado em 1892, só muito recente-
mente foi distribuído, com outros mais, como complemento, ao que parece, das va-
liosas memorias que ali foram lidas, vemos que com muito encarecimento se men-
ciona Portugal, como sendo a nação que, conjunctamente com a França, mais se
avantaja actualmente nos estudos ethiópicos.
O relatório é redigido em francês. De entre outras palavras que nos sJo gra-
tas, citaremos aB seguintes, que veem após a menção de trabalhos portugueses
neste ramo, desde o século xvu :
«Ao snr. Esteves Pereira, que restaurou, ou melhor, criou os estudos ethiópi-
cos em Portugal, devemos a edição, acompanhada de traducçao e commentario, da
chronica de Minás Em appendice acrescenta a versão portuguesa dos an-
naes de Minás, tirada da obra inédita do P. Almeida. A occupaçào de Maçuá pela
Itália dá particular interêsse a um excellente artigo pelo snr. Pereira publicado,
acêrca desta cidade, na «Revista das Sciencias Militares (Junho, 1889)*.
Como se vê, Portugal e a França occupam logar preponderante na execução
do plano que indiquei ao começar esta exposição».
O plano a que allude o douto professor consiste em se contribuir nouco a
pouco para preencher um quadro, em que estejam comprehendidos os dinerenteg
trechos históricos que hâo de formar a serie dos annaes da Ethiopia desde o sé-
culo xii até os nossoB dias.
GrOKÇALVE8 VlAHKA.
1 tio momento em que escrevo este artigo estio publlo*4oi 15 feaoioatos da obra aaalysada
pois so a ejles que a mlnaa eritioa se refere.
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MUSEU ETHNOGEAPHICO PORTUGUÊS
193
MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
«Só a educjiçrio de todas as classes
pode ler o nome de nacional, e só com
u educação nacional completa apertare-
mos nas nossas mãos a arma que nos
fará fortes, que nos fará respeitados,
porque não ha para as victorias senão
o saber. *
Mal das sociedades que ignoram a
sua estirpe, e nâo dào valor ao patri-
nionio grangeado pelos seus maiores!»
Du. flKttSAUJJiTíO Machado, Affirmaçòes
Publica*, Coimbra, 188», 170 e 348.
Bor iniciativa de um honrado o intelligente Ministro, dedicado ao
bem do seu país, e a quem a instrucção pública mereceu sempre es-
pecial affecto, e é devedora de muitos serviços, levou-se a effeito a
fundação de uma instituição nacional, que faltava ainda entre nós,
apezar de para ella existirem numerosíssimos elementos dispersos.
Refiro-me ao Museu Ethnographico Português, criado pelo Sr.
Dr. Berpardino Machado, quando Ministro das Obras Públicas.
Tem a data de 20 de Dezembro de 1893 o respectivo Decreto,
publicado no Diário do Governo n.° 290 de 22 do mesmo mès e anno.
Além dos motivos geraes qnh apontei a cima, pelos quaes o Sr.
Dr. Bernardino Machado se empenhou na execução d'esta obra meri-
tória e importantíssima, outros pesarão especialmente também no seu
ânimo, porque S. Ex. a é lente cathedratico de Anthropologia na nossa
Universidade, e como tal interessa-se pelos assumptos da Ethnogra-
phia, sciencia que está intimamente relacionada com aquell'outra.
Como diz o Decreto, o novo Museu é destinado a representar a
parte material da vida do povo português, — isto é, tudo b que a esse
respeito ethnicamente nos caracteriza. Divide-sc por ora em duas sec-
ções: uma, de archeologia, comprehendendo monumentos desde os tem-
pos prehistoricos até o século xvm; outra, moderna.
A importância de um Museu em taes condições não se pôde de
modo algum negar.
Naturalmente, quando se conhece melhor uma cousa, ha mais ra-
zão para a apreciar. Em geral o nosso povo, principalmente o das ci-
dades maiores, tem o sentimento bastante desnacionalizado: isto em
parte resulta de se conhecer mal a vida do país. As grandes exposi-
hbv. LusiT., vol. ih, fase. 3. 1
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194
^EVIST^ LU8ITANA
çõcs nacionaes contribuem para attenuar o mal; mas um museu ethno-
graphico, pela sua acção permanente, influe muito mais. Um povo que
ignora a sua história, c os elementos de toda a ordem que o consti-
tuem, não pódc ter ideal. E um povo sem ideal é como se estivesse
morto.
O desconhecimento do país, e por tanto a falta de consciência
nacional, faz que os artistas se inspirem nas ideias estrangeiras, no
theatro se representem obras traduzidas e com cunho anti-português,
os romances sejão por vezes productos hybridos, a linguagem frequen-
temente uma aravia, como se observa todos os dias nos jornaes, não
se oução nas festas públicas as nossas musicas populares, nem nos pró-
prios divortimentos do Entrudo entrem os nossos typos característi-
cos, como antigamente succedia; faz finalmente que todos prefirâo sem-
pre ao que é nosso o que vera de fóra, mesmo quando este não é
melhor. Já Simão Machado (Comedias, 1631, fls. 72 v.), disse com ver-
dade, ainda que não com tanta como hoje se poderia dizer:
Em fim que por natureza,
Òu costellação do clima,
Esta nação portuguesa
O nada estrangeiro estima,
O muito dos seus despresa.
Um museu, pois, ethnographico, ainda que para mais não sirva,
serve para educar o público, levando-o a conhecer e a amar a pátria.
— Felizmente, ha certo tempo para cá, sobretudo depois dos successi-
vos acontecimentos internacionaes e internos que nos têm affligido,
começa a manifestar-se certa re vivência no sentimento patriótico, na
arte, como na industria. Oxalá que elle não afrouxe!
A pedagogia tem num museu boa fonte de lições de cousas para as
crianças, ao mesmo tempo que estas vão a pouco e pouco recebendo
no ânimo o sentimento de que acabo de fallar. E* nas primeiras ida-
des que os sentimentos se radicão melhor. E um povo não . deve amar
a sua pátria só pro forma, mas por convicção, porque está nisso a base
da sua felicidade collectiva, — que é a paz e o progresso consciente.
E' também evidente a importância do um museu ethnographico
para a industria e para a arte. praticamente fallando.
Uma fórma de arte característica não resulta da acção de um só
individuo, mas é producto do meio, quer este seja physico, quer so-
cial. Por tanto, para certos casos, convém que o artista conheça a tra-
dição: só assim a sua obra terá condições de vida. E num museu acha
elle representados muitos elementos tradicionaes, que lhe fecundem e
vivifiquem o estro.
Na esculptura, na pintura, na gravura, a cada passo se torna ne-
cessário representar factos antigos, que só num museu se poderão es-
tudar com facilidade, — como a fórma de uma armadura, um farda-
mento, um trajo civil, um movei.
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MUSEU ETHNOGBÀPHICO PORTUGUÊS
195
Isto tem também applicação ao presente, principalmente em re-
lação ao conhecimento da vida provinciana.
No romance e np drama, quer nos históricos, quer nos de costu-
mes, constantemente experimentão seus auctores a necessidade de
proceder a estudos especiaes, quando tem de descrever um typo, uma
situação, etc.
Claro está que um museu que contenha, por exemplo, todas as
fórmas do brasão nacional, todos ou pelo menos bastantes feitios dos
trajos das diversas regiões do país, offerece muitos elementos para o
theatro e para o romance, onde a arte, para desempenhar o seu fim,
tem de ser verdadeira, e não de convenção.
Independentemente do interesse prático que se colhe do estudo
de um museu, o individuo também gosa em conhecer o seu passado,
ou o viver contemporâneo do seu país. A final, o gôso é o terminas
de todos os actos da vida, mais ou menos disfarçado sob o aspecto
material ou espiritual. O commerciante que accuraula riquezas, o in-
dustrial que se cansa no trabalho quotidiano, é obvio que porfião pelo
interesse que vem a dar-lhes gôso; e o sábio que cora a mathema-
tica anda investigando os ares, com a sonda profundando os oceanos,
com o alvião numerando as camadas da terra, com o microscópio sur-
prehendendo o viver de seres quasi infinitamente pequenos, — o poeta
que passa as melhores horas da sua existência interrogando e inter-
pretando todos os mysterios da alma, o artista erafim que se faz es-
cravo da sua imaginação e do seu temperamento: que buscão elles?
Buscão o gôso moral. E ainda quando a sciencia ou a arte podem ter
applicação prática, ésta vera a reverter também cm gôso. Por tanto
respeitemos aquelles que, na inspecção de um monumento archeolo-
gico ou raro, não têm outro intento senão satisfazer iramediatamente
a curiosidade, que aliás pôde ser, como já se tem dito, uma fonte de
sabedoria propriamente tal.
A essas razões todas, que são principalmente de caracter social,
artístico, industrial e educativo, acerescem razões scientificas, pois
que não se pôde traçar por completo a história de um país. sem se
conhecer a vida intima d'este, revelada nos usos, crenças, trajos, mo-
bílias, utensílios, fórmas de arte, numa palavra, em mil particularida-
des em que o espirito se vae reflectindo e assignalando através dos
tempos, e que contribuem para que um povo se distinga de outro. A
comparação das differentes epochas umas com as outras define a evo-
lução histórica; a comparação com os factos de outros países define
as relações ethnicas, ou, quando estas não existem, mostra, pelo que
se refere á ethnographia, como o espirito em condições semelhantes
chega aos mesmos resultados.
A constituição de um museu eíhnographico é ainda um ponto de
partida para o progresso dos estudos de Anthropologia e de Etimolo-
gia, já por assim oferecer materiaes, já por despertar o gosto scien-
tifico no publico, em virtude do instincto geral de imitação.
196
REVISTA LUSITANA
me estou occupando torna-sc muitas vezes difficil, e até impossível,
distinguir o que lhe pertence propriamente, do que pertence, por exem-
plo, a um museu industrial ou de bellas-artes. Todavia num museu
ethnographico deve archivar-sc sobretudo aquillo que principalmente
tiver significação histórica ou for característico do povo; num museu
industrial aquillo que tiver apenas applicação prática, embora, como
disse acima, a arte e a industria tenhão de se inspirar na tradição e
de recorrer á historia; um museu de bellas-artes tem caracter menos
restricto que um museu ethnographico, pois não se circumscrevc só
ao que é ethnico, mas abrange tudo o que manifesta cunho de perfei-
ção artística, mesmo quando elle deseje ser exclusivamente nacional.
Isto que digo não obsta, ainda assim, a que muitos objectos dêvão ao
mesmo tempo ter entrada em vários museus. Assim um tapete de Ar-
rayollos, que revela gosto e usos locaes, e que por outro lado é bello
e pôde servir de modelo e de applicação industriaes, está no caso de
oceupar logar em cada um dos tres museus que acima pus em concor-
rência. Ao discernimento e bom senso das pessoas que superintende-
rem nesses museus deve no emtanto ficar o decidir, em caso de dú-
vida, para qual dos museus ha-dc ir um objecto, quando aconteça ser
elle único. Para se chegar a essa decisão deve tomar-se em conta: de
um lado, o caracter principal, predominante, de cada um dos museus;
do outro, a facilidade que ha em um especialista de um dos museus
visitar outro museu em que se encontrem objectos da sua especiali-
dade.
Desde o momento que as pessoas que superintenderem nos mu-
seus forem levadas, não de prcoccupaçGcs mesquinhas ou puramente
pessoaes, não de impertinentes considerações de secretaria, mas do
interesse alto e justo de servir com sinceridade a pátria e a sciencia,
do fazer uma obra boa, que a todos utilize e todos indistinctamente
apreciem, — estou certo que se estabelecerá commum accôrdo, e que
os respectivos museus não precisarão de pleitear entre si preferencias.
Tendo cu sido nomeado director do Museu Ethnographico Portu-
guês, cumpre-me não só dar na Iin-ista Lusitana a notícia da criação
d'ellc, prestando assim homenagem ao nobre Ministro seu fundador,
mas também apresentar, em esboço, o plano que pouco mais ou me-
nos tenciono seguir na disposição dos objectos.
A ordem d'esta disposição é naturalmente a histórica. Tsso resulta
já do Decreto que criou o Museu.
Como entre os povos que actualmente habitão o território chama-
do Portugal, c os povos que desde tempos antiquíssimos cá têm estado,
não se pódc estabelecer solução de continuidade, concorrendo pelo
contrário todos os modernos estudos scientificos para affirmarem cada
MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
197
vez mais essa continuidade, deve dividir-se, de modo geral, nas se-
guintes epochas a historia da civilizarão portuguesa : preliistorwa, pro-
tohistorica, romana, barbara, árabe, medieval-porhtguesa, da renascença
e moderna.
Os objectos que constituírem o Museu hão-dc distribuir-se por
ellas, como se vae ver.
EPOCHA PRKHISTORICA
E' a epocha mais antiga a que se pôde remontar, e de que não
nos restão nenhumas notícias escritas, podendo apenas reconstruir-sc
pelo estudo dos monumentos que d ? ella chegarão até nós, e pela com-
paração com outras epochas semelhantes.
O Museu Ethnographico Português foi installado junto da Direcção
dos Trabalhos Geológicos, servindo em parte como que de desenvol-
vimento ao Museu de Anthropologia e Ethnographia Prehistoricas per-
tencente a ésta Direcção, e excellentemente organizado pelos nossos
geólogos Carlos Ribeiro e Sr. Nery Delgado.
Com relação a ésta epocha, o Museu Ethnographico tem só de se-
guir, pouco mais ou menos, o caminho já traçado a propósito d'aquelle
Museu.
O Museu da Direcção de Trabalhos Geológicos é riquíssimo. Ape-
zar disso, e do que por outros meios se sabe da prehistoria dos dif-
ferentes pontos do país, muito ha ainda que fazer para que a archeo-
logia prehistorica portuguesa seja completamente conhecida no seu
conjuncto. Falta mesmo fazer cm cada provincia um reconhecimento
geral, como no Algarve fez Estácio da Veiga. Só depois d'isso se po-
derá organizar uma verdadeira carta prehistorica de Portugal. O Mu-
seu da Direcção dos Trabalhos Geológicos compõe-se, como é natural,
de objectos colhidos principalmente na Estremadura.
Nesta mesma provincia. c noutras, ha porém muitos indivíduos
que por sua iniciativa augmentão constantemente o pecúlio da nossa
prehistoria. Basta lembrar, entre outros, os nomes do Sr. Vieira Nati-
vidade, que explora as grutas de Alcobaça, do Sr. Dr. Mattos e Silva,
que explora as antas de Pontc-dc-Sôr, Avis, etc, do Sr. Dr. Santos
Rocha, que explora os monumentos da Figueira da Foz, e do Sr. Dr.
Martins Sarmento, que explora a aroheologia do Minho. Além d'estes,
que são propriamente exploradores, que pégão no alvião o vão para
o campo com os jornaleiros a dirigi-los e a ajudá-los a desenterrar do
solo as riquezas que nelle existem, ha muitos outros que se li mi tão a
colher materiacs mais ou menos avulsos, chegando assim a accumular
bastantes preciosidades, c ha também os museus njunicipaes.
As regiões por ora menos conhecidas são Tras-os-Montes, a Bcira-
Alta c a Beira-Baixa. E' nellas igualmente que mais se faz sentir a fal-
ta de museus.
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198
REVISTA LtJSITAKA
Na secção prehistorica o Museu Ethnographico deve conter de-
senhos, photographias e plantas de estações archeologicas, como o cas-
tro de Liceia, de mamôas, de antas, de antellas, de grutas e de ou-
tros monumentos, bem como deve conter objectos industriaes e artís-
ticos de que se servião os nossos povos primitivos nos dois períodos
denominados da iwdra e dos nxetaes, objectos que são de diferentes
espécies, como se sabe: machados, enxós, goivas, facas, serras, mar-
tellos, pontas de setta, lanças, raspadores, furadores; cerâmica varia-
díssima, já grosseira, já muito apurada e com ornatos; enfeites corpo-
raes c amuletos, entrando nestes grupos as placas de ardósia, as con-
tas, os pingentes.
Tudo isto será disposto por períodos, e cada período geographi-
eamente, de modo que sc veja, de um lado a evolução geral, e do ou-
tro as differenças locaes. Dentro de cada zona geographica os objectos
accommodar-se-hão por espécies, de maneira que os aspectos da vida
primitiva sc patenteiem claramente.
Quando contemplamos o todo da prehistoria portuguesa, se en-
contramos caracteres communs que a ligâo entre si e á prehistoria de
outros países, encontramos também caracteres differenciaes. Vestígios,
por exemplo, do período paleolithico têm-se por ora só observado nos
concelhos de Leiria, Óbidos e Peniche. Kjoekkenmoeddings estudárão-
se ainda somente os do Valle do Tejo. Grutas artificiaes conhecem-se
apenas na Estremadura. Grutas naturaes dominão, em virtude da na-
tureza do terreno, em Tras-os-Montes, Estremadura e Algarve; fallo,
já se vê, de grutas conhecidas. Os monumentos megalithicos offerecem
também variedades, não sendo a menos notável alguns sepulcros de Al-
calar, no Algarve, comparados, na sua estructura e perfeição, com as
singelas e rudes antas alemtejanas, beirãs e minhotas. No Minho, na
Beira marítima e no Algarve abundão as mamôas, que parece serem
hoje mais raras noutras regiões. A cerâmica de Palmella e do Cada-
val é muito artística, cora desenhos variados, ao contrário do que se
dá na cerâmica de certos pontos do Alemtejo (Avis). As placas orna-
mentadas não se têm ainda encontrado nas províncias do Norte, e são
por ora uma especialidade puramente portuguesa.
O Museu Ethnographico, quando nas differentes localidades hou-
ver museus archeologicos, não os pretenderá esbulhar de suas rique-
zas, antes contribuirá quanto puder para que ellas augmentem, por-
que convém fomentar o interesse local por estes estudos; mas, quando
taos museus faltarem, e não for fácil organizá-los, então chamará a si
o que estiver arriscado a perder-se, e também procurará sempre obter
cópias dos objectos importantes, a fim de que, como Museu Central
que é, represente o melhor possível o país todo.
Para desde já se constituir a secção prehistorica do Museu Ethno-
graphico, ha a valiosa collecção algarvia, feita pelo fallecido Estácio
da Veiga.
Parte d'esta collecção pertence ha muito ao Estado, por isso que
Estácio da Veiga fora officialmente encarregado de fazer explorações
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ÍÍUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
Í99
no Algarve ; esta parte acha-se na Academia de Bellas- Artes, onde, pe-
las circumstancias do edifício, está bem mal accommodada, mas, em
virtude do Decreto que criou o Museu Ethnographico, passará para este,
logo que aqui possa ter accommodações convenientes. A outra parte
da collecção algarvia, pertencente a Estácio da Veiga, que a obtivera
por compras particulares, dadivas, etc., foi por mim comprada á fa-
mília, em nome do Governo, para o Museu Ethnographico. Náo des-
pendi pequeno trabalho em promover e levar a effeito a compra, o
cm reunir e acondicionar devidamente este importante espolio archeo-
logico, que estava parte era Lisboa, parte no Algarve, aonde fui de
ptoposito.
Ao Sr. Dr. Bernardino Machado, quando Ministro das Obras Pú-
blicas, se deve também esta acquisição, pois apenas lhe propus a com-
pra, S. Ex. â , compenetrado da utilidade que d'ella advinha para o Mu-
seu, não teve a menor duvida em a auctorizar, depois de preenchidas
as formalidades legaes da avaliação, etc, o que tudo consta de docu-
mentos archivados no Ministério das Obras Públicas.
Devo tornar aqui bem evidente mais este serviço do Sr. Dr. Ber-
nardino Machado. Se S. Ex.* não tivesse determinado a compra, a
collecção extraviava-se com certeza, o que representava grande des-
falque no pecúlio da nossa Archeologia, pois Estácio da Veiga não se
limitara só á parte prehistorica : havia percorrido mais ou menos todos
os districtos archeologicos, com especialidade, depois do districto pre-
historico, o romano.
Estácio da Veiga pusera todo o amor da sua alma em estudar
as antiguidades algarvias, percorrendo por todos os lados a província,
colhendo informações, obtendo objectos, procedendo a exeavações, no
que foi também poderosamente coadjuvado, entre outras pessoas, por
um virtuoso e illustrado sacerdote, o Sr. Nunes da Gloria, actualmen-
te prior de Bensafrim. Não é aqui o logar de apreciar os trabalhos
de Estácio da Veiga. Basta pois o que deixo dito ; só acerescentarei
que os quatro volumes que publicou com o titulo de Antiguidades mo-
numentaes do Algawe, 1886-1891, vérsão sobre a prehistoria da pro-
víncia, — período da pedra e período dos metaes.
Além da collecção algarvia, o Museu Ethnographico dispõe de
outros elementos, que existem nas collecções archcolo^icas que, pelo
citado Decreto, têm de passar para elle. Além d'isso a minha collecção
archeologica particular, parte da qual tenho agora depositada no Mu-
seu da Direcção dos Trabalhos Geológicos e na Bibliotheca Nacional,
deposita-la-hei também nelle; e espero ainda obter, se o Governo
me auxiliar com uma pequena verba, muitos objectos em exeavações
archeologicas que projecto. O Museu pôde receber em depósito outras
collecções particulares: por exemplo, a collecção do Sr. Júdice dos San-
tos, enthusiastico amador de archeologia, irá igualmente para lá.
De modo que, apenas o Govêrno realize no Museu Ethnographi-
co as installações que tive a honra de lhe propôr, a primeira epocha
da 1 nossa civilização, isto é, a prehistorica, ficará suficientemente repre-
200
REVISTA LUSITANA
sentada; e como junto do Museu Ethnographico está, segundo disse, o
da Direcção dos Trabalhos Geológicos, o qual não tem igual no país,
vê-se que aos investigadores da Prehistoria Portuguesa já não faltão
cm Lisboa abundantes materiaes de estudo.
Por ésta designação entendo aqui a epoclia comprehendida entre
a prehistorica e a da dominação romana na Lusitânia, ou, para melhor
dizer, na Península.
Temos notícias da epocha protohistorica, já pelos auctores gregos
e romanos, como Estrabão, Appiano. Justino, Plínio, Silio Itálico, etc.,
já pelos monumentos. E' a epocha em que apparecem pela primeira
vez na história os Lusitanos, os Gallaecos, os Bracaros, os Limios, os
Turdetanos, os Turdulos.
Como por um lado a civilização protohistorica se liga cora a pre-
historica, e foi muito influenciada pela romana, sendo-nos até conhe-
cida ás vezes só através d'csta última; e como por outro lado o ter-
ritório que hoje se chama Portugal fazia parte das províncias que os
Bomanos denominarão Tarraconcnse, Lusitânia e Betka, nas quaes,
de certa epocha por dcante, foi dividida a Hispânia ou Ibéria: não
só não é possível separar sempre a epocha protohistorica d* antece-
dente e da seguinte, como também não é possível separar sempre da
nossa archeologia a archeologia hcspanhola. As moedas denominadas
autónomas, por exemplo, fôrão emittidas em grande parte sob o do-
mínio romano na Península, e, com quanto referidas quasi todas a ter-
ritório hoje hcspanhol (poucas o são a território hoje português), cor-
rerão abundantemente no nosso país, como se vê dos contínuos acha-
dos d'cllas em diversos pontos 1 de Portugal.
Na secção protohistorica pôde, tomando em conta aquillo que já
se conhece, abrangor-se por exemplo o seguinte:
1) Estampas e plantas de estações archeologicas, como de cas-
tros ou montes fortificados, e de outros monumentos que se não podem
ou não devem trazer para o Museu. Muitos dos castros dátão já da
epocha anterior; aqui está pois um elo que liga entre si as epochas
pre- e protohistorica. Castro typico protobistorico é por exemplo o de
Sabroso, no Minho, explorado pelo Sr. Dr. Martins Sarmento. Castro
em que a civilização dos metaes se sobrepõe á neolithica, restando de
ambas abundantes vestígios, e onde já aponta a civilização romana,
mas sem domínio, é por exemplo o Castello de Pragança, no Cadaval,
reconhecido por mim pela primeira vez nas ferias da Paschoa de 1893,
numa visita que ahi tiz com o meu amigo o Sr. Antonio Maria Garcia,
benemérito professor de Pragança, o qual no estudo da archeologia
d.o Cadaval me tem prestado relevantíssimo auxílio.
n
EPOCHA PROTOHISTORICA
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MUSEU ETHN03RAPHI00 PORTUGUÊS
201
v 2) Objectos funerários e de culto religioso; Principal-
mente na parte religiosa, o Museu fica muito bem representado com
as collecções que actualmente se áchão na Bibliotheca Nacional.
Parte (Testas collecções é já antiga no estabelecimento, e compõe-
se de estatuetas de metal : a élla se refere por exemplo o Sr. Dr; Emi-
lio Híibner, in Die cnúihm Bihhcerke, Berlim 1862, pag. 334.
A outra parte compõe-se de danaria ou ex- votos ofiferecidos ao
deus Endovellico. Este deus tinha o seu culto no Alemtejo, e era ura
deus tópico da saúde; c as numerosas estatuas, aras e esteias votivas
que havião feito parte do seu templo fôrão aproveitadas nas paredes
de uma igreja christã que estava em ruinas ha muito tempo. De um
lado com a permissão que obtive do dono d'esta igreja, o^neu amigo
Sr. Manoel Ignacio Bello, do Alandroal, do outro com a auctorização
que pedi ao Governo, o que este me concedeu, pude explorar as ruí-
nas em 1890, do que resultou o trazer eu para a Bibliotheca Nacio*
nal a mais rica serie de monumentos religiosos antigos que ha no país,
e como a qual não se conhecem muitas noutros países. Infelizmente;
por falta de espaço, estes monumentos têm estado muito mal' accom^
modados; e é por isso mais uma vez para desejar que as installações
projectadas no Museu Etlmographico se apressem. A collecçâo dos
monumentos do deus Endovellico é importante, não só debaixo do as*
pecto da religião, mas ainda debaixo do da paleographia epigraphica,
da linguistica, etc. Subrc estes monumentos publiquei tres opúsculos^
intitulados: O deus lusitano Endovellico (1890); Novas inscripções de
Endovellico (1890-1891); e Quid apud Lusitanos verbum AEDEOLI
significaverit (1894). Isto porém pouco é em comparação com o que,
dentro e fora do país, tem sabido a lume á cerca de Endovellico, desdo
o sec. xvi.
Na Bibliotheca Nacional existem em depósito outros objectos que
pertencem a esta secção, os quacs também passarão para o Musen.
Entre elles especializarei a ara da deusa lusitanica Trebarnna, ara
que, por permissão do meu amigo o Sr. Dr. João Baptista de Castro;
digníssimo juiz de direito, eu trouxe do jardim da sua casa do Fun-
dão, nas ferias de Setembro de 189á.
Com relação a monumentos funerários o Museu não ficará tão
bem provido. Todavia ha para ésta secção os monumentos epigraphi-
cos algarvios com caracteres ibéricos, collecionados por* Estácio 8a
Veiga; e eu pela minha parte também possuo uma bella inscripção,
que um amigo meu comprou para mim no Algarve, a qual depositarei
no Museu. Estes monumentos são muito notáveis pelo lado philologico,
pois não só estão escritos em linguagem pre-romana, mas, como disse;
nos caracteres especiaos, de remota origem semitica, que se usa vão na
Península antes da vulgarização do alphabeto latino. I)'elles e d ? outros
congéneres fez o Sr. Dr. Emilio Hiibner substancioso estudo no seu
livro Monumento língua? lhericae (1893).
Outros monumentos funerários protohistoricos existem no país,
de que por ventura se poderão obter de futuro exemplares para o Mu-.
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,202
fcBVÍsfÁ LÔSltfAtfÀ
seu. Rpfiro-me aos do typo das chamadas estatuas gallaecas, e aos do
typo da porca de Murça, uns e outros por ora no nosso pais só acha-
dos nas províncias do Norte. A' cerca dos primeiros publicou o
Sr. Httbner uma monographia com estampas na revista Denkmctter u.
ForscJiungen, 1861, col. 185 sgg. (ha tradncçâo portuguesa nas No-
tkia8 de Portugal do mesmo A.), e deu o Occidente, ix, 248 umas es-
tampas, com um artigo. A' cêrca dos segundos não ha ainda nenhum
estudo especial; apenas o Sr. Fernandez Guerra, de Madrid, estudou
alguns análogos que ha em Hespanha. De todos esses monumentos
portugueses possuo estampas que publicarei a seu tempo.
Como o período do bronze pertence em parte aos tempos protohis-
toricos, muitos dos monumentos funerários d'aquelle período têm en-
trada aqui.
3) Vestuários e adornos. A ésta secção pertencem, por
exemplo, braceletes, collares, anneis, contas.
Tèm-se encontrado no país bastantes braceletes de ouro e de ou-
tros metaes, dos tempos protohistoricos. Alguns estão em museus, ou-
tros nas mãos de particulares. Ainda ha pouco tempo se achou um de
ouro, e o fragmento de outro, que forão arrematados judicialmente
em Santarém. Apezar de os jornaes tornarem público este facto, e de
eu ter solicitado oficialmente, pelas estações competentes, a compra
(Telles para um museu do Estado, parece que as circumstancias do
thesouro não permittirão a acquisição; arrematou-os um particular,
que provavelmente os venderá a algum governo estrangeiro, mais
rico do que o nosso.
Anneis de bronze, alguns com interessantíssimos ornatos, são
também conhecidos no país, e não se tornará muito difficil obter ou-
tros para o Museu Ethnographico.
Com relação a collares de contas, ou contas avulsas, a estação
archeologica de Bensafrim ministrou curiosos exemplares, talvez de
origem semítica. Obtive lá, por compra minha, várias contas, que de-
positarei no Museu.
As fórmas de vestuário e de enfeites do cabello podem ainda dedu-
zir-se de certas estatuas e estatuetas, como algumas das que citei acima.
4) Armas. Igualmente se colhem elementos, para o conheci-
mento das armas, nas estatuas, por exemplo nas mencionadas estatuas
gdllaeeas.
O Museu de Bellas-Artes, d'onde, pelo Decreto que criou o Mu-
seu Ethnographico, têm de ser transferidos para este os objectos ar-
cheologicos que não fizerem parte integrante d'elle, possue interessan-
tes armas, achadas em Alcácer do Sal, de que falia o Sr. Emilio Car-
tailhac, Les âges préhistoriques de VEspagne et da Portugal (1886),
pag. 248-253, e Estácio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Al-
garve, iv, 266 sgg.
As moedas da Republica Romana, que alludem a muitos factos
históricos da Ibéria, contem vários desenhos de armaduras peninsula-
res, por exemplo as moedas das famílias Ourisia e Coelia.
Diqitized I
MUSEU ETHNOGRAPHIOO P ORTUGUÊS
303
Estas noticias, dadas pela archeologia, completão-se com a* que
se áchão nos auctores, por exemplo em Estrabão.
5) Epigraphia. Já acima me referi ás inscripçõcs ibéricas
encontradas no Sul ào país.
6) Moedas. Igualmente fallei ha pouco das moedas autónomas
ou peninsulares. O Museu Ethnographico já possue algumas.
7) Objeotos diversos. Entrão nesta classe muitos objectos
caseiros, como os de barro e de vidro, mós de moinho, pesos, etc.
Na enumeração que acabo de fazer, quis apenas apresentar uma
amostra archeologica, e não tentei ser completo, nem mesmo dar or-
denação scientiíica aos objectos, que no Museu têm de ser distribuí-
dos, como os da primeira secção, excepto alguns monumentos mais pe-
sados ou maiores, , que se hão de collocar em sítio especiaL
Com a vinda dos Romanos á Península, a vida social dos povos
de cá experimentou grandes alterações, se não de uma vez, ao menos
lentamente, pois alguns cantões, sobretudo no Norte, fôrão mais re-
beldes em se sujeitarem aos Eomanos. Do povo cantabrico diz por
exemplo Horácio, numa ode (n. 6): indoctam jiiga feire nostra.
Ainda do tempo dos Romanos temos noticia da existência de mui-
tos elementos da civilização indígena: de línguas, de religiões, de
instituições politicas, de trajos civis e tailitares, de usos, de costumes.
Se muitos d'estcs elementos fôrão absorvidos, substituídos ou modifi-
cados, outros persistirão mais ou menos, através da civilização roma-
na, até o presente, e nós achamo-nos assim, como já acima lembrei,
ligados insoluvelmente ao passado, por laços de toda a ordem.
III
EPOCHA ROMANA
De todas as secções archeologicas, a romana e a prehistoçica são
as mais ricas e variadas. As diferentes collecções do Estado qtíe tem
de ser encorporadas no Museu Ethnographico possuem muito de ar-
cheologia romana.
Esta secção constituir-se-ha com os seguintes objectos, entre ou-
tros:
I) Estampas ou plantas de castros (opjrida), de monumentos
epigraphicos que se não podem adquirir, poj* fazerem par2e de muros,
ou se acharem em grandes penedos (como os da Magdalena, em Lis-
boa, o das Caldas das Taipas, os de Panoias, etc.); de monumentos
diversos, como templos, estatuas, pontes, banhos; de vias militares;
de cemitérios.
Templo notável é o de Évora, já várias vezes reproduzido pela
gravura.
204
&ÉVI8TÀ LUSITANA
Cemitérios romanos apparecem a cada passo. A propósito de um
algarvio escreveu o Sr. Dr. Teixeira de Aragão um opusculo com este
titulo: Relatório sobre o cemitério romano descoberto próximo da cidade
de Tavira, Lisboa 1868.
Entre as thermas são umas das mais interessantes as de Milreu,
ao pé de Faro, no reino do Algarve, mas o vandalismo dos visitantes
destroe quotidianamente os ricos mosaicos, do género opus ve-rmicula-
tum, que revestem as piscinas e o pavimento da entrada : pôde ver-se
uma amostra d'estes mosaicos em desenhos publicados no (keidente,
vol. v, 240. Se se não acode depressa ás ruinas de Milreu. o país per-
derá um bello monumento romano. Ao Governo, ou a algum instituto
local, cumpre salvá-las, e evitar de futuro ao país mais uma ver-
gonha.
A' cêrea das vias militares ha bastantes notícias nos trabalhos do
Sr. Hubner, e também alguma cousa se colhe nos trabalhos dos ar-
cheoloigos portugueses.
Já acima fallei dos castros protohistorieos, que. como disse, se
ligavão aos prehistoricos. Ha também castros com abundantes provas
de civilização romana, relacionados com os protohistorieos. O mais no-
tável é decerto a Citania de Briteiros, glória do Sr. Martins Sarmen-
to, que o tem explorado á sua custa, e estudado. Muitos castros pri-
mitivos fôrão destruídos pelos Romanos, ou fôrâo abandonados; outros
continuárão a existir, e transformárãose nas povoações modernas. São
ainda hoje vulgares, como designações topographicas, os nomes do
Castro ou Crasto, Castello, Cristello, ctc.
2) Objectos funerários e de religião. O Museu do Algarve
e o da Bibliotheca Nacional ministrarão aras, cippos, estatuas, estatue-
tas, em grande quantidade, c também alguns amuletos. Mas ha muita
cousa dispersa: por exemplo, no extincto convento de rhcllas, está
arriscado a perder-se o friso de um bello tumulo romano, descrito c
estampado na Revista Archeologka. iv, 1, por Borges de Figueiredo;
no meio de um caminho, em Bemiica, está parte de uma ara. Tudo
isto, e muito mais, pode c deve vir para o Museu Ethnographico.
As aras, cippos e estatuas são pela maior parte dona r 'ai ou cx-
votos, como os de que fallei no cap. n, § 2. Assim como hoje, quem
está doente, offerece aos santos de mais devoção painéis com a expo-
sição da doença, figuras de cera c de metal symbolizaudo os membros
do corpo doentes, tranças de cabello, ctc, também os antigos fazhlo
aos seus deuses oferecimentos análogos, chamados em latim donaria;
por felicidade muitos d'estcs donaria érfio de pedra, do barro e de
outras substancias duradouras, de modo que se conservarão até o pre-
sente. Os numerosos ex-votos que se vêem agora em muitas das nos-
sas igrejas, sobretudo nas ruraes, íilião-sc. pois, nos ex-votos do pa-
ganismo. Tenho estudado muitos dos nossos ex-votos christãos, e pos-
suo mesmo vários painéis, que o povo chama rciahtdus c mihif/res\ os
quaes depositarei no Museu. E' fácil seguir, através da litteratura e
da archeologia, a evolução dos donaria para os ex-votos christãos. Os
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MUSKU ETHNOGRAPHfCO P0RTUUUÊ3
205
retábulos são análogos "ás tabulae votivae, de que falia Horácio, nos
Carmina, i, 5:
tabula sacer
Votiva partes
Diz Cicero, na Natura deorum, m, 37, que na Samothracia havia
muitas tabulae piclae representando cumprimentos de promessas feitas
á divindade por pessoas salvas de naufrágios. Este assumpto foi es-
tudado com muito desenvolvimento no Dictionnaire des antiquités gre-
cqnes et romanes de Daremberg & Saglio, s. v. dmmria. — Desde a
Idade-Média se conhecem tabulae. votivae christãs: vid. Dictionnaire des
origines du christiamsme, publicado por Migne, 1856, s. v. Num Fios
sanctorum português, dos princípios do sec. xvi, existente na Biblio-
theca Nacional de Lisboa (collccção de Reservados, a, 239), onde o meu
collega o Sr. Gabriel Pereira m'o mostrou, ha uma biographia de S.
Antão acompanhada de um* gravura em que se represêntão vários
ex-votos (pernas, corações e uma mão). Creio já ter encontrado em
igrejas milagres do scc. xvii; do sec. xvin tenho encontrado muitos. —
O Christianismo nisto, como no mais, santificou o Paganismo; por isso
não admira que por tantos modos estejamos vinculados ao passado.
Pedras com inscripçoes funerárias são, d'entre os monumentos da
epigraphia romana, as mais numerosas no nosso país. e contêm impor-
tantes elementos para o conhecimento das instituições, da philologia,
da história: vid. o Coipus Inscriptionum Latinaram, voL n, e o Sup-
plemcnto. Grande número de vezes éstas pedras não encérrão unica-
mente inscripçoes, mas estão afeiçoadas artisticamente, e cora symbo-
los. Na Bibliotheca Nacional ha uma inscripção funerária do Algarve
muito ornamentada. Em Carquere, na Beira- Alta, apparecêrâo umas
pedras sepulcraes representando bustos humanos, das quaes fallei na
Revista Archeologica, u, 113 sqq.: parte d'ellas estão no Museu de
Guimarães, outra parto na collecção archeologica de meu primo Ma-
noel Negrão, na sua quinta do Mosteiro. No Sul do reino conhecem-se
curiosas sepulturas doliarcs ou em forma de pipa, que se podem obser-
var no Museu de Évora, e no Museu do Algarve. Em Tras-os-Montes,
como noutros pontos do Norte da Península, ha umas interessantes
inscripçoes funerárias com uma roseta ou suástica flammejante. Conhe-
ço sepulturas christãs, relativamente modernas, que se filião, ao que
parece, nesta última forma. Merecem também especialissima men-
ção os formosos túmulos do Museu do Porto e do Museu do Carmo,
aquclle descrito pelo 8r. E. Augusto Allen numa Noticia publicada em
1867 (vid. também uma estampa no Diário Illustrado de 20 de Ja-
neiro de 1891), este estampado pela primeira vez no Elucidário de
Viterbo, e depois no Boletim da Sociedade Archeologica do Carmo;
cfr. também E. Húbncr, JJie Antilicn BUdiuerke, 335. A esta espécie
de túmulos se liga o friso de Chellas, de que fallei a cima, e parece .
que um baixo-relevo que existe no Museu de Elvas, e que foi estampado
no Occidente, v, n. u 118. e na Revista Archeologica, m, 161. — Alguns
206
BXYISTA LUSITANA
dos monumentos de qne acabo de fallar têm de' ir para o Museu Ethno-
graphieo; d'outros podem obter-se reproducções em gesso, ou estampas.
3) Vestuários e adornos. Para ésta secção podem obter-se
pulseiras, anneis, contas, alfinetes, fivellas (fibulae), etc. Têm também
cabimento aqui as considerações que fiz no cap. n, § 3. — Muitos dos
nossos trajos modernos parecem-se com os antigos, ainda que nem
sempre se possa estabelecer filiação. A gente das serras da Beira usa
uma capa com um capús, chamada capucha; este vestuário tem muita
semelhança com o cucullus romano. O chapéu da cabeça é análogo ao
petasus romano, que tem origem grega. A carapuça (barrete) e o ca-
rapuço parecem-se bastante com algumas fórmas do pileus. As calças
têm o seu prototypo nas bracae e nas saraballae ou sacabarae. Os cal-
ções lembrão a feminalia ou femorália. Os çapatos representão os cal-
cei. As botas de montar assemelhão-se aos cothurni.
Os anneis, como outros objectos de ornato ou de uso, são frequen-
temente ao mesmo tempo objectos de religião, pois os Romanos cos-
tamavão trazer nelles pedras de virtude ou imagens de deuses, ou cos-
tumavão fazê-los de substancias consideradas como maravilhosas. Te-
nho visto muitos anneis nestas condições; na Bibliotheca Nacional ha
dois, feitos, segundo creio, de pedras maravilhosas; eu possuo um de
prata, com a figura de Marte e possúo outros com pedras gravadas;
no Museu do Algarve estão vários anneis romanos. Nas collecções par-
ticulares não faltão elles também: especializarei a do meu amigo o
Sr. Dr. Teixeira de Aragão, que já em tempo publicou uma memoria
sobre Anneis em geral. — Os anneis modernos são evidentemente con-
tinuação dos anneis antigos; os próprios anneis de virtude antigos
estão hoje representados no nosso povo pelos anneis da fava, da unha
da grã-bêsta, de aço, de cornalina.
O Museu do AJgarve possue muitos elementos para ésta secção.
4) Oeramioa, vidros, mosaicos, e tudo o que se rela-
oiona com a vida doméstica e agrícola. Seria muito difficul-
toso fazer aqui sequer um esboço d'esta secção. Basta tocar em alguns
pontos.
Já acima foliei de mosaicos. Melhores ou peores é fácil obter
muitos, sobretudo no Sul do país. O Museu do Algarve, o das Janel-
nas Verdes e ainda o da Bibliotheca Nacional possuem fragmentos. O
Algarve é principalmente a região dos mosaicos; elles offerecem diffe-
rentes pinturas.
Os mencionados Museus contêm igualmente numerosos exempla-
res de cerâmica e de vidro. O barro vermejho fino da epocha romana
é cohhecido entre nós pelo nome de sagwntino (cfr. sobre elle Hubner,
La Archeologia de Espana, 1888, pag. 184). Muitos objectos de barro,
quer vasos, quer tijolos ou telhas, estão marcados; estas marcas figu-
linas são também interessantes.
Um dos meios mais vulgares de reconhecer entre nós as estações
romanas são as telhas de rebordo, que os Romanos chamavão tegiâae,
e m apresentão de cor vermelha ou branca (lembrão as telhas de Mar-
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MUSEU ETHN0GRAPH1C0 PORTUGUÊS
207
selha). Infallivelraentc se encontrão perto das estações romanas fra-
gmentos (Testas telhas. Tegiáae inteiras são raras, inas tenho-aá já en-
contrado, por exemplo, num monte ao pé de Lagos, e numa quinta no
Baixo-Douro. Já uma vez, guiado pelo apparecimento de fragmentos íe
telhas de rebordo, num caminho, fui andando, até que encontrei uma
ara romana com inscripção, — a única que poí ora se conhece do con-
celho do Cadaval. Ao Sr. Martins Sarmento, segundo elle me diz, tem
acontecido muitas vezes factos semelhantes.
Juntamente com as telhas de rebordo apparecem a cada passo
pesos de barro (pondera), que aiFectâo várias fórmas.
Os Romanos não tinhão só telhas de rebordo, tinhão-nas também
curvas, como as de hoje, chamadas imbrices, no singular imbrex, de
cujo deminutivo im-briculus veiu a palavra brelho ou breflho, usa-
da no Minho na significação de «tijolo».
Tanto de imbrices, como de tegiãae e de pondera ha já muitos
exemplares para o Museu Ethnographico.
Entre os objectos de barro mencionarei aqui as lucernae ou can-
deias. Ha-as também de metal, como uma, apparecida em Cintra, que
comprei para a Bibliotheca Nacional. As lucernas de barro que podem
desde já ir para o Museu offerecem muitas variedades nas figuras que
contêm; algumas sã9 marcadas; na collecção de Estácio da Veiga es-
tava uma com inscripção grega, já actualmente guardada no Museu
Ethnographico.
Merecem igualmente menção as amphoras. A Bibliotheca Nacio-
nal possue tres, muito boas, sendo duas já antigas no estabelecimento,
e outra (com tampa) comprada por mim, num leilão, com outros obje-
ctos archeologicos, para a Bibliotheca. Na collecção algarvia também
ha algumas.
Os exemplares de vidro mais vulgares são os chamados laerima-
tórios. Temos também nos Museus do Algarve e da Bibliotheca outros
objectos de vidro. Como collecção particular é notável em vidros ro-
manos a do Sr. Teixeira de Aragão.
Nas estações romanas, como a Quinta da Torre de Ares (Al-
garve), têm apparecido tubos de metal e de barro que certamente ti-
nhão applicaçào no campo. Vestígios de fórnos de tyolo, ás vezes ainda
com escórias, são igualmente frequentes. Ha ainda instrumentos, como
picaretas, terebrae, mós de moinho, clavi òu prégos, — etc., etc.
5) Armas. Podia fazer aqui considerações análogas ás que fiz
no cap. ii, § 4.
Nas estações antigas encontrãq-se ás vezes lanças. Todavia na
secção de armas não conheço muitas cousas na nossa archeologia.
A Bibliotheca Nacional possue algumas glande* de chumbo. As
glandes érão balas ou projecteis arremessados por intermédio de fun-
das. Diz Vergilio, Eneida, vn, 686 :
pars máxima glandes
Liventis plumbi spargit.
?08
REVISTA LUSITANA
As mais vulgares devião ser de pedra; ettecti vãmente tenho en-
contrado nas estações archeologicas pedras, geralmente seixos rolados,
que podiáo ter servido para isso. Na antiguidade gosavão de muita-
fama os fnndibularios hispânicos; lá diz também Vcrgilio, Georgiceis,
i, 309:
Stuppea torquentem Balraris verhora fundeie.
As glandes têm ás vezes inscripções. No nosso país nunca encon-
trei nenhuma assim. — Sobre o assumpto veja-se um trabalho publicado
na Ephemeris epigraphica, vol. vi (1885), com o titulo de Glandes plutn-
beae latine inscriptae, por Zangmeister. — As fundas são ainda hoje usa-
das no Algarve pelos pastores.
6) Moedas. As que ha no Museu do Algarve e no Museu das
Janellas Verdes, as quaes devem ir para o Museu Ethnographico, são
bastante numerosas, posto que em geral pouco importantes.
No nosso país apparecem a cada passo moedas romanas, sobre-
tudo do Império. Depois das telhas de rebordo, ou juntamente com
ellas, são as moedas o melhor meio de indicar ao observador estações
romanas.
7) Objectos diversos. Para abreviar, incluo sob está designa-
ção os monumentos epigraphicos, as esculpturas. c em fim todos os
documentos artísticos ou industriaes que não tivérão entrada nos §§
precedentes.
IV
EPOCHA BARBAItA
Denomina-sc assim a epocha que decorre desde as invasões dos
Bárbaros, no sec. v, até á invasão dos Árabes, no sec. viu. No sec. v
muitos povos bárbaros invadirão a Península, sendo a maior parto de
raça germânica, como os Suevos, os Vândalos \eom os Silingos), os
Wisigodos, outros de raça scythica, como os Alanos. Todos estes povos
se distribuirão por diíferentes pontos. Adoptarão cá a pouco e pouco
a civilização romana e a christã.
Da história peninsular dos Bárbaros dão -nos importantes notícias
alguns auctores contemporâneos, taes como Paulo Orosio, Idacio, Isi-
doro Pacense, S. Isidoro de Sevilha, e outros.
A archeologia d'esta epocha é bastante pobre; por isso me abste-
nho de estabelecer §§, como fiz a propósito das antecedentes.
E' principalmente com mofiumentos epigraphicos christiano-lati-
nos que se ha-de preencher no Museu Ethnographico a respectiva sec-
ção. A' cerca doesta espécie de monumentos vid. lutcriptíones Hispa-
nieie Chrv*tiemae de E. Hubner, Berlim 1871. No seu livro Antigui-
dades de Mértola, Lisboa 1880, incluo também Estácio da Veiga des-
cripções e estampas de muitos monumentos wisigothicos. Alguns de
taes monumentos, que fazião parte de sepulturas, aclião-se no Museu
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MUSEU BTHNOGRAPHIOO PORTUGUÊS
209
do Algarve e outros fôrão comprados para o Museu Ethnographico
á família de Estácio da Veiga.
Entre os monumentos myrtilenses descritos por Estácio da
Veiga ha um mármore christão com uma inscripção em caracteres
gregos; esta inscripção é muito curiosa, já paleographicamente, já
porque testemunha, como se diz no citado livro, pag. 199, a existên-
cia do elemento byzantino nesta parte do nosso país. De facto os By-
zantinos, attrahidos cá por occasião das dissenções intestinas dos Wi-
sigodos, entrárão na Península no sec v . vi, em tempos de Athanagildo,
sendo definitivamente expulsos d'clla só no sec. vu, por Suinthila.
Ao lado dos monumentos epigraphicos, e de outros objectos que
haja no Museu do Algarve (taes como fragmentos cerâmicos, etc),
pôde o Museu Ethnographico archivar moedas pertencentes á epocha
de que, estou- fallando, pois, como é sabido, os Suevos e os Wisigo-
dos, imitando o systema monetário romano (e byzantino), cunhárão
moedas na Península. A obra- mais completa sobre numismática wisi-
gothica é a de Heiss, Description générale des monnaies des rois urisi-
goths dJEspagne, Paris 1872. Sobre as moedas dos Suevos tem o mes-
mo auctor um trabalho na Revue de Numismatique, 1891, pag. 146
sgg., onde, em nota, indica a bibliographia do assumpto. Já antes de
Heiss, como elle nessa nota confessa, havião publicado os Srs. Eduar-
do Augusto Allen e Henrique Nunes Teixeira um artigo na citada
Revista, vol. x, 1865, do qual se fez edição em separado, — Mormaies
cCor siiévo-liisitaniennes, folheto de 15 pag., com uma estampa. Tanto
o artigo de Heiss, como este ultimo, se referem a umas curiosas moe-
das que por ora só se têm encontrado em Portugal, e que, por várias
razões históricas, se attribuem aos reis Suevos da Gallaecia e da Lu-
sitânia. Taes moedas constituem outra particularidade notável na his-
toria do Occidente da Península.
% • V
EPOCHA ÁRABE
Por motivos que não vem a propósito desenvolver, mas que em
parte são análogos áquelles que chamárão para cá no sec. vi os By-
zantinos, a Península foi invadida no princípio do sec. viu pelos Ára-
bes, entre os quaes vínhão povos de diversa origem, abundando po-
rém Africanos, por isso que os Árabes tinhão, pouco antes, subjugado
o Norte da Africa. A abundância de Africanos fez que entre nós vul-
garmente se chamassem Mouros os Árabes; nem o povo conhece ainda
hoje outra denominação senão aquella.
Não era então a primeira vez que na Península entravão ele-
mentos semíticos e africanos. Sem remontarmos aos Carthagineses e
a outros povos d' Africa, com os quaes necessariamente os Hispanos
em tempos remotos devião ter estado em contacto, sabemos que na
Bfcv. lusit., vol. in, faeo. 3. 2
210
REVISTA LUSITANA
epocha romana os Mouros fizerão incursões por cá. Da raça semítica
havia cá também elementos antigos, os Judeus, e- outros anteriores,
os Phenicios.
O conhecimento (Testes diversos elementos ethnicos pôde expli-
car certas sobreposições e affinidades. Nos Judeus peninsulares, por
exemplo, cuja existência era já antiga cá, achárão os Árabes um au-
xilio na lueta com os Wisigodos.
Depois da batalha de Guadalete, em que os Wisigodos fôrão ven-
cidos, as armas sarracenas proseguirão victoriosas na conquista da
Hispânia, e em breve a civilização dos crentes do Islam, muito supe-
rior á dos crenteâ da Cruz, senhoreava boa parte da Peninsula, não
obstante a resistência dos que, havendo-se refugiado nas Astúrias,
d'ahi começárão a reconquista e dérão origem á monarchia leo-
nesa.
As profundas diferenças, nas raças, nas línguas, nas religiões,
nos costumes, entre os Hispano-Godos e os Árabes impedião que de
parte a parte se estabelecessem fusões tão completas e tão extensas
como entre os Godos e os Hispano-Romanos, ou como entre os Roma-
nos e os Hispanos. D'aqui a existência de dois grupos principaes de
populações na Peninsula durante a epocha de quq estou fallando : Ára-
bes (com os Judeus) e Christãos. Todavia muitos Hispano-Godos, sem
abandonarem a sua religião nem as sua^s leis civis, havião aceitado a
dominação dos Árabes, vivendo entre elles, e ás vezes mesmo ligan-
do-se com elles, e adoptando-lhes os trajos, os costumes, a lingua, a
civilização em fim: erão os Mosarabes.
Alexandre Herculano, que na Historia de Portugal, iii (3. â ed.),
pag. 171 sgg., estudou admiravelmente este grupo social, attribue-lhe
grande importância na propagação da civilização mussulmana na Pe-
nínsula, pois que os Mosarabes servião de intermédio aos Árabes e ás
populações christãs.
Da civilização mussulmana ou árabe restão ainda hoje na civili-
zação portuguesa bastantes vestígios, nos typos ethnicos, na lingua,
nos trajos, nas tradições, nos costumes. Parece que será no Sul, e so-
bre tudo no Algarve, que esses vestígios mais abundão. Quando, de-
pois que acabou o califado de Cordova, a Hispânia mussulmana se di-
vidiu em Taifahj ou pequenos reinos independentes, Silves e Santa
Maria (Algarve) forão capitães de dois.
De monumentos e outros restos materiaes do tempo dos Árabes
também alguma cousa existe ainda no nosso solo, por exemplo na Ex-
tremadura, no Alemtejo e no Algarve, posto que não tenhão compara-
ção possível com o que existe na Hespanha.
Esta secção pode ficar representada no Museu Ethnographico
principalmente com o seguinte, que Estácio da Veiga recolheu, e que
deve existir no Museu do Algarve, depositado na Academia de Bel-
las- Artes:
1) Uma pia de mármore braneo com inscripção cufica, mo-
numento encontrado no concelho de Villa-Real de S. Antonio,
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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
211
2) Vários monumentos epigraphioos, de diversas proce-
dências.
3) Louças. A louça árabe, comparada cora as que se conhecem
de epochas anteriores no país, offcrece uma novidade : é o vidrado.,
Fallando de achados archeologicos em Valle do Caranguejo, entre
Tavira e Villa-Keal, diz Estácio da Veiga, nas Antiguidades do Algar-
ve, ii, 422: tfragmentos da typica louça vidrada que os Árabes fabri-
caram na Peninsula, onde até então era desconhecido o processo da
vidragem da louça».
No Museu do Algarve recolheu elle muitos fragmentos de louças
lisas, vidradas de varias côres, esmaltadas, ornamentadas; uma botija
com vidrado côr de mel; uma taça de barro vidrado, também côr db
mel, pintada de preto; diversas vasilhas inteiras, sendo uma delias
um vaso com duas asas, pintado de listas brancas, proveniente de
Lagos. *
A respeito de Mértola escreve o mesmo archeologo nas Antigui-
dades de Mértola, pag. 146 : «Do muito que em Mértola se poderia ainda
apurar, pouco resta já da epocha árabe», — e menciona só o seguinte
com relação a cerâmica (pag. 35-36):
«Fragmento de grande vaso de argilla amarellada, externamente
ornamentado em relevo, no estylo árabe, ou antes hispano-mahome-
tano»;
«Fragmento muito espesso de grande vaso de argilla ligeira-
mente avermelhada, com relevo ornamental no estylo hispano-maho-
metano, vidrado de verde escuro > ;
«Dois fragmentos, que se ligam, de um vaso de largo fundo acha-
tado, medindo de altura 0 m ,035. E' internamente vidrado de verde es-
curo, e por fora de amarello esverdeado, sendo a sua massa cerâmica
semelhante na côr e contextura á dos fragmentos antecedentes» ;
«Fragmento de fundo de um vaso de argilla, similhante aos an-
tecedentes na côr e contextura do barro, com vestígios de vidrado côr
de mel no lado externo, e de amarello claro internamente» ;
«Fragmento de fundo de vaso de argilla com externo vidrado
côr de mel sobre reflexos escuros, parecendo pertencer á classe dos
artefactos «eramographicos hispano-mahometanos».
Na Bibliotheca Nacional ha em depósito muitos fragmentos de
louça árabe vidrada e com muitos e graciosos ornatos em relêvo. To-
dos elles provierão do Algarve, e podem passar para o Museu Ethno-
graphico.
4) Candeias. No Algarve apparecem com frequência candeias
árabes de barro, que lembrão as lucernas romanas ; mas, além de terem
o bico (latim myxa) mais comprido, semelhante a um bico de pato, e
a asa mais desenvolvida que as romanas, têm também mais alta, for-
mando gargallo, a parte por onde se deitava o líquido.
Possuo duas quasi inteiras, ainda com algum vidrado, que se
achárão no Castello de Faro, e me fôrão offerecidas naquella cidade pelo
Sr. Dr. Coelho de Carvalho; posso depositá-las no Museu Ethnogra-
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212
REVISTA LUSITANA
phico. Na collecção archeologica da Bibliotheca Nacional ha algumas
(Testas candeias, umas pertencentes ao estabelecimento, outras ahi em
depósito. Estácio da Veiga encontrou muitas no Algarve.
Neste particular o Museu Ethnographico fica sufficientemente
provido.
5) Azulejos. Estácio da Veiga recolheu alguns no Museu do
Algarve. Pelo país ha muitos azulejos em relêvo, vidrados e de várias
cores, que é costume chamar hispano-arabes; mas torna-se difficil pre-
cisar a data d'elles.
Ainda hoje em Lisboa se fabricão, por imitação, azulejos análo-
gos áquelles.
6) Moedas. As moedas árabes são outra espécie archeologica
vulgar no Sul. Tenho visto muitas no Algarve, principalmente de prata
quadradas.
A' cerca das moedas de prata, áfehadas no Castello de Mértola, que
devem existir no Museu do Algarve, lê-se nas Memorias de Meiiola
de E. da Veiga, pag. 39: «Moedas de prata de dois módulos quadra-
dos, com legendas em ambos os lados, semelhantes ás de Almodôvar,
descritas, traduzidas e offerecidas á Real Academia de Historia, em
1800, pelo académico Fr. José de S. Antonio Mourai. O artigo de
Fr. José de S. Antonio vem nas Memorias da Academia Reid das
Sciencias, vol. x, parte l. a
Os Árabes, como é sabido, cunhárão moeda na Península. As
moedas árabes são de ouro fdináres, semi-dináres, terços de dinar), de
prata (dirhemes, kirates) e de cobre (felúses). Também as ha de electro.
As moedas árabes têm várias fórmas. As de que falia Estácio da Veiga
são pequenas moedas de prata quadradas. No seu Tratado de numis-
mática arábigo-espanola, Madrid 1879, diz D. Francisco Codera: tEsta
tendência para a fórma quadrada é muito característica das moedas
almohades e posteriores arabigo-espanolas» (pag. 218).
Na Bibliotheca Nacional ha moedas de ouro, de prata e de co-
bre; todavia esta collecção faz parte integrante do estabelecimento,
não pôde deslocar-se.
7) Objectos diversos. Estácio da Veiga encontrou ainda pelo
Algarve outros objectos que não posso descrever meudamente, como
cimentos para construcções, e alcatruzes de barro. D'estes últimos diz
nas Antiguidades do Algarve, n, 422: «tenho notado haver nas terras
cultivadas muitos fragmentos de uns alcatruzes de barro amarellado,
com canelluras estreitas em relêvo, semelhantes aos alcatrazes inteiros
que em Silves fôrão extrahidos da cisterna dos Cães, e de que tenho
depositado no museu alguns exemplares».
Apezar do explendor que a civilização árabe attingiu entre nós,
e da importância que ella teve para a nossa civilização, o que resta
para preencher no Museu Ethnographico a secção respectiva é exces-
sivamente pouco, limitando-se de mais a mais quasi tudo a fragmentos.
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ítJSÊU ETtfNOGâAPtílCO PORTUGUÊS 213
Esta pobreza coincide com o abandono a que os estudos árabes
têm sido votados em Portugal, onde nem sequer uma cadeira de lín-
gua árabe existe 1
Alguns mancebos estudiosos tentão actualmente despertar entre
nós o gosto e o interesse pelos assumptos semíticos. Assim não esmo-
rêção no seu útil e louvável emprehendimento I
Se o Governo o ajudar, o Museu Ethnographico fará também por
augmentar o pecúlio dos objectos archeologicos neste ramo.
VI
EPOCHA PORTUGUESA PROPRIAMENTE DITA
(Desde a Idade- Média até o século xvm)
Esta epocha subdivide-se em duas: uma, desde a Idade-Média até
a Renascença; outra desde a Renascença até o século xvm.
O fundamento da divisão está em que do século xv em deante a
vida portuguesa experimentou novo abalo, começando a ser mais com-
plexas as nossas relações sociaes, mais intensa a nossa civilização. As
relações com os paises de além-mar influirão nas artes, nos hábitos,
nas mobílias e mais aprestos caseiros, nas comidas, nos trajos, etc.
Começa também a transfundir-se novo sangue no nosso, em virtude da
assimilação que fizemos dos povos descobertos e conquistados.
Já nos capítulos precedentes fallei de diversas camadas ethnicas
que se sobrepuserão no nosso solo, até os princípios da Idade-Média.
No período em que Portugal se separa de Leão, e principia a de-
finir-se politicamente, para o que concorrem, de um lado condições
orgânicas, do outro o esforço dos seus homens políticos, são estes os
elementos que constituem a população portuguesa : Hispano Godos, que
provinhão da assimilação dos Bárbaros aos povos preexistentes na
Península, e se dividião em Mosarabes e em Hispano-Godos propria-
mente ditos, isto é, puros de servidão; Sarracenos, que, como disse,
se compunhão de muitos elementos ethnicos; Judeus; colónias vindas
d'além dos Pyreneus em diferentes epochas, e que formárão muitas
povoações, como Atouguia, Yilla- Verde, Lourinhã, Azambuja, Cezim-
bra, Ponte-de-Sor, e ainda se estendêrão pelo Norte. Devem-se a Ale-
xandre Herculano algumas bellas paginas a respeito d'estas colónias.
Os povos que as formavão recebêrão o nome comum e vago de Franci.
•A influencia do elemento franco na povoação das nossas províncias,
especialmente nas da Extremadura e do Alemtejo, — diz o grande
historiador, na Historia de Portugal, ui (3. a ed.), pag. 220 — , foi muito
mais importante do que em Leão, porque se associou ao povo e con-
tribuiu para augmentar a extensão e a força dos grémios municipaest.
Com as conquistas além mar, se a população do continente se dif-
fundiu e gastou, por outro lado recebeu em si e absorveu elementos
ethnicos de muitas e diversas origens, com os quaes se alterou.
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fcEVISTA LUSÍTAKA
Dizia Nicoláo Clenardo numa das suas cartas, — Nicolai Clenardi
EpisUâarmn libri duo, Hanoviae 1606, pag. 20 — , que Portugal no sec.
xvi estava tão cheio de Negros e Mouros, que parecia que ein Lis-
boa havia mais escravos e escravas do que Portugueses livres. Dando
o devido desconto ao exaggêro, são porém aquellas palavras dignas
de reparo. E o augmento da gente estranha não era só em Lisboa,
era também, e naturalmente, nas provindas. Do testamento de uma
rica dama eborense do sec. xvi. extractado pelo St. Gabriel Pereira
nos seus Estudos Eborenses, n.° 15, Évora 1888, consta que ella tinha
em sua casa, como diz o Sr. Pereira, «um grupo de serviçaes de dif-
ferentes raças, que dão idea de uma collecção anthropologica* : efe-
ctivamente nesse testamento mencionão-se escravos ou criados indios,
mouriscos, chineses, mulatos, pardos, além de um branco e de cinco
cuja raça se não indica.
Fallando do desfalque da população, por causa das conquistas,
escrevia no sec. xvn Severim de Faria, — Discursos vários políticos ',
1.°, § 2: «D'aqui veiu o ser necessário trazerem-se Cafres e índios
para o serviço ordinário. E já em tempo de D. João m passava isto em
tanto crescimento que diz Garcia de Resende numa copla da sua Mis-
céllania :
«Vemos no Reyno metter
Tantos cativos, crescer,
E irem-se os naturaes,
Que se assim fôr, serão mais
Elles que nós, a meu ver».
No século xviu o marquês de Pombal povoou de Africanos uma
terra nas margens do Sado.
No século actual, e no tempo presente, vemos a cada passo não
só gentes do Ultramar, sobre tudo da índia e da Africa, virem para a
metrópole e cá ficarem e se propagarem, tomo também Portugueses,
que vão para esses e outros pontos e para o Brazil, voltarem de lá
casados com indígenas.
Taes mestiçagens e cruzamentos explicão algumas das variedades
de typos ethnicos que existem no país, e também por ventura, em
parte, certas modificações que ha uns séculos para cá se notão no nosso
caracter. O conhecimento dos principaes elementos constitutivos do
povo português torna-se pois assumpto obrigado, como introducção de
um inventario de ethnographia; por isso fiz a breve indicação que
acabo de fazer.
Restringindo-me agora ao meu campo, direi que, em virtude das
considerações que apresentei acima, muitos objectos que poderião ficar
no Museu Ethnographico ficarão melhor, ou pelo menos têm também
cabimento, noutros Museus, por exemplo no de Bellas- Artes c no de
Artilharia, nos quaes já se áchão bastantes, e d'onde, nas circumstan-
cias presentes, não convém deslocá-los. Estão nesse caso : de um lado,
*
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tíUSEÚ ETHNOGfíAPHICO PORTUGUÊS 215
objectos de ourivezaria, metaes preciosos, jóias, imagens de santos,
alfaias ecclesiasticas, esculpturas decorativas, mobília, cerâmica, tape-
tes, illuminuras, sellos, sinetes, etc.; do outro lado, armamentos, estan-
dartes, etc.
Mas resta muita cousa que pôde ainda adquirir-se para o Museu
Ethnographico, sem fallar no que deve reproduzir-se por estampas,
moldes, etc.
De facto a nossa archeologia, no período de que estou faltando,
isto é, no que decorre desde a Idade-Média até o século xvm, 'dá
immenso que estudar. Não podendo aqui sequer fyzer uma resenha do
que ha no país, remetto o leitor para as obras especiaes, entre as
quaes pôde, por exemplo, consultar as seguintes modernas:
Catalogo Mostrado da exposição retrospectiva de arte ornamental,
Lisboa 1882, 2 vol. (texto e estampas);
Monumentos de Portugal históricos, artísticos e archeologkos, por
Vilhena Barbosa, Lisboa 1886;
Portugal Pittoresco, por Augusto Mendes Simões de Castro;
Les arts en Portugal, pelo conde de Raczynski, Paris 1846;
Die Baukunst der Renaissance in Portugal, por Albrecht Haupt,
Frankfurt 1890;
Montmentos Nacionaes, por Mendes Leal, Lisboa 1868;
Reliquias da architectura romano byzantina em Portugal, por A.
Filippe Simoes, 1870;
Da architectura religiosa em Coimbra durante a idade-média, pelo
mesmo, 1875;
Escriptos diversos , pelo mesmo, 1888;
Lisboa antiga, pelo Visconde de Castilho (Julio), 1879-1890;
A Ribeira de lAsboa, pelo mesmo, 1893;
O Mosteiro da Batalha em Portugal, pelo visconde de Condeixa;
O Minho Pittoresco, por J. Augusto Vieira, 1886-1887;
Catalogo provisório da galeria nacional de pintura (com uma in-
troducção pelo Marquês de Sousa Holstein);
Catalogo do Museu Archeologico do Carmo;
Catalogo do Museu do Instituto de Coimbra;
Catalogo do Museu Cenáculo, por Filippe Simões;
A antiga eschola portuguesa de pintura, por J. C. Robinson (tra-
ducção), 1868.
Portugal antigo e moderno, por Pinho Leal & Pedro Augusto Fer-
reira, 1873 : 1890;
Historia de Portugal, por Pinheiro Chagas;
Estudos Eborenses, por Gabriel Pereira;
Artes e artistas de Portugal, por Sousa Viterbo, 1892 ;
muitos jornaes litterarios, já da especialidade, como o Boletim da
Associação Archeologica do Carmo, o Antiquário, a Revista Archeo-
lógica, a Arte Portuguesa, já de caracter geral, como o Panoi amà, o
Archivo Pittoresco, o Occidente, a Revista Illustrada, etc, etc.;
e outros livros de historia e archeologia locaes, além dos que já
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âl6
citei. A menção de todos seria muito longa. Lembrarei no emtanto
alguns modernos:
O concdho de Elvas (em publicação), por Victorino d' Almada;
Apontamentos para a historia do Fundão, por J. Germano da Cu-
nha, Lisboa 1892;
Compendio de noticias de Vitta- Viçosa, por Padre Rocha Espanca,
Redondo 1892;
Os opúsculos do Abbade Castro e Sousa, sobre Belém, Cintra,
Pena, etc. e o Itinerário feito pelo mesmo auctor;
Materiaes para a historia da Figueira nos sec. XVII e XV11I,
por A. dos Santos Rocha, Figueira 1893;
Monographia de Castello Branco, por Antonio Roxo, Elvas 1891;
Estudos sobre Montemòr-o-Novo, por Lopes Praça, Coimbra 1873;
Monumentos das ordens militares de Thotnar, por J. Antonio dos
Santos, Lisboa 1879;
Alemquer e o seu concelho, por G. João Carlos Henriques, Lisboa
1873; ,
Annaes de Sanct-Yago de Cassem, pelo Padre A. de Macedo e
Silva, Beja 1866 e Lisboa 1869 (2.* ed.);
Memorias da villa de Oleiros, por D. João M. Pereira d' Amaral o
Pimentel, Angra 1881;
Esboço histórico de Vãla Nova de Ourem, por J. das Neves Go-
mes Elyseu, Lisboa 1868;
Apontamentos para a historia ãe Cascaes, por Pedro Lourenço de
Seixas B. Barruncho, Lisboa 1873;
Descripção de Villa Nova de Oaya, por Monteiro de Azevedo &
Rodrigues dos Santos, Porto 1861;
Memoria do mosteiro de Leça, por A. Carmo Velho de Barbosa,
Porto 1852;
O monumento de Mafra, por Conceição Gomes, Lisboa 1871;
Monumentos e lendas de Santarém, por Zephyrino Brandão, Lis-
boa 1883;
Historia da cidade e bispado de Lamego, por D. Joaquim de Aze-
vedo, Porto 1878;
Descripção de Torres Vedras, por Madeira Torres (2. a edição),
Coimbra 1861;
Memorias da viUa do Barreiro, por J. Augusto Pimenta, Lisboa
1886;
Memoria sobre Setúbal, por Alberto Pimentel, Lisboa 1879;
Guimarães, pelo Padre Ferreira Caldas, 2 vol., Porto' 1881-1882;
Tàgilde, pelo Abbade Oliveira Guimarães, Porto 1894.
Alguns dos livros e jornaes citados contêm também noticias a
respeito de outras epochas da história da civilização portuguesa.
Para preencher ijo Museu Ethnographico a respectiva secção ha
ainda muito pouco : apenas algumas pedras com inscripções, e umas
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MUSEU ETHN0GRAPHIC0 PORTUGUÊS 217
esculpturas, que Estácio da Veiga recolheu no Museu do Algarve; e
todavia torna-se fácil em pouco tempo, logo que o Governo dê para
isto uma verba, embora modesta, fazer uma razoável collecção de
objectos archeologicos portugueses. v
VII
EPOCHA PORTUGUESA MODERNA
Parte dos objectos que vão ser enumerados podem ^também per-
tencer a um museu de bellas-artes, a um museu industrial, a um mu-
seu agrícola, etc, em virtude do que eu disse a cima; no emtanto não
deve deixar de se fazer aqui à menção geral, embora haja sempre de
se ter na mente que os objectos que principalmente se buscão num
museu ethnographico são os de significação característica e antiga,
isto é, os que estão radicalmente relacionados com a vida popular,
fazendo parte integrante djella, e contribuindo para revelar e explicar
as tendências e aptidões do povo que os usa.
*
A's variedades geológicas, climatéricas, anthropologicas do nosso
país correspondem variedades ethnographicas, pois a vida social regu-
la-se quasi sempre pelas condições naturaes.
No Minho, — como província mais rica em vegetação e mais hú-
mida, pelas suas condições de latitude — , é onde domina o gado bo-
vino, que ajuda o homem nos trabalhos campestres. Ahi achamos tam-
bém curiosos factos ethnographicos ligados com a vida agrícola: su-
perstições com o boi, por cuja bôca, tida como sagrada, se fazem ba-
fejar as sementes antes de as lançarem á terra; adivinhas populares
e cantigas cujo thema é o campo; e esses interessantíssimos jugos e
cangas que só se encontrão lá, variados nos seus ornatos, conforme
as localidades, e com allusões a crenças religiosas. O systema das vi-
des de enforcado, isto é, das vides que crescem abraçadas ás arvores
(uveiras), — podendo dizer-se como Varrão, De re rústica, XI, n, 79,
tilmi vitibus maritantur—, dá origem no Minho a costumes especiaes
de vindima, que não se encontrão noutros sitios, onde o cacho se cria
em vinhas e vinJiagos, e não em uveiras.
O milho cultiva-se principalmente no Minho e na Beira. Além do
aspecto de paisagem que elle imprime aos campos, a sementeira e a co-
lheita constituem na vida das povoações episódios variados. A semen-
teira, em alguns sitios, chama-se vessada, — do latim versata, parti-
cipio do verbo versare, «revolver a terra» — , e os dias em que ellas se
fazem são na Beira- Alta, em cada família, dias de festa e de movimento,
em que todos os trabalhadores vão alegres para o campo, e de lá voltão
dando vivas aos donos das lameiras e lameiros, — pois assim se chámão
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REVISTA LUSITANA
os terrenos onde numa epocha do anno se cria o milho, e na outra as
pastagens para os bois, terrenos ordinariamente situados junto de agua,
e por isso alagadiços, d'onde a origem dos nomes. Na Estremadura a
palavra lameiro tem significação mui diversa, pois quer dizer tsítio
cheio de lama», o que na Beira se denomina lamaço e lamaçal. — A*-
esfolhada e debulha do milho, aos serões, provocão nas raparigas e
rapazes musicas e cantigas ; e os empilhamentos das cannas junto das
brancas e largas eiras, em medas, que como que fórmão altás pyrami-
des, produzem um dos mais curiosos enfeites das vivendas ruraes.
Nas zonas montanhosas de Tr&s-os-Montes e da Beira nascem os
castanheiros. Nada mais grandioso na nossa flora do que essas arvo-
res seculares e gigariteas, que o viajante admira no districto de Villa-
Real, ou á entrada da cidade da Guarda, agrupadas em soutos! A casta-
nha introduz modificações nos hábitos alimentares, pois pôde comer-se
crua, assada, cozida, em caldo, pilada, e até constituindo uma espécie de
bolas, que se vendem nas feiras beiras com o nome de falachas. A cas-
tanha cozida substítue frequentemente, na alimentação dos pobres, ou-
tros pratos. Nos conventos o caldo de castanhas era comida obrigada
em certos dias solemnes. E' ainda com castanhas que se fazem os ma-
giistos, no dia de Todos-os-Santos, costume muito vivaz e espalhado
na Beira, apezar de, como penso, se ligar com o antiquíssimo culto
dos mortos: o magusto é uma vasta e festiva fogueira em que se
ássão castanhas, geralmente ao ar livre, no campo, com a qual se
prendem várias usanças populares. Aqui está um bom exemplo das ín-
timas relações da ethnographia com a geographia. Mas não se limita
a isto a influencia da Castanea vtãgaris na vida social do nosso povo.
Conheço alguns contos que se referem ás tocas dos velhos castanhei-
ros; a litteratura poética oral offerece adivinhas que têm por assum-
pto a corpulência cTessas arvores, o ouriço e a castanha ; a boneca con-
stituo um meio supersticioso de prever o futuro; e ainda as crianças
fazem das vergonteas, quando cheias de seiva, umas gaitas particula-
res. Nçnhum d ? estes factos se pôde observar fóra das regiões casta-
neíferas ; elles dão pois pbr si caracter ás localidades.
A parte raiana da província de Tras-os-Montes abunda em ce-
reaes. As grandes ceifas não só deslocão muita gente, o que origina
transmissão de costumes, mas, como têm o cunho da antiguidade e da
persistência, fazem que se conservem certos hábitos, cujo estudo mui-
to interessa. Exemplos da transmissão de costumes temo-los nas xaca-
ras populares, como mostrei no Romanceiro português, Lisboa 1886,
pag. 5 ; exemplos de conservação de hábitos temo-los numa importantís-
sima classe de poesias, algumas das quaes colleccionei no Annuario da$
tradições populares, Porto 1882, pag. 19 sgg., que dão luz para a com-
prehensão de certas formas poéticas dos nossos Cancioneiros medie-
vaes. A necessidade de acarretar grandes porções de palha obriga os
lavradores a servirem-se de carros também muito grandes : é pois uma
particularidade de várias localidades trasmontanas a dimensão das
portas dos cabanaes, para onde entrão os carros. Os cabanaes, em dia-
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MUSEU ETHNOGRAPHIOO PORTUGUÊS
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lecto mirandês cabanhaes, correspondem aos pateos ou pâitos da Ex-
tremadura, e ás quintans da Beira-Alta.
Os terrenos calcareos do Mondego, do Tejo e do Guadiana pro-
duzem olivaes em grande escala. A apanha da azeitona e a fabrica-
ção do azeite originão nomes, cantigas populares e usos que não exis-
tem noutras partes, ou existem differentes. Na Beira é costume, na
noite de S. João, accender um facho, feito de. lenha sêcca; na Extre-
madura o facho é substituído por uma ceira do azeite. Em Santarém
chama-se adiafa a uma fejsta que se faz no fim da colheita da azeito-
na, e consiste em danças, etc. Como estas, outras diversas modifica-
ções na vida ethnographica, devidas á cultura da oliveira, se podião
citar.
O Alemtejo, onde o clima é ^íais sêcco, é a região do sobro e do azi-
nho. O azinho produz bolota (nome popular boleta) e o sobro pro-
duz lande; de lande e bolota se engórda o gado suino, que naquella pro-
víncia constitue copiosa fonte de riqueza. Além do gado suino, no Alem-
tejo crião-se outros em grande abundância, como também na Beira. A
vida pastoral alli tem cunho muito especial. Os diflerentes indivíduos
encarregados da guarda e cuidado dos gados estão distribuídos hierar-
chicamente, desde o simples ajuda até o maioral; ha nomes especiaes,
conforme os cargos, o porqueiro, o cabreiro, o ovelheiro . . . ; os utensí-
lios de que o pastor se serve, como o tarro, a côrna, a coíhér de chi-
fre, fá-los elle mesmo, em quanto, no silencio e na solidão das vastas
herdades, guarda o gado; e ás vezes revela-se nesses trabalhos muita
habilidade, que, bem dirigida, poderia dar verdadeiros artistas.
Taes exemplos bástão para o meu fim.
Com relação á anthropologia, esta sciencia está ainda no berço
entre nós, para que eu possa fazer aqui considerações desenvolvidas.
A sobreposição dos elementos ethnicos que no decurso d'este artigo
tenho indicado na população do nosso país, desde remotas eras, faz
que não possamos encontrar hoje um typo uniforme, mas que pelo con-
trário encontremos muitos.
No Norte, por exemplo, não se verão com tanta frequência ho-
mens altos como no Alemtejo, nem no Sul se verão com tanta frequên-
cia homens de olhos azues e de barba e cabello louros como no Entre^
Douro-e-Minho, em Tras-os-Montes e na Beira. E' mais vulgar ver no
Minho do que no Sul gente de faces rosadas. As molheres do littoral,
d'Aveiro a Vianna, pássão pelas mais formosas do país.
Os Septentrionaes são mais activos, mais resistentes no trabalho,
do que os Meridionaes: basta notar que nas tres províncias do Sul nin-
guém faz uma pequena viagem a pé, e que quasi todas as pessoas
têm para seu uso pelo menos um jumento. Quem percorre uma estra-
da do Algarve, do Alemtejo ou da Extremadura pasma da grande
quantidade de pessoas a cavallo que encontra; já não é assim, por
exemplo, na Beira nem no Entre-Douro-e-Minho.
Nas tres províncias do Sul ninguém anda descalço ou sem meias;
na Beira e no Entre-Douro-e-Minho isso é frequentíssimo. As próprias
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REVISTA LUSITANA
molheres nestas duas últimas provindas, qnando vão de visita a uma
terra estranha, vão sem meias, cálção-nas á entrada, e descálção-nas
á sahida, para as pouparem. E com tudo, quasi todas as molheres, nas
horas vagas do* serviço da casa, se occupão em fazer na meia! Ha
mais uniformidade de trajos no Sul do que no Norte. Numa aldeia da
Extremadura, em que vivi uns meses, havia um rapaz engeitado, mui-
to pobre, que andava em mangas de camisa, por não ter jaqueta; quis
dar-lhe um casaco meu, já usado, mas ainda bom, e elle não o accei-
tou, por não ser como os outros da terra, e preferiu continuar, como
andada, em mangas de camisa, ao vento e á chuva! No Algarve é
muito vulgar ver molheres do povo com chapéu, mesmo dentro de casa,
nas lidas domésticas. Os trajos das molheres de Entre-Douro-e-Minho
e ainda da Beira-Alta, coloridos, garridos, contrástão singularmente
com os das molheres do Sul, mais tristes, mais feios. Em parte algu-
ma se usão nas orelhas brincos ou arrecadas de ouro tão grandes como
no Minho. Em certos pontos raianos de Tras-os-Montes as molheres,
á maneira do que fazem as pretas na Africa, átão de certo modo a
capa na cinta, e trazem ás costas, dentro de uma espécie de saco, os
filhos pequenos, emquanto com as mãos livres trabálhão : vi isto em
Quintanilha. Creio que é só no Norte que os homens se podem vestir
todos de palha : chapéu, palhoça (ou croça) e polainas, — como palhei-
ros ambulantes. A palavra croça é modificação phonetica de coroça,
que talvez provenha do latim corocea, por causa de analogia de côr.
— Ao passo que a gente do campo usa frequentemente no Norte, no
verão, chapéus de palha, os trabalhadores meridionaes, mesmo nó
maior calor, não lárgão os pesados e quentes chapéus de panno des-
abados.
O Algarvio é extremamente fallador, resultado talvez da raça e
do clima: tenho até observado que o estylo de muitos escriptores na-
turaes do Algarve é prolixo, verboso. O Alemtejano é apparentemente
frio no seu trato, mas sincero; o Minhoto e o Beirão são mais amáveis,
mas acaso menos sinceros; o Éxtremenho nem é muito amável, nem
muito sincero, — exceptuando Lisboa onde, pelas condições inherentes
a uma côrte, o termo alfacinha se tornou proverbial como synonimo de
«pessoa de boas palavras e de muitos comprimentos, mas não conven-
cida do que diz ou faz». Ninguém de apparencia mais amável do que
o lisboeta : condiz porém sempre ésta amabilidade exterior com o modo
intimo de pensar? O Éxtremenho creio não ser tão liberal como o
Trasmontano, o Interamnense e o Beirão, que oferecem francamente
a soa casa, hospedão e trátão com afabilidade. O typo chamado entre
nós Portugal velho, bondoso, lhano, com quem a gente logo á primei-
ra vez sympathisa, encontra-se mais vezes nas províncias do Norte e
centro do que nas do Sul. A pátria do fidalgo antigo, que se revê nos
seus brazões, e, sem deixar de estimar os outros, não se desapruina
porém da linha, é também principalmente no Norte e no centro do
; reino.
Em tudo o que estou dizendo, já se vê, ha muitas excepções; ape-
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MtJSKU KTHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
221
nas noto os resultados da minha observação, que pôde ser bastante
subjectiva.
A gente do Sul parece-me menos profundamente religiosa do que
a da Beira e a das duas provindas septentrionaes ; pelo menos o culto
externo tem lá menos vigor: não ha tantos santuários, tantas almi-
nhas, tantos cruzeiros; não se fazem tantas cerimonias religiosas. No
Norte ou na Beira, quando se festeja, por exemplo, o padroeiro da
freguesia, reina em todas as pessoas grande satisfação, e ninguém fal-
ta na igreja; na Extremadura assisti uma vez, numa villa, a uma fes-
ta de anno, e apenas estavão no templo meia dúzia de molheres, que
provavelmente não tinhão outra cousa que fazer ! Não se pôde compa-
rar o mundano e o folgazão dos ários extremenhos com a fé e a unc-
ção das romarias e das procissões do Norte e do centro do reino. Em
Lisboa o artista e essa repugnante classe dos faias ou fadistas fazem
ostentação de serem anti-religiosos; mas isso resulta menos de convic-
ção íntima do que do princípio de insubordinação contra tudo o que
seja poderes constituídos. O Extremenho tem pouca ternura de senti-
mentos. E' na Extremadura que o bárbaro divertimento tauromachico
está mais em voga; e ha agora em Lisboa pessoas de intelligencia
apoucada e instinctos assai vajados que não só querem as corridas' cha-
madas de morte, mas as defendem calorosamente, tentando assim in-
troduzir era Portugal um espectáculo sanguinolento, que não está nos
nossos hábitos, e que é característico de um povo estrangeiro! As cor-
ridas de touros filião-se nos antigos combates com aç feras. A evolu-
ção natural das ideias tende a supprimi-las, e não a dar-lhes desen-
volvimento. Mas ás vezes ha contradicções na humanidade. E' por isso
que o anarchismo ganha proselytos, e a pena de morte mancha ain-
da os códigos das nações mais civilizadas do mundo!
Todas as differenças que tenho assignalado provém de causas
muito complexas, umas naturaes, outras sociaes.
No nosso país ha vários grupos ethnicos curiosos. Nos arredores
de Lisboa temos os Çahios, que se estendem até Cascaes, Cintra, Ma-
fra, Ericeira, acabando, segundo creio, já antes de Torres- Vedras; á
beira do rio, isto é, no Ribatejo, temos os Campinos, que chegão, pelo
menos, até á Gollegã. Na zona marítima da Beira temos os Varinos,
de que ha em Lisboa uma colónia importante ; a palavra Varino ou
Ovarino, deriva de Ovar; este nome de terra deu origem também á
palavra vareiro, que na Beira significa «vendedor ambulante de sar-
dinha», isto é, sardinheiro. A gente de Villa do Conde dá o nome de
Maiatos a todos os povos que lhe ficão para lá do Ave, embora a Maia,
d'onde aquelle nome deriva, seja mais circumscrita. No Norte de Tras-
os-Montes ha um extenso tracto montanhoso em que ficão os Lombarde-
ses, nome tirado irregularmente do nome topographico A Lombada. A
gente da Beira tem, pelo menos desde o sec. xvr, o nome comum de
Ratinhos, que inscientemente se tem querido fazer derivar de Rates ;
Ratinho é nome irónico, devido talvez ao caracter agenciador e traba-
lhador dos Beirões.
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REVISTA LUSITANA
Geographicamente o país tem também -muitas divisões populares.
A divisão maior é em provindas,— Entre-Douro-e-Minho, Tras-os-
Montes, Beira, Extremadura, Alemtejo e Algarve.
A denominação de Entrb-Douro-k-Minho, que boje já se não usa
no povo, mas que convém muito usar, pelo menos na litteratura, por-
que define uma área bastante uniforme, provém da situação da pro-
víncia entre os dois principaes rios do Norte. Denominações d'estas
são vulgares no país. Nos documentos antigos lê-se Entre-Tejo-e-Odia-
na, o que significa pouco mais ou menos o Alem-Tejo e o Algarve. Odia-
ria é uma fórma antiga de Guadiana, palavra composta do ibérico
A na, e de guade, em árabe wad, que quer dizer trio»; ha outros no-
mes semelhantemente formados, como Odeseixe, Odeleite, Odemira,
Odiâxere, Guadelupe, Guadiana, Guadalete, uns em Portugal, outros
na Hespanha. Lê-se também nos mesmos documentos Entre-Homem-e-
Cávado, que representa certo tracto de terra no Baixo-Minho; lê-se
Entre-Minho-e-Lima, Entre- Do uro-e- Vouga, Entre-ambas-as-Aves. A
ultima denominação corresponde ás terras situadas entre os rios Ave
e Avizella, hoje Vizella. — pois Avizélla è um deminutivo de Ave, la-
tim *Av-ic-ella, sendo Ave proveniente do nome pre-romano Avus.
Em Tras-os-Montes ha uln sítio que se chama Entramblas áugas {— En-
tre ambas las aguas), por ficar entre duas correntes de água. Os po-
vos beirões da margem do Douro chámão ás terras fronteiras Alem-
Doiro; e os que vivem nestas terras dão o mesmo nome á parte da
Beira que lhes fica do outro lado do rio. Já na antiga geographia
peninsular, no tempo dos Romanos, se encôntrão denominações tam-
bém tiradas dos rios, como Transcudani, «os de além do Cuda, hoje
Coa*; Limici, «os das margens do Limia, hoje Lima*; Tamacani ou Ta-
magani, «os das margens do Tamaca (Tamaga), hoje Tâmega*. — Os
habitantes de Entre-Douro-e-Minho tinhão outrora na litteratura o
nome de Interamnenses, formado de inter amnes, «entre os rios», —
que os nossos eruditos criárão á semelhança do latino Interamna, de
uma cidade da Itália, cercada de um canal formado pelo rio Nar. A
palavra Entre-Douro-e-Mirúio tem variado na pronúncia popular: nuns
auctores encontra-se Antre-Dmro-e-Minho, noutros Antredouraminho.
Um auctor do sec. xvm, João Baptista de Castro, no Mappa de Por-
tugal, i, 45, chama-lhe Duriminea, nome não-popular, e composto de
Durius e Minius, que são as denominações dos rios Douro e Minho na
epocha luso-romana. A fórma Duriminea não pegou.
A denominação de Tras-os-Montks é também tirada da geographia.
Como eu já disse na Revista Lusitana, n, 100, fôrãp de certo os povos
do Minho que dérão o nome a Tras-os-Montes, pois ésta província lhes
fica para lá dos montes do Gerês, Cabreira, etc. Os trasmontanos de-
vião naturalmente chamar á sua terra Aquem-dos-Montes ; e em ver-
dade, num documento de Bragança, do século xrv, lê-se: «comarca
d'aquem dos montes*. Como mais usado, foi porém o outro que preva-
leceu. — O nome Tras-os-Montes tem variado na pronúncia. Em vez
da moderna fórma litteraria lê-se nos livros antigos Tras-los-Montes
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ou Trallosmontes, como ainda o povo lá diz. O nome gentílico corres-
pondente é Transmontano ou Trasmontano, com várias pronúncias po-
pulares, como Tramontano e outras. O suffixo ano apparece também
em bragançano, de que ha a fórma antiga braganção.
Brira. Este nome provém provavelmente de ficar situada a pro-
víncia na ri-beira ou re-beira do Douro, isto é, «á beira do rio». O nome
gentílico é Beirão. Alguns auctores, levados da apparente semelhança
que ha entre Beirões e o nome Berones de um antigo povo ibérico,
suppuserão erradamente que aquella fórma provinha d'esta. Beirão
fórma-se de Beira por meio do suffixo -3o, variante phonetica do suf-
fixo -ano, que tem origem no latim -anus. Assim é que de Romanas
se fez em português Romano e Romão. Em livros antigos lê-se os Ro-
mãos na accepção de os Romanos. A palavra romão, como synonima
de romano, usa-se ainda hoje em linguagem architectonica : «estylo
romão*.
A palavra Extremadura vem innegavelmente do verbo extremar,
como armadura, de armar, semeadura, de semear, etc, embora não
seja fácil dizer qual foi a accepção primitiva da palavra, isto é, o que
ésta província extremava na Idade-Média, se os terrenos árabes do
Sul do Tejo, se o país pelo lado do Oceano. Ha outros nomes iguaes
ou parecidos, como na Hespanha Extremadura, e em Portugal Extre-
mo, Extremas e Extremadouro. Este ultimo é formado também de ex-
tremar, como Miradouro (outro nome vulgar), de mirar. Viterbo, no
seu Elucidário, s. v. Bemquerença e Pendia, cita uma Extrematura e
Stremadura em documentos medievaes. — Os habitantes da província
da Extremadura chamão-se Extremenhos; os da Extremadura hespa-
nhola têm o mesmo nome, Extremenos.
Alemtejo. E' outra denominação análoga ás que já citei. Primi-
tivamente a província devia abranger também a península de Setúbal
com o terreno do Sul que hoje pertence ao districto de Lisboa. — O
nome gentílico é Alentejano, formado como Trasmontano. Creio já ter
ouvido á gente do Sul dizer Alemtçjão./
A palavra Algarve é árabe, Al-garve = Algãrb, que significa
O Occiãente. Tinha outr'ora o titulo de reino e ainda hoje os soberanos
portugueses se chámão «reis de Portugal e do Algarve* ou €dos Al-
garves* (com referencia á Africa). — Os habitantes do Algarve deno-
minão-se Algarvios.
Algumas das províncias subdividem-se, e recebem nomes popula-
res correspondentes. O Entre- Douro-e- Minho subdivide-se em Alto-
Mirúio, Baixo-Minho e Baixo-Douro, regiões que ainda também se
subdividem, como da segunda já disse. Alto-Douro, a região vinha-
teira, é uma divisão de Tras-os-Montes. Nésta província ha vários
territórios que se chámão vulgarmente Terras, como Terra de Mi-
randa, Terra Quente, Terra de Vinhaes; em tempos antigos a pala-
vra terra tinha também na administração do país sentido politico,
como se pôde ver em Viterbo, Elucidário, s. v. No Entre-Douro-e-
Minho e na Beira também se encontra Terra da Maia, Terras de
224
REVISTA LUSITANA
Bouro, Terra da Feira; naquella província ha muitos concelhos com
denominação geral que não corresponde a uma dada povoação ou vil-
la, como Baião, Felgueiras, Maia. A Beira subdivide-se em Alta e
Baixa, mas o povo da Beira-Baixa, em virtude das altas serras que
lá ha, chama Beira-Alta á Beira-Baixa; a parte marítima do antigo
principado da Beira, isto é, os districtos de Aveiro e Coimbra, não
tem nome popular, que eu saiba; o território adjacente a Coimbra
chama-se Campo de Coimbra. A palavra Campo, neste sentido de ter-
ritório extenso, e mais ou menos plano, appárece outras vezes : Campo
da Gottegã, Campo de Benavilla. Em relação ás divisões da Extrcma-
dura já fallei dos Çaloios e dos Campinos. Em Lisboa, quando se quer
fallar do território dos Çaloios, diz-se mesmo os Çaloios, por exem-
plo: «morar nos Çoloios*, «ir aos Çaloios*, «vir dos Çaloios*, como em
latim se dizia in Persis, in Sabinos, ex Liguribus, — tomando-se o
nome dos habitantes pelo do país. O Alemtejo subdivide-se em Alto e
Baioco-Alemtejo, como o Minho e a Beira, variando porém, em relação a
esta última, a collocação syntactica do adjectivo. O Algarve subdivi-
de-se em Sotavento (parte oriental) e Barlavento (parte occidental),
denominações provindas da linguagem marítima.
Além d'estas designações, ha ainda outras tiradas da geographia,
e de caracter mais geral. Assim, á gente da serra dá-se na Beira o
nome comum de Serranos, e no Minho o nome comum de Monta-
rihoes (pelo menos em certos sitios). Aos habitantes da beira-mar é
frequente chamar os da Borda êCâgua.
Quando se estuda a toponymia portuguesa, isto é, os nomes lo-
caes (de povoações, sitios, montes, rios, valles, etc), nota-se o se-
" guinte : uns nomes fôrão já herdados pela lingua portuguesa, isto é,
provêm de línguas falladas na Lusitânia antes da implantação do la-
tim, como Portu-gal (Cale), Lisboa (Olisipo, Olisipona), Coimbra (Co-
nimbriga), Évora (Ebora), Tqo (Tagus, *Tagius), Douro (Durius, Do-
rius), Mondego (Munda, Monda, *Mondaecus), Braga (Bracara, *Bra-
gala, Bragaa), Nabão (*Nabanus, de y/Nab^), Lamego (Lama, *La-
maecus), Minho (Minius), Neiva (Nebis, *Nebia, — como Lim-ia),
Lima (Limia), Coa (Cuda, *Coda), Tâmega (Tamaca, Tamaga), Ave
(Avus), Coina (Equábona, *Cauna, Couna), Idanha (*Igaeditania, Egi-
tania, Eydãia), etc; outros nomes provêm do latim e das outras lin-
guas_ posteriores que em tempos antigos mais contribuirão para a for-
mação do léxico português, isto é, do germânico e do árabe. Temos
assim duas classes de nomes locaes : antigos e modernos. Dos nomes
modernos muitos achão-se bastante desfigurados, como Beselga (de
basílica), Vaia (de Eidulia), Santiáhão (de Sanf lulianus), etc. Os
nomes locaes podem reduzir-se a classes: por exemplo, nomes ti-
rados:
a) da flora, como Felgueiras, Bidueira, Salzedas, Cerzedo, Ma-
cedo, Velleda;
b) da fauna, como Aguiar, GolpUhares, Castro-Laboreiro, Lo-
beiros;
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225
c) da natureza e configuração do terreno, como Cabeça Gorda,
Adiada, Chellas, Arneiro, Bico-da-Vela;
d) dos rochedos, como Pena, Penha, Pedras, Pedroso, Lageosa,
Alijó, Lijó, Laj)a; , t
e) das aguas, como Rio, Corgo, Ribeiro, Ribeira, e muitos dos que
citei a cima;
f) dos ventos e dos rumos, como Penaguião, Ventosa, Aventosa,
Ventosellos, Aventeira ;
g) da religião, quer christã, quer popular, como S. João, Santu-
Ihão, S. Pedro (oragos), Cova da Moura, Boca do Inferno, Aguas-
Santas, Rio Santo, Monsanto, Fonte-Santa, Casa dos Galhardos;
i) de nomes próprios e titulos: Vâla do Conde, Margaride, Mar-
tini- Joanne;
j) da natureza do clima (geralmente como sobrenomes), Rio- Frio,
Mesão-Frio, Terra-Quente;
h) de divisões territoriaes, titulas de propriedades, denominações
de povoações, partes d ? estas, como: Abbadia, Póvoa, Bairro, Aldeia,
ViUa;
l) de quaesquer edificações, como Antas, Duas-Igrejas, Akaça-
rias, Atalaia, Bico-da-Vela;
m) da natureza do campo, ou das fórmás da lavoura, como Ar-
roteia, Avessada, Agra, Agrello, Bouça;
n) do aspecto geral do sítio, como Bella- Vista, Boa-Vista, Val-
Formoso;
o) de caminhos, como Estrada, Atalho.
E muitas mais classes se podem ainda formar. O estudo da to-
ponymia é interessantíssimo, debaixo de muitos aspectos, pois mani-
festa o grau de imaginação do povo no formar epithetos e no descre-
ver era uma só palavra os sítios, dá indicações á cêrca da história na-
tural e social da região, e revela muitos processos curiosos de lin-
guagem; é necessário porém fazê-lo com methodo, e não ao acaso,
como em Portugal geralmente se costuma.
Ao fallar da toponymia, direi que com a diversidade de zonas
geographicas e ethnicas que a cima mencionei está também de accôrdo
a diversidade da linguagem vulgar, ou dialectos e co-dialectos, sendo
alguns, como os da raia trasmontana, particularmente notáveis.
Feitas estas considerações geraes, que mostrão, por uma parte,
que a Ethnographia provoca importantes questões e pôde esclarecer
diversos assumptos, e por outra, que o nosso país, apesar de pequeno,
contém vasta e variada matéria de estudo, e necessita ainda de ser
muito investigado para ser verdadeiramente conhecido, — vejamos
agora, mais em especial, de que elementos deve principalmente con-
star o Museu Ethnographico Português na secção de que me estou
occupando (epocha moderna).
Ktv. mjsit., vol. ih, fase. 3. 3
226
&EVISTA LUSITANA
1. Desenhos e modelos de edifloações. Temos de consi-
derar dois grupos: moradas, e construcções várias.
a) Moradas. — O typo geral das casas não é uniforme no nosso
país. A casa com peitoril e varanda soalheira é própria das províncias
do Norte e da Beira. Em Tras-os-Montes ha junto da casa um vasto
páteo fechado mas descoberto, que se chama, como já disse, cabanál.
No Sul as casas pode dizer-se que são todas caiadas (Extremadura,
Alemtejo e Algarve); na Beira e nas províncias do Norte só são, em
geral, caiadas as casas de certa importância. O serem ou não serem
caiados os edifícios dá ás povoações aspecto muito diferente. Quem
viaja pelas provincias do Sul admira-se de ver a certa distancia bran-
quejar um logar que se lhe afigura muito grande e muito asseado:
chega lá, e ás vezes encontra apenas uma pocilga rodeada de meia
dúzia de pequenas casas. Nem sempre o facto de caiarem no Sul as
casas depende de asseio ou de gosto esthetico : depende não raro da
necessidade de conservar as paredes, por serem feitas d$ adobos ou
de pedras menos solidas e menores que os blocos de granito do Mi-
nho e da Beira. Em Tras-os-Montes as casas com paredes de schisto
avermelhado, por exemplo nas margens do Douro, têm um aspecto
muito melancólico. Era chaminés ha grande variedade: no Alemtejo
parecem túmulos (por exemplo Ponte-de-Sôr), no Algarve semelhão
elegantes zimbórios e minaretes; com alguns tijolos e um pouco de
cal, o Algarvio edifica sobre o telhado ás vezes verdadeiras obras
de arte, que é um gosto ver. Nas serras do Minho e da Beira as ca-
sas, além de nuas de cal, são cobertas de colmo; em Tras-os-Montes,
em muitas aldeias, vi casas cobertas de lousas. No Norte, apesar de
as casas serem ás vezes caiadas, os telhados não o são. As casas de
mais de um andar chamão-se no Minho casas-torres. No Sul, as casas
são geralmente baixas, e de um andar; não raro também a luz que
recebem vae-lhes de um postigo aberto na própria porta, ou de uma
única janella. No Sul quasi todas as casas têm á entrada uma saleta
com sua mesa reservada para ter louças de estimação e outros obje-
ctos puramente de luxo, embora de baixo prêço; nem na Beira, nem
no Norte se encontra isto como uso vulgar. No Minho algumas casas
são abertas na encosta dos inontes, — como grutas artificiaes : obser-
vei isto no Alto-Minho, onde as chamão por isso barracas de so-clião
(sob o chão). Isto dá-nos ideia do modo de vida dos povos prehistori-
cos. Mas ha ainda outras interessantíssimas fórmas de habitação, que
como que nos transportão a epochas primitivas. Uma vez experimen-
tei grande impressão percorrendo no Algarve uma rua de cabanas de
pescadores. Na feitura das cabanas não entra pedra, nem metal; são
construídas de madeira e junça. Parece estarmos pois na epocJia da
pedra. Como no período prehistorico dos kjoekkenmoeddings, os pes-
cadores accumulão ás portas grandes montões de conchas e de restos
de peixes e de mariscos. Quem quiser formar juízo aproximado de
como vivião na epocha da pedra, no valle do Tejo, os povos que lá
deixárão os kjoekkenmoeddings que Pereira Costa, Carlos Ribeiro, e
MUSEU BTHNOGRAPHIOO PORTUGUÊS
227
Paula e Oliveira estudárão com t^nto interesse, dê ura passeio até
certas aldeias do littoral algarvio, e ahi encontrará nas moradas e
nas comidas um aspecto do viver das primeiras sociedades do nosso
país. A Cova de Lavos é uma povoação fronteira á Figueira da Foz,
e separada d'esta cidade pelo Mondego: não ha lá outro chão senão
areias; o viajante não verá ahi hortas nem arvores; em compensação
verá o que não tornará a ver facilmente noutras regiões do país : uma
aldeia com as casas, todas de madeira, erguidas no ar, sobre espeques,
também de madeira, enterrados na areia. Temos aqui outro aspecto
do viver primitivo, — das povoações lacustres, que os italianos cha-
mão palafitte, com a diferença que as palafitte prehistoricas erão so-
bre agua. Estas casas de Lavos têm o nome de jmlheiros, e ainda na
Figueira ha uma praia assim denominada; talvez esteja ahi a origem
da cidade. — As barracas dos campos nas províncias do Norte e na
Beira são também curiosas, umas de madeira, outras de palha. — Nas
serras da Extremadura os pastores fazem umas pequenas casas de pe-
dra solta, que chamão caseias, e são sem telhado. — Muitas vezes os
pastores da Beira, do Alemtejo, etc, aproveitão para se resguarda-
rem do tempo as antas prehistoricas (dolmens), quando grandes e bem
conservadas. — Já a cima me referi ao interior das casas ; devo espe-
cialisar as cozinhas, que varião muito no país. No Norte não ha a
vasta chaminé do Alemtejo e do Algarve, nem na parede, junto da
lareira, uma figura de barro, que nuns pontos se chama boneca, nou-
tros sempre-noiva, etc, e que, como penso, é o vestígio de um culto
pre-christão, — do Lar familiaris. Éstas figuras, de degeneradas que
estão, têm quasi sempre forma geométrica, que porém lembra o corpo
humano; algumas têm forma humana perfeita. Nunca observei isto
senão nas duas províncias do extremo Sul. Num conto do Sr. Conde
de Ficalho, Mais tinta, Lisboa 1886, pag. 31, vem uma estampa re-
presentando a cozinha alemtejana, a vasta chaminé, tendo no frizo o
estendal dos arames. — O forno de cozer o pão, umas vezes é dentro
de casa, outras vezes junto d'ella, outras vezes afastado, como no Al-
garve. O trabalho de cozer o pão está revestido de certo caracter sa- .
grado: o amassá-lo, o mettê-lo no forno, etc., são acompanhados de
bênçãos e de rézas. Numa aldeia do Baixo-Douro vi uma vez enfornar
o pão, e nunca me ha-de esquecer a figura do forneiro, alto, em cabei-
lo, com uma grande vara nas mãos, a fazer cruzes com ella deante
da boca do forno, e a recitar devotamente fórmulas religiosas, como
um sacerdote pagão. Em virtude d'este caracter de santidade da co-
zedura do pão, a porta do forno tem quasi sempre por fóra uma cruz,
para evitar influencias diabólicas. E' pelo mesmo motivo, para impe-
dir que o ínal entre nas casas, que nos escudetes ou espelhos das fe-
chaduras ha muitas vezes uma cruz; quem aqui em Lisboa olhar para
uma porta antiga, ordinariamente pintada de verde, raro deixará de
observar essa cruz. — Como parte annexa ás casas pôde ainda aqui
fallar-se dos moinhos. Os moinhos de agua abundão no Norte e na Bei-
ra; os de vento no Sul. — Em algumas das publicações citadas, como
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REVISTA LUSITANA
O Minho pittoresco c os jornaes illustrados, encontrão-se figuradas
muitas das fórmas dag casas portuguesas.
b) Construcções várias. — Nesta classe incluirei todas aqnellas
construéções que não servem para morada do homem. Começarei pe-
las fontes. As fontes varíão muito de feitio, conforme a agua está' em-
poçada, ou sáe em bica. Nas Memorias económicas da Academia, m,
41-42, lê-se o seguinte á cêrca de Tras-os-Montes : «As fontes não são
frequentes, e quasi todas em má ordem, porque os habitadores se con-
tentão de as receber como a natureza lh'as offerece, fabricando-lhcs
quando muito um reservatório cavado na mesma terra, e guarnecido
de lages, em que, á maneira de poço, estão depositadas as aguas que
vão sahindo, ou do fundo, ou de algum lado do mesmo reservatório;
por isso são de ordinário as aguas pouco limpas, porém á excepção
das que nascem a uma e outra margem do Douro, são saudáveis, e de
bom sabor». Estas fontes encontrei-as mais ou menos por toda a pro-
víncia: umas são cobertas por lágeas em arco, outras por lágeas em
fórma de casa quadrada ; ás vezes têm era cima pyramides e uma cruz,
e dentro são caiadas e com figuras, como uma que vi, se bem me lem-
bro, em Deilão. Nas fontes de bica, ésta pode ser de pedra, com uma
pocinha, ou pequeno reservatório, antes da extremidade; pôde ser de
metal, — um tubo — ; e pode mesmo ser constituída por uma telha, ou
por uma folha de castanheiro, como succede na Beira. Das fontes san-
tas, fallarei no § 6-<Z. Nas pòvoações do Algarve são muito frequentes
os poços no meio das praças, cora bordas de pedra, por exemplo em
Faro; a agua tira-se por meio de caldeiras que, se bem me lembro,
cada pessoa leva de casa. — Uma especialidade de Tras-os-Montes é
o pombal, a alvejar, em contraste com a negrura das povoações; en-
contrão-se muitos na província, pois lá faz-se bastante criação de pom-
bos bravos para comer. — As pontes, para passar os rios, são de pe-
dra ou de madeira; e têm differentes nomes : ponte das táboas, ponte
pedrinha, pontclhão, etc; ellas têm também differentes fórmas. Outro
meio de passar os rios, quando pouco caudalosos, são as alpoyxdras,
poldras ou passadeiras; não pássão de simples pedras, mais ou menos
affeiçoadas.
Não me é possível fazer uma enumeração completa de tudo o que
podia ficar subordinado ao titulo do § 1 ; basta uma simples indicação,
e por isso me limito ao que fica exposto. — No § 6-d fallarei das edi-
ficações religiosas; no § 8 fallarei de algumas construcções intima-
mente ligadas com a vida do campo.
2. Mobilia e objectos caseiros. Ha uma variedade infinita.
Pouco aqui indicarei.
Na Beira come-se muitas vezes, sobretudo no inverno, e á ceia,
junto do lume; por isso nas cozinhas se vê uma mesa suspensa da pa-
rede por dobradiças, que permittem que ella esteja encostada vertical-
mente á parede, ou descida horizontalmente, apoiada num espeque, tam-
bém ligado com cila. Nas cozinhas vê-se o pregukciro ou escano (nome
trasmontano), grande banco de sentar. Na Extremadura ha umas cadei-
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ÍÍUSÉU ETftNOaÊAPHIÓO POftTUGUÊS
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ras especiaes, de madeira, com o assento redondo, que porém já vão sen-
do desusadas. No Algarve e no Alemtejo ha as cadeiras de assento de
palma, com o encosto pintado. Cadeiras e tamboretes de couro estão
a desapparecer. — Os louceiros na Beira são ás vezes formados sijn-
plesmente de uma arvore, a que se tirão as folhas, e se apárão os ra-
mos, enterrando-a no chão; a louça pendura-se depois nos ramos ou
galhos: este louceiro chama-se por isso galheiro. No Alemtejo a louça
e o mais vasilhame estende-se sobre um friso, á vista; o vasilhame
de metal tem o nome de os arames. — Os pastores, no Alemtejo sobre-
tudo, e também ainda no Ribatejo, na Beira, etc, fazem muitos obje-
ctos para seu uso : colhéres, garfos, vasos, botões, caixas, etc. — Na
Beira são usadas pelos velhos caixas de rapé, feitas de pau do ar; na
tampa, pelo lado de dentro, ha um espelhinho. Estas caixas são orna-
das de corações, animaes, etc. Já também tenho visto na mesma pro-
víncia servir de caixa de rapé um pequeno chifre, com tampa de cor-
tiça. Estes costumes vão desapparecendo, quer porque o commercio in-
troduz caixas baratas, quer porque o uso do rapé está a sahir da moda,
substituído pelo uso exclusivo do cigarro. — Enfeites, e ás vezes va-
riados, encontrão-se também nas rocas e nos fusos. São sobretudo no-
táveis as rocas trasmontanas. Da frequência do uso da roca no Nor-
te diz um grande observador do século xvi, Fr. João dos Santos, o se-
guinte na Ethiopia Orientai, livro i, cap. xii: «... tão própria he a en-
xada nas mãos das Cafras, como a roca na cinta das mulheres de En-
tre Douro & Minho». Entre os objectos do trabalho das molheres não
são as rocas os únicos ornamentados: podem citar-se igualmente os
agulheiros, os furadores, os ganchos da meia, etc, — objectos estes
susceptíveis de serem citados no § 12, onde fallaréi das louças e de
outros trastes da casa.
3. Vestuários e objectos correlativos. Numa das suas
composições poéticas diz Simão Machado (Comedias Portuguesas, 1631,
fls. 71-v.) o seguinte:
Mandou um senhor um dia Perguntando-Ihe a tenção
A um pintor, que lhe pintasse Por que em tal modo o pintára,
Todas as nações que havia, Respondeo, e com rezão,
E cada hua retratasse Que nenhum trajo achára
Com ò trajo que vestia. Na portuguesa nação.
Pintando ao Castelhano tVe-lo-heis, disse, á francesa,
O Frances e Italiano, Depois, disse, á castelhana;
Seu costumado vestido, Hoje andão á valonesa,
Pos ao Português despido, Amanhã á sevilhana,
Nas mãos hua peça de pano. E já nunca á portuguesa.
Vendo pois a variedade
Que ha no trajo lusitano,
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230
HKVI8TA LUSITANA
Por não sair da verdade 1
Pus-lhe esta peça de pano,
Para que córte á vontade».
O poeta, nestes versos, quer satyrizar a moda, que no sec. xvn, como
no actual, se regulava pelo que vinha de fóra, e não pelo que era
português. Elie tinha razão ; mas nem por isso se ha-de entender que
em Portugal não ha trajos com caracter popular e local. Ha muitos.
Os Mirandeses usão a célebre capa de honras; os Trasmontanos da
raia usão geralmente calção, meia' e çapato. Os Serranos da Beira
usão a capucha, de que já a cima fallei. No Alemtejo é característica
a manta e os çafões. Da manta falia já no sec. xvi Gil Vicente (Obras,
ih, 177-178):
E hua manta d? Alemtejo,
Que na minha cama tinha,
Manta já usadazinha,
M'a levou com tal despejo,
Como s ? ella fora minha!
Nos grandes adjuntos, como as missas, os mercados, as feiras, etc.,
é curioso ver os Alemtejanos altos, descorados, de chapéu de panno
desabado, envoltos nas suas mantas listradas, arrastando os çafões, e
tendo na mão o cajado recurvo como o báculo de um bispo: typo que
não se confunde com outro do país. — Os velhos da Beira usavão ou-
trora uma espécie de casaca curta, chamada nisa, como trajo de gala;
ainda em pequeno vi lá algumas, mas este trajo vae a desapparecer.
A nisa era frequentemente de cor azul, com botões amarellos, e tom-
bem se vestia ao mesmo tempo que os calções de alçapão. — Na Ex-
tremadura é muito vulgar nos homens este trajo: jaqueta muito curta
(talvez por causa da facilidade dos movimentos ao andar a cavallo);
faxa ou cinta, vermelha ou preta, com duas franjas pendentes atrás;
calça estreita, de boca de sino; barrete vermelho, verde ou preto, mas
mais geralmente preto ; varapau na mão. Quanto á barba, trazem-na
rapada, ou usáo stiissa. No panno predomina a côr escura ou azulada.
O calçado varia: çapatos muito grossos, de salto de prateleira, no ve-
rão; botas de montar, no inverno. — Na Beira e no Entré-Douro-e-Mi-
nho é muito vulgar nos homens o panno de çaragoça, de que se fazem
calças, collete e véstea ou jaqueta (menos curta que na Extremadura) ;
chapéu de panno ou de palha; nos pés çapatos grossos (calçado de gala)
e tamancos ou socos (calçado usual). As molheres usão tamancas ou só-
cas, que são menores e mais apuradas do que os tamancos, mas com
i No texto lê -se vontade; mas, como a palavra que rima com ésta é também
vontade, creio que haveria êrro de impressão, deixando de se pôr verdade y que cor-
responde ao sentido e ao metro. Nao posso agora consultar outra edição^ mas é
provável que a emenda já esteja feita.
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JíUSEtf ETHNOGRA phicò português 231
sola de madeira como estes. A sola dos tamancos e tamancas faz-se
de amieiro, nogueira, etc. Uma cantiga popular diz mesmo :
S. Gonçalo de Amarante,
Feito de pau de amieiro,
Irmão das minhas tamancas,
Criado no meu lameiro!
Como notei a cima, o lameiro é um campo situado junto de ágoa. Na Bei-
ra, etc, as margens dos rios, de um lado e do outro, estão plantadas de
amieiros. Comprehende-se assim agora a exactidão descriptiva e a ironia-
da cantiga. Quem passa a primeira noite numa terra grande do Norte ou
do centro do país, uma das cousas que logo estranha é pela manhã cedo
a tamancada, ou ruido dos pesados tamancos e das tamancas, na rua.
— Os trajos das molheres divergem também bastante. Já a cima disse
Telles alguma cousa (cores, brincos das orelhas). De anneis fallei su-
pra, cap. ni, § 3. — Nas próprias crianças ha maneiras differentes de
vestir. Na Extremadura e no Alemtejo ellas vestem-se como os ho-
mens: não é raro ver nestas provincias rapazinhos de 6 annos, pouco
mais ou menos, com suas botas de montar, cinta e chapéu desabado, ou
grande barrete preto. Na Beira e no Entre-Douro-e-Minho as crian-
ças andão mais singelamente vestidas: descalças, barretinho pequeno
de côres ou branco, chamado carapuço, chapéu de palha. Nas ter-
ras grandes do Sul as crianças que não são propriamente do povo an-
dão de calção, com meia de cor, e na cabeça bòné (bonnct). Em Lis-
boa é muito frequente nos meninos pertencentes a famílias de certa
educação o trajo dos marinheiros da armada a par do calção. — Com
relação a capas, capotes e casacões temos: as já referidas capas de
honra e capucha; o gabão ou gabinardo (de cabeção, capuz e man-
gas); o capote alemtejano; o capote á cavallaria, muito usado na Ex-
tremadura; o simples capote, de cabeção, já em decadência, que era
usado até pelas molheres (d'onde a conhecida expressão «capote e
lenço»); a capa singela com gola, que se vê bastante no Minho e na
Beira. — Já a cima fallei do varapau da Extremadura; ha outros bas-
tões, como a moca, a ladra e o chuço da Beira; a cacheira e o cajado
do Sul, etc., etc. O povo não usa em geral bengala; no emtanto no
Norte certos populares curiosos fazem bengalas com bastão lavrado,
muito interessante, representando cabeças de soldados com barretinas,
animaes, etc. — Também em várias publicações que a cima citei se en-
côntrão desenhados muitos trajos nacionaes portugueses. Tem-se mes-
mo dado á luz livros especiaes contendo estampas de trajos. Possuo
algumas estampas avulsas, que pertencião a uma obra que não pude
ainda ver completa ; comtudo uma das estampas tem o seguinte titulo
(rosto) : Continuação dos trajos e usos e costumes mais notáveis dos ha-
bitantes de Lisboa e provindas de Portugal, Lisboa 1835. Na Biblio-
theca Nacional também ha (avulsas) estampas análogas, mas algu-
mas são coloridas. A casa editora de David Corazzi publicou em
23â
IffiVÍSTÀ LtJSITÁÍÍÀ
1888 um curioso Álbum de costumes portugueses, onde figurão bas-
tantes trajos do nosso povo. No Porto e aqui em Lisboa vendem-se
muitas figuras de barro, interessantíssimas, representando a côres os
typos do Norte, com os seus vestuários.
A propósito dos trajos podem citar-se as tatuagens, muito vul-
gares nos marinheiros e noutras classes. Sobre este assumpto vid.
ura opúsculo do Sr. Kocha Peixoto, intitulado A tatuagem em Portu-
gal, Porto 1892 (com estampas). Não me recordo de ter encontrado
allusões á tatuagem na antiga litteratura portuguesa, a não ser num
opúsculo da litteratura de cordel do século passado. — Como armas de
•fogo, o povo usa, além da espingarda, o bacamarte, a clavina e a
pistola; como navalha é celebre a do fadista de Lisboa, de ponta e
mola; nas aldeias_ainda também se encontrão punhaes. Pertence á mes-
ma classe o diuço, que mencionei a cima.
4. Meios de transporte por terra. A propósito do trans-
porte em animaes devem citar-se os apparelhos e suas partes, como
a albarda, o albardão, a almatrixa, os estribos de páo cora ferragens
variadas, a cabeçada, que pôde ser muito enfeitada, o barbicacho. Como
vehiculos temos por exemplo: a galera (Extremadura), o carro alem-
tçjano, a carrinha (Algarve), o carro de bois. No Sul é muito mais vul-
gar servirem-se do gado muar e cavallar para carreto do que no Norte
e no centro do reino. No Porto usa-se ainda da cadeirinha conduzida
por gallegos de chapéu alto e capa especial; mas este uso vae a des-
apparecer. A liteira creio que já está extincta, — as estradas de nia-
cadam, era que é fácil o serviço de diligencias e trens, raatárão-na;
no eratanto, na minha infância, ahi por 1868-1870, vi ainda litei-
ras em uso na Beira-Alta. As liteiras das casas nobres tinhao bra-
sões de armas pintados; os animaes que as conduzião levavão ao pes-
coço grande chocalhada. As cadeirirúias do Porto são liteiras em ponto
pequeno. — Os coches em que vão os padres aqui era Lisboa nos en-
terros creio serem especiaes da capital, pelo menos nunca os vi no
Norte; representão fórmas um tanto antigas. — Sobre os coches da
Casa Real vid. uma Noticia do Abbade Castro, Lisboa 1858.
5. Oomidas e objectos correlativos. Nas Tradições popu-
lares de Portugal, Porto 1882, § 339, referi algumas particularidades
das comidas do nosso povo.
No Museu Ethnographico podem. archivar-se, por exemplo, modelos
de pães e de bolos (aqui no Sul dá-se o nome de bolos ao que no Norte
e centro do reino se chama simplesmente doces). Os pães têm fórmas
especiaes, como o trigo ou pão trigo ou bolo de duas e quatro cabeças
(Minho e Beira, por exemplo), a regueifa ou rôsca (arredores do Porto),
o santòro ou santorio (Beira, — assim chamado do latim sancto-
rum, por se vender em dia de Todos-os-Santos ou Sanctorum om-
nium), a Vròa ou pão de milho, que em algumas localidades é muito
grande. Nas festas e feiras vendem-se doces com feitio de animal e
de homera, — o que parece relacionar-se com antigas fórmas cultuaes.
No nosso país, a propósito de comida, podia citar-se grande variedade
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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
233
de factos; ha mesmo muitas terras, que se distinguem por especiali-
dades de doces e guloseimas, como Arouca, Tentúgal, Coimbra, Avei-
ro, etc, etc, — o que bem mostra que tivemos muitos conventos de
freiras. — Nas aldeias usão-se moinhos de mão particulares, para se
prepararem certas farinhas: estes moinhos na Beira são muito primi-
tivos, pois constão de uma pia de pedra com um rebolo da mesma
substancia dentro; no Algarve ha moinhos de mão bastante regula-
res. — Nas nossas estações archçologicas, romanas e pre-romanas, as
mós de moinhos de mão abundão, e tornão-se ás vezes, só por si, in-
dicio precioso para o investigador de antigualhas.
6. Religião e usos ftmerarios. Este § era susceptível de
grande desenvolvimento, mas circumscrever-me-hei o mais possível.
Vejamos alguns objectos que se podem archivar no Museu.
a) Amuletos. — Ésta classe é bastante numerosa; ainda assim
muitos d'elles podem reduzir-se a certos typos. Ha amuletos que as
pessoas trazem comsigx); outros que se têm em casa; outros que an-
dão nos animaes e nos vehiculos. O meu amigo Antonio Thomás Pires
e eu temos já descrito em vários artigos e opúsculos os principaes
amuletos do povo português ; eu preparo nesta occasião sobre elles um
volume extenso, ornado de estampas, algumas das quaes já estão li-
thographadas. Os amuletos portugueses têm diferentes origens : mui-
tos podem fazer-se remontar a epochas extremamente remotas. Elles
vigorão por todo o país; todavia creio que é a Extremadura, e sobre
tudo Lisboa, onde mais amuletos se usão em animaes. A's vezes os
amuletos degenerão, mas é fácil reconhecê-los com o auxilio da ethno-
graphia comparada: assim uma fita, geralmente vermelha, que ás ve-
zes, se vê na testa dos burros, e uma roseta de metal que pende da
testa dos cayallos, por uma tira de coiro, são vestígios de amuletos.
— Eu possuo uma collecção dos principaes amuletos portugueses, para
não dizer de quasi todos, a qual depositarei no Museu Ethnographico,
logo que tenha accommodação para ella.
b) . Ex- votos. — No cap. nr, § 2, fallei já dos ex-votos. Além dos
milagres ou retábulos que eu possuo e que depositarei no Museu, é fá-
cil obter ex-votos de cera, de madeira, de metal.
C) FóRMAS DE SEPULTURAS, DE CAIXÕES MORTUÁRIOS K ESQUIFES ;
bandeiras das almas. — A's vezes podem obter-se os próprios objectos;
outras vezes estampas. — A história das sepulturas entre nós pôde se-
guir-se ininterruptamente desde os tempos prehistoricos até hoje. Dos
tempos prehistoricos temos as antas e antellas, ás vezes com mamoas
(vid. supra, cap. i). Sobre os tempos protohistoricos e os romanos vid.
supra, cap. n-2, e cap. m-2. Da Idade-Média em deante temos as se-
pulturas wisigothicas (vid. supra, cap. ív) e nos nossos templos' e ce-
mitérios muitos monumentos, alguns sem indicações, outros, reconhe-
cidamente históricos. Entre os primeiros lembrarei os carneiros, e uma
interessante classe de cabeceiras de sepultura em que estão escul-
pidos vários symbolos, como o signo-saimão, instrumentos de trabalho,
formas de calçado, etc: tenho visto d'estas cabeceiras, por exemplo
234
REVISTA LUSITANA
em Thomar, no Alandroal, etc, etc. Ha em Azurára uma igreja cujo
chão está ladrilhado de pequenas pedras quadrangulares com symbo-
los análogos; em algumas das pedras lê-se mesmo SEP(ultura) e
SE(pultura), e os nomes dos mortos. A igreja de Santa Margarida,
em Guimarães, é curiosa, entre outros motivos, pelas espécies de se-
pulturas que tem, umas na parede, outras no chão, também com sym-
bolos. Pelos campos e aldeias encontrão-se frequentemente sepulturas
abertas em rocha, cuja data é difficil. fixar, porque ora estão junto de
templos christãos (por ex. no Mogadouro), ora junto de estações lusitani-
cas (por ex. ao pé de um castro, no termo de S. Martinho de Mouros).
d) Factos diversos. — Mencionarei : andores, paramentos, ban-
deiras de tcirios», custodias, cálices, cruzes, lanternas, thuribulos
e alminfias. As alminhas são quadros em que se representa o purga-
tório, feitos geralmente por maus artífices da aldeia. Diz Camillo Cas-
tello Branco com toda a exactidão no seu romance A brasileira de
Prazins, 1883, pag. 201: ium trolha inspirado, que já tinha pintado
um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com gran-
des tetas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a boca aberta
no acto de berrar queimado, e tamanha boca que só cedia á de um
bispo raitrado, muito impertigado, com seu báculo». Frequentemente
estes painéis têm versos allnsivos á situação das almas, por exem-
plo: Lembrae-vos de nós — Que penamos por vós. — Podem obter-se
desenhos ou modelos de capellas, igrejas, torres, adros, cemitérios,
nichos, cruzeiros, púlpitos, pias-baptismaes, altares. — Nas províncias
do Norte e centro do reino ha nichos e cruzeiros abundantes e muito
variados; neste sentido as províncias do Sul são, segufcdo tenho
observado, mais pobres. Entre as fontes santas notáveis lembrarei
a que está entre Bencatel e Redondo (no Alemtejo),-*- notável so-
bretudo pelo seu culto: este culto tem origem pagã, representado
hoje pela Virgem Maria. O país porém está cheio de fontes santas,
umas ainda com culto vigente, outras já sem culto. I? frequente ha-
ver nas fontes santas uma cruz ou um nicho com um santo, que o
povo muitas vezes tem o cuidado de armar de flores. Os deuses pa-
gãos que na epocha romana symbolizavão de modo geral a santidade
das fontes, na Lusitânia tinhão, entre outros nomes, os de Fontanus
e Fontana; a maior parte das cruzes e santos de que acabo de fallar
representão estes deuses e outros análogos. — Ha no nosso país ima-
gens de santos muito curiosas, de madeira, pedra, gesso, que importa
conservar ou reproduzir. — A este § pertencem muitas das fórmas das
tatuagens, de que fallei ha pouco (§ 3), e dos doces, de que também
fallei (§ 5).
7. Divertimentos e festas. E' possível recolher no Museu
Ethnographico estampas que representem trajos e divertimentos do
Entrudo; arcos que se costumão armar em certas occasiões solemnes,
. como casamentos, etc. Quanto a jogos, lembrarei, por exemplo, o chin-
quilho, muito em voga na Extremadura. De outros fallarei adeante,
no § 13.
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235
8. Vida agrícola. Basta fazer ama indicação muito summária,
couiquanto neste assumpto houvesse bastante que dizer. No decurso
do presente capitulo alguma cousa lembrei já também.
Em virtude das diferenças de culturas, e* de outras circum-
stancias, os usos agrícolas não são os mesmos em todas as provin-
das de Portugal.
Temos por exemplo: o carro de bois e os seus aprestos; o arado;
a charrua; a grade; a trilha ou trilho, que em Tras-os-Montes tem
ainda feitio muito antigo; o carrinho de mão, etc. O modo de appa-
relhar o boi differe de uns pontos para outros: na Beira, por exem-
plo, põe-se-lhes na cabeça a molhelha, em que assenta o jugo; no Mi-
nho o jugo assenta no pescoço nú do boi. No Minho ha differenças
entré jugos e cangas, sendo uns e outras muito ornamentados, como
se pôde ver do pequeno opúsculo que com o titulo de Estudo ethno-
graphico publiquei no Porto em 1881 (com estampas).
Instrumentos que o homem maneja: a enxada, o enxadão, o sacho,
a foice roçadeira, a simples foice ou seitoira (lat. sectoria), a foici-
nha, o podão, a podôa, o picaveqae, a machada, a machadinha, o en-
gaço ou encinho (ancinho), o malho ou mangual, etc.
Objectos avulsos: o cesto- vindimo, o cesto-cargueiro, a padiola, a
escada.
As eiras, que nuns sitios são redondas, noutros são de terra,
noutros de lágeas, merecem menção, como a merecem os canastros,
muito em voga no Minho e na Beira. Os canastros são pequenas ca-
sas de madeira, sobre o comprido, suspensas em pilares de pedra, e
ordinariamente pintadas de vermelho; construem-se junto das eiras,
para arrecadar o milho, que assim se conserva melhor. O modo de
fechar as propriedades e de formar a entrada (Testas está igualmente
sujeito ás condições do terreno e dos hábitos. Nas regiões onde abunda
a pedra, fazem-se paredes de pedra em volta dos campos; nas regiões
onde ella não abunda, ou falta, os campos são circumdados de sebes
de madeira, ou de vallados (muros de terra) superiormente revestidos
de piteiras, que impedem a entrada aos ladrões e aos animaes. Não é
raro também, para o mesmo fim, collocar sobre os muros fragmentos
de vidro, seguros por meio de argamaça. Na Extremadura é costume
collocar á entrada das propriedades, de cada lado da abertura da
porta, uma arvore, de ordinário oliveira, á qual se liga a cancella. — Os
meios de extrahir agua dos poços varia de umas localidades para ou-
tras. — De tudo isto se podem fazer desenhos ou tirar photographias,
que dêem ideia da vida provinciana.
A' cerca da vida agrícola do Alemtejo tem-se publicado no jornal
O Elvense uns artigos muito importantes e curiosos com o titulo de
Através dos campos, assignados com um pseudonymo. Sobre a vida
agrícola de outras províncias podem também colher-se algumas notí-
cias em vários livros e artigos, alguns da especialidade, outros já ci-
tados a cima.
9. Vida pastoral. A cima toquei de passagem neste ponto.
236
REVjGTà LtfSItANA
São o Alemtejo, a Beira e Tras-os-Montes as províncias que mais fa-
ctos ministrão para preencher esta secção.
Além das casas e locaes para o gado (curral, bardo, etc.), posso
citar: os chocalhos, que tomão nomes variados, segundo os tamanhos,
como reboleiros, picadeiras, picadeirinhas, piquetes, camjxiinhas, guisos
tricolaricos (sic); a funda, que se usa no Algarve; o çurrão; o gábri-
cho (Ribatejo), etc. A propósito de chocalhos lembrarei que ha algu-
mas terras, como Alcáçovas, onde elles se fabrícão em grande quan-
tidade, e d'onde vão longe a vender; por este motivo châmão á gente
de Alcáçovas os chocalheiros, nome que se tem por ofensivo.
Com o fabrico dos queijos liga-se a existência de muitos moveis
e outros objectos, por exemplo a queijeira (Beira), o caniço (Alem-
tejo), etc.
10. Vida marítima e oooupação da pesoa. Para preen-
cher esta secção conhecem-se muitos elementos. A propósito do Al-
garve dá João Baptista da Silva Lopes na sua Corografia do reino do
Algarve, Lisboa 1841, num capitulo sobre pescarias, bastantes ele-
mentos. No Museu Industrial Marítimo, annexo á Eschola Industrial
de Pedro Nunes, em Faro, ha também uma já valiosa collecçâo ethno-
graphica, que vem descrita no Catalogo iUustrado d'aquelle Museu
(pelo Sr. Fonseca Benevides, 2. a ed., Lisboa 1891). A Policia e explo-
ração das aguas, do Sr. Candido Correia, Lisboa 1891, contém des-
cripções e estampas de muitos objectos relacionados com a pesca, e
ministra além d'isso diversas indicações bibliographicas. Mas sem dú-
vida o trabalho mais desenvolvido e importante, considerado debaixo
do aspecto da ethnographia portuguesa, é o do Sr. Baldaque da Silva,
intitulado Estado actual das pescas em Portugal, Lisboa 1892; elle
pôde e deve servir de guia para se fazer de futuro neste sentido qual-
quer collecçâo. O auctor considera a pesca debaixo de seis aspectos:
longínqua, do alto, costeira, fluvial, lacustre e recreativa; e classifica
assim os apparelhos empregados nella:
1) apparelhos de anzol ou fisga;
2) apparelhos de rede;
3^ apparelhos de verga ou metal;
4) engenhos de pesca.
D'estes difFerentes apparelhos apresenta descripções minuciosas,
acompanhadas de estampas a cada passo, o que torna o assumpto du-
plamente curioso. Além dos apparelhos descreve e figura também in-
strumentos empregados na apanha das plantas marítimas, e embarca-
ções da pesca, com outros objectos correlativos, como cabazes, etc. O
auctor junta uma parte histórica a respeito de barcos antigos e de
leis referentes ás pescarias; ésta parte parece-me um pouco débil, e
o auctor, chegado a coordenar um livro como o que coordenou, á custa
de tanta dedicação, trabalho e despesa, poderia por ventura ter en-
trado mais amplamente em considerações e confrontos históricos e
archeologicos. O livro é de valor, ao mesmo tempo, para a glottolo-
gia, pela grande riqueza de vocábulos technicos e populares que
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237
contém, valor que o auctor fez realçar com a adjuncção de um voca-
bulário, que, se não é completo, é pelo menos copioso. — Visto ser
Portugal um país marítimo, e ter-lhe provindo do mar toda a sua gló-
ria, parece-me necessário que no Museu Ethnographico fique bem re-
presentada ésta secção, ainda que pela maior parte não seja senão
com estampas e modêlos, pois que é nos estabelecimentos scientificos
da especialidade, como a Eschola Naval, e as escholas industriaes
marítimas, que os objectos d'ella têm, pelas applicações práticas, prin-
cipal cabimento.
11. Aprestos de caça. A caça a princípio praticou-se com
dois fins: para o homem se defender das feras, e para apanhar ani-
maes que lhe servissem de alimento. Depois degenerou em mero di-
vertimento, que foi muito favorito dos reis e fidalgos.
A' cêrca da caça em Portugal, desde tempos antigos, vid. Ga-
briel Pereira, Estudos eborenses, n* 29 e 33 (As caçadas, l. a e 2*
parte, Évora 1892-93); e também Viterbo, Elucidário, s. v. apeiro,
brancagem e boi Nesses trabalhos se encontra noticia de muitos apres-
tos venatorios; no primeiro encontrão-se também indicações biblio-
graphicas.
Hoje em Portugal creio que só uma ou outra pessoa vive
do mester da caça; no emtanto ha muita gente que se diverte com
ella.
No Museu Ethnographico podem recolher-se apparelhos de caça,
como redes, e objectos correlativos, por exemplo polvorinhos de chi-
fre, que ás vezes são bellamente ornados, sobre tudo no Alemtejo;
possuo um polvorinho, adquirido por mim em Tras-os-MontesJ o qual,
além de ser lavrado, termina numa figa. Ha assim muitos objectos, ao
mesmo tempo revestidos de caracter utilitário e religioso.
12. Bellas-artes populares e artes industriaes. E' cos-
tume dividir as bellas-artes em : artes da vista, ou Architectura, Es-
culptura e Pintura; e artes do ouvido, ou Poesia, e Musica com a Dan-
ça. Em vários pontos do presente artigo já fallei de algumas d'estas
artes, como quando me referi ás chaminés do Algarve, ás fontes, ás
obras esculpturaes dos pastores. Em relação á musica podem citar-se
os instrumentos, como o pifano, as castanhetas, o bombo, os férrinhos,
a viola. Este ponto tem intimas relações com o § 13 em que me occu-
po da vida infantil. Na pintura espontânea o nosso povo é em geral
pobre, como se pôde ver nos ex-votos que enchem as igrejas, nas
alminhas (vid. § b-d), nos cruzeiros: ha pouca variedade nos assum-
ptos ahi tratados.
De bellas-artes populares é facillimo obter para o Museu Ethno-
graphico abundantes espécimes.
Temos industrias numerosas e características em diversas locali-
dades. Já no sec. xvi Gil Vicente, na tragicomedia pastoril da Serra
da Estrella, põe na boca da figura que representa a Serra as seguintes
palavras (vid. Obras, n, 442, ed. d^amburgo) :
238
REVISTA LUSITANA
Mandará a villa de Cea
Quinhentos queijos recentes,
Todos feitos á candea;
E mais trezentas bezerras,
E mil ovelhas meirinhas,
E duzentas cordeirinhas,
Taes, que em nenhuas serras
Náo nas achem tão gordinhas.
Mandarão desses casaes
Que estão no cume da Serra,
Penna para cabeçaes,
Toda de águias reaes,
Naturaes mesmo da terra.
E os do Val dos Penados
E Montes dos Tres Caminhos,
Que estão em fortes montados,
Mandarão empresentados
Trezentos forros de arminhos
Pera forrar os brocados.
E Gouvea mandará
Dous mil sacos de castanha,
Tão grossa, tão san, tamanha,
Que se maravilhará
Onde tal cousa se apanha.
E Manteigas lhe dará
Leite para quatorze annos,
E Covilhan muitos pannos,
Eu hei-lhe de presentar
Minas de ouro que eu sei,
Com tanto que ella ou El-Rei
O mandem cá apanhar:
Abasta que lh'o criei.
Finos, que se fazem lá.
O nosso cómico conhecia bem a vida popular portuguesa, e por
isso todas essas informações devem ser exactas, e algumas o sei eu
que são;
Haveria muito que dizer das nossas industrias populares, sè o
meu fim não fosse apresentar um simples e breve indiculo.
O seguinte programma de uma interessantíssima exposição feita
em 1883 pela Sociedade de Instrucção do Porto, programma publica-
do na Revista da mesma Sociedade, vol. m, 36-37, pôde dar uma ideia
das nossas industrias caseiras:
1) t Trabalhos dè carpinteria e marceneria. Serras mechanicas.
Trabalhos embutidos ou marchetados (intarsia), etc;
2) Trabalhos ao torno em madeira, marfim, ouro, etc.;
3) Mobiliário domestico, rústico: cadeiras, mesas, armários, ca-
mas, santuários, cangas de bois, etc. ;
4) Instrumentos de trabalho, na lavoura e em casa;
5) Pinturas decorativas: em barro, faiança, porcelana, vidro, ma-
deira, seda, etc;
6) Esculpturas decorativas: flores artificiaes, de estofos, de pen-
nas, de couro, cera e papel;
7) Desenhos decorativos. Modelos e padrões para todos os ramos
das industrias caseiras;
8) Gravuras em madeira para illustração da industria typogra-
phica;
9) Tecidos de linho, lã e mixtos, como toalhas, mantas, tapetes
(Arraiolos), serguilhas, liteiros para cobertos de cama, arreios alem-
tejanos, redes de pesca;
10) Obras em palha, vime, corrêa (canastras, cadeiras de banho),
esparto, palma, crina, cabello, etc.;
MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS
239
1 1) Bordados brancos e de côr, em linho, algodão, lã, seda, a fio
de prata e ouro, ete. Rendas de bilro em linho, algodão, seda, prata
e ouro; rendas de malherio, etc.;
12) Arte de cortar e talhar. Modelos e padrões para o vestuário;
13) Cartonagens;
14) Fructas confeitadas e ornamentadas (em bocetas);
15) Trajes e costumes portugueses (figuras vestidas)».—
Como centros de trabalho de ourivezaria são notáveis os arredo-
res do Porto: é lá que se fazem as grandes arrecadas, que as molhe-
res interamnenses usão, admiráveis trabalhos de filigrana, em que se
suppõe haver influencia da arte arabc. — Em serralheria é também
notável o Norte, onde Guimarães já figura, desde a idade-média, pe-
los seus artistas nesta espécie. — Os mármores tão celebres de Extre-
mos trabalhão-se já desde a epocha romana: grande parte dos ex-vo-
tos do templo de Endovellico são em mármores d'aquella região. Na
Batalha os rapazes fazem em pedra, — no calcáreo molle do sítio — ,
t muitos objectos que vendem aos forasteiros, como caixinhas, etc, em
que predomina um mesmo typo de ornamentação (vegetaes). — A lou-
ça de Extremós é celebrada ha alguns séculos. Em todas as provín-
cias, mais v ou menos, existem fábricas cerâmicas. Quem não admira as
figurinhas que se fabrícão perto do Porto, symbolizando tão bem os
typos populares e toda a vida rústica portuguesa? Em Guimarães ven-
dem-se muitos paliteiros e assobios de louça, vindos de outros pontos
da província, representando figuras phantasticas, como animaes com
mais de uma cabeça, etc. ; a arte d'estes objectos, onde domina a ima-
ginação, contrasta com a das Caldas da Rainha, onde, á parte o que
ha também de imaginação, por exemplo, nas figuras de macacos, se
vêem muitos objectos (fructas, animaes, homens), feitos com rigorosa
observação da natureza. E visto que fallei nas Caldas, não poderei
deixar de citar o nome do grande artista Bordallo Pinheiro, sempre
tão portuguesmente inspirado nas suas magnificas producções. Além
dos centros cerâmicos que lembrei, existem muitos outros no país. Diz
o Sr. Joaquim de Vasconcellos na Revista da Sociedade de Instrucção
do Porto, m, 382: «nenhuma arte é mais popular no país, nenhuma se
multiplica com mais facilidade, nenhuma se insinua mais habilmente
na habitação humana, nenhumà anda mais ligada á vida intima da
família; também nenhuma faz mais, com menos recursos». — A indus-
tria da tecelagem é também bastante vulgar; os teares, construídos ain-
da com os processos da mechanica primitiva, offerecem ao ethnographo
bastante curiosidade. — Os palitos de Coimbra, feitos dos sinceiros do
Mondego, são uma industria local, reveladora de grande paciência e ha-
bilidade; com os palitos vendem-se também pennas de escrever, fabri-
cadas no mesmo teor. — O Sr. Dr. Julio Henriques, director do Jar-
dim Botânico de Coimbra, reuniu num museu adjunto ao mesmo jar-
dim, grande numero de productos artísticos portugueses, cuja maté-
ria prima se tira dos vegetaes, como a palha, o junco, o vime, a cor-
tiça, a palma.
240
REVISTA LUSITANA
E' aos museus industriaes que pertence archivar era abundância
a maior parte dos objectos que pertencem a ésta secção, e alguns mu-
seus são já neste sentido muito interessantes; todavia, como em taes
objectos se revela o génio nacional, condicionado pelas diversas in-
fluencias mesologicas, não pôde deixar de haver Telles uma amostra
no Museu Ethnographico, por meio da qual aquelle génio se aprecie.
Sem difficuldade, e sem grande gasto, pôde em pouco tempo ficar
bem representado neste sentido o Museu Ethnogtaphico. Só na feira
do S. João, em Évora, se faria uma collecção riquíssima dos productos
do Sul do Tejo, pois esta feira, além do sen caracter commercial, é de
grande importância ethnographica (e anthropologica).
Sobre o assumpto do presente § veja-se, por exemplo, o seguinte,
além do que citei no cap. vi, e neste cap., 10.° § :
Relatório da Sub-Commissão do Inquérito Industrial de 1881, Por-
to 1881;
Catalogo da Exposição Industrial Portuguesa de 1888;
Relatório e catalogo da exposição portuguesa do Museu Industrial •
e Commercial de Lisboa, 1893 ;
Relatório da exposição industrial do Palacio de Crystal do Porto,
1893;
Rendas de Peniche, — Eschola Industrial da Rainha D. Maria Pia
— (padrões de 1893). Lisboa 1893.
As fabricas da Covilhã, por Fradesso da Silveira, Lisboa 1863;
A Vista Alegre (apontamentos para a sua historia) por Marques
Gomes, Porto 1883;
Inquérito industrial de 1881, Lisboa 1881-1882 (vários volumes) ;
A fabrica das Caldas da Rainha, por Kamalho Ortigão, Porto
1891;
Revista da Sociedade de lnstruccão do Porto, vol. n e irr, onde o
Sr. Joaquim de Vasconcellos publicou valiosos escritos seus, e collec-
cionou documentos para a historia das nossas artes e industrias. O
Sr. Joaquim de Vasconcellos é um dos poucos que entre nós conhecem
bem estes assumptos; sobre elles tem publicado outros trabalhos além
dos citados, como Archeologia artística, Historia da arte em Portugal,
A reforma do ensino das béllas-aries, etc.
13. Vida infantil. A vida infantil é em parte um arremêdo
da vida viril. A criança, desde muito cedo, busca assemelhar-se ao
homem .propriamente dito, copiando em ponto pequeno o que vê em
ponto grande. Por isso não raro na vida infantil se acha o reflexo
de ideias que noutro tempo fôrão sérias. Assim, as crianças da Beira
têm uma espécie de armas para brinquedo, chamadas arcabiises: ora
o arcabus foi uma arma antiga. As crianças de Elvas usão ainda de
outro brinquedo, que tem o nome de besta, que, como é sabido, foi
também arma antiga. — A trajos infantis referi-me supra, § 3. — Os
outros objectos de caracter ethnographico, relacionados com a vida
das crianças portuguesas, podem agrupar-se talvez assim :
1) Instrumentos músicos (cfr. supra, 12* §), uns de percursão, e
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241
vibração, como os pratos, o berimbau; outros de sôpro, como as gaitas
de barro e os assobios, que se vendem nas feiras, as gaitas feitas de
vegetaes (castanheiro, cevada, loureiro). A' cerca d'este assumpto, co-
mecei a publicar na minha revista litteraria'0 Pantheon, 1880-1881,
pag. 1 98, um artigo intitulado Instrumentos músicos popidáres e infan-
tis, que porém ficou incompleto.
2) Jogos (cfr. supra, § 7), por exemplo, o pião, a piasca, o rapa,
a pella, etc. Sobre jogos infantis portugueses em geral, veja-se o se-
guinte: F. Adelpho Coelho, Os jogos e as rimas infantis de Portugal
(extracto do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, serie 4.*,
n.° 12); do mesmo A., Jogos e 'rimas infantis, Porto, Magalhães & Mo-
niz; e Theophilo Braga, in O povo português, i, 293 sgg. Em 1882 pu-
blicou em Lisboa uma collecção de Recreios collegiaes o P. e Pedro
Aloy, a qual, embora feita com intuitos pedagógicos, contém vários jo-
gos populares portugueses. E' já antigo o Passatempo honesto e fami-
liar ou collecção de quarenta e oito jogos, etc.,.3. a ed., Lisboa 1827.
3) Brinquedos e objectos vários. Entrão aqui : a bésta e o arcàbús,'
que mencionei ha pouco, o mata-moscas; as louças de que as crianças
se servem quando fazem casinhas (assim se chama na Beira ao entre-
tenimento que consiste em imitar a vida domestica, isto é, as comidas,
etc.) ; os meios de entreter ou engalhar, como o pandeiro de lata, do
que se vêem muitos espécimes em todas as feiras e lojas do Norte
e centro do reino; os bonecos de barro e madeira; as nenas (bonecas
de panno, — Beira); os amuletos (cfr. § 6-a); os oerços, etc,
Com quanto me pareça ter a cima indicado as principaes classes
a que se subordinão os objectos, que, segundo a intenção do Decreto
que criou o Museu Ethnographico Português, devem ter entrada nes-
te, não seria difficil estabelecer outras classes secundarias.
Do rápido lance de olhos que dei á parte material da nossa civi-
lização, considerada desde os tempos prehistoricos até o presente,
vê-se realmente, como já disse, que as epochas em que ella se divide
se filião umas nas outras. Muitas das nossas louças populares, mesmo
com os seus singelos ornatos, provém das do período neolithico; mui-
tas das nossas povoações assentão em alicerces protohistoricos, e têm
nomes pre-romanos; muitos dos nossos usos agrícolas fôrão ensinados
ou aperfeiçoados pelos Eomanos e pelos Árabes; as moedas de que
nos servimos diariamente são cópias modificadas de moedas medie-
vaes, como estas o são de moedas antigas, cuja origem se pôde fazer
remontar ao sec. vn ou viu antes de Christo. Achamo-nos assim in-
dissoluvelmente ligados ao passado. Estudando este, prestamos pois
culto aos venerandos velhos que nos legárão a herança que usufruímos.
Como excellentemente diz o Sr. Dr. Bernardino Machado, nas
Affirmações públicas, 1882-1886, pag. 349:
«Se ambicionamos caminhar para o futuro cora passo largo e fir-
«me, se desejamos progredir, coordenemo-nos com os nossos antepas-
KLY. LUSIT., VOl. III, f:iSC. 3. 4
242
REVISTA LUSITANA
«sados, unarao-nos bem a elles. Só nesta intimidade secular reside a
«consciência, a alma da nação, a sua força».
Por isso é que em todos os países, onde a sciencia não é uma
curiosidade, e a noção dè pátria não é um Jogar commum de rhetori-
ca, ha museus e aulas de archeologia, e se publicão trabalhos regula-
res sobre as antiguidades nacionaes.
- E, já que fallei em pátria, accrescentarei também que o exame
summario, que acabo de fazer da nossa ethnographiá, é sufficientemente
elucidativo no sentido de mostrar que o nosso país possue bastantes
elementos seus, com feição genuinamente portuguesa. Numa epocha em
que espíritos melancólicos ou faltos de" fé julgão possível a extincção
da nossa nacionalidade, dá certo consolo áquelles que âmão o torrão
natal, e não verião, sem còrar de pejo ou morrer de dôr, sumido no
abysmo das nações perdidas o nome português, o saber que ha ainda
entre nós alguma coisa que não se confunde totalmente com as coisas
estranhas, e na qual se imprimiu indelevelmente o cunho nacional.
Além dos objectos propriamente ethnographicos e archeologicos,
podem figurar no Museu bustos de heroes e homens illustres do nos-
so país, quadros com trechos característicos de auctores de fama, etc.
São ao mesmo tempo documentos da nossa vida social, e estímulo per-
manente para nobres emprehendimentos. .
A resenha que fica feita, e as considerações de que a precedi e
de que a segui, mostrão até á evidencia a necessidade da existência
do Museu Ethnographico Português, e quanto foi sensato e patriótico
o Decreto que o criou.
O Sr. Dr. Bernardino Machado, ao criar o Museu, teve a feliz
lembrança de o mandar installar junto da Direcção dos trabalhos geo-
lógicos, e de o tornar dependente da Repartição dos serviços techni-
cos de minas e da industria. A' frente da Direcção dos trabalhos geo-
lógicos está o Sr. Nery Delgado, universalmente conhecido e apreciado
pelos seus numerosos livros e estudos de Geologia e de Archeologia
prehistorica; elle prontificou-se, logo que soube da criação do Museu,
a ceder para este uma sala pertencente á Direcção dos trabalhos geo-
lógicos ; além d'isso, a Direcção possue uma excellente bibliotheca, em
que abundão obras de Archeologia prehistorica e de Anthropologia,
cuja utilização o Sr. Nery Delgado facultou também ao Museu. A'
frente da Repartição dos serviços technicos de minas e da industria
está como chefe o Sr. Severiano Augusto da Fonseca Monteiro, que,
por ser ao mesmo tempo lente do Instituto Industrial de Lisboa, e
consagrar á sciencia aquellc respeito profundo e consciencioso que só
podem consagrar-lhe os indivíduos que trátão directamente d'ella, tem
já auxiliado muito o Museu, e de certo o continuará a auxiliar.
Ainda assim, apesar de amparado, desde o seu nascimento, por
tão boas égides, o Museu Ethnographico, nas circumstancias em que
por ora está, com um pessoal que apenas se compõe de dois indivíduos.
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— director e adjuiicto — , sem nenhuma verba permanente para cos-
teio de despesas, e dispojido de uma única sala, que ainda não tem
toda a mobília de que precisa, não pôde satisfazer cabalmente aos
fins para que foi criado.
No emtanto, como ap Govêrno consta já officialmente tudo isto,
tenho todas as razoes para esperar que elle fará que o Museu Ethno-
graphico Português tome incremento em breve tempo, e se torne pra-
ticamente um melhoramento e um progresso no país.
Seria realmente pena que, possuindo Portugal, como mostrei, tan-
tas cousas dignas de serem largamente conhecidas e estudadas, e ha-
vendo, como ha, um ou outro individuo que se prontifica a trabalhar
activamente, e com boa vontade, o Govêrno tomasse em menos consi-
deração este assumpto.
Além de ser necessário accommodar convenientemente os obje-
ctos que já se áchão colleccionados, mas que por ora estão encaixotados
ou dispersos, torna-se de necessidade não menos urgente acudir áquel-
les objectos que correm risco de se extraviar ou anniquilar. Todos os
dias os jornaes dão notícia do apparecimento de ruínas, moedas, os-
sadas e outros mil objectos de interesse archeologico. O que succede
a isto? Se por acaso passa um estrangeiro instruído, faz colheita, e
leva para o seu país, como aconteceu, por exemplo, com objectos roma-
nos descobertos nas minas de S. Domingos e com uma estatueta de
Hercules achada na fronteira do Minho. Mas esse mal, com quanto ver-
gonhoso para nós, e fraudulento, não é o maior, porque os objectos*
ficão salvos para a sciencia; o peor é quando o camartello do pedreiro
despedaça a formosa columna e a inscripção única, ou quando no ca-
dinho do ourívez se funde o annel, e a moeda romana, e o collar pre-
historico! O povo imagina que os monumentos archeôlogicos, como as
antas, as mamôas, os castros, contêm dinheiro escondido do tempo dos
Moiros; e que faz elle então? Fossa, e destróe tudo! A estas causas
de extincção immediata junte se a indiferença ou ignorância de mui-
tas pessoas que, podendo salvar innumeras preciosidades, as deixão
perder para sempre. Ainda ha poucos dias, por occasião de eu man-
dar vir do Algarve para o Museu Ethnographico uns caixotes com
uns objectos antigos, feitos de calcareo, um chefe de estação dos ca-
minhos de ferro pôs duvida ao despacho d'elles, clamando que não era
preciso remetter para Lisboa caixotes com pedras de amolar!!
Já por vezes escriptores nacionaes e estrangeiros verberárão o
desleixo que em Portugal tem havido pela Archeologia. Vejamos al-
guns exemplos:
a) Darci o primeiro logar a Alexandre Herculano. Escreve elle,
no vol. n dos Opmcuhs, com aquclla auctoridade de sciencia e de ca-
racter que nunca ninguém seriamente lhe contestou:
&Cada facto histórico tinha uma igreja, uma casa, úm mosteiro,
«um castello, uma muralha, um sepulchro, que eram os documentos
«perennes d'esse facto e da existência dos indivíduos que nelle ha-
«viam intervindo». (Pag. 21).
244
REVISTA LUSITANA
« . . . . agora derribam-se coruchéus, partem-se columnas, derro-
«cam-se muralhas, quebram-se lousas de sepulturas, e vão-se apagan-
cdo todas as provas da historia. Faz-se o palirapsesto do passado i».
(Pag. 19).
a As inscripções lapidares vão-se enterrando por alicerces e pa-
«redes, não á face doestas, porque ahi alguém poderia lê-las; mas no
«fundo dos cavoucos ou no âmago dos muros. Sem isso não nos van-
c gloriamos cora inteira justiça de ter completamente renegado de nos-
«sos maiores». (Pag. 23).
«Corre despeitado o vandalismo de um a outro extremo do reino,
«desbaratando e assolando tudo». (Pag. 19-20).
« ao menos que o governo e o parlamento não dê^m ao
«mundo documento de igual ignorância e barbaria, mas acudam ao
«que ainda resta». (Pag. 52)..
«Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros têm mostrado maior
«veneração pelas antiguidades do nosso país do que os portugueses.
«Um estrangeiro salvou no convento dominicano de Bemfica a antiga
«capella de D. João de Castro. Ha pouco ouvimos outro, em cujos
«olhos chammejava a indignação, clamar altamente contra a barbaria
«com que se deixavam estragar no mosteiro de Belém vários quadros
«magníficos de eschola portuguesa, nos quaes os pássaros, entrando
«pelas frestas mal reparadas do edifício, vão amontoando as immun-
«dicies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem qual seja o
«valor dos monumentos da arte e da historia. Nós é que temos
«perdido o sentimento e a intelligencia para apreciar essas cousas».
(Pag. 30).
b) Diz Filippo Simões, no Relatório do Museu Cenáculo, 1869,
pag. 3:
«Desde a capital do reino até ás villas e aldeias não faltam por
«toda a parte copiosos vestígios do commum furor de destruir, adul-
«terar ou emplastrar as relíquias da architectura e da esculptura dos
«séculos que fôrão».
c) Diz Estácio da Veiga, nas Antiguidades de Mértola, 1880,
pag. 146:
«Assim se vão perdendo os mais preciosos padrões das antágui-
«dades do nosso território, porque a ignorância dos que devião velar
«pela conservação d'estas cousas, que em todos os países do mundo
«civilizado são apreciadíssimas, faz que se olhem com a mais supina
«indifferença. Grande responsabilidade cabe pois aos governos, que
«deixão perder estas venerandas relíquias das civilizações que estaur
«ciaram no território nacional». '
d) D'entre os estrangeiros, E. Cartailhac, que conhece admiravel-
mente e de visu a nossa archeologia prehistorica, diz no seu livro Les
ages prehistoriques de VEspagne et du Portugal, 1886, pag. 252:
«Les autres trouvaillos d 7 Alcácer sont à Lisbonne. Elles^gisaient
«depuis plusieurs années dans les inagasins de TAcadémie des Arts. • .
«la majeure partie avait dispam, et je crains bien que les plus belles
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«pièces soient maintenant enfouies dans le cabinet cTun curieux, et
«perdues pour la science».
e) Um viajante inglês, que andou pelo nosso país, contou-me o
seguinte, em carta -de 28 de Março de 1894:
«Passei algumas horas em Beja sexta-feira santa. Depois da mi-
«nha visita 4m Fevereiro começarão, como verdadeiros vândalos, a
«destruição da igreja conventual, cuja fachada, em gothico florido, era
«a cousa mais bellsj que havia na cidade de Pax- Julia».
Quasi toda a gente em Portugal se ri da Archeologia. Isto depen-
de, em parte, da pouca illustração do público; em parte, de se orga-
nizarem muitas vezes collecções archeologicas sem plano, nem intuito,
de modo que ao lado de uma lucerna romana fica uui ovo de abestruz, /
ou ao lado de um botão com o retrato d'el-rei D. João vi figura um
manipanço de Angola.
Desde o momento porém que se constitua methodicamente mais
um grande museu em que as coisas apparêção concatenadas, dando
ideia da successão das civilizações, mostrando a somma inaudita dos
esforços do homem para viver e para se aperfeiçoar; desde o momen-
to que o camponês, vindo á cidade ao domingo, o pescador, o vaquei-
ro, o artífice, ao entrarem naquelle recinto que symboliza e em ponto
pequeno resume a pátria, véjão comprehendido e respeitado o traba-
lho das gerações; desde o momento que o sábio encontre alli um fa-
cto que lhe faltava para a demonstração de uma these, o artista uma
impressão nova, todos, em fim, o viver ininterrupto de ura povo, des-
de as epochas mais remotas de que ha memoria : sem dúvida nenhuma,
tanto a Archeologia como a Ethnographia geral conquistarão terreno,
e já se não ouvirá com tanta insistência e frequência a gargalhada
estólida dos zoilos a motejá-las.
Isto que digo não é pura theoria. Fundou-se ha pouco tempo em
Beja, no edifício da camará, um museu archeologico municipal, por
iniciativa de um grupo de pessoas illustradas, intelligentes e devota-
das á sua terra : logo que a fundação do museu constou, e este se abriu
ao público, não faltão indivíduos de todas as classes, mesmo camponeses
e analphabetos, que vêem trazer constantemente objectos que encon-
trão e.julgão no caso de poderem figurar alli; de modo que o Mu-
seu municipal de Beja é hoje um dos mais interessantes de Portu-
gal, em esculptura, epigraphia, cerâmica, etc, de todas as epochas da
nossa história. Não sei como explicar, deante d'estes actos de dedica-
ção, o vandalismo de que falia o viajante inglês citado acima!
O estudo da Archeologia concorre para que se interpretem melhor
e se completem os textos dos auctores clássicos, e por tanto se conheça
mais ampla e claramente a nossa História antiga. O desleixo pelas an-
tiguidades nacionaes chega a ponto de mesmo haver professores, que,
podendo estar ao facto da scieneia moderna, nem o pouco que já se
sabe da Archeologia lusitana conhecem bem! Por exemplo, nuns Apon-
tamentos de historia de Portugal para uso dos estabelecimentos de in-
strucção secundaria, Coimbra 1894, lê-se o seguinte, a pag. 4: «Segun-
246
fcKVlSTA L08ITANA
do S. Agostinho, a religião primitiva dos Lusitanos foi o monotheismo:
prestavam culto a um Deus único, summamente bom, principio e fim
de tudo. Mas depois, á semelhança do que se deu com os outros po-
vos, tornaram-se polytheistas, abraçando o sabeismo ou adoração dos
astros. A vinda dos Phcnicios produziu uma notável mudança nas
ideias religiosas dos povos da Península, e, portanto, nas dos lusita-
nos: introduziram cá o culto de Hercules, tyrio ou lybico, designado
pelo nome de Endum c pelo cognome de Vellico. Era denominado Vel-
lico, por ser especialmente' venerado em Vdlia, cidade dos cantabros.
Houve tempo em que também adoravam a deusa Minerva e o deus
Marte, ao qual immolavam o cabrito, o cavallo e os captivos; o que
se não sabe é de quando data este culto, sendo mais provável que
fosse devido á influencia dos gregos».
O que fica dito ou é innexacto, ou está mal exposto : os documen-
tos que réstão da antiguidade lusitanica não permittem que se diga
que os Lusitanos erão monotheistas, e muito menos que o culto dos
astros succedesse a um monotheismo anterior; o deus Endovellico nada
tem com Hercules, nem aquelle deus foi jámais adorado era Vellia: o
seu culto era no alto de um monte, no Alemtejo, ao pé de Terena, e
• não se pôde dizer, nem isso é provável, que fosse introduzido cá pelos
Phenicios; a respeito do culto pre-romano de Minerva na Lusitânia
não sei aonde o auctor do compendio fosse descobri-lo; com relação
a Marte, o auctor do compendio confundiu este deus com Ares, pois
é de Ares que falia Estrabão, e- além d'isso tal nome deve encobrir o
de um deus indígena. Se o auctor houvesse consultado os textos dos
próprios escritores antigos e os trabalhos archeologicos, e se não dei-
xasse levar pela phantasia ou por informações em segunda mão, teria
esboçado um quadro curioso da religião dos nossos antepassados, em
vez do que traça, tão imperfeito.
Dos diversos ramos da Archeologia geral é a Paleoethnologia,
ou Archeologia prehistorica, um dos mais fecundos em revelações.
Quando começárão as investigações á cerca da Prehistoria, houve apu-
pos da parte dos conservadores e dos homens da ordem. Não obstante
os sábios proseguírão na realização do seu ideal, e a Archeologia pre-
historica mostrou a existência de antigas civilizações com que mal se
sonhava, e que comtudo erão as primeiras! E' por esse motivo que os
indivíduos que hoje escarnecem dos estudos archeologicos, ou lhes
ligão pouca importância, devem ser deitados ao desprezo; de facto
elles não comprehendem o alcance d'aquelles estudos. Em Portugal
lê-se muito pouco, além de jornaes e de romances. Poucas pessoas,
começando a ler um livro de estudo, o lêem por inteiro! Cansão-se
logo. Fallo, é claro, do commum. Por conseguinte não admira que tam-
bém exista quem não dê apreço a cacos e a pedras toscas. Mas isso
não é motivo para que, depois de se ter reconhecido a importância dos
estudos archeologicos, estes se não desenvolvão e não caminhem para
deante.
Aos Governos pertence conservar acceso o facho da sciencia, e
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MUSEU BTHNOGfiAPfilCO PORTUGUÊS
247
não deixar esmorecer os poucos indivíduos que ainda, se sentem com
fé, e têm ardor e enthusiasmo pelos assumptos archeologicos.
Se elle necessita de acudir á Archeologia, mandando accommodar
devidamente o que está colleccionado, e salvando o que corre grave
risco de se perder totalmente, nem por isso, pelo seu lado, a Ethno-
graphia moderna merece pouca attençâo ou pouco desvelo. A Ethno-
graphia moderna provém da antiga, e por tanto as razões scientificas
que tia para attender a ésta são as mesmas que ha para attender
áquella. O progresso, tendendo a unificar as civilizações dos povos, faz
que muitos usos e tradições se vão pouco a pouco esquecendo e ex-
tinguindo : trajos, construcções, aprestos industriaes e de lavoura, mo-
numentos religiosos. Urge pois também inventariar o que ainda resta,
senão em breve faltar-nos-hão valiosos elementos para o conhecimento
scientifico do povo português. O Museu Ethnographico, se o Governo,
como é de esperar, o auxiliar; pode neste ponto prestar igualmente
serviços.
Bem sei que nem a Archeologia nem a Ethnographia moderna
restaurarão as finanças do país, se estas se perderem 5 todavia, como
o viver de ura povo não é exclusivamente material, aquellas sciencias
contribuem para que, pela investigação exacta e conscienciosa dos ele-
mentos da nossa nacionalidade, o sentimento d'esta se radique com so-
•lidez nas multidões, e os ânimos, entibiados pela contemplação dos
males actuaes, avancem com esperança e audácia, escudados no amor
santo da pátria.
J. Leite de Vasconcellos.
ADDENDA ET CORRIGENDA
A respeito do que disse a cima, pag. 30, á cerca do sentido da
designação geographica de Entre Tejo e Odiana, devo notar que num
documento de 1535, que vem nas Meynorias para a historia das cortes
geraes, pelo Visconde de Santarém (1 * Parte, Alguns documentos,
1828, pag. 103-105), se distingue Antre Tejo ç Odiana e Algarve. Na
primeira zona, correspondente a Alemtejo, inclue-se, como eu disse,
Setúbal, Palmella, Almada e Alcácer do Sal. Na Extremadura collo-
ca-se também Coimbra, Montemór e Aveiro, que o padre Carvalho po-
rém na Corografia (voL ir, anno de 1708) colloca na provinda da
Beyra.
A pag. 23, ao citar os trabalhos de Philippe Simões, esqueci-me
de citar A arte antiga em Hespanha e Portugal, que faz parte do Ál-
bum de phototypias da Exposição de arte ornamental de Carlos Eelvas,
Lisboa 1883. D'este trabalho vêem uns fragmentos nos Escritos di-
versos, pag. 332.
248
REVISTA LUSITANA
APPENDICE
Como documentos para a história do Museu Ethnographico Por-
tuguês, aqui se publicão os dois seguintes, extrahidos do Diário do
Governo:
MINISTÉRIO DAS OBRAS PUBLICAS, COMMERCIO E INDUSTRIA
Secretaria geral
Senhor. — Um museu ethnographico, onde esteja representada a
parte material da vida dc um povo, as suas industrias, os seus trajos,
os seus usos, etc, tem grande valor educativo. Em relação á historia,
serve elle para ministrar documentos de toda a ordem, pelos quaes se
apreciarão melhor, assim em globo, os caracteres d'esse povo, e as
relações d'elle com outros, tanto no presente como no passado. Pelo
que toca ao sentimento da nacionalidade, faz que o povo, tendo de si
mais amplo conhecimento, e sabendo as razões históricas da sua pró-
pria existência, ame e venere a pátria com conhecimento de causa, e
siga afouto na via do progresso. Quanto ás artes, contribue para que
ellas se aperfeiçoem, porque é só quando o artista allia ás impulsões
do seu génio e á largueza do seu estudo a inspiração nas tradições do
paiz, que produz obras verdadeiramente de cunho.
E' por isso que em todos os paizes cultos ha museus d'esta na-
tureza.
Temos, pois, a honra de propor a Vossa Magestadc o seguinte
projecto de decreto.
Ministério dos negócios das obras publicas, commercio e indus-
tria, em 20 de dezembro de 1893. = João Ferreira Franco Pinto Cas-
tello Branco— Bernardino Luiz Machado Guimarães.
Attendendo ao que me representaram os ministros e secretários
d'estado dos negócios do reino e das obras publicas, commercio e in-
dustria;
Considerando que 'em Portugal, pela passagem ou permanência
de vários grupos ethnicos, e pelas diversas circumstancias da nossa
vida histórica, ficaram materiaes abundantíssimos cora' os quaes se
pôde constituir um museu ethnographico digno d'este nome;
Considerando que já ha muitos materiaes archivados, mas se
acham dispersos, convindo pois reunil-os, porque só assim adquirem
real importância;
Considerando que muitos outros jazem ainda nos próprios locaes
em que desde tempos antigos os deixaram, e são por isso como se não
existissem, se não forem devidamente aproveitados:
Hei por bem decretar o seguinte :
Artigo 1.° E' organizado um museu denominado Museu Ethno-
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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORÍUGUÊS
249
graphico Portuguez, que sirva em parte como que de desenvolvimento
do Museu de anthropologia, installado na Commissão ties Trabalhos
Geológicos.
§ único. O museu dividir-se-ha em duas secções, podendo porém
de futuro, se as circumstancias o exigirem, ser ampliado. Estas sec-
ções são:
a) Secção archeologica, comprehendendo monumentos desde os
tempos prehistoricos até o século xvm;
b) Secção moderna.
Cada uma d'estas secções dividir-se-ha ainda em sub-secções.
Art. 2.° Tanto a uma como a outra secção ficam pertencendo
desde já os objectos que existem espalhados pelos diversos estabele-
cimentos do estado, sem fazerem parte integrante das collecções res-
pectivas aos mesmos estabelecimentos, nomeadamente o Museu do Al-
garve, provisoriamente v depositado na Academia de Bellas Artes, e
quaesquer outras collecções adquiridas pelo governo.
Art 3.° De futuro farão parte do museu ethnographico todos os
objectos, ou cópias (photographias, moldes, desenhos, etc.), que se pu-
derem obter, quer por compras, dadivas, depósitos, quer directamente.
Art. 4.° O Museu Ethnographico terá catalogo impresso, e po-
derá fazer, ou facultar á iniciativa particular, uma publicação illus-
trada dos materiaes existentes no Museu, com o fim de os tornar co-
nhecidos e de despertar interesse no publico.
Art. 5.° A Commissão dos monumentos nacionaes, é todas as
auctoridades municipaes, administrativas, ecclesiasticas, militares, etc,
são obrigadas não só a auxiliar o Museu Ethnographico, ministrando-
lhe informações e facilitando acquisições para elle, mas a dar-lhe parte
de todas as descobertas archeologicas de que tiverem noticia. ^
Art. 6.° O Museu Ethnographico poderá estabelecer relações
com outros museus, ou estabelecimentos análogos, tanto do paiz, como
de fóra.
Art. 7.° A direcção e conservação especial do Museu Ethnogra-
phico serão incumbidas a um individuo de reconhecida competência,
sem vencimento inherente ao cargo.
Art. 8.° A dotação do Museu Ethnographico sairá da verba or-
çamental destinada a exposições, concursos, etc.
Art. 9. # O governo fará publicar o regulamento necessário para
a execução d'este decreto.
Os ministros e secretários d'estado dos negócios do reino o dos
das obras publicas, commercio e industria, assim o tenham entendido
e façam executar. Paço, aos 20 de Dezembro de 1893. = REI. = João
Ferreira Franco Pinto Castello Branco = Bernardino Luiz Machado
Guimarães.
250
REVISTA LUSITANA
Repartição dos serviços tec}nicos de minas e da industria
1.» SECÇÃO
Ha por bem Saa Magestade El-Rei encarregar o conservador da
Bibliotheca Nacional de Lisboa e professor da cadeira de numismá-
tica (do Curso de bibliothéeario-archivista), José Leite de Vasconcel-
los Pereira de Mello, da direcção e conservação do Museu Ethnogra-
phico Português, annexo á Direcção dos Trabalhos Geológicos do tei-
no, que exercerá sem vencimento especial, nos termos do artigo 7.°
do decreto d'esta data, que creou o referido museu.
Paço, em 20 de Dezembro de 1893. = Bernardino Luiz Machado
Guimarães. ' '
O conductor de obras públicas Maximiano Gabriel Apollinario,
que pertence ao quadro dos serviços technicos de minas e da indus-
tria, passou, por determinação superior, a servir, sem augmento de
vencimento, como adjuncto do Museu Ethnograpbico Português.
(Diário do Governo, n.° 290, de 22 de Dezembro de 1893).
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PHONETICÀ HISTÓRICA PORTUGUESA
PHONETIGA HISTÓRICA PORTUGUESA 1
RESUMO DAS PRINCIPAES LEIS
QUE PRESIDIRÃO Á TRANSFORMAÇÃO DO LATiy NO PORTUGUÊS
r
1 INTRODUCÇAO 2
Origem e formação da língua portuguesa
a) A lingua portuguesa faz parte da família das línguas romani-
cas. Na sua essência é apenas uma transformação da lingua latina.
b) O latim existiu em Roma sob duas fórmas: l. a ) Latim clás-
sico, ou litterario, que, por influencia da cultura hellenica, havia ad-
mittido muitos vocábulos, fórmas e algumas construcções do grego,
lingua sua irmã; do latim clássico se servirão os escriptores Cicero,
Caesar, Vergilio, Horácio, etc. 2.*) Latim vulgar, ou fallado, que era
1 [A phonetica historie^ da lingua portuguesa já tem sido, depois da publi-
cação da obra fundamental de Diez, Grammatico, das línguas românicas, tratada
no seu conjuncto com algum desenvolvimento por diversos philologos, como: P.
Adolpho Coelho, n-A lingua portugueza, Coimbra 1868, e nas Questões da lingua
portugueza, Porto 1874-1879, 2 vois. \ C. Reinhardstoettner, na Grammatik des
Portugiesischen Sprache, Estrasburgo 1878; F. d'Ovidio, nos Manueletti d'introdu-
zione agli studj neolatini, n, Portoghese (e Gallego), Imola 1891 ; e finalmente J.
Cornu, no Grundriss der Romanischen Philologie (Die Portugiesische Sprache),
Estrasburgo 1888. — Ainda que o artigo que ora se publica na Revista Lusitana
não se pôde dizer propriamente que adeante ao do Sr. Cornu, que é o último em
data, e o mais completo, doB que até hoje têm sahido a lume, todavia não hesito
em o publicar, antes o publico com muito gosto, não só porque elle revela no au-
ctor, o Sr. José Joaquim Nunes, estudo methodico dos phenomenos da nossa lin-
gua, acompanhado de rara vocação para ésta ordem de assumptos, vocação que
convém animar e desenvolver, — mas também porque o trabalho do Sr. Cornu e
todos os outros são inacessíveis ou desconhecidos á maioria do público, vindo pois
o artigo do Sr. Nunes a ser como novo para essa maioria. — Como o Sr. Nunes
nao conhecia ainda o trabalho do Sr. Cornu, faço adeante algumas referencias a
elle ; junto além d'isso várias notas minhas, porém poucas, a fim de não tirar ao
artigo o caracter que o seu auctor lhe quis dar. — J. L. dk V.].
2 O pequeno trabalho que apresentamos á apreciação dos leitores da Re-
vista Lusitana é apenas o producto de estudos que, já por gosto, já por dever de
officio, fizemos nas obras dos Srfi. Adolpho Coelho, Darmesteter, Gaston Paris,
Leite de Vasconcellos, e mais que todos de Bourcier, cujo livrinho Précis de Pho-
nétique Française foi o nosso guia, a ponto de seguirmos pari passu o seu raetho-
do, por nos parecer bastante claro, traduzindo-o por vezes quasi litteralmente ;
para os entendedores, porém, do génio differente das duas linguas será o nosso
modesto trabalho mais do que uma versão. Deficiente é elle por certo, e quiçá ei-
vado de muitos erros, devidos ou á falta de conhecimentos mais profundos da ma-
téria, ou á maneira de ver errada*, aguardamos, por isso gostosos as correcções
dos entendidos. — Segundo o costume, adoptamos o signal * para indicar aquellas
palavras que, não tendo chegado até nós, por via do latim clássico, se deprehen-
dein todavia da comparação da nossa com as outras linguas românicas.
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252
RB VISTA LUSITANA
asado pelo povo; os auctores dão-lhe o nome de sermo vulgaris, coti-
dia nus y plebeius, rusticus, etc. Havia entre estas duas variedades' do
latim as divergências que ha gqjalmente em todas as línguas, entre
fórmas escriptas e formas populares.
c) ¥u (\p latim vulgar, levado pelos soldados, colonos e coramer-
ciantes romanos a todas as partes do seu vasto império e adaptado
aos órgãos vocaes de povos diversos, que provêm as línguas româ-
nicas* Estas línguas são em numero de sete principaes, a saber: o
italiano que se falia na península itálica; o romancho ou ladino em uso
na Suissa Oriental (cantão dos Grisões) e Tyrol occidental; o rumeno
ou valachio fallado na bacia inferior do Danúbio; o hespanhol e portu-
guês usados na península ibérica ; e o provençal e francês fallados no
território da antiga Gallia.
d) Antes do estabelecimento do domínio romano na península,
domínio que se pôde datar da vinda de Scipião (211 antes de Christo)
fallávão-se cá várias línguas, de uma das quaes, pertencente ao ramo
céltico, que faz parte da família indo-europea (sanscrito, grego, latim,
celta, slavo, gótico, etc.), temos algumas notícias que nos permittem
admittir que ella se fallava em grande extensão. Um dos resultados
da dominação romana nas Hispanias foi o desapparecimento gradual das
línguas peninsulares (com excepção do vasconço ou eustaro) por uma
maneira quasi completa, pois que os vocabulários do português e do
bespanbol poucas palavras contêm que d'ellas se originem, e a sua
substituição pela língua latina a ponto tal que, nos fins do século iv,
era esta, na sua fórma vulgar, a única língua fallada em toda a pe-
nínsula, com excepção do território vascongado. D'ahi a pouco as
grandes invasões do século v, as successivas irrupções dos povos ger-
mânicos e posteriormente a longa permanência dos árabes entre nós,
introduzirão no nosso vocabulário grande numero de palavras d'estes
diversos povos.
e) A lingua romance (ou simplesmente, romanço) foi-se a pouco e
pouco fraccionando noutras, entre as quaes, no Occidente, o gallego e
o português, que a principio, quasi nada divergentes (como se pôde
reconhecer, comparando antigos textos portugueses e gallegos), se
distanciárão com o decorrer do tempo, a ponto de nos fins do sé-
culo xv ter cada uma sua feição própria.
f) A lingua portuguesa desde o seu apparecimento pela escripta
(século xn) até os nossos dias tem soffrido varias modificações, prin-
cipalmente na sua phonetica e morphologia, sendo as mais importan-
tes as que se dérâo nos séculos xm, xiv e xv. Foi só no século xvi
que ella tomou a physionomia que hoje apresenta. A historia, pois,
da nossa lingua abrange naturalmente dois períodos : o do poiiuguês
archaico (séculos xii a xvi) e o do português moderno (século xvi até
os nossos dias).
g) Os elementos que constituem o vocabulário da lingua portu-
guesa sâo de tres espécies: populares, eruditos de origem clássica, e
extranhos. O elemento popular, que constitue a verdadeira base da
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PHONETICA HI3TOEICÀ POBTUGUKSA
nossa língua, comprehende as palavras provenientes do latim vulgar,
depois de alteradas em harmonia com as leis phoneticas e morpholo-
gicas; as que pelo processo da derivação a ellas forão buscar a sua
origem e os vocábulos lusitanicos, célticos, germânicos e arábicos de
introducção antiga. O elemento erudito é constituído por todas as pa-
lavras latinas ou gregas, que, desde muito cedo, e pelo menos a par-
tir do século xiv, forão introduzidas no nosso vocabulário, depois de
aportuguesadas por modo artificial. O elemento extranho finalmente,
abrange, por exclusão de partes, os restantes vocábulos de prove-
niência extrangeira, taes como franceses, ingleses, italianos, asiáticos,
afriçanos, americanos etc, que o commercio e a litteratura d'estes
diferentes povos introduzirão entre nós.
h) O estudo da transformação dos sons só ao elemento popular
tem applicação rigorosa e scientifica.
i) A phonetica histórica portuguesa tem por objecto estabelecer as
leis que presidirão á transformação das palavras latinas noutras por-
tuguesas correspondentes, e notar as alterações successivas por que
até hoje têm passado as vozes e articulações. Estas leis phoneticas
são d'applicação regular, e a sua acção uniforme, de modo que, dadas
varias palavras latinas em que geralmente um mesmo som se fazia
ouvir, esse som repercute-se de ordinário nas portuguesas correspon-
dentes da mesma maneira. A constância d'estas leis só-é derogada
por outras leis, como, por exemplo, a analogia que, estribada em ap-
parentes similhanças, submetteu por vezes á mesma lei typos* diver-
sos, estabelecendo d'esta maneira excepçõef mais ou menos reaes.
Pôde também haver excepções, que escapem a qualquer lei conhecida,
mas isso não depõe contra a regularidade dos phenomenos, mostra
apenas que ainda não conhecemos por completo as condições d'estes.
PRIMEIRA PARTE
Voçaes
CAPITULO I
Lei do accento tónico. — Reducçào da palavra latina
§ 1. Havia em toda a palavra latina uma syllaba ou vogal em
cuja pronunciação a voz se fazia ouvir d'uma maneira mais forte e
distincta; era a syllaba tónica, em relação com a qual todas as demais
se châmão atonas. Assim, por exemplo, na palavra marito \ % é a vogal
da syllaba tónica; as restantes, a e o, pertencem a syllabas atonas. E'
1 As palavras portuguesas derívào em geral do accusativo latino, segundo
a opinião mais adoptada ; por isso nos nossos exemplos apresenta-las-hemos sem-
pre neste caso, mas sem o m final, como as pronunciava o latim vulgar, que dizia
muro, turre e porta em vez de murum, turrem, portam.
\
254
V
BEVISTA LUSITANA
o accento tónico que dá à palavra a sua unidade, sendo eomo que a
sua calma», no dizer do grainmatico Diomedes *.
§ 2. O accento tónico em latim só podia recahir em duas sylla-
bas, a penúltima e antepenúltima, dependendo o seu logar da quanti-
dade prosodica da penúltima. Se ésta era longa, era ella a accentua-
da ; se pelo contrario era breve, passava então o accento para a ante-
penúltima. Assim as palavras marito, portare, em que as vogaes i e a
das penúltimas syllabas sâo longas, pronunciávâo-se marito, portáre,
ao passo que tabiila e mansuetúdine, em que as vogaes u e i das pe-
núltimas syllabas sâo breves, diziâo-se tabula e mansuetúdine. As pri-
meiras châmâo-se paroxytonos, as segundas proparoxy tonos.
Observação.— Do que acabamos de dizer, resulta que as pala-
vras de duas syllabas sâo todas em latim paroxytonos. A's monosyl-
labicas dá-se o nome de oxytonos.
§ 3. Foi o accento tónico que principalmente influiu na trans-
formação das palavras latinas nas portuguesas. Essa influencia pôde
enunciar-se pela seguinte:
Lei. — A vogal accentuada no latim persiste em regra no portu-
guês.
E' assim, por exemplo, que as palavras marito, bonitáte, ópera,
dâo em português marido, bondade, obra, com a mesma accentuaçâo
que tinhâo no latim.
§ 4. A elevação da voz recahiu toda na vogal tónica, muitas
vezes êm detrimento das restantes syllabas. Emquanto a vogal tónica
persiste sempre em português, nâo succede o mesmo ás syllabas ato-
nas vizinhas, que em certos casos cahíráo : deu-se pois, na sua passa-
gem para o português, reducção na palavra latina.
O accento divide com efteito a palavra em duas partes: a que
fica para deante e a que fica para trás da tónica; dá-se á primeira o
nome de metatonica, á segunda o de protonica. Assim em marito e
mansuetúdine as syllabas Ao e -dine representâo a parte metatonica;
as syllabas ma- e mansue- a parte protonica. Cada uma d'estas partes
obedece a leis diferentes, e por isso vamos occupar-nos de cada uma
em separado.
Observação. — E' escusado advertir que em palavras como muro
e tábula, em que o accento tónico está na syllaba inicial, nâo ha parte
protonica.
§ 5. A parte da palavra que se segue á syllaba accentuada ex-
perimentou na sua passagem para o português as alterações enuncia-
das nas duas leis seguintes:
l. a Lei. — A vogal immediata k tónica cáe em português nos pro-
paroxytonos, isto é, nas palavras que têm o accento na antepenulti-
i «Est accentus velut anima voeis». Diomedes (Keil., Grammatici latini, 1. 1,
pag. 430, 31).
a) Parte metatonica da palavra
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PHONBTIOA HISTÓRICA PORTUGUESA
255
ma K Exemplos: *cól8po, golpe, sémíta, senda, raáníca, manga,
léptfre, lebre, opSra, obra, ténSro, tenro, repósita, resposta ou
melhor reposta, âsino, asno, víríde, verde.
Observação i. — Esta syncope dava-rfe jà no latim clássico, onde
não é raro encontrar fórmas como herde por heraãe, caldus por cali-
dus, saeclum por saeculum, cante por canite, sttrgo por surrigo.
Observação ii. — Nalgumas palavras conservou-se a vogal pos-
terior á accentuada, talvez por influencia erudita, pois que o povo é
geralmente inclinado a supprimi-la, dizendo por exemplo cambra em
vez de camará, arve em logar de arvore, etc. 2
§ 6. 2.* Lei. — As vogaes finaes ou tornadas finaes pela qué-
da de consoante pàssao inalteradas para português, excepto i, que
pãssa para e, e u para o. Exemplos: âqua, agua, bóna, bõa, boa,
fácie, face, nomen, nome, turre, torre, *pouti, pôde, caballo, ca-
vallo, fructu, fruito, fructo, por tu, porto.
Observação i. — Já nos últimos tempos do império romano do
occidente confundia o povo o i final com, e, assim como o com u, como
se vê das inscripções (Tesse tempo.
Observação ii. — A vogal final, principalmente sendo e ou i, e mais
raro o, cáe quando precedida de l, r, m, n, g, c (s, z) não dobradas
nem ligadas com outra consoante: exemplos: capitale, cabedal, amo-
re, amor, debere, dever, papiro, papel, sine, sem, venit, vem, facit,
faz, pice, pes, lege, lei 9 .
b) Parte prolonica da palavra
§ 7. • Em palavras como eplscopo, a parte protonica comprehende
1 E' esta vogal que por abreviatura collocaremos cTaqui por deante em pa-
renthesis ( ).
2 [Sobre este ponto vid. Cornu, Die Portugiesische Sprache, §§ 106-107 ; e
Meyer-Lublçe, Grammaire des langues romanes, i, § 29 e £25. — A língua portu-
guesa tem effectivamente grande tendência para reduzir os proparoxytonos a pa-
roxytonos ; todavia conserva bastantes proparoxytonos, como lagrima, cónego, Mér-
tola, estômago, etc. Alguns d^llcs é provável que se mantenhão, por serem de uso
restricto ou culto, ou ainda, como diz o Sr. Nunes, por influencia litteraria ; dá- se
mesmo o caso de coexistirem duas fórmas, como Evra (ling. pop. ant.) a par
Évora, pucro (na Beira) a par de púcaro, Sabdo (Norte) a par de Sabbado,
cobdo (ib.) a par de covado, numbro (passim) a par de número e numaro, etc. Quan-
do as duas syllabas finaes são vogaes, ellas podem contar-se como uma só syllaba
(ditongo), e nesse caso ha antes paroxytono do que proparoxytono, como em dú-
zia, páteo, Emília, tábua, légua, etc. ; ainda assim, na Extremadura diz-se dúiza,
páito, Imita, táuba, léuga. Quando a vogal tónica ó i, e na syllaba postonica ba
também i, o deslocamento d'este não se pôde ver, porque os dois ii fundem-se, como
em Imila em vez de *Imíila, sito em vez de *slito. Ha contradicçao apparente em
fórmas populares como Ilisia (= Elysa), dúbio (== club): é o que se pôde chamar
regressão, pois o povo, notando que a sito corresponde sítio, como que corrige clube
ou clubo (club) em dúbio, etc. — J. L. dk V.].
3 [Esta lei parece* me poder enunciar-se assim : um -e final tende a cahir,
quando antes d'elle ha uma consoante -que possa formar syllaba com a vogal ante-
cedente, excepto m, como quer de quere y vai de vale. Vid. o meu opúsculo As «Li-
ções de linguagem» do sr. Candido de Figueirado, 2 » edição (Porto 1893), pag. 77,
nota 5. — Cfr. já Cornu, Die Portugiesische Sprache, § 98. — J. L. de V.].
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256
REVISTA LUSITANA
apenas a vogal e; noutras^ como ventre a parte pro tónica compõe-se
da syllaba inicial ve; noutras finalmente como bonitdte abrange duas
syllabas, a saber, a inicial bo e mais outra não inicial ni que precede
immediatamente a tónica. São estes os tres casos a que se referem
as leis seguintes:
§ 8. l. a Lki. — A vogal inicial da palavra latina, quando não
protegida por consoante, pôde cahir em português; exemplos: epis-
copo, bispo, a ttonito, tonto, eclypsi, cris (ant.), eclypse, *inamo-
rari, namorar, occasione, cajão (Gil Vicente), occasiqo, acumen,
gume, Emmanuel, Manuel, Olisipona, Lisbôa (ant.), Lisboa, *icte-
ricia, triga (pop.), icterícia, horologio, relógio, apotheca, bodega.
Observação. — E' esta "uma das leis que mais distinguem o por-
tuguês das outras línguas românicas, nas quaes persiste a vogal ini-
cial K
§ 9. 2. a Lai. — A vogal da -syllaba protonica inicial precedendo
immediatamente ou não a tónica, persiste em português; exemplos:
*lacárta, lagarta, melióre, melhor, vicíno, vizinho, mirabília, ma-
ravilha, satisfacére, satisfazer, debére, dever, cabállo, cavallo, bo-
nita te, bondade.
Observação i. — As excepções, a esta regra são pouco numerosas.
Nas palavras como quiritare, gritar, theriaca, triaga, *berry-
liare, brilhar, a quéda da vogal foi motivada pela formação dos gru-
pos consonantaes gr, tr e br.
Observação n. — As palavras em que, fóra do caso precedente,
cahiu a vogal da syllaba inicial, como em pombo (palúmbo), sello
(sigillo), ler (legére), mestre (magistro), ter (tenére), offerecera
uma excepção apparente, pois que a sua actual forma provém de con-
tracção, tendo sido em português antigo paombo, seello, leer, maestro,
teer.
§ 10. Lei. — A vogal da syllaba não inicial collocada antes da
tónica, quer breve, quer longa, cáe em português, excepto o a, que se
conserva: exemplos: a) bonítáte, bondade, operário, obreiro, verê-
cundia, vergonha, impollicare, empolgar, amaricare, amargar,
manifesto, manfesto (ant.), manifesto, penícello, pincel, contar de
computare; b) ornamento, ornamento, litterãtura, lettradura
(antiq.), litterãtura, juramento, juramento, mirãbilia, maravilha.
Observação i. — D'esta regra exceptuão-se os casos seguintes, em
que as vogaes se consérvão. São:
l. 9 Quando servem de ponto de apoio a um grupo de consoantes
que as precede; ex.: negligentia, negrigencia (ant.), negligencia, mul-
titudine, multidõe (ant.), multidão, mansuetudine, mansidõe (ant.),
mansidão, castitate, castidade.
2.° Quando estão seguidas de um grupo de consoantes, ex: tem-
i [Sobre este ponto convém ler o que diz o Sr. Cornu, in Die Portug. Sprach ,
§§ 93-94, e 102 a 104. Elie estuda os casos da quéda do i- ; os casos de esp-,
esc- ; e junta observações á cerca da quéda do à e do o. — J. L. dk V.].
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PH0NETI0A HISTÓRICA PORTUGUESA
257
pestáte, tempestade, in-negrescère, ennegrecer, jgubernare, yo-
vernar.
3. ° Quando são seguidas d'uma consoante e d'um i, formando
hiato antes da tónica *; ex.: papilione, pavilhão, *acutiare, aguçar,
devotione, devoção, despretiare, desprezar.
4. ° Quando por quéda de consoante medial ficâo em contacto
com a vogal seguinte; ex. : solitudine, soidão (ant.), solidão, nomi-
nare, nomear, monumento, mo y mento (ant.), monumento, liminare,
I limiar, vanitate, vaidade, circínare, cercear.
Observação h. — M onasterio, que deu em português mosteiro (ant),
mõesteiro e moesteiro, tinha-se tornado no latim vulgar monistário.
Observação ih. — Quando a palavra latina contém um prefixo,
conserva-se de ordinário em português esse prefixo, e a syllaba ini-
cial da palavra simples persiste sempre, segundo a lei (§ 8)- ex.: *de-
morare, demorar, promittére, prometter, submittére, submetter,.
excedére, exceder.
§ 11. Resulta das leis que acabamos de estabelecer, que d'entre
as vogaes latinas s6* persistem em português:- l.° a vogal accentúa-
da; 2.° a das syllabas final e inicial protegida por consoante. Esta
persistência, porém, nào as impediu dê por vezes soffrerem as modi-
ficações que apontaremos mais adiante, depois de estudarmos o valor
das diferentes vogaes em latim, e a natureza das influencias a que
estão sujeitas.
CAPITULOU
Valor das vogaes latinas. — Influencias a que estão sujeitas
VALOR DAS VOGAES
§ 12. As vogaes latinas são a, e, i, o, u, as quaes, dispostas por
esta ordem, i, e, a, o, w/dão uma escala vocal que, partindo d'um som
agudo, termina num grave. Devemos, porém, distinguir dois sons em
cada uma das vogaes e e o, um mais agudo, que se ouve, por exem-
plo, nas palavras tila, e luto, e em português era mercê e escova, e ou-
tro menos agudo, como o que se nota em m<& e mtila, e na lingua por-
tuguesa nas palavras pé e pórta. Chamaremos ao primeiro d'estes sons
fechado e ao segundo aberto, e distingui-los-hemos respectivamente
pelos accentos circumflexo Q e agudo ('). D'este modo fica a escala
completa dos sons, sendo esta:
I Ê É A 0 Ó U
a qual se nota, por exemplo, nestas sete palavras:
filo, tila, mél, mdre, scôpa, pórta, muro.
1 O t neste caso combina- se com a consoante precedente, alterando- lhe o
som, e não se conta como syllaba em latim.
bhy. lusit., yol. ih, fase. 3. 5
258
REVISTA LUSITANA
Observação. — O português possúe também os sete sons simples
de que acabamos de fallar, como se pôde vêr por exemplo em fio,
têa x , mel, mar, escôva, porta, muro.
§ 13. Nó latim clássico as cinco vogaes a, e, i, o, u estão su-
jeitas ás leis da quantidade, segundo as quaes são umas vezes breves,
outras longas, conforme o tempo gasto em pronunciá-las : i, por exem-
plo, é longo em filo e breve em sinu; u é longo em muro e breve em
luto. Ainda mais: a posição da vogal, o facto de ser seguida d'um
grupo de duas ou mais consoantes, não influe na sua quantidade *; i
é breve por natureza em císta, como também em sínu; ao passo que é
longo em villa; u é breve por natureza em ttírre como em luto, sendo
pelo contrário longo em justo.
§ 14. No latim vulgar, d'onde provém directamente a lingua
portuguesa, tinha desapparecido esta distincção de breves e longas :
cada vogal tomára um dos sete sons simples de que falíamos no § 12.
Mas foi a quantidade que as vogaes Unhão no latim clássico que deter-
minou o som que tomdrão no latim vulgar. E' esta a razão por que no
latim vulgar o í fica i f filo = filo; o í e ê pássâo para ê: sínu = sênu,
tila = têla; o X torna-se é: m$l = mél; o a e ti fundem-se num e mesmo
som, á: clave = cláve, mãre^mãre; o ô e u pássáo para o: flõre =
flôre, luto = loto, emquanto o ff fica o: rti$a = rósa, e o u permanece
inalterado : muro = muro. No quadro seguinte estão compendiadas es-
tas equivalências :
Observação. — O latim poucos ditongos possuia: tres apenas
encontramos nas palavras que por transformação popular passárão
para a lingua portuguesa ; são : au, ae, oe. Ainda d'estes mesmos só o
au persistiu no latim vulgar (vide adiante as modificações que sof-
freu), visto como ae e oe fôrão substituídos por um e simples, equiva-
lente umas vezes a ê, como em praeda, ballaena, outras a é, como em
caelo, quaerit.
§ 15. Antes de entrarmos no estudo das sete vogaes do latim
vulgar, i, ê, é, a, ô, ó, u, devemos occupar-nos das influencias que nel-
1 No dialecto algarvio.
2 Esta lei refere- se á pronúncia, porque na métrica latina, pelo contrário,
toda a vogal seguida de duas ou mais consoantes é ou pode ser longa.
i do latim clássico equivale a í no latim vulgar..
INFLUENCIAS A QUE ESTÃO SUJEITAS AS VOGAES
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PHONBTICA histórica portuguesa
259
las actuárâo na sua passagem do latim para o português. Reduzem-se
a duas essas influencias, a saber: a produzida pelas consoantes nasaes
m e n, e a proveniente da semi-vogal i, quando em hiato, a qual re-
presentaremos aqui por y.
a) Influencia das consoantes nasaes m, n
§ 16. As modificações que as duas consoantes m e n exerce-
rão nas vogaes tanto tónicas, como atonas reduzírâo-se simplesmen-
te a communicar-lhes um som nasal sempre que estávâo seguidas
d'outra consoante ou cahia á vogal finais que vinlifto encostadas;
exemplos: simplice, simples, vendere, vender, angelo, anjo, raanu,
mão, rotundo, redondo, unctione, unção, fine, fim, sine, sem,
sono, som, tenet, tem, bono, bom.
b) Influencia do y (= i semi-vogal)
§ 17. Represento por y o som resultante da semi-vogal i, que no
latim clássico tinha o mesmo valor que tem entre nós nas palavras
maio, maior, raia. Este elemento, que representa grande papel na
transformação das palavras latinas noutras portuguesas, e cuja in-
fluencia se extende assim ás vogaes como às consoantes, pôde ter uma
origem latina ou românica. Nos dois casos designá-lo-hei, por abrevia-
tura, simplesmente por um y.
I — SBMI-VOGAL LATINA
§ 18. Chama-se assim todo o i ou e atono que se acha collo-
cado antes das vogaes a e o, formando com ellas hiato, como em
médio, palea, vâleo, sapiam.
Observação. — O i e o e têm aqui o mesmo valor, pois que o
latim vulgar transformou neste caso todo o e atono, dizendo, por
exemplo, vinia, valio, landa, em vez de vinea, valeo, lancea.
§ 19. A influencia que o y latino exerce na vogal tónica varia
conforme as consoantes que se interpõem entre elle e a vogal, e- ma-
nifesta-se por tres modos: a) já reunindo-se á vogal tónica, ou por
simples juneçâo, ou por transposição, ou pela quéda da consoante in-
termediaria; b) já fundindo-se com a consoante precedente, alteran-
do-lhe o som; c) já consonantizando-se, com desapparecimento da con-
soante que o antecede.
§ 20. Dá-se o primeiro modo: 1.° quando a vogal o precede
immediatamente, como em maio, maio, maiore, maior; 2.° quando
entre elle e a vogal existe um d que cáe, como em badio, baio;
3.° quando entre elle e a vogal ha p, r, s ou ss e b, f, como em
corio, coiro, matéria, madeira, basio, beijo, caseo, queijo, *bas-
siare, a-baixar, sapiam, saiba, capio, caibo, rubeo, ruivo, copea,
cyifa.
§ 21. Dá-se o segundo modo quando a consoante precedente é
t, c, l, n, das quaes ao t e c communica um som sibilante, ao l
260
REVISTA LUSITANA
e n molha-os, — como em^retio, preço, bracio (=brachio), braço,
placeat, praza, alieno, alheio, linea, linha, v^inea, vinha.
§ 22. Dá-se finalmente o terceiro modo; isto é: o y reduz-se a
j, quando a consoante que o antecede é b ou v e d, como em ha-
beara, haja, *sabio, sage (ant.) — sábio, fovea, fojo, *leviario, li-
geiro, invidia, inveja, * dissídio, desejo, hodie, hoje.
§ 23. Chama-se assim o i proveniente das consoantes c — g
— x (equivalente a cs) qu# em certos casos têm a propriedade de se
dissolverem naquella vogal, como se vê em nocte, noite, intégro,
inteiro, fructu, fruito (ant.), fruto, laxar e, leixar (ant.), deixar,
saxo (=sacso), seixo.,
§ 24. Sempre que o y românico (i. é: a semi-vogal) se acha
precedido de s, combina-se por transposição com a vogai- tónica, para
formar ditongo, como em pisce, peixe, fasce, feixe.
§ 25. (guando a palatal que se resolve em j tem diante de si
um l, a sua influencia manifesta-se, molhando esta consoante, como
em pedííc(u)lo, peôlho, genííc(u)lo, geôlho (ant.), joelho, aurí-
c(u)la, orelha.
§ 26. O y, quer latino, quer românico, influe também na vogal
protonica da syllaba inicial, alterando-a ou fundindo-se com ella, como
em *phaseano, feijão, laxare, deixar, legenda, lenda 1 .
Vogaes tónicas. — Leis que regem a sua passagem para o português
§ 27. Lei. — O i tónico, seja qual for a sua posição em latim,
passa inalterado para português; exemplos: filo, fio, rivo, rio, li-
bra, libra, triste, triste, quinque (cinque no latim vulgar), cinco,
mille, mil, spina, espinha, confido, confio, spica, espiga, vinea,
vinha.
Observação. — Naquellas palavras como pica (pega) em que o
i longo do latim clássico passou para e, devemos admittir, como vi-
mos no § 14, alteração na sua quantidade prosodica pelo latim vul-
gar. Este mesmo principio applica-se também ás outras vogaes.
I TÓNICO SEGUIDO DE y
§ 28. Lei. — J tónico seguido de y, quer latino, quer românico,
passa inalterado para português; exemplos: a) y latino: susplrio,
1 [J. Cornu, ob. cit., § 110 sgg., trata também d'esta semi-vogal, e além d'is-
so da semi-vogal u. — J. L. de V.j.
XI — SEMI-VOGAL ROMÂNICA
CAPITULO III
I TÓNICO
(isto é : i no latim clássico)
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26Í
suspiro, fastídio, fastio, perfídia, perfia (ant), perfídia, mílio, mi-
lho; b) y românico: digno, K dino (ant.), digno, dictò, dito.
Observação. — Oy quando se não combina com a consoante vi-
zinha ou esta cáe, é absorvido pelo i, como em dicto, que depois de
ter dado a fórma diito, se reduziu a dito, e assim fastidio, fastio,
frigido, frio. '
ib TÓNICO
(isto é: t e ê no latim clássico)
§ 29. Para estudarmos as modificações que soffreu na sua pas-
sagem para português o ê tónico, temos de attender á sua pqsição
antes d'uma consoante ou antes de duas, visto como d'essa circum-
stancia depende a diversa maneira como foi tratado. E assim :
§ 30. Lfci. — Ê tónico antes d'uma consoante passa inalterado
para português; exemplos: vide, vê, sinu, seio (sêo no dialecto al-
garvio), pilo, pêlo, site, sêde, pleno, cheio (chêo no dial. alg.), fedo
(=faedo), feio, mercõde, mercê, catêna, cadeia, tela, teia, sít(u)-
la, cêlha ou melhor sêlha.
Observação i. — E' no dialecto algarvio onde melhor soa o ê to-
* nico; nos outros, como no lisbonense, confundiu-se muitas vezes com
o ditongo ei (di).
Observação ií. — Em rên, rim, pergamêno, pergaminho e nou-
tras palavras de casos idênticos, trocou o latim vulgar o ê por I, di-
zendo, por exemplo, pergamino em logar de pergamêno. Nos suf-
fixos mecum (migo), tecum (tigo), secura (sigo), a troca foi motivada
pela influencia de mi, ti, si.
Observação ui. — Em minata, manada, deu-se a analogia da pa-
lavra mão *? Foeniculo trocou-se em latim vulgar por func(u)lo,
d'onde funcho. ,
- Observação iv. — Ê tónico seguido de n mudou algumas vezes
para a, por intermédio de e, como em inter, antre (ant.), entre, con-
stringo, constrengo (ant.), constranjo, ringo, ranjo (ant.), renjo, in-
trum, anton (ant.), então 2 .
§ 31. Lei. — Ê tónico seguido de duas ou mais consoantes passa
em português para é; ex. : sicco, seco, pStra, peflra, cippo, cepo,
fibra, febra, capistro, cabresto (por metathese), vir(i)de, verde,
nigro, negro, nepto, neto, cista, cesta.
Observação i. — Como o latim vulgar confundiu o i com o e, e
abreviou a vogal antes de duas ou mais consoantes, não se dà aqui
excepção á regra geral. (Vide § 35).
1 [Cfr. já Adolpho Coelho, Quest. da ling. port., i, 92. — Julgo mais prová-
vel que manada viesse de *m anu ata, do radical de manus; cfr. manua, que
significa «punhado». O n manter- se- hia em manada, protegido pela semi- vogal se-
guinte, como em janella, Janeiro, Manuel (vulg. Mantl), etc. — J. L. de V.].
* [Rigorosamente aqui o ê é atono, pois inter é proclitico ; e nos verbo9 in-
fluiu o infinitivo, onde o i deixa de ser accentuado: * constringére, * ringére,
etc. *, em in-tum ou in-tunc, o accento está no u. — J. L. de V .].
262
REVISTA LUSITANA
Observação n. — O y grego, que tinha um som intermédio entre
o i e o ti, e era pronunciado como o actual u francês, numas palavras
como *abyssimo (abismo), *cycino (cisne), myrrha (myrrha), ficou
em latim vulgar com o som de i; noutras, como byrsa (bolsa), myrto
(murta), grypta (gndu), mudou para u breve ou longo, seguindo de-
pois a sorte (Testa vogal.
Observação ih. — II le (em português êlle) tinha-se convertido em
ílle, cie, como também se escrevia no português archaico.
§ 32. Ê tónico seguido de y combina-se com elle, formando as-
sim o ditongo ei (que também se escreve ê, som que tem sempre no
dialecto algarvio) ; ex. : a) y latino: cervisía, cerveja, cprrígia, cor-
reia, êcclêsia, êgrêja, leria, feira; b) y românico: lêge, lei, rege,
rei f . pisce, peixe, stricto, estreito.
Observação. — Nalguns casos consonantizou-se o y, ficando in-
tacto o ê tónico, como em videa, veja, * dissídio, desejo, insidia,
enseja (ant), Insidia. Também parede e quédo provêm de parête e
quêto e nâo de pariete e quieto, pois que o latim vulgar fundiu
numa só duas vogaes eguaes, communicando, como o latim clássico,
a quantidade de longa à vogal proveniente d'essa fusão. Pela mesma
razão pSior se reduziu a pior, passando para e mudo, pela sua qua-
lidade de protonicà inicial. (Vide § 54).
§ 33. Lei. — È tónico seguido de y e / passa intacto para
português, actuando o y apenas na consoante, que elle molha; ex.:
a) y latino: consilio, conselho; b) românico: tèg(u)la, telha,
auric(u)la, orelha.
Observação. — O i longo de cunic(u)lo tornou-se breve, como
succedeu quasi sempre â vogal posta antes de duas consoantes ro-
mânicas 1 no latim vulgar, ao contrario do de lentic(u)la, dando
aquella palavra coelho e esta lentilha. Grelha vem não de crati-
c(u)la, mas de crat£c(u)la. Exílio e família, de exilio e família,
são de introducção erudita.
§ 34. Lei. — Ê tónico seguido de t e y passa para é, emquan-
to o y assibila a consoante; ex.: tristitia, tristeza, *avaritia, ava-
reza, *mollitia, molleza, *duritia, dureza, justítia, justeza.
Observação. — Justiça (justitia), serviço (servítio), vêem das
fórmas vulgares justitia e servítio. Vicio, de vítio, é erudito.
§ 35. Lei. — Ê tónico conserva-se inalterado em português,
seja qual for a sua posição no latim; ex. : ffil, fel, pôde, pé, pètra,
* Chama- se assim o grupo de consoantes formado pela queda de vogal in-
termédia.
K TÓNICO SEGUIDO DE y
É TÓNICO
(isto é : % no latim clássico)
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pedra, brfcve, breve, fSbre, febre, l£p(o)re, Ubre, s&ptem, sete, d8-
cem, dez, bSlla, bella, fgrro, ferro, idS*, idéa.
Observação i. — A não ditongação do # e # tónicos é uma das
feições que mais distinguem o português das outras linguas românicas.
Observação h. — A partícula pír dá em português por, porquanto,
sendo palavra proclitica; isto é: que se encosta à que vem depois
d'ella, fazendo ambas uma só, foi tratada como protonica inicial. (Vide
§55).
Observação hl — Quanto aos verbos, deu-se em português, como
noutras linguas românicas, notável confusão, adoptando-se para typo
•umas vezes a 3* conjugação latina, outras a 4. a Foi isto devido,
como diz o Snr. Coelho \ além da perda da distincção da quantidade
das vogaes atonas, á tendência que a nossa língua tinha para accen-
tuar constantemente a syllaba penúltima das fórmas verbaes latinas,
dizendo, por exemplo, confiro em vez de conftro. Que esta escolha foi
arbitraria, parece deduzir-se do facto de terem hoje a característica
em e muitos verbos que a tínhão no português archaico em i, como,
por exemplo, metir (ant), hoje metter, morrir, hoje morrer, rompi-
re, romper, vendiste, vendeste, perdire, perder, tolhir, tolher, etc*
Demais esta troca dava-se já na lingua mãe, onde encontramos, por
exemplo, pariri e partíre, lenir e e UriZre.
É TÓNICO SEGUIDO DE y
§ 36. Lei. — É tónico seguido de y une-se a elle e fórma assim
o ditongo ei; ex.: a) y latino: mSdio, meio, mataria, Inadeira, m£-
dietate, meidade (ant.), metade (metade no dialecto algarvio); b) y ro-
mânico: pScto, peito, s&x, seis, IScto, leito, integro, inteiro.
Observação. — Em d8cem, como em ministério, que dérão dez
e mister, não influiu o y pela quéda dome io.
§ 37. Lei. — É tónico seguido de y e l ou n passa para é,
actuando além dMsso o y nas consoantes, molhando-as; ex.: vSclo *,
vêlho, reg(u)la, relha, vSniat, vênha, t&neat, tenha. »
§ 38. Lei. — É tónico seguido de y e t passa intacto para
português, influindo o y apenas sobre esta consoante, que assibila;
ex. : pr£tio, preço, *petio, peço.
A TÓNICO
(isto é : a, tf no latim clássico)
§ 39. Lei. — A tónico, seja qual fôr a sua posição no latim,
passa inalterado para português; ex.: f&ba, fava, bon(i)tãte, bon-
dade, ãrbore, arvore, Squila, águia, mactare, matar, fame, fame
(ant.), hoje fome, cSpulo, cabo.
* Theoria da conjugação em latim e português.
* Fórma popular de vet(u)lo.
264
REVISTA LtfSlTÁtfA
Observação. — Nalguns casos, mas raros* a tónico converteu-se
excepcionalmente em e, como em abentesma (popular), de phantasma.
A TÓNICO SEGUIDO DE y
§ 40. Xei. — A tónico em contacto immediato com y, quer ori-
ginariamente, quer por quéda de consoante intermédia, combina-se
com elle, formando o ditongo ai; ex. : a) y latino: maio, maio, maiore,
maior, raia, raia ou arraia (por prothese), badio, baio, radio, raio,
date, dai, caveola, gaiola; b) y românico: plaga, praia, fago, faia,
sago, saio, exagio, ensaio.
Observação i. — A's vezes em logar de ai, fórma-se o ditongo ei,
principalmente com y românico; ex.: axe, eixo, late, leite, laxare,
leixar, factore^ feitor, saxo, seixo, lactuca, leituga.
Observação il — Em habeam, haja, *sapio, sage (ant.), sábio,
consonantizou-se o y. (Vid. § 22).
§ 41. Lei. — A tónico em contacto não immediato com o y pela
persistência da consoante intermediaria, une-se a y, formando assim o
ditongo ei (que também se escreve ê) e transpõe para além d'esta a
consoante, excepto se é l ou n, porque então a sua acção reduz-se a
communicar a estas duas cousoahtes um som molhado; ex. : a) basio,
beijo, *cerasea, cereja, área, eira, riparia, ribeira, calvaria, cai-
veira 1 , caveira, *í^siano, feijão, e todos os nomes acabados em
-arius; b) muralia, muralha, batalia, batalha, castanea, castanha,
faciat; faça.
Observação i. — Nalguns casos deu-se apenas a deslocação da
consoante, como em apio, aipo, *sapio, sábio % , sapiam, saiba,
compassione, compaixão.
Observação ii. — Vario, adversário, primário (ao lado de primei-
ro) são de formação erudita. O povo ainda diz vairo, adversairo, etc.
O TÓNICO
(isto é : õ e ti no latim clássico)
§ 42. Leí^ — O tónico passa inalterado para português, seja
qual for a sua posição; ex.: flor, flor, amõre, amor, sapõre, sabor,
otiõso, ocioso, spõ(n)so, esposo, lííto, lodo, cflbito, coto e côvedo
(pop.), pííteo, poço, lõto, lôdo, liípo, lobo, scopa, escova, corte
(= cohorte), corte, biícca, boca, litro, Odre, píítre, podre, dfí(l)ce,
dôce, rupto, roto, tãrre, torre, líicro, logro, etc.
Observação i. — Do ô tónico provém em muitos casos o nosso
ditongo ou (que no dialecto algarvio soa ô), como em grus, grou,
stõ, estou, síím, sou 3 .
1 Forma popular do Sul, cm que o l se vocalizou.
2 Saibo diz o povo.
3 [O ditongo de son, c8'ou, dou deve explicar-ee par analogia com o de vou
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PHONETICA HISÍOBÍCA PÒÉTUGUESA
265
Observação it. — Em várias palavras em que o o e u, posto que
breves no latim clássico, passarão para português, aquelle com som
fechado, e este sob a forma u, devemos admittir, como em }tico,jôgo,
mSveo, movo, nSvo, nôvo, a troça de quantidade no latim vulgar,
como também em cSpreo (cubro), pliivia (chuva) e ciineo (cu-
nho). 1
Observação hl — Encontra-se algumas vezes o ô tónico repre-
sentado excepcionalmente em português por u, como em alimõnia, al-
munha (ant.), testimõnio, testemoyo (ant. testemunho), cõmpleo, cumpro,
tõto, tudo (ao lado de tôdo), dormio, durmo, *ascõnso, escuso.
Observação iv. — Tuus, suus, déráo em português teu e seu } por
analogia com meu (de meus).
6 TÓNICO SEGUIDO DE y /
§ 43. Lei. — Ô tónico seguido de y une-se a elle, formando o
ditongo oi (que também se escreve ou); ex. : a) y latino: *agttrio
agoiro, ma ri a, moira (em salmoira), cõfea, coifa, dormitório, dor-
mitoiro, fuit, foi, marrítbio, marroio, solitate, íbidade, gloria,
gloira; b) y românico: õcto, oito, nõcte, noite, õctobre, oitubro,
flttxo, froixo.
Observação i. — Nas palavras terminadas em -orío ou -oria, como
dormitório, gloria, historia, que o português antigo dizia, como
ainda hoje o povo, dormitoiro, gloira, histoira, restituiu o português
moderno a fórma primitiva.
Observação ii. — Diíodecim reduziu-se no latim vulgar a dodece
— doze, segundo o principio pelo qual as vogaes se fundem numa
só para evitar, o hiato, como também cupreo, pluvia, noceo (ant.
nuzo).
§ 44. Lei. — Ô tonicõ seguido de l ou n e de y passa intacto
para português, actuando o y apenas nas consoantes, molhando-as;
ex. : a) y latino: cicSnia, cegonha, * vêrecít(m)nia, vergônha, calít-
(m)nia, cônha (ant), calumnia; b) y românico: genfic(u)lo, geô-
Iho, joelho, pedílc(u)lo, piôlho.
Ó TÓNICO
(isto é : em latim clássico)
§ 45. Lei. — Ô tónico conserva-se inalterado no português, seja
qual fôr a sua posição em latim; ex. : r8ta, róda, m&la, mó, rosa,
rósa, rògo, rógo, nSvem, nove, *potet, pôde, cSllo, eólio, pSssum,
= -vado, *vao. A analogia é evidente noatras formas, mas em sentido inverso,
pois foi o verbo «cr que influiu ; assim no Algarve (Sotavento) diz-se : vom, ea-
tom, dom (1.* pess ), por analogia com som = sum. A palavra grou creio que
deve explicar-se por *grttus, «grito (cfr. dous = d ií os), fórma masculina de
gr lía; esta ultima explica o fr. grue. — J. L. de V.].
i Fórma popular de augúrio.
266
REVISTA LUSITANA
pósso, stf rte, sórte, fSrte, fórte, cSff(i)no, cófre, pSrta, pórta, 18co,
lógo.
Observação i. — A qualidade (\e proclitica converteu o o da con-
juncç&o quSd em e, que (vide § 58, obs. 2. a ). A palavra frente, de fron-
te, é de origem hespankola.
Observação ii. — Em fSco e jtfco, que dérfto em português fogo
e jôgo (para differençar de jógo, verbo), deu-se no latim vulgar troca
de quantidade, assim como pára evitar a homonymia com côbro (*ctí-
p(e)ro, de recttpSro) e afôro (de ftiro), o 8 se mudou para u em
cfioperio, cubro, fôro, furo.
§ 46. Lei. — Ô tónico seguido de y une-se a este como ô tóni-
co e fórma o ditongo oi; ex. : pódio, apóio, mtfdio, moio } cSrio, coiro.
Observação i. — Nos casos em que o y se consonantizou, mudou
o 6 tónico para 6; isto é : de breve passou para longo, como em f 8 vea,
fôjo, htfdie, hoje.
Observaçãõ ii. — Ôdió e Sleo (que o povo diz oilp e oido) sfto de
introducçAo erudita. StSria deu esteira, para evitar a homonymia
com histtfria *.
§ 47. Lei. — Ô tónico seguido de l, m, ou n e y, passa para
ô, actuando o y nas consoantes, molhando-as; ex.: a) y latino: ftf-
lia, folha, so(m)nio, sônho, stflea, solha; b) y românico: 8c(u)lo,
Ôlho.
§ 48. Lei. — U tónico passa inalterado para português, seja
qual fôr a sua posição; ex.: ruga, ruga, acuto, agudo, lana, lua,
lua, julio, julho, justo, justo, verruca, verruga, salute, saúde, fru-
mento, frumento, pul(i)ca, pulga, nube, nuve (pop.), nuvem.
Observação i. — Para evitar a homonymia com cuba, de cúpa, mu-
dou o u para o em copa da mesma palavra.
Observação ii. — Em corusco (corisco) o u mudou excepcional-
mente para i ', assim como para on (influencia da nasal) em muco,
monco.
§ 49. Lei. — U tónico seguido de y junta-se a elle, formando
d'este modo o ditongo ui; ex.: a) y latino: rubeo, ruivo: b) y româ-
nico: "insucto, enxuito (ant.), enxuto, fruito (ant.), fructo.
* [Esteira parece suppôr antes * a ta ria, "de stataria (dissimilaçSo) ; ou pelo
menos houve troca de suffixos -orea por -ária. — J. L. de V ].
* [Por troca da terminação -uscar por -iscar ; ésta ultima vê-se em chovis-
car; cfr. sardanUca, etc. — J. L. db V.].
Ó TÓNICO SEGUIDO DE y
U TÓNICO
(isto é: ii no latim clássico)
U TÓNICO SEGUIDO DE j
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267
DITONGOS LATINOS
§ 50. Lei. — Os ditongos ae e oe pàssfto para português sob a
fórma de e longo ou breve, seguindo depois a sorte d'estes; ex.: caeco
(=c%co), cégo, graeco (=gr%co), grego, coelo (=c$lo), cio, praeda
(= prêda), prêa, coena (= cena), ceia, quaerere(= quêrère), querér.
Observação. — Ésta troca provém do latim vulgar. A palavra
GaUiztt (de Gallaecia), em que o ditongo ae passou para i, é de ori-
gem hespanhola, onde tal processo é regular (judio, àejudaeo, siglo,
saeculo l ).
AU
§ 51. Lei. — O ditongo au é representado em português pela
fórma oi ou ou (que também se escreve d, como.sôa no dialecto algar-
vio); ex.: auro, oiro, lauro, loiro, thesauro, tesoiro, aut, ou, caule,
couve, pau co, pouco. '
Observação i. — Nalgumas palavras o ditongo au converteu-se
em o, talvez mesmo ainda no latim vulgar, como em cauda, coda
fauce, foz, paup(e)re, pobre; aquelles que consérvâo o au original,
como causa (ao lado de coisa), fraude, cauda (ao lado de coda), Paulo,
laurel, se nao sfto de introducçfto litteraria, soffrêr&o certamente in-
fluencia erudita.
Observação ii. — O ditongo português ou nalguns casos provém
também de simples attracçfto, como em poude (potuit), soube (sa*
puit), houve (habuit); noutros provém do d tónico 8 .
CAPITULO IV
Vogaes protonicas iniciaes. — Leis que regèrão a sua passagem
para português
§ 52. Acabamos de estudar as vogaes tónicas na sua passagem
para a lingua portuguesa; resta-nos agora examinar a sorte das ato-
nas que entrfto na syllaba inicial, ou melhor das vogaes protonicas.
Sfto estas as únicas que com as tónicas e finaes se consérvâo geral-
mente no português, salvas as excepções mencionadas nos §§ 8 e 9.
Antes, porém, de entrarmos neste exame, devemos notar algumas dif-
ferenças que se dfto entre ellas e as tónicas no modo como passàrfto
para a nossa lingua. Sfto estas as principaes :
1. * Tem a mòr- parte tendência para enfraquecer em e mudo.
2. * Sfto nasaladas pelo m ou n nos mesmos casos que as tónicas.
* [Se houve influencia hespanhola, parece ter sido só em metade da pala-
vra, pois do contrario 11 dariâo em hesp. Ih, como se vê na palavra gallego (que
se pronuncia galhego). Um exemplo similhante de influencia parcial está em cas-
telhano (que vem do hespanhol), a par de Castella (que se fórma regularmente do
latim). — J. L. dk V.].
s Côda no latim vulgar.
s [Sobre o assumpto dos §§ 27-50, vêr Cornu, obr. cit, J§ 3-40. — J. L. dx V.J
268
REVISTA LUSITANA
Seguiremos na exposição dos factos a mesma ordem que obser-
vamos, ao tratar das vogaes tónicas; estudaremos, porém, simulta-
neamente o Ê e o Ê, o Ò e o Ô, por seíem análogas as suas modifi-
cações.
I PROTONICO INICIAL
(isto é : % no latim clássico)
§ 53. Lei. — 1 protonico inicial conserva-se inalterado em por-
tuguês; ex. : filare, fiar, * riparia, ribeira, civitate, cidade, rldêre
(redêre no latim vulgar), rir, *fibella, fivella.
Observação. — Em mirabilia, maravilha, deu-se troca de quan-
tidade passando o i de longo a breve e seguindo depois a regra ge-
ral (§ 54).
ÉeÉ PROTONICOS INTCIAES
(isto é : ¥, ê, # no latim clássico)
§ 54. Lei. — Ê e É protonicos iniciaes enfraquecem em e mudo
na sua passagem para português; ex. : pilare, pela, minacia, amea-
ça, minuto, meudo, plgritia, perguiça \ pê(n)sare, pesar, pètere,
pedir, relatione, relação, pèrdere, perder, *pèrgamino, pergaminho.
Observação. — Pela grande similhança existente entre o e e o i,
algumas vezes os ê e é protonicos iniciaes passárâo para i, como em
ISctione, lição (que o povo ainda diz leçâo), pior, etc. 2 .
§ 55. Ê e É protonicos iniciaes, principalmente quando juntos
ás consoantes l, r, t, m ou n, c e g, mudarão umas vezes para a;
ex. : bilancia, balança, mSlimelo, marmelo, illic, alli, êramen
(=aeramen), arame, birreto, barrete, litania, ladainha 3 , hirundi-
nea, andorinha 4 , vêrr&re (=verrêre)j varrer, *intum, antâo (ant. e
pop.), então, licere, lazer, ecc'hic, aqui, *extordire (= ecstordir),
aturdir, rêgina, rainha; outras para o; ex. : berragine, borragem,
ericio, ouriço, delphino, golphinho, perinde, porém 5 .
i Por metathse.
* [Lição está em vez de *leição, cfr. eleição; em pior, o e atono mudou -
se em i, por estar antes de vogal. — A forma popular leçâo é de desenvolvimento
posterior, como Ucença. — J. L. de V ].
3 [Li tanía deu em português antigo ledania (fórma semi -erudita; cfr. hesp.
letania, ital. litania, cfr. litanie). A fórma ladainha é de origem popular : litania,
• ledâia, * ladãia, ladainha. A nazalidade do a communicou-se ií vogal seguinte
(tónica), como em vinha (de * venía), painço (de paniclu-), etc. — J. L. de V.].
* Nesta palavra predominou a falsa etymologia de andar. [Assim se tem
explicado andorinha, mas talvez não seja necessário recorrer á etymologia popu-
lar para a explicação, admittindo se uma metathese: *hindurinea (ou de
*hirundina), indurinha (que supponho existir algures). — J. L. de V.].
5 [As palavras em que o c primitivo hoje se apresenta mudado em o estão
sujeitas a diversas leis. Assim, em borragens houve influencia da labial inicial. A
fórma anterior de ouriço creio ter sido eiviço (cfr. Eyriceira, fórma are. de Eri-
ceira), d 'onde *euriço, ovriço (cfr. pop. Ovf etnia = Eufemia, pop. OuseMo — Eu-
sébio, etc ). Em golphinho deu-se um caso de etymologia popular. Em porém temos
a preposição por. — J. L. de V.].
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PHONBTICÀ HISTÓRICA PORTUGUESA
269
A PROTONICO INICIAL
(isto é : #, ã no latim clássico)
§ 56. Lei. — A protonico inicial permanece intacto em portu-
guês; ex. : márito, marido, v&lere, valer, sSpère, saber, cSnuto,
canudo, cSballo, cavallo, pãrtire, partir, cãstello, castello, Car-
bone, carvão.
Observação. — No onomástico Ignes {==lnês) % de Agnes, deu-se
por excepção a troca de a em i l .
§ 57. À protonico inicial tende a converter-se em e mudo, quan-
do se acha antes de n ou m, r ou s; ex. : ãsparago, espargo, *ãs-
cultare, escuitar (ant), escutar, *ascondére, esconder 2 , *asco(n)-
so, escuso, bãlista, besta, cãrina, querena, ãnguila, enguia, pa-
naria, peneira, ãmpulla, empolla 3 .
O e Ó PEOTONICOS INICIAES
(isto é : õ, Ò* e & no latim clássico)
§ 58. Lei. — O e Ô protonicos iniciaes pássâo inalterados para
português; ex. : mortale, mortal, dõrmire, dormir, jScare, jogar,
spo(n)sare, esposar ou desposar (a prosthetico), dftlore, dor, cõrti-
cia, cortiça, Srtica, ortiga, sficcurrêre, soccorrer.
Observação i. — Pela sua tendência a trocar em u, o ô e 6 pro-
tonicos iniciaes passárão nalguns casos para u, especialmente quan-
do em contacto com as palataes, como em cogitare, cuidar, co(n)-
spuere, cuspir, perconôtare, perguntar, complere, cumprir.
Observação ii. — Nalgumas palavras, o e 6 protonicos iniciaes
abrandarão em e mudo, em orologio, relógio, rotundo, redondo,
*oscuro, escuro, to(n)soria 4 , tesoira; e por excepção em a em no-
vac(u)la, navalha 5 .
1 [Decerto através de *Ainôs, pela dissolução do g, como em reino; de-
pois ai- deu ei , e por fim i- ; cfr. igreja, da fórma arch. eigreja. — J. L. dk V.].
2 Â8conder em português arch.
3 [Nestes exemplos é preciso também distinguir os casos. Bésta vem do arch.
bee8ta, por # baesta, tendo havido assimilação do a ao visinho e, como em quente,
de caente, aqueecer, de acaecer, quenda, de caenda (caleuda), etc. Querena não é
fórma de origem popular portuguesa. Em vez de enguia, também se diz angula; o
e nasal inicial alterna facilmente em a; cfr. antão, amparo (a par de emparo), an-
dorinha, etc. — J. L. de V.].
* [Estes factos são devidos a dessimilação : o(u) — o(u) = e — o(u). Outros
exemplos se podem citar : arch. fermoso, temeroso (por * temoroso, de temor, e nâo
de temer), arch. valeroso (de valor, e não de valer), redol e redor (de rotatorem,
e não de * rotatorium, como quer Storm), pop. feturo, pop. sepôr (— suppor), pop.
Utepôr (= estupor), pop. serumbatico, pop. cherume, etc. Os exemplos são abun-
dantíssimos. — J. L. de V.].
5 [A fórma navalha não é muito fácil de explicar ; talvez o o se mudasse
em a, por assimilação ao a seguinte, como em cangar, de conjuga re; todavia
em hespanhol também ha navaja, com a. — J. L. de V.].
270
REVISTA LUSITANA
f
U PROTONICO INICIAL
(isto é: U no latim clássico)
§ 59. Lei. — U protonico inicial conserva-se sem alteraçfto em
português; ex.: muralia, muralha, durare, durar, pulsar e, puxar.
§ 60. Lei. — O ditongo au protonico inicial torna-se oi ou ou
em português (como au tónico); ex.: ausare, ousar, audire, ouvir,
auric(u)la, orelha 1 , *laurario, loureiro 1 , laudare, huvar.
Obsebvação. — As palavras auscultare, augusto, augúrio,
que já no latim vulgar se tinhfto convertido em ascultare, agttsto,
agttrio, dão em português escutar, agosto e agoiro.
§ 61. Tratámos até aqui das vogaes ou vozes das palavras, e
vimos quaes as leis que presidirão á sua passagem do latim para o
português; resta-nos agora applicar o mesmo processo às consoantes
ou articulações. E' o que passámos a fazer. Como procedemos ao es-
tudar as vogaes, veremos quaes as modificações que aquellas soffrê-
rfto e os casos em que persistirão, se alterâr&o ou desapparecêr&o.
§ 62. Tinha o latim dezanove consoantes, as quaes, collocadas
por ordem alphabetica sfto: B, C, D, F, G, H, J, K, L, M, N, P, Q,
B, S, T, V, X, Z. Se d'este numero eliminarmos provisoriamente:
1. ° o H que, embora escripto, se nfto faz ouvir no português;
2. ° o 1 que é uma semi- vogal;
3. ° o K que é um signal graphico tirado do grego, equivalente
aC;
4. ° o Q que em certos casos é egual a C;
6.° o X que é uma consoante dupla equivalente a CS;
6.° o Z que é o signal d'um som composto, de origem grega:
ficar-no8-hao apenas treze, a saber: B, C, D, F, O, L, M 9 N, P,
R, S, T, V.
* [No lat. vulgar já ha oric(u)la. — J. L. dk V.].
* * [Uma fórma dialectal de loureiro ou loireiro é lòreiro (na Beira -Alta, por
ex.), que deve vir de *lorarius; cfr. Lorddlo, que suppoe *loretellum, demi-
nutivo do lat. vulg. loretum . — J. L. de V.].
DITONGO au PROTONICO INICIAL
SEGUNDA PARTE
Consoantes
CAPITULO I
Consoantes latinas.— Leis geraes que regularão a sua passagem
para a língua portuguesa
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PHONETICA HISTOBICÁ PORTUGUESA
271
§ 63. A classificação (Testas treze consoantes latinas pôde fa-
zer-se debaixo de dois aspectos:
a) Ou em attençâo aos órgãos essenciaes que com a lingua con-
correm para a sua producção'; e neste caso divídem-se em tres fa-
mílias:
1. ° Gutturaes, que são C, G;
2. ° Dentaes, que são T, D, S, B, L, N;
3. ° Labiaes, que são P, B, F, V, M.
b) Ou em relação ao esforço e tempo, mais ou menos longo, gasto
em pronunciá-las, ou aos órgãos que especialmente contribuem para a
sua emissão. Neste caso dividem-se as consoantes em quatro classes :
1. ° Explosivas ou momentâneas \ que se pronuncião d'um modo
rápido e instantâneo, as quaes se subdividem em brandas, que são
G, D, B, e fortes respectivamente correspondentes, C, T, P.
2. ° Contínuas ou spirantes *, cuja articulação é mais morosa, e
se subdividem também em fortes, que são S, F } e brandas, que só com-
prehendem uma consoante e é V, correspondente a F.
3. ° Liquidas, que escápão facilmente e com uma espécie de vi-
bração, e são R e L 8 ;
4. ° Nasaes, assim chamadas pela modificação que lhes imprime a
sua passagem pelo nariz, e são M, JV. *
O quadro que em seguida apresentamos abrange estas duas clas-
sificações:
Explosivas
Continuai
Liquidas
Nasaes
Fortea
Brandas
Forte.
Brandas
c
G
Gutturaes
T
D
s
R L
N
Dentaes
P
B
F
V
M
Labiaes
Observação. — Além d'estas treze consoantes, possue a lingua
portuguesa a mais o ch, ojeoz (que se ouvem nas palavras cAa-
inar, jantar e razão), as quaes, quanto à primeirá classificação, per-
tencem chejk família das palataes, e z (isto é: s brando) & das dentaes,
e quanto à segunda, à classe das contínuas, sendo j % z brandas e ch
forte. Se a estas ajuntarmos as consoantes molhadas Ih e nh (aquella
liquida e esta nasal), provenientes da influencia da semi-vogal i no
i Também se chámâo mudas ou instantâneas,
* Também chamadas frioativas.
8 Propriamente fallando l é liquifa e r vibratiL
272
Revista lusitana
l 6 no n, teremos as dezoito articulações principaes da língua portu-
guesa (na fórma litteraria).
§ 64. As consoantes latinas na sua passagem para o português
soffrêrfto diversas modificações, as quàes todas se podem reduzir a
duas principaes: abrandamento e accommodaçâo.
a) O abrandamento apresçnta-se debaixo de tres aspectos: 1.°
abrandamento propriamente dito, que se dâ geralmente entre consoan-
tes da mesma família pela passagem d 7 uma explosiva forte para ou-
tra branda correspondente (ex.: caeco, cego, *aceto, azedo, * ri-
paria, ribeira), ou d'uma explosiva para uma contínua e vice-versa
(ex. : faba, fava, voto, bodo); 2.° resolução vocálica da consoante
(ex.: lacte, leite, falce, fouce ou foice); 3.° finalmente abrandamento
completo; isto é: syncope ou quéda da consoante (ex. : angelo, anjo,
credtire [==credêre no luso-romanico *] crer).
b) A accommodaçâo é uma lei pela qual as consoantes se modifi-
câo sob a influencia das consoantes vizinhas: é assim por exemplo
que com(i)te se tornou em conde na língua portuguesa; o m, que é
uma labial, pela quéda da vogal atona, approximou-se do t, que é den-
tal, e em vista d'essa approximaçflo converteu-se em n, que também
é dental. De ordinário uma branda attráe outra branda, como uma
forte attráe outra forte. A accommodaçfto chega por vezes até á as-
similação, que é a conversão d'uraa consoante noutra egual áquella
a que se junta. Assim succedeu á palavra rttpto, por exemplo, que
em português deu rôto. Geralmente a assimilação procede d'uma ma-
neira lenta e progressiva, segundo o principio chamado de transição.
Assim em riípto o p (explosiva forte} abrandou em t (também ex-
plosiva forte), ficando ròtto; simplificando-se depois a geminação, res-
tou roto. De modo que entre a primitiva fórma ríípto e a actual
roto devemos admittir outra intermediaria *rôtto.
Observação. — A dissimilação é um processo inverso do da assi-
milação, e consiste em evitar na mesma palavra a repetição d'uma
consoante, trocando-a por outra da mesma família, ou mesmo suppri-
mindo-a, como se vê em lilio e prora, na primeira das quaes o l foi
substituído por r (lírio) 2 e na segunda cahiu (prôa). A dissimilação
estende-se por vezes até ás syllabas, mas neste caso desapparece a
syllaba toda, por exemplo caridoso e bondoso em logar de caridadoso
e bondadoso 3 .
1 Chamo assim ao latim vulgar, fallado no antigo Portugal, base do portu-
guês prehistomo ou anterior ao seu apparecimento pela escripta.
8 [Lilium, se fosse fórma popular, teria dado mais facilmente lilho ou lilhio
do que Uria, Como em hesp. também temos lirio, é provável que no lat. vulg. da
Hispânia houvesse «lirium; cfr. lat. Urion — gr. léirion* — J. L. de V.].
3 [O que é natural é que primeiro se syncopasse só o d, * caridaoso, etc., e
depois ao d és se o. Formas similhantea são cuidoso e cuidadoso, que porém tem
por origem primeira um substantivo não acabado ein -ade. E' provável que no ap-
parecimento da fórma cuidoso influísse a lei da dissimilação (por cuidadoso); to-
davia o substantivo verbal cuido (ainda usado em «andar em cuidos», etc.) era
bastante para provocar esse apparecimento. — J. L. dk V.].
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ÍHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA
§ 65. Âs consoantes latinas consideradas em si podem encon-
trar-se na palavra ou isoladas; isto é: em contacto só com vogaes
(ex.: o i em tusse, vita,venit) ; ou agrupadas; isto é: em contacto com
outras consoantes, quer eguaes, quer diferentes (ex.: o t em trabe,
gusto, catto); consideradas em relação ao logar que occupão na pala-
vra, dividem-se tanto umas como outras em iniciaes, se estão no prin-
cipio (ex.: o t em terra, trabe); mediaes, se no meio (ex. : o t em vita,
petra), e finaes, se no fim (ex. : o t em venit, amant). Ainda nas mediaes-
agrupadas devemos considerar o caso em que uma d'ellas, seguida de
vogal ou consoante, constitue a primeira lettra da syllaba (ex. : o t
em putre) e aquelle no qual se não dà esta circumstancia (ex. : o t
em septimana). Chamaremos ás primeiras mediaes-agrupadas-iniciaes, e
âs segundas simplesmente mediaes-agrupadas. A todas estas circum-
stancias temos de attender, visto como ellas influirão poderosamente
na immutabilidade ou alteração que as consoantes soffrêrão na sua
passagem para a língua portuguesa.
Observação. — Os grupos podem ser ou primitivos ou românicos.
Os primeiros existião jâ no latim clássico, os segundos fôrâo forma-
dos pela suppressão de vogal : isto vê-se em latrone e spec(u)lo.
§ 66. Antes de entrarmos no estudo de cada uma das consoan-
tes, podemos formular alguns principios geraes.
1. ° As consoantes iniciaes, quer isoladas, quer agrupadas, con-
servâo-se geralmente intactas (com excepção das gutturaes, que em
certos casos são modificadas).
2. ° As consoantes mediaesAsoladas estão sujeitas ao abranda-
mento, que vae desde a simples troca até & syncope.
3. ° As consoantes mediaes-a grupadas permanecem, se são ini-
ciaes ; fóra d'este caso só persistem, se os grupos são de fácil pro-
nunciação; de contrario estão sujeitas ao abrandamento ou accommo-
dação.
4. ° As consoantes finaes cabem geralmente.
§ 67. No estudo das consoantes seguiremos a sua classificação
por famílias. E assim estudaremos: 1.° as gutturaes c e g, às quaes
addicionaremos oxeofea semi- vogal i; 2.° as dentaes t, d, s, ás
quaes se deve ajuntar o z; 3.° as labiaes p, b, f, v; 4.° finalmente as
liquidas r, l, e as nasaes m, n.
Observação. — A propósito de cada consoante, examinaremos a
influencia que sobre ella exerceu a semi-vogal i, influencia de que já
por vezes nos temos occupado.
§ 68. Nas precedentes classificações deixamos de mencionar o
h, por isso que nas palavras em que elle figurava no latim clássico,
e que passárão para a nossa língua, ou desappareceu (como em
herba, erva), ou, o que é mais vulgar, serve apenas de signal gra-
phico, tendo perdido a sua primitiva qualidade de spirada gut-
tural.
Observação i. — Note-se que nos grupos ch, th, ph, que só se usa-
vão em palavras transcriptas do grego, cahiu o h, ficando portanto
Bwr. LusiT., vol. iii, fase. 3. 6
274
REVISTA LUSITANA
reduzidas a c — t— p (charta = carta, thesauro = tesauro, eola-
pho =scol(a)po).
Observação ii. — O português moderno emprega ás vezes um A,
como em trohir (* traer, de tradere), para evitar o hiato, assim como,
pelo mesmo motivo, substituiu o primitivo h de trahere, primeiro
por um g e depois por um z, trazer l .
CAPITULO II
Família das gutturaes
§ 69. A família das gutturaes comprehende em latim uma ex-
plosiva forte c e outra branda g, ás quaes devemos ajuntar o x, que
é uma consoante dupla equivalente a cs; o q, que nalguns casos
se distingue do c, e emfim a semi-vogal i.
A feição característica das consoantes d'esta família é a pro-
priedade que ellas teem de se resolverem na semi-vogal i, que, se-
gundo temos tido occasiâo de vêr, tanta influencia exerceu na trans-
formação dos sons latinos noutros portugueses.
Observação. — Note-se que a família das gutturaes se enrique-
ceu na sua passagem para português com mais duas contínuas cor-
respondentes às duas explosivas, a saber, uma forte, ch, corresponden-
te a c, e outra branda j, que corresponde ao g, que sâo propriamen-
te palataes.
I — C
§ 70. O c tinha em latim o som duro do k grego, fossem quaes
fossem as vogaes que se lhe seguissem, valendo de k quer antes de
a, o, u, quer antes de e, i. Assim, caballo, cura, como fecit, decem, pro-
nunciavâo-se kaballo, kura, fekit, dekem.
Estudaremos o c primeiramente isolado, depois agrupado, e qual-
quer d'elles nas tres posições, inicial, medial e final. No isolado, po-
rém, distinguiremos as vogaes que se lhe seguiâo, visto como d'ellas
dependeu a sua vária sorte, e assim considera-lo -hemos: 1.° antes de
a, o, u; 2.° antes de e, i.
a) € ISOLADO
1) C (-f a, o, v) INICIAL
§ 71. Lei. — C inicial passa intacto para português; ex. : ca-
ballo, cavallo, cadere, cair, casa, casa, colubra, cobra, comple-
re, cumprir, corpus, corpo, cunic(u)lo, coêllw, curvo, curvo.
Observação i. — Em virtude d'uma tendência muito antiga, o c
inicial abrandou nalguns casos em g, como em camélia^ gaméla,
1 Encontra-se um resto da antiga forma em trago e traga, as, a, âmos, ais,
5o. [Na Revista Lusitana, n, 269 sgg., dei outra explicação das formas trazer e
trago. — J. L. de V.].
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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA
275
catto, gato, caveolla, gaiola, colla, gola. E' de crer que estas
palavras já, nos viessem assim do latim vulgar, pois que no clás-
sico encontramos o mesmo phenomeno, dhsendo gurgulio em vez de
curculio.
Observação ií. — Nalgumas palavras o c inicial tomou a fórma
ch, mas essas palavras fôrâo entre nós introduzidas do francês, onde
essa relação phonica é regular; ex.: carruca, chatrua, *capello,
chapéu, cant(o)re, chantre, caput, chefe, caminata, chaminé.
2) C (4- «> o, u) medial
§ 72. Lei. — C medial abranda em português em g; ex.: paca-
re, pagar, dico, digo, peca, pega, joco, jogo, lacu, lago, plicare,
chegar, acuc(u)la, agulha, braças, bragas, apotheca, bodega x , hac
hora, agora.
Observação i. — Este abrandamento do c em g, que jà se dava
no latim vulgar, onde p acare se tornàra pagare, não se encontra nos
compostos de plicare, chegar, como replicar, complicar; estas pa-
lavras, porém, em que se conserva inalterado o c medial, se não per-
tencem á língua erudita, soffrêrão certamente influencia erudita, como
o provão diago (arch.) e advogar ao lado de diácono e provocar.
Observação ir. — Em decano, deão, cahiu por excepção o c me-
dial, se é que, como se nos afigura, elle não provém do francês, em
que tal facto se dá. Parecem-nos egualmente da mesma procedência
palavras taes como selvagem (selvático), mege (arch. medico), man-
jar (manducar), viajem (viatico), monje (monaco *), forja (fa-
brica), em que o c medial abrandou emj.
8) C (-f r, o inicial
§ 73. Lei. — C inicial toma em português o som sibilante do
s forte, continuando todavia a escrever-se c; ex.: centum, cento,
cervo, cervo, ceio (^=caelo), ceo, ceco (=caeco), cego, civitate, ci-
dade, cista, cesta, cibo, cebo 3 .
Observação i. — O c antes de e, i tinha-se tornado sibilante no
latim vulgar jâ no século \i.
Observação ii. — Em chicharo (cicero) e chinche (cim(i)ce)
acha-se o c inicial (e também medial) representado excepcionalmente
i A conservação do c em botica foi para evitar a homonymia. [A fórma bo-
tica não é de origem popular em português. — J. L. db V.].
* [A fórma portuguesa, correspondente a monachus, é mogo: vid. D. Ca-
rolina Micbaèlis, na Revista Lusitana, ih (Fragmentos etymolog., § liv). A fórma
correspondente a -aticum penso ser -ago (ad'go), como vinhago, gentiaga, Vi-
dago, de vineaticu-, *gentiatica (de gentio, genetivus), *Vitaticu-. A
fórma antiga de deão é adaiâo, que está mais próxima do fr. doyen. — J. L. be V.].
3 [E' só na língua litteraria moderna que se confunde c com *, pois tanto
em alguns dialectos, como na língua litteraria archaica, o som do c (isto é : çj não
se confunde com odo «. O mesmo se deve dizer das sonoras respectivas, * e s in-
ter vocálico: vid. § 74. — J. L. de V.].
276
REVISTA LUSITANA
por ch; afigura-se-nos porém haver aqui origem ou influencia do
francês chiche.
4) € (+ e, i) MEDIAL
§ 74. Lrl — C medial (intervocalico, antes de e e i) passa em
português para z (s brando); ex.: dicSre, dizer, facSre, fazer,
*domin(i)cella, donzella, vicino, vizinho, placere, prazer, *com-
placentia, complazença (arch.), complacência, vacivo, vazio, buci-
na, buzina, *amicitate 1 , amizade.
Observação l — Esta mudança importante da sibilante provenien-
te do c tem a sua origem na tendência de todas as consoantes duras
para se converterem em brandas, quando collocadas entre vogaes.
Observação h. — As palavras lagarta e pulga provêm nfto de la-
certa e pulice, mas d'outras populares lacarta e pulica.
Observação iu. — O c cahiu por excepção nas seguintes fórmas
contractas : direi, farei e fais (arch.), por dizerei, fazerei e fazes.
6) € FINAL
§ 75. Temos aqui de considerar dois casos: ou o c é final ori-
ginariamente, ou por quéda da vogal seguinte. E assim no
1. ° caso; isto é: c final original cáe em português; ex. : sic, si
(arch.), sim, nec, ne (arch.), nem.
2. ° caso ; isto é : c final nâo original passa para s brando (na lín-
gua litteraria actual) como o medial antes de e, i; ex.: voce, voz, de-
cem, dez, nuce, noz, perdice, perdiz, pice, pez, radice, raiz, cru-
ce, cruz, judice, juiz 9 , vice, vez*.
b) C ANTES DA SEMI- VOGAL i
(isto é: cia, cio)
§ 76. Lei. — C seguido da semi- vogal i; isto é: d'um i forman-
do hiato, como em cia, cio 7 toma em português o costumado som si-
bilante, desapparecendo a semi- vogal; ex. : faciamus, façamos, fa-
cie, face, minacia, ameaça, bracio ( = brachio), braço, *laceo
(=laqueo), laço. *terraceo, terraço.
Observação. — Segundo a sua tendência para abrandar, também
neste caso o c passou para português sob a fórma de z, como em
judicio, juízo, placeat, praza 4 . Aquellas palavras em que cio e cia
se consérvâo inalteradas, pertencem à lingua erudita. Murci(d)o deu
murcho, talvez por influencia francesa 5 .
* Compare -se a fórma hespanhola amistad.
» A deslocação do accento deu-sc nesta palavra para evitar o hiato. [Sup-
ponho que a deslocação se daria por analogia com os nomes cujo nominativo era
também -ix, mas cujo genetivo era -íeis; ex. : radix, etc. — J. L. de V.].
3 [Propriamente, o c intervocalico deu z, c o e cahiu : voce- , # voze. voz, —
J.L. de V.].
4 [Vêr sobre este ponto Cornu, ob. cit., % 111. — A fórma praza pôde expli-
car-se pelo infinito prazer, placere, que faz parte dos Casos do § 7d d'este ar-
tigo. — J. L. de V.].
5 [Como justificar a influencia francesa? Também Diez, Gr. des l. rom., i,
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PHONBTICÀ HISTÓRICA PO&TtJGtJESÀ
ej C AGRUPADO
1) INICIAL
§ 77. Lei. — Os únicos grupos iniciaes em que o c é em latim
seguido de consoante, sâo cr, cl, os quaes foram diferentemente modifl
cados na sua passagem para português: cr ficou inalterado; ex. : cre
dere, crer, cruce, cruz, crudele, cruel, crudo, cru, crusta, crosta,
Observação. — Aqui também, segundo a sua tendência, abran
dou nalguns casos o c em g, como em *crupta, gruta l , cratic(u)la
grelha *, crassa, gracha, crate, grade, creta, gréda. Em cremare
queimar, cahiu o r por dissimilaçfco s , e em crepare, quebrar, deu-se
por metathese deslocação do r.
Cl passou para português sob a fórma de ch; ex.: ciam are,
chamar, claudere, chouvir, archaico, clave, chave, clauso, chouso,
arch., c(e)leúsma, chusma.
Observação. — A existência da fórma cramar, archaica (cla-
mare), ao lado de chamar, faz-nos parecer que a primitiva transfor-
mação do cl em ch foi modificada por influencia erudita. Claro, cia-
mar, claustro (ao lado de crastra, arch.) pertencem à língua litteraria.
Clavo deu cravo, para evitar a homonymia com chave 1 .
2) MEDIAL-INICIAL
§ 78. Devemos distinguir os casos em que o c medial-inicial ;
isto é: em contacto com outras consoantes e constituindo a lettra ini-
cial da syllaba, está seguido de vogal ou de consoante. D'ahi resultao
as duas leis seguintes:
17, e Cornu, ob. cit., § 111, lígâo murcho a murcidus, embora Cornu diga que é caso
insólito. Murcidus porém nào pôde explicar murcho. Como murcidus é formado de
murcus, do mesmo modo que murceus, devia haver no lat. vulgar da Lusitânia ou-
tro derivado do mesmo thema, cora o suflixo -ulus; isto ó: *murculus, ou mur-
c'lus, que explica perfeitamente murcho, porque cl depois de consoante dá ch (cfr.
Bev. Lus., n, 272). - J. L. de V.].
i [Sobre gruta, vid. Meyer- Liibke, Gram. de* l. rom., i, 34. — J. L. db V.].
* [Grélha é difficil de explicar por cratic'la, que devia dar gradelha, sem
quéda do d. E' provável que grelha viesse de outra língua para a nossa. Em fran-
cês antigo ha greil (por grattle, graille), ir. mod. griuc, gril, que, com quanto de
differente significação, vem do mesmo radical (grille, de craticula, gril, de cra-
ticulum). Cfr. Diez, Et. Wòrt, i, 172, 4.« ed.— J. L. dk V.].
8 [Cornu, ob. cit., § 7, explica queimar de outro modo: cremare, #JW-
mar, *heumar, queimar. — J. L. de V.].
* [Cravo pertence a epocha mais moderna. — Com relação ao modo de tra-
tamento do cl inicial, a lingua portuguesa offerece três momentos ou epochas :
1) cl-, ch, ex. : clavic'la, chavelha;
2) cl-, cr, ex. : clavic'la, cravelha;
3) cl-, cl, ex. : clavícula = clavícula.
As fórmas da primeira classe sâo populares e mais antigas ; as da última
litterarias e recentes; as da segunda semi-populares ou semi-eruditas; isto é: in-
troduzidas litterar lamente numa epocha bastante antiga, embora posterior á pri-
meira (mas em que já se nao dávâo todos os phenomenos característicos da 1."
epocha), e tendo experimentado alteração na boca do vulgo. — J. L. de V.]-
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2Í8
feKVISÍÀ LUSITANA
1. * Lei. — C medial-inicial seguido de vogal está sujeito às mes-
mas regras que o c fcolado-medial ; isto é : conserva-se inalterado an-
tes de a, o, u, e passa para sibilante antes de e, i; ex. : a) rausca,
môsca, furca, fòrca, calcare, calcar, *mercare, mercar, fusco,
fosco, visco, visco, man co, ' manco ; b) mercede, mercê, inceptare,
encetar, crescõre, crescer, cercínare, cercear.
Observação i. — Antes de a, o, u nalguns casos, como em * ca-
bal(li)care, cavalgar, musco, musgo *, abrandou em g, segundo a sua
tendência. Prancha (planca) e marchante (mercante) fôrão introduzi-
das do francês *.
Observação n. — No grupo sc 5 , quando antes de e, i, deu-se no
português antigo tendência para assimilar o * ao c, quando posto im-
mediatamente á raiz da palavra, dizendo-se por exemplo nacer, crecer,
decer, acenson, conhocer, como ainda hoje pronuncia o povo, e a sua
conservação, quando não immediato ao radical, por exemplo : escaesca,
meresca, padesco, gradesco, offerescão, guaresco. O português moderno,
porém, em obediência à etymologia, restaurou a fórma primitiva no
primeiro caso, com excepção de conhecer, e assimilou no segundo. As-
sim, aquellas fórmas são hoje nascer, crescer, descer, ascensão, e estas
esqueça, mereça, padeço, offereção, guareço. Nalguns casos foi o c que
se assimilou ao s, produzindo a geminação o som x, segundo a regra.
(Vide adeante), como era mis cere, mexer 4 .
2. * Lei. — Os grupos mediaes formados pelo c, são cr, cl, d e x
1. ° grupo, cr). — O c d'este grupo abranda em g, em harmonia
com a sua já conhecida tendência; ex.: acre, agro, vin'acre 6 , vi-
nagre, álacre, alegre, lacrima, lagrima, macro, magro, socro,
sogro.
Observação. — Oc neste caso tinha passado para g já no latim
vulgar.
2. ° grupo, cl. — Oc d'este grupo resolve-se em i, que desapparece,
* [A fórma musgo é difficil de explicar, por causa do g. Talvez aqui haja al-
guma influencia estranha. Fórma inteiramente semelhante é visgo, que se usa a
par de visco. Poderemos acaso admittir «mus* cus e «vis 1 cus? — Quanto a ca-
valgar, éata palavra vem de «caballicare, sim, mas através de *caballigare,
tendo-se abrandado o c antes da syncope do *. — J. L. de V.].
* [Prancha podia explicar- se por #planc(u)la: cfr. concha, de con-
ch(u)la; embora tenhamos chanca, de planca. Â substituição de pi- por pr-,
e não por eh, mostra que a fórma nlo data da origem da lingua: cfr. cravelha. —
J. L. de V.].
3 No suífixo dos verbos inchoativos.
* [Sc deu c antes de e, i, como nacer, e manteve -se antes de outras vogaes,
como nasça. Depois nasça seguiu a analogia do infinitivo e mu dou -se em naça.
Sobre este ponto, e sobre mexer e os outros casos em que sc deu x, vêr Cornu, ob.
cit., §8 234 e 325. — J. L. de V.].
* [A. fórma no latim vulgar devia ter sido, nâo viriacrt, mas sim * vinuacre
ou avinuagre, senão o n intervocalico tinha cahido; em * vi nu acre mante-
ve-se protegido pela semi-vogal u, como emjanella, etc. \ cfr. o que eu disse supra,
pag. 261, not. 1. — J. L. de V.].
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PHONETICA HISTÓRICA PÔRTtfdCESA
279
molhando o l; ex.: ovic(u)la, ôvêlha, auric(u)la, ôrêlha, gra-
c(u)lo, gralho, spec(u)lo, espêlho, acuc(u)la, agulha, genuc(u)-
lo, joelho, mac(u)la, malha, oc(u)lo, ôlho, apic(u)la, abelha, ver-
náculo, vermelho, artic(u)lo, artêlho.
Observação i. — Provavelmente por influencia da nasal o cl pas-
sou para ch em mac(u)la=-, *manc(u)la 1 , mancha, *fun(i)c(u)lo,
funcho, anníc(u)lo, annejo, pela similhança do som, j a ch *.
Observação ii. — A transformação do cl latino em cr nestas pa-
lavras mirac(u)lo, milagre, sacc(u)lo, segre, archaico e ecclesia,
igreja, é sem duvida devida a influencia erudita, além de que o dis-
tincto philologo, Sr. Gonçalves Vianna, suppõe influencia provençal ou
francesa pela troca irregular do o final atono em e, em milagre e se-
gre. Em periculo, perigoo, não se deu a formação do grupo cl; o l
cahiu segundo a lei geral. (Vide adeante 3 ).
3.° grupo, ct). — Neste grupo temos de distinguir dois casos: ou
elle está precedido de vogal, ou de consoante. E assim no
1. # caso; isto é: quando precedido de vogal, vocaliza-se o c; ex. :
lacte, leite, pecto, peito, nocte, noite, doctore, doitor (pop. e
arch.), doutor, acto, auto, facto, feito, factitio, feitiço, fructu,
fruito (arch.), fruto, tecto, teuto (arch.), teto, luctu, loito (arch.),
luto, activo, autivo (arch.), ativo.
Observação. — Se o c está precedido de i, então a vogal em que
elle se resolve combina-se com aquelle, como em dicto, que deu pri-
meiro *diito e depois dito. Em mactare, matar, e contracto, con-
trato, deu-se a assimilação do c ao t, passando este depois de dobrado
a singelo. Colcha (de culc(i)ta) e trecho (de tracto) são de intro-
ducção hespanhola, onde o ct se resolve em ch.
2. ° caso; isto é: quando precedido de consoante, cáe o c, prova-
velmente depois de se ter assimilado ao t, como é regular nas gemi-
nações; ex. : sanct f o, santo, tincto, tinto, puncto, ponto, cincto,
i Nesta palavra predominou a dissimilação. [Na Rev. Lus., n, 269, expli-
quei mancha, etc. — J. L. de V.].
* [Como * annic'lu deu annelho, o suffixo -ejo deve ter outra origem : Diez,
Gr. des l. rom., n, 300, vê nelle origem hespanhola. — J. L. dk V.].
s [As leis da transformação do cl medial podem resumir-se assim :
1. a epocha da lingua):
a ) intervocalico dá Ih : o r i c ' 1 a , orelha ;
b) depois de consoante é tratado como se fosse inicial ; isto é : dá ch :
-asc'lu, -acho (Rev. Lusit., n, 272);
2. * epocha da lingua), dá: gr., ex. : ecclesia, eigrqa, igreja (mas neste
exemplo temos ccl).
Fórmas como periculum, macula, dérao perigoo, perigo, mágoa, pela
quéda do / intervocalico, o que mostra que nâo sâo da origem da lingua (pois em
lat. vulg. erâo periclu', macia, onde o l teria de experimentar outra transformação),
mas ainda assim de uma epocha antiga, em que o l intervocalico se syncopava.
Mácula, radícula, etc., em que -cul- se mantém, sâo moderníssimas.
O lat. macula representa quasi todos os casos indicados acima: malha
(mac'la), mancha («maneia, — Rev. Lus., n, 269), mágoa (macula),, e mácula
(=macula). — J. L. de V].
280
RBVISÍA LtíSlÍÁNl
cinto, unctare, untar, penctie (=pectine ) por metathese), pente \
juncto, jt*wto.
4.° grupo, cs). — Vide o X
3} MEDIAL
§ 79. C medial só se encontra em latim acompanhado d'ontro,
passando, segando a regra geral, de geminado a simples, que fica su-
jeito à lei do c medial-isolado ; ex.: bucca, boca, bacca, baga *, pec-
cato, pecado, sicco, seco.
U. — X
§ 80. Contém esta consoante dois elementos: um palatal, c, e
outro dental sibilante, *. Á sua passagem para português pôde enun-
ciar-se pela seguinte:
Lei. — O x degenera no português em s forte (que se escreve s
ou x) e produz um i, que se combina com a vogal precedente; ex. :
axe, eixo, taxo, teixo, saxo, seixo, sex, seis, fluxo, froixo, la-
xare, leixar (arch.), deixar*, fraxino, freixo, mataxa, madeixa.
Observação i. — O facto de o ditongo oi se pronunciar também d,
deu origem à quéda do i em côxa (de coxa) e còxo (de coxo).
Observação ii. — Nalguns casos o elemento c não se vocalizou,
mas assitoilou-se ao s, como em dixi, disse, sexaginta, sessenta,
a n cs ia 4 , ânsia (e nfto anciã 6 ).
III — Q
§ 81. Distingue-se o q latino do c em ser sempre seguido d'um
elemento labial u, que tem o valor de semi-vogal. Este elemento, que
se n&o faz ouvir na maioria das palavras portuguesas de formação
popular, começou já no latim vulgar a deixar de ser pronunciado.
Portanto só apparece isolado em latim.
i [Como a fórma vulgar na Beira é pêntem, parece-mc que nâo houve a me-
tathese indicada, mas se deu a seguinte evolução : pectine, *peitem, pritem (por
comm uni cação da nasal ao ditongo antecedente), pentem, peide (por dissimilaçâo.
— J. L. de V.].
s [Baga nâo vem de bacca, mas de baca; senão nâo teríamos g em portu-
guês, mas c. — J. L. de V.].
* [Deixar mal pode ter vindo directamente de leixar; deve talvez admittir-
se uma fórma intermédia deleixar, que tenho encontrado em doe. ant. ; pela auéda
do l teriamos *deeixar, deixar. Todavia o hesp. dejar offerece alguma dimcul-
dade. — J. L. dk V.].
* O povo diz ãinsa.
5 [Sobre o modo de tratar o x vid. Cornu, § 233. — O lat. texere faria espe-
rar em português texer ou tes*er (com wr); todavia a orthographia antiga e a mo-
derna pronúncia de Tras-os-Montes, onae ainda se distingue s de ç (c), não dei-
xâo duvida que a verdadeira fórma é tecer (com cj. A explicação, que oVeste phe-
nomeno me occorreu, é que esse verbo havia recebido influencia dos verbos aca-
bados em -ecer; mas tal explicação não esqueceu também ao sr. Cornu, loc. laud..
§ 233. — J. L. de V.].
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PHONBTlCA HISTÓRICA PORTUGUESA
281
1) INICIAL
§ 82. Lri. — Q inicial permanece inalterado em português; ex.:
qni, que, querere, querer, quindecim, quinze, quadragessima,
quaresma, quattuor, quatro (por metathese), questione, questão,
quê to (= quieto), quedo, quatuordecim, quatorze.
Observação. — Quinque, quinquaginta, que por dissimilação
se tinhão tornado cinque e cinquaginta no latim popular, dérão
em português cinco e cincoenta.
S) MEDIAL
§ 83. Q medial é tratado como c medial- isolado antes de a, o,
u; isto é: abranda em g; ex.: agua, agua, *sequ6re, seguir, aguila,
águia, eguale (=aeguale), egual.
Observação. — Em nunquam, nunca, não se deu o abrandamen-
to. Cozinha, cozer e torcer, veem das formas populares cocere, Co-
cina e torcere, em que se tinhão convertido as clássicas coquere,
coquina, torquere.
IV. — G
§ 84. O g tinha em latim um som duro, fosse qual fosse a vo-
gal que se lhe seguisse, pronunciando-se da mesma maneira tanto em
gelo e gigante como em gutta; isto é: como o nosso em guita. As trans-
formações da guttural branda g são muito análogas ás da forte, c.
a) O ISOLADO
1) INICIAL
§ 85. A sua passagem para português depende da vogal imme-
diata e obedece às duas leis seguintes :
1* Lei. — O inicial antes de a, o, u conserva-se inalterado; ex.:
gallico (scil. cane), galgo, gallina, gallinha, gubernare, governar,
gurdo, gôrdo, gutta, góta, got(h)o, godo.
2. m Lei. — G inicial antes de e, i passa em português para a spi-
rante branda correspondente; isto è:j (que se escreve g); ex. : ge-
mere, gemer, genuc(u)lo, geôlho (arch.), joelho, gente, gente, gin-
giva, gengiva, gibbo, gebo, gigante, gigante.
Observação i. — Em germano vocalizou-se, excepcionalmente
neste caso, o g em i, que se fundiu com o e, dando irmão.
2) MEDIAL
§ 86. Lei. — O medial-isolado ; isto é: posto entre vogaes, resol-
ve-se em i, que permanece, se as vogaes que o circundão são a, o,e;e
se funde na seguinte, se ésta é e, i; ex. : a) plSga, praia, sago, saio,
faga, faia l ; b) legere, ler, regina, reinha (arch.), rainha, navi-
* [Sobre estes exemplos vid. Adolpho Coelho, Questões da Una. port.. i. 294:
e Cornu, loc. laud., % 218.— J. L. de V.].
282
REVISTA LUSITANA
gio, navio, sigillo, sello, digito, dedo, frigido, frio, vigilare *,
velar, corrigia, corrêia, fugio, fujo, exagio, ensaio.
Observação i. — Em agosto (de *agusto), agoiro (de *agurio),
nfto se vocalizou o g, ao passo que cahiu em ruga, rua. Nesta ulti-
ma palavra a quéda do g deu-se para evitar a homonymia com ruga,
conservando-se ao contrario pelo mesmo motivo em chaga, de plaga,
que também deu praga.
Observação ii. — Os números viginte, triginta, etc, tinhâo-se
tornado jâ no latim vulgar em vinte, trinta, etc. *.
S) FINAL
§ 87. Lei. — G tornado final pela quéda da vogal immediata
vocaliza-se em,;, que permanece; ex. : lege, lei, rege, rei, grege,
grei 3 .
b) O AGRUPADO
§ 88. O g agrupado pôde estar em latim seguido de vogal ou
de consoante. í)'esse facto resultão as seguintas leis :
Lei. — G agrupado, seguido de vogal, obedece ás duas leis do g
isolado-inicial ; ex. : a) angustia, angustia, *pargo (de pagro), par-
go, aspar(a)go, espargo; b) cingere, cingir, virgine, virgem, magi-
ne, margem, frangere, frangir, tangere, tanger.
Observação. — Para evitar a homonymia com frangir e espargir,
mudou o g para z (s brando) em franzir e esparzir, de frangere e spar-
gere. Era renhir, de ringere, vocalizou-se o g por excepção neste caso,
molhando o n, e na palavra tango, tanjo, deu-se influencia do infinitivo
tanger.
§ 89. G agrupado seguido de consoante é inicial ou medial-
inicial.
1) INICIAL
§ 90. Lei. — Os únicos grupos latinos iniciaes são gr e gl, que
passâo inalterados para português; ex.: grac(u)lo, gralho, gratia,
graça, grande, grande, grege, grei, gloria, gloria, globo, globo.
Observação. — O Z de gl, segundo a sua tendência, mudou-se ás ve-
zes em r, como em glúten, grude, gloria, groria (arch.), gloria. O g
cahiu por excepção em glande, lande e em leirâo 4 , derivado de
glire b .
2) MEDIA L-INICIAL
§ 91. Lei. — G agrupado medial-inicial fórma os seguintes gru-
pos: gr, gl, gn, gt, gd, gm.
1 Esta palavra deu também vigiar pela quéda do l medial -isolado.
2 [Sobre o modo de tratar o g lat. intervocalico em port, vid. Cornu, loc.
laud., %% 216, 218, 219 e 220.— J. L. dk V.].
8 [Era melhor considerar este caso como de g intervocalico: lege, *leje,
*ley, lei: cfr. o que escrevi á cerca do c, na not. 3 do § 75. — J. L. de Y.].
* O povo, ao menos no Algarve, diz láritio.
5 [Ver Cornu, loc. laud., § 137 a) — J. L. de V.].
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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA
283
1. ° grupo, gr). — O g (Teste grupo ou conserva-se intacto, ou re-
solve-se em i; ex.: a) nigro, negro, agro, agro, aggravare, agra-
var; b) integro, inteiro, flagrare, cheirar.
2. ° grupo, gl e gn). — O g (Testes grupos resolve-se em i, que des-
apparece, molhando o l e o n; ex. : a) teg(u)la, telha, reg(u)la,
rêlha, ung(u)la, *unlha, unha, coag(u)lare, coalhar; b) pugno,
punho, agno, anho, signa, senha, cognato, cunhado, ligno, lenho,
tammagno, tamanho.
Observação i. — Para evitar a homonymia com rêlha, trocou-se
0 l em r em regra, reg(u)la, se é que és ta palavra não pertence á
língua litteraria, como tecla, de teg(u)la 1 .
Observação ii. — O g deixou de molhar o n, fundindo-se ou ajun-
tando-se â vogal que antecede, em digno, dino (arch.), digno, beni-
gno, benino (arch.), benigno, maligno, malino (arch. e pop.), insi-
gnare, ensinar, regno, reino.
3. ° grupo, gd, gt, gm). — 0 g cahe nestes grupos, conservando-se
apenas na escrita em obediência à etymologia; ex.: amygdala,
amêndoa, pigmenta, pimenta, smaragdo 2 , esmeralda, Magdalena,
Madalena ou Magdalena 8 .
Observação i. — A quéda do g nestes grupos dava-se jâ no latim
clássico, que dizia jumentum, fiamma, examen, em logar de ju-
gmentum, flagma e exagmen.
Observação n. — O contacto com a vogal e fez resolver por ex-
cepção o g em i na palavra flegma, freima (arch. hoje), fleuma 4 .
c) I CONSOANTE
§ 92. 1 consoante 5 era em latim uma semi-vogal que tanto no
principio como no meio das palavras tinha o mesmo som que o nosso
1 em maio, baio.
Em português:
a) / consoante inicial transformou-se em j; isto é: numa spirante
branda (como o g antes de e, i); ex.: i acere, jazer, iudicio, juizo,
ieiunare, jejuar, ioco, jogo, iungere, jungir, ientare, jantar,
(H)iacintho, Jacintho, (H)ieronimo, Jeronymo.
Observação. — Na palavra iacto, geito, trocou-se graphicaraente
i [Regra é uma fórma semi-popular ; cfr. o que escrevi a pag. 279, nota 3,
sobre o cl. — J. L. pb V.].
* [A fórma clássica é effeetivamente smaragduê; mas como ésta palavra, á
semelhança da palavra grega correspondente, tanto era masculina, como feminina,
no lat. vulgar da Hispânia a terminação feminina -a acompanhou a significação, e
deve pois admittir-se «smaragda. — J. L. de V.].
3 A conservação do n intervocalico mostra que a palavra é de introducçao
erudita.
* [A* cêrca do grupo dg, gm, gn, vid. Cornu, 6b. cit , §§ 235-237 ; á cêrca de
gl, vid. i 140; á cêrca de gr, vid. § 217.— J. L. de V.].
^ Escrevemo-la eob a fórma í, para fazer resaltar melhor a sua transforma-
ção em j, além de que este signal j é moderno ; o latim nâo o conhecia.
284
REVISTA LUSITANA
o t em g, pela similhança do som doesta consoante, antes de e, i, com
o d'aquella.
b) 1 consoante medial (que é a semi-vogal que tanta influencia
exerceu nas línguas românicas e da qual nos temos já occupado)
umas vezes une-se à vogal que a antecede, outras toma o mesmo
som sibilante que quando inicial; a) maio, maio, raia, raia, maio-
re, maior, deiectare, deitar; b) invidia, inveja, hodie, hoje, adiu-
ctare, ajudar, ieiunar, jejuar, fugio, fujo.
CAPITULO III
Família das dentaeg
§ 93. A família das dentaes comprehende em latim uma explo-
siva forte t, outra branda d, e uma contínua forte s.
A feição mais característica das consoantes d'esta família é a
troca do t pelo d e a quéda d'este quando entre vogaes.
Observação. — Esta família das dentaes enriqueceu-se, na sua
passagem para português, com mais uma contínua sonora que escre-
vemos z, e se chama também s brando, em opposiçâo ao 8 forte.
L — T
a) T ISOLADO
1) INICIAL
§ 94. Lei. — T inicial permanece inalterado em português; ex.:
tabano, talão, tempus, tempo, tenea, tenha, tusse, tosse, touro,
toiro, tépido, tibio, tela, teia, *torcere (—torquêre), torcer, ta-
bula, taboa, tu, tu, testa, testa, tres, tres.
2) medial
§ 95. Lei. — T medial abranda em d no português; ex.: aceto,
azedo, coturnice, codorniz, maturo, maduro, cubito, covedo, pop.
covado, acuto, agudo, cogitare, cuidar, peccatore, pecador, ar-
matura, armadura, toto, tôdo, *natica, nádega.
Observação i. — As palavras que como abiete (abête no latim
vulgar), dote, natura, natura (arch.), natureza, conservão inalterado
o t medial-isolado, se n&o pertencem à língua erudita, soffrèrão in-
fluencia litteraria, o que se deduz de capitulo, fatigar, quieto, natura,
botica, etc, ao lado de cabido, fatigar (arch.), quedo, nado e bodega x .
i [A forma natura, que se encontra na lingua antig a, é um latinismo. A
fórma natureza provém de *naturaleza (cfr. o hesp.), de ^natural; todavia essa
forma é semi-popular, e não da origem da lingua, senão o t teria abrandado: vê-se
que na epocha em que o l intervocalico ainda se syucopava, já o t não abrandava.
— J. L. de V.].
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PHONBTICA HÍSTOBICÁ PORTUGURSA
Observação n. — Nas formas verbaes da segunda pessoa do plu-
ral e também nalguns nomes como impetigine, impigem, *setti-
mana (=septimana l ) cahiu o t neste caso, nâo porém d'ura modo
subitaneo, mas por transição ; isto é : primeiro abrandou em d, segun-
do a regra, como cuidades (cogitatis), mandades (mandatis), ama-
des (amatis), segundo a regra geral (vid. adeante) conservando -se
apenas naquelles verbos cujo thema é constituido por uma única sylla-
ba, como em itis, ides, etc. *.
Observação ni. — Ao lado da fórma nádega encontra-se a fórma
nalga, proveniente d'aquella pela troca do d medial-isolado por l, que
não é sem exemplo. (Vide adeante 8 ).
b) T AGRUPADO
1) INICIAL
§ 96. T agrupado inicial só fórma verdadeiros grupos com r e
l, os quaes s&o tratados da maneira seguinte:
1. ° grupo, tr).— Este grupo passa inalterado para português;
ex.: trabe, trave, tristitia, tristeza, trulla, trolha 4 , turre, torre,
tres, tres.
2. ° grupo, ti). — Este grupo passa para português sob a fórma
ch; ex.: *t(o)lutare, choutar.
Observação. — A razão d'esta transformação está em que no la-
tim vulgar o t do grupo tl } quer inicial, quer medial-inicial, se tinha
trocado por c, dizendo-se *c(o)lutare, *vec(u)lo, *sic(u)la, *ro-
c(u)la em logar de *t(o)lutare, vet(u)lo, sit(u)la, rot(u)la,
tendo depois o grupo cl, assim formado, seguido a mesma sorte do cl,
já inicial, já medial-inicial. (Vide §§ 77 e 78).
2) MEDIAL-INICIAL
§ 97. Temos aqui de distinguir dois casos: ou o t está seguido
de vogal ou de consoante. E assim :
1 Egualmente em perdita, perda, vendita, venda.
2 [Se o t cahis8e por ter abrandado em d, cuja quéda, quando som origi-
nário, é normal, nâo devia haver em português palavras com d medial, pois em to-
das elle teria cabido. O desapparecimento do t deve pois explicar-se de outra ma-
neira em impigem e semana. Em ambas estas palavras houve certamente assimila-
ção. Sept'mana, * setCmana, semana: nesta palavra a manutenção do n mostra
que ella é semi -erudita (influencia ecclesiastica) ; a fórma genuinamente popular é
doma, arcb. dómaa, de hebdomada. A palavra semana experimenta ainda na
lingua vulgar uma simplificação maior: semana. — Impigem pôde provir de *inVpi-
gem, por metathese de «impetiginem, ou de *ind } pigem, por metathese de *im-
p'digem ; mais facilmente o t ou d se assimilavão &o p, do que vice-versa.
Quanto aos verbos, é muito difficil de explicar a syncope do d das formas
arcbaicas -ades t etc, na passagem para -aes, etc; e ainda não foi dada explicação
satisfatória. — J. L. de V.].
3 [Propriamente houve syncope do e postonico, * nádega, e depois reducção
do grupo dg a Ig, como em *jud'gare, de judicare. — J. L. de V.}.
* [Trolha não pôde vir directamente de trulla, pois 11 darião l; vem porém
de trullea (trulleum). — J. L. de V.].
286
tóVISTA LUSITANA
No 1.° caso; isto é: t agrupado medial-inicial, seguido de vogal,
passa inalterado para português, excepto se a consoante que o pre-
cede é n ou m, porque então abranda em d; ex.: a) virtute, virtude,
masticare, mastigar, estimare, estimar, gusto, gôsto, musto,
môsto; b) pon(i)te, ponde, ven(i)te, vinde, bón(i)tate, bondade,
lim(i)te, linde (arch.), cora(i)te, conde, sem(i)ta, senda l .
Observação. — Em esmar (estimare), mascar (masticare) e pança
(pantice), cahiu o t por excepção * mas ésta ultima palavra talvez
fosse introduzida do francês.
No 2.° caso; isto é: t agrupado medial-inicial seguido de con-
soante só fórma verdadeiros grupos com l ou r, os quaes são trata-
dos da maneira seguinte:
1. ° grupo, tl. — Este grupo acha-se representado em português
por Ih; ex. : vet(u)lo, velho, sit(u)la, solha, rot(u)la, rolha.
Observação. — A' cerca d'esta transformação do grupo tl em Ih,
vide § 96, obs. Rol, de rot(u)lo, que se afasta d'esta regra, é sem
duvida de introducção francesa, a não se querer explicar por meta-
these do Z e quéda da syllaba tu. Em spat(u)lare, espaldar, deu-se
a metathese do l 3 .
2. ° grupo, tr). — Este grupo ou passa sem alteração para portu-
guês ou abranda em dr, excepto se na palavra ha outro r, porque
então reduz-se por dissimilação a t ou d; ex.: a) monstrare, mos-
trar, ostrea, ostra, contribuere, contribuir, litt(e)ra, letra, ar-
bítrio, alvitre lutra, lontra 6 ; b) latrone, ladrão, patre, padre,
matre, madre, patrino, padrinho, putre, podre, petra, pedra,
arbítrio, alvedrio 6 ; utre, odre, vitro, vidro, *atro (= átrio),
adro, *citra (—citrea), cidra, vet(e)re, vedro, (no nome Alhos
1 [Isto é : quando a vogal protonica ou postonica cáe, já o t intervocalico se
tinha abrandado, como em linde, de *lim(i)de, de limite(m), bondade, de êbo-
n(i)dade, de bonitate(m). Em solteiro, por ex., de solitarius, a syncope do i
foi anterior á epocha do abrandamento. — J. L. de V.].
2 [E* que, como em solteiro, a Byncope do i precedeu a epocha do abranda-
mento; por isso #aest(i)mare e mast(i)care: depois o t foi assimilado á con-
soante seguinte. — J. L. db V.].
8 [Ha outras palavras análogas a espaldar e a rol, como roldana, til, etc.
Talvez tenhâo origem no hespanhol, onde ha tilde (de titulus), rolde (de rotu-
lus), eneldo (de #anethulum), e roldana (de «rotulana); cfr. ainda hesp.
molde (de modulus). Se a palavra roldana fosse de origem popular antiga, de-
via ter perdido o n. — Cfr. também Rev. Lusit., n, 268. — J. L. de V.].
* [Alvitre deve ter vindo do fr. arbitre, com dissimilação do primeiro r. — J.
L. de V.].
5 [Com lontra cfr. o ital. lontra : Diez, Etym. Wõrt., i, s. v. Como se explica
porém a nasal, e o ter- se conservado o tf O Sr. Cornu admitte a fórma # nontra,
que explica o hesp. nutria ou nutra: ob. cit., § 151. — O n inicial pôde ter pro-
vindo de dissimilação do l; depois nasalou a vogal seguinte. — J. L. de V.].
6 [Como arbítrium tem o accento na primeira syllaba, e o português alvedrio
o tem na terceira, ésta fórma não se pôde explicar directamente por aquella. Tal-
vez possamos admittir que alvedrio seja um substantivo verbal de *alvedriar,
formado de * arbit riare, sobre arbitrium. Em port. antigo porém ha alvidrar,
arbitrare. — Meyer, Gr. de* l. rom., i, 604, dá outra explicação. — J. L. de V.].
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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA
287
Vedros); c) rostro, rôsto, rastro, rasto, *matrastra, madrasta,
*deretrario, derradeiro, t(a)ratro, trado, aratro, arado, fratre,
frade.
Observação i. — Nostro e vostro, comquanto nâo tivessem outro
r além do da syllaba final, dérão também as fórmas * nosto e * vosto,
nas quaes mais tarde foi o t assimilado ao s, ficando nosso e vosso J .
Observação ii. — Mutre e patre dérão primeiro madre e pa-
dre; estas fórmas depois, provavelmente por influencia da linguagem
infantil, contrária aos grupos, reduzírfco-se a mare (que se encontra
em português arch. Vide Èlucid.) e *pare, as quaes ainda se simplifi-
carão em mãe e pae. A nasalisaçâo de mãe é proveniente da consoan-
te nasal m * Perrexil, de petroselinum, e Pero, de Petro, sfto sem
dúvida de introducçao francesa, língua em que é regular a troca do
tr por rr (latrone, larron z ).
3) MEDIAL
§ 98. Lei. — T medial-agrupado assimila a si a consoante que
o antecede, excepto o c que se vocalisa; ex. : a) septimana, setti-
mana, semana, rupto, *rÔtto, roto, gutta, gota, catto, gato, sa-
gitta, seta;b) factitio, feitiço, doctore, doitor (ant. 4 ).
c) T FINAL
§ 99. Lei. — T final latino, quer isolado, quer agrupado, càe
em português; ex. : et, e, aut, ou, amat, ama, caput, cabo, debent,
devem, amant, amão..
Observação i. — Esta quéda era quasi geral no latim vulgar já
1 [Na sua Grammatik der Roman. Spr., n, § 92, junta Meyer-Lubke outras
fórmas reduzidas dos pronomes possessivos, como hesp. ant. nueso, vueso, e de
vários dialectos nos vos, nies viés (de noster vosterj. Estas fórmas podem explicar-se
por causa da próclise, como elle diz, e eu já antes tinha explicado aos meus alu-
mnos (a respeito do português). — J. L. de V.].
2 [Já na minha Evolução da linguagem, pag. 74, eu tinha explicado mãe, por
influencia da linguagem infantil, mas havia admittido como forma intermédia
*made, e não mare; a fórma mare considerei-a como divergente ou dialectal. O
nasalamento do a pelo m inicial expliquei -o também na Revista Smentifica, do
Porto, pag. 199. Tanto em gallego, como em mirandês, ha ainda a fórma, sem na-
salamento, mai. Em gallego ha também a fórma nai, que creio que ainda não foi
explicada ; explico a mudança do m em n, por dissimilação, na phrase-feita mina
mai; isto é: m. . . m, m. . . n. Depois nai destacou- se como fórma independente.
Ha outros factos análogos : assim o artigo o apresenta-se sem o l originário, por
este ter cahido em ligações, taes como delo, alo, donde deo, ao; depois a fórma
o destacou-se igualmente. — J. L. de V.].
3 Sobre perrexil, cfr. já Adolpho Coelho, Quest. da ling. port, i, 416. — A
fórma Pero não se pôde explicar pelo francês. O d, de Pedro, cahiu provavelmen-
te em próclise, para a palavra se abreviar, como é vulgar nos nomes próprios.
Igualmente o nome de logar Perafita, de Petraficta (ficta = fixa, de figo; a fórma
ficta é dada por Theil, Dicc. lat. fr., s. v. figo), perdeu o d, quanto a mim, pelo
mesmo motivo; cfr. ainda Perosello, de Pedroso. — J. L. dk V.].
4 Vide mais exemplos no § 78.
288
REVISTA LUSITANA
no século iv, como se deprehende de muitas inscripções d'essa epo-
cha; quando não cahia, tinha um som fraco e quasi surdo. Houve an-
tes mudança do t final em d.
Observação ii. — No português archaico encontramos apenas a
fórma est antes de vogal, que mais tarde foi substituída por i; ex. :
thu est a terra melhor». (Cane. de Z>. Dinis).
§ 100. O grupo ti medial; isto é: t seguido de e ou i em hiato,
começou bem cedo a ser modificado no latim. Por influencia da semi-
vogal, já no século v tinha o t tomado um som sibilante (gratia
pronunciava-se gratsia ou gratsa). As modificações que soffre na sua
passagem para o português, são:
a) Se está precedido de vogal ou consoante (que não seja s ou
x) e seguido de vogal, converte-se o t em s brando (que se escreve ç
ou z), ao passo que cáe a semi-vogal; ex. : a) acutiare, aguçar,
*avis strutio, abestruz, platea, praça, palatio, paço *cupidi-
tia, cubiça, mollitia, molleza, tristitia, tristeza, duritia, dureza;
b) captiare, caçar, *tractiare, traçar, linteolo, lençol, linteo,
lenço, presentia, presença.
Observação. — Aquellas palavras em que o t nestes casos ficou
inalterado, como palácio, infância, pertencem á lingua litteraria ou
soffrêrão influencia erudita, como mostrâo entre outras as palavras
archaicas pacente e pendença, que hoje se dizem paciente e peni-
tencia.
b) Se está precedido das consoantes s ou x conserva-se inalte-
rado; ex.: questione, questão, estivo, estio, cr(h)istiano, christão.
§ 101. Lei. — D inicial passa inalterado para português; ex.:
dom(i)na, dona, dom'nicella, donzella, dicere, dizer, duro, duro,
dejectare, deitar.
Observação. — Em dei p hino, golfinho, passou por excepção o d
para g. Não haveria aqui influencia de falsa etymologia, golfo ou
golfar ?
§ 102. Lei. — D medial cáe em português; ex.: cru dele, cruel,
credere, crer, sedere, ser, videre, ver, gradu, grau, tépido, ti-
bio, judice, juiz, praedicare, pregar, hedera, hera, radice, raiz.
Observação i. — Muitas palavras em que o d medial tinha cahido
segundo a regra acima dada, soffrêrão depois influencia erudita, como
parecem indicar, além d'outras, as archaicas loar, oyr, increo, que
hoje se dizem louvar, ouvir, incrédulo.
Observação ii. — O d trocou-se excepcionalmente pelas liquidas
II. — D
a) D ISOLADO
1) INICIAL
9) MEDIAL
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PHONETICA histórica portuguesa
289
em judicare, julgar, Egídio, Gil, cicada, cigarra. (Vide § 107,
obs. ii
3) FINAL
§ 103. Lei.— D final em poucas palavras apparece em latim, e
nessas cáe em português; ex.: ad, a, quid, que.
b) D AGRUPADO
1) INICIAL
§ 104. Lei. — D agrupado-inicial só fórma o grupo dr } que passa
inalterado para português; ex.: dracone, dragão.
2) MB DIAL INICIAL
§ 105. Temos aqui de attender a duas circumstancias indispen-
sáveis : ou o d está seguido de vogal ou de consoante.
No 1.° caso, isto é, d agrupado-medial-inicial seguido de vogal
passa inalterado para português; ex.: cardo, cardo, ordine, ordem,
perdice, perdiz, vendere, vender, unde, onde, grande, grande,
cal(i)do, caldo, soldato, soldado, perdi(t)a, perda, vendi(t)a,
venda.
Observação. — O d cahiu por excepção em vindicare, vingar,
fundibulo, funil e ad-satis, assaz; nesta ultima palavra, porém,
houve antes assimilação do d ao s do que quéda
No 2.° caso, isto é, d agrupado-medial-inicial seguido de con-
soante só fórma, como o agrupado-inicial, o grupo dr, que ou perma-
nece intacto, ou se reduz a ir: a) quadro, quadro, quadrato, qua-
drado, Adriano, Adrião, cedro, cedro, Edral (nome próprio de lo-
gar derivado de hed(e)ra); b) cátedra, cadeira, quadraginta,
quarenta, quadragésima, quaresma, *quadrella, courella*.
c) D SEGUIDO DA SEMI- VOGAL i
§ 106. Lei. — D seguido da semi-vogal i, e precedido, quer de
consoante, quer de vogal, càe, e a semi-vogal ou se combina com a
vogal antecedente, ou toma o seu costumado som sibillante (na gra-
1 [Com Gil cfr. o fr. GiUes. A fórma julgar já a expliquei supra, pag. 285,
nota 3. Quanto a cigarra, ésta fórma é um pouco difficil de explicar: cfr. Cornu,
ob. cit., § 202. Nâo se poderia admittir o sufcxo -arra em cicada («cicadarra,
çcigaarra, cigarra)? — J. L. dk V.].
» [Em vindicare nâo houve quéda do d, mas assimilação, depois da syn-
cope do i protonico * vindfijgar (cfr. supra, pag. 285, nota 3). Funil nâo veio de
fundibuhim, mas sim de * infundi le: Cornu, § 205 (houve assimilação de d a n,
como em pop. inàgora = inda agora, etc). Assaz nâo vem de ad satis, mas de a d
eati em, como mostrei na Rev. Lusit, n, 267 (o d foi assimilado ao »). — J. L.
w V.].
3 Por metathese «quadrella, donde courdla. [Devia antes ter sido *co-
drella (cfr. ant. cotritn, pop. corenta, pop. coresma, etc), e depois coirtUa — cou-
rdla, pela mudança de dr em ir, e correspondência de oi a ou. — J. L. de V.].
REV. LUB1T., VOl. IH, fa8C. 4. 1
290
REVISTA LUSITANA
phia i ou g); ex: a) badio, baio, modio, moio, fastídio, fastio, per-
fídia, perfia (arch.), perfídia, radio, raio, médio, meio, pódio, apoio;
b) video, vejo, * dissídio, desejo, hodie, hoje, invidia, inveja, se-
dea, seja.
Observação i. — Se o grupo dj está precedido de n, ent&o cáe a
semi-vogal, molhando o n; ex.: ver(e)cundia, vergonha, Borgun-
dia, Borgonha.
Observação ii. — Em audio, ouço, ardeo, arço (arch.), ardo,
gáudio, ffôso, deu-se primeiro a troca do d em t, e depois o grupo as-
sim formado tj, seguiu a regra geral. (Vide § 100 a).
ni.-s
a) S ISOLADO
1) INICIAL
§ 107. Lki. — S inicial passa inalterado para português^ ex.:
salute, saúde, sano, são, serpente, setpente, solo, só, servitio,
serviço, silva, selva, sapone, sabão.
2) MEDIAL
§ 108. Lei. — S medial, já originário, já por quéda de consoan-
te, passa em português de spirante forte a branda; isto é: z; ex.:
causa, coisa, rosa, rosa, casu, caso, fuso, fuso, t(h)esauro, te-
soiro, pausare, poisar, spo(n)so, esposo, me(n)sura, mesura (arch.),
co(n)8uere, coser, pe(n)sare, pesar.
3) FINAL
§ 109. Lei. — S final conserva-se em português; ex.: coro(n)as,
coroas, do(l)ores, dores, dom(i)nos, donos, naris, naris, deus,
deus, debes, deves, amatis, amaes, vestitis, vestis 1 .
b) S AGRUPADO
1) inicial
§ 110. Lei.-— S inicial toma em português um e prothesico;
ex. : *scalata, escada, scribere, escrever, spata, espada, scuto,
escudo, Stella, estrella, spica, espiga.
Observação i. — Esta prothese do e (i na origem) que se dá no
i [Sobre a manutenção do s final em português vide Adolpho Coelho, Ques-
tões da ling. port , i, 346 seg. — A forma naris não pertence aos casos estudados
pelo Sr. Nunes, pois que a boa orthographia é nariz, com z. Esta palavra não pode vir
do lat. naris, cujo aecusativo daria em português nar. Em hesp ha nariz, também
com 2. Deve pois ter havido no lat. vulg. da Hispânia a forma «narlx *narl-
cem (cfr. Diez, Gr. des l. rom., i, 47). E* só esta forma que pode explicar os deri-
vados narigão (* nariconem) , narigudo (# nari cutus), etc. : cfr. perdigão, per-
digoto. — A Demanda do St. Graal, pag. 6, tem narcçes (por ventas).— J. L. dk V.].
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ÍH0NETI0A HISTÓRICA PORTUGUESA
291
português como nas demais línguas românicas, provém já do latim
vulgar, o que se deduz de grande numero de inscripções i e manuscri-
ptos latinos. (Vide Schuchardt, Vokalismus, n, 338 foi.).
Observação h. — Spasmo, que se tornou pasmo no latim vulgar,
deu a fórma portuguesa pasmo 1 .
S) MEDIAL-IN1CIAL B MEDIAL
§111. Lki. — S medial-inicial e simplesmente medial passa inal-
terado para português; ex. : a) a verso, avesso, urso, usso (arch.),
urso, pérsico, pêssego, persona, pessôa, insulso, insôsso, bursa,
bôlsa; b) visco, visco, musca, mosca r masticare, mastigar, musto,
môsto, mi(n)isterio, mister, vespa, vespa, mo(n)stare, mostrar,
repos(i)ta, resposta ou melhor reposta (pop.), as(i)no, asno.
Observação i. — Em *insulfure, enxofre, insapido, enxabido,
insertare, enxertar, e em geral nas geminações, vessica, bexiga,
passione, paixão, grassa, graxa, basso, báxo (pop.), baixo, conser-
vou se o s forte, mas sob a fórma x.
Observação n. — Nalgumas palavras s medial agrupado nfto ini-
cial assimilou a si a consoante seguinte, continuando a ter o seu som
forte, como em nos tr o, *nosto, nosso, vostro, *vosto, vosso, musto,
mosso, moço (f) 2 . Este mesmo phenomeno dava-se jâ no latim clás-
sico, onde encontramos caesus por *caestus } de *caedtus, mis sus
por *misbis } de *mittus.
c) S SEGUIDO DA SEMI- VOGAL i
§ 112. Lei. — S seguido da semi- vogal i transpõe-se para além
d'esta, que se une á vogal antecedente e toma um som brando, isto é,
j; ex: basio, beijo, caseo, queijo, *phaseolano, feijão, ecclesia,
egréja, cervisia, cervêja, laesione, aleijão.
Observação. — O a d'esta ultima palavra aleijão foi provavel-
mente o artigo que precedia a antiga fórma leijão e depois se lhe
ajuntou; a lingua litteraria diz lesão.
IV. — Z 8
§ 113. O z latino, que era um signal tirado do grego e soava
ds, em poucas palavras portuguesas de formaç&o popular se encontra,
e nessas, se era inicial passou para c, se medial deu z ; ex. : a) ze-
loso, ciôso, zelo, cio; b) baptizare, boutisar (arch.), baptizar, la-
zaro, lazaro.
i Pela similhança de som também cahiu o * original em centelha, de scin-
tilla [aliás, de * sciuti llea. — J. L. dk V.].
s [Moço não se pode explicar effecti vãmente por mustus; deve explicar-se,
como creio que também já me lembrou o Sr. Epiphanio Dias, por mus teus. — J.
L. db V.].
3 Não confundir este z com o proveniente de * entre vogaes.
292
REVISTA LUSITANA
Observação. — Zeloso, zelo, zona (de zeloso, zelo, zona), pertencem
à língua litteraria.
CAPITULO IV
Família das labiaes
§ 114. A família das labiaes comprehende em latim .doas ex-
plosivas, uma forte p, outra branda b, e duas contínuas, f forte e v
branda.
A característica d'esta família é a troca do p pelo b, e d'esta por
v quando eutre vogaes ou precedidas de vogal e seguidas da liquida r.
L — P
a) P ISOLADO
1) INICIAL
§ 115. Lm. — P inicial passa inalterado para português; ex. :
pacare, pagar, patre, padre, pecto, peito, pisce, peixe, *pul(i)ca,
pulga, postiço, postigo.
Observação. — Pústula e *pantuc(u)lo, que dér&o em portu-
guês bostella e bandulho, tinhfio-se provavelmente tornado *bustella
e *banduc(u)lo já no latim vulgar, pois que o próprio latim clás-
sico nos offerece as formas burrus de pyrros e bibere, da raiz san-
scrita p, a que deu potare, potare. (Vide obs. ao § seguinte).
2) medial
§ 116. Lei. — P medial abranda em português na explosiva
branda correspondente, b; ex: * riparia, ribeira, cupa, cuba, capis-
tro, cabresto 1 , pipita, pevide, *capitia, cabeça, sapere, saber, ca-
put, cabo, cupiditia, cubiça, caepulla, cebôlla, capillo, cabello.
Observação. — Nalgumas palavras, como populo, scopa, o p
medial, depois de ter abrandado em b, passou para v, dando povo,
pobo (arch.) e escova.
b) P AGRUPADO
1) INICIAL
§ 117. P agrupado inicial só forma em latim verdadeiros gru-
pos com l ou r, os quaes sâo tratados da seguinte maneira :
1.° grupo, pi). — Este grupo passa para português sob a fórraa
ch; ex. : plorare, chorar, plus, dius, plaga, chaga, plancto, chanto,
(arch.), pranto, plantare, chantar (arch.), plantar, plato, chato,
plumbo, chumbo. *,
Observação. — A existência da forma pr ao lado de ch explica-se
por influencia litteraria e cuidado em evitar os homonymos, como se
i Por metathese.
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ÍHONETICA HISTÓRICA PORf UUDESA
293
deprehende do archaico chanto convertido era pranto, e chato, chegar,
com prato e pregar. Lhano é palavra hespanhola, em cuja língua o
pl latino deu //.
2.° grupo, pr). — Este grupo passa inalterado para português;
ex.: praeda, prêa, prora, prôa \ precepto, preceito, pretio, pr*£o,
pre(n)so, preso, praecone, pregão.
Obskkvação. — Em *pruneo, brunho abrandou o p em b por
excepção neste caso.
2) MEDIA L-INICI AL
§ 118. P medial inicial fórma em latim os grupos pl, pr, pt, pd,
ps, cuja historia é a seguinte:
1. ° grupo, pl). — Neste grupo temos de distinguir dois casos:
ou está precedido de vogal ou de consoante. E assim :
No 1.° caso; isto é: pl precedido de vogal deu em português Ih;
ex.: scop(u)lo, escolho, *manup(u)lo, manôlho.
No 2.° caso; isto é: pl precedido de consoante passou para por-
tuguês sob a fórma ch, como pl inicial; ex.: implere, encher, amplo,
ancho.
Observação. — A existência da fórma pr neste caso provém de
influencia litteraria. (Compare-se encher e emprir).
2. ° grupo, pr). — Este grupo, se está precedido de consoante,
passa inalterado para português, se de vogal, abranda em br; ex. : a)
comp(a)rare, comprar, approbare, approvar, *dispretiare, des-
prezar; b) cupro, cubro, paup(e)re, pobre, aprile, abril, lep(o)-
re, lebre, capra, cabra, sup(e)rare, sobrar, op(e)ra, óbra.
3. ° grupo, pl, pd). — Estes grupos perdem o p na sua passagem
para português; ex.: rupto, ruto, nepta, neta, comp(u)tare, contar,
comp(u)to, conto, septem, sete, prompto, pronto *.
Observação. — Era português archaico ha a fórma boutizar e
cautivo; na lingua moderna ha receita e conceito.
4. ° grupo, ps). — Neste grupo o p assimila-se ao s; ex. : gypso,
gêsso, ipse, ésse.
§ 119. Fóra d'estes casos p medial-inicial conserva-se em por-
tuguês; ex.: comparescere, comparecer, corapassione, compaixão,
pulpa, polpa, turpe, torpe, ampulla, empôlla.
3) MEDIAL
§ 120. Lei. — P agrupado medial só se encontra geminado, e,
segundo a regra, reduz-se a simples, como stuppa, estopa.
c) P SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i
§ 121. Lei. — P seguido da semi- vogal i transpõe-se para diante
1 Por dissimilaçâo.
* Prompto em obediência á etjmologia.
294
èEVISTA LÒSITàKA
d'esta, que se une à vog*l antecedente e abranda em b; ex.: sapia,
saiba, 'sapio, saibo (populai), sábio, capio, caibo.
Observação. — O p permaneceu inalterado era a pio, aipo. Era
pipiare, piar cahiu por dissimilação a syllaba pi.
§ 122. Lei. — B inicial passa inalterado para português: badio,
baio, bestia, besta, bibere, beber, bove, boi, batt(u)ere, bater,
buccina, bozina.
§ 123. Lei. — B medial permuta com a spirante branda corres-
pondente, v; ex. : trabe, trave, caballo, cavallo, hyberno, inverno,
faba, fava, mirabilia, maravilha, taberna, taverna, abante, avante,
adprobare, approvar.
Ob8ehyaçào i. — A conservação do b medial em muitas palavras
da camada popular da lingua, como bibere, beber, sabuco, sabugo, é
devida, além da influencia erudita, & confusão que se produzia entre
o b e o v, dizendo-se ao mesmo tempo taberna e taverna, )abâo e ta-
vão, de taberna e tabano.
Observação ii. — Depois de se ter mudado em v, cahiu o b nestas
palavras: * debuto, deudo (arch.), devido, marrubio, marroio, ibi,
hy (arch.), ahi (a prothesico), e nos imperfeitos do indicativo dos ver-
bos da 2. a e 4* conjugações latinas debebam, vestiebam; a quéda,
porém, nestas fórmas verbaes remonta já ao latim vulgar, que dizia
*devea, * vestia. A quéda do b em prebenda, prenda, foi sem dú-
vida motivada pela nasalização do e K Cânhamo, mor mo, piorno, arch.
chumbo, e amos, arch. ambos (de cannabo, morbo, plumbo), são
de introducção hespanhola, onde esse processo é regular (ex. : plum-
bo, piorno, lambere, lamer, etc). A' cerca da quéda do v medial iso-
lado, veja-se § 128.
§ 124. B agrupado inicial só fórma os grupos bl, br.
1. ° grupo, bl).— Neste grupo o l permuta cora o r; ex.: blando,
brando.
2. ° grupo, br). — Este gTupo passa sem alteração para português;
ex.: bruto, bruto, brac(h)io, braço, braças, bragas.
1 [Cornu, oô. cit., §§ 7 e 106, explica prenda de outro modo. — J. L. de V.].
II. — B
o) B ISOLADO
1) INICIAL
S) MEDIAL
b) B AGRUPADO
1) INICIAL
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295
2) M Í5 DIA f ..-INICIAL
§ 125. B medial-inicial pôde em latim: ou estar precedido de
consoante e seguido de vogal ; ou ter antes d'elle uma vogal e depois
uma consoante. E assim :
No 1.° caso; isto é: b medial-inicial, precedido de consoante e
seguido de vogal, passa inalterado para português, excepto se a con-
soante que o precede é alguma das liquidas / ou r, porque então
abranda em v; ex. : a) abbate, abbade, palumbo, pombo; b) herba,
erva, carbone, carvão, sorbere, sorver, alba, alva, arbítrio, al-
vedrio.
No 2.° caso; isto é: b medial-inicial, precedido de vogal e se-
guido de consoante, forma os grupos bl, br, bs, que sfto tratados da
maneira seguinte:
1. ° grupo, bl). — Neste grupo o l permuta com o r, como no ini-
cial; ex. : nob(i)le, nobre, sab(u)lo, saibro.
Observação i. — Por influencia da liquida, o bl de parab(u)la
trocou-se por vr, palavra.
Observação h. — Em rab(u)lare, trib(u)lare e *fab(u)lare,
que dérâo em português ralhar, trilhar e fallar, o b assimilou-se
ao l V-
2. ° grupo, br). — Este grupo passa para português ou inalterado
ou sob a fórma vr; ex. : a) colubra, cobra, febre, febre, insalubre,
salobro; b) lab(o)rare, lavrar, lib(e)rare, livrar, libro, livro, te-
nebras, trevas.
Observação. — Em cribro, crivo, cahiu o r por dissimilação.
3. ° grupo, bs). — O í câe neste grupo, provavelmente depois de
se ter assimilado ao s; ex. : obscuro, escuro, absco(n)so, escuso,
abscondere, asconder (arch.), esconder, observare, osservar (pop.),
observar, substantia, sustãinça (pop.), substancia.
Observação. — As fórmas ausência, austinado, pop., e austinente,
arch. (deabsentia, obstinado, e abstinente), explicâo-se, a nosso
ver, pelo abrandamento do b em u semi-vogal.
c) B SEGUIDO DE SEMI-VOGA.L i
§ 126. Lei. — B seguido da semi-vogal i; isto é: de e ou i em
hiato, ou cáe, consonantizando-se á semi-vogal, ou passa para além
d'esta, que se une á vogal antecedente, e é depois tratado como b
medial-isolado ; isto é: abranda em v; ex. : a) habea, haja; b) rubeo,
ruivo, rabia, raiva.
i [Ralhar parece ter a mesma origem que o fr. railler.— Trilhar suppoe, ao
que parece, *tribuleare, onde le vog. dava normalmente Ih. A' cerca de fal-
lar, cfr. o meu opúsculo O gralho depennado, 3.* ed., pag. 47 e seg.— J. L. de V.].
296
kÉVlSÍÀ LtíSíTANÁ
* III. — V
a) V ISOLADO
1) INICIAL
§ 127. Lei. — V inicial permanece em portaguês; ex.: valere,
valer, veritate, verdade, vino, vinho, voce, voz, vena, veia, vida-
va, viuva, vinea, vinha, volare, voar.
Observação i. — Ha alguns exemplos de v inicial mudado em b,
mas é de crêr que jà nos viessem assim do latim onde esse pheno-
meno era frequente, como vagina, bainha, vessica, bexiga, vultu-
re, abutre, voto, bodo, vorsare, bolsar (o leite).
Observação ii. — À maneira como os germanos pronunciavâo
seu u> inicial; isto é: gu (werra, guerra, wardan, guardar, wisa,
guisa, warjan, guarir) influiu na troca do v latino inicial por g nes-
tas palavras: vorace, goraz, vomitare, gomitar, pop., vulpec(u)-
la, golptUia, arcliaico K
S) MEDIAL
§ 128. V medial pôde em português:
1. ° Conservar-se inalterado; ex. : avena, aveia, levare, levar,
gingiva, gingiva, nave, nau, novo, novo, pavone, pavão, pavore,
pavor, no vem, nove.
2. ° Cahir; ex.: civitate, cidade, aestivo, estio, rivo, rio, bove,
boi, vacivo, vazio, e nas fórmas do pretérito da primeira e quarta
conjugações, amavi, amei, vestivi, vesti *.
Observação. — Á quéda do v explica-se nas fórmas em que se
lhe seguia u, como em vacivu(m), aestivu(m), rivu(m) pela maneira
como elle se escrevia, quando medial isolado ; isto é : u, ficando assim
duas lettras iguaes vaciuu(m), aestiuu(m) s .
b) V AGRUPADO
MEDIAL-INICIAL
§ 129. Lei. — V agrupado só se encontra em latim no meio de
palavras constituindo a primeira lettra de syllaba, e passa inalterado
i Usado neste provérbio : o lôbo e a golpélha — fizeram uma conselha.
* [Em cidade, de * civ'dade, o v não estava entre vogaes. — A terminação e
suffizo -ivus, -iva, dão -io, -ia, excepto em vivo (Corifu, loc. cit., § 190) ; ésta ex-
cepção pôde explicar- se por influencia de viver. — A forma boi mal se pdde expli-
car por bove(m), desde o momento que temos nove, de nove(m), nas mesmas
condições; no lat. vulg. devia haver boe(m) (cfr. Meyer, Gr. de» l. rom., i, J 279),
que explica o ital. btie. As fórmas do lat. litterario boarius, boatim e boatus juetifi-
cào a forma boe(m). — A sjncope do v no pretérito já provém também do lat.
vulg.; no próprio latim litterario se encontra amarunt, amaram, audissem,
etc. — J. L. de V.].
* [A escrita nâo podia influir na pronúncia neste caso. Seria melhor dizer :
como o som do u intervocalico ou v se approximava do do u seguinte, estes dois sons
fundírâo-se num: -iuus, -ius. — J. L. dk V.].
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FHONKTICA HISTÓRICA PORTUGUESA
297
para português; ex.: calvo, calvo, corvo, corvo, cervisia, cerveja,
malva, malva, silva, selva.
Observação. — Em pulvere, pó, cahiu toda a parte metatonica,
conservando-se porém em pólvora, que se nos afigura pertencer k lín-
gua litteraria K
cj V SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i
§ 130. Lki. — V seguido da semi-vogal i; isto é: de e ou i, for-
mando hiato, cáe em português, e a semi-vogal ou se consonantiza
ou se une à vogal antecedente; ex.: a) le viário, ligeiro, fovea, fôjo;
b) caveolla, gaiolla.
d) EPENTHESE DO V
§ 131. Nalgumas palavras introduziu o português um v não
original; ex.: pluere, cfiover, caule, couve, claudere, chouvir (arch.),
audire, ouvir, gaudere, gouvir (arch.), laudare, louvar *.
IV. — F (PH)
a) F ISOLADO
i; INICIAL
§ 132. Lei. — F inicial passa inalterado para português; ex.:
faba, fava, fide, fé, filia, filha, femina, fêmea, folia, fôlha, pha-
seolano, feijão, phasiano, faisão.
Observação. — O f inicial acha-se representado por h em *foe-
ti bundo, hediondo, mas ésta palavra foi introduzida do hespanhol,
onde este processo é regular (f acere = hacer); o ph inicial está, re-
presentado porèeraphantasma, abantesma, pop.
2) MEDIAL
§ 133. Lei. — F medial permanece em português como o inicial;
ex.: professione, profissão, propheta, profeta, golpho, golfo.
Observação i. — Nalgumas palavras f medial trocou-se por v, como
em *acifolio (= aquifolio), azevo (em azevinho), Christo^hano,
Çhristovão, Stephano, Estevão 8 .
i [A fórma pó tem de se explicar por *pulvu(m), *puluu, *pulu (cfr.
*iuus, -ius), *polo, poo, pó (cfr. hesp. polvo). A fórma pólvora nâo,me parece
de origem litteraria. — J. L. dk V.].
> [Como se vê, a cpentheee, ou antes desenvolvimento, de v só se dá entre u
e vogal ; esse v resulta da consonantizaçào de uma semi-vogal, que representarei
por w, tendo nós assim: caule, *caue, * coue, couwe, couve; e o mesmo para os
outros casos. — J. L. dk V.].
* [Cfr. também Cornu, § 185. A mudança do / íntervocalico em v é que deve
ser o phenomeno primitivo e próprio da língua. A conservação do / em profeta,
profissão, etc, é de origem litteraria. — J. L. de V.].
298
REVISTA LUSITANA
Observação ii. — Ph tinha-se reduzido a p ou f em latim vulgar,
como se vê em colapho e tropheo, que elle dizia *colpo e trofeo
(golpe e trofeu).
b) F AGRUPADO
INICIAL- UB DIAL
§ 134. F agrupado, quer inicial, quer medial, só fórma em la-
tim os grupos fl e fr, que fôrâo tratados da maneira seguinte :
1. ° grupo, fl).— Este grupo passa para português sob a fórma ch ;
ex.: a) inicial: flamma, chamma, *flagrare l , cheirar; b) medial:
inflare, inchar, afilar (arch.), achar.
Observação. — Por influencia erudita a fórma fl foi substituída
por fr 9 como também succedeu ao grupo pl, que, como vimos, se en-
contra em português sob dois aspectos, ch e pr. Ex. : inicial: fia gel lo,
fragello (pop.), flagello, flocco, froco, flor, fror (arch.), flôr, flacco,
fraco.
2. ° grupo, fr). — Este grupo passa inalterado para português; ex.:
inicial: fratre, frade, freno, freio, fricare, es-fregar, fronte, fron-
te; medial: suff(e)ro, sôfro, sulf(u)re, en-zéfre.
Observação. — No termo archaico abrigo, de africo, deu-se a
troca do f por b.
c) F SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i
§ 135. Lei. — F seguido da semi- vogal i; isto é: e ou i em hia-
to, transpõe-se para além da semi-vogal, que se une à que a precede;
ex.: cofea, coifa.
CAPITULO V
Liquidas e na&aes
§ 136. As liquidas são r, l, pertencentes ambas à família das
dentaes ; as nasaes s&o m, nasal labial, e n, nasal dental.
As alterações mais sensíveis que estas consoantes soffrêrão fô-
râo, além da troca entre si, a quéda do l e do n, quando entre vogaes,
e a intercalação, para facilidade da pronúncia, da consoante labial b
nos grupos mV, m%
I.-R
a) R ISOLADO
1) INICIAL-MBDIAL
§ 137. Lei. — -ff, quer inicial, quer medial, quer final, passa
sem alteração para português; ex.: a) inicial: ratione, razão ou ra-
ção, recipere, receber, rege, rei, radice, raiz, rota, roda, rivo,
rio, radio, raio; b) medial: aeramen, arame, corona, coroa, dolo-
re, door (arch.), dôr, arena, areia.
x Pela troca do r originário em l.
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ítíONKTICA tílSTOWCA PORTUGUESA
299
Observação l — Em coriandro, coendro, prora, proa, como
noutras palavras em que se encontrava agrupado, cahiu um r por dis-
similaç&o.
Observação n. — R medial-isolado tinha já em latim vulgar ten-
dência para permutar com a outra liquida /. Por isso é que peregri-
no, paravereâo, tornados *pelegrino e *palafredo, dérfto em portu-
guês pelingrino (pop.) e palafrem *.
S) FINAL
§ 138. Lei. — R tornado final pela quéda de vogal permanece
também inalterado em português; ex.: amore, amor, debere, dever,
favore, favor, pavore, pavor.
Observação. — Em papiro, papel, ver(e)dario, vergel, deu-se
igualmente a jà conhecida troca do l por r *.
b) R AGRUPADO
MEDIAL
§ 139. R agrupado só se encontra em latim como medial; isto
é: junta a outra consoante, sem constituir a primeira lettra da syl-
laba, e neste caso fórma os grupos cr, ar, tr, dr, pr, br, fr, de que
tratamos nos respectivos logares, e mais o grupo rs. Neste grupo
o r assimila-se ao s; ex.: a verso, avesso, persona, pessôa, pérsico,
pêssego, urso, usso (arch.), urso, traverso, travesso.
Observação l — Esta assimilação remonta jâ ao latim vulgar,
que dizia avesso, pessona, pessico, usso, etc. Em *bursa, por
excepção neste caso, trocou-se o r por l, ficando bôlsa.
Observação ií. — Fóra d'aquelle8 grupos, na maioria dos quaes
permanece, o r agrupado-medial passa inalterado para português 8 ; ex. :
vermic(u)lo, vermêlho, terra, terra, currere, correr, ferrugine,
ferrugem, furca, fôrca, carne, carne, gurdo, gordo, turno, torno.
c) R SEGUIDO DA SEMI- VOGAL i
§ 140. Lei. — R seguido da semi- vogal i; isto é: de l ou i em
hiato, transpõe-se para além da semi-vogal que se une à que a pre-
cede; ex.: *morio, moiro (arch.), morro, corio, cairo, area, eira,
monasterio, mosteiro, salário, salairo, matéria, madeira, e todos
os nomes terminados em -ario.
i [Sobre palafrem vide Diez, Et. Wort, i, s. v. palafreno. E' provável mie a
palavra portuguesa provenha im mediatamente do hesp. palafren. — J. L. d* V.].
* [Estas duas formas sfto difficeis de explicar. Papel é fórma recente, se nâo
o p intervocalico teria dado b. Cfr. Meyer, i, § 17, pag. 35. Vergel não pôde vir di-
rectamente de * vendaria, nem de viridiarium ; nâo será apenas o fr. verger (com
dissimilacâo do r final) ? — J. L. de V.].
* Se o grupo seguinte o nâo repelle para facilidade de pronunciaçao como
em êarcfujlo, sacho.
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300
REVISTA lusitana
METATHESE E EPENTHESE DO R
§ 141. O r é uma consoante muito móbil, e como tal transpõe-
se com frequência, attrahida principalmente por outra consoante; ex.:
tenebras, trevas, ferrestra, fresta, capistro, cabresto, crepare,
quebrar, instrumento, estormento (arch.), instrumento, pagro, pargo,
mer(u)lo, melro.
§ 142. Em algumas palavras portuguesas foi intercalado um r
de origem nâo latina; ex.: Stella, estrilla, tonare, troar \
§ 143. Lki. — L inicial permanece inalterado em português;
ex. : lab(o)rare, lavrar, lacte, leite, lectione, lição, "lacusta, la-
gosta, lucere, luzir, legere, ler, lúmen, lume.
Obskhvaçào. — L inicial mudou-se em r por dissimilaçâo em * lus-
cinolo, rouxinol, e cahiu na palavra pérsica lazvard, que deu azul,
por ser considerado falsamente como artigo. Em nivel (que também
se diz livel), de libello, trocou-se o l inicial por excepção em n *.
§ 144. Lki. — L medial cáe em português: angelo, angeo,
anjo, aquila, águia, calumnia (arch.), calumnia, caelo, céo, maio,
mau, molere, moer, palatio, paaço (arch.), paço, palumbo, pombo,
dolore, door (arch.), dôr, volare, voar, avolo, avó, populo, poboo
(arch.), povo, alúmen, ahume (arch.), paio, pau.
Observação i. — Esta quéda do / intervocalico, que constitue uma
das feições mais características da lingua portuguesa, talvez se possa
explicar pela vocalização do l e absorpç&o da vogal d'ahi resultante
por qualquer das que o cércfto.
Observação ii. — Nas palavras em que, ao contrario da lei ante-
cedente, se conservou o l intervocalico, devemos admittir influencia
erudita, como em *fortalitia, fortaleza, delere, delir, o que se de-
i [Nestas palavras o r é analógico: em estrella, por influencia de aêtrum
(cf. o meu opúsculo O gralho depennado, 3 • ed., pag. 102) ; em troar, trom, por in-
fluencia, quanto a mim, de * tronitu* = tonitrus ; isto é: * ex-tronitus, que
deu o port. estrondo e o hesp. e&truendo. — J. L. dk V.].
* [A par de livèl também se dizia olivã (cfr. D. Carolina Michaèlis, Studien
mr Uispan. Wortdevt., % 17, n.° 4) ; o l provém de dissimilaçâo, l. . .l — n. . .1, como
em novêlo, de *lobello (de *globellus). Na forma actual nivel houve desloca-
mento de accento, certamente por analogia com os nomes acabados em -ivel, como
crivei, temível, etc. — J. L. dk V.].
II — L
a) L, ISOLADO
1) INICIAL
9) MEDIAL
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PHONETICA HÍSTORICA PORTUGUESA
301
prehende da existência de fórmas com elle e sem elle; ex.: polir e
poir, gelar 1 e gear, palaciano e paação (archaico *).
Observação nr. — A mesma troca que às vezes soffreu o d (por l)
também se encontra no /, quer inicial, quer medial, como em laxare,
Uixar (arch.), deixar, amylo, amido 8 . Demais, ésta troca era já co-
nhecida do latim archaico, que dizia dacruma, dingua, em vez de
lacrima, lingua. Também permutou com o r ém púcaro (poculo),
pardo (pardo), e frequentemente nos grupos cl, pl, gl, bl 4 .
3) FINAL
§ 145. Lbí. — L tornado final pela quéda da vogal seguinte
persiste em português; ex.: amabile, atnavel.
b) Ia AGRUPADO
MEDIAL
§ 146. L agrupado só se encontra em latim, como medial; isto
é: seguido d'outra consoante, e passa inalterado para português; ex:
*colpo, golpe, cal(i)do, caldo, albo, alvo, pulmone, pulmão, ca-
pillo, cabello, cavallo, cavallo, ille, elle, villa, villa.
* Esta palavra é litteraria.
* [Sobre deixar vid. o que eu disse supra, pag. 280, not. 3. O d de amido não
é próprio de português, pois em francês ha amidon, hesp. almidon, etc. ; já no lat.
medieval amidum. — J. L. de V.].
* [A 1 cêrea dos casos em que apparentemente se conservou l t como oliveira,
etc, vid. Eev. Lusit., ii, 372. Sem dúvida a forma primitiva de oliveira foi olveira,
palavra que, com a pronúncia de olvêra, tenho ouvido muitas vezes no Sul ; em
documentos antigos do Norte encontra-se também Olveira ou Ulveira: o t resulta
pois de suarabacci. Moleiro explica-se por molneiro (molinariu-) : vid. D. Caro-
lina Michaglis in Rev. Lusit, m, 175. Goncalves Vianna, ibidem, h, 180, lembra
também a forma monleiro recolhida no Elucidário de Viterbo. A Sr.* D. Carolina
Michaêlis explica moleiro por molneiro , através de moUeiro, não entrando em con-
sideração com a forma monleiro dada por Viterbo. Esta forma deve explicar- se
por metathese de molneiro, e não por nasalamento de moleiro devido ao m, porque
o nasalamento devido ao m inicial parece nào ser muito antigo, como o mostra
muito, mi, etc., e porque moleiro é fórma recente. Temos pois : molneiro, moleiro
(= monleiro) e moleiro; a nasal desappareceu como em moeda, mÕesteiro, etc. —
J.L. deV.].
* [A fórma púcaro é difficil de explicar por poculum, ainda mesmo admittin-
do poclum. Na Beira diz-se também pucro. O hesp. puchero (sobre o qual cfr.
Diez, Et Wõrt, n-ó, s. v. puvhes) nada tem com ésta palavra. — Quanto a pardo,
de pallidus, cfr. Diez, Et Wort., n-ó, s. v. pardo; elle suppõe a fórma intermé-
dia paldus, mas assim como caldus deu caldo, seria também de esperar paldo;
é pois provável que no desenvolvimento do r de pardo influisse uma palavra es-
tranha (acaso o lat. pardust). Diez cita outros exemplos de r por l, como escarpelo
de scalpellum, e turco de sul cus; mas no hesp. escarpelo houve evidentemente
dissimilaçào, e não é palavra pop. (senão teríamos nella 11= Ih); surco também
não c palavra popular, senão teríamos o, como o mostra o ital. solco e o catai, solch.
Outro exemplo de r por l está no port. urze, de ulice(m) ; mas aqui de certo in-
fluiu a palavra erice (por erice), conservada em arazede (== * ericetum) . — J. L.
deV.].
302
REVISTA LUSITANA
Observação i. — O grupo U nalguns casos molhou-se (Ih), talvez
por influencia do hespanhol, como em galla, galha, trulla, trolha,
galliua, galhinha (arch.), gallinha K Ánguilla tinha-se reduzido
no latim vulgar a *anguila, e d'ahi enguia.
Observação ir. — A' cêrca das modificações sofridas pelos gru-
pos cl, gl, dl, fl, pl, bl, tl, ml, nl, vejfto-se os respectivos §§.
§ 147. Lei. — L seguido da semi-vogal i; isto é: d'um e ou i
em hiato, passa para português com o som molhado Ih; ex. : palea,
palha, meliore, melhor, filia, filha, mulier, mulher, alieno, alheio,
valea, valha, spoliare, esbulhar.
§ 148. L posto entre vogal e consoante tende a vocalizar-se,
unindo-se a vogal por elle produzida à que o precede; ex. : falce,
foice, calce, coice, palpare, poupar, ascultare, escuitar (arch.), es-
cutar, calvaria, caiveira (pop.), caveira, balbo, boubo, * taiparia,
toupeira.
§ 149. Como o r, seu congénere, também o l é susceptível de
transposição; ex.: publico, pulvego (arch.), publico, *oblitare, ofoi-
dar, sib(i)lo, silvo, mer(u)lo, melro, mod(u)lo, molde, spat(u)-
lare, espaldar.
§ 150. Lei. — M tanto inicial como medial passa intacto para
português; ex.: a) inicial: macro, magro, maligno, malim, melo-
ne, melão, me(n)se, mes, musca, mosca, médio, meio; b) medial:
amico, amigo, lacrima, lagrima, n^ominare, nomear.
Observação. — A's vezes, mas raras, dá-se a troca do m inicial
por n, como era mespilo, nespera 2 , memorare, nembrar (arch.),
lembrar, membro, nembro (arch.), membro *.
i [Galha vem de *gallea, não de galla; trolha (como já disse supra, pag.
285, not. 4) de *trullea, onde U estão seguidos da semi-vogal, que produi a pa-
latização (cfr. § 147). Quanto a galhinha, é preciso citar a fonte, para se poder
discutir a forma. — J. L. de V.].
* [Isto é: de mes pila, plural de mespilum, tornado singular. Também em
fr. ha nefle, ital. ?ie*pola, cat. nespla, etc. Parece ter havido dissimilaçào na fór-
mula m. . .p = n. . .p. — J. L. dk V.].
' [Em nembrar e nembro houve dissimilaçào de labiaes. Em nembrar, que
deu lembrar, houve posterior dissimilaçào de n. . .m. — J. L. de V.].
c) L, SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i
VOCALIZAÇÃO DO L,
METATHESE DO L,
III — M
a) m ISOLADO
1) INICIAL-MEDIAL
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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUKSA
303
*) FINAL
§ 151. Jlf final cahiu desde os primeiros tempos do império ro-
mano, assim nos nomes 1 como nos verbos. Em vez de rosam, fructum,
hominem, diem, dicam, amem, dizia-se em latim vulgar rosa, fructo,
omine, die, dica, ame.
Observação. — Como já dissemos, é do accusativo em regra que
provêem os nomes das linguas românicas; d'outros casos sfto elles ra-
ros em português, como Deus (nominativo), Car(o)lus (idem) *.
bj M AGRUPADO
1) INICIAL
§ 152. Lei. — M inicial persiste em português; ex.: *vermi-
c(u)lo, vermálho, arma, artna, palma, palma, *pasmare, pasmar.
2) MEDIAL
§ 153. M agrupado medial; isto é: nfto constituindo a primeira
lettra da syllaba, na sua passagem para português, foi diferentemente
modificado, conforme a consoante que se lhe seguia. Assim :
1. ° M antes das labiaes p b passa inalterado para português;
ex. : rumpere, romper, límpido, limpo, ampulla, ampôlla, comple-
re, cumprir, lambere, lamber, palumbo, pombo, ambos, ambos.
2. ° M antes das dentaes t d muda em n; ex. : sem(i)ta, senda,
cora(i)te, conde, com(pu)tare, contar, lim(i)te, linde (arcb.), B-
mite, lim(pi)do, lindo.
3. ° No grupo m } n reduz-se por assimilação a n; ex.: dom(i)no,
dono, dom(i)na, dona, somno, sono.
Observação i. — Em obediência á etymologia, conserva-se o m
na graphia de algumas palavras, como outomno, somno, desapparecendo
porém na pronúncia. Como succede a todas as geminações, os nn,
resultantes do grupo m'n, reduziram-se a um n simples.
Observação h. — Neste grupo intercala o hespanhol um b, o que
nos leva a considerar como proveniente d'essa lingua a palavra des-
lumbrar, de lumbre (lun^ne). ,
1 Com excepção d 'alguns monosyllabos, como rem, cum, que dérão portu-
guês rem (arch ) e com. [Com rem cfr. o francês rim. Em cum manteve-se o m por
esta palavra ser sempre proclitica, ficando pois o m no meio da palavra ; ainda as-
sim antes de vogal, na ligação com o artigo, a lingua antiga tinha toa, coo, etc.,
como hoje a lingua vulgar. Outro exemplo de manutenção de m é $um, que deu
som na íing. arch., forma conservada ainda hoje em algumas provindas. — J. L.
de V.].
2 [Cfr. sobre este assumpto J. Cornu, in Romania, xr, 79. — Ha outros ves-
tígios de casos no onomástico, como saorks (=Sacris) e chaves (= Fia vi is).
Ao gcnitivo em -i referi- me no meu opúsculo Ckartam alteram de vtUa quat mak-
oabidb appellatur, Olisipone 1894. Na Beira faz -se, em dia de Todos os Santos,
um bolo chamado santório, de santóro (= sanctorum), forma certamente de ori-
gem ecclesiastica. — J. L. de V.].
304
REVISTA LUSITANA
4.° Nos grupos irir, m'l, intercala-se um b eupbonico; ex.: hu-
m(e)ro, hombro, mem(o)rare, lembrar, cam(e)ra, cambra (pop.),
camera, 8im(i)lante, sembrante, cum(u)lo, combro.
§ 154. Lei. — M seguido da semi- vogal i passa inalterado para
português, e ósta fuude-se com a vogal seguinte; ex.: vindemia,
vindima \
§ 155. Lei. — N inicial persiste em português sem alteração;
ex.: nave, nau, negare, negar, nidus, ninho, nocte, noite, nuce,
noz, nigro, negro, nec, nem, nudo, nem.
Observação. — N inicial trocou-se por m na palavra nasturtio,
mastruço, e por l em nominare, tornear (arch.), nomear e nembrar
(de memorare), lembrar. O povo (ao menos no Algarve) também diz
linho em vez de ninho *.
§ 156. Lei. — N medial càe na lingua portuguesa; ex.: luna,
lua, arena, areia, femina, fêmea, ponere, poer (arch.), pôr, bona,
boa, sanare (ant), saar, sarar, dehonestare, deostar (arch.), does-
tar, dinario, dieiro (arch.), dinheiro.
Observação i. — Esta quéda do n intervocalico, que, como a do l,
nas mesmas condições distingue o português das demais línguas ro-
mânicas, explica-se a nosso vêr da seguinte maneira: o n em vez de
se juntar á vogal seguinte, nasalou a precedente, dizendo-se lua,
aréa, freo, nasalização que posteriormente se perdeu, ficando lua,
arêa, fréo.
Observação ii. — A conservação do n medial contra a lei ante-
cedente, como crina, feno, é devida a influencia erudita, o que se de-
duz de fórmas que, não tendo antigamente n, o rehouvérão mais tar-
de; ex. : imigo e inimigo, dieiro e dinheiro, estraio e estranho, etc. s . ,
i [Por causa da difficuldade da mudança de c tónico em i, talvez vindima
seja antes um substantivo verbal de vindimar = vindemia re. — J. L. na V.].
* [O m de mastruço, se não houve alguma influencia estranha, poder-se-ha
explicar por dissimilaçâo (n...t). Em lomear, lembrar, linho, houve sem dúvida
dissimilaçao (n. . .m, m. . .m, n. . .nh). Em vurmo, de vulnus, deu-se igualmente
esse facto (l. . ,n) — J. L. de V ].
3 [Os doe ant. offerecem realmente dieiro e estravo (ex. no Elucidário, de Vi-
terbo), mas nessas palavras houve erro orthographico, devendo ellas escrever -se
dieiro e estrâyo. Foi depois entre a nasal e a vogal seguinte que se introduziu nh.
Igualmente se deve emendar em Viterbo Eidaya em Eidâya, vio em vio, etc. — J.
L. na V ].
c) M SEGUIDO DA SE MI- VOGAL 1
IV. — N
a) HF ISOLADO
1) INICIAL
2) MEDIAL
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PHONKTIOA HISTÓRICA PORTUGUESA
305
Observação m. — Como o n inicial, também o medial permutou
ás vezes com as liquidas, como em an(i)ma, alma, animal, álimal
(pop.), sanare, sarar, unicorne, licorne (arch.), unicorno K
3) FINAL
§ 157. N final pôde ser tal originariamente, ou ter-se tornado
assim por quéda da vogal immediata.
No 1.° caso cáe em português; ex.: crimen, crime, vimen, vime,
glúten, grude, nomen, nome, examen, exame.
Observação. — Esta quéda do n final originário remonta já ao
latim vulgar, que, assim como o m nas mesmas condições, supprimia o
n em todos os nomes, menos nos monosyllabos, dizendo crime, vime,
glute, em logar de vimen, etc. a .
No 2.° caso persiste em português; ex.: devotione, devoção,
ratione, razão, compassione, compaixão, consolatione, consola-
ção, sansoone, sansão, latione, ladrão.
Observação l — Foi este n que, com a vogal precedente, deu o
antigo ditongo on ou om, que o português moderno substituiu por ão.
Observação n. — Pela similhança de som, n final trocou-se na es-
cripta por m; ex.: fine, fim, sine, sim, bono, bom, sono, som, tono,
tom, homine, homem 8 .
b) ST AGRUPADO
1) INICIAL
§ 158. Lei. — N inicial persiste sem alteração em português;
ex. : as(i)no, asno, *cic(i)no, cisne, ornare, ornar, taberna, ta-
verna, fumo, fomo, carne, carne, anno \ anno, damnato, danado.
Observação i. — N geminado nalgumas palavras apparece mo-
lhado; isto é: sob a fórma nh, talvez, também como 11, por influencia
hespanhola, como cannabo, cânhamo, grunnire, grunhir, stanno,
i [Alma, alimal, licorne explícão-se perfeitamente por dissimilação (n. . .m,
n...n). Podia accrescentar-se Jerolmo, almalho (e armalho), etc. — Quanto a «a -
rar, também em tempo pensei que o r representasse o n, mas hoje vejo a difficul-
dade d'isso, pelo que me inclino á opinião dò meu amigo o Sr. Cornu ; este explica
sarar por soar ou sar + ar; isto é : pela nova adjuncção da terminação do infini-
tivo ao corpo do verbo, por a terminação d'este ser pouco clara (vêr Romania, xi,
95-96, e IHe Portug. Spr., § 255). Comquanto haja em port. outros verbos mono-
syllabicos, como ser. ter, vêr, etc, em que a reduplicaçào da terminação infinitiva
se não deu, ha também outro em que o mesmo pnenomeno se observa: é morrer,
de *mor(e)re-f*ere (Meyer, Grammatik der Romanischen Sprachen, n, §§ 126 e
128). Em textos antigos (Cancioneiros) lê-se moirer, que deverá emendar-se em
morrer, embora moiro (e mouro), de *morio, seja correcto. — J. L. db V.].
9 [Todavia na Beira diz-se vimem, que se ha de explicar por *viminem;
cfr. hesp. vimbre e mirandês brime. Esta palavra seguiu a analogia de pentem (na
Beira péntem), etc. — J. L. db V.].
9 [Isto é: on nasalou a vogal, e o nasalamento foi representado por m. —
J. L. db V.].
* Ou ano, em orthographia sónica.
rey. lusit., vol. iii, fase. 4. 2
306
REVISTA LUSITANA
estanho. Em coph(i)no, cofre, deu-se a sua já conhecida troca pela
liquida r *.
Observação ii. — A' cerca dos grupos gn e m } n, vide os respecti-
§ 159. N medial; isto é: posto antes de consoante, soffreu, na
sua passagem para português, varias alterações em harmonia com
essa consoante. Âssim:
1. ° N antes das dentaes t, d, e das palataes c, g, e da liquida r
persiste em português; ex. : centum, cento, respondere, responder,
man(i)ca, manga, angelo, anjo, hon(o)ra, honra 2 , gen(e)ro, genro,
ten(e)ro, tenro.
2 . • N antes de s cahiu numa epocha muito antiga, que remonta
ao latim popular; ex.: sponso, esposo, mensa, mesa, tenso, teso,
defensa, defesa, min(i)sterio, mister, prenso, preso, mensura,
mesura (arch.), medida, mense, mêz.
Observação, — A conservação do grupo ns é devida a influencia
erudita, como se vê comparando monstro e mostrengo. Insula, de-
pois de ter dado insua, é actualmente ilha.
3. a O grupo n'l reduz-se por assimilação a 11; ex.: lun(u)la,
Mia, salnitro, sallitre.
Observação. — Esta assimilação dava-se já no latim clássico, onde
encontramos collega, ullus, nullus, por * con-lega, * un(u)lus, * nun(u)lus.
§ 160. Lei. — N seguido da semi- vogal i; isto é: de l ou i for-
mando hiato, reduz-se em português a n/t, por influencia da semi-vogal
que desapparece; ex.: tenea, Unha, aranea, aranha, linea, linha,
seniore, senhor, extraneo, estranho, pinea, pinha, *montanea,
montanha.
Observação. — Formas várias: granja (granea), rouxinol, ameia
(moenia).
§ 161. Nalgumas palavras portuguesas introduziu-se um n eu-
phonico que se não encontra no latim 3 ; ex. : pictore, pintor, redere,
1 [Sobre cânhamo, grunhir e estranho, cfr. o que escrevi in Rev. Lus., n, 31.
Quanto a cofre, talvez a palavra seja de origem francesa, coffre; o povo não a usa,
dizendo em seu logar caixa, etc. — J. L. de V.].
2 [Honra é substantivo verbal de honrar = honorare. — J. L. de V.].
3 No latim clássico, entende- se, pois que o vulgar já dizia pinctor, pinctura,
por analogia com pingere.
vos §§.
2) MEDIAL
e) Hf SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i
EPENTHESE DO ST
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O DEUS PONGOBNABIÀGUS
307
render, examen, enxame, amygdala, amêndoa, exagio, ensaio, In-
tra, lontra, muco, monco, hyberno, inverno 1 .
Lagos (Algarve).
J. Joaquim Nunes.
0 DEUS BRACARENSE
PONGOENABIAGVS
(Contribuição para o conhecimento das religiões antigas da Lusitânia) >
INTRODUCÇÃO
dentre as diversas regiões que constituifio o vasto e um tan-
to heterogéneo corpo social que os Romanos chamarão Hispânia ou
Hispaniae e os Gregos Hibería, é a Lusitânia aquella cuja história mais
directamente interessa ao nosso pais, e que também um português,
que reside em Portugal, pôde estudar com mais proveito e desenvol-
vimento; tenho por isso applicado uma parte da minha attençfto a
investigar os documentos elucidativos d'essa antiga história, embora
reconhecendo que ella constitue apenas um capitulo da história geral
das Hispanias.
A história da Lusitânia creio poder dividir-se em tres grandes
epochas: prehistorica, proto-historica e histórica propriamente dita,
ou, melhor, luso-romana.
A epocha prehistorica é a de que nos não restão testemunhos
escritos, e que só conhecemos pelos documentos anthropologicos e
ethnographicos conservados â superfície da terra, ou dentro d'esta, e
em sepulturas, em minas, etc. Comprehende a idade da pedra e parte
da dos metaes. Os povos que vivifto nessa epocha no nosso solo, pelo
i [Sobre pintor, vid. Rev. Lusit, n, 272 (analogia com tinctus, etc.) ; Bobre
render, vid. Meyer, Grammat, i, 587 (analogia com prenderej; sobre lontra, vid.
supra, pag. 286, nota 5; de amygdala, * amedola, veio amêndoa, pelo nasalamento
do e devido á influencia do m, como já ha annos expliquei. Monco explica -se do
mesmo modo, parece, embora o u seja longo em muccus (mas no lat. vulg. podia
ter sido *moncu-). Em hibernus houve nasalamento do «inicial, segundo uma
regra muito vulgar no português. Ensaio e enxame (insaio, inxamej estão no
mesmo caso que exemplo (pop. inzemplo), exercito (pop. inzercito), exame (pop.
inzame), etc, em que a vogal inicial também se nasalou. — J. L. db V.J.
* Leitura feita á Academia Real das Sciencias de Lisboa, no dia da mi-
nha entrada como sócio correspondente (sessão de 25 de Maio de 1894).
308
REVISTA LUSITANA
menos os mais antigos, er&o selvagens; comtudo, a sua ethnographia
offerece algumas particularidades, tanto em relação à prebistória da
Europa, como ainda mesmo à prehistória peninsular.
A epocha proto-historica começa como as primeiras informações,
que a antiguidade nos deixou por escrito à cêrca dos diversos povos
chamados Lusitanos, Gallaecos, Bracaros, Turdetanos, etc, que em
parte provinhâo já da epocha anterior, em parte se relacionavfto
com os povos históricos que em todas as epochas invadirão a Penin-
sula, — Celtas, Gregos, Phenicios, Carthagineses. O viver dos povos
proto-historicos da Lusitânia é-nos conhecido, tanto pelas informações
dos AA. clássicos, como por intermédio da archeologia. Esses povos
erâo pela maior parte bárbaros ; apenas no Sul os Turdetanos, talvez
por influencia dos elementos gregos e phenicios que entravâo na con-
stituição d'elles, gozavão de civilização bastante adeantada, pois ti-
nhão um alphabeto próprio, uma litteratura, etc. E 1 natural que mui-
tas das inscripções epigraphicas, chamadas ibéricas, fossem próprias
dos Turdetanos, não só porque essa attribuiçâo está de accordo com
o que Estrabão diz da civilização turdetanica, mas porque, com rela-
ção ao nosso pais, é exactamente no Sul d'elle, e portanto em ter-
ritório dos Turdetanos, que taes inscripções por ora se teem exclu-
sivamente encontrado. Vem a propósito citar aqui o importante e
recente livro do nosso consócio Dr. Emilio Hiibner, de Berlim, inti-
tulado Monumento linguae Ibericae, onde, com a segurança philologica
que caracteriza aquelle illustre professor, se ãchão transcritas e es-
tudadas todas as inscripções d'esta natureza, de que elle teve conhe-
cimento, achadas na Península Ibérica. — A epocha proto-historica da
Lusitânia termina com o fim da dominação carthaginesa, e a vinda
dos Romanos á Península, no sec. m A. C.
Começa então a epocha que denominei luso-romana.
Das tres epochas em que dividi a história da Lusitânia é certa-
mente a segunda a mais interessante, embora não haja ainda a seu
respeito nenhum trabalho desenvolvido e geral, em que se aproveitem
ao mesmo tempo as informações ministradas pelos textos dos AA.
clássicos, e os resultados da sciencia moderna. Sem embargo, além
de muitos artigos e notas dispersas por difFerentes partes, exis-
tem sobre o assumpto algumas monographias avulsas. Lembrarei
aqui por exemplo um livrinho allemão, muito pouco conhecido, inti-
tulado Die Kriege der Rômer y Erstes Heft, Viriath und die Lusitanier,
isto é, As guerras dos Romanos, 1.° faseie, Viriato e os Lusitanos, por
Becker, publicado em 1826; este livrinho está hoje antiquado, mas
contém bastantes textos de AA. clássicos, e foi feito com muita sym-
pathia para com os Lusitanos. Outro livro também estrangeiro é o
de Ursin, publicado em 1884 com este titulo — De Lusitânia, provin-
da romana; comquanto, como o seu titulo diz, se oceupe da epocha
luso-romana, traz uns preliminares sobre a epocha proto-historica.
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O DfctJS PONGOKNABIAGUS
309
Não posso também esquecer algumas monographias do nosso consócio
o Sr. Martins Sarmento, de Guimarães, e do Sr. Adolpho Coelho.
Além d'e8tes, ha outros trabalhos, uns avulsos, outros de caracter
mais genérico, quaes sfto De antiquitatibm Lusitaniae, de André de Re-
sende, lntroducção á archeologia da Península Ibérica, de Filippe Si-
mões, o vol. ii e Suppl. do Corpus lnscriptionum Latinarum da Aca-
demia de Berlim, Les âges prehistoriques de VEspagne et du Portugal,
de E. Cartailhac, a Archeologia en Espana, do Dr. Emilio Hubner, e
numerosos artigos e opúsculos de George Philipps, Kiepert, Detlefsen,
etc.
Em verdade, só depois da publicação de moitas monographias,
artigos e simples notas, é que se deverá tentar escrever uma história
geral da Lusitânia, feita com methodo rigoroso, tanto quanto elle se
possa applicar no estado da sciencia.
A communicação que neste momento vou ter a honra de apre-
sentar & Academia é também uma contribuição, ainda que extrema-
mente exigua, para o conhecimento da nossa história antiga.
I
Na cidade de Braga, num quintal chamado «do ídolo», perten-
cente ao Sr, José Joaquim de Oliveira, e que fica perto das ruas do
Baio e de S. Lazaro, ha um monumento muito notável, feito na epo-
cha romana, mas concernente à história indígena, isto é, à vida dos
povos d'aquella região que, como se sabe, se chamavão Bracaros,
nome relacionado com o da sua capital Bracara, tendo este dado o
moderno Braga, através das fórmas antigas Bragaa e * Bragala. O
nome Bracarus também se encontra como designação de homem, se-
gundo vi numa inscrípção romana descoberta o anno passado no
Minho.
O monumento de que fallo consta de um tanque fundo, cuja agua
brota da base de um grande penedo granítico, em que se vêem umas
esculpturas e inscripções latinas,
A fim de não cançar a Academia, abstenho-me de discutir aqui
as questões que tal monumento provoca, tanto mais que já em par-
te fiz isso num artigo que será publicado com estampas num jor-
nal de archeologia e arte, que vae sahir â luz nesta cidade. Limito-
me pois a expôr summariamente o resultado a que cheguei.
Na parte esquerda do monumento ha uma inscrípção que, depois
de completada uma palavra d'ella, diz assim :
CELICVS FRONTO
ARCOBRIGENSIS
AMBIMOGIDVS
FECIT
em boa lettra, que supponho ser do tempo de Augusto.
310
ÈEVISTA LUSITANA
Em seguida, para a direita, está esculpida uma figura barbada,
envolta em roupagens compridas e dobradas, i. é, numa toga, tendo
na m&o ou um objecto hoje indeterminado, ou uma dobra da toga.
A 1 direita d'esta figura está outra inscripç&o em que se lê em
duas linhas :
isto é, Pongoenabiago.
Por ultimo, ao lado direito d'esta inscripç&o, está esculpido no
rochedo um como nicho, adornado de seu frontão; tem dentro um bus-
to humano, com a seguinte inscripç&o ao lado :
Por cima do nicho ha ainda umas lettras que n&o entendi, mas
que parece serem mais modernas que as restantes.
A interpretação doeste monumento é no meu conceito a seguinte.
O nicho é o que os Romanos chamavâo uma aedicula, de que se
podem vêr outros modelos nos Diccionarios archeologicos de Rich
e de Daremberg & Saglio. O busto representa o deus, cujo nome
pongoenabiagys está ao lado escrito em dativo, segundo as normas da
syntaxe latina e das fórmulas religiosas. A figura envolta na toga re-
presenta o dedicante, que se chamava Celicus Fronto e era natural da
cidade de Arcobriga e pertencia á gens Ambimogida. A cidade de Ar-
cobriga parece que ficava na Gallaecia.
Entre os numerosos monumentos que eu trouxe do Alemtejo para
a Bibliotheca Nacional, respectivos ao culto do deus Endovellicus, ha
várias figuras semelhantes a esta, que se collocav&o ao pé das in-
scripções, tendo mesmo algumas d'estas figuras as inscripções grava-
das em si. O nome do dedicante está repetido dentro da edicula, tal-
vez pelo facto de o monumento ser grande.
Resta agora explicar a natureza do deus bracarense.
A situaç&o do monumento junto de uma fonte, a disposiç&o d'elle
de modo que abrange todo o âmbito d'esta, e a collocaç&o da edicula
dentro do próprio tanque, com o busto da divindade mesmo ao pé de
d'onde brota a fonte, lev&o-me a concluir que estamos deante de uma
manifestaç&o do culto das aguas.
Nas religiões da antiguidade, como ainda hoje na dos selvagens
e na de todos os povos socialmente atrasados, o culto das aguas tinha
muita importância. A Natureza impressionou sempre a alma do ho-
i No original o i está incluído no L, o que aqui nâo represento assim, por
dificuldade typographica.
PONGOE
NABIAGO
CEL10VS
FKCIT
II
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Ô DEUS PONQOBNABIAGUS
311
mem, que por toda a parte lhe dirigiu preces ou imprecações. Se fô-
rão os grandes espectáculos naturaes, como o gyro dos astros, as mu-
danças da atmosphera e das estações, a agitação dos mares, os vul-
cões, os terremotos, o que mais devia solicitar a admiração do ho-
mem, ainda desprovido do conhecimento das leis do Universo, nem
por isso os phenomenos, por assim dizer, mais modestos do crescimen-
to das plantas, da existência dos animaes, tão semelhante á nossa, do
deslisar, ora sereno, ora ruidoso, dos rios, e do marulho sempre suave
das fontes, nem por isso, digo, esses phenomenos de viâo ficar esque-
cidos do verdadeiro crente.
O homem primitivo, com a sua imaginação fecunda, e a sua igno-
rância das leis que regulão os phenomenos physicos, tinha tendência
para considerar como outras tantas individualidades humanas, em-
bora sui generis, tudo aquillo a que elle attribuia movimento ou vida :
d'aqui resultou o povoar o mundo de entidades superiores e myste-
riosas, da vontade das quaes julgava que elle próprio e a Natureza
estavão dependentes em certos casos, e as quaes por isso precisava
de invocar ou de esconjurar, conforme as circumstancias e as neces-
sidades o pedião. E' isto a religião.
Assim, primeiramente constituirão matéria religiosa as cousas
naturaes, consideradas como conscientes, ainda sem nellas se estabe-
lecer distincção nitida entre corpo e espirito. E' a phase que pode-
remos chamar Naturalismo elementar. Depois, em virtude da anályse
psychologica, cada vez mais profunda, que o homem ia fazendo em
si, e das relações subjectivas que estabelecia entre elle e o que o
cercava, acreditou-se na existência individual de espíritos. E* a se-
gunda phase religiosa, chamada Animismo. Estes espíritos erão, uns,
meras divisões da pessoa humana, outros, da Natureza, — espíritos
que ora andavão soltos pelo espaço (Espiritismo), ora se fixaváo em
certos objectos (FeiticismoJ. Ao Animismo liga-se, como manifestação
mais determinada da interpretação anthropomorphica da Natureza,
o Polytheismo, ou crença na pluralidade de deuses propriamente
ditos.
Circumscrevendo-me mais ao meu assumpto, que é o culto das
aguas, accrescentarei, que, em virtude de tão admirável propensão
do homem para a personificação, e mesmo ás vezes dramatização, dos
phenomenos elementares ou complexos da Natureza, nada é de estra-
nhar que, como disse, esse culto tenha muita importância. Com efei-
to, não ha ninguém que não tenha observado quão poético, quão im-
pressivo é, no meio do silencio e do socêgo dos campos, ver como
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa lympha fugitiva. . .
Aos poetas, como naturezas mais impressionáveis, e cujas obser-
vações são por isso frequentemente mais vivas, mais próximas das do
homem no simples estado natural, não tem escapado expôr este sen-
REVISTA LUSITAKÁ
timento que as aguas das fontes, de murmúrio manso e rythmico,
despertfto nelles. Horácio, numa ode célebre, cantou:
O Fons Bandusiae, splendidior vitro,
Te flagrantis atrox hora Caniculae
Nescit tangere; tu frigus amabile
Fessis vomere tauris
Praebes, et pecori vago.
Fies nobilium tu quoque fontium,
Me dicente cavis impositam ilicem
Saxis, unde loquaces
Lymphae desiliunt tuae.
O mesmo sentimento da Natureza tradu-lo o nosso Garrett nestes
delicados versos:
Oh! Cintra! oh saudosíssimo retiro,
Onde se esquecem mágoas, onde folga
De se olvidar no seio â Natureza
Pensamento que embala adormecido
O sussurro das folhas, co'o murmúrio
Das despenhadas lymphas misturado !
O homem inculto, o homem crente, foi porém mais longe do que
os poetas, porque, possuido d'esse sentimento e do da utilidade que
as aguas lhe prestavão, não só amou as fontes, e lhes consagrou
hymnos nascidos do íntimo d'alma, mas adorou-as com effusao, eri-
gindo-lhes altares, e fundando-lhes santuários.
Pelas inscripções da epocha do domínio romano sabemos, sem eu
querer sahir agora dos factos da história da Península, que havia nas
proximidades de Antequera, na Hespanha, uma Fonte Divina, a quem
um Lucio Portuncio offerecêra uma ara, segundo um voto; no valle
de BofLal, no mesmo país, havia uma Fonte adorada sob o nome de
Saginiensis; dentro do nosso Portugal tivemos em Bencatel o culto de
Fontanus e Fontana, duas divindades muito notáveis, que nos próprios
nomes tem impressa a significação do culto, ainda provavelmente,
como os outros que citei, bastante próximo do puro animismo, a jul-
gar da simplicidade e transparência d' esses nomes; finalmente, tive-
mos em Vizella, como numen aquae das afamadas thermas d'alli, o
deus Bormanicus, palavra cuja raiz se encontra noutras denominações
de deuses aquáticos da antiguidade.
Os cultos pagãos nem sempre se extinguirão com a implantação
do christianismo : de ordinário continuãrão a viver, ou transformados
Oh! grutas frias,
Oh! gemedoras fontes!
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O DEUS PONGOENABIÀGUS
em cultos christâos, ou sob a fórma de méras superstições popu-
lares.
Se por isso buscarmos nas tradições post-romanas do nosso pais
vestígios do culto das fontes, encontra-los-hemos.
Na acta de um antigo concilio de Braga, na Idade-Média, falla-se
dos infleis que prestão veneração religiosa às fontes. No livro de
S. Martinho de Braga, intitulado De corredione rusticorutn, que per-
tence ao sec. vi, dà-se como obra diabólica o culto pagão das fontes.
Ambos estes factos são curiosos por se referirem a Braga, e a Braga
pertencer o monumento de que aqui me occupo. Nas constituições
episcopaes dos sec. xvi e xvn encontrão-se outras allusões a tal ve-
neração. Nos Agiologios e nas lendas populares contão-se successos
que pertencem à mesma categoria, de que eu poderia aqui dar longa
relação, se não temesse fatigar demasiado a attençfto da Academia.
Hoje ainda ha muitas fontes que teem invocações sagradas, como Fonte
de S. Guálter, em Guimarães, Fonte de S. Tiago, em Moncorvo, Fonte
da Senhora do Carmo, em Mondim da Beira, Fonte-Santa em todas as
partes do país, incluindo Lisboa, que tem uma rua assim chamada, em
que existe uma fonte com uma cruz. Aqui a cruz é outro vestígio do
antigo culto. As tradições pagãs não persistirão todas com a fórma
ecclesiastica: ãs vezes persistirão com fórma até certo ponto pagã, o
que se vê nas tradições relacionadas com as fontes que teem o nome
de Fonte da Moura, como ha muitas.
D'este modo o monumento luso-romano de Braga pertence a um
vasto cyclo de ideias religiosas. Eu conheça por esse país fóra, sem
excluir o Minho, muitas fontes com caracter religioso, as quaes são
ainda parecidas com aquelle monumento, pois teem também, sobre a
agua, ou ao pé, um pequeno nicho em que está, ou pintada, ou em
imagem, representado um santo ou a Virgem, imagem que os fieis
não deixão de às vezes adornar com vasos de flores. Conheço tam-
bém outras fontes com tal caracter de santidade, que teem ao pé uma
capella. Afim de não deixar estes factos sem demonstração, lembrarei
por exemplo a jâ citada Fonte da Senhora do Carmo, a Fonte-Santa,
ao pé de feencatel (no Alemtejo), e a Fonte de S. Torquato, ao pé
de Guimarães. Em logar de imagem ou capella, acharemos também
às vezes, por uma simplificação do culto, uma cruz na fonte, como na
referida Fonte-Santa aqui em Lisboa. Dà-se até a coincidência de
numa das Fontes-Santas que citei haver uma dedicatória moderna, no
gosto da dedicatória latina do arcobrigense Celicus Fronto, em Braga.
Sem duvida o monumento de Braga fazia parte de um santuá-
rio, e não era uma simples lapide votiva, como tantas outras que ha
no nosso pais; se não fizesse parte de um santuário, isto é, de um
templo ou de um recinto sagrado, não occuparia, como occupa, todo
o espaço da fonte.
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314
BB VISTA LUSITANA
III
Creio pois ter, dentro dos limites da archeologia e da hierologia,
assentado que o monumento de Braga constituía uma fonte santa, con-
sagrada a um deus que se chamava Pongoenabiagus.
Este nome é de aspecto bárbaro, mas nem por isso merece me-
nos o nosso respeito, se não já um respeito de fé religiosa, como no
tempo dos Bracaros, ao menos um respeito scientifico!
Vejamos se, pela analyse philologica de tal nome, obteremos
também algum elemento que confirme a attribuiçâo que tenho vindo
fazendo. Supponho que sim.
Este nome, como tantos outros que as inscripções antigas nos
ofíerecem, quer religiosos, quer não, é nome ao mesmo tempo com-
posto e derivado. E' derivado, porque entra nelle o suffixo -agus, va-
riante phonetica do suffixo -açus, que é muito vulgar no onomástico
preromano, como se pôde vêr no Alt-Celtischer Sprachschatz, isto é,
Thesouro da velha lingua céltica, de Alfredo Holder, diccionario actual-
mente em publicação. O próprio onomástico da Lusitânia oferece ou-
tro nome de deus, i. é, Turiacus, que tem uma inscripção no claus-
tro da igreja de S. Thyrso, deus, em cujo nome entra o mesmo suffixo
-açus; e como este era-me fácil citar dezenas de nomes.
Se de Pongoenabiagus tiramos pois o suffixo -agus, fica-nos a par-
te *Pongoenabi-, isto é, *Pongoenabius, como do mencionado Turiacus,
subtrahindo o suffixo -açus, fica *Turi-, i. é, *Turius.
Ora *Pongoenabius parece-me ser composto de *Pongoe -f- *Nabius.
Um nome composto, d'esta natureza, nada tem de estranho: eu po-
dia citar também dezenas d'elles análogos; contentar-me-hei porém
com citar tres nomes de deuses, colhidos nas inscripções peninsulares :
são elles os muito veneráveis Bandiaepolosegus, Bandiarbariaicus,
*Bandueaetobricus, em todos os quaes, segundo o Sr. Adolpho Coelho,
entra o elemento Band-, que apparece isolado noutro nome divino, o
nome da deusa *Bandua.
Decomposto pois o nosso *Pongoe-*Nabius em *Pongoe e *Nabiu$,
é preciso agora conhecer a significação d'estes dois elementos. Con-
fesso que *Pongoe não sei o que seja, pois nunca encontrei nem nas in-
scripções, nem nos A A. clássicos, palavra nenhuma igual; quanto a
*Nabius, creio que alguma cousa poderei dizer.
Em primeiro logar ha nas inscripções romanas da Tarraconense,
a que Braga pertencia, os seguintes nomes de deusas : Navia e Nabia,
que apenas differem em uma ter v e outra b, confusão de consoantes
labiaes ainda hoje frequente no Norte do reino. No convento Lucense,
i. é, na Galliza, havia a deusa Navia. Estes nomes constão das in-
scripções romanas. Nada se sabe do caracter de taes deusas, mas, em
virtude da comparação dos seus nomes com o do deus de Braga, pôde
admittir-se que erão muito provavelmente deusas fontanárias, ou pelo
menos aquáticas. Esta approximação de nomes julgo-a importante.
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O DEUS PONGOENABIÀGDS 315
Âccrescem outras circumstaucias ponderosas.
Ptolomeu cita na Gallaecia o rio Nabius (e nos Pesicos o oppidum
Flavionavia). Ha mais nomes de rios em que parece entrar o elemen-
to ou raiz nab- . Na Britannia temos Nabaeus, acaso decomponivel em
Nab-aeus, pois que -aeus pôde aqui ser suffixo. Na Gallia temos Nava, af-
fluente do Rheno. Plinio menciona também na Hispânia o rio Navialbio,
nome cujo primeiro elemento pertence talvez â mesma familia. Te-
mos ainda no Minho o Nebis, ou antes Nevia (hoje Neiva), mas este
nome, se tem relação phonetica com os outros, está mais afastado.
Confronte-se o moderno nome Nabão, do rio que passa em Tomar, e
que estará porventura em vez de um antigo *Nabanus, decomponivel
em *Nab-anu8, pois que o suffixo -anus é vulgar, e fica a parte *Nab- ,
de que estou foliando.
Âssim, em resumo, no nome do deus bracarense pongoenabiagvs,
deus que, pelas circumstancias em que se venerava, era certamente,
como disse, de caracter aquático, julgo entrar um elemento que, pelo
seu lado, contém também a ideia de «agua», ou outra correlativa, o
elemento nab- , que se encontra, ao que parece, em muitas denomina-
ções fluviaes.
Terminarei aqui a minha communicaçâo, que foi mais longa do
que eu desejava, declarando que jà desde o século passado, das Me-
morias do arcebispado de Braga, de Contador de Argote, ó conhecido
o monumento bracarense; mas nem nessa obra, nem nas publicadas
posteriormente, entre as quaes o Corpus Inscriptionum Latinarum, vol. n,
foi bem transcrito o nome do deus. Além d'isso omittiu-se nellas a in-
scripção que eu disse que estava dentro da edicula. E também se não
fazem lá as considerações em que acabo de entrar, à cerca da expli-
cação histórica do sentido do monumento.
Eu estive em Braga, em Janeiro d'este anno, e tive occasiâo de
estudar in loco o monumento. O resultado d'esse estudo é o que aca-
bo de ler K
3. Leite de Vàsconcellos.
* Tanto ao Sr. José Joaquim de Oliveira, dono do quintal «do ídolo», como
aos meus amigos os Srs. Henrique Rouffe e Dr. José Machado, agradeço o auxilio
que me prestárâo para eu levar a cabo o meu estudo.
Aproveito a occasiâo para lembrar que seria muito conveniente conservar em
bom estado aquelle importante monumento da antiga civilização dos Bracaros, mo-
numento único no seu género no nosso país, pelo menos de que eu tenha conheci-
mento.
316
REVISTA LtTSITANA
CIGANOS PORTUGUESES
DOS FINS DO SEC. XVI
fConelatlo)
XXVII. — Dom felipe etc. faço sab(e)r que sabastifto de mjdejros,
alcajde e cacerejro na yilla de ferr(eir)a do canpo dourique me éujou
dizer, q(ue) tendo elle preso é seu poder u sjgano q(ue) dezia cha-
marse graujel de sonsa que estaua condenado em dous annos p(er)a
gales po(r) ser achado cõ algu fato na dita villa, e po(r) cortar os
ferros, sendo outra vez preso em poder delle sop(lican)te, e tendoo
preso e amarrado a hua correto e peado cõ Ima pea e seus trebelhos,
o dito cigano, sendo de noite, sedo elle sup(lican)te fora da cadea,
cortara os ferros,^ e lhe fogira, po(r) ser també a cadea fraqua e a
casa térrea, cõ hua grade de pao, e eu lhe fizera m(erce) de aluara
de busqua cõ o q(ua)l o buscara, e fizera m(ui)tas deljgencias sé o
poder achar, me pedia auendo Resp(ei)to ao dito cigano não ter p(ar)-
te algua, lhe p(er)doase a culpa q(ue) tjuera e sua fogjda, e R(ece-
beri)a m(erce) e v(isto) seu Requerim(en)to, e hu parese cõ meu pas-
se, ey p(or) be, e me p(ra)z de lhe p(er)doar a culpa de lhe fogir o
preso p(e)lo modo q(ue) declara v(is)to como diz q(ue) nao tem p(ar)-
te, e pagara mil r(ei)s p(er)a as desp(es)as da mesa do despacho dos
desebargadores do paço, e p(or) quanto os tem ja pagos, vos mando
etc. e forma el Rey nosso s(enh)or mâdou p(e)los d(ou)tores belchjor
de amarai, e dy(og)o lamejra etc. (christ)ovao cald(ei)ra a fez em Ux-
(bo)a a xj de nouébro de b e lxxxxij lucas v(iei)ra a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xiy de Legitimações e perdões, fl. 111 v.).
XXVIII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que g(as)par l(ouren)ço
alcajde. e cacerejro na villa de mertolla, me euiou dizer q(ue) tendo
elle presas na cadea da dita villa a margarjda vaz, e c(atari)na g(on-
ca)l(ue)z, e ana sjgana cõdenadas e degredo p(er)a o brazil, e po(r)
ser a cad(e)a fraq(u)a, e não ter mais que hú cadeado nas portas e as
grades sere de pao, lhe fogjrâo todas abrjndo o cadeado cõ algua ga-
zua, e elle sup(lican)te fora fogirfto de noite, e logo tanto q(ue) o sou-
bera cõ toda a djljgencia as fora fóra busquar, e dentro e tres dias as
tornara a préder todas tres por sua jndustria, p(e)lo q(ue) me pedia, lhe
perdoase ljurem(en)te a culpa q(ue) no caso tjuera, po(r) ser home
pobre, e R(eceberi)a m(er)ce, e v(is)to seu Requerjmeto, e hu parese
cõ meu passe, ey p(or) be, se asj he, de lhe p(er)doar a culpa de lhe
fogire as presas p(e)lo modo q(ue) declara v(is)to o q(ue) alega, e isto
ljvrem(en)te, y(is)to como as tornou a préder por sua jmdustria é lix-
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(bo)a a xbiij 0 de junho de b c 1 Riij*, e po(r) tanto vos mando etc. é
forma; e leua a clausulla da jmmonjdade da jgreja. el Rey nosso
s(enh)or a mãdou p(e)los d(outo)res Amt(oni)o dalmejda, e dy(og)o
lamejra etc. Amt(oni)o de pauia a fez e lix(bo)a ao derad(ei)ro de ju-
nho de b° 1 Riij 0 ' e eu fr(ancis)co mendez pauia a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xiv de Legitimações e perdões, fl. 200 v.).
XXIX. — Dom fellipe etc. faço sab(e)r que ant(oni)o camello, ca-
cerejro na villa dobjdos, me enujou dizer per sua petição q(ue) temdo
a b(altas)ar do souto, çigano e a m(ari)a sua molher e outras ciganas
por lhes acharé e poder hú macho furtado ou hua mulla, p(e)la q(ua)l
culpa sairá a dita m(ari)a cõdenada por s(ente)nça en dez anos de de-
gredo fora do R(ei)no, e açoutes, e os mais cõdenados nas p(e)nas con-
teudas na dita s(ente)nça, e po(r) a dita m(ari)a ftdar prenhe lhe ti-
rara os feros, e dahy a poucos dias fogira, e a tornara a preder, como
constaua da certjdão que offerecia; E po(r) quãto o sup(lican)te he
pobre, me pedia, lhe perdoase a culpa da dita presa, e R(eceberi)a
merçe. E v(is)to seu Req(ueri)m(en)to ey p(or) be, e me p(ra)z, v(is)-
to húu parece cõ huu meu passe, de perdoar ao sup(Ucan)te a culpa
de lhe fogir a presa q(ue) declara v(is)to como a tornou a preder
po(r) sua Industria, e isto liurem(en)te v(is)to o q(ue) alega, e po(r)
tãto vos m(an)do etc. na forma. El Rey uosso s(enh)or o m(an)dou
p(e)los doutores ãt(oni)o da gama, e g(asp)ar de fig(eire)do etc. felli-
pe da costa a fez é lix(bo)a a xx de f(e)u(erei)ro de m b° lxxxiij. JoS
da costa a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xv de Legitimações e perdões, fl. 65 v.).
XXX. — Dom Phillipe etc. faço saber q(ue) heytor quatrim me
enviou dizer p(or) sua petição q(ue) soçedendo hua briga em nov(emb)ro
do anno p(assa)do de lxxxb cõ hus çiganos, acodira o juiz do crato, e
p(or) saire feridos tres ou quatro çiganos, hachara culpado hu d(o-
ming)os dias, e prendendoo o entregara a elle sop(lican)te, e elle so-
p(lican)te o entregara a hu v(icen)te ra(art)iz, e sendolhe p(or) o juis
pedido o preso elle o pedira ao quadrylh(ei)ro o q(ua)l o deixara fu-
gir, e dito D(oming)os dias estauão liures p(or) lhe eu p(er)doar elle
pedia q(ue) ouuese a tudo resp(ei)to, e lhe p(er)doase a culpa do caso,
e R(eceberi)a M(erce). E visto seu Req(ue)rim(en)to e hum pareçe
cõ hu meu pase, ey p(or) be, e me p(ra)z, se asy he, e ahy mais não
ha, de p(er)doar ao çop(lican)te a culpa de não Entregar o preso p(or)
o modo q(ue) declara, e pagará í r(ei)s p(ar)a a piedade, e p(or) os
pagar vos mando etc. na forma. El Rej noso s(enh)or o mandou pál-
ios Doutores M(elchi)or do amarai e Ant(oni)o da gama etc. Andre
da costa a fez é lix(bo)a a xix de Março de m. b° lxxxb. g(asp)ar ve-
lho a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xv de Legitimações e perdões, fl. 235).
XXXI. — Dom felipe etc. faço sab(e)r q(ue) thome gaf çia, m(o-
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REVISTA LUSITANA
rad)or na Cidade de portalegre me enviou dizer p(er) sua petição
q(ue) elle fora acusado p(e)la just(iç)a a Reueria p(or) se dizer ser
culpado na morte de m(ari)a de Vargas cigana e p(or) a s(ente)nça
junta fora condenado em dous annos de degredo p(ar)a África, e não
se posera em livram(en)to p(or) andar absente fora do R(ei)no sê sa-
ber ser culpado na dita morte, e p(or) q(ue) não tinha parte, me pe-
dia lhe p(er)doa8e os ditos dous annos de degredo, e R(eceberi)a
m(erce). E visto seu Req(ue)rim(en)to e hu pareçe cõ hu meu Passe,
ey p(or) b6, e me p(ra)z, se assy he, como o sop(lican)te Diz, e mais
não ha de lhe p(er)doar os dous annos de degredo em q(ue) foj con-
denado p(er)a Africa p(el)a culpa da morte de q(ue) faz menção p(e)l-
lo modo que declara v(is)to o q(ue) alega e o t(em)po e q(ue) pede
este p(er)dão, e pagara xx c(ru)z(a)dos p(er)a a piedade, e os pagar
vos mando etc. El Rej nosso s(enh)or o mandou p(e)los doutores Da-
miam daguiar, e m(anu)el de sousa etc. Ambrosyo daguilar o fez c
lix(bo)a a xbij dabril de m b° lxxxbij. Lucas V(iei)ra a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xv de Legitimações e perdões, fl. 253).
XXXII. — Dom sebastião etc. faco saber q(ue) p(er)o m(art)i(n)z
grego m(orad)or na villa de moura he preso na cadea delia me eujou
dizer que delle denudara hu eytor mendez sapat(ei)ro dizendo q(ue)
lhe emtrara na sua allcaçarja e lhe furtara hu lombeyro de solas, e
p(or) ha parte ho não q(ue)rer hacusar o fora p(e)la Just(iç)a, he po(r)
s(ente)nça da Relação sahyo condenado com baraço he preguão (pe)la
vjlla, em hu verão p(er)a guales, me pedya lhe cumutase ho baraço
he preguão no mais degredo q(ue) ouuese po(r) meu seruiço, e R(e-
ceberi)a m(erce), E v(is)to seu Requerjm(en)to, ey p(or) bem de lhe
cumutar a pena vyl de baraço he preguão p(e)la villa em hu ano ve-
rão de guales, E po(r) tãto vos mãdo etc. na forma dada é lix(bo)a
a xxxj de julho el Rey ho mandou p(e)los doutores paullo a(fons)o he
p(er)o barbosa etc. ambrosyo dagujar a fez é lix(bo)a de mil b° lxxbij
anos Roque v(iei)ra a fez screuer.
(D. Felippe i, Liv. xvi de Legitimações e perdões, fl. 61 v.).
XXXIII. — Dom fellipe etc. faço saber que Jorge f(ernand)ez, e
g(asp)ar dellgado, m(orado)res na villa de mõtemor o nouo me em-
viarão diser que elles serujâo de coadrjlhjros na dita villa este pre-
sente ano e o Juis delle querendo yr corer o termo os leuara cõsygo,
e prendera hu sygano, o quall mãdou atar as mãos detrás, e atado
lho emtregara p(er)a que o trouxesem a cadeya da dita villa, e semdo
as des oras da nojte, o dito cigano tiuera arte cõ q(ue) lhe fogira, e
ora elles / sop(lican)tes se temjão que o Juis os prendese, e procedese
cõtra elles p(e)la dita fogida na q(ua)l elles sop(lican)tes não tiuerão
mallicia, a e dito cigano não tinha mais cullpa que por ãdar no Rej-
no, posto que ao t(em)po da prjsão se pos em defeza sem armas, me
pedião a dita cullpa de lhe fogir o cigano, e R(eceberi)am mercê; e
v(is)to seu Requerjm(en)to, he hu parece cõ ho meu pase, ey por bem,
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e me pras, se asy he, como dizem, e mais não ha de lhes p(er)doar a
cnllpa de lhes fugir o cigano que lhes foj emtregue p(e)io Juis, sen-
do coadrilhejros, de que fazem menção p(e)lo modo que declarão, v(is)-
to o q(ue) alegão, e pagara cada hu mill r(ei)s p(er)a piedade, e por
os ter pagos ao R(ecebed)or vos mãdo etc. na forma ell Rej noso s(e-
nh)or o raãdou p(e)los d(outo)res diogo lam(ei)ra, e Jeronjmo p(erei)-
ra de sa etc. christouâo calldejra a fes em lix(bo)a a vinte e tres de
marco de m. b° IRij Jo(a)m da costa a fes esp(re)ver.
(D. Felippe i, Liv. xviu de Legitimações e perdões, fl. 228).
XXXIV. — Dom feíipe etc. faço saber q(ue) fr(ancis)co f(e)r(nan-
d)ez, juis do lugar da lapa, termo da uilla de santarem me enuiou dy-
zer per sua petição q(ue) ao dito lugar forão ter sete siganos e qua-
tro syganas no mes de mayo de nouemta e seis, e per lhe dizerem
q(ue) trazião hu pouco de fato furtado, os quizera premder, e elles se
pozerão cõ armas, e lhe resistirão, e se acolheram, e ficarão tres si-
ganas, e temdo as assy fatengas (?) per hus homcs q(ue) ahy uierão
ter de fora dizerem q(ue)o fato q(ue) os syganós trazião furtado era
seu, e húa das syganas dizer q(ue) sabia omde os syganos tinhão pos-
to o dito fato furtado, e o yria mostrar as partes, e elle sop(lican)te
a deixou yr com elles, e ella lhe deu o fato, e não tornara mais, e
elle sop(lican)te leuou as outras duas sjganas reteudas ante o juis de
fora da dita villa de santarem, e comtando lhe o caso, o dito juiz o
mãodara premder, e o tinha prezo por deixar yr a dita sjgana, e elle
sop(lican)te era hu home m(ui)to velho, q(ue) passaua de setenta an-
nos, me pedia, lhe perdoasse a culpa q(ue) no dito caso podia ter ; e
v(is)to seu requerim(en)to, e hu parece com hu passe, ey por bem, e
me pras, se assy he, de perdoar ao sop(lican)te a culpa q(ue) tinha
em soltar a dita sygana de q(ue) faz meção seruindo de juis visto o
q(ue) alega, e a ymformação do C(orreged)or, e isto liurem(en)te, vos
mãodo etc. em forma. El Rey nosso s(enh)or o mãodou pollos douto-
res belchior damaral, e damião daguiar etc. christouâo calld(ei)ra a
fez em lix(bo)a a uimte oyto de yunho de nouenta e hu joâo da costa
a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xix de Legitimações e perdões, fl. 63 v.).
XXXV. — Dom felipe etc. faco saber q(ue) Ant(oni)o g(onça)l-
(ue)z, almocreue, m(orad)or na uilla de nissa me enuiou dizer per sua
petição, q(ue) seruimdo de cacereiro na dita uilla, lhe fora emtregue
hua sigana per nome m(ari)a maldonada, por se dizer auer eido com-
prendida em hu furto de certo d(inhei)ro, per não ter parte e estar
ja sentemceada em degredo para fora da uilla e termo e faltar somen-
te a deligecia q(ue) se auia de fazer do pregão pollo uilla, a tynha
sem ferros na casa de riba, domde fogira sem mais ser achada, fazem-
do m(ui)ta deligencia, e per q(ue) o sop(lican)te era casado, e pobre,
e amdaua amorado me pedia auendo Resp(ei)to a não auer parte, lhe
perdoasse a culpa de lhe fogir a dita sigana, e R(eceberi)a mercê;
320
REVISTA LUSITANA
E v(is)to seu Requerim(en)to e hu pareçe com hu passe, ey por bem,
e me praz, sse assy he de lhe perdoar a culpa de lhe fogir a sigana
presa de que faz meçam semdo cacereiro pollo modo q(ue) declara
u(is)to o q(ue) alega, e pagara dous mil r(ei)s para as desp(es)as da
casa do desp(ach)o do desembargo do paço, u(is)to outrossy como nfto
tem parte e por q(uan)to ja pagou os ditos dous mil r(ei)s ao recebe-
dor das ditas desp(es)as como se uio [se uio] per hú seu c(onhecimen)-
to, e per outro do escriuâo de sua Reseita de como nella ficâo carre-
gados vos mâodo etc. em forma. El Rei nosso s(enh)or o mftodou pol-
los doutores dy(og)o da fonsequa, e jeronimo pereira de saa etc. chris-
toufto calld(ei)ra a fez em lix(bo)a a quatro de março de mil quynhé-
tos noueta e sete lucas uieyra a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xix de Legitimações e perdões, fl. 123 v.).
XXXVI. — Dom felipe etc. faco saber q(ue) joao m(art)i(n)z, ci-
guano 1 me emuiou dizer q(ue) elle fora comdenado em dous ânuos de
degredo para amgolla com baraço e pregoo polia culpa de ladrfto,
como consta da s(ente)nça junta, e per que elle sop(lican)te era casa-
do, e tinha simco filhos pequenos, e sua maj muito velha, e doemte,
e auendo de yr a Amgolla perecerião a mingoa, e desemparo me pe-
dia ouuesse per bem de lhe comutar os ditos dous annos de degredo
para as gales, e R(eceberi)a mercê; E u(is)to seu Requerim(en)to, e
hu parece com hu passe, ey per bem, e me praz, se assy he, como diz,
de lhe cumutar os dous annos de degredo em q(ue) esta cõdenado
p(er)a amgolla polia dita culpa, em dous annos para as galles u(is)to
o q(ue) allega, pollo q(ue) vos mando Em forma. El Rey nosso s(e-
nh)or o mâodou pollos doutores jeronjmo p(e)r(eir)a, e damifto daguiar
etc. cristouão cald(ei)ra a fez em lix(bo)a a uinte e seis de nouembro
de quinhentos nouenta e noue lucas uieyra a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xix de Legitimações e perdões, fl. 370 v.).
XXXVII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que Amt(oni)o f(e)r-
(nande)z m(orad)or na cidade de lejria me eujou dizer p(er) sua peti-
çam q(ue) seruindo elle de cacerejro na dita cidade, lhe forâo etre-
ges presos dous siagos (sic) por se dizer fazere hu furto de pouca
cousa, de q(ue) nâo tinhfto p(ar)te, se nfto a just(iç)a, os quaes lhe
fogirfto da dita cadea, e por os ora ter presos po(r) sua jndustria
p(e)lo q(ue) me pedia, lhe p(er)doase a dita fogida, e R(eceberi)a
m(erce) e v(is)to seu Requerjm(en)to, e hu pareçe, ey p(or) be, e me
p(ra)z de lhe p(er)doar a culpa q(ue) tem na fogida dos dous siganos
da cadea, liurem(en)te, v(is)to como sam já tornados a cadea p(er)
sua jndustria, p(e)lo q(ue) vos mando etc. e forma, el Rey nosso s(e-
nh)or o mftdou p(e)los doutores Amt(oni)o da gama, e damjfto dagujar
i Este registo tem escripto á margem noutra letra : Jodo martins cigarra
Na duvida inseriu -se o documento na collecçâo.
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321
etc. felipe da costa o fez é lix(bo)a a xxbij de jan(ei)ro anno de mil
b° lxxxiij 0 Jo(a)m da costa a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xx de Legitimações e perdões, fl. 11 v.)-
XXXVIII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que Amt(oni)o luis, pre-
so na cadea de montemor o velho me êujou dizer p(er) sua petiçam
q(ue) sendo elle cacerejro na dita villa, e tendo os presos a bom re-
cado, e jndo cõ sua molher húa noyte p(er)a lhe lançar os ferros, os
presos saltarão cõ elles e os afogarão e tratãdo m(ui)to mal, e arran-
cara hua trauesa, e fogirão cinco delles etre os quaes era hú cigano
q(ue) era preso por morte de hú home outro cigano, e hú bertolameu
g(onça)l(ve)z e simão trauasos q(ue) era preso po(r) hua Resistência
de hu mejrçnho e dj(og)o ponçes po(r) tomar hua eguoa no campo, e
eytor Rabello q(ue) era preso p(e)lo mesmo, e po(r) q(ue) o cigano o
tornara a préder e tinha preso p(er)a se delle fazer just(iç)a, e berto-
lameu g(onça)l(ve)z tinha p(er)dão da fogida, e estaua e liuram(en)-
to, e os tres q(ue) ficarão, as p(ar)tes lhe p(er)doarão, como constou
dos perdões q(ue) oferèçeo, me pedia, lhe p(er)doase a culpa, q(ue)
tiuera na fogida, e R(eceberi)a m(erce); E v(is)to seu Requerim(en)-
to, ey por bê, e me p(ra)z, se asj he de lhe p(er)doar a culpa que e
sua petiçam declara, v(is)to os p(er)dões das p(ar)tes que offereçeo e
o mais q(ue) alegua, e êformação q(ue) se ouue p(e)lo prouedor da co-
marq(u)a, e pagara dous mil r(ei)s p(er)a a piadade, e po(r) quanto
os ja tem pagos vos mando etc. e forma, el Rey nosso s(enh)or o mã-
dou p(e)los d(ou)tores p(er)o barbosa e J(e)r(oni)mo p(erei)ra de saa
etc. felipe da costa a fez e lix(bo)a a xxxj de dez(emb)ro no anno de
m. b° lxxxiij Jo(a)m da costa a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xx de Legitimações e perdões, fl. 18).
XXXIX. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que p(er)o nog(uei)ra,
m(orado)r na villa das alcáçovas me êujou dizer q{ue) s(er)ujndo de
alcaide, e caçerejro, lhe forão etregues tres siganos po(r) lhe ser acha-
do certo fato q(ue) tinhão furtado, e tendoos presos a m(ui)to bom Re-
cado, e sendo elle sup(lican)te fora a fazer certas diligencias, limarão
os ditos siganos os feros de man(ei)ra q(ue) dous delles fogirão, e aco-
dindo a molher delle suplicante a dita fogida grjtando, arremetera a
ella hua cigana, e lhe lançara a mão a garganta, e de tal man(ei)ra
a persegujra, q(ue) não som(en)te lhe épecBra o gritar mas a leixa-
ra m(ui)to maltratada, e mea afogada, e fizera m(ui)tas deligencias e
busq(u)a dos ditos dous siganos se núqua os poder achar, e o furto
era de cõthia de dez -J--J- do » 1 e a p(ar)te a quê se furtara estaua satis-
f(ei)to e lhe tinha dado p(er)dão, me pedia lhe p(er)dase a culpa é
q(ue) ecorrera p(e)la dita fogida, e R(eceberi)a m(erce), e v(is)to seu
Requerjm(en)to, e hú parese cõ meu passe, ey p(or) bé, e me p(ra)z,
se asy he, como o sup(lican)te diz de lhe p(er)doar a culpa da fogida
i Cruzados.
REV. LTTS1T., VOl. III, faSC. 4.
3
322
REVISTA LUSITANA
dos presos de q(ue) faz meção p(e)lo modo q(ue) declara, v(is)to o
q(ue) alega, e p(er)dão da p(ar)te q(ae) oferece, e pagara dez ff* 0 *
p(e)ra a piedade, e po(r) os ter ja pagos vos mando etc. e forma, el
Rej nosso s(enh)or o mãndou p(e)los d(ou)tores J(e)r(oni)mo p(erei)ra
de saa, e belchior do amarai etc. fr(ancis)co de pauia a fez em lix(bo)a
a xxiij de feu(erei)ro de m. b° lxxxix e eu fr(ancis)co nunez de pauia
a fez.
(D. Felippe i, Liv. xxi de Legitimações e perdões, fl. 249).
XL. — Don\ felipe etc. faço sab(e)r que o prouedor, e jrmãos da
m(isericord)ya da villa das alcaçouas me évyarão dizer q(ue) vindo
hús homes da villa de grádolla em segujm(en)to de hú alexandre,
moço menor, cigano, per certo furto q(ue) disserão aver feito, e o pre-
derfto na dita villa das alcaçouas, e andando cõ hú grjlhão nos pees
p(e)la Rua da cadea po(r) quanto na dita villa não avia cadea forte,
húa noite vinte e sete de dez(em)bro deste p(re)sete anno da porta da
mesma cadea fogira cõ o dito grilhão nos pe^, e o alcaide fora e seu
segujmento, e o prSdera na cidade devora e o trouxera a dita villa
p(er)a se liurar da fogida e depois de liure ser leuado a villa de gran-
dolla donde fizera o delito e po(r) q(ue) o dito moço era pobre, e não
tinha de q(ue) se sostentar, e era do Rol da dita m(isericord)ya, me
pedião lhe p(er)doase a dita fogida e R(eceberi)a m(erce) E v(is)to
seu Requerjm(en)to e hú parese cõ meu passe, ^y p(or) bê, e me
p(ra)z, se asy he, como dizem de perdoar ao moço de q(ue) faze men-
ção a culpa da fogida da cadea p(e)lo modo q(ue) declarão, v(is)ta o
q(ue) alegão, e como he preso dos da m(iserícord)ya, e isto ljurem(en)-
te p(e)lo q(ue) vos mando etc. e forma ; e leua a clausulla q(ue) o dito
alexandre tome carta de seg(u)ro. el Rey nosso s(enh)or o mãdou p(e)-
los d(outo)res damjão dagujar, e m(anu)el de sousa etc. belchior pin-
to a fez em lix(bo)a a nove de majo de m. b° lxxxix J(e)r(oni)mo da
costa a fez escreuer.
(D. Felippe i, Liv. xxi de Legitimações e perdões, fl. 277 v.).
XLI. — Dom felipe etc. faco sab(er) que amtonyo daruellos, all-
cayde e cacer(ei)ro na villa dallmodouar me evjou dizer q(ue) ha elle
lhe fogyrão dous presos por cullpas de ladroees, os quaees hu delles
hera syguano, e se chamaua luis mendez, e outro bertolameu a(fons)o
as quaees herão as seg(uin)tes : o syguano por furtar húa burra a
quall loguo leuou a seu dono, e não quysera delle nada, e o outro por
que, semdo pastor, vemdera duas ovelhas, e por a culpa ser leue e
elle prouar o c(on)tr(ari)o sahyra na terra solto he liure, os quaes pre-
sos lhe cortarão húa corrente, em que estauão, por a corremte diguo
cadea ser m(ui)to fraca, e fizera deligencia p(er)a os tornar a prem-
der, ha homde fora achar o syguano c laguos preso e ho ebarguou
p(er) hú precatorjo q(ue) leuaua, como constaua de húa certydão, e
o outro estaua liure de todo, e não havya parte nenhúa, me pedya,
lhe p(e)rdoase a cullpa q(uo) no caso podya ter, e R(eceberi)a m(er-
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CIGANOS PORTUGUESES
323
cê); E v(is)to seu Requerjm(en)to e hú parece cõ ho meu pase ey p(or)
bem, e me p(ra)z de p(er)doar ao sup(lican)te a cullpa de lhe fogyrem
os presos p(e)lo modo que declara, v(Ls)to lio que alegua, e Imforma-
çfto do ouujdor dalluerqua e paguara mill r(ei)s p(er)a p(ieda)de, que
paguou ao R(ecebed)or delia, e forão sobre elle p(er) seu scprivfto ca-
guados ê Re(ce)pta, vos mamdo etc. na forma, el Rey ho mamdou
p(e)los doutores mellchyor damarall, e damjfto daguyar etc. fr(ancis)-
co nunez de pauja a fez é lix(bo)a a xj de jan(ei)ro e o pase a biij-
delle de m. b c IRiij.
(D. Felippe i, Liv. xxru de Legitimações e perdões, fl. 3 v.).
XLH — Dom felipe etc. faco saber que m(auu)el diaz, allcayde,
e cacereyro que foy na villa dallvalade do campo dourique me éujou
dizer que temdo elle preso e seu poder a hú fr(ancis)co ali vez, sy-
guano, por amdar por o Reyno. e temdoo preso no termo da d(i)ta
villa homde chamauâo as hermjdas, e por se harmar húa gramde brj-
gua lhe fogira das maaos o d(i)to ciguano, e ell sup(lican)te ouuera
alluara de busqua p(er)a o busquar e por v(er)tude delle ell mesmo
P(*r) sy o tomara a premder em sfto tiaguo de cacem, e o etreguara
preso na cadea da d(i)ta villa dallualade como constaua da certjdâo
que oferecia, me pedya, lhe p(er)doase a cullpa de lhe fogir a d(i)to
ciguano, e R(eceberia) m(ercê) ; E v(is)to seu Requerjm(en)to e hu pa-
rece cõ ho meu pase, ey p(or) bem, e me p(ra)z de p(er)doar ao su-
p(lican)te a cullpa de lhe fogyr o preso, sédo allcayde e cacer(ei)ro,
de que faz memçao p(e)lo m(od)o que declara v(is)to ho q(ue) hale-
gua, e isto liurem(en)te, v(is)to como o premdeo p(er) sua Imdustrja
p(e)lo que vos mamdo etc. na forma, el Rey ho mamdou p(e)los dou-
tores dj(og)o lameyra he amt(oni)o dallmeyda etc. christovfto calld(ei)-
ra a fez é lix(bo)a a b de abrjll de m. b c IRej jofto da costa a fez spre-
ver.
leva clausola que este p(er)dao lhe nfto valera chamftdose ho
d(i)to preso as ordees ou Imunjdade da Igreja.
(D. Felippe i, Liv. xxin de Legitimações e perdões, fl. 126 v.).
XLIIL — Dom Phellipe etc. faço saber q(ue) Antonio frajão pre-
so na cadea da Villa de Setuuel me eviou dizer per sua petiça q(ue)
ele fora cõdenado p(er) s(ente)nça da rellaçâo em quatro anos de de-
gredo para a africa pella culpa da morte de hu João baptista, Ciga-
no, preso q(ue) então era na dita cadea; dos quaes quatro anos tinha
cõprido dous, como constaua da certidã q(ue) ofereçeo, e por ele não
cõprir os dous annos q(ue) lhe faltava, o prederâ na dita cadea, onde
estaua, auia perto de tres meses, e Por q(ue) quando o prendera an-
daua p(er)a auer meu perda dos ditos dous anos por ser pobre e na
ter parte, me pedia lhe Perdoase a culpa de na acabar de cõprir o dito
degredo, e R(eceberi)a a m(ercê): E v(is)to seu Requerim(en)to e hú
parece cõ hú pase, Ey por bem, e me praz, se asi he, como diz, e
mais na ha de lhe perdoar a culpa de ser achado no lugar do delicto
324
REVISTA LUSITANA
de q(ue) faz meçã pello modo q(ae) declara, v(is)to o q(ae) alega, e
como tem comprido doas anos em africa dos quatro é q(ue) foi con-
denado pella culpa da morte de q(ue) faz mêçã, e Irá comprir os dons
anos q(ue) lhe faltão e quatro meses mais alem deles no dito degredo
dafrica, e Irá comprir o dito degredo dentro de hú mes, enfto cum-
prindo asi este perdâ lhe nft valerá pello q(ue) vos m(an)do etc. na
forma EIRey nosso s(enho)r o m(an)dou pellos doutores diogo da(fon)-
seca, e J(e)roni)mo p(erei)ra de saa etc. cristouão cald(ei)ra a fez é
l(i)x(bo)a a sete de majo de B c Noventa e ojto lucas v(iei)ra a fez es-
creuer.
(D. Felippe i, Liv. xxm de Legitimações e perdões, fl. 199 v.).
XLIV. — Dom felippe etc. faço saber que Amtonio frajam da Vil-
la de setuuel me Sujou dizer que elle fora condenado per sêtença da
Relaçam em quatro annos de degredo pera africa pela culpa da mor-
te de hú joáo^baptista, cigano, prezo que então era na cadea da dita
villa dos quaes quatro annos tjnha cõprido dous e andando pera aver
meu perdão dos outros dous annos fora prezo na dita cadea, de que
ouuera meu perdão cõ mais quatro meses, e que dentro de hu mes
fosse cõprir o dito degredo e pelo dito perdão fora solto como se ue-
ria da sentença que offereçeo, e por que era pobre, e nos dous annos
que amdara e africa, padecia muitas necessidades, e não tinha parte,
me pedia, ouuesse por bê de lhe perdoar os dous annos e quatro me-
ses q(ue) tinha po(r) cõprir, e R(eceberi)a mercê); e v(is)to seu Re-
querjm(en)to e hu parese cõ hu passe, ey p(or) bê, e me p(raz), se
asy he de lhe p(er)doar os dous annos e quatro meses e q(ue) foj cõ-
denado p(e)la culpa da morte de q(ue) faz mêçam e ser achado no lu-
gar do delicto p(e)lo modo q(ue) declara, v(isto) o q(ue) alega, e como
não tem e pagara dez mil r(ei)s p(er)a húa obra pia q(ue) eu nomear
e po(r) quanto os ja tem pagos a dy(og)o de salis a quê os mâdej
êtreguar p(er)a a dita obra pia, vos mâdo etc. em forma, el Rej nos-
so s(enh)or o mãdou p(e)los d(outo)res damjão dagujar, e dy(og)o da-
fonseq(u)a etc. christouão cald(ei)ra a fez ê lix(bo)a a dez doutubro
anno de i. b c lRbiij 0 lucas v(iei)ra a fez escrever.
(D. Felippe i, Liv. xxiv de Legitimações e perdões, fl. 171).
P. d' Azevedo.
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L1NGCA0EM PofuliAB í>í VALPAÇOS
325
LJNGUAGEM POPULAR DE VALPAÇOS
(Cartas ao redactor da Revista Lusitana)
IH
Nesta minha terceira carta à cêrca do sub-dialecto valpacense
completarei as informações que a seu respeito ficaram consignadas
nas duas anteriores (Rev. Lusit., n, 256-260), embora o assumpto nfto
fique ainda exhausto.
Â) Phonologia
1. ou = ôa.
2. ao = d. Ex. : Fui ao Porto, elle louva-o, dizem-se : Fui ò Porto,
el lôtivò.
3. ui nfto se nasaliza em muito; perde a subjunctiva i e nasali-
za-se u: tnunto. Nasaliza-se, porém, no mpnosyllabo ruim, que ás ve-
zes também se ouve rôi, i. é, oi nasal.
4. o em óbo, ólho, rfsso, nóbo, pórco, etc, e nas terminações dos ad-
jectivos em -óso, é egual a o castelhano.
5. a, e e o antes de consoante, nasal sfto em regra fechados.
6. e de imbêja é fechado.
7. ch é consoante palatal explosiva, que nunca se confunde com x.
8. Nfto ha v. «No norte de Tràs-os-Montes creio mesmo nfto exis-
tir o som v». Disse-o v., fallando da linguagem popular de Parada de
Infanções (Rev. Lus., n, 113), e a minha observação o tem sempre
egualmente confirmado.
9. b, d, g entre vogaes sfto continuas.
10. es inicial reduz-se as.
1 1. Na próclise não diz-se num.
12. Em phrases como: vou á aula, lê o livro, o hiato annulla-se
intercalando-se um i: vou á-i-aula, lê-i-o livro.
13. A distincçfto constante entre os valores de g e s surdo, de z
e s sonoro, que eu reputo, acompanhando o sr. Gonçalves Vianna, como
característica phonetica do dialecto trasmontano, vae desapparecen-
do nesta villa; facto de que o povo tem consciência, pois diz de pes-
soa, que nfto faz esta distincçfto, ser cidadosa.
B) Morphologia
14. A fórma feminina de só é sóa.
32é
&EVISTA LUSITANA
16. Por lhe diz-se le. Os pronomes el (elle) e aquel (aquelle) fa-
zem no plural : eis, agueis.
16. A fórma feminina do artigo indefinido é ua.
17. a) No modo indicativo dos verbos em -ar a 1 * p7pl. do pre-
sente é egual à 1/ p. pl. do pretérito. Terminação : -âmos. b) O pre-
sente do conjunctivo do verbo dar é assim, ainda entre pessoas illus-
tradas: deia, deias, deia, demos, deis, deiam.
Alustrar, relampaguear.
Alustro, relâmpago.
Ancho, largo.
Anohura, largnra.
Araujo ou arujo, argueiro.
Arrebanhar, arranhar. O sr. F. Adolpho Coelho, no seu Dicc.
man. etym. diz de arranhar: «Diez apresenta diversas conjecturas ety-
mologicas, ne nhum a das quaes satisfaz». No termo trasmontano pare-
ce entrar o \Junha; os prefixos a-\-re encontram-se juntos noutras pa-
lavras: arrepanhar, arrepelar, etc.
Azedem, espécie de herva. Cp. o provérbio :
Bardar, vedar com bardo.
Bardo, sebe.
Belourar, rolar.
Bô ! interjeição.
Bocha, bolha lymphatica. Cp. bochinca em as Notas sobre a lin-
guagem vulgar de Aldeia de Santa Margarida, pelo sr. A. Alfredo Al-
ves (Rev. Lus., u, 246).
Boquejar, servir-se do boquejo.
Boquejo, refeição entre o almoço e o jantar.
Buzilhão, bossa sanguinea no craneo. Em Valpaços ha uma eira
chamada a Eira dos buzilhões, por causa da semelhança que apresenta.
C) Vocabulário
Aboucar, ensurdecer, v. a.
Aohada, coima.
Agrão, agrião. Cp. a cantiga popular :
No alto d'aquella serra
Corre agua, nascem agrões.
Já se não pagam finezas
Senão com ingratidões.
O fiolho e o azedem
A' roca vem.
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LINGUAGEM POPtJLÀft DE VALPAÇOÔ
327
Càcaràcá, imitação do canto do gallo. Coisas de càcaràcá, coi-
sas sem valor. A explicação d'esta phrase, geral no país, encontra-se
no seguinte conto, muito conhecido aqui: A um juiz, que tinha de de-
cidir um pleito, ofereceu uma das partes, para o subornar, um gallo ;
a outra parte, com o mesmo fim, offereceu-lhe uma ceva. O juiz deci-
diu o pleito a favor de quem lhe deu a ceva. O do gallo, nada conten-
te, foi ter com o julgador e perguntou-lhe por que razão déra a sen-
tença contra elle. «Que queria você que eu fizesse — disse o juiz —
se você me trouxe uma testemunha de càcaràcá e o outro uma de
ronca
Oaohopé (andar a — ), andar num só pé. Cp. fr. marcher à cio-
che-pied.
Calço, muro que sustenta o socalco.
Oanear, cabecear com somno.
Oantarinha ou oantarola, bolha de ar à tona de agua.
Oarabunha, caroço. Cp. carunha (Rev. Lus., i, 207).
Oardenho, palheiro, casebre.
Oarrachola (â— ), ãs cavalleiras.
Oaruma, agulhas de pinheiro.
Oastlnoeira ou castinceiro, castanheiro bravo.
Oeva, porco cevado.
Ohor, flor. Provérbio referido ã plantação da oliveira :
No tempo da chor
E' cortar e pôr. (Cp. Sev. LusiL, n, 371).
Dada, engorgitamento mammario.
Eido, sitio, logar. Ex. : Este é o meu eido, perdeste o eido. Nfto ha
dúvida nesta accepção, como julga o sr. Gonçalves Vianna (Rev. Lus. 9
i, 210, s. v.). Vid. Rev. Lus., in, 62, s. v.).
Encedouro, correia que liga o pirtigo á mangueira do malho.
Ervedeiro, medronheiro. Num local denominado Tapada dos
Ervedeiros (concelho de Villa Pouca de Aguiar), é que foi assassinado
Macdonell.
Êrvedo, medronho.
Esoarabanar, chover, sendo a chuva acompanhada de vento.
Esfoura, diarrhea.
Espoldrar, fazer a primeira poda da videira, fazer a alimpa.
Fazenda, prédio rústico.
Piolho, funcho. (Vid. Rev. Lusit., n, 269. V. neste voe. azedem).
Garabano, instrumento agrícola para regar. Consiste num vaso
de lata com um longo cabo de pau.
Garabito, aldraba, ferrolho.
Gemelgo, gémeo.
Gràdúra, nome genérico dos legumes, depois de seccos.
Grillamesa, louva-a-Deus.
Lama, prado natural. E' frequente no onomástico: Lamas (f. de
328
feEVISTÀ LUSITANA
ErvÕes) e Lama de Ouriço (f. de Alvarelhos), neste concelho; Lamas
de Orelhão, c. de Mirandella.
Lameiro, prado natural. De lama -j- eiro. Cp. Rev. Lusit., m,
63, 74.
Lavaceiro, intrujão.
Leituario, amuleto para produzir abundância de leite.
Louco, viçoso.
Malho, mangoal.
Manoebo, veladòr.
Mangueira, a vara mais comprida do mangoal. S. v. mango
diz o sr. F. Adolpho Coelho, no seu Dkc. man. etym.: cPau superior
do mangual, ligado ao cabo ou pertigo por uma correia (B. lat. mani-
cum)>. Já se viu que esta correia se denomina encedouro. Quanto a
mango ser o tpau superior», discordo do sr. F. Adolpho Coelho, sal-
vo o respeito devido ao sábio professor; pois julgo ser a inferior, isto
é, a vara mais comprida, o cabo, como o indica a significação de man-
gueira e a própria etymologia da palavra, porquanto é pelo mango ou
pela mangueira que o mangual se segura.
Mera, resina.
Merodeiro, medronheiro.
Merodio, medronho.
Merujar, choviscar.
Mesinha d'el-rei, louva-a-Deus.
Mirgandeza, idem.
Molego, pão pequeno de trigo.
Molete, idem.
Murar, verbo com que se exp rime a acção do gato, quando está
à espera dos ratos. Será \fmus ou tfmurus?
Obrigado, individuo que arremata o fornecimento de carnes
verdes. Reparei que, se alguém emprega a expressão obrigado no sen-
tido de grato, emenda logo para agradecido. Durante muito tempo
ignorei a razão disto. Um dia soube que ella está no trocadilho obsce-
no a que dá logar o duplo sentido de obrigado (grato e fornecedor) e
a accepção religiosa de carne, nos inimigos da alma.
Ouga, alga. Cp. outeiro, outro, poupar, souto. Dictado: «Verde
como ougas».
Outrem. E* oxytono.
Paraleu, coisa extraordinária.
Paqueta, rapariga para fazer recados.
Paquete, rapaz para fazer recados.
Pavia, espécie de pecego.
Peto, gazophilacio.
Pírtlgo, a vara mais curta do mangoal. O sr. F. Adolpho Coe-
lho, no seu Dkc. man. etym., s. v., diz que pírtigo é a vara mais com-
prida ; no artigo sobre mangueira jà disse a minha opinião.
Poula, terreno inculto. Quando uma terra fica de pousio, tam-
bém se diz que fica de poulo. (Cp. Rev. Lusit., m, 64).
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BENZEDORES E FEITICEIROS
Puxa, moinha, grança.
Rôlaxnpo, mudança rápida de temperatura; súbito resfriamento
após intenso calor. Belampo nada tem com relâmpago, que no dialecto
se diz alustro.
Tanha, talha.
Zinzaro, espécie de cogumelo.
Zorro, a, filho ou filha natural.
Valpaços, 2 — xn — 1894.
Joaquim de Castro Lopo.
BENZEDORES E FEITICEIROS
DO TEMPO D'EL REI D. MANUEL
(8KOUL08 XY-XVl)
Em resultado da politica centralizadora, levada a cabo com vi-
gor pelos reis da 2. a dynastia, conservamos nos registos da chancel-
laria real uma pequena collecçâo de documentos relativos a benzedo-
res e feiticeiros, e o que é mais notável, algumas fórmulas para ben-
zer e uma serie de actos de feiticeria, por certo muito innocentes.
Âs cartas de perdão passadas a alguns indivíduos por benzerem,
a par de outras de privilégios para empregar igual processo, mostra
plenamente que esta classe de peritos estava considerada do mesmo
modo que os médicos e tabelliães : só lhes era permittido o emprego
da sua arte, quando para isso tinham licença real.
Áo contrário do que seria de esperar, a creação do tribunal do
Santo Officio não fez diminuir a principio muito a menção doestes ca-
sos nos registos das chancellarias reaes, d' onde são tirados os presen-
tes documentos ; só nos últimos tempos, faltando ao tribunal os chris-
tãos-novos, se dedicàrão com o maior afinco e pouco proveito à extir-
pação da feiticeria.
De 47 livros de registos que ha na Torre do Tombo, em Lisboa,
pertencentes á chancellaria de D. Manuel, fõrâo extrahidos os docu-
mentos que se publicam agora. Os outros reinados darão também do-
cumentos de não menor valor. ,
' No final da collecção irá um appendice contendo alguns casos de
feiticeria de pouca importância, noticias de jogos, pragas, etc.
P. d' Azevedo.
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330
REVISTA LUSITANA
I. — Dom manuell, etc. fazemos vos saber que fernftdeânnes, mo-
rador no logo de vimyeiro, termo d'alcobaça, nos Emviou dizer per
sua pitiçft, que pudera aver tres annos, ou quatro annos pouco majs
ou menos, que por dizer hu Joâ da gram que tynha licença por nosa
carta pera bemzer cõ alguaas palavras de noso sõr dizendo a ele so-
pricamte que asy tynha saber pera bemzer com outras palavras de
noso sõr, e que ele sopricante as dise e vsava de as dezer e Rezar
alguaas pesoas Emfermas e que has palavras, cõ que asy bemzia,
hera as segujntes :
«Em nome do padre e do filho e do esperito santo ame. a virge
«groliosa, samta marya nosa s. ra , nõ pario mays de hu filho soo, e
«virgé foy no parto e amtes do parto e despoys do parto, e ele por
«nos morte e paixa padeçeo e sft lomginhos lhe deu húa lamcada no
«seu verdadeiro lado, Inchou, ne currunyçeo, ne apodreceo, ne as cim-
cquo chagas que ele por nos padeceo. Por esta santa verdade lhe peço
«que saya a dor e emfermjdade deste corpo pecador pela sua santa
«piedade, pater nostre e ave maria a homra de deus e de santa ma-
«ria».
e que por bem das ditas palavras per verdade de noso sõr as pe-
soasReceberia saúde, sem por elo lhe levar premjo algún, segundo nos
delo fez çerto per tres estormétos de certida e fee de testemunha que
pareciã todos ser feytos e asjgnados per afonso pirez, publico tabe-
liam por nos e a vila de turuquell, os dous aos xbij dias do mes de
majo e hua aos xj dias do dito mes, todos da era presente de mjll e
qujnhétos e treze annos. Em os quaees se comtinham, amtre as outras
cousas e elas comtendas, que per as testemunhas forâ dito que hera
verdade que elle sopricante nõ levava nada por asy bemzer as ditas
pesoas segundo majs compridamente é os ditos estormétos hera con-
teúdo. Emviando nos ele sopricante pidir por merçee que lhe perdoa-
semos nosa Justiça, se nos a ele por Reza de asy bemzer cõ as ditas
palavras é alguaa maneira hera teudo e obrjgado, e nos vemdo o que
nos ele asy dizer e pidir Emviou, se asy he como ele diz e Recomta
e hy majs nõ ha, visto hos estormétos de fee e huu praz me per nos
asynado e queremdo lhe fazer graça e merçee, Temos por bem e nos
apraz de lhe perdoarmos nosa Justiça, a que nos ele por Reza de asy
bemzer cõ as ditas palavras hera teudo e obrjgado, com tanto que ele
pagasse mjll reaes pera a piedade e por quamto ele logo pagou os di-
nheiros a frey lujs da costa, noso esmoler, segundo delo fomos çerto
per hun seu asynado e per outro de marcos estevez, noso capela, es-
priva do dito careguo, que hos sobre ele caregou Em Receita vos ma-
damos etc. Em forma, dada Em lixboa aos xxbiij dias do mes de mayo.
El Rey o madou perdom pedro bispo da garda etc. e pelo doutor dom
diogo pinheiro, vigayro de tomar etc. alvaro gonçalvez a fez de mjll
e b* xiij annos.
(Livro de Legitimações, fl. 115).
II. — dõ manuell etc. sàude, sabede que pero ânnes, pisoeiro,
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BENZEDORES E FBITIOBIROS
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morador na maçeeyra, termo da vyla da batalha, quomo avera ora
dez ou doze ãnnos, que ele, por amor de noso senhor, bemzia alguas
pesoas, que lho pediam de quebrantos e ventres caydos e ysto por
lhe noso senhor dar graça pera yso e alguas vezes o fazia por oure-
los, se levar dyso nenhu premio, somSte lho fazia por o amor de Deus
e as palauras com que bemzia erâ estas a saber:
«e nome do padre e do filho e do esprito sfito: hun verdadeiro
4 deus, asy como ysto he verdade, asy sara este mall de foft (nomea-
ndo por seu nome)».
dizendo esto tres vezes com tres patres noster e tres avemarias
a omra de deus e da virgem maria e por bem desto era dito que o
fora acusar ao corregedor da comarca, por bem do qual caso elle so-
pricante anda amorado com temor das nosas Justiças e por ello 1
prenderé, emvyamdo nos elle sopricante pedir por mercê, que lhe per-
doasemos nosa Justiça, se nos a ella por Rezam de asy bemzer com-
tra nosa defesa e algúa gysa era teudo e obrigado e nos vemdo o que
nos elle asy x dizer e pidir emvyou, se asi he como elle diz e hy mais
nõ ha, visto húu pareçe com o noso passe e querendo lhe fazer gra-
ça e merçe, Temos por bem e nos praz e lhe perdoarmos nosa Jus-
tiça, se nos elle por Reza do dito casso era teudo e obrigado, com-
tanto que elle pagase dous mill reaes para pyedade e por quanto lógo
pagou os ditos dinheiros a diogo fernandez Cabrall, segundo deelo fo-
mos certo por hún seu asynado e por outro de marcos estêues que os
sobre os (alias: elle) pos Em Recepta vos mftdamos etc. 6 forma, dada
ê almeirym, aos xxij de novembro, el Rey o mandou poelo bispo da
garda e polo vigairo de tomar etc. tristft doliueira a fez anno de miU
e b° xiij.
(Livro de Legitimações, fl. 250).
IH. — dõ manuell (etc). saúde, sabede que Joam gonçalluez, mo-
rador na macieira, termo da villa de lerea, nos emviou dizer, por sua
pitiçã, que Iclinado pera bem fazer, por ser orne symplez e lhe pare-
çer que seruia a deus nyso, custumara, per vezes, de bemzer caipçer,
sem por yso leuar nenhún emterese, com as palauras seguintes :
cem nome do padre e do filho e do sprito. camçere cato, camçe-
«re acho, camçere elixga (?), com a graça de deus te mato. pater nos-
cter e auemaria».
bemzendo com estas palauras e com huus paoszinhos de funcho,
todo com anymo e tença de fazer bem, e ora lhe era dito que o mei-
rinho da coreiçam da estremadura e seus ornes querelará delle sopri-
cante as nosas Justiças, por asy bemzer. por a qual Reza ele sopri-
camte amdaua amorado, com temor das nosas Justiças o por ello pren-
deré; e Emvyando nos elle sopricamte pydir por merçe que lhe per-
doasemos nosa Justiça, se nos a ella, por Rezà de asy bemzer comtra
nosa defesa e ordenaça, en algúa maneira era tyudo e obrigado. E
i = ello o.
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REVISTA LUSITANA
nos vendo o que nos elle asy dizer e pidir emviou, se asy he como
elle diz e by mais nõ ha, visto hun pareçe com o noso pase e querem-
do lhe fazer graça e merçe, Temos por bem e nos praz de lhe per-
doarmos nosa Justiça, se nos a ella por Jtezft do dito caso, era tydo
e obrigado e comtftto que elle pagase iiij reaes pera piadade e por
quftto elle loguo pagou os ditos dinheiros a djogo fernandez cabrall,
segundo dello fomos çerto por huu seu asynado e por outro de mar-
cos estevez que os sobre os (aliás: elle) poos em Recepta, vos man-
damos etc. e forma, dada em almeirym, a xxij de novembro el Rey o
mâdou polo bispo da garda e polo vygairo de tomar etc, tristao (sic)
doliveira por Joan Lourenço a fez âno de mill e b° xiij.
(Livro de Legitimações, fl. 260 v.).
IV. — Dom manuell etc. saúde, sabede que bramca gyll, molher
velha e veuva, morador em lagos, nos emvyou dizer que ella com
bOoa emtençft e por lhe pareçer que Em ello seruya a deus, bemzya
alguus menynos e pessoas com bõas palauras e samtas de louuor de
noso Sflor sem por elo leuar premeo nem outra cousa algua, saluo
com bõoa emtemcam e por lho Rogarom alguuas pesoas e lhe parecer
seruiço de deus e noso, comtras nossas hordenaçõees e defessas em
comtrario dello feytas, por bem do quall amdaua amorada com the-
mor das nossas Justiças ho por elo averem de prender; Emvyamdo
nos elle sopricamte pydir por merçee que lhe perdoássemos nosa Jus-
tiça se nos a ella Em alguua maneyra era theudo e obrigado por Ra-
zam do que dito he; e nos vemdo o que nos elle asy dizer e pydyr
emyiou se asy he como ela Recomta e hy majs nam ha, vysto huu
noso praz me com ho nosso passe por ho quall nos proue perdoar a
dita sopricãte. E queremdo lhe fazer graça e merçee Temos por bem
e perdoamos lhe nossa Justiça a que nos ella era theuda e obrigada
por Raza de asy bemzer as ditas pesoas e cryamças comtra nossas
hordenações e defessas em comtrario dello feytas como dito he com-
tamto que ella pagasse quinhentos reaes pera pyedade e por quamto
ele loguo pagou os ditos quinhentos reaes pera pyedade a dom fran-
cisco, bispo de fez, que ora por noso espyçiall mâdado tem carguo de
noso esmoler, segundo dello fomos çerto por huu seu asynado e por
outro de amtonio alvez, noso capeiam, scripvam do dito carguo, que
os sobe elle pos em Recepta vos mandamos que daquy em dyamte a
nft prendaes nem mandes prender etc. em forma, dada Em a nossa ci-
dade de lixbõoa aos iiij 0 dias do mes de dezembro. El Rey ho mam-
dou por dom amrrique coutynho, fidalguo da sua casa, E por ho dou-
tor gonçalo dazeuedo, ambos do seu comselho E desembarguo e seus
desembargadores do paço. Johan aluez a fez anno do nasçimento do
nosso Snflor Jhuu x° de myll e b c e hu anno.
(Liv. 37, fl. 18).
V. — dom manuell etc. fazemos saber que afonso eanês sylmoso,
morador em santa Caterina dos coutos d'alcobaça, nos emviou dizer
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BENZEDOBES E FEITICEIROS
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per sua piticam, como a sua noticia vyera que as Reformações de no-
sas ordenações defemde que néhúa pesoa benza sem nosa autoridade,
e por quanto ele sopricante benzia cõ ho synall da cruz em nome do
padre e do filho e do esprito santo por entercessam da vergindade de
nosa sra cõ a oraçã do pater noster, e que muytas pesoas de muytas
emfermjdades Recebia saúde mediante a graça deujna, pello quall al-
gúas pesoas se secoriam a ele, por bem do qual ele sopricâte andaua
amorado cõ temor de ho prendere, emviando nos pidir por merçê que
lhe perdoasymos nosa Justiça, se nos a ela por Rezam de asy benzer
cõ as ditas palauras era teudo e obrigado ; e nos vemdo ho que ele
asy dizer e pidir eviou, se asy he como ele djz e bj majs nõ ha, vis-
to hum parece cõ ho noso pase, e queRendo lhe fazer graça e merçê
temos por bem de lhe perdoarmos nosa Justiça, cõ tanto que ele pa-
gase mjll reaes pera a piedade e por quãto ele loguo pagou hos ditos
dinheiros a frey luis da costa, noso esmoler, segundo delo fomos cer-
to por huu seu asynado e per outro de marcos esteves que hos sobre
ele caregou em Recepta, vos mftdamos etc. é forma, dada e lixboa a
onze dias do mes de Julho, el Rey ho m&dou pello- bispo da garda
e pello vigayro de tomar etc. aluaro gonçalvez a fez de I b° xiij
ânnos.
(Livro de Legitimações, fl. 144 v.).
VI. — Dom manuell etc. A quantos esta nosa carta virem, faze-
mos saber que ha nos dise afonso da costa, Escudeiro dei Rey meu
Snnor que deus aja, que noso Snnor por sua mysericordya E piedade
posera Em ele vertude de bemzer com palauras que hele dezya aos
moordidos de caees danados E asy quaeesquer anymalias E que por
vertude de noso Snnor Recebyam saúde E asy daua agoas ê muitos
logares neçesareos; E que husamdo das ditas cousas era Reprouado
e Imjuriado e que ja por yso fora preso e foy solto per sentença, se-
gundo vimos, Pedimdonos por merçe que lhe desemos alguu Remedeo
E Justiça E nisto como nas palauras que o dito afonso da costa sabee
e de que huusa sam muyto comformes a nosa samta fee, Mandamos
a todolos noso Coregedores, Juizes e Justiças, oficiaees e pesoas ha
que esta nosa carta for mostrada e o conhecimento delo pertemçer,
per qual queer guisa que seja, que daquy avante leixem ao dito afon-
so da costa liuremente huusar das ditas bençõoes e palauras samtas
e posa bemzeer quaees quer pesoas cõ helas E asy anymalias E asy
husar do achaméto das agoas, sem lhe por elo seer feito nenhuu nojo
nem sem Razam, mas amtes, pois noso Snnor o proueo da tamta ver-
tude E tam neçesarea, o omrrem E tratem e fauoreçam como cousa
nosa e de que gramde carguo temos o que de asy comprirdees vos
muyto agardeceremos e do comtrario nos desprasera e o dito afonso
da costa nõ huusara dadeuinhador nem doutras palauras Reprouadas.
dada é a nosa cidade de lixbboa a xxbiij 0 dias de Junho, el Rey e
princepe o mãdou. E a Snnora Raynha sua Irmfta gouernador por ele
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REVISTA LUSITANA
destes seus Reynnos e Snnorios asynou. Joam afonso a fez de mill e
iiij 0 IR biij° annos.
(Liv. 31, fl. 17 v.).
VII. — Dom manuell etc. saúde, sabede que Violante gill, mora-
dor Em a nosa villa de laguos, nos Emviou dizer que ella benzia húu
minyno e asy outras vezes outros de que nom era acordada, o que
ella fazia asy symprezmente por ser molher velha E nom dizia mais
que ho patre nostre e o credo per do quall se timia das nosas Justi-
ças de o por ello averem de premder E amdaua ora amorada; Em-
viando nos ella sopriquftte pidir por merçee que lhe perdoasemos nosa
Justiça a que nos ella era theuda e obrigada per Reza do caso e ma-
lefício. E nos vemdo o que nos ella asy dizer e pidir eviou se asy he
como ella dijs e hi mais nom ha, visto hú parece com huu noso pase
e queremdo lhe fazer graça e merçee Temos por be e perdoamos lhe
a nosa Justiça a que nos ela era theuda e obrigada por Reza do dito
caso E malefício, comtanto que ella pagase dozemtos- Reaes pera pia-
dade. E por quftto ella logup pagou os ditos dinheiros a dom francis-
co, bispo de fez, que ora te carguo de noso esmoler, segumdo dello
fomos certo per húu seu asynado e per outro damtoneo alvarez, noso
capela, scripvam do dito cargo, e ausemçea dalvaro fernamdez, outro
sy noso capela, scripva delle, que os sobre ho dito noso esmoler pos
é Recepta vos mandamos que daquy em diâte ha nom premdaes nem
mamdes prender etc. em fórma dada em & nosa cidade de lixboa aos
xbiij dias do mes de nouembro. EIRey o mamdou perdom pero, bispo
da guarda, seu capella moor etc. e pollo doutor gonçalo dazevedo, am-
bos do seu comselho, e desembarguo e seus desembargadores do paço
francisco dias a fez anno do nacimêto de noso Senhor Jhuu x.° de mill
e b° e hu.
(Liv. 46, fl. 97 v.).
VIII. — Dom manuell etc. Saúde, sabede que briatjz vaqueira,
molher de Joha vaqueiro, pedreiro, morador em a villa de laguos, nos
emviou dizer per sua emformaça que afomso pirez, Juiz de fora em a
dita villa, com poderes dalçada, ha mamdara premder por se dizer
comtra Ella que bemzia meninos sem ter licença pera yso e por tam-
to amdaua por ello amorada com themor das nosas Justiças por ello
averem de premder, emviamdo nos ella sopriquate Pidir por merçee
que por quanto seu padre c se finamdo lhe encomendara e mamdara
que quamdo quisese bemzer huzagre, bemzese primeiro huua pouca
daguoa é nome de deus padre e do filho e do samto esprito e tamto
que a dita aguoa fose bemta, tomase hu molho desparto e bemzese a
cryança que teue o dito huzagre, o que ella per algumas vezes asy
fezera cimprezmente com a dita temçft booa, sem outro algúu embar-
guo né maliçia, lhe perdoasemos nosa Justiça, se nos a ella c alguua
maneira era theuda e obrigada por Rezam do que dito he. E a mam-
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BENZEDORES E FEITICEIROS
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dasemos soltar; e nos vemdo o que nos ella asy dizer e pydir emviou,
se asy he como ella recomta e hy mais nom ha, visto húu noso praz
me asynado per nos o quall nos prouue de perdoar a dita sopriquâte
e a mandar soltar. E queremdo lhe fazer graça e merçee, Temos por
be e perdoamos lhe a nosa Justiça a que nos ella era theuda e obri-
gada por Rezfi de asy bemzer comtra nosas ordenações e defesas e
contrario dello feitas, como dito he, comtamto que ella pagase mill
rreaes pera piadade e por quâto ella loguo pagou os ditos mill rreaes
a dom francisco, bispo de fez, que hora per noso especiall mamdado
te carguo de noso esmoler, segundo dello fomos certo per huu seu asy-
nado e per outro daluaro fernamdez, noso capellâ, scripvâ do dito
carguo, que os sobre elle caregou é Recepta nos mamdamos que da-
quy Em diante a nom premdaes nem mamdes premder etc. em forma,
dada e a nosa cidade de lixboa aos seis dias do mes de nouembro.
ELRey ho mamdou per dom pero, bispo da guarda, seu capellft moor
etc. per dom amrrique coutinho, fidalguo da sua casa, do seu comselho
e desenbarguo, anbos seus desembargadores do paço. joam aluarez a
fez anno de mill e b c e húu annos.
(Liv. 46, fl. 117).
IX. — Dom manuell etc. fazemos saber a todolos corejedores,
Juizes, Justiças de nosos Reynos, a que esta nosa carta for mostrada
e o conhecimcto dela pretemçer, que bertolameu martjnz de firmjnham,
morador na cjdade de viseu, nos emujou dizer que por sua molher ca-
telyna pirez curar dargejros e os Juizes e veradores e porcurador e
homes bomos da dita çidade lhe deram huu prjujlejo do quall o teor
de verbo a verbo he o seginte :
câ quamtos esta nosa carta de priujlejo virem, fazemos saber
«que fernam dalurêz e amryque deluyro, escuderos fidalguos, cidadãos
«de viseu e Juizes ordenajros e ela E gill de figredo e galdim páiz
«E lopo afonso, escuderos cidadãos E veradores da dita cidade, E
«vasco fernãdez, mercador E porcurador e ela do comselho da dita
«cjdade, E vasco de moraees E gomçalo lopez e Joam do amarall E
«pero montjro E Joam de flgeredo E Jirdâo paiz E dioguo afonso
«tocho E diogo doreguõ, escuderos cidadãos da dita cidade, e homes
«bos da camará dela, fazemos saber que pola graça que deus noso
«senhor pos e deu a catelina pajz, molher de bertolameu martjnz, mo-
«rador em framjnhão, termo desta cidade, acerqua de bemzer dos
«olhos e tirar argejros que ela faz a todos aqueles que a chama e am
«mester, per cuja causa ela foy ja reqerjda pera viuer em outras par-
«tes, homde lhe faziam e mandauã fazer framqezas e libardades por
«la jr viuer, porem a nos aproue e apraz que por ela e seu marjdo
«viuerem no dito lugar de framjnham que he termo desta cidade,
«homde pode aporujtar com a dita graça aos moradores desta cidade
«e termo que a ouuerem mester, que ela e seu marjdo E todas suas
«cousas sejam escusos de fintas, talhas etc. Em forma feita em lisboa
336
REVISTA LUSITANA
t(sic) a zbiij dias do mes de Janeiro Jorge Lourenço a fez anno de
cmjU quinhentos anos».
dada em a nosa cjdade de lisboa aos zij dias dagosto sym&o de
matos a fez ano de mjl e b° e bij anos.
(Livro 9, fl. 34 v.).
X. — Dom manuel etc. 1 A quamtos esta carta de licemça virem,
fazemos saber que a nos veo maria gomez, molher de Joham aluares,
lavrador, morador na granja termo desta çjdade de lixboa, e nos disse
que sabia curar com o synal da cruz e com muitas hervas de mujtaa
doenças e que praticaram (sic) per lomguo tempo com hu mestre Ro-
drigo do macheyal e pera sermos Emformado de sua pratica e do que
ssabia, nos amostrou estromentos públicos com testemunhas neles pre-
gumtadas de curas e Remédios que fezera; E que por que nom podia
vsar de curar sem nosa carta, segundo nosa hordenaça, Nos pedia que
lha m&dasemos pasar e vysto per nos os ditos estrométos, mãdamos
ao noso fflziquo mór que a emgemjnase, segundo hordem e soficiencja
de seu Regimento, a qual a emgymjnara e dise que achara çerta em
muytos- Remédios e asy lhe dera synaes poios quaes conheçja mujtas
doenças e abastava pera curar na dita aldeã e algus logares derador,
homde nõ houvese fiziquo, e por assy achar çerta em muytos Remé-
dios em a dita sua aldeã e algus logares derador, omde nõ vivia fisy-
quo, e em quftto o hy nõ ouver, avera todalas homras, liberdades,
proees, precalços que pera sua soficjemçia e exzame deve dauer e asy
como o ham e de direito pertemçee as semelhantes pesoas de nosos
Rejnos per honra de sua çjençja, poré, ela nõ vsârà berazer per hou-
rello, por que vsando avera pena que mereçer per nosas hordenaço-
mes, E ela Jurom (sic) em a nosa chancellaria aos samtos avamjelhos
que com bõoa deligençja e asy bem e como deve esa comçjençja vse,
vse (sic) de sua çjemçja e Remédios que sabe tam Juteiramete ... a
serujço de deus e noso e bem do pouo ; e madamos a todolos oficjaes
e pesoas a que o conhecimento pertemcer, que ajam em a dita aldeã
por soflcjemte e auto pera curar e dar Remédios nõ avemdo hy fysy-
quo. dada em lixboa a iiij 0 dias de ffeuerejro. eelRej o madou per o
doutor mestre afonso, fysyquo môr todos seus Rejnos e senhorios,
gomez eanes a fez de jb° xbij anos.
XI. — Dom manuell etc. fazemos vos saber que mecia lopes, mo-
rador na marmeleira, termo da cidade de cojmbra, nos enviou dizer,
por sua pitiça, que ela bézia crianças de ventre caydo e quebranto e
asy ornes e molheres e lhe poynha eprastos com hú ovo e farinha e
quâdo asy bézya, dizia hún pater noster e hua ave maria e o credo
e esto fazia por amor de deus, noso senhor, fazedo todo contra nosa
defesa e ordenaça sobre tall caso feyta, pola quall Reza ela sopricate
i Á margem do registo: maria gomez, ofícjo de fisyqua.
(LÍV. 25, fl. 165 V.).
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BENZEDORES E FKTICEIBOS
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amdava amorada, com temor de nosas Justiças ho por elo préderé;
eviâdo-nos ela sopricftte pedir por merçe que lhe perdoasemos nosa
Justiça, se nos a ela, por Rezâ do dito caso, era theuda e obrigada.
E nos vedo o que nos -ela sopricftte asy dizer e pedir éviou, se asy
he, como ela diz e Recõta e hy mais nft ha, visto hu pareece por nos
asynado e querendo lhe fazer graça e merçee, Temos por bc e nos
praz de lhe perdoarmos nosa Justiça, a que nos ela por Rezft do dito
caso era theuda e obrigada, livremente se que nada pagase etc. e
forma, dada é almeirym, aos iiij dias de novembro, el Rey o mâdou
pelo bispo da guarda. Xpuft (christovãq) Lourenço a fez por Johft Lou-
renço de mjll eb fi e xiij annos.
(Livro de Legitimações, fl. 244 v.).
XII. — dom manuell etc. fazemos saber que alvaro pirez morador
e alcoimpre (sic), nos éviou dezer per sua petiçam que elle sopricante
fora preso na dita villa e acusado per francisco paez, meirinho das
terras do marquez (Villa Real), por contra elle dezer que elle sopri-
cante cõtra nosa defesa e ordenaçam talhada (sic) baço e figueira ba-
foreira. per be do quall se proçesara tamto e seu feito que elle sopri-
camte fora comdenado per vosa (sic) sentença de dous ftnos de degredo
pera cidade de cêpta, com pergam naudiencia, E mais que pagase ao
dito meirinho quereloso coatro mjll reaes de primcipal e custas, se-
gundo ver poderjamos per a sentença de seu livrameto que peramte
nos apresetar éviou esprita Em purgamjnho pasada pellos nosos ou-
vjdores que ftdam é nosa corte e casa do civell E aselada cõ nosso
sello pedete, a quall éxuquesft de degredo cõ pregft naudiencia e elle
gopricamte fora feita, segundo o ver poderjamos per huu termo que
nas costas da dita sentença vinha, que Recõtava ser feito e asynado
per Joham martjnz publico tabelliam é a dita vila dalcoétre, aos de-
zoito dias do mes de março do ano preséte b° xiij é o quall se cõti-
nha que (em) elle sopricamte fora feita a dita éxuquiçft de degredo
co pregft naudiencia, segundo e o dito termo era cõteudo, o quall prim-
cipall e custas elle sopricante paguara, satisfezera, segundo outro sy
ver poderíamos per hum conheçimento nas costas da dita sentença
vinha que Recõtava ser feito per o sobre dito Joam martjriz e asy-
nada per o dito francisco paez, meirinho, e asy por elle tabelliam aos
xiij dias do mes de março do dito era e o quall e outro sy se cõtinha
que elle dito autor meirinho Recebera delle sopricante todo o cõteudo
na dita sentença a saber: per esta maneira que elle Recebera delle
sopricante dous mjll Reaes que os outros i] Reaes e as custas lhe qui-
tava per amor de deus, segundo é o dito conhecimento era cõteudo;
E por quanto elle sopricante Recebia mujta perda da sua fazenda S
jr comprir (pedia) por merçe que e embargo de nfto ter começado a
servir o Relevasemos da servétia delles e nos vêdo o que nos ele asy
dizer e pedir éviou, se asy he como elle diz e Recõta e hy mais nft
ha visto a sentença de seu livrameto e o termo de como é elle fora
feito éxuquiçft do pregft e satisfaça da parte e huu praz me cõ nosso
REY. LUSIT., YOl. III, faSC. 4. 4
338
REVISTA LUSITANA
passe e querédo lhe fazer graça, merçe; temos por bê e nos apraz de
o Relevarmos como de feito Relevamos da serventia dos ditos doas
annos de sen segredo, e que asy fora condenado pera dita cidade de
cépta, se ebargo de nõ ter começado a servir cõtamto que elle pa-
gasse outo mjl Reaes pera piedade e por quanto elle loguo pagou os
ditos dinheiros a frey luis da costa, nosso esmoler, segundo dello fo-
mos çerto per hun seu asynado e per outro de marcos estevez, espri-
vfio do dito careguo, que os sobre elle pôs c Recepta, vos mãdamos
etc. c forma, dada em lisboa a xiij dagosto. el Rey o m&dou pello
bispo da garda etc. e pello vigayro de tomar etc. afomsso fernandez
o fez de b c xiij.
(Livro de Legitimações, fl. 174).
XIII. — Dom manuell etc, fazemos sabêr que maria gonçaluez,
molher veuva, morador em o llugar de carregoso do termo da cidade
de vyseu, nos emujou dizer por sua pytiçam que avera ora dons an-
nos, pouquo majs ou menos, que per noso mandado os Juizes da dita
cidade tirará devasa sobre certos casos, amtre os quaaes era hum
dellés sobre feytecerjas, e a quall devasa que asy tiraram cullparam
ha ella sopricamte allgvmas pesoas, dizendo que ella sopricamte bem-
zya de vemtre caydo e de bichoquo e do baço e que pasaua os doem-
tes per hum arco de trovysquo e que semdo asy tirada a dita devasa,
sem embargo delia, hum pero gomez de mello, mejrjnho que ora era
em a dita cidade, querellara delia sopricante as nosas Justiças di-
zemdo é sua quereUa que ella sopricamte era bemzedeira e bemzya
comtra nosa defesa e ordenaçam e sem nosa Licença e do priorado e
de seu vigairo e que por ello emcorrera em penna de Justiça, per
vertude da quall querella e deuasa ella sopricante fora presa, como
ora estaua e a dita cadea da cidade de viseu, e o dito pero gomez,
meirinho, acusaua e dera comtra ella Ujbello e andaua a feito semdo
Ja sobre ello proçeso ordenado e ella sopricamte dizia que era uer-
dade que bemzera allgun tempo de bichoquo, que he bicho da parede,
e asy de vemtre caido e do baço e allgúuas pesoas cfermas pasana
per trovisqueiras atadas dizemdo a oraçâ do oremos omnipotes sem-
piterna deos etc. e a oraçam do amjo sam grauuiell e asy aos êfermos
punha emprasto no vemtre e letras de covas. Emvyamdo nos ella so-
pricante pidir por merçee que sem embargo destar presa lhe perdoa-
semos a nosa Justiça se nos a ella por Rezam do sobredito caso ê
allguua guisa era tenda obrigada e nos vemdo o que nos ella sopri-
cante dizer e pidir Enviou, se asy he como ella diz e Recomta e hy
mais nam ha, visto hú praz me com noso pase e queremdo lhe nos
fazer graça e merçe temos por bem e nos praz de lhe perdoarmos ha
nosa Justiça sem embargo destar presa a que nos ella por Rezam do
sobredito caso era teuda e obrigada com tamto que ella pagase dous
mjll reaes pera piadade e por quanto ella Hogo pagou os ditos dinhei-
ros a frey luys da costa, noso esmoller, segundo dello fomos certo por
hú seu asynado e per outro de marcos esteuez, noso capellft, e scripvon
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ÔENZEDORBS b feiticeiros
do dito cónego, que hos sobre elle pos Recepta vos mandamos etc.
em forma, dada en Uixboa a xix dias do mes de Janeiro, elRey o
mandou pollo bispo de funchall e per dõ pero de menezes etc. afonso
fernandez por Jordam lourenço a fez de mill b c xbij annos.
(Liv. 47, fl. 1430).
XIV. — Dom manuell etc. saúde sabede que vasco gonçalvez
tores, morador é a vila de viana, nos èviou dizer per sua petiçam,
que averia muitos ftnnos, que elle soprícamte vsaua e fazia a muitas
pesoas doetes algúuas cousas cousas (sic) pera suas saúdes a saber:
esfregado lhe os braços e pernas e outros nébros de seu corpo e asy
lhe mamdaua por algúuas bymas demcenço e almocega e doutras cou-
sas e asy algúuas pesoas e omees e molheres e criamças pequenas
que erft doemtes de baço, e que lho talhaua e bemzia, pasamdo os por
hun sylvam noue vezes e com noue pater nostres e noue avemarias,
e que asy lhe fazia e mãdaua fazer peras ditas doéças alguns lej-
toairos de aypo e de salsa e doutras cousas, e que as ditas pesoas
se achauft bem; e lhe fazia todo por amor de deus, sem diso leuar
nenhúu proueyto, ssomente se algúua das pesoas lhe dauft algúua era
algúu queixo e cousa de comer por suas cortesyas, e que ora o mei-
rinho da coreiçâ damtre tejo e o dyana querelara dele sopricante, por
bem do quall elle andaua amorado cõ temor de ho prendere, emviamdo
nos pidir que lhe perdoasemos nosa Justiça, a que nos era obrigado
pello que dito he. E, nos vendo o que nos elle asy dizer e pidir
Ivyou, se asy he, como elle diz, e hy majs nõ ha, visto hun prazme,
e querendo lhe fazer graça e merçee, temos por bem, lhe perdoarmos
todo, cõtanto que pagase líj reaes pera a piadade, e por quftto logo
pagou os ditos dinheiros a frey lujs da costa, noso esmoler, segundo
vjmos por huu seu asynado, e por outro do scripvam jde seu cargo
que hos sobre elle pos c Recepta, vos mamdamos etc. em forma, dada
é lixboa aos biij dias dagosto. el Rey o màdou pello bispo da guarda
e pello vigairo de tomar, aluaro gonçallvez a fez de myll e b° xiij.
(Livro de Legitimações, fl. 185).
XV. — Dom manuel etc. fazemos saber que maria afonso, veuva,
morador em a vila de sfttarem, nos eviou dizer per sua pitiçâ, que
Indo ora ter a dita vila de sâtarê o noso coregedor da comarca, per
via de coreyçâ, o meyrinho d&te ele querelara dela sopricante, dizendo
que cõtra nosa ordenaçã e defesa benzia ornes e molheres e menjnos
de quebranto e doutras dores, cõ palauras, cõpoedo, hú ouRinoll cheo
dagoa e a cabeça cõ a boca per bayxo pera tirar ho soll, e asy hua
tigela dagoa na cabeça cõ quatro goteyras dazeyte pera saber se era
mall descõmúgado, e boçijava e abria a boca, dizedo que todo mall se
metia no corpo e tirava do éfermo, e asy fazia outras muytas agu-
zoes (? abusões) semelhantes; e ora ela sopricante por Rez& da dita
queRela estava presa na cadea do dito coregedor, emviando nos ela
sopricante pidir por merçê, que lhe perdoasemos nosa Justiça, se, nos
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340
REVISTA LUSITANA
a ela por Rezft de asy bemzer e fazer as sobreditas cousas contra
nosa defesa sé ebargo de estar presa, e algúa gujsa era tenda e obri-
gada; e nos vendo ho que nos ela asy dizer e pidir emviou, se asy he
como ela diz e Recõta e hj majs nã ha, visto hum praz me cõ noso
pase, e queRendolhe nos fazer graça e merçê, temos por bem e nos
apraz de lhe perdoarmos nosa Justiça, sem ebargo destar presa, cõ-
tanto que ela pagase dez cruzados pera a piedade e seja degradada
fora da dita vila por seys meses e por qu&fto) ela logo pagou a frey
lujs da costa segúdo delo somos serto por hu seu asynado e por outro
de maços (sic) esteves que hos sobre ele caregou ê Receyta vos mft-
damos etc. c forma, dada e evra a xbiij dias de março. elRey ho mâ~
dou pello bispo da garda e pello vigayro de tomar etc. tristâ doli-
veira a fez de mjll e b° xiij ânnos.
(Livro de Legitimações, 19. 57 v.).
XVI. — Dom manuell, etc. saúde sabede que branca ftnes, molher
de Joham da lousada, morador em esta nosa cidade de lixbooa, nos
emviou dizer que, per o dito seu marjdo lhe dar maa vida e andar cõ
molheres, fezera dello queixume a alguas molheres e que hua das di-
tas molheres lhe disera que lhe darja húa cousa, cô que fezese bõaa
vida com elle e que lhe dera húa Imagem de çera, dizemdo que era
sam lomgujuhos e lhe disera que a metesse de ssobacabeçeira da cama
e ella o fezera asy e, temdo o dita Imagem de ssoba dita cabeçeira,
o dito sseu marido a achara e a amostra^ a alguas p" (pessoas) da
vizinhamça, péllo quall andaua ora amorada, cõ temor das nosas Jus-
tiças de a por ello auerem de premder. Emujamdo nos ela ssobpricãte
pidir por merçee que lhe perdoasemos a nosa Justiça, sse nos a ella
em algua gujsa era theuda e obrjgada por Rezam do dito casso e
mallafiçio etc. e nos vemdo o que nos ella ssobpricante asy dizer e
pidir cviou, sse asy he como ella diz e hy mais nõ ha, visto huu praz
me per nos asynado e querendo lhe fazer graça e merçee, temos por
bem e nos praz perdoar, como de feito perdoamos aa dita ssobpricãte
nosa Justiça, a que nos ella era theuda e obrjgada por Rezã por Re-
zam (sic) do dito casso e mallafiçio, cõtanto que ella pagase tres mjll
Reaes pera a piedade e por quanto ella logo pagou os ditos dinheiros
a dom francisco, bispo de fez, que ora tem carrego de nosso esmoller,
segundo dello fomos çerto por huu seu asynado e per outro daluaro
fernandez, nosso capellam, escripuã do dito carreguo que hos sobre
ell pos e Recepto, vos mamdamos que daquj c djante a nõ prendááes
ne mandees prender e etc. em forma, dada e a nosa cidade de lixboa,
aos xij dias do mes de mayo. el Rey o mâdou pello bispo da goarda,
sseu capellam moor, e pêllo doutor gonçalo dazeuedo, ambos do sseu
conselho e descbarguo e seus desembarguadores do paaço. francisco
diaz a fez, ânno nacjmento de nosso Sflnor Jhu x°., de mjll e quj-
nhentos e huu ãnos etc.
(Liv. 45, fl. 122 v.).
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ÉENZKDORKS Ú FK1TICÈ1KOS
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XVII. — Dom manuell etc. saúde, sabede que margarida aluarez,
molher de lujs gonçaluez, carpenteiro, morador em esta çidade, nos
emviou dizer que estamdo huu dia a molher de Joham lousado em
sua casa e asy outras mujtas molheres, por sseren suas vizinhas, a
dita molher de Joham lousado lhes viera a fazer queixume, como
leuaua maa vida cõ o dito sseu marjdo por Respeito de húua mam-
ceba que tynha; e que hua xpfta (christã) noua que hy estaua lhe
dissera que lhe emsynarja hua deuaçam, cõ que ella esteuesse bem
cõ o dito sseu marjdo, e que, a cabo de dia, a dita xpâa noua man-
dara a ella ssobpricante húa jmajem de çera com huu paujo e que
ella sobpricâte a desse aa dita molher de Joham lousado, dizendo lhe
que era sam longujnhos e que a metesse ella debaixo da cabeçeira ao
dito sseu marjdo, dizendo lhe çertas auemarias aa honrra de nossa
Sflra que Rogasse a deus que asy como per mjllagre abrjra os olhos
de sam lomgujnhos, asy os abrjsse ao dito sseu marjdo que bem
viuese com ella, pôilo quall vendo ela ssobpricante, como todo era
pallauras de deuaçam, tomara a dita Immajem e a dera aa dita mo-
lher de Joham lousado, dizendo lhe asy todo como a dita xp&a noua
lhe disera que lhe disesse, o que ella dita molher de Joham lousado
fezera e por ello lhe Era dito que alguas persoas a culparõ na de-
uasa dizendo que ella ssobpricante cometera .é ello feitiçoos e por
ello andava ora amorada, cõ temor das nosas Justiças de auerem de
prender, emviando nos ella ssobpricante pidir por merçe que lhe per-
doássemos a nosa Justiça, sse nos a ella em allgua gujsa Era theúda
e obrjgada por Rezam do dito casso e mallefiçio; e nos vendo o que
nos ella asy dizer e pidir emviou, sse asy he como ella diz e hy majs
nam ha, visto hu praz me per nos asynado e querendo lhe fazer gra-
v ça e merçe, temos por bem e nos praz perdoar, como de feito perdoa-
mos nosa Justiça aa dita sobpricâte, a que nos ella Era theuda e
obrjgada por Rezam do dito causso e maliafiçio, cõ tanto que ella pa-
gase tres mjll Reaes pera a piedade e por quanto ella logo pagou os
aitos dinheiros a dom francisco, bispo de fez, que ora tem carrego de
noso esmoller, segudo dello fomos çerto per huu seu asynado e per
outro daluaro fernandez, nosso capellã, escripuã do dito carreguo, que
os sôbe elle pos é Recepta, vos mamdamos que, daquj ê djante, a nõ
prendaaes, nem mamdees prender, etc. em forma, dada c a nosa çi-
dade de lixboa, aos xbjj dias do mes de mayo. EIRey o mftdou pêllo
bispo da goarda, sseu capellam moor, etc. E pêllo doutor gonçalo
dazeuedo, ambos do seu conselho e dessembarguo e seus dessembar-
gadores do paço. francisco diaz a fez anno do nacjmento do nosso
Sílor Jhu x.° de mjll e qujnhentos e hu ãnos.
(Liv. 45, fl. 117 v.).
XVIII. — dom manuell etc. fazemos saber que Ines eânnes, mo-
lher de gaspar aluarez, marynheyro que a tres annos que amda na
índia em noso serujço, nos emviou dizer per sua pitiçam que por lhe
futare (sic) certo dinheyro, ela sopricamte cõ outra lamcara húa Iueyía
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àíVlSTA LUSITANA
pera saber quem ho fartara e, que por quamto, lhe era dito que nos
dávamos pena, a quem tal cousa fazia, parecedo lhe que por tal cou-
sa nõ avia defesa algua, ela avia Reçeo e se temja de ser presa e
andaua por elo amorado (sicj, emviando nos pedir por merçê que lhe
perdoasemos nosa Justiça, se nos a ela em algua gujsa era teuda e
obrigada por Rezam de asy lamçár sortes cõ a dita Jueyra; e nos
vemdo, ho que nos ela sopricamte asy dizer e pidir emviou, se asy
he como ela diz e hy majs nõ ha, visto hum pareçe cõ ho noso pase
e queremdo lhe fazer graça e merçe, temos por bem e perdoamos lhe
nosa Justiça a que nos ela era teuda e obrigada por Rezam das sor-
tes que lamcou cõ hua Jueyra, cõ tamto que ela pagase jb* Reaes
pera pyedade e por quanto ela logo pagou hos ditos jb c reaes a frey
lujs da costa, noso esmoler, segundo delo fomos certo per hum seu
asynado e per outro de marcos esteves a que hos sobre ela caregou
em Recepta, vos mandamos etc. em forma, dada em lixboa aos bj dias
do mes de Junho. EIRey ho m&dou per dom pedro, bispo da garda,
etc. e pelo vygayro de tomar etc. djogo laço a fez de mjll e b 6 xiij
annos.
(Livro de Legitimações, fl. 73 v.).
XIX. — Dõ manuell etc. fazemos saber que maria femãdez, presa
no limoeiro desta cidade de lixboa, nos emviou dizer per sua pitiçft
que poderia ora aver dous annos, pouco majs ou menos, que sendo
ela solteira e queremdo bem hú orne e estamdo desavimda delle lhe
diserft que húa branca martinz sabya lamçar sortes e lhe diria se lhe
queria a ela alguu bem e ella sopricante, como molher moça e que na
sabia nada nS de nosas hordenaçõees, se fora a ella e lhas lamçara e
tâto que viera, ella sopricante as mostrara aas suas vizinhas, na cuy-
dando que niso fazia alguu mall, e que logo dy a muito pouco se ca-
sara cõ hu bombardeiro que hora he c noso serujço ê busca do ouro
que foy tomado dos framçeses da caravella da mjna e sendo elle asy
partido, per estas de vasas e que nos mftdamos tirar, as ditas suas
vizinhas a culpara nas ditas sortes e por ello a prenderá e que por
quanto naquelle tempo ella era solteira e agora he casada e asy por
o dito seu marido ser e noso servjço e asy por ella fazer Inocemte-
mente e agora estar muito doente a morte e por o dito seu marido a
na achar por jso presa, nos pidia por merçe que lhe perdoasemos a
nosa Justiça, a que nos ella hera teuda e obrjgada por Reza das di-
tas sortes, sem ebargo destar por ello presa; e nos vemdo o que nos
ella sopricante asy dizer e pidir Emviou, se asy he como ella diz e
hy majs nõ ha, visto hú noso praz me per nos asinado e queremdo
lhe fazer graça e merçe, temos por bem e nos praz perdoar a dita
sopricamte, se ébargo de ser presa, cõtamto que hela pagase dous
mjll reaes pera a piedade e por quamto ella logo pagou os ditos dous
mjll reaes a frey lujs da costa, noso esmoler, que hos Recebeo se-
gundo vimos por huu seu asinado e per outro de marcos estevez, noso
capela, espriva do dito esmoler, que sobre elle os pos e caregou Em
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BENZBDORES S rEITTGEIÉOg
34á
Receita, vos mamdamos etc. c forma dada em lixboa aos xxb dias do
mes de Julho, el Rey o mftdou per dom pedro bispo da garda etc. e
per dom diogo pinheiro, vigayro de tomar etc. diogo laso a fez de
mjll e b° xiij.
(Livro de Legitimações, fl. 158).
XX. — dom manuell etc. fazemos saber que pero diaz, morador
em a villa daueiro, nos éviou dizer por sua pitiçft que no ano de
b e e bij, sendo visytador hú gonçaio da syllva, crelygo na dita villa
mandara poer hua c. a (Caiharina) martinz, fcmyliqueta, e hua marja
gonçalvez, pee de porquo, com corochas na Igreja da dita villa de
sam migell com hum pregft dizemdo:
Justiça que manda fazer o bispo de cojmbra que mamda degra-
dar estas molheres por feiticeiras e alcovy teiras e defamadeiras de
bõas molheres e filhas de bõos homées.
e por que ele etam aly era ouujdor em ausência dos Juizes e nft acu-
dir por nosa parte, ele ouuera por elo de nos perdam e no propyo
ano, sendo preso huu aluareanes çurrador, que emtft era alcaide, por
o mesmo caso, ele sopricamte fora testemunha S o feyto do dito al-
caide, e que testemunhara que vira jr com sua pesoa as ditas molhe-
res com o dito pregam e que hora o ano pasado de jb° e xiij sedo
preso huu pero ferreira, tabaliâ, por a dita causa ele sopricamte tes-
temunhara que tamto que vira deus logo se fora pera sua casa e
nam vira mais, salvo quanto ouujra dizer, que fora com o dito pre-
gam e nam testemunhara como fora em sua pesoa, como testemunhado
tynha no publico testemunho do feito do dito aíuare eanes, alcaide,
nã se lébramdo de como testemunhado tynha no dito feyto por aver
muito tempo que ho testemunhara; e por be do dito testemunho ele
sopricante ftdava amorado com temor de nosas Justiças Temos
por be e nos apraz de lhe perdoarmos a nosa Justiça, a que nos ele
por Rezft dos ditos testemunhos era theudo e obrigado, com t&to que
ele pagase tres mill reaes pera a piedade e por quanto ele logo pa-
gou os ditos dinheiros a diogo fernandez cabrall, noso capelâ, que
hora te cargo de noso esmoler, segundo delo fomos çerto por huu seu
asynado e por outro de marcos estevez, noso capelão, esprivâo do dito
cargo, que hos sobre ele pos c Recepta, vos mftdamos etc. em forma,
dada em sfttaré a iij dias de feuereiro el Rey o mandou pelo bispo
da guarda etc. e pelo vigairo de tomaar etc. Xpuft (Christovão) lou-
rcço a fez ano de mill e b° e xiiij.
(Livro de Legitimações, fl. 289 v.).
XXL — dom Manuell etc. saúde, sabede que pero ferreira, ta-
belliam na vila daueyro, nos emviou dizer, per sua pitiçam, que ele
he preso na dita vila, por hua querela que dele deu huu fernam da-
fonso, morador ém mortagoa, dizemdo que hua maria gonçalvez e c. a
(Catarina) martinz, que foram presas na dita uyla por feyticeyras,
averia sete annos, as quais Joam da sylua, visitador bispo de coym-
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ÊEVIST A LUSIÍANÁ
bra, mandou por na Jgreyja com crochas na cabeça e dali as manda-
ra lenar pela nyla com pregam que dizia: Justiça que manda fazer o
bispo de cojmbra; e que ele soprícante fora por elas a cadea e asy
fora lemdo hos pregões e autos, a qual querela ho dito fernam dafonso
afirmara dar por eforraaçom da dita maria gonçalvez, como seu pa-
rente que dizia que era, decrar&do a dita maria gonçalvez, per Jura-
memto que lhe fora dado pelo Jujs, que tal nõ mamdara fazer né a
(sic) conheçia e por se ho dito quereloso ausemtar e nõ ser achado,
se posera libelo por parte de Justiça na nosa casa do çiveU e se pro-
cedera tanto em seu feyto que fora comtra elle sopricamte dada sen-
tença que cõ huu pregam na audiência, fose degradado húu anno
pera ceyta dizédo majs ele sopricamte que por ele ser homem
doemtio, mal desposto, ele no podya hir seruir o dito degredo
Temos por bem e nos apraz Èeleuar ho sopricamte deste degredo e
pregam, sem embargo de ser preso, cõtanto que ele pagase b Reaes
pera a piedade e por quãto ele loguo pagou hos ditos dinheiros a frey
lujs da costa, noso esmoler, que ho Recebeo, segundo vimos, per húu
seu asynado e per outro de marcos esteues que hos sobre ele caregou
é Recepta, vos mandamos etc. S forma, dada ê lyxboa a biij° dias de
Junho EIRey ho mâdou pelo bispo da guarda e pelo vigairo de to-
mar etc. diogo laço a fez de mjll b° xiij annos.
(Livro de Legitimações, fl. 120).
XXII. — Dom manuell etc. saúde sabede que gonçalo afon-
so, morador em nugueira, termo da cidade de bragança, nos en-
viou dizer que avera ora oito ou nove annos, pouco majs ou
menos, que ell fora preso na cadea e prisã da dita cidade por
o culparê em hua deuasa por feiticeiro dizendo que dava eruas co-
lhidas dia de sam Joham aos homes pera averé graça cõ sseus se-
nhores e as molheres cõ sseus marjdos e bê asy que bczia dolhado
por be da quall devasa elle ssobpricamte fora preso e fora sseu feito
asentenciado, no quall fora comdenado é pena da coutes publicamente
e apellarõ os Juizes por bê da Justiça, o que todo asy pasara ê tempo
dei Rey dom Johâm que deus te e que estamdo o feito nestes termos
elle viera a fogir da dita cadea com outros pressos que é ella estavã
e andara por todo amorado nos Regnos de castella e por sseer homé
prove e velho de ydade lRb ou çem annos e de tall desposiçâ que
sse nõ poderá mâteer sse viera e sse metera a servjr nosso sõr ê
hua hermjda que chama santa maria da Ribeira, que he hú monte
honde sse faz grande Romaje, e estevera hy ssejs annos continua-
damente e estando asy na dita hermjda o prederõ outra vez e o trou-
xerõ a prisâ da dita cidade homde ora estava presso e avera hú âno
que estava na dita prisãao e que o tabeliam que o dito sseu feito
tynha era Ja morto e o dito feito sse nom achava né Jso mesmo a
apellaçft e estava ora sseu feito como o primeiro dia que fora presso ;
énviando nos elle sobpricâte pidir por merçee que nos aprouvese vista
sua ydade e maa desposiçã de lhe perdoarmos nosa Justiça, sse nos
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BBNZEDORES K FEITICEIROS
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a elle é algúa gjsa era theudo e obrjgado, asy por Rezõ dos ditos
cassos e malleflcios, como polia fugida da cadea de que asy fugio
como dito he e o mãdassemos soltar etc. e uos vemdo o que elle asy
dizer e pidir eviou, sse asy he como elle diz e hy majs nõ ha visto
hu praz me por nos asynado e queremdo lhe fazer graça e merçee
termos por bc e perdoamos lhe a nosa Justiça a que nos elle era
theudo e obrigado por Rezã dos ditos cassos e mallafiçios e fogida
da cadea de que asy fogio, posto que seja presso, cõtamto que elle
pague mjll Reaes pera piedade e por quanto ell logo pagou os ditos
dinheiros a dom francisco, bispo de fez, nosso esmoller, segúdo dello
fomos çerto per hú sseu asynado e peroutro dantonio alvez, nosso
capellã e escripuã do dito carego que hem aussencia dalvaro fernandez
ontro sy nosso capellã escripuã delles que os sobredito nosso esmol-
ler pos ê Recepta vos mãdamos que daquj e djãte o nõ prendáaes
majs por os ditos casos e mallafiçios e fugida da cadea de que asy
fugio e o faze logo soltar sse por ali nõ he preso etc. é forma, dada
ê a nosa cidade de lixbõoa aos tres dias do mes de fevereiro. £1 Rey
o mâdou per dom pero, bispo da garda, sseu capellã mor etc. e pello
doutor gonçalo dazevedo, âbos do sseu conselho e dessebargo e seus
desebargadores do paço, francisco diaz de gouvea a fez ftno de nacj-
mento de noso senhor Jhu x.° de mjll e b c ij anos.
(Liv. 37, fl. 130).
XXIII — dom manuell etc. A quantos esta nosa carta viré, fa-
zemos saber que a nos disserão ora que antonio Ruyz noso meirinho
na comarqua e correiçom da estremadura, fazera taes erros no dito
seu oficyo per omde o com direito devya perder a saber
e que demandava homeens por Joguos defesos e amte de seré côde-
nados, se cõcertava cõ elles e lhe fazia cõfesar todo em Jujzo e per
bem do dito cõfeso eram cõdenados e elle lhe levava toda a dita c3-
ãenaçon per Juteiro e que na batalha se fora a hua Honor
ajres, mulher de hu gonçalo Rujz tecelão, dizendo qúe avia de que-
relar dela por barregãa de huu Joham de Leirea, frade, sendo ella e
o dito frade muito velhos, e ella com medo e por se nõ ver em ver-
gonha lhe dera dous f doi (cruzados) por que se calase. It. que de-
mãdou huu moleiro que vive na Ribeira da batalha por feytyceiro' E
semdo chegado a Joham doliuença, morador em Leirea, lhe falou por
elle e elle o leixou de mâdar. E por yso levou quinhemtos rs. It. que
na dita villa de leirea andava por as casas dos homês e molheres ca-
sadas dizemdo que avia de querelar delias e de seus marydos por
barregueiros e feitiçeiros e feitiçeiras por que lhe desem alguua cousa
por ho leixar de fazer. E que sabemdo Rodrigo ajres, Jujz que em-
tam era, tudo, mãdara diso fazer auto. It. que na Ribeira da maceira,
termo da dita villa de Leirea, se fora a húa maria ftnes, hy morador,
e lhe disera que lhe dese myll rs. se não que querelarja de seu ma-
rydo por feytiçeiro e ella lhosdera. E que tamto que os teve lhe deu
Juramento que o nõ disese a nynguen e dizemdo o ella a seu marjdo,
346
REVISTA LUSITANA
querédo os elle demãdar, lhe posera tall medo por homde elle o lei-
xara de fazer It que demãdava mujtas pesoas por dizer que cõpra-
vom gados sem cartas de vyzynhâça e depois de çitados amte de aver
sentença, se cõcertava cõ ellas E despois de aver o dinheiro do com-
çerto os fazya jr cõfesar a Jujzo ; E por o dito confeso os cõdena-
vom E elle lhes levava toda a dita condenaçam áiem do que tinha
ávido do dito cõcerto, asy como fez ao teçelam, amo de pero barba,
e a pero gonçalvez, tecelam de peças, E ao mazmarro e Jorge pirez,
vinagreiro das cortes, E ao capateiro e carnjceiro da batalha e a ou-
tros It que Recebe mujtas peitas de crelignos da dita cidade
(Coimbra) por lhe nõ prender as mancebas asy como fez ao prior de
botão que lhe levou bj° rs. por lhe nõ prender a mãçeba e pollos
quaes erros perde pera nos o dito oficio E nos ho podemos cõ
direito daar a esteva gonçalvez
Dada em a nosa villa dalmejrjm a xxiij dias do mes de novem-
bro amdre pirez a fez fino de noso senhor Jhn x° de j b c xiiij.
(Liv. 15., fl. 179 v.).
XXIV. — Dom manuell etc. saúde, sabede que alvaro gonçalvez,
(morador) en sam Johft da pesqueira, nos enviou diser que sendo elle
tomado do Immigo, como ajmda agora era e fazemdo cõ elo muitas
travessuras, elle cõ desacordo e como homé que nõ estava e seu
acordo, tomara hua pedra pera dar cõ ella a hú alvare anes, tendei-
ro, Juiz que ent& era no dito logo de sã Johã, e que asi tomado do
Imigo e sendo Juiz hú Joane anes de beja no dito logo o quisera
prender por quebrantar, ele sopricamte tomara hua pedra pera lhe
dar cõ ela sem a Reraesar né ao dito alvare anes, e que se temia de
nosas Justiças do prenderS por ello e amdava por elo amorado e que
por elle asy ser adorado e tomado do Imigo e os ditos Juizes sabe-
rem que elle tomava as ditas pedras nõ estado em seu acordo lhe
perdoaram segundo o ver poderíamos per dous estormentos p(ublic)os
de perdã que perante nos apresentar éviou, que parecia ser feitos e
asiuados per francisco anes, tabelliam na dita villa de sã nhoane de
pesqueira aos xiiij dias do mes de Julho do ãno pasado de iiij* lRb
ãnos nos quaes se comtinha, antre as outras cousas, que pelos ditos
alvare anes e Joane anes, Juizes, fora dito que eles perdoava ao dito
sopricãte e o nõ queriam acusar né demãdar por rrezã do dito male-
fiçio etc. e asj se comtinha em outro estormento feito e asinado pelo
dito tabelliam que ho dito sopricãte era adorado e tomado do Imigo
etc. segundo mais cõpridamente nos ditos estormentos era contendo.
Pidimdo o dito sopricamte por mercee que lhe perdoasemos a nosa
Justiça, se nos a ela por rrezã dos maleficios é algua gisa era teudo,
e nos vendo o que nos elle dizer e pedir enviou, se asy he como elle
diz e hi mais nõ ha, vistos os perdoes das partes e a certidão de sua
Sfermidade e querendo lhe fazer graça e mercee, Temos por bem e
perdoamos lhe a nosa Justiça a que nos elle, por Resam dos ditos
maleficios, era theudo cõtãto que elle pagase seiscentos Reaes pera
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MISCBLLANEA
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arca da piadade e por quanto ele logo pagou os ditos dinheiros a frey
fernãdo, noso esmoler que tem cargo dos Receber, segumdo delo fo-
mos certo por seu asinado e dalvaro fernandez, noso capeiam scrípuft
do dito ofiçio, que hos sobre elle pos em Recepta mâdamos que daquy
em diâte o nõ prendaes ne mãdes prender etc. em forma, dada em a
nosa villa de palmeia biij dias do mes dabríll. el Rey ho mãdou po-
ios doutores pero vaz seu capela moor e vigairo de tomar e fernft
Roiz, daiã de coimbrã, ambos do seu conselho, desembargadores do
paço. Johã afonso a fez ano de noso senhor. Jhú x.° de miliiij 0 lRbj.
(Liv. 33, fl. 37).
MISCELLANEA
I
UMA PASSAGEM ESCURA DO «CHRISFAL»
Nas muito afamadas trovas de c Chrisfah, magistralmente reedita-
das e commentadas por A. Epiphanio da Silva Dias \ ha uma estro-
phe difflcil, que jà deu margem a diversas interpretações. E' a 42.*
Nenhum dos críticos que se occuparam d'ella chegou a elucidà-la sa-
tisfactoriamente, nem mesmo o cuidadoso erudito, cujo nome citei.
Como, pela minha parte, me sinto habilitada a lançar luz sobre o seu
ponto mais escuro, não esconderei por mais tempo aos leitores da 2fe-
pista Lusitana a minha, jà hoje velha, descoberta.
Ghrisfal está a sonhar. Um furacão, erguendo-o impetuosamente
da terra, transporta-o contra a parte do norte, em direcção para a pai-
sagem em que pensara velando. Durante a viagem aérea, de Portale-
gre, através do Alemtejo, o vento (antes de o conduzir mais longe,
transpondo o Mondego e seguindo contra o poente até attingir as
montanhas do Lorvão, onde a sua Maria estava sequestrada) fá-lo pai-
rar (ou pousar?) ao cahir da noite, passado o Tejo, para breve des-
canso, rente aos altos cumes da grande serra da Estrella. D'ahi é que
Chrisfal avista os campos e prados das encostas, distingue os curraes
e o gado a pastar, emquanto ouve o ruido de chocalhos, o ladrar
de cães, o piar do mocho e o coaxar das rãs, chegando até a com-
prehender cantos e conversas de pastores e serranas. Entre ellas at-
trahe-lhe a attenção o vulto isolado de uma pastorinha, que c carreava»
i «Obras de Christovâo Falcão». Edição critica annotada por A. E, da Sil-
va Dias. Porto, 1893. 109 pag.
348
REVISTA LUSITANA
as suas cordeiras, fiando na roca, e cantava, deixando cahir o fuso de
quando em quando, de saudosa e esquecida.
Tendo parecer divino,
para que melhor lhe quadre,
cantar cantou d'elle dino:
t Yo me yva, la mi madre,
a saneia Maria dei pino >.
O vestido lhe oulhei
e vi que era hum brial
de seda, e não de saial,
a qual eu afigurei
a Menga la dei boscal.
Eis o teor da alludida estrophe na lição critica do snr. Epipha-
nio. Ha nas suas dez linhas nada menos de quatro minudencias que exa-
minar: l. a ) a formula d 7 elle dino da linha terceira; 2. a ) os versos cas-
telhanos citados nas linhas immediatas; 3. a ) o pronome relativo a qual
da linha nona; e 4.*) a identidade de Menga la dei boscal, nomeada
no ultimo verso.
Principiarei pelos pontos 2.° e 4.°
O entendimento geral da decima não apresenta grande dificul-
dade para quem lê a egloga toda: A serrana, de semblante divina-
mente bello, canta um cantar também divinamente bello. Chrisfal, ao
ouvir as palavras hespanholas, julga ter diante de si a pastora Menga,
la dei boscal. Procura vêr o que veste; e descobrindo, em logar do
burel grosseiro (ou saial) das verdadeiras serranas, um luxuoso brial
de seda, começa a duvidar; torna a mirar e a escutar, e ouve então
um longo monologo da cantora, de cinco estrophes (43 a 47), pelo
qual fica sabendo ao certo que a cantora do vilhancico castelhano não
era a serrana Menga la dei boscal, mas sim Elena, a sua conhecida, e
amiga da sua Maria — uma das bellas da côrte de D. Manoel (ou
D. João ni), e, por signal, uma das malmaridadas.
0 snr. Epiphanio não deixou de reconhecer que Menga devia ser
personagem conhecida da litteratura de então. O que porém não re-
conheceu, foi, de um lado que esta Menga devia forçosamente estar em
intima relação com os versos «To me yva*; e, em segundo logar, que
a formula la dei boscal servia para especializar aquella figura, visto
que a prole das Mengas ou Domingas, então celebradas pela poesia
pastoril peninsular, era numerosíssima K Por ignorar isso, tenta mes-
1 Ainda assim o snr. Epiphanio propõe, dubitativamente, a lição la dei Bot*
cal, mostrando que também procurou ahi um nome próprio.
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MIS CELLA NE A
349
mo salvar a lição manga larga no bocal, como continuando a descri-
pçâo do vestuário da pastora. Com certa razão, porque esta variante
occorre em duas edições diversas : na antiga impressão sem data, e na
de 1619 (de onde passou para as posteriores). Depois de seguir as mi-
nhas explicações até o fim, o leitor ficará acreditando que a dita phra-
se foi iuventada por quem já não ligava ideia alguma ã formula ori-
ginal Meng[u]a la dei boscal, julgando-a estropiada, muito embora tives-
se sido aproveitada no relativamente correcto e fidedigno texto de
Birkman, de 1559 x .
Felizmente a litteratura conservou, e eu desenterrei, algumas
lembranças da graciosa serrana Menga la dei Boscal, ou, mais corre-
ctamente, Menga la dei Bustar. Ha poesias que lhe foram dedicadas,
e entre ellas subsiste, exactamente, o vilhancico :
Yo me yva, la mi madre,
A Santa Maria dei Pino.
Quem o quizer lêr, ou mesmo cantar na melodia c divinamente
bella» que Christovam Falcão tinha ouvido na corte e tornou a ouvir
entre sonhos, procure o Cancioneiro Musical de los siglos xv y xvi
transcripto y comentado por Francisco Asenjo Barbieri (Madrid 1890).
E abra-o a pag. 194 e 540, porque é ahi que encontrará o texto e as
notas musicaes da seguinte poesia anonyma :
Menga la del Bttstar,
que yo nunca vi serrana
de tan bonico bailar!
yo he iba, la mi madre,
a Sawta Maria del Pino;
vi andar una serrana
bien à cerca del camino.
Saya trata pretada
de un verde florentino.
Bien allá la viera andar
gurriando su ganado
y diciendo este cantar:
T hablaba y decia:
€ Domingo; por qué no vienes
pues que saltas bien y corres
y en la lucha bien te tienes ?
Contigo me quiero andar
gurriando 5 este ganado
y diciendo este cantar:
i Th. Braga modificou apenas a graphia, pondo Mengna la del buscai. Na
introducçâo declara que «manga larga no bocal» nào deixa de fazer certo sentido.
* As linhas ponteadas não estão no Cane. Mus. Fui eu que as acerescentei.
3 A palavra gurriar (que falta nos diccionarios e será nova para todos os
leitores, como o foi para mim) está por hurriar, significa : guiar por meio do grito
hurri, e provém d'esta interjecção (árabe?) que servia na linguagem pastoril para
incitar o gado a andar. A prova está nos Autos Pastoris de Juan del Encina. A
pag. 100 (da novíssima edição de 1894) temos sete vezes no vilhancico Bepaslemo*
350
RKYLBTA LUSITANA
Tanto bien me pareciera
que de amores la foi hablar.
f Mi amor, quereis que os diga
quien & mi hace penar?
Grande amor que a mi fatiga
de Miguel dei Colmenar
que me oyô este cantar:
c i [N. ê 380],
O mesmo inapreciável Cancioneiro, no qual (como desde já vou
annunciando] procurei e encontrei grande parte dos tLieder* que os
palacianos portuguezes cantavam de preferencia, ao entrar o sécu-
lo xvi \ fornece mais duas poesias relativas & nossa serrana, que por
varias razões julgo util copiar.
A primeira foi posta em musica pelo celebre compositor Millan.
E diz, sem especificar que a Dominguilla festejada fosse realmente
«la dei Buscar» :
Serrana dei bel mirar, vi estar una serrana
Dominguilla, vi lozana; cantando con gran porfia,
enamoró-me su cantar. muy apuesta y muy galana,
m qu'a mi muy bien parecia.
Asi la viera estar
Yendo-me por la majada mirando por su ganado
do mi ganado tenia y diciendo este cantar:
el ganado o eetríbilho característico : hurriallá ! A pag. 92 temos o verbo hurriar.
Uma pastora recommenda ao zagal :
Hete, viene um escudero.
Vea que eres paetorcillo.
Sacude tu caramillo,
tu hondijo y tu cayado ;
haz que aballas el ganado;
silva ; hnrria ! dá gritillo !
Eu leio : silva ! hurria ! e entendo : assobia ! e grita hurri l — Cfr. arrbkiro,
de arre. — Em outros vilhancicos que descrevem situações idênticas as pastoras ap-
parecem mirando por su ganado ; guardando su ganado e carreando su ganado. A
ediç&o sem data do Chrisfal emprega esta ultima formula na linha 4.» da estrophe
41, onde diz «carreando huas cordeiras». Carrear (de carro) = guiar um carro, e
só posteriormente guiar um rebanho t
* De passagem direi que se ha meia dúzia de pessoas que encontrem algum
interesse em inteirar -se do que o velho Portugal cantava nos Serões de D. Manoel, es-
tou prompta a publicar em fórma de Caucionei rinbo a serie das respectivas poesias.
Até hoje são conhecidas apenas pelas primeiras linhas, por virem citadas em autos
e romances, ou, em parte, por terem servido de thema a voltas e glosas do Can-
cioneiro de Resende e de outros álbuns lyricos do século xvi. — No próprio Chris-
fal temos mais um exemplo : a satyra realista, ou antes picaresca, do « Velho maio»,
citada na estrophe 48.% como que fosse trauteada pela menina Elena antes de ella
ter dado a mâo de esposa a um velho rico ; e al legada também por Camões no Rei
Seleuco. Tanto o texto como a musica do curto dialogo entre mãe e filha subsis-
tem (Barbieri, 460). A musica é de Sedano, mas o texto é anonymo.
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KJSCELLÀNEA
351
Cantar
que no vi en esta montafla
c Garridica soy en el yermo
y; para qué?
pues tan mal me empleé?
otra serrana tan bella
que tanto fuese de amar,
mirando por sn ganado
y diciendo este cantar :
Oiro cantar
Que en el yermo do me veo
mi tiempo muy mal empleo;
si me veo y me deseo
es porque
mi vida tan mal empleé».
c Madre; para que naci
tan garrida,
para tener esta vida?»
fuéra-me llegando a ella.
Cuando mas cerca llegaba
relumbraba como estrella;
Des que vi que se quejaba,
fDe vivir muy descontente
mi tristeza se acrecienta;
ell alma siempre lamenta
dolorida
por tener tan triste vida».
[N.° 346; pag. 176 e 512J.
A segunda, de auctor igualmente desconhecido, é ainda mais va-
liosa, porque nomeia positivamente a rústica heroina, e também por-
que apresenta, de mais a mais, em logar de Bustar, a variante voscar
com v minúsculo, e o na primeira syllaba. Pena é que seja incom-
pleta, e diga apenas :
Mas que quer dizer la dei voscar? ou la dei Bustar? A segunda
fórma é a verdadeira, na minha opinião, e também na de Barbieri
A outra fórma, que passou para a egloga de Falcfto, um pouco modifi-
i Compare se ainda o n.° 351 de Garci-Munoz que principia : *Una montada
pasando por cerca de un hino j ar serrana vimos cantando y decia este cantar». Este
yillancico inclue dous cantarcillos.
* Uma nota relativa ao n. 4 350 diz o seguinte : « Voscar dice el original, pero
creo que deberia decir bustar (establo de bueyes), 6 mas bien Bustab, que es el
pueblo de la Sierra, cerca de Torrelaguna, hoy llamado Bustar-viejo». A referencia
ao n.° 380 (que era necessária) falta comtudo.
La mas graciosa serrana
(qu'en el mundo no hay su par)
es Menga la dei voscar!
*
Con su zurrou y cayado
la vi en somo la montafla
que salia de su cabafla
para guardar el ganado.
[N.°350;pag. 178 e 521 »].
352
REVISTA LUSITANA
cada (com l por r, por causa das rimas brial, saial) deve ser uma va-
riante, talvez dialectal, nascida por influencia de bosque. O castelhano
Bustar e Busial significa, quando appellativo (tal qual como o portuguez
bostal e o derivado bostaliza) o curral do gado vaccum, assim como
as pradarias circumjacentes em que bois e vaccas pastam (vaccari-
ças 1 ). E serve, ao mesmo tempo, de nome próprio, denominando vá-
rios logarejos em differentes províncias da península. Em terras de
Hespanha temos, além de uma villa Bustar (chamada hoje Bustar viejo)
ao pé de Madrid, a que Barbieri se refere, mais outra localidade : um
santuário perto de Carbonero-el-Mayor (districto de Segovia). A serrana
Menga la dei Bustar, era, portanto, evidentemente, oriunda de um dos
dois logares. Penso que do segundo, que é mais montanhoso [serra
de Guadarrama], e visinha dos logarejos Lozoya, Bascafria e Colme-
nares, que serviram de scenario a afamadas Serranilhas. Seria costu-
meira designar a pastorinha por aquelle sobrenome, para diferenciá-la
de outras Mengas, conforme já ' indiquei.
E as relações de Menga la dei Buscar com Santa Maria dei Pino ?
— Um instante julguei provável que o santuário de ao pé de Segovia
tivesse um altar dedicado a Santa Maria dei Pino. Sei comtudo, hoje,
que a padroeira da afamada egrejinha se chama simplesmente Nues-
tra Senora dei Bustar; como sei que Santa Maria dei Pino ó nome
de uma terra ao pé de Lugo, na Galliza. Supponho por isso que não
ha relação directa entre os dois logares.
0 auctor da primeira poesia pastoril que transcrevi (Yo me yba),
quereria indicar apenas que encontrou durante a sua peregrinação a
Santa Maria dei Pino, cujas aventuras vae narrando, a famosa Menga,
que elle nos apresenta (se não me engano) como entoando jubilosa al-
guns dos versos que tinham sido dedicados, talvez em justa poética,
por vários trovadores de aldeia à sua própria belleza e deliciosa arte
de bailar e cantar.
Para comprehender o porquê da minha interpretação será bom
relêr o vilhancico hespanhol. Barbieri acha-o defeituoso, e lamenta que
o não encontrasse em outra parte, para o poder corrigir 8 . Com razão.
1 Nas Glossas de Isidoro lê -se : Bostar — locus ubi stant boves (como que
viesse de boo -f- starej.
2 Conheço varias, p. ex. a Menga de Mançanares, amiga de Pasqual de Bus-
tares! por uma das Serranilhas do Marquez de Santillana (a 4.*). — O prenome
rústico Menga ou Minga de Domenga[à] Dominga[s] occorre, como é natural, nào
sómente no Romanceiro castelhano que o snr. Epiphanio explorou, mas também e
com frequência, na poesia pastoril, í. é, em vilhancicos, serranilhas e eglogas. —
Cfr. Barbieri, 188, 369, 370 e 385 ; Sá de Miranda n.° 26 ; Camões, Redondilha 48,
e em Gil Vicente. Citarei : 1) — Todos vienen de la vela y no viene Menga ! 2) —
Esconjuro-te Domingas / 3) — Norabuena vengas f Menga, etc. — Os Mingos ou Do-
mingos sâo mais vulgares ainda.
3 «Por no hallar en otra parte este villancico no he podido corriçir los de-
fectos que Be notan en bu poesia ; y es lástima, porque la música está bien hecha,
y su melodia tiene muy buen sabor popular.»
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MISCRLLANEA
353
O texto é realmente desconnexo, embora eu nao o considere mais es-
curo do que na maioria das serranilhas. Entendo que, no nosso caso,
podemos chegar a adivinhar o sentido, suppondo que o apostrophado
Domingo da 2* estrophe, é o próprio poeta-pastor. A romeira Menga
chama a Domingo, logo que o avista, e conversa com elle; mas quan-
do este lhe falia de amor, declara que o seu coração pertence a ou-
trem, Miguel do Colmenar. Assim, pelo menos, haveria ligação entre
as tres scenas do pequenino drama.
A fórma estrophica é que é irregular. Só as ultimas duas estan-
cias se compõem, como é regra e costume nos vilhancicos, de sete linhas,
subdivididas em uma quadra (X b X b) e um terceto (c X c), com cor-
respondência de rima entre o terceto e o Mote. A primeira estancia,
pelo contrario, tem duas linhas a mais, que, quanto ao sentido, poderiam
ser cortadas [5 e 6]. Nao temos, todavia, o direito de riscál-as, porque
as notas musicaes correspondentes fazem parte integrante do som. Além
d'esta desigualdade falta no fim das tres estrophes narrativas o texto,
assim como a musica dos Cantarcillos lyricos, que a serrana ia entoando.
De duas uma : Ou estes cantares eram idênticos todas as tres ve-
zes, e portanto um simples refram. Neste caso deviam consistir na
repetição dos tres versos sobre Menga, antepostos ao vilhancico como
Mote *. Ou então, elles divergiam, constituindo tres poesias, quer fossem
do próprio auctor, quer alheias: cantigas da moda, que era costume in-
tercalar em muitas bucólicas artísticas, desde os dias de D. Dinis *.
Neste caso talvez conviesse introduzirmos os tres motes dedicados a
Menga, que já copiei:
1. °) Menga la dei Bastar
2. °) La mas graciosa serrana
e 3. # ) Serrana dei bel mirar?
Todos teem o mesmo schema rhythmico; e a mesma rima (em tf),
e todos teem no Cancioneiro a respectiva musica. Em ambas as hypo-
theses a serrana Menga, de que a poesia trata, teria cantado, com com-
prehensivel philaucia, louvores de si mesma 3 .
Passemos agora aos pontos 1.* e 3.°, fallando em primeiro logar
da phrase delledino. Ou por outra, vejamos a que género lyrico perten-
cem os versos allegados por Chrisfal. Barbieri trata-os de mlhancico,
e eu sou de igual parecer. Existe, comtudo, outra opinião diferente.
i Neste caso nada faltaria á musica.
8 Ha exemplos (Teste costume, importado de França, no Cane. da Vat. (n. 0-
278, 102, 454); Cane. Col. Brancuti (n.° 469) ; Cane. Barbieri (n.° 346), e nas obras
de Santillana (pag. 461 da ed. Amador de los Rios).
s Possível é lambem que o poeta quisesse deixar a escolba dos Cantarcil-
los ao ar bi trio dos cantantes. Comtudo, não ha exemplo de tal proceder.
REY. LD8IT., VOl. III, faSC. 4. 5
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354
REVISTA LUSITANA
Em tempos em que as duas linhas apparentemente iniciaes
« Yo me iba, [la] mi madre,
a Santa Maria dei Pino,*
eram as únicas conhecidas, Theophilo Braga julgou ter ahi restos de
um canto popular, medievico, de um género velho, que um côro de pe-
regrinos, ou um individuo só, costumava entoar nas vigílias de santos
ou em procissões e romarias. E deu a este género perdido o nome
de Cantos de ledino, na firme fé de ter encontrado na própria obra de
Falcão aquella designação que, neste caso, mereceria ser tratada de
tradicional e fidedigna. Do grupo de lettras delledino ou deledino,
que faz parte da 3. a linha da decima, é que deriva aquella hypothese
e todas as ulteriores que foram forjadas com relação aos cantos de
ledino.
Que significam as oito lettras?
A edição sem data, que passa por ser a mais velha das conheci-
das, imprimiu cantar cantou em si dino, o que não dá sentido acceita-
vel. A de 1659, que é indiscutivelmente a melhor, isto é, a menos ei-
vada de erros, tem cantar canto (sic) de ledino, formula que Theophilo
Braga acceitou, mudando-a porém em cantou canto de ledino, no intuito
de rectificar o visível erro de imprensa A terceira lição cantou can-
tar delle digno data (apparentemente) do folheto de 1619 (o qual de-
riva, segundo o snr. Epiphanio, de cópia independente dos apographos
que serviram para as impressões anteriores) e foi repetida no de
1721 *. O novo editor preferiu esta ultima, corrigindo-a orthographi-
camente, i. é, escrevendo phoneticamente dino (por causa da rima com
pino e devino). A pag. 102 declara ainda decididamente que os pre-
sumptivos Cantos de ledino nunca existiram senão na phantasia de
Theophilo Braga.
O que se infere da divergência das tres «fontes» é que o auto-
grapho era aqui pouco claro. As quatro lettras dino lá estão> com-
tudo, em todas as partes. E dous editores leram, em dous manuscrip-
tos diversos, de le em logar de em si (?>fi) que um único apresenta.
Torna-se portanto verosímil que a graphia originaria fosse deledino.
E é este grupo de lettras que devia e deve ser interpretado pela cri-
tica.
0 editor de 1619 interpretou d-elle di(g)no 3 . Na typographia de
Birkman sahiu de ledino. Mas, aconteceria que a syllaba le se soltasse
por descuido do de antecedente e corresse para o dino immediato, ao
1 Cantar cantou é que devia ter emendado.
a Entre as duas edições ha outra intermédia, a de 1639, que existe, como
provarei em outro logar. — Não alcancei ainda verificar se a de 1571 é mais do
que um mytho, como penso. Só depois de ser conhecida, será possível dizermos
se serviu ou nâo de modelo á impressão de 1619.
* E* possível que a rima benigno em logar de devino seja uma substitui-
ção arbitraria, provocada pela graphia erudita digno.
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MISCELLANKA
pôr-se a forma no prélo, em Colónia, ou seria realmente intencional e
interpretatoria a separação de ledino? Só se em 1559 a formula ainda
era conhecida e significativa. Mas se tal fosse, forçosamente devia de
haver mais provas da sua existência — o que não acontece.
Reproduzindo a lição do snr. Epiphanio, sem a modificar, e in-
terpretando-a como tenho feito, jà indiquei que me inclino para a pri-
meira conjectura, e duvido da authenticidade dos Cantos de ledino K
Tentarei cimentar mais solidamente ainda este meu modo de vêr
com duas breves analyses dos antigos cantos de romaria e dos versos
a Menga dei Bustar, dizendo primeiro da sorte que tiveram os sup-
postos Cantos de ledino, nascidos em 1559 por geração equivoca, e re-
suscitados para a scienciá em 1871. Accrescen tarei também o pouco
que se me offerece âcerca do tal vocábulo ledino.
Ao acceitar e reproduzir em 1871 a lição «de ledino* de Birkman,
Theophilo Braga não deduziu d'ahi theoria alguma. À única sentença
«explicativa» que encontro no seu € Estudo sobre a vida, poesias e época
de Christovão Falcão», refere-se ao idioma em que me iba* se can-
tava em Portugal, e consiste na (de resto, falsa) asseveração que a
influencia dos Cantos castelhanos em Portugal data dos últimos annos
do reinado de D. Manuel 2 . Nada encontro também nos primeiros vo-
lumes da Historia da LUteratura Portugueza. O volume dos Trovadores
Galecio-Portugiiezes (1871) não adianta a questão, como tampouco o
dos Bucolistas (1872), apesar de tratarem novamente da biographia e
das poesias de Falcão.
A «descoberta» ou, melhor, a ideia quasi ineluctavel de pôr em
connexão o Carito de ledino: Yo me iba, com todas as antigas compo-
sições de caracter popular dos antigos Cancioneiros peninsulares, a
que muito indevidamente dão em Portugal o nome de serranilhas,
nem mesmo pertence a Theophilo Braga. E' de F. A. Coelho, e tomou
corpo em 1875 quando este erudito investigador, ao revêr as provas do
Cancioneiro da Vaticana, chegou a lêr as poesias sobre o santuário
de Santa Maria de Leça, e outras parecidas 3 . Só depois de enunciada
por elle na Bibliographia critica (a pag. 319), é que Ernesto Monaci a
fez sua e que Theophilo Braga a adoptou, desenvolvendo-a. O benemé-
rito italiano, a quem devemos o Cancioneiro da Vaticana, e que então
estava em estreitas relações scientificas com o seu collaborador Coe-
i Já anteriormente me pronunciei no mesmo sentido no meu Quadro da Lit-
ter atura Portuguesa (em Groeber : Grundriss n).
* De facto data de 1457 (como já provei em outro logar), i. é, dos tempos de
Juan de Mena e Santillana.
3 A prova do que affirmo, está no artigo que Coelho dedicou á edição
do Chrisfal de Theophilo Braga. A pag. 34 da Bibliographia critica nada diz so-
bre os cantos de ledino.
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356
REVISTA LUSITANA
lho, publicou pouco depois uma serie de Cantos de romaria, dando-
lhes ostensivamente o titulo de Cantos de ledino \
Restringia assim, judiciosamente, o emprego da nomenclatura a
certa espécie de poesias, guiado pelos versos Yo me iba, la mt madre,
A santa Maria dei Pino.
Quasi simultaneamente é que Theophilo Braga começou a formar
e expôr novas theorias àcerca da lyrica dos séculos xm e xiv e as
suas bases ethnicas, e em especial sobre o caracter popular dos gé-
neros por elle* chamados serranilhas, cantos guayados, e cantos de le-
dino — alargando-as posteriormente pouco a pouco, e refundindo-as
mais de uma vez. Hoje accentua o caracter religioso, dos suppostos
cantos de ledinp; àmanh* o seu feitio vulgar, leigo e erótico. Ora re-
pete a ideia de Coelho, identificando cantos de ledmo e serranilhas (1.
é tudo quanto tem caracter popular no Cane. da Vat.J, ora a de Mo-
naci, applicando o titulo apenas ás cantigas de romaria. Em geral é
a segunda opinifto que prevalece *: os incógnitos cantos de ledmo sâo
definidos como «cantos sacros, próprios das vigílias de santos e roma-
rias productos do elemento romano, modificado pelo culto Chnstâo,
recebido da Africa, e que persistiram na tradição galleziana, sendo
depois imitados nos Cancioneiros aristocráticos!» Quanto ao nome, tenta
derivá-lo uma vez de ledania (litania 8 ); outras vezes do adjectivo
k áo (=laetus) que occorre a miude nalguns cantos de romaria
As mais das vezes propõe, comtudo, como étymon a palavra latino ,
explicando que as ledanias mais antigas deviam ser cantadas em Za-
tino. Ou também, em sentido diametralmente opposto, que latino de-
nominava a linguagem vulgar. Era tudo isso haverá ideias boas. O
grave inconveniente, que as torna, porém, desaproveitáveis para a
questão, é que a formula que, em caso melhor, seria um hapax lego-
menon, é tão mal documentada como o leitor sabe. Em parte alguma
encontro referencias a cantos de ledino, nem mesmo descobri até hoje
a palavra isolada ledino (com e).
i Infelizmente não possuo nem nunca vi o opúsculo, porque nao entrou no
mercado, sendo apenas um brinde pelle nozze Stengel.
Ignoro por isso se uma introducção, ou pelo menos uma nota, explica ao
amigo o que Monaci pensava dos cantos de ledino. O pouco que sei da pequena
obra, foi colhido nas notas do Cane. da Vat. relativas ás cantigas 734 a <Ò0.
Dallas resulta que Monaci escolheu e publicou 16 cantos de romaria (os n."
734 a 750, com exclusão do n .• 749), que todos sào dedicados a Sam Servando.
a Quein quiser seguir os vaivéns das suas ideias, naturalmente oscillantes,
ácerca dos Cantos de ledino, consulte, depois de se ter inteirado dos dizeres <*e Coe-
lho e Monaci, o Manual, pag. 45-47 (1*75); a Antologia, pag. xv, § 53 (1876) ; o
Parnaso, pag. xl e lvii (1877); o Cane. da Vat., pag. lvii, xcvi e xcix (1878) :a
Theoria, pag 185 (1880); as Questões, pag. 30 e 33 35 (1881) e o Curso, pag. 82
(1886).
s «Phoneticamentc, ledino deriva-se de letania».
4 Vid. Cane. da Vat., n." 739, 851 e 877.
5 Coelho e Monaci pensaram, apparentemente, também na mesma etymo
logia.
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iíISCELLANEA
0 único reflexo legitímo popular (ou semi-erudito) de latinus é na
península o adjectivo ladino ! . Eo único sentido em que se emprega
hoje, em Castella e Portugal, é o de astuto, sagaz, esperto, perspicaz,
manhoso. Originalmente applicado ao mouro bilingue *, e portanto in-
telligente, que além do seu árabe, ou berbere, fallava o romance da
península que nos séculos viu a xi se chamaria ainda latino, passau
depois a designar tudo quanto era intelectualmente «/?wo». Os textos
mais velhos em que encontro phrases comprovativas sâo o Poema dei
Cid, onde apparece (na linha 2:667) um moro latinado, a Chronica ge-
neral (fl. 304), onde se diz de ura mouro que era ttan ladino que se-
mejava christiano 3 > ; e a Crónica de Alfonso X, que falia de cartas
escriptas tuna en arábigo e otra en ladino 4 ».
Com relação a obras poéticas, vejo-o empregado algumas vezes.
Um trovador do Cancioneiro de Baena diz: yo fise estríbotes trobando
ladino [n.° 546»; vol. n, pag. 249]; um outro exclama: Johan Garcia
muy ladina es mi arte [n.° 392, vol. n, pag. 99]; e um terceiro pede
respuesta por lengua ladina [n.° 399, vol. ii, pag. 106], Todos os tres
pensam — se nâo érro — na fórma culta, fina e artificiosa das poesias
palacianas que cultivavam 5 . Cantos ladinos, se existissem, seriam
portanto, — se é licito tirar conclusões dos poucos exemplos colligi-
dos — , cantos bem feitos, de fórma artificiosa, i. é, de arte apurada,
ou, para nos servirmos dos termos usados na poeáca peninsular, de
arte maior, de marca maior, ou de mestria.
Vejamos se os antigos cantos de romaria eram de mestria e pe-
reciam o nome de cantos ladinos ou seja ledinos, porque de ladino para
ledino a distancia é, realmente, pequena. Mas cantos de ledino ? Mesmo
grammaticalmente este modismo é incorrecto. Só se elle quizesse di-
zer cantos de um ladino (cfr. cantos de um villão? cantos de um
truão) etc. ?
Os cantos de romaria do Cane. da Vat. passam de meio cento.
Repartem-se em uns 12 a 15 grupos. Cada um d'estes grupos é a
obra individual de um poeta que, cheio de enthusiasmo local, nòmeia,
na intenção de o festejar, o santo da sua terra, i. é, da sua devo-
ção 6 . Não se julgue porém que ha nas respectivas poesias verdadeiro
1 A variante portuguesa ladinho por ladlo, que seria realmente popular, é rara.
* E não ao preio, como se costuma aflirmar em escriptos nacionaes.
8 Cfr. D. Quixote, i, cap. 41, onde ladino serve de epitheto a um berbere re-
lativamente perito em línguas.
* Cap. 42. — Cfr. Chronica de D. Juan /, pag. 291, que menciona um moro
ladino.
8 £ não na phraseologia chã, clara e singela que Dante chama latina no seu
Paraíso <m, 63).
0 Ha apenas um trovador aristocrático, o rieo-homem D. Affonso Lopes de
Baiam, que se ensaiou em cautos de romaria, dedicados a Santa Maria das Leiras
[Vat, n. ot 339-342]. Todos os restantes eao de joglares, oriundos da Galliza ou do
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358
REVISTA LUSITANA
fervor religioso, ou qne ellas sejam sacras pelo seu conteúdo. A igreja
ou ermida, visitada em dia de romaria (ou sagraç ãô = Kirchwkihb)
é festejada apenas como logar typico dos renckz-vous dos namorados,
que, depois de «fazerem oração», iam bailar, cantar e conversar ao
ar livre, emquanto as velhas continuavam a rezar, queimando candeias
ou estadaes. Ora temos, em estrophes narrativas, recriminações e re-
miniscências do passado; ora desejos, pedidos, projectos de entrevis-
tas futuras. Quem falia é quasi sempre a namorada, que se dirige
à mãe, âs irmãs ou ãs amigas. De vez em quando é também a mãe
que vae instruindo a filha. Todas pertencem portanto, sem excep-
ção, à eathegoria dos cantares de amigo (= Fbadenlikder), ideados
por aulicos, burgueses e populares, como sahindo de bocca feminina.
Quanto à fórma, ella varia bastante, sendo porém, sempre singela, de
caracter popular: de refram e não de mestria. Temos em geral tres es-
trophes curtas de quatro ou cinco linhas, com oito a doze syllabas cada
uma. Só uma pequena minoria ostenta estrophes ainda mais primiti-
vas de apenas dous versos, e juntamente o dualismo parallelistico que
fórma o distinctivo das bailadas (falsamente denominadas Serrani-
Ihas 1 J. O único traço fixo e geral dos cantos de romaria é que no
corpo da cantiga ou no seu refram se nomeia o logar da romaria, ou
seja o santo festejado, conforme já indiquei 2 ; em todo o resto asse-
melham-se muito aos outros cantares de amigo. — Basta p. ex. que o
logar da entrevista que fórma o verdadeiro assumpto da poesia, não
seja sagrado — co*o acontece quando a namorada chama o amigo pará
a praia, as ribas do lago, a fonte, o avellanedo, o pinheiral — ou que
o dia marcado não seja santo, para que as tenuíssimas barreiras que
separam os cantos de romaria dos outros cantos de amigo caiam por
terra 3 . Será por isso que a antiga poética não possuia nome espe-
cial para ellas 4 .
norte de Portugal, i. é, das terras clássicas das romarias. Joham Servandõ celebra
a egreja do seu santo padroeiro 8. Servando na serie importante de poesias que
Monaci publicou (734-750) ; Fernam do Lago rezava a Santa Maria do Lago (898) ;
Pero de Dardia a Santa Marta (709-712) ; Pedro de Veer falia de um santuário nâo
especificado de Santa Maria (721-23) ; Nuno Fernandes é devoto de S. Cremente (805-
808); Martim Pedrozellos de S. Salvador de Vallongo (845-851) ; Martim de Grijó
queimou candeias a Santa Cecilia do Soveral (876-881) ; Martim Codax gostava de
Vigo (884-890) ; Aires Paes foi a Santa Maria de Leça (891-892) ; Ijopo jograr a S.
Leuter (857-860) ; Joham de lUqueixo a Santa Maria de Faro (894-898); Aires Cor-
pancho a Santiago (265) ; Pero Vidães a S. Simon de Val de Prados (336) ; Joham
de Cangas a S. Mamede (873-875); Golparro a S. Treezon (?) (872).
i P. ex. n." 878 e 879.
* A palavra romaria occorre também frequentes vezes (p. ex. nas cantigas
734, 738, 741, 749. 841, 878 e 897.— Cfr. 356, 458 e 689), mas nâo é indispensá-
vel. Temos sagraçom nos n.°' 731 e 832.
8 Simples nomes de logar, sem indicação especial do santo ou da santa
3ue abi era venerada, também occorrem. Temos Bonaval nas poesias 729 a 742 ;
uilham, no n.° 720; Lugo, 903; e Crexente, 554, etc.
4 O único manual doctrinario relativo á época dos trovadores que existe, é
lacónico e fragmentário, e nada revela á cerca de cantos de ledino. Nas rubricas e
nas próprias poesias também não ha indicação alguma.
tírSCÉLLÁNÍA 353
Falta o nome á espécie — e é realmente pena que falte. Mas nem
por isso se pôde negar que linhas como « Yo me iba* sejam reminis-
cências de formulas typicas antigas. Coelho, lendo
*Fui eu, madr 9 , en romaria
a Faro con meu amigo*,
Ott *Fui eu a San Servand devia forçosamente lembrar-se do « Yo mê
iba*, do Chrisfal, e era levado a adivinhar neste fragmentozinho
um descendente directo das alludidas poesias do Cane. da Vat., que
attestava a conservação de um typo archaico até ao 2.° ou 3.° decen-
nio do século xvi. O parentesco era, e é, evidente. As differenças, fi-
lhas de um desenvolvimento de dous séculos, sô estão patentes agora,
depois da appariçfto do Cancioneiro Musical Peço ao leitor que com-
pare qualquer das poesias citadas do Cane. da Vat, com os versos
de Menga la dei Bustar. Eis uma que não é nem mais, nem menos
parecida que as restantes:
Fui eu, madr' en romaria
a Faro con meu amigo,
e venho dei namorada,
por quanto falou comigo,
ca mi jurou que morria
por mi: tal ben mi queria!
Leda venho da ermida,
e d'esta vez leda serei,
ca falei con meu amigo
que sempre muito desejei,
ca mi jurou que morria
por mi: tal ben mi queria!
D*u tn*eu vi con meu amigo
vin leda, si deus mi perdon,
ca nunca lhi cuid' a mentir
por quanto m'el diss' enton,
ca mi jurou que morria
por mi: tal ben mi queria! (894)
1 Cfr. fcinclai Quer* ir a Santa Maria de Leça.-* A Far* un dia irei, madre,
se vus prougutr. — Quand eu a San Servando Fui un dia d'aqui fazel-la romaria.
lr quer' hoj' eu, fremosa, de coração Por fazer romaria e oração. — Ora van a
San Strvand donas fazer romaria.
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360
REVISTA LUSITANA
Duas são as differenças prineipaes. O texto kespanhol nâo é um
cantar de amigo l . Qaein ahi falia é evidentemente um homem que ga-
ba a querida (tal qual antes as amigas costumavam gabar os seus ami-
gos): um rapaz novo que narra as suas aventuras á própria m&e, como
outrora as filhas costumavam fazer *. E estas aventuras, contadas na
primeira pessoa, referem-se a uma serrana (nome que nâo occorre em
nenhum dos antigos cantos de romaria), tendo além d'isso outros tra-
ços typicos, que nos obrigam a classificar «Fo me iba> de serranilha.
Mas serranilha transformada, que traja à maneira moderna, i. é, que
se compõe de mote e voltas, como os vilancetes ou villancicos que se
desenvolveram no século xv dos géneros preexistentes da poesia indí-
gena, influenciados, quanto â fórma métrica, pelos rondeaux, lais, vire-
lais, ballettes e chansonnettes da França do Norte. O canto de Menga
de Bustar que Christovão Falcão cita, é, portanto, uma serranilha-vi-
lanceie 3 , que pediu emprestado um traço (a designação de um santuá-
rio) aos antigos cantos de romaria 4 . De mais a mais, ainda que o ra-
paz seja o verdadeiro orador, elle vae citando textualmente os dize-
res da amiga que introduz cantando.
Não tenho de tratar aqui explicitamente do interessante thema
serranilha-vilancete. Restrinjo-me a assentar que o nome serranilha
deve, a meu ver, ficar reservado exclusivamente para os «pendants»
peninsulares das pastoreias provençaes e francesas, de que infelizmen-
te tão poucos exemplares se conservaram 5 , isto é, para as poesias
1 lia, comtudo, cm Hespanha, no século xv, numerosíssimos exemplos de
Fravcnlitder, tanto entre as cantigas populares como entre as creaçòes artísticas.
Vejam-se por ex. no Cane. Mus. os n." 4, 209, 215, 227, 237, 401 e 402.
& Na litteratura portuguesa não conheço exemplo algum d'estas estranhá-
veis confidencias de rapaz. — Em Barbieri temos mais dous (48 e 11 5) .
3 E' provável que houvesse muitas mais. Por ora só posso registrar mais
dous fragmentos : Yo me iba, mi madre, A Villareale, recolhido por Salinas e ci-
tado por Milá y Fontanals, e Yo me iba, mi madre, A la romeria, mencionado por
Am. de los Rios.
* Esta amalgamaçao pode ser antiga. Provém, a meu vêr, de certas pasto-
relias franco-provençaes que indicavam como logar da acçào o «caminho francês»
ao santuário de Santiago de Compostella !
5 Conheço duas dúzias de pastoreias castelhanas e apenas duas portuguesas :
uma, antiga, de que resta apenas um parco fragmento de quatro linhas :
A' terra de Cintra
a par d'esta serra
vi fia serrana
que braadava guerra. (Vat. 410).
e outra aproveitada por Gil Vicente (in, 214) :
A serra é alta,
fria e nevosa,
vi vlir serrana
gentil, graciosa.
As bespanholas sao: quatro do Arcipreste de Fita (933,961,971 e 996) 5 de*
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MISCELLANEA
361
narrativas em que um homem conta as suas entrevistas com pastoras-
serranas, começando por indicar o logar da scena; passando a des-
crever o traje da bella, e intercalando depois versos por ella canta-
dos \ As cantigas de contextura parallelistica, i. é, as bellissimas bai-
ladas conservadas no Cane. da Vat., no Cane. Musical, no Cancionero
Patrimonial e nos Autos de Gil Vicente, o cossante de Diego Fur-
tado de Mendoza, as poesias populares de Rebordainhos, as Muinhei-
ras da Galliza, etc. — emfim, todas as poesias peninsulares em que a
mesma ideia se repete duas vezes em fórma levemente variada com
rimas divergentes, devem ser designadas com outro nome. Escolha-
mos entre os termos cantos dualisticos; cantares parallelisticos ; cossan-
tes; cantos de dama prima; bailadas portuguesas, mas em todo o caso
demos-lhe um nome seu, distinctivo, que lhes seja mais adequado do
que o de serranilha 2 .
Resta explicar grammaticalmente as linhas 9 e 10, em que ha,
segundo o snr. Epiphanio, cuma violência de construcção que não deixa
bem a critica decidir-se», quer se leia com a edição sem data: o
qual eu affigurei, ou, com as restantes impressões, a qual eu affigurei
a Mengua la dei boscal. Se referirmos a qual como relativo a seda,
sae-nos de facto um disparate lógico, porque Chrisfal não podia na
sua imaginação reproductora vestir de seda a serrana Menga. O ex-
pediente seria, pormos ponto final na linha antecedente (depois de
saial), tomar a qual como demonstrativo, à maneira latina, e referil-o
ao sujeito da estrophe 41.*, entendendo: hiia serrana queixosa. . ., 8
a qual eu affigurei (ser) a Menga, la dei buscai. Neste caso a seria ar-
tigo, e não preposição. Não o apoio, porém. Mais vale acceitarmos o
relativo o qual, e referil-o a vestido (que era um brial de seda e não
de saial). O modo de dizer o vestido que eu affigurei a Menga, ou, por
outra, a construcçâo affigurar alguma cousa a alguém = representar
na imaginação alguma cousa como pertencendo a certa pessoa (Je-
mandem eine Sache andichten oder andenken), não me parece cousa mui-
de Santillana *, umas poucas de Iíiigo Lopez de Mendoza, o Feio ; Diego Furtado
de Mendoza; Francisco de Bocanegra; Carvajales, Eetufiiga e Reinosa. — As lin-
das pastoreias palacianas do Cane. da Vat. (102, 137, 150, 278, 457, 554 e 689), em
que uma pastor (sic) fala e canta, são de eatylo bem differente, meras imitações
ae modelos transpyrenaicos.
i Só a serranilha de Gil Vicente, que se afasta do typo commum, tem a
fórma das Parallelstrophen-Lieder, nome allemâo empregado por Storck e que eu
adoptei, introduzindo-o no meu Q/iadro da IAtteratura Portuguesa.
* Na sua Anthologia Theophilo Braga deu uma definição muito razoável de
serranilha : os exemplos, para que remette o leitor, nâo correspondem, porém, de ma-
neira alguma, á definição. As outras definições e as etymologias do mesmo auctor
contidas nos vários volumes da Hist. da Litt. Port. são sem valor.
. * A estrophe 5.* offerece um exemplo do emprego de a qual como demon-
strativo. Refere-se á pastora Joana, citada na estrophe 4.*
362
REVISTA LtmrfANA
to estranha. Lembro uma phrase de Mousinho de Quevedo (que anda
nos diccionarios) : o anjo a quem membros mortaes afiguramos.
E disse.
Porto, 14 Março de 1894.
Nota final :
Chamo a attençfto dos leitores que se interessam pela Egloga
de Christovam Falcão para o pequeno artigo em que fallei aos lei-
tores allemâes da excellente edição do snr. Epiphanio. Escripto pos-
teriormente a esta noticia, jâ foi impresso no Literaturblatt, vol. xv,
pag. 267 a 277.
Airillustre Signora Carolina Micha&is de Vasconcellos, a propósito d'una soa eti-
mologia portoghese contenuta nel dotto suo articolo : Ètymologias portuguesas
(Revista Lusitana, v. i, n.° 2, pag. 124).
Illustre Signora.
Benchè io non abbia Ponore di conoscerla nè per relazione epi-
stolare, nè di persona, senza essere però meno ammiratore delia sua
dottrina única piuttostochè rara in donna, permetta che Le diriga la
presente affine di prendere argomento ad alcune considerazioni moveu-
do da una delle differenti etimologie addotte da V. S. dei verbo con-
soar: mangiare qualcosa al fine d ? una vigília, e ancora: suonare in*
sieme, cioè rimare (cfr. pure la voce consonante 1 ) dal latino con-sonare.
In italiano abbiamo pure la voce : consonanza, nome che vale : accordo
di voei, fig. : uniformità, conformità, corrispondenza ; consonare, verbo
= concordare il suono delPuna voce con Paltra, fig. : confarsi, accordar-
si; consono, agg. che ha consonanza, fig.: conforme. Questa etimologia
é facilissima a spiegarsi foneticamente, dice V. S. a propósito di essa,
ma impossibile di (chiarire?) historiar ragionevolmente in modo scien-
tifico quanto aUo sviluppo dei significato. In nota poi Ella osserva
che «non può citare il vero inventore di questa etimologia che udi
enunciare parecchie volte in conversazioni famigliari. La notte dei Na-
tale è per i fautori di questa etimologia una notte, in cui gli angeli
intuonano leggiadri canti? O forse una notte, in cui non vi regna
dissonanza, ma bensi dolce consonanza fra i presenti?»
Benchè ancora come profano quasi nella Sua melodiosa língua e
i Che ha consonanza, e lettera dell'alfabeto che suona insieme con la vocale,
Ricarda l'immagined el Matthus : «Tutti hanno diritto diasaidersi al ban-
chetto delia vita però non già solo come consumatori, ma ejiando come produttori».
Carolina Michaslis de Vasconcellos.
II
LETTERA APERTA
MlfiCELLANKA
363
un poco anche ospite nella scienza delia linguistica, senza pretesa però
di voler accogliere in modo assoluto la detta etimologia, cbe riferirei
alia prima delle due ipotesi delia nota, mi permetto però di fare alcu-
ne considerazioni se non per colmare in modo assoluto la lacuna esis-
tente fra mangiare e suonare insieme, almeno per attenuarla.
E' indubitato che molti atti dei corpo spiegano altri atti dello
spirito, sicchè come non si può concepire che il corpo viva senz'ali-
mento, cosi pure lo spirito, onde nel Vangelo si legge: Non de solo
pane vivit homo sed de omni verbo quod exit de ore ejus. La scienza
poi è detta dal Divino Poeta:
11 Pan degli Angeli dei quale
Vivesi qui ma non sen vien satollo. (Parad. n, 11-12).
Cosi pure il titolo delia nota opera di Dante Convito (titolo me-
tafórico di banchetto di sapienza, comune anche anticamen te in Gré-
cia) spetterebbe al precedente tropo, molto piu che si compone di can-
zoni, che formano le vivande di questo banchetto, e di commenti in
prosa che ne formano il pane 1 . E a propósito di quesfopera il Car-
ducci con la sua usata arguzia pure scriveva press' a poco cosi: «Dan-
te povero, meschino, privo quasi dei necessário a vivere generosa-
mente con quesfopera â connazionali e coetanei imbandiva un lauto
banchetto di sapienza, acciocchè appieno se ne potessero satollare
quanti ne sostenevano grave inópia». E qui per non dilungarmi tra-
lascio le molte similitudini di Dante tratte dalPidea dei cibo, dei pa-
scolo; però non posso astenermi dal ricondare quella spettante al per-
sonaggio politico adombrato nel Veltro allegorico dei i delFInferno :
Questi non ciberà terra, nè peltro.
cioè questi (forse Can Grande delia Scala) non sarà bramoso nè di
potere politico, cioè non ambizioso, nè di oro, cioè non avaro.
E qui a propósito delia predetta prima ipotesi circa il canto sin-
fónico degli Angeli nella notte di Natale mi piace di notário in atti-
nenza se non deiridea letterale di cibo, alimento, almeno in ordine
alPidea figurata che testè abbiamo già toccato, salvo che sopra ri-
guardo alia scienza e ora rispetto alParte, che interprete dei bello,
il quale, piacendo oltremodo alio spirito che la vagheggia, si dice
(con una metáfora comune in italiano e forse anche in portoghese e
nelPaltre lingue neo-latine) ne formi appunto il grato pascolo, e so-
prattutto Parte per eccellenza, la musica (identificata dai Greci con la
scienza e perciò appellata pure acçía la maestria spiegata in essa),
1 Cfr. pure il titolo figurato di Cene dato da A. F. Grazzini detto il Lasco
alia raccolta di sue novelle, e quello di Merende a certe sue discussioni in forma
dialogica date da Mauro Ricci (Frate Possidonio da Peretola), contenute nel suo
gajo e dotto libro : VaUegra filologia.
364
BÂVíStA LUSITANA
germana gemella delia poesia, onde Filippo Pananti nel poema eroi-
comico il Teatro e Antonio Guadagnoli dopo in sua ode burlesca dis-
sero:
Del resto il nome delia poesia delPaffetto lírica (perchè già dis-
posata al suono delia lira), Paccompagnamento che il suono dei plet-
tro, delia mandola e delia guzla faceva alia poesia rapsodica, provenza-
le e slava, come pure il melodramma moderno provano chiaro tale
identità siccbè quanto si dice dei suono si possa identificais col canto
e viceversa. E qui per provare vie meglio quanto pascolo efficace alia
vita morale delPuomo e intellettuale dei popoli porgesse la musica mi
piace il fatto bíblico dei re Saul, la cui fúria era acquetata dal suono
delParpa di Uavid, e Paltro mitico di Orfeo e di Anfione, al suono
delia cui lira si arrestava il corso dei fiumi, si mansuefacevano le
fiere, si muoveano i sassi disponendosi a formare mirabilmente le mura
di Tebe per indicare che la poesia primitiva disposata al suono delia
musica porgeva tanto gradito pascolo a' popoli barbari primitivi che
ne dirozzasse i costumi e dalla vita selvaggia e nómade li stimolasse
alia vita civile, tantopiú che alia poesia primeva la filosofia, la legisla-
zione, la religione, tutto lo scibile insomma si riducesse.
Ecco il nesso tra la consonanza poética o musicale e il pascolo
se non físico, almeno morale e intellettivo. E in prova di questo pri-
ma di chiudere la presente citerò un passo dei Purgatório, canto n,
v. 106-119 spettante al canto di Casella: Dante dice a Casella, suo
amico :
Se nuova legge non ti toglie
Memoria o uso alPamoroso canto,
Che mi solea quetar tutte mie voglie,
Di ciò ti piaccia consolare alquanto
LTanima mia, che con la sua persona
Venendo qui, è affannata tanto.
Amor che nella mente mi ragione,
Cominciò egli allor si dolcemente
Che la dolcezza ancor dentro mi suona,
Lo mio maestro ed io e quella geute,
Ch'eran con lui, parevan si contenti,
Come a nessun toccasse altro la mente.
Noi eravam tutti fissi ed attenti
Alie sue note
E appresso Dante v. 124 ricorre alia similitudine delia pastura
de'colombi e la ragguaglia al pascolo dei canto di Casella, come il
canto sinfónico degli angeli nella vigília di Natale si connetterebbe
alPidea dei rompimento dei digiuno, cioè delPalimento preso in essa
notte; ecco il passo rispettivo:
Musica e poesia nacquer gemelle.
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MISCELLANEA
36 5
Come quando cogliendo biada o loglio
Gli colombi adunati alia pastara,
Queti, senza mostrar 1'usato orgoglio,
Se cosa appare, ond'elli abbian paura,
Subitamente lasciano star Pesca,
Perchè assaliti son da maggior cura;
Cosi vid'io quella masnada fresca
Lasciar il canto e fuggir ver la costa,
Com'uom che va, nè sa dove riesca :
Nè la nostra partita fre men tosta.
Io non so veramente se queste mie chiaccliiere sconclusionate
abbiano potuto concorrere a faria ricredere in parte, o no, circa la ve-
rosimile accettazione delia prima sua etimologia, e se, menti»e prima
ravvisava uma profunda lacuna tra le due idee, onde quella sola pa*
rola consoar Le pareva suscettiva, dopo 1'abbia veduta scomparire o
attenuarsi in parte dietro le osservazioni da me fatte. In ogni modo
valga presso di Lei il concetto dei noto adagio latino : Voluntas pro
facto recipitur, quantunque di buone intenzioni, come dice un altro ada-
gio toscano, sia lastricato V inferno.
Intanto pregandola di volermi concedere vénia delia soverchia
prolissità delia presente La ossequio profondamente e mi raffermo
Della S. V. Ill. ma
Dev. m0 Servo
Stanislao Pbato.
Sessa Aurnnca, li 2 febbrajo 1894.
A' attenciosa carta do ex. mo snr. Estanislao Prato, que muito
agradeço, respondo o seguinte:
Embora formulasse, com um sorriso nos lábios, a questão se os
propugnadores da etymologia consoada > consonata pensariam nas con-
sonancias musicaes do «Gloria in excelsis Deo* dos coros angelicaes,
entoado todos os annos na noite das consoadas, ou se pensariam na
concordância, conformidade e harmonia de sentimentos que animam en-
tão as famílias reunidas em consoada — não neguei em absoluto a
possibilidade de consonata ter produzido consoada. A vida das pala-
vras é ás vezes tão entrecortada de peripécias imprevistas que não
seria prudente negar a priori qualquer transformação semasiologica.
O que eu quis dizer foi que me parecia impossível [impracticatel] his-
toriar [= demonstrar por meio de textos documentaes] o desenvolvi-
mento de consonare para comer de consum. E as considerações, de res-
to muito interessantes, do meu cortês antagonista, não provaram o
contrario.
Continúo portanto a derivar consoada de * con-sub-un-ata, accres-
centando apenas que este substantivo, que nos textos antigos tem sem-
366
REVISTA LUSITANA
pre o sentido ainda nâo restricto de ^refeição nocturna em commum
em qualquer dia do anno*, nos apparece nnm documento de 1448 na
velha graphia: consooada [J. P. Ribeiro, Diss. Chron. n, 252], assim
como assuadas apparece nnm texto de 1305 na graphia asouhadas
[ib. i pag. 303].
Aproveito o favorável ensejo para avisar os estudiosos de que
as fórmulas adverbiaes de-consu-um (cant. 398) e de-su-um (= con-
juntamente e simultaneamente), assim como assuada (Cant. 15 e 369)
(= motim) occorrem, como era de esperar, amiudadas vezes nas Can-
tigas de Alfonso x. O editor não as entendeu, porém, nem lhes ligou
importância alguma. Imprime ora dess uun (cant. 56,3; 95,9; 106,6;
277; 311; 406; 420): ora des uun (65 e 393,8) ou des uum (224,6);
ora dess huun (233), e pouquíssimas vezes : de snu (255) ou de so uun
(255). No muito defeituoso Glosario, que acompanha a riquíssima edi-
ção da Academia Hespanhola — e de que conto occupar os leitores
em outra occasifto — todas aquellas fównulas estropeadas são traduzi-
das correctamente por juntamente, en uno, mas figuram, no artiguinho
dedicado a des: desde! i. é. à formula de-ex [de!].
Carolina Michaelis de Vasconcellos.
Porto, 2 de abril de 1894.
ra
AMULETOS
Da obra Pharmacopea Tubalense Chimico-Galenica, de Manoel Ro-
drigues Coelho, Lisboa Occidental, 1735, extráio as seguintes notas
que se referem a amuletos, usados uns em Portugal, outros em diver-
sos países.
1. Amuleto de dente
tOs seus dentes (os das Carcharias, ou Cão do Mar, Tubarão, etc.)
servem de amuleto aos meninos, porq lhe excitaõ o nascimento dos
seusi (na America). — Pag. 168.
2. Amuleto de cascavel
cEste tal Cascavel (o da Cobra de Cascavel), trazido dependurado
ao pescoço junto da carne, como Amuleto, affirmaõ os naturaes daquel-
la terra (Brasil), que tem virtude de preservar de accidentes de got-
ta-coral, e de vagados». — Pag. 170.
3. Amuleto de osso
«Sem embargo porém da dita Cobra (a Cobra Zuâii ou Zuiche
ter esta maldade, comunicou-lhe Deos nos ossos do seu espinhaço,
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MISCELLANRA
367
huma grande virtude, porque secaõ, e curaõ as alporcas, com tal con-
diçaõ, que o enfermo os traga ao pescoço, junto da carne por tempo
de hum anno. Para se privarem esses ossos da sua carne, depois de
morta a Cobra, se enterra por tempo de quinze dias, dentro dos quaes
lhe apodrece a carne, e com muita facilidade se despegaõ delia, e en-
xutos se guardaõ, para se applicarem enfiados em hum cordaõ de re-
troz, dependurados ao pescoço, para a sobredita queixa, ou para quem
tiver dores de garganta» (em Angola). — Pag. 179.
4. Amuleto de «pedra» de cobra
«Serve (a «pedra de Cobra de moer, ou de Capelos)» misturada com
vinho, e agua, para as mulheres que estão em parto; também para
este effeito usaõ delia, atada na coxa da perna com hú panno, quan-
do querem parir» (nos Cafres). — Pag. 182.
5. Amuleto de cabeça de víbora
«Depois de cortada a cabeça deste animal (a Vibora), lhe tiraõ a
lingua para a trazerem ao pescoço como Amuleto, para a preserva-
ção do máo ar» (em Portugal *). — Pag. 184.
6. Amuleto de unha de «gram besta»
«Também se usa delia (a unha da gram Besta), como Amuleto,
para se preservarem do mesmo achaque (accidentes de gotta-coral,
tremores, convulsoens, afectos dos nervos, e cabeça), humas vezes em
anéis para os dedos, outras vezes pendurada ao pescoço ; e outras ve-
zes atada ao pulso» (em Portugal).— Pag. 186.
7. Amuleto de camphora
«He a Camphora hum grande remédio para rebater as payxoens
histéricas; também he bom para as febres intermitentes, trazendo-o
dependurado ao pescoço, porque a sua volatibilidade, entrando insen-
sivelmente pelos póros da Cútis, excita a rarefaçaõ, e transpiração do
humor, que causa esta enfermidade» (em Portugal). — Pag. 193.
A. Thomaz Pirrs.
* [Na minha collecçâo de amuletos portugueses ha um d'estes, que obtive na
Beira- Alta. — J. L. de V.].
368
REVISTA LD8ITANA
IV
BTYMOLOGIAS POPULARES
Numas listas de etymologias populares organizadas separadamen-
te pelos srs. A. Coelho e J. Moreira, e publicadas no l vol. d'esta Re-
vista, vem citado o nome duma rua da cidade do Porto. Segundo es-
tes auctores, o nome da Rua da Fonte Taurina foi convertido na bocca
popular em Rua da Fonte da Ourina.
Na carta de perdão passada a Tristão Roiz de Figueiredo em 12
de Maio de 1572 e registada no Liv. 18 de Legislaçfto de D. Sebas-
tião e D. Henrique, fL 110 (na Torre do Tombo), vem já menciona-
da a dita rua: — Rua da Fonte douryna.
Outras etymologias populares antigas ha que juntar ás referidas
listas, como Rua do Bemformoso (Paço do Boi Formoso) em Lisboa,
Villa de Moncorvo (Mendo Coruo, Mecoruo) e ainda frontificações em
um documento do tempo de D. João 4.°
Aux intéressantes notes publiées ici même (t. i, p. 63) par M me
C. Michaelis de Vasconcellos sur ce produit de Tindustrie portugaise,
j'ajouterai qu'il se colportait en Espagne avec les toiles de Flandre,
les hollandes de Cambrai, et que la vente de ces articles à domicile
était presque un monopole du lenceiro portugais, 1'ami des femmes,
à qui il vendait souvent à credit, et la terreur des maris ou des amants:
Fr. Luis de Leon, dans son beau livre de la Perfecta casada, com-
pare ce lenceiro au marchand cananéen de la Bible : mLienzo te jió, y
vendiólo, franjas dió al cananeo (Prov. xxxi, 24). Cananeo llama (Sa-
lomon) al raercader, y al que décimos casero, porque los de aquella
nacion ordinariamente trataban de esto, como si dijesemos agora, al
português 2 *.
Le lenceiro colporteur se recrutait-il dans certames localités plu-
i «Entremes famoso de la competência dei português y francês», dans les
Verdores dei Parnaso, 1697, pag. 97.
* Perftcia casada, § xiv.
Pedro d' Azevedo.
V
CHILO PORTUGOÉS»
Eu so, mi nina, eu so voso lenceiro,
Traigola aqui à voacé aquella peza
De Cambray. . . .
— Hombre, passito l .
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MISCELLANEA
369
tot que dans d'autres ? Je Fignore. Ce serait à rechercher. En tout
cas, je ne pense pas que Fallusion suivante de Gongora à Olivença
soit à prendre bien au sérieux :
Dofía fulana . . .
El quatrin no menos pilla
De Oliveros de Castilla
Que d un hilero de Olivença.
Tenga verguença l .
II fallait trouver une rime à verguença.
Paris.
A. Morel Fatio.
VI
SUPERSTIÇÕES POPULARES DO SÉCULO XYJH
1. Amuleto de chifre
No livro dos Idyllios de Antonio Dinis da Cruz e Silva (edição de
1811), em o ldyllio xm, em que são interlocutores Tirse e Elpino,
sendo as partes de Tirse do dr. Theotonio Gomes de Carvalho, e as
de Elpino de Antonio Diniz, vem, a fl. 181, uma estrophe, em que se
allude ao amuleto natural da ponta de chifre para preservar do mau
olhado :
«Tirse
Ontem ao collo da malhada ovelha,
Do rebanho esperança, a curva ponta
De um cervo pendurei, porq o máo olho
De invejosa pastora a não offenda.
Feliz ovelha, pasce a molle relva,
Feliz ovelha, que has de ser de Alcipe».
2. Agouro da gralha
No ldyllio iv, a fl. 61, faz-se allusâo ao agouro provocado pelo
grito da gralha:
«E mil vezes a gralha em rouco accento
Me predisse cruel a desventura,
De cuja triste agouro então zombava;
Mas conheço em meu mal q me enganava».
i Letrilla burlesca, commençant par: «Texto Je piernas de arafia».
u*v. lubit., vol. iii, fase. 4. 6
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REVISTA LUSITANA
3. 0 nardo agreste
Nos Idyllios v, a fl. 63, e xiv, a fl. 189, apresenta-se o cnardo agres-
te» como preservativo do mau olhado e da inveja:
tFogo accende, e queimando puro enxofre
O rebanho perfuma, porque fique
De maligno contagio todo isento;
E para que não possa a torpe Inveja
Cos retorcidos olhos fascinallo,
Das viçosas capellas, que tecido
Do nardo agreste tenho, diligente
Lhe cinge as duras pontas, doce Almeno».
c Ah! croai-me, pastores companheiros,
Pois estes pinhos com meu canto folgfto;
De nardo me croai, porque má lingoa
Ao poeta, que crece, não ofltenda*.
No Idyllio xx, a fl. 263, faz-se allusfto ao loureiro como symbolo
da inconstância:
«Juraste, e de repente hum pé de vento
Da raiz arrancou hum verde louro :
De meu mal foi por certo claro agouro,
E então nem tal me veio ao pensamento».
(Romance que julgo medito, — colhido da tradição oral nas Caldas da Rainha)
Indo o rei Traquilha á caça,
Anoiteceu-lhe na caçada.
Estando Grameneza (sic) à porta,
Logo ficou assustada.
Ella virou para dentro,
Boa mesa apparelhada;
Se boa era a mesa,
Muito melhor era a cama.
Accendeu-lhe doze tochas,
4. 0 loureiro
A. Thomaz Pires.
vn
O REI TRAQUILHA
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371
Pôs-lhe seis de cada banda.
Lâ pela noite velha,
Rei Traquilha alevantado.
— O que é isto, rei Traquilha,
Vossa Alteza alevantada ?
— Sim, humilda-te aqui a mim,
Senão morres degollada!
— Pois mais vale a morte com honra
Do que a vida malfadada.
Isto sirva de exemplo
A toda a mulher casada.
Z. Consioubbi Pedroso.
VIII
IE AOS GAMBOZINOS
Na Carrazeda d' Anciães havia o costume de convidar as pessoas
simplórias para irem aos gambozinos. Se alguma d'ellas accedia, le-
vavão-na uma noite sombria a um sitio escuro e medonho, e colloca-
vão-na com um sacco aberto ao pé de um buraco, como para agarrar
nelle os gambozinos, que costumavão sahir por alli; e assim deixa-
vão ficar o incauto, ás vezes, até pela manhã, indo-se embora, sob
qualquer pretexto, a/ pessoa que o lâ levou.
Outras vezes maltratavão o sujeito ou amedrontavão-no ; e elle,
ou fugia, ou, o que dizem ter acontecido, e não é incrível, ficava pros-
trado por causa dos maus tratos ou do mêdo, ou de ambas as coisas,
sendo preciso conduzirem-no a casa.
Convém notar que d'este costume se não contão casos modernos,
mas antigos, não se apontando mesmo ninguém que se tivesse sujei-
tado a semelhante caçada.
A. de Sequeira Ferraz.
IX
AMO
A palavra amo significa hoje — o marido da mulher que dá leite
a algum filho d'outra pessoa; mas nos tempos antigos significava —
aio. Neste sentido usou d'ella Camões nos seus Lusíadas, m, 35, quan-
do, fallando d'Egas Moniz, diz o seguinte:
Mas com se offerecer à dura morte
O fiel Egas, amo, foi livrado.
372
KK VISTA LUSITANA
No mesmo sentido de aio he tomada nas Ordenações do liv. i, tit.
xv, § 17; liv. n, tit. xlv, § 37; tit. xlix, § 4; tit lix, § 6 e 15; liv.
m, tit. 28. pr.; liv. v, tit. xc, § 1, e tit. cxxxix, aliás cxxxvm, pr.
A mesma palavra significa também — o conductor das obras de
alguma pessoa; o que se vê na mesma ordenação.
Exposição da pronúncia normal portuguesa para uso de nacionaes e es-
trangeiros : memoria destinada á x sessão do Congresso Internacional dos Orien-
talista* , por A. R. Gonçalves Vianna. Lisboa 1892, 106 pag.
Em 1882 publicou o Sr. Gonçalves Vianna n-0 Positivismo, vol. ív, n.° 1 e
2, uns artigos a propósito de um trabalho do Dr. Hugo Schuchardt, com os quaes
como que inaugurava em Portugal o estudo scientifíco da phonetica physiologiea
portuguesa. Esses artigos nâo são um trabalho geral de phonetica : esta sciencia
vem ahi por incidente: mas archivâo-se lá vários factos interessantes da nossa
pronúncia, e applica-se um methodo que até então se não havia ainda entre nós
applicado com rigor.
O trabalho capital do Sr. Gonçalves Vianna foi publicado em francês, no
anno seguinte, no vol. xn da revista parisiense Bomania, e d'elle se fez separata
em volume com o titulo de Essai de phonétique et de phonologie de la langue portu-
gaise d'aprhs le dialecte actuei le Lisbonne, Paris 1883, 70 pag. Classificâo-se nessa
obra os sons da nossa língua, indicando-se muitos d'elles pela primeira vez; des-
crevem -se physiologicamente, e comparão-se com outros de línguas vivas; além
d'isso estudâo-se as influencias dos sons contíguos, uns nos outros, e fazem-se di-
versas observações á cerca da accentuaçao.
Este trabalho tornou rapidamente conhecido lá fora o Sr. Gonçalves Vian-
na, que mostrava não só particular aptidão para os estudos phonologicos, e segu-
rança na applicação dos methodos scientifícos, mas também largo conhecimento de
línguas. Com effeito o Sr. Gonçalves Vianna é ao mesmo tempo glottologo e poly-
glotta: conhece mais de quinze línguas, entre vivas e mortas, f aliando algumas
com tanta perfeição, que, uma vez, que foi a um congresso estrangeiro, onde se
encontrou com muitos glottologos e homens de lettras, passou por ter differentes
nacionalidades, suppondo-o hespanhol os hespanhoes, italiano os italianos, francês
os franceses, etc. Todos os glottologos que se oceupão especialmente de phonolo-
1 [Das Memorias colliyidas e relatadas, por Joaquim José Ferreira Gordo, pre-
lado da Santa Igreja de Lisboa, tomo i, n.° 4. Ms. da Bibliotheca da Academia
das Sciencias de Lisboa, Gab. 3, E Este auctor nasceu em 1758, e falleceu em
1838. — J. L. de V.].
J. J. Ferreira Gordo l .
LIVROS
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BJBLIOGRAPHIÀ
373
gia o citáo e o aprecião, o que se pode vêr nos escritos de Storni, Schuchardt, Cor-
nu, Príncipe Bonaparte, Passy, etc.
Por occasiâo de se organizarem trabalhos para um congresso de Orientalistas
que devia realizar-se em Lisboa, mas que não chegou a realizar-se, refundiu o Sr.
Goncalves Vianna o referido Essai de phonétique, e publicou-o, ampliado, com o
titulo de Exposição da pronúncia normal portuguesa. £ f d'este opúsculo que vou
dizer em especial algumas palavras.
Di vide -se em duas partes: I) Preliminares; e II) Pronúncia normal portu-
guesa.
A 1.* Parte é por assim dizer um pequeno tratado de phonetica geral. O au-
ctor começa por dar indicações bibliographicas, apresentar algumas considera-
ções sobre o mecanismo da voz, e classificar os sons ; depois trata das vogaes e
estuda os accidentes intrínsecos e extrínsecos d'estas e das consoantes, e as permu-
tações: considera em seguida a syllaba, o vocábulo e a pausa; por fim passa á
transcripção phonetica das consoantes e exemplificação destas.
Em toda a l. a Parte ha grande abundância de factos, e o Sr. Gonçalves
Vianna manifesta, como sempre, muita delicadeza de nnályse acústica.
Com relação ao methodo seguido, direi que me parecia melhor ter tratado
primeiro das vogaes e das consoantes juntamente, do que assim em separado, pois
classifica e descreve as consoantes, depois de ter tratado dos accidentes doestas; o
inverso seria mais natural. Num ou noutro ponto secundário da sua exposição, eu
poderia também dissentir, ou fazer alguma observação, mas não me alargo mais
nisto, para que não pareça que com críticas de miudezas desejo encobrir o valor
geral e real do opúsculo.
A 2.* Parte, intitulada Pronúncia normal portuguesa, havia já sido publicada
como introducção da edição annotada do canto 1.° d- O* Lusíadas, feita em 1892
pelo Sr. Salles Lencastre.
O auctor oceupa-se successi vãmente dos seguintes assumptos: sons e sua
escrita, consoantes, vogaes, observações sobre as vogaes, influencia das vogaes
protonicas nas accentuadas, conjugações e flexões dos verbos (em relação á pro-
núncia das vogaes), reeapitulação da indicação do valor de cada lettra (com exem-
plos numerosos), quantidade prosódica, accentuação (pronunciada e graphica).
O trabalho termina com algumas considerações á cerca da pronúncia portu-
guesa no sec. xri, segundo o entender particular do auctor, e com duas transcrí-
pções phoneticas da proposição dos Lusíadas (uma, segundo a pronúncia actual,
outra, segundo a pronúncia presumivel no sec. xvi, epocha em que o poema foi
escrito).
A 2. a Parte do trabalho do Sr. Vianna 6 particularmente importante para
os estrangeiros que tiverem de aprender a nossa lingua, e para os professores
d'ella.
Vê-se que o novo trabalho do illustre glottologo e primeiro phoneticista por-
tuguês constitue uma beila contribuição para o conhecimento e estudo da nossa
lingua. Pena é que seu auctor, possuindo, como possue, tantos conhecimentos lin-
guisticos, e estando senhor, como está, do methodo scientifico, — pois em todos os
estudos scientificos o bom methodo é condição indispensável — , não queira entrar
mais vezes nas lides da imprensa, proseguindo com assiduidade no desbravamento
do vasto campo da glottologia portuguesa.
Em verdade os escritos do Sr. Gonçalves Vianna não se limitão aos indi-
cados : elle tem publicado apreciações críticas, notas sobre dialectos, e ainda ou-
tros estudos; mas tudo isso é pouco, e eu, que conheço de perto as raras quali-
dades e merecimentos do auctor, julgo-me auctorizado (pensando de mais a mais
no diminuto número dos que em Portugal sabem trabalhar bem) a manifestar
aqui o meu desejo de que o Sr. Gonçalves Vianna publique mais do que publi-
ca, já que a falta do seu aturado concurso se torna muito sensivel no nosso meio
scientifico.
J. L. dk V.
374
REVISTA LUSITANA
n
PERIÓDICOS
Revista de educação e ensino, N.° 4 (Abril de 1894) e n.° 5 (Abril
do mesmo anno). — No n.° 4 publica o Sr. Bernardo Fernandes Monteiro a traduc-
çâo do Evangelho de S. Lucas em mirandês, e no n.» 5 a traducçào da primeira
epistola de S. Paulo aos Corinthios. Estes textos fôrâo revistos peio Sr. Gonçalves
Vianna, que precedeu de algumas considerações pbilologicas o primeiro d T elles. O
Sr. Fernandes Monteiro é natural da Póvoa, concelho de Miranda do Douro, e co-
nhece por isso muito bem o seu dialecto natal. E' sempre muito diflicil escrever
uma lingua pela primeira vez; nâo admira, pois, que, apesar do conhecimento ínti-
mo que o Sr. Monteiro tem do mirandês, haja alguma discrepância entre a phone-
tica viva e a orthographia : é assim que, por exemplo, o Sr. Monteiro escreve los
por Vs, >õ em vez de -ou, etc. — Nào posso senão louvar, tanto o Sr. Fernandes
Monteiro como o Sr. Gonçalves Vianna, pela feliz lembrança que ti verão de publi-
car estas traducções; a língua mirandesa é ainda pouco conhecida, e convém pu-
blicar textos em que ella se revele. — O mirandês offerece variedades. Os textos
Ímblicados pelo Sr. Monteiro sâo na lingua da Póvoa, que se liga com a de Ma-
nadas e Duas-Igrejas ; esta última é a que tem servido de base para os estu-
dos que até hoje tenho dado a lume á cêrea do idioma da Terra de Miranda.
Obras publicadas ultimamente :
— Obras de Christovão Falcão, edição critica, annotada por A.
Epiphanio da Silva Dias. Porto 1893. — Disse d'esta obra algumas palavras in
Revista Nova, Lisboa 1894, n. e 3, pag. 35. — Cfr. supra, pag. 347; e infra, pag. 375.
— UTote ethnographique sur les chiffres uses dans leu
pressoirs d'olives dans 1'arrondissement d'Alcobaça, por M.
Vieira Natividade, Alcobaça 1891. — O A. suppoe que esses signaes talvez repre-
sentem costumes de alguma civilização esquecida. — O uso da cruz pode porém fa-
zer inferir que nâo sejão muito antigos, e talvez sejào devidos aos frades bernar-
dos que alli tinhão o seu principal mosteiro; todavia, antes de qualquer juizo, é
necessário vêr se o mesmo uso existe noutros pontos do pais, e fora.
— ©eschlehte der Portugiesischen Lltteratur (Historia da
Litteratura Portuguesa), por D. Carolina Michaglis de Vasconcellos & Theophilo
Braga, Estrasburgo 1894 (faz Darte do Grundriss der Roman. Philologie, publi-
cado por G. Grober). — Valiosíssimo trabalho.
— Zara, por Anthero de Quental, Lisboa 1894,— edição polyglottica. — Com-
prehende uma poesia de Anthero de Quental com as traducções em muitas linguas
e dialectos. Entre as traducçors vem uma em mirandês, feita pelo Sr. Padre Ma-
noel Sardinha, natural de S. Martinho d'Angueira; temos pois aqui, além dos que
citei acima, nesta mesma pagina, maiB um documento da litteratura mirandesa: e
é por isso que faço neste logar menção do livro.
— As «Lições de linguagem > do Sr* Candido de Figueire-
do» por J. Leite de Vasconcellos, 2* ed. augmentada, Porto 1893.
— O gralho depennado (réplica ás «caturrices pbilologicas» do Sr.
Candido de Figueiredo), pelo mesmo, 3.» ed. muito augmentada, Porto 1894.
— He «Margariti» villa in território Viinaranensi com-
mentariolum, pelo mesmo. Oiisipone 1893.
— Q,uid apud LusHanos verbum «aedeoii» significaverit,
pelo mesmo, Oiisipone 1893.
J. L. de V.
m
VARIA QUAEDAM
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B1BLI0GRAPHIA
375
— Chartam alteram de villa quae «Hlargaride» appella-
tur 9 pelo mesmo, Olisipone 1894.
— Notas ao Cancioneiro de el-rei li. Dinis e STovas notas,
pelo mesmo, Barcellos 1894 (2 opúsculos).
— Grammatica portuguesa elementar, por Epipbanio Dias, Lis-
boa 1894. — A' cêrca d'esta grammatica vid. o que escrevi no meu opúsculo As «Li-
ções de linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo, 2.» ed., pag. 14 seg.
Vários trabalhos destinados ao Congresso de Orientalistas, que esteve para
se realizar em Lisboa:
— Os Ciganos de Portugal — com um estudo sobre o calão, por F.
Adolpho Coelho, Lisboa 1892, 303 pag. O A. havia-se já oceupado d'este assum-
pto na Revista Lusitana: foi até com um artigo do Sr. Adolpho Coelho, com
aquellc mesmo titulo, que a Revista Lusitana abriu o 1.° fasciculo do seu 1.» vo-
lume. O novo livro vem completar esse artigo. — Trabalho de muita erudição e
importância, e que contribue excellentemeute para preencher uma lacuna na nossa
litteratura.
-Dcux faits de phonologic historique portugaisc 9 Sim-
plifieation possible de la eomposition en caracteres árabes
(2 opúsculos), por Gonçalves Vianna, Lisboa 1892. No primeiro trata- se dos sons
attribuidos no sec. xn, no Sul de Portugal, ás lettras s e ç, e trata-se também da
representação das gutturaes árabes pelo som / nas linguas da Península Hispâni-
ca. O assumpto do segundo, o titulo o diz. — D'outro trabalho do mesmo A. fallo
acima, pag. 372.
— I*a eonnaissance de la Pén insule espagnole (sic) par les
hoinmes du Nord, por A. K. Fabricius, Lisboa 1892. Refere -se aos Nor-
mandos.
— La premiére invasion des STorinands dans 1'JEspagne
musulmane en 844, pelo mesmo, Lisboa 1892.
— I/affinité étymologique des langues égyptienne et in-
do~européennes 9 por Charles Abel, Lisboa 1892.
— Passos dos Lusíadas estudados á luz da mitologia e
do orlentallsmo, por Vasconcellos Abreu, Lisboa 1892. Reedição do inte-
ressante opúsculo publicado anteriormente com o titulo de Fragmentos oVuma tenta-
tiva de estudo scoliastico da Epopeia Portuguesa.
— Inês de Castro, épisode des l«usiades 9 traduction en vers hé-
breux, — par J. Bénoliel, Lisboa 1892.
— Inscripções portuguesas que se encontram nas igrejas
de £• Francisco de Cochiin, Lisboa 1892.
— Sur les Religions de la I*usitanie 9 Sur les amulettes
portugaises» Sur le dialecte portugais de Maca© (3 opúsculos),
por J. L. de V., Lisboa 1892.
Portugal mo estrangeiro:
— No liiteraturblatt fttr german. und roman. Philologie 9
n.° 8, 1894, publicou a Sr. a D. Carolina Michaèlis de Vasconcellos um extenso e
erudito artigo á cêrea da magnifica edição critica das Obras de Christovâo Fal-
cão feita pelo Sr. Eniphanio Dias. Cfr. supra, a pag. 362 e 374.
— La tradition dEginhard et Km ma dans la poésie ro«
mancesca de la Péninsule Hispanique 9 — essai folklorique par Haus
Otto (extr. dos Modem language notes, Baltimore 1892). — Estudo metnodico e con-
sciencioso do romance popular de Gerinaldo, que se baseia numa lenda do cyclo
de Carlos Magno. A's versões portuguesas, indicadas pelo Sr. Otto, posso addicio-
nar mais duas, publicadas nos meus Romances populares portugueses, Barcellos
1881, n. 0 * xxm e xxiv. Também ouvi em Tras-os- Montes uma versão em hespanhol.
— Na sessão de 15 de Março de 1894, no Columbia College de Nova-York,
para commemorar o 1.° centenário de F. Diez, fundador da Philologia Românica,
o sr. prof. H. Lang, nosso illustre collaborador, leu um artigo intitulado Diez and
376
REVISTA LUSITANA
the study of Mediceval Portuguese Poetry.—Vià. The New- York Times de 16 de
Março de 1894.
Dl8TINCÇÃO MERECIDA :
A antiga Universidade de Friburgo, no Gran-Ducado de Baden, fundada no
sec. xv pelo archiduaue Alberto vi de Áustria, concedeu á Sr. â D. Carolina Mi-
chaèlis de Vasconcelíos o titulo de doutora.
O diploma diz isto:
«Quod felix faustumque sit. Sub auspiciis summi principis Friderici magni
ducis Badarum, ducis Zarinçiae, rectoris Academiae magnificentissimi, prorectore
magnifico Ottone Hense, pmlosophiae doctore, litterarum antiquarum professore
publico ordinário, ex auctoritate senatus academici, ex decreto ordinis philosopho-
rum in Litterarum Universitate Alberto-Ludoviciana, promotor leçitime constitu-
tus Aemilius Warburg, philosophiae doctor, physices professor pubhcus ordinaríus,
dominae spectatisaimae Carolinae Wilbelmae Micbaelis de Vasconcelíos, mulieri
rara doetnna praecellenti, quae de linguis litterisque et Lusitanorum et Hispano-
rum investigandis egregie est inerita, atque philologiam romanicam quae dicitur
libris commentationibusque doctissirais ornavit auxit amplificavit, bonoris causa,
doctoris pbilosopbiae gradum jura privilegia rite contulit. Id quod publico hoc di-
píomate declaratur Friburgi Brisigavorum die xx mensis Julii anni mdcccxciii. Dr.
Otto Hense, H. T. Prorector. (L. S.) Dr. Aemilius Warburg, Ordinis Philos. H. T.
Decanus».
E' a Sr.» D. Carolina Michaêlis a terceira senhora a quem esta grande dis-
tincçào se concede, seudo as outras Clara Schumann, feita doutora em Leipzig,
e F. Mestorf, directora do Museu de Antiguidades, em Kiel.
Dando ésta, embora tardia, noticia, a Revista Lusitana cumpre gostosamen-
te um dever, e pratica um acto de cortesia, porque a Sr. a D. Carolina Michaélis,
pelos riquissimos livros e artigos de que é auctora, oceupa um logar de honra na
historia da philologia românica, e sobretudo da philologia portuguesa, e como col-
laboradora da mesma Revista tem -lhe prestado extraordinário auxilio, abrilhan-
tando constantemente as suas páginas.
J. L. de V.
ERR ATUM
A pag. 245 transcrevi o fragmento de uma carta de um viajante inglês, na
qual elle diz que vira começar a ser destruída a fachada da igreja conventual
de Beja.
Tanto por informações particulares que recebi, como pelo que, em rectifica-
ção do trecho do meu artigo, se lê n-0 Bejense de 10 de Novembro de 1894, estou
auctorizado a negar a afíirinativa do tal viajante.
Para melhor elucidação, copio aqui as palavras d- O Bpjense: «O viajante
inglês viu por terra parto do entablamento e da parede exterior da igreja da Con-
ceição e entendeu que se tratava de destruir. Pois era o contrário. Apeou- se o
rendado e demoliu- se a parede para se reconstruir, para se salvar da total ruina,
a obra do rei Venturoso, como effeetivamente se salvou. A fachada da igreja, a
coisa mais beUa na cidade de Pax Julia, está reconstrui da, e, contra os costumes
da terra, reconstruída rigorosamente. Nem o mais pequeno detalhe soffreu alte-
ração».
Sinto ter dado crédito á carta do viajante inglês, e apresso-me a corrigir o
meu êrro. Aos louvores que na citada página eu havia tecido ao povo de Beja,
pelos desvélos que prodigaliza ao seu já hoje tão importante Museu Archeologico
Municipal, tenho pois agora de acerescentar mais, pêlos novos serviços prestados
á archeologia. Embora as minhas palavras não sejão auctorizadas, são porém sin-
ceras.
J. L. de V.
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DECLARAÇÃO
Declaro que a redacção e administração da Revista Lusitana são,
e tem sido sempre, gerências absolutamente distánctas entre si, nfto
intervindo nunca uma na outra.
A meu cargo está apenas a direcção litteraria: escolha e natu-
reza dos artigos, publicação d'estes, etc. Nfto me cabe pois a minima
responsabilidade no que se refere à cobrança do preço das assignatu-
ras, á maneira da distribuição dos fascículos, etc., — o que tudo está
a cargo dos editores.
Outrosim declaro que, em virtude de contracto prévio que cele-
brei com estes, não tenho participação alguma nem nas despesas com
a publicação da Revista, nem nos lucros (se os houvesse!). O meu
trabalho, como o de todos os collaboradores, é completamente gra-
tuito; apenas eu recebo alguns poucos exemplares da Revista, para
trocas. Quando mesmo de alguns dos artigos nella publicados se fa-
zem edições em separado, o gasto com isso é pago á custa dos aucto-
res dos artigos, quer estes sejão dos collaboradores, quer meus.
Lisboa, Dezembro de 1895.
J. Leite os Vasconcellos.
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ÍNDICE
Artigos desenvolvidos:
Contos populares portugueses — por D. Cecília Schmidt Branco ... 1
Curso de língua portuguesa arckaica — por J. Leite de Vasconcellos , 19
Ciganos portugueses do sec. XVI — por Pedro d' Azevedo . . 51, 121 e 315
Dialectos trasmontanos — por J. Leite de Vasconcellos 57
Algumas tradições populares — por A. Alfredo Alyes 74
Visão de Tundalo (texto) — por F. M. Esteves Pereira 97
Fragmentos elymologicos — por D. Carolina Miohaelis de Vasconcellos . 129
Museu Ethnographico Português — por J. Leite de Vasconcellos . . . 193
Phonetica histórica portuguesa — por J. Joaquim Nunes 251
0 deus bracarense « Pongoenabiagus » — por J. Leite de Vasconcellos . 307
Linguagem popular de Valpaços — por Joaquim de Castro Lopo • . . 325
Benzedores e feiticeiros do tempo de el-rci D. Manuel — por P. d' Azevedo 329
Miscellanea :
Notas açorianas (H. R. Lang) 80
Cerâmica popular portuguesa (Dr. Ferraz de Macedo) 82
CoUocação do adjectivo em português (D. Carolina Michaèlis de Vascon-
cellos) 84
Tradições populares (Pedro d* Azevedo) 87
Uma passagem escura do Chrisfal (D. Carolina Michaelis de Vasconcellos) 347
Lettera aperta (Stanislao Prato) 362
Amuletos (A. Thomaz Pires) 366
Etymologias populares (Pedro d' Azevedo) 368
Hilo português (A. Morel Fatio) 368
Superstições populares do século XVIII (A. Thomaz Pires) .... 369
O rei Traquilha (Z. Consiglieri Pedroso) 370
Ir aos qambozinos (A. de Sequeira Ferraz) 371
Amo (J. J. Ferreira Gordo) 371
Bibliographia:
I. Livros :
Lautlehre zweier altportugiesischen Heiligenleben, von C. Radermacher
(Gonçalves Vianna) 91
Cancioneiro de musicas populares, de C. das Neves & Gualdino de
Campos (J. L. de V.) 190
Exposição da pronuncia normal portuguesa, de Gonçalves Vianna (J.
L. de V.) 372
II. Periódicos:
Revista de sciencias naturaes e sociaes (J. L. de V.) 94
Revista de educação e ensino ( J. L. de V.) . 374
III. Varia quaedam :
Astronomia popular, de Soeiro de Brito 95
Cancioneiro popular politico e calendarío rural, de A. P. Pires . . 96
Noções de grammatica portuguesa, de F. Adolpbo Coelho .... 96
Camões e o sentimento nacional, As lendas christãs, As modernas ideias
da litteratura portuguesa, de Theophilo Braga 96
Obras de Christovão Falcão, de Epiphanio Dias 374
Note ethnographique sur les chiffres usés dans les pressoirs d*olives, dans
Varrondusement d 1 Alcobaça, de Vieira Natividade 374
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380
ÍNDICE
Geschichte der Portugiesischen Litteratur, de D. Carolina MichaSlis &
Theophilo Braga
Zara, de Anthero de Quental
As •Lições de lingtmgem» do Snr. Candido de Figueiredo (3. a ed.), O gra-
lho depennado (3. a ed.), De Margariti villa, Quid apud Lusitanos ver-
bum *aedeoli», Chartam alteram de villa quae Margaride appellatur,
Notas ao Cancioneiro de D. Dinis e Novas Notas, de J. L. de V.
Grammatico portuguesa elementar, de Epiphanio Dias
Deux faits de phonologie, Simphfication possible de la composition en
caracteres árabes, de Gonçalves Vianna
La connaissance de la Péninsule par les hommes du Nord e La premikre
invasion des Normands, de FaBricius
Ijaffinité êtymologique des langues égyptienne et indo- européennes, de
Charles Abel
Passos dos Lusíadas estudados á luz da mitologia e do oricntalismo, de
VasconcelloB Abreu
Inês de Castro, épisode des Lusiades, de J. Bónoliel
Inscripções portuguesas que se encontram nas igrejas de S. Francisco de
Cochim
Sur les Religions de la Lusitanie, Sur les amulcUee portugaises, Sur le
dialecte portugais de Mamo, de J. L. de V
Portugal no estrangeiro :
Artigo de Epiphanio Dias in Berlin. Philolog. Wochenschr
Artigo sobre a nossa litteratura in Academy . '
O português e o francês
Trabalho de Storck
Trabalho de Hiibner
Artigo a respeito de um trabalho de Esteves Pereira
Artigo á cêrca da edição de Falcão feita por Epiphanio Dias ....
La tradition d 1 Eginhard
Conferencia de Lang sobre a poesia portuguesa da idade-media . . .
Diploma de doutora concedido á Sr.* D. Carolina Michaèlis de Vasconcel-
los pela Universidade de Fribwrgo
Erratum
Declaração
374
374
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376
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3." ANNO
NÚMEROS 3-4
1894-1895
Revista Lusitan,
Arohivo de estudos philologloos e etimológicos
relativos a Portugal
DIRIGIDO
POR
J» Leite de Vasconcellos
8UMMARIO
Museu Ethnographico Português— por
J. Leite de Vasconcellos.
Phonetica histórica portuguesa— por J.
. Joaquim Nunes.
0 deus bracarense «Pongoenabiagus»
— por J. Leite de Vasconcello».
Ciganos portugueses 4o sec. XVI (con-
clusão) — por P. cTAzevedo.
Linguagem popular de Valpaços — por
Joaquim de Castro Lopo.
Benzedores e feiticeiros do tempo de
el-rei D. Manuel— por P. d' Azevedo.
Miscellanea:
i Utnd passagem escura do Chrisfál —
por D. Carolina MichaSlis de Vas-
concellos; n Lettera aperta — por
Stanislao Prato; m Amuletos — por
A. T*. Pires ; iv Etyrnologias popu-
lares — por Pedro d' Azevedo ; v
Hilo português — por A. Morel Fa-
tio; vi Superstições populares do
sèc. xvm — por A. Thomaz Pires;
vii O rei Traquilha — por Z. Consi-
glieri Pedroso; viu Ir aos gambozi-
nos — por A. de Sequeira Ferraz;
íx Amo — por J. J. Ferreira Gordo.
BIbliographia:
i Livros:
Exposição da pronúncia normal
portuguesa, de Gonçalves Vian-
na — por J. Leite de Vaecoricel-
l08.
ii Periódicos:-
Revista de educação e ensino — por
J. Leite de Vasconcellos.
in Vabia quakdam:
Obras de Ckristovão Falcão — de
Epiphanio Dias; Note ethnogra-
phique — de Vieira Natividade ;
Geschichte der Portug. Litteratur
— de D. Carolina Michaêlis e
Theophilo Braga ; Zara — de A.
de Quental ; As « Lições de lingua-
gem», — O gralho depennado, —De
v Margariti» villa f — Qttid apud
Lusitanos verbum «aedeoli»,
Chartam alteram, — Notas e No-
vas notas ao Cancioneiro de D.
Dinia, — de J. Leite de Vascon-
cellos (7 opúsculos); Grammati-
co portuguesa, — de Epiphanio
Dias; Publicação do Congresso
dos Orientalistas ; Portugal no es-
trangeiro; Distincção merecida,
— por J. Leite de Vasconcellos.
Erratum.
Declaração.
PORTO
LIVRARIA PORTUENSE
DE
LOPES & C. a
SoccesHoroa de Ciarei k €. a
1895
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Algumas obras de J. LEITE DE VASOONCELLOS
Tradições populares de Portugal, xv — 320 pag., Porto, 1882 . . . 500 rs.
Annuario para o estado das tradições populares portuguesas (collabo
rado por todos os especialistas de Portugal), ív — 97 pag , Porto, 1882 100 rs.
0 dialecto mirandês (premiado em concurso pela Sociedade das lingvaa
românicas de França). 40 pag., Porto, 1882 ........ 300 rs.
Flores mirandesas {texto em mirandês, com notas philologicas e vocabu-
lário), 40 pag., Porto, 1884 . . 100 rs.
Estudo ethnographico (acerca da ornamentação dos jugos e cangas dos
bois no Entre-Douro-e Minho, — com estampas), 48 pag , Porto, 1881 200 rs.
Portugal prehistorico (vol. da Bibliotheca do povo e das escholasj, Lis-
boa, 1885 50 rs.
Romanceiro português (vol. da mesma Bibliotheca), Lisboa, 1886 . . 50 rs.
Bailadas do Occidente. Este vol. de versos divide- se em tres livros :
i Lyrismo, n Epopeia, iii Drama, 342 pag , Porto, 1885 ... . 500 rs.
Diccionario da choro graphia de Portugal, Porto, 1884 500 rs.
A philologia portuguesa, 57 pag., Lisboa, 1888 200 rs.
0 texto dos Lusíadas segundo as ideias do Sr. Gomes da Amorim,
70 pag., Lisboa, 1890 250 rs.
Poesia amorosa do povo português, 144 pag., Lisboa, 1890 .... 400 rs.
As «Lições de linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo, 2.* ed.,
Porto, 1893 250 rs.
0 gralho depennado (réplica às caturrices philologicas do Sr. Candido
de Figueiredo), 52 pag., 2.* ed., Lisboa, 1891 ....... 150 rs.
Sur les amulettes portugaises, 12 pag., Lisbonne, 1892 150 rs.
Sur les religions de la Lusitanie, 9 pag., Lisbonne, 1892 .... 150 rs.
Sur le dialecte portugais de Macao, 9 pag., Lisbonne, 1892 .... 150 rs.
A tenda na LIVRARIA PORTUENSE, Roa do Almada, 419 a 123 — PORTO;
on na ANTIGA CASA BERTRNAD, Roa do Chiada, 75 — LISBOA.
NO PRELO '.
Religiões da Lusitânia (na parte que principalmente se refere a Portugal e ainda
á Galliza), 3 volumes, com estampas.
0 gralho depennado (3. a edição).
REVISTA LUSITA3STA
A Revista Lusitana, o único periódico que no seu género existe em Portu-
gal, publica- se em fasciculos, do volume d'este, pouco mais ou menos. Sahem qua-
tro por anno.
i Portugal e Hispanha . 2&000 rs.
Preço da assignalora annoai (franco de porte). ; No resto da Europa . 12 francos
f Brasil 6£000 rs. fortes
i Portugal e Hispanha . 600 rs.
Preço de cada fascículo avulso . . . . No resto da Europa . 3 francos
| Brasil 1 £800 rs. fortes
Toda a correspondência litteraria deve ser dirigida ao director J, I*eite
de Tasconcellos, — Bibliotheca Nacional — Lisboa.
Toda a correspondência relativa a assumptos económicos deve ser dirigida
aos editores Lopes & C.S — Rua do Almada n.° 119 a 123 — Porto.
Recebem- se propostas para o estabelecimento d 'agencias d'esta publicação
em todo o país e no estrangeiro.
ADOLF WKIQ-KIi — tem livros antigos e modernos: Wintergartens-
trasse, 4. — Leipzig.
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